Resumo
Objetivo Avaliar efeitos de uma intervenção multimodal, combinando exercício físico e suplementação proteica, em marcadores metabólicos de mulheres idosas com controle dietético.
Método Ensaio clínico triplo cego, placebo-controlado, com idosas submetidas a um programa de 12 semanas, divididas em três grupos: exercício resistido + <italic>whey protein</italic> (EW), exercício + placebo (EP) e apenas <italic>whey protein</italic> (WP). Avaliaram-se marcadores metabólicos (glicemia de jejum, frutosamina, colesterol total, LDL-c e HDL-c e triglicérides) e de função renal e hepática para controle; e antropometria: índice de massa corporal, circunferências da cintura (CC) e panturrilha. Controle dietético foi avaliado por três dias de registro alimentar com pesagem direta.
Resultados participaram 33 idosas com média de idade de 82 anos de idade, predominância de excesso de peso (67%) e CC elevada (85%). Após a intervenção, observou-se redução significativa do HDL-c nos grupos EW (de 68 para 58mg/dL; p=0,005) e EP (de 52 para 49mg/dL; p=0,018), aumento do LDL-c no grupo EW (de 76 para 106 mg/dL; p=0,005) e redução da glicemia no grupo EP (De 107 para 99 mg/dL; p=0,005), sem diferenças estatísticas entre os grupos. O controle da ingestão nutricional e da função renal e hepática foi garantido.
Conclusão Exercício resistido por 12 semanas melhorou glicemia, enquanto ambos os grupos com exercício apresentaram piora no perfil lipídico independente da suplementação. Esses efeitos podem estar relacionados ao tempo de intervenção ou à idade, excesso de peso e comorbidades da amostra, apontando a necessidade de compreensão dos impactos do exercício e da suplementação proteica nessa população.
Palavras-chave
Idoso; Exercício Físico; Suplementos Nutricionais; Metabolismo dos Lipídeos; Glicemia; Sobrepeso.
Abstract
Objective To evaluate the effects of a multimodal intervention combining resistance exercise and protein supplementation on metabolic markers in older women under dietary control.
Methods A triple-blind, placebo-controlled clinical trial was conducted over 12 weeks. Participants were allocated to three groups: resistance exercise + whey protein (EW), exercise + placebo (EP), and whey protein only (WP). Metabolic markers (fasting glucose, fructosamine, total cholesterol, LDL-c, HDL-c, triglycerides), renal and hepatic function markers (for monitoring), and anthropometric parameters (body mass index [BMI], waist circumference [WC], calf circumference) were assessed. Dietary control was evaluated using three-day weighed food records.
Results Thirty-three older women participated (mean age 82 years), most with overweight (67%) and elevated WC (85%). After the intervention, HDL-c significantly decreased in the EW group (from 68 to 58 mg/dL; p=0.005) and in the EP group (from 52 to 49 mg/dL; p=0.018). LDL-c increased in the EW group (from 76 to 106 mg/dL; p=0.005), while fasting glucose decreased in the EP group (from 107 to 99 mg/dL; p=0.005). No significant differences were found between groups. Nutritional intake and renal and hepatic function monitoring were ensured.
Conclusion Twelve weeks of resistance exercise improved fasting glucose, whereas both exercise groups showed a worsening lipid profile regardless of supplementation. These effects may be related to the intervention duration or to participants’ age, overweight, and comorbidities, highlighting the need to better understand the impacts of exercise and protein supplementation in this population.
Keywords
Aged; Exercise; Nutritional Supplements; Lipid Metabolism; Blood Glucose; Overweight.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento é caracterizado por alterações metabólicas associadas ao aumento da suscetibilidade a doenças crônicas¹,², as quais são potencializadas pelo excesso de adiposidade corporal³ e por um estilo de vida inadequado, incluindo baixos níveis de atividade física, comportamento sedentário e hábitos alimentares pouco saudáveis4.
