Resumo:
Neste artigo, examina-se a relação entre dialogalidade e dialogicidade na interação em perfis institucionais de empresas de streaming no Instagram. Teoricamente, articula-se uma abordagem linguística do fenômeno enunciativo e uma abordagem discursiva da interação sociocultural. Metodologicamente, são focados perfis de cinco empresas de streaming no Instagram. O estudo confirma a hipótese de que os textos nos perfis institucionais em redes sociais digitais respondem a coerções do discurso ultraliberal na tecedura do capitalismo de vigilância e promovem condições dessubjetivantes. Assim, parece haver uma diminuição do potencial dialógico dos enunciados que circulam no aplicativo independente do grau de conformação dialogal.
Palavras-chave:
pessoa enunciativa; sujeito do discurso; Análise Dialógica do Discurso
Abstract:
In this paper, we examine the relationship between dialogality and dialogicity in interaction on Instagram’s institutional profiles of streaming companies. Theoretically, a linguistic approach to the enunciative phenomenon and a discursive approach to sociocultural interaction are articulated. Methodologically, five profiles of streaming companies on Instagram are focused. This study confirms the hypothesis that the texts on institutional profiles in digital social networks respond to the coercion of the ultraliberal discourse in the realization of surveillance capitalism and promote non-subjective conditions. Thus, there seems to be a tendency to decrease the dialogic potential of utterances that circulate in the application, regardless of the degree of dialogical conformation.
Keywords:
enunciative person; subject of discourse; Dialogic Discourse Analysis
1 A pessoalidade em perfis institucionais nas redes sociais digitais: a emergência de um fenômeno
As redes sociais digitais avançam como espaço para variadas interações contemporâneas e rearranjam modos de dizer com impactos conversacionais, pragmáticos (Recuero, 2014) e enunciativo-discursivos (Silva, 2021; Teixeira, 2022; Magalhães, 2022). Em que pese a heterogeneidade conceitual (Vermelho; Velho; Bertoncello, 2015), neste artigo, redes sociais digitais são entendidas como relações entre pessoas e/ou grupos sociais, artefatos, dispositivos e entidades material e tecnologicamente viabilizadas pelo sistema selfcasting da web 2.0 (Santaella; Lemos, 2010; Vermelho et al., 2014). Desse modo, as redes sociais digitais propiciam enunciações cujas fronteiras entre o pessoal e o institucional se tornam, por vezes, difusas. A inteligência artificial tem potencializado essa fluidez, haja vista a profusão de avatares, como a Magalu, da Magazine Luiza digital; a Bia, do Bradesco; a Siri, da Apple, entre outras.
Para além dos avatares, os perfis institucionais nas redes sociais digitais promovem padrões interacionais que desafiam a questão da pessoalidade na linguagem especialmente quando uma instituição se enuncia ela mesma como pessoa, e não por meio de uma pessoa que lhe represente. Se a categoria linguística de pessoa é importante recurso enunciativo de instalação dos sujeitos na linguagem, pergunta-se: qual o estatuto discursivo desse eu enunciado por uma instituição? A resposta a essa pergunta passa pela compreensão de que a cultura mundializada contemporânea vive um momento particular do capitalismo marcado por uma forma de totalitarismo não autoritário (Amorim, 2012) que se manifesta sub-repticiamente nas mais variadas interações socioculturais.
Em chave lyotardiana, Dufour (2005, 2008) assinala que o fim da contrapartida ao capitalismo em escala mundial cria as condições históricas para o que chama de ultraliberalismo. Segundo o filósofo francês, a supressão das metanarrativas (Lyotard, 2020) em favor da lei única de livre circulação de mercadorias tem como importante impacto a dessimbolização, que acarreta a reificação (Dufour, 2005). As sociedades reguladas por essa lei única mitigam a habilidade simbolizante humana e fomentam a coisificação própria do capitalismo, que coopta tudo em termos mercadológicos. O ultraliberalismo, desse ponto de vista, se instala como discurso de liberação simbólica para circulação irrestrita de itens comercializáveis, o que não pressupõe sujeitos historicamente construídos; apenas engrenagens que façam o mercado funcionar. Nessa esteira, Amorim (2015) pondera que, ao se instalar como lógica cultural única, o mercado permeia as diversas esferas da comunicação discursiva diminuindo o potencial dialógico nas interações socioculturais.
No âmbito das redes sociais digitais, o discurso ultraliberal parece propiciar o que Zuboff (2020) chama de capitalismo de vigilância, condição em que “falar” constitui vetor de mercado, já que os dados a circular em rede são precificados. Assim, cidadãos - condição subjetivante - são reconfigurados como usuários - condição reificante - e estimulados a “falar”, mas não qualquer coisa nem de qualquer modo. Deve-se falar dentro dos parâmetros viabilizados pelos aplicativos (Kogawa; Magalhães, [ca. 2025]). A interação - novamente, condição subjetivante - dá lugar ao engajamento - condição reificante - de maneira que essa verborragia produz dados, mas não necessariamente instala sujeitos.