Intervenções multimodais, tipicamente definidas como abordagens estruturadas que combinam duas ou mais estratégias sinérgicas — como exercício físico e suplementação nutricional — têm demonstrado melhorar não apenas desfechos musculoesqueléticos, mas também marcadores metabólicos em pessoas idosas5-7. Sabe-se que a prática regular de atividade física favorece a função celular e promove a oxidação de substratos energéticos, como carboidratos e lipídios, reduzindo fatores de risco e a incidência de doenças metabólicas8.
O treinamento resistido tem se mostrado eficaz na melhora da sensibilidade à insulina em pessoas idosas, com efeitos comparáveis aos do exercício aeróbico9. Entretanto, quando se trata do perfil lipídico, a literatura respalda de forma mais consistente os benefícios do treinamento aeróbio ou combinado³,10 . Além disso, embora o treinamento resistido isolado sugira benefícios, a maior parte das pesquisas existentes inclui pessoas idosas mais jovens, deixando uma lacuna no entendimento sobre como o treinamento resistido pode afetar o metabolismo lipídico em mulheres idosas mais velhas8.
Ademais, suplementos à base de proteínas do soro do leite, ou whey protein, possuem elevado teor de aminoácidos essenciais e peptídeos bioativos, além de modular incretinas intestinais, conferindo-lhe propriedades funcionais e benefícios no perfil lipídico e glicêmico11. Embora seus efeitos na melhora de parâmetros metabólicos já tenham sido relatados¹¹–¹³, poucos estudos avaliam o efeito isolado da suplementação proteica em mulheres idosas sem que esta esteja associada ao exercício físico14.
Notavelmente, muitos estudos de intervenção identificam a ausência de controle do padrão alimentar como uma limitação. Considerando a forte influência da dieta sobre os parâmetros metabólicos, esse é um viés relevante nas pesquisas existentes. Diante dessas lacunas, o objetivo do presente estudo foi avaliar os efeitos intragrupo de uma intervenção multimodal — baseada em exercício físico e suplementação proteica — sobre marcadores metabólicos em mulheres idosas com controle dietético, bem como explorar possíveis diferenças entre os grupos de intervenção.
MÉTODO
Trata-se de um ensaio clínico, triplo cego, placebo controlado, com controle dietético, realizado em pessoas idosas do sexo feminino, em uma Instituição de Longa Permanência para idosos (ILPI) da cidade de Salvador (BA, Brasil), desenvolvido pelo Centro de Estudo e Intervenção na Área do Envelhecimento (CEIAE) da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (ENUFBA). O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da ENUFBA, sob parecer de número 5.781.842 (CAAE: 63312922.6.0000.5023). A pesquisa foi conduzida em conformidade com os preceitos éticos e legais estabelecidos pela Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre normas de pesquisa envolvendo seres humanos. Este ensaio clínico randomizado foi registrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) sob o identificador RBR-5ztk3mw
O recrutamento das participantes ocorreu entre julho e agosto de 2023 e o protocolo de intervenção durou 12 semanas. Por se tratar de um estudo triplo cego, as participantes, os avaliadores e o estatístico não souberam quais participantes receberam suplemento ou placebo. Não houve mudanças no protocolo de intervenção após o início do estudo.
Foram incluídas pessoas do sexo feminino, com idade ≥ 60 anos, com liberação clínica para realizar as atividades, que seguissem as refeições padronizadas ofertadas pela instituição e concordassem em assinar Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Não foram incluídas as pessoas com contraindicação prévia ou comprometimento que limitasse a realização das avaliações, amputadas, com perda de peso involuntária significativa recente (<3 meses), cirurgia recente (<6 meses), distúrbios neurológicos e musculares graves, doenças terminais, em tratamento de câncer ou cuidados paliativos, com grandes infecções, queimaduras ou traumas, em uso contínuo de medicamentos anti-inflamatórios e/ou imunossupressores, pessoas que não consumiam alimentos de origem animal, tinham alergia ao leite, ou cuja nutrição era fornecida por via enteral ou parenteral. Foram excluídas as que não cumpriram o critério mínimo de frequência estabelecido ou que tenham tido alterações nas medicações de uso contínuo durante a intervenção. Dados sobre comorbidades e medicamentos em uso foram obtidos de prontuários. Outras informações clínicas foram complementadas por meio de entrevistas e reuniões com a equipe de saúde da instituição.
O tamanho da amostra foi calculado considerando uma análise de variância (ANOVA) com três grupos de intervenção, assumindo um tamanho de efeito médio (f=0,25), nível de significância de 5% (α=0,05) e poder estatístico de 80% (1-β=0,80). Com base em uma população finita de 60 mulheres idosas, aplicou-se a correção para população finita, resultando em uma estimativa total de 28 participantes, com aproximadamente 9 a 10 por grupo. Embora o plano inicial de análise previsse a utilização de testes paramétricos, os dados não atenderam aos pressupostos de normalidade, sendo, portanto, aplicados métodos não paramétricos. A amostra inicial foi composta por 37 participantes. Durante o estudo, quatro participantes desistiram, resultando em uma amostra final de 33 participantes, conforme ilustrado na Figura 1.
Os grupos de intervenção foram: EW (exercício resistido + suplementação de whey protein); EP (exercício resistido + placebo); WP (apenas suplementação de whey protein).
As participantes do programa de exercícios da ILPI foram randomizadas entre os grupos EW e EP por meio de sorteio sequencial de números, realizado por um membro não envolvido na pesquisa. As participantes que não integravam o programa de exercícios, mas atendiam aos critérios de elegibilidade, foram alocadas no grupo WP. O protocolo da intervenção multimodal teve duração de 12 semanas, combinando o programa de exercícios resistidos com suplementação proteica. Foi permitida uma taxa máxima de ausência de 25% para manutenção da participação. As participantes foram orientadas a manter suas atividades cotidianas e evitar a prática de outros exercícios físicos ou dietas durante o período da intervenção. Ao final do estudo, foram realizadas avaliações pós-intervenção.
A coleta de dados foi conduzida por uma equipe treinada, utilizando técnicas padronizadas. O recrutamento das participantes foi realizado a partir de prontuários médicos, entrevistas e reuniões com a equipe de saúde da ILPI. Para caracterização da amostra, foram coletadas informações sobre idade, estado civil, raça/cor autorreferida (branca, preta, parda), consumo de álcool, tabagismo, comorbidades e medicamentos em uso.
O controle dietético foi implementado para garantir a confiabilidade dos dados e minimizar a influência de variações no consumo alimentar durante o período da intervenção. Todas as residentes da ILPI recebiam refeições padronizadas, planejadas por nutricionista responsável, incluindo café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia. A intervenção não teve como objetivo modificar a ingestão alimentar habitual das participantes; contudo, foi solicitado que não consumissem alimentos externos, mantendo-se exclusivamente das refeições fornecidas pela instituição durante o período de intervenção. A ingestão nutricional no baseline e após a intervenção foi verificada por meio de registro alimentar pesado de três dias (dois dias de semana e um dia de fim de semana). Todos os alimentos e bebidas consumidos por cada participante foram pesados em balança de alimentos, e realizado cálculo do resto-ingesta a partir da pesagem das sobras das refeições. Os dados foram tabulados em gramas (g) e processados em software de composição nutricional, utilizando-se tabelas de composição de alimentos e fichas técnicas para as refeições preparadas na instituição. Foram calculadas a média de ingestão diária de energia (kcal/dia) e de macronutrientes (% kcal/dia e g/kg/dia).
Um colaborador da ILPI treinado e não participante da pesquisa foi responsável por preparar os lotes. A distribuição ocorreu imediatamente após o exercício e os copos foram previamente etiquetados com o nome do participante e a data, separados por grupos. Os grupos EW e WP receberam 25g de whey protein em pó sabor baunilha diluído em água. Essa quantidade continha 20 g de proteína, em conformidade com as recomendações para pessoas idosas15. O grupo EP recebeu 20g de leite em pó desnatado diluído em água, com essência de baunilha e adoçante sucralose. Cada lote totalizou 100 mL.
A ILPI oferecia às residentes duas sessões semanais de 40 minutos de exercícios resistidos, de intensidade baixa a moderada. Para o presente estudo, acrescentou-se uma sessão extra por semana para os grupos EW e EP, totalizando três sessões de 45 minutos semanais (terça e sexta-feira pela manhã e quarta-feira à tarde), com intervalo mínimo de 24 horas entre as sessões. O grupo WP foi composto por residentes que não aderiam voluntariamente ao programa de exercícios da ILPI e, durante a pesquisa, permaneceram sem realizá-los por decisão pessoal, e não em função do estudo.