A hipótese perseguida aqui é a de que as nuanças na conformação dialogal dos perfis institucionais da Globoplay, Hbobr, Netflixbrasil, Primevideobr e Telecine no Instagram em alguma medida atendem a coerções do discurso ultraliberal na tecedura do capitalismo de vigilância e, assim, alteram o estatuto dialógico dos enunciados. Daí, propõem-se dois objetivos interdependentes: (i) descrever os mecanismos de linguagem que estabelecem a conformação dialogal e os que estabelecem a conformação dialógica de textos verbais emergentes em perfis institucionais em redes sociais digitais; (ii) identificar como se dá a correlação entre tais conformações na atualização da cadeia discursiva.
2 Sobre as pessoas enunciativas e os sujeitos do discurso: balizas teóricas
Nas redes sociais digitais, os aplicativos determinam modos específicos de participação. A despeito da variedade de aplicativos, tornaram-se comuns o “curtir”, ou “like” ou, ainda, “joinha”, como dizem alguns, e sua contrapartida “não curtir”, “dislike” e afins. Aliam-se a estes os recursos de “salvar”, “compartilhar”, que nada mais é do que a reorientação do link para outrem, e “comentar”. Recursos assim parametrizam os processos interacionais de maneira a, por um lado, formatar dados (Zuboff, 2020), e por outro, construir condições interacionais específicas (Recuero, 2014; Silva, 2021; Kogawa; Magalhães, [ca. 2025]). Na dimensão de “dados”, cada gesto é contabilizado para desenho de sucesso comercial. A contagem de compartilhamentos ou de “curtidas”, por exemplo, possibilita a cotação de valor de mercado do elemento distribuído ou curtido; o gesto de compartilhar ou de curtir constrói um perfil de consumo. Na dimensão interacional, os recursos regram modos de participação conversacional (Recuero, 2014) e mitigam o debate efetivo de ideias em favor da concordância total ou refuta sem nuanças dialógicas (Silva, 2021).
As coerções digitais configuram as condições materiais e históricas que emolduram as relações interacionais imediatas. Nos termos de Bakhtin (2017), essas condições materiais e históricas constituem a dimensão do grande tempo e, nos termos de Volóchinov (2017), o ambiente social mais amplo, ao passo que as relações interacionais em tela se inscrevem, respectivamente, no pequeno tempo ou situação social mais próxima. Nas redes sociais digitais, o tempo dialógico (Brait, 2019) emerge como quadrante emoldurado pela ordenada das coerções digitais e a abscissa das relações interacionais e, assim, distribuem-se modos de dizer. Esses modos de dizer se textualizam multimaterialmente. Todavia, neste artigo, interessa a possibilidade de uma pessoa jurídica se enunciar linguisticamente como primeira pessoa, inclusive primeira pessoa do singular, por isso, foca-se naquilo que é construído verbalmente.
Na imediaticidade das postagens e comentários nos perfis das redes sociais digitais, ainda que as interações sejam preponderantemente escritas, reproduzem-se padrões próprios da conversa oral, de modo que postagem, comentário e resposta funcionam como troca de turno. Cada um desses “turnos” configura, em termos dialógicos, texto (Bakhtin, 2016c), e do conjunto de textos nos perfis das redes sociais emerge uma cadeia comunicativa discursiva (Bakhtin, 2016b). Na cadeia, flagra-se o jogo enunciativo com as relações lógico-formais de pessoa realizadas por meio de marcas linguísticas dêiticas (Benveniste, 1989a, 1989b, 2005c). Essas marcações instauram uma dinâmica interacional que permite distinguir produções impessoais - aquelas enunciadas pela não pessoa (Benveniste, 2005a, 2005b) - e pessoais - aquelas com marcas de pessoas propriamente ditas, seja pessoa subjetiva ou não subjetiva (Benveniste, 2005a). A enunciação institucional, pela contrapartida pragmática não ser uma pessoa física, e sim uma pessoa jurídica, tende a se realizar impessoalmente ou pessoalmente com marcas da pessoa não subjetiva, ao se dirigir ao enunciatário, ou de pessoa subjetiva ampliada (Benveniste, 2005a). Não obstante, as redes sociais digitais e seu tempo dialógico deram vazão à emergência de enunciados institucionais em primeira pessoa do singular. Nesse caso, a interação de um cidadão com uma instituição deixa de ser mediada por uma pessoa que representa a instituição, e esta se apresenta enunciativamente como pessoa subjetiva propriamente dita. Isso potencializa a conformação dialogal do que se desenvolve nos perfis em redes sociais, uma vez que se assemelha à conversa face a face.
No que tange aos constrangimentos do ambiente social mais amplo, do grande tempo, há de se considerar que a apresentação formal dialogal não implica necessariamente um processo interacional dialógico (Bakhtin, 2016a; Silva, 2021) promotor de condições subjetivantes (Magalhães, 2022). Se, formalmente, a possibilidade de dizer eu instala o sujeito na linguagem (Benveniste, 1989a, 2005c), discursivamente isto não garante a instalação de um sujeito do discurso (Bakhtin, 2016b). Aqui cabe precisar dois conceitos um tanto polissêmicos e, por vezes, mal compreendidos: discurso e sujeito do discurso.