Foi implementada a sequência de exercícios a seguir: Supino com Halteres, Agachamento, Remada em pé com a barra, Flexão de joelho, Bíceps, Flexão plantar, Tríceps, Elevação pélvica, Desenvolvimento de ombros, Abdominais. A carga inicial de treinamento foi estimada a partir do teste de uma repetição máxima (1RM) para cada exercício. Após o aquecimento e a seleção subjetiva da carga inicial, as participantes realizaram o maior número possível de repetições até a fadiga concêntrica. O número de repetições obtido foi utilizado para estimar a carga equivalente a 1RM, conforme a tabela de conversão proposta por Baechle e Earle (2008)16. A progressão de cargas e RM ocorreu da seguinte forma: Semanas 1–2: 3 x 18–20 RM; Semanas 3–4: 3 x 15–17 RM; Semanas 5–6: 3 x 12–14 RM; Semanas 7–8: 3 x 8–10 RM; Semanas 9–10: 3 x 6–8 RM; Semanas 11–12: 3 x 4–6 RM. Essa progressão possibilitou o aumento gradual da sobrecarga com redução concomitante no número de repetições, respeitando o princípio da progressão da resistência e a capacidade funcional das participantes.
Todas as intervenções foram realizadas em uma única ILPI, conduzidas pela mesma equipe de pesquisa treinada, assegurando a padronização do protocolo entre os grupos.
Foram avaliados os seguintes marcadores metabólicos: glicemia de jejum, frutosamina, colesterol total, colesterol LDL, colesterol HDL-c e triglicerídeos. Para controle e segurança da intervenção, também foram analisados marcadores da função renal [ureia, creatinina e taxa de filtração glomerular (TFG)] e da função hepática [transaminase glutâmico-oxalacética (TGO), transaminase glutâmico-pirúvica (TGP) e gama-glutamiltransferase (GGT)].
As amostras foram coletadas no local da pesquisa por punção venosa, após jejum de 12 horas. As análises foram realizadas no Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia (LACTFAR) da UFBA. A glicemia de jejum, o colesterol total, os triglicerídeos e a ureia foram analisados pelo método enzimático; frutosamina e GGT pelo método colorimétrico; HDL-c por método homogêneo; creatinina pelo método do picrato alcalino; TGO e TGP por método cinético UV. O LDL-c foi calculado pela fórmula de Friedewald, e a TFG pela equação CKD-EPI.
O Índice de Massa Corporal (IMC) foi avaliado e classificado segundo os critérios da OPAS (2002)2,17: baixo peso: <23 kg/m²; adequado: 23–28 kg/m²; sobrepeso: 28–30 kg/m²; e obesidade: >30 kg/m². Para fins de análise, as categorias sobrepeso e obesidade foram agrupadas como excesso de peso. A circunferência da panturrilha (CP) foi utilizada como indicador de massa muscular, sendo considerada reduzida quando ≤33 cm18 e circunferência da cintura (CC) foi classificada de acordo com os critérios da OMS (2000)19, sendo considerada aumentada quando >88 cm.
Foram utilizadas estatísticas descritivas para caracterização da amostra. A normalidade das variáveis contínuas foi verificada pelo teste de Shapiro–Wilk. As variáveis com distribuição normal foram apresentadas como média e desvio-padrão; as que não apresentaram distribuição normal foram descritas como mediana e intervalo interquartílico. As variáveis categóricas foram expressas em frequências absolutas e relativas. Para a análise de homogeneidade no baseline, utilizou-se o teste de Kruskal–Wallis para variáveis contínuas e o teste qui-quadrado de Pearson para variáveis categóricas. Para comparações intragrupo (pré vs. pós-intervenção), aplicou-se o teste de Wilcoxon não paramétrico para amostras relacionadas. Para diferenças intergrupos, foram calculados os valores de delta (pós-intervenção menos baseline) para cada desfecho, comparados entre os grupos pelo teste de Kruskal–Wallis para amostras independentes.
O nível de significância adotado foi p<0,05. Não foram aplicadas correções para comparações múltiplas, dado o caráter exploratório do estudo. Não houve dados ausentes para os desfechos primários ou secundários, e todas as participantes randomizadas completaram as avaliações propostas. Não foram realizadas análises interinas nem definidos critérios de interrupção ao longo do estudo.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
RESULTADOS
Participaram da pesquisa 33 mulheres idosas, com média de idade de 82 (±6,0) anos, predominância de cor parda (73%), sem companheiro/a (94%), ex-etilista (58%), que nunca fumou (55%), com hipertensão arterial sistêmica (88%), artrose (76%), excesso de peso (67%) e CC elevada (85%). A CP estava reduzida em 12% das participantes. As medicações em uso eram predominantemente anti-hipertensivos (76%), hipolipemiantes (56%) e hipoglicemiantes (30%). As características sociodemográficas e clínicas das participantes no baseline, por grupo de intervenção, estão demonstradas na Tabela 1 e diferenças significativas não foram encontradas.
Características sociodemográficas e clínicas das participantes por grupo de intervenção no baseline (N=33). Salvador, BA, 2023.
Quanto aos marcadores metabólicos, a análise intragrupo (Tabela 2) mostrou redução significativa do colesterol HDL nos grupos EW (p=0,005) e EP (p=0,018), aumento do colesterol LDL no grupo EW (p=0,005) e redução da glicemia de jejum no grupo EP (p=0,005). A avaliação do efeito da intervenção entre os grupos mostrou uma variação do HDL de -11,0 (-12,8; -8,0) no grupo EW e -5,5 (-8,0; 2,0) no grupo EP, sem diferença estatisticamente significativa do efeito da intervenção entre os três grupos (p=0,102). A variação do LDL no grupo EW foi de 14,8 (3,7; 28,1), e a variação da glicemia de jejum no grupo EP foi de -8,5 (-19,8; -2,8), também sem diferenças significativas no efeito da intervenção entre os três grupos (p=0,652 e p=0,330, respectivamente).
Variação intragrupo dos marcadores metabólicos antes e após a intervenção (N = 33). Salvador, BA, 2023.
Quanto ao controle dietético, não foram observadas diferenças significativas na ingestão nutricional entre os grupos no baseline, tampouco diferenças intragrupo antes e após a intervenção, conforme apresentado na Tabela 3.
Quanto aos marcadores de função renal, houve redução significativa nos níveis de creatinina (p=0,033) e aumento significativo na TFG (p=0,030) no grupo EP, sem alterações nos níveis de ureia. No que diz respeito à função hepática, os níveis de TGO e TGP reduziram-se significativamente nos grupos EW (p=0,004; p=0,005), EP (p=0,003; p=0,013) e WP (p=0,008; p=0,028). Os níveis de GGT reduziram-se nos grupos EW (p=0,049) e WP (p=0,046). Esses achados estão detalhados na Tabela 4.
Variação intragrupo dos marcadores de função renal e hepática antes e após a intervenção (N = 33). Salvador, BA, 2023.
Não foram relatados eventos adversos ou efeitos indesejados relacionados à intervenção (exercício ou suplementação) durante o período de 12 semanas. A segurança foi monitorada por meio das avaliações laboratoriais, que não evidenciaram efeitos prejudiciais sobre a função renal ou hepática nos grupos de intervenção.
DISCUSSÃO
Este estudo avaliou os efeitos de um programa de exercícios resistidos e da suplementação com whey protein, de forma isolada ou combinada, sobre marcadores metabólicos em mulheres idosas sob controle dietético. No baseline, a amostra era homogênea quanto às características sociodemográficas e clínicas.
Os principais achados deste estudo foram a redução significativa da glicemia de jejum no grupo EP, a redução dos níveis séricos de colesterol HDL nos grupos que realizaram exercício (EW e EP) e o aumento do colesterol LDL no grupo EW após a intervenção. Contudo, a avaliação intergrupos do efeito da intervenção não mostrou diferenças estatisticamente significativas para essas variáveis.