Nos estudos linguísticos classificados como hard science ou stricto sensu, discurso designa instância de uso da linguagem. Em linhas gerais, em que pese a multiplicidade de correntes teóricas, é possível dizer que discurso se aproxima, no escopo da herança saussuriana, do conceito de fala (parole); no formalismo cognitivista, do conceito de performance. Nessa concepção, o discurso deriva do falante, do ente que produz a instância de linguagem. Diferentemente, nos estudos da linguagem lato sensu, especialmente no grande guarda-chuva dos estudos em Análise do Discurso, discurso, ainda que polissêmico, diz respeito às condições históricas de fazer sentido. Nessa outra concepção, a instância concreta de linguagem é apenas um ponto material de manifestação do discurso, que se produz na história. Assim compreendido, o discurso não pode ser creditado ao ente material produtor de uma instância de linguagem específica, mas ao fluxo histórico de valores, e figura como feixe de possibilidades semânticas orientadas pelo ambiente social mais amplo. A presente discussão se alinha a essa segunda abordagem e encaminha o conceito de discurso como “língua in actu” (Bakhtin, 2016a, p. 117), sendo esse fato uma instância relacional emoldurada pelo tempo dialógico, isto é, pelo quadrante delimitado, por um lado, pelas coerções do grande tempo e, por outro, pelos constrangimentos situacionais imediatos.
Decorrente dessa concepção de discurso, o conceito de sujeito do discurso deve considerar que, historicamente, o sujeito pertence aos discursos, e não o contrário. Destaca-se que, na chave dialógica aqui evocada, essa leitura concebe o discurso como condição subjetivante, e não como condição assujeitadora. Como assim? Bem, sendo “língua de fato”, o discurso implica tanto as delimitações impostas pelo ambiente social mais amplo quanto a ação do ente que se projeta, pela linguagem, na vida sociocultural. Ao se projetar, o ente a um só tempo se posiciona, à revelia de intenção consciente, diante das possibilidades semânticas dadas pela história - temporalidade que lhe escapa - e imprime, de seu lugar único, singular, mas não solitário, sua contribuição para o fluxo contínuo da comunicação discursiva (Bakhtin, 2010, 2016b). Essa “impressão” se dá por um movimento constituído por três processos: assimilação, reelaboração e reacentuação (Bakhtin, 2016b). A assimilação diz respeito à inevitável retomada de dizeres que antecedem qualquer enunciado concreto, já que todo e qualquer enunciado guarda uma dimensão responsiva. A reelaboração e a reacentuação estão implicadas na singularidade do dizer. Enquanto a reelaboração diz respeito aos procedimentos sobre a materialidade do dizer, a reacentuação dá conta dos valores ativados no enunciado concreto e diz respeito à postura ao dizer. Havendo equilíbrio entre os processos, ou havendo maior peso para a reelaboração e/ou reacentuação, mais efetiva a condição discursiva subjetivante; em termos dialógicos, a condição produtora de sujeito do discurso. Quanto maior o peso da assimilação ante os demais, maior a chance de uma concordância discursiva assujeitadora, o que se pode entender como condição produtora de um sujeito ao discurso.
A condição subjetivante e a assujeitadora não dependem tão somente do posicionamento de quem integra a cadeia comunicativa, mas também da disposição da cadeia para transmissão da palavra ao outro (Bakhtin, 2016b; Magalhães, 2022). Num continuum cujas extremidades opostas são a monologia e a dialogia, as produções linguageiras dispõem-se tendendo a uma ou outra extremidade de acordo com o grau de abertura para transmissão da palavra ao outro, conforme o grau de reelaboração e reacentuação viabilizadas e autorizadas na cadeia comunicativa. Nas cadeias em que o outro é convocado a se posicionar, a se colocar, espera-se não apenas assimilação, mas também reelaboração e reacentuação. Esses dois processos são cruciais para a movimentação na cadeia que tende à dialogia. Há, porém, cadeias em que se projeta concordância e se inibe qualquer reelaboração ou reacentuação. Essas são cadeias que tendem à monologia; cadeias em que falar é um ato ventríloquo de reemissão de uma voz social (Bakhtin, 2015) já posta. Nesse funcionamento comunicativo monológico, há pouco espaço subjetivante, já que o eu a se enunciar ali é sombra ou extensão de um outro que se impõe. Esse é o caso dos discursos autoritários (Bakhtin, 2015) e daqueles produzidos pelas formas de totalitarismo não autoritário de que trata Amorim (2012).
Diante dessa delimitação conceitual, afirma-se que o ultraliberalismo é aqui compreendido como um viés de valor emergente na contemporaneidade e que atende às demandas do capitalismo de vigilância. Nesses termos, o ultraliberalismo é um discurso que, por se valer de processos dessimbolizantes promove, também, a condição assujeitadora reificante. Ao inibir elaboração e reacentuação e fomentar apenas assimilação, o discurso ultraliberal estabelece condições para produções linguageiras que reificam e, assim, submetem os entes que dele participam à lei do mercado. A compreensão do ultraliberalismo como discurso permite indagar se a conformação dialogal em perfis institucionais das redes sociais digitais atualiza condições subjetivantes ou assujeitadoras. Dito de outra forma: em que medida a conformação dialogal dos processos interacionais nos perfis institucionais nas redes sociais digitais fomenta o potencial dialógico da cadeia comunicativa? Antes de passar ao exame de instâncias concretas de interação nas redes sociais digitais, explicitam-se as decisões metodológicas.
3 A enunciação em perfis institucionais no Instagram: decisões metodológicas
Dentre os vários aplicativos de redes sociais digitais, no Brasil, o Instagram é, junto com o WhatsApp e o Facebook, um dos mais usados. O aplicativo está em cerca de 30% dos smartphones do país, é o segundo mais aberto durante o dia e com o qual os brasileiros gastam mais tempo ao longo do dia (Panorama Mobile Time/Opinion Box, 2021). Segundo a Social Media Trend, os profissionais de marketing afirmam que 89% das empresas usam o Instagram, e o número das brasileiras se destaca (Rock Content, 2019). Essas são as principais razões para a escolha de perfis institucionais do Instagram para análise. Mas quais perfis institucionais observar?
O setor de streaming, apesar de relativamente recente, tem se destacado nos últimos anos, e as medidas sanitárias de contenção da pandemia de SARS-CoV-2 em 2020 parecem tê-lo impulsionado ainda mais, segundo levantamento do Instituto QualiBest (2021, c2025). Decidiu-se, então, rastrear os perfis no Instagram das cinco principais empresas de streaming no país: @globoplay, @hbobr, @netflixbrasil, @primevideobr e @telecine.
Levantou-se material de duas semanas chave para o setor: (1) de 13 a 19 de setembro de 2020, antecedendo o prêmio Emmy 2020; (2) de 1º a 7 de fevereiro de 2021, abrindo o mês considerado o ponto de partida das programações do ano e das principais premiações do universo cinematográfico de Hollywood, sendo o Globo de Ouro a primeira. Foram selecionados para estudo a postagem do feed e comentários em que constem interação entre “seguidores” e a empresa.
Feita essa seleção, delimitou-se o escopo de análise a partir de duas categorias chave: dialogalidade e dialogicidade. A dialogalidade agrupa as pistas linguísticas das pessoas enunciativas nos textos selecionados. Trata-se de categoria descritivo-analítica da conformação dialogal do material em estudo. Esta categoria está fundamentada, preponderantemente, nos estudos de Benveniste (1989a, 1989b, 2005a, 2005b, 2005c). A dialogalidade é descrita a partir da distribuição quantitativa e qualitativa das marcas de pessoa e não pessoa nas postagens e comentários das empresas e da distribuição qualitativa das marcações de pessoa nos comentários dos “usuários”. A dialogicidade reúne as evidências discursivas a interpelar as marcações de dialogalidade. Trata-se de uma categoria analítico-interpretativa do estatuto dialógico do material em exame. Esta categoria se organiza por princípios articulados na obra do Círculo Bakhtin-Medviédev-Volóchinov (Bakhtin, 2016a, 2016b; Volóchinov, 2017), especialmente, como se recupera de sua recepção que encaminha uma Análise Dialógica do Discurso (Magalhães; Kogawa, 2019).
Ambas configuram categorias abertas, radiais, escalares (Rosch, 1978; Lakoff, 1987), isto é, por elas descrevem-se, respectivamente, as conformações mais ou menos dialogais e mais ou menos dialógicas do material em estudo. O cotejo dessas categorias escalares permite a interpretação do grau de dialogia emergente dos textos analisados e a confirmação ou refutação da hipótese levantada.
4 A distribuição dialogal-dialógica de enunciados na atualização do discurso ultraliberal
No intuito de examinar a conformação dialógica da interação nos perfis institucionais no Instagram das empresas de streaming selecionadas, o primeiro passo foi verificar as manifestações linguísticas da categoria enunciativa de pessoa. Para isso, rastrearam-se as pistas das chamadas “pessoas do discurso” exclusivamente nos textos produzidos pelas empresas. Textos produzidos pelos “usuários” não foram contabilizados nesse primeiro gesto de análise.
O levantamento quantitativo e qualitativo da distribuição de marcas de pessoa nos textos das empresas mostra como sua enunciação tem se convencionalizado. As marcas de terceira pessoa, a não pessoa, figuram na maioria dos textos, o que é condizente com textos creditados a instituições, e não a indivíduos. A pessoa ampliada, primeira pessoa do plural, é outro recurso enunciativo comum em textos institucionais. Juntas, essas duas conformações enunciativas somam 46%. Isso ratifica o modus operandi usual de enunciação institucional, cuja responsabilidade ética e pragmática do dizer não recai sobre uma pessoa física, um indivíduo, um cidadão, e sim sobre uma pessoa jurídica.
A porcentagem de textos com pistas de segunda pessoa, pessoa não subjetiva, alcança a marca de 29% e sugere uma conformação própria do texto publicitário, que tende a explicitar o público-alvo como enunciatário. A alocução do outro implica aquele que se enuncia, embora não o explicite. Sendo assim, promove-se uma interação com tom dialogal sem, no entanto, dar vista àquele que se responsabiliza pelo enunciado.