Esses resultados contrastam com o que é frequentemente relatado na literatura, a qual aponta que a prática regular de atividade física melhora o perfil lipídico20. Entretanto, os achados deste estudo devem ser analisados à luz das características da amostra, composta exclusivamente por mulheres idosas longevas com excesso de peso — condição que influencia tanto o metabolismo quanto a resposta às intervenções — e da possibilidade de que o período de intervenção tenha sido insuficiente para promover melhorias nos parâmetros lipídicos. Considerando esses aspectos, várias explicações podem justificar os resultados encontrados.
Sabe-se que os níveis de HDL geralmente declinam de forma gradual com o envelhecimento, o que também compromete sua qualidade e potencial antiaterogênico21. Embora haja evidências de que a prática regular de exercícios retarde esse declínio com a idade8, no presente estudo a intervenção pode não ter sido suficiente, sobretudo considerando que muitas participantes apresentavam comorbidades22.
Além disso, uma metanálise de Prokopidis et al.12 mostrou que a redução do LDL em resposta à suplementação com whey protein e ao exercício foi mais efetiva em indivíduos com menos de 50 anos. Assim, o manejo do perfil lipídico por meio de intervenções multimodais pode tornar-se mais desafiador com o avanço da idade.
Há grande variabilidade na literatura quanto ao tipo, frequência, duração e intensidade do exercício físico para pessoas idosas, o que resulta em desfechos heterogêneos20,22,23. O exercício aeróbio, e principalmente sua combinação com o treinamento resistido, é apontado como mais eficaz para aumentar o HDL e melhorar o perfil lipídico8,24,25. Ademais, exercícios de maior intensidade e duração prolongada podem ser potencialmente mais efetivos para essa população21.
O protocolo de treinamento resistido adotado neste estudo incluiu três sessões semanais, fundamentado em evidências que sugerem que essa frequência pode gerar maiores benefícios metabólicos em pessoas idosas quando comparada a volumes menores de exercício26. A decisão de implementar três sessões também considerou o contexto institucional, já que as participantes estavam habituadas a duas sessões semanais como parte da rotina da ILPI. Dessa forma, a inclusão de uma sessão adicional permitiu um aumento viável e progressivo do volume de exercício, potencialmente necessário para induzir adaptações metabólicas mensuráveis.
Considerando as alterações fisiológicas e metabólicas associadas ao envelhecimento, e o impacto da obesidade e da adiposidade visceral sobre o perfil lipídico, presume-se que a alta prevalência de sobrepeso, obesidade e aumento da circunferência abdominal na amostra possa ter dificultado a efetividade da intervenção. Resultados distintos poderiam ter sido obtidos caso houvesse redução do peso corporal e da circunferência da cintura3,22,27. Entretanto, este estudo não teve como objetivo modificar o padrão alimentar nem promover perda de peso, o que pode explicar os achados. Por outro lado, a homogeneidade do estado nutricional elimina vieses relacionados à composição corporal inicial, permitindo que as diferenças observadas sejam mais diretamente atribuídas à intervenção proposta.
Ainda assim, resultados semelhantes já foram relatados: Berglund et al.28 observaram redução significativa do HDL após cinco anos de treinamento contínuo de intensidade moderada em homens e mulheres idosos. Entre as explicações sugeridas estão a variabilidade dos programas de exercícios descritos na literatura e a possibilidade de que os níveis de HDL em mulheres respondam menos ao exercício quando comparados aos homens.
Quanto aos desfechos glicêmicos, os níveis de glicemia de jejum reduziram-se nos três grupos; no entanto, significância estatística foi alcançada apenas no grupo que realizou treinamento resistido sem suplementação (EP). Os níveis de frutosamina aumentaram nos grupos suplementados (EW e WP) e diminuíram no grupo que realizou apenas exercício, embora essa redução não tenha sido estatisticamente significativa. É sabido que o envelhecimento está associado a alterações metabólicas que favorecem a resistência insulínica e o desenvolvimento do diabetes mellitus tipo 2. O treinamento resistido pode melhorar o metabolismo da glicose por meio de mecanismos moleculares e pelo aumento da capacidade oxidativa mitocondrial, resultando em maior captação e utilização eficiente da glicose pelo músculo esquelético9.
É importante destacar que todas as participantes eram homogêneas quanto ao uso de medicamentos, e não ocorreram mudanças na prescrição durante o período do estudo. Essa consistência minimiza potenciais fatores de confusão relacionados ao tratamento farmacológico, fortalecendo a interpretação de que a melhora observada na glicemia de jejum com o exercício pode refletir uma verdadeira resposta fisiológica.
Está bem estabelecido que, além do exercício, a nutrição é um fator-chave na melhora do perfil lipídico20. Neste estudo, o controle dietético foi assegurado, uma vez que não houve diferenças na ingestão nutricional entre as participantes, tanto no baseline quanto após a intervenção, eliminando uma das principais fontes de viés em pesquisas dessa natureza.
Quanto à ingestão proteica, não foi estabelecida uma meta de consumo total. O objetivo foi avaliar se a adição de whey protein à dieta habitual — com ingestão basal média de 0,9 g/kg/dia — seria suficiente para impactar os marcadores metabólicos. Com a suplementação, a ingestão total aumentou, mas ainda não atingiu o limite superior da faixa recomendada para todas as participantes, que é ≥1,0–1,2 g/kg/dia15. Essa abordagem reflete padrões alimentares da vida real de pessoas idosas, nos quais alcançar níveis ótimos de proteína é frequentemente desafiador. Em vez de atingir uma meta prescrita, o objetivo foi verificar se a suplementação poderia trazer benefícios metabólicos mesmo em condições de ingestão habitual subótima.
Além disso, a intervenção mostrou-se segura em relação à função renal e hepática. Houve redução significativa da creatinina e aumento da TFG no grupo EP, sem alterações nos níveis de ureia, indicando preservação da função renal. Todos os grupos apresentaram reduções significativas de TGO e TGP, e o grupo EP também mostrou redução significativa de GGT, permanecendo todas as enzimas hepáticas dentro dos valores de referência.
Este estudo apresenta pontos fortes, como o uso de um protocolo triplo-cego. Reconhecendo o impacto da dieta sobre os efeitos de intervenções multimodais — e considerando esse fator como uma importante fonte de viés em pesquisas anteriores —, selecionamos um local de estudo com oferta de refeições padronizadas e implementamos um controle alimentar rigoroso por meio da pesagem direta dos alimentos e sobras, utilizando fichas técnicas padronizadas das preparações.
Por outro lado, o estudo também apresenta limitações, como a ausência de um grupo controle, o que teria permitido uma melhor compreensão da trajetória do perfil metabólico em mulheres idosas sob controle dietético, mas sem intervenção. Além disso, pode ter ocorrido um possível viés comportamental relacionado ao consumo alimentar. Ressalta-se que os resultados devem ser interpretados considerando as características específicas da amostra, composta por mulheres idosas com idade média de 82 anos e excesso de peso. Essa população é frequentemente sub-representada em ensaios clínicos envolvendo intervenções físicas e nutricionais, o que reforça a relevância deste estudo e a necessidade de novas pesquisas com essa população.
CONCLUSÃO
Este estudo concluiu que uma intervenção de 12 semanas de exercício resistido em mulheres idosas melhorou os níveis de glicemia de jejum no grupo sem suplementação proteica, enquanto ambos os grupos que realizaram exercício apresentaram piora no perfil lipídico, independentemente da suplementação. Esses achados ressaltam a complexidade das respostas metabólicas em pessoas idosas e podem estar associados a alterações fisiológicas decorrentes do envelhecimento, à elevada prevalência de excesso de peso, à presença de comorbidades na amostra e ao período possivelmente insuficiente da intervenção. Apesar desses achados, a intervenção se mostrou segura em termos de função renal e hepática. Portanto, pesquisas futuras são recomendadas para explorar os efeitos de tais intervenções em mulheres idosas com peso adequado ou dentro de programas estruturados de perda de peso, garantindo o controle dietético para minimizar vieses metodológicos e aprimorar a compreensão dos impactos do exercício e da suplementação proteica nessa população.
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Camila Alves dos Santos