Nesse cenário, a emergência de textos institucionais enunciados em primeira pessoa do singular chega a ¼ do material levantado e sinaliza uma convencionalização da configuração enunciativa que merece destaque. No conjunto com as outras formas de configuração dialogal dos textos, o que significam essas pistas de um eu de que se traveste uma instituição? Se esse eu potencializa a conformação dialogal, é possível afirmar que aumenta o grau dialógico? Em que medida as pistas dialogais alteram o grau dialógico do que se desenrola nos perfis dessas empresas?
O material em exame está apresentado em quadros divididos em quatro colunas. A primeira coluna, à esquerda, agrupa blocos interacionais, ou seja, postagens e comentários que fazem parte de uma sequência e se encadeiam no próprio perfil em análise. Mesmo quando um comentário não retoma o tópico da postagem, se estiverem em sequência no Instagram, estão apresentados aqui no mesmo bloco. Os blocos são numerados com algarismos romanos e não estão apresentados em ordem cronológica, mas agrupados de modo a atender a retórica deste artigo. A segunda coluna indica o recurso do aplicativo mobilizado: se uma postagem, se um comentário ou engajamento ao comentário, por exemplo. Na terceira coluna, indica-se se o texto foi produzido por uma empresa ou por um indivíduo. Caso seja de um indivíduo, é apresentado como @ seguido de um número arábico para preservação de sua identidade. A quarta coluna agrupa a reprodução do texto publicado no Instagram.
No Quadro 1, é apresentado um texto linguisticamente construído com a não pessoa. Neste recorte, a programação do streaming é divulgada em uma conformação impessoal, o que joga o objeto do dizer em proeminência e esmaece aquele que o diz. É um modo de enunciar bastante recorrente para pessoas jurídicas, especialmente, quando não representadas por um porta-voz pessoa física. O jogo enunciativo que daí emerge tende a provocar respostas comportamentais, como acessar a programação, e não necessariamente engajamento no perfil da empresa. Cumpre, pois, um funcionamento típico da propaganda, publicidade e do marketing, recursos socioculturais bem consolidados da lógica do mercado. Como sintetizado no Gráfico 1, esse modo de enunciar é usual e rotineiro e pode ser considerado como default do que se espera para um perfil institucional.
Na postagem 2, bloco II, Quadro 2, o texto inicia com uma usual síntese de um dos produtos oferecidos pela empresa, se assemelhando à postagem 1, do bloco I. Contudo, a injunção “assista agora” sinaliza maior grau de dialogalidade. Isso é corroborado pela saudação com que se abre o engajamento da empresa ao comentário 1. O maior grau de uma conformação dialogal, porém, não parece alterar o jogo enunciativo mercadológico; do ponto de vista discursivo, as sequências interacionais em nada alteram a trama típica do perfil institucional.
No bloco III, quadro 2, flagram-se textos marcados pela pessoa subjetiva e ampliada sinalizando alteração da apresentação formal típica para enunciados institucionais. Na postagem 3, o texto segue o padrão do default, mas é encerrado com um flagrante pessoal “nos vemos lá”. As marcas de primeira pessoa do plural na desinência verbal e no pronome pessoal oblíquo incluem quem diz, a empresa, e a quem se diz, o enunciatário. Esse caráter inclusivo imprime aparência de alta dialogalidade, já que o enunciador promove a injunção e não se esconde mais na impessoalidade que coloca em proeminência seu objeto do dizer.
O comentário 2 que se segue adere à trama dialogal e inscreve, pelo pronome de tratamento “você”, um item da grade de programação da empresa - Rouge one - como enunciatário. O engajamento da empresa a este comentário 2 subverte o jogo proposto e a própria empresa se assume pessoa subjetiva. Aparentemente, trava-se uma conversa convencional, com trocas de turno, ainda que esse “eu” tenha irrompido e burlado a trama proposta por um enunciador e seu enunciatário, o programa. Todavia, essa dinâmica conversacional segue o mesmo propósito dos textos institucionais típicos e se apresenta como outra faceta do funcionamento da propaganda e do marketing. Ao alocutar um item da programação como enunciatário, o enunciador se projeta no discurso estruturante do perfil da empresa de streaming. Se há troca de “turno”, não se pode dizer que há transmissão de palavra ao outro. A elevação da dialogalidade parece promover a lógica do capitalismo de vigilância de profusão de dados e as pessoas linguísticas que ali se apresentam são, enunciativamente, agentes de um mesmo propósito comunicativo, qual seja, divulgar a programação.
No bloco IV, Quadro 3, a “conversa” tem um funcionamento ligeiramente diferente. Na postagem 4, a injunção é realizada pelo pronome adjetivo “sua”, que instala o enunciatário. O comentário 3 que a segue mantém o tópico da programação anunciada na postagem por meio de um questionamento. A resposta a esse questionamento, no engajamento ao comentário 3, é novamente aberta por uma saudação bem comum em conversas orais face a face e trava marcadamente uma relação entre pessoa ampliada e pessoa não subjetiva. A pessoa não subjetiva é, mais uma vez, instalada pelo pronome de tratamento “você”, ao passo que, desta vez, a pessoa ampliada é exclusiva e constitui recurso enunciativo também usual para textos institucionais. A marca de plural torna o eu que se enuncia opaco, e essa opacidade se deve ao fato de que o referido não é, de fato, uma pessoa dizendo de si, mas uma empresa. Essa alteração no escopo referencial do enunciador poderia alterar também a trama dialógica. Isso porque, em enunciados institucionais, a disjunção de enunciador e enunciatário pode favorecer que o outro se coloque, se instale. É como se houvesse uma brecha para possível transmissão da palavra. Não obstante, o conjunto de textos do bloco IV também serve ao mesmo propósito comunicativo e, novamente, o falante é fagocitado para o discurso proposto sendo por ele assujeitado.
Nos blocos V e VI, há uma sutil alteração dialógica. A postagem 6 reúne tanto pistas de pessoa subjetiva - “eu”, “tô”, “meu” - quanto de pessoa ampliada inclusiva - “vamos”. O comentário 5 que segue parece solicitar um serviço da empresa. Ora, é tautológico dizer que no perfil da empresa discutem-se questões atinentes aos negócios da empresa. O que vale destaque aqui é a alteração de ordem dialógica no tratamento do objeto interacional. O usuário @5 se coloca como consumidor, mas não como agente de propaganda da empresa. Ao se colocar no discurso como consumidor, provoca a empresa a dizer algo que não meramente anunciar seus produtos. No engajamento ao comentário 5, o texto soa como uma conversa e funciona como instruções para solucionar o problema. A quebra de rotina se dá pelo ajuste dialógico, e não dialogal, já que as marcas de pessoas enunciativas se mantêm como se fosse uma conversa oral.
No bloco V, a nuança dialógica fica mais flagrante, posto que ali a disjunção entre pessoas enunciativas favorece a efetiva interpolação de eus. Na postagem 5, o enunciatário, de novo, é instalado pelo pronome de tratamento “você” e o enunciador se apresenta como pessoa subjetiva pelo pronome pessoal do caso oblíquo “comigo”. No comentário 4, o falante se instala, pela desinência verbal, como pessoa subjetiva e narra uma dificuldade para utilização dos serviços da empresa, ao que segue o engajamento ao comentário 4, com inúmeras marcas de outro eu, novamente a empresa, que instala o enunciatário pelo pronome pessoal do caso oblíquo “te” e pelas injunções promovidas com vários verbos no imperativo.
Evidentemente, a relação de consumidor é inerente ao funcionamento mercadológico, mas o posicionamento enunciativo de @4 sinaliza não assujeitamento ao discurso proposto. Neste caso, não há um eu ventríloquo, mas um eu que toma a palavra e altera dialogicamente a rotina de propaganda. Curiosamente, o engajamento ao comentário 4, ainda que apresente um eu, soa tão impessoal quanto um manual de instrução, e a alteração enunciativa promovida pelo falante @4 fica patente com o direcionamento para outro canal, o chat.
A comparação das nuanças dialógicas observadas nos textos reunidos no quadro 3 sugere que a norma sub-reptícia do aplicativo se define por condições assujeitadoras que fagocitam o outro como ventríloquos da empresa. Provoca-se a fala que produz dados atinentes ao que se quer fazer circular naquela plataforma, ou seja, a fala que preponderantemente assimila, em detrimento de reelaborações e reacentuações, e propaga. Assujeita-se o falante à condição reificante de usuário. Quando essa norma é burlada e alguém se instala como sujeito expressivo falante, para mobilizar o termo usado por Bakhtin (2016b), ainda que como consumidor, mas não propagador, ativa-se um padrão instrucional, ainda que escamoteado por uma pessoa subjetiva, culminando no direcionamento para outro canal, onde aparentemente está previsto um processo interacional mais dialógico.
A injunção do imperativo - “deixe” - e a marcação da pessoa não subjetiva - “seu”, “você” - na postagem 7 instiga a produção de comentários estabelecendo alto grau de dialogalidade. Afinal, a postagem se complementa com o chamado engajamento. Ao incentivar o outro a compartilhar situações de “um micão na frente” de alguém, projeta-se um espaço para narrativas pessoais. Esse recurso enunciativo estabelece um tom um tanto intimista. Todavia, como se vê pelo comentário de @6, sua narrativa pessoal funciona no interior de uma estratégia de marketing, de maneira que o eu que ali se enuncia é discursivamente significado como vetor de propaganda, não havendo efetiva interpolação de palavras. No jogo interacional proposto na postagem 7, a assimilação está projetada de tal forma que @6, ainda que partilhe uma narrativa pessoal, reverbera o que a empresa está divulgando, não tendo chance de se colocar como sujeito do discurso. Ao aderir à proposta, tudo que diz de si funciona como vetor de propaganda e, assim, corrobora a multiplicação de dados devidamente formatados para funcionarem na lógica do capitalismo de vigilância. O engajamento a este comentário retoma a narrativa adjungida à postagem 8, o que ratifica o grau dialogal. Entretanto, o que emerge desse bloco de textos é a expressão de um mesmo projeto de discurso, sem efetiva transmissão da palavra ao outro. Nos termos de Bakhtin (2016b), não há alternância de sujeitos do discurso, posto que há um jogo enunciativo promotor de assujeitamento, que reifica o falante e mitiga seu caráter expressivo em favor do ventriloquismo do discurso que lhe é imposto.
O funcionamento desses perfis institucionais mostra como o aplicativo não projeta interação propriamente dita, e sim a justaposição de textos que trabalhem para o fim de divulgar programação. Na superfície da dialogalidade, há uma simulação interacional em que emerge um eu não destacado do outro; um eu que existe apenas como ventríloquo. Essa indistinção enunciativa é dessubjetivante, posto que inviabiliza a alternância de sujeitos do discurso.
No Quadro 5, os encadeamentos textuais mostram o elevado nível dialogal, cuja dimensão dialógica é demasiadamente reduzida. No bloco VIII, o eu que se apresenta na postagem 8 é uma instituição calibrada pelos parâmetros do capital, e não uma pessoa propriamente dita. O comentário 7 que segue é enunciado sem qualquer marca de pessoa, sendo a formalização da não pessoa “partiu” um eco do que está proposto na postagem 8. Daí, segue reverberando no engajamento ao comentário 7. Na adjunção de textos não é tecida uma interação, mas uma reverberação, como um eco, sem alternância de sujeitos do discurso. No bloco IX, o eu que se marca na postagem 9 e no engajamento ao comentário 8, outra vez, traveste uma empresa, e o comentário 8, que materialmente ali se interpola, não irrompe no discurso do outro; funciona como uma prótese do enunciado do outro. A declaração de amor à empresa não instala um sujeito, e sim assujeita um eu ao projeto discursivo proposto.
Em suma, o que se observa é um processo de fazer o outro falar, mas não por si. Parece se tratar de uma das manifestações do monológico discurso ultraliberal, que empreende o totalitarismo não autoritário do capitalismo de vigilância. Não autoritário porque não se impõe por força bélica; infiltra-se insuspeitamente nos mais variados e heterogêneos modos de relações socioculturais. Além disso, parece ser um tipo de totalitarismo não personalizado e despersonalizante. Não há uma figura que o encarne e ele dissemina-se, entre outros meios, pela indistinção de um eu que é o outro, e não eu. Os perfis institucionais do Instagram investigados mostram-se efetivos vetores desse processo.
Como já alertara Volóchinov (2019), tomar valores subentendidos estruturantes do dizer como objeto do dizer é um passo para negociar-lhe o sentido. Assim, este artigo, ao elucidar a não paridade dialogalidade/dialogicidade, se junta a outras reflexões que têm chamado a atenção para, no contexto social mais amplo, mudanças nas relações intersubjetivas que organizam a cultura na contemporaneidade (Amorim, 2012, 2015) e, nas situações mais imediatas, a paradoxal discrepância entre o fomento ao falar e o estancamento do diálogo (Silva, 2021; Teixeira, 2022; Magalhães, 2022).
5 A verborragia monológica
É muito comum, atualmente, considerar que as redes sociais, principalmente as digitais, por romperem limites espaciais e temporais, amplificam a interação. Ter contato, trocar mensagens, obter informação de pessoas e lugares mesmo distantes e praticamente em tempo real soam como maximização das relações sociais. A profusão de aplicativos, perfis, canais, entre tantos outros meios sugere o sucesso das redes sociais digitais. Todavia, o muito falar significa efetivamente interagir? No caso das trocas de mensagens em perfis de empresas de streaming no Instagram examinadas neste artigo, verificou-se que a conformação dialogal nos processos interacionais parece se distribuir inversamente proporcional ao grau dialógico.
Em consonância com outros estudos referidos, mesmo não tendo sido esgotadas as fontes de investigação em torno da temática, a presente discussão demonstra como em perfis institucionais, sobretudo aqueles mediados por inteligência artificial, não há relação direta entre o muito falar e o dialogar, assumindo, evidentemente, a perspectiva teórica bakhtiniana de diálogo, e não a do senso comum. Desse ponto de vista, o grau dialógico é medido não pela mera troca de turnos conversacionais, mas pelo modo de transmissão da palavra ao outro: se transmitida ao outro para que se coloque como sujeito do discurso, há conformação mais dialógica; se autorizada ao outro apenas a concordância de maneira a cooptá-lo a um discurso que não abre brecha para reelaboração ou reacentuação, menos dialógica. No exame qualitativo dos excertos apresentados neste artigo, os interactantes não institucionais colocam-se como sujeitos do discurso ao se posicionarem como consumidores, o que tende a acontecer em trocas de mensagens em que a instituição assume formas linguísticas mais prototípicas de pessoa enunciativa, quais sejam: não pessoa, pessoa não subjetiva e pessoa ampliada. Diferentemente, quando as instituições se enunciam como pessoa subjetiva, há o aumento da conformação dialogal, mas o enunciatário é deslocado de sua posição de consumidor para ser cooptado como uma espécie de agente de marketing e propaganda. Isso demonstra que não há necessária relação proporcional entre o muito engajar-se nas redes sociais e a efetiva participação sociocultural.
O avanço do tempo e das relações líquidas da modernidade tardia, nas palavras de Bauman (2007); do pós-modernismo, de acordo com Harvey (1992); da condição pós-moderna, nos termos de Lyotard (2020), parece se dar pela falta de contrapartida ao ultraliberalismo, que se torna uma nova forma de servidão (Dufour, 2005, 2008). Permeando os variados campos da cultura, o discurso ultraliberal tudo coopta para funcionar pela lei da livre circulação de mercadoria. Nesse cenário, as redes sociais digitais são importante plataforma de difusão desse discurso e de instalação do chamado capitalismo de vigilância (Zuboff, 2020). Fazer falar nas redes sociais digitais pode ser um mecanismo de “engajamento” no funcionamento pós-moderno. No caso das trocas de mensagens examinadas nos perfis de empresas de streaming, colocar-se como consumidor não é assujeitar-se ao discurso mercadológico, e sim participar dele. Não obstante, ser colocado como agente propagandístico pelo deslocamento enunciativo proposto no projeto discursivo funciona como um dos vetores de assujeitamento próprio do totalitarismo não autoritário (Amorim, 2012).
Diante disso, este estudo se alia a outros que têm alertado para como o ultraliberalismo se infiltra até mesmo em corriqueiras trocas de mensagens em redes sociais digitais e, assim, pode interpelar a cada um que participa do jogo enunciativo-discursivo contemporâneo. Não se trata, evidentemente, de diabolizar as redes sociais digitais ou os avanços tecnológicos, nem mesmo de louvá-las. O que se empreende é uma demonstração de diferentes modos de participação nas redes sociais digitais, para que a participação sociocultural não se dê pela mera cooptação dessubjetivante, mas com plena responsabilidade ética.
Referências
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Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados analisados neste artigo estão disponíveis na dissertação de mestrado de Carolina Teixeira, disponível no repositório da Universidade Federal de São Paulo.
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Uso de IA:
Não foi utilizada IA para a produção do artigo.
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Pareceres:
Como parte do compromisso assumido pela Revista Brasileira de Linguística Aplicada com a Ciência Aberta, a revista publica os pareceres emitidos a respeito dos trabalhos nela publicados, quando autorizado por todas as partes envolvidas.
Editado por
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Editora responsável:
Andréa Machado de Almeida Mattos, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais/MG, Brasil. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7749222257907067, ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3190-7329, e-mail: andreamattos@ufmg.br.
Rodada 1
Sobre o autor do parecerO artigo é relevante, apresentando uma perspectiva sobre dialogia/monologia nas interações de perfis sociais digitais institucionais, adotando a perspectiva do ultraliberalimo e do capitalismo de vigilância. Quanto à parte teórica é um ponto de vista particular concluindo por afirmar que as interações nas redes sociais digitais produzidas pelos perfis institucionais são monológicas, assumindo-se uma condição assujeitadora do discurso. Dito isso, tem-se a impressão de que somente o capitalismo assim o faz, produzindo-se um contra-argumento: toda nossa conversação é, então, um simulacro? Somente o capitalismo produz essa condição de assujeitamento do discurso? O socialismo, o comunismo, os discursos autoritários, religiosos, institucionais quaisquer que o sejam também não o fazem? O(s) autor(es) não citam que o ponto de vista adotado também poderia o ser para outras instâncias; tem-se a impressão, por expansão, de que todos os discursos caberiam nesse enquadre da condição assujeitadora do discurso. Quanto a isso é solicitada revisão de leitura da Estética da Criação Verbal no que diz respeito ao tópico "O enunciado, unidade da comunicação verbal".
- recomendação: Correções obrigatórias
Rodada 2
Sobre o autor do parecerA revisão atendeu às sugestões propostas e o artigo apresenta-se adequado para publicação.
- recomendação: Aceitar submissão
Rodada 1
Sobre o autor do parecerO artigo foca em trocas de mensagens entre perfis institucionais de empresas de streaming no Instagram e usuários/consumidores desses serviços com o intuito de compreender as alterações no processo dialógico levadas a cabo por estratégias coercitivas que caracterizam os discursos ultraliberais em suas inter-relações com o capitalismo de vigilância. A hipótese de que as interações nesses perfis institucionais promovem condições dessubjetivantes, que transformam sujeitos em ventríloquos de outrem, é corroborada a partir de uma análise aprofundada e teoricamente robusta de processos de dialogalidade/dialogicidade, fundados principalmente em concepções de Benveniste e do Círculo de Bakhtin. Além de cumprir os propósitos analíticos descritos no resumo e Introdução, o artigo também contribui para o debate sobre como e/o quanto as redes sociais têm transformado nossas performances discursivas no mundo social e as implicações éticas dessas transformações. Diante de sua profundidade teórico-metodológica e da contribuição da reflexão realizada para a Linguística Aplicada, recomendo o artigo para publicação, desde que realizadas as alterações pontuais sugeridas ao longo do texto. Destaco, especialmente, a necessidade de delimitar de forma mais clara o recorte analisado no Resumo/Abstract e na Introdução.
- recomendação: Correções obrigatórias
Rodada 2
Sobre o autor do parecerLevando-se em conta que o/a autor/a realizou as alterações sugeridas, recomendo a publicação do artigo.
- recomendação: Aceitar submissão


Fonte: Elaborado pelos autores.
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