Open-access A filosofia por trás de uma abordagem consolidada para o diagnóstico de doenças em animais de produção na América do Sul

RESUMO:

Este artigo descreve a filosofia por trás do sistema de diagnóstico das doenças dos animais de produção, desenvolvido e consolidado ao longo das últimas seis décadas e atualmente aplicado na maioria dos laboratórios de diagnóstico veterinário no Uruguai, Brasil e Argentina. A origem desse modo de operação é complexa, envolvendo diversos eventos históricos, como o período pós-guerra, mudanças de governo, ditaduras e crises econômicas, além das contribuições de instituições e pessoas. Sem dúvida, o surgimento de patologistas brilhantes entre as décadas de 1950 e 1970 foi decisivo nesse processo. Curiosamente, vários laboratórios de diagnóstico reconheceram a importância de integrar o trabalho de campo à prática laboratorial, transformando essa interação em um estilo de vida e em uma ferramenta crucial para enfrentar os desafios sanitários dos produtores. O resultado foi a criação de um sistema misto de entrada de casos, caracterizado pela investigação ativa por meio de visitas recorrentes ao campo e pela recepção passiva de amostras enviadas por veterinários de campo. Além disso, métodos de diagnóstico modernos e robustos foram aplicados, fornecendo a base para publicações científicas de impacto e teses de pós-graduação. A patologia diagnóstica integra achados morfológicos dos exames anatomopatológicos a métodos laboratoriais complementares que aumentam a precisão diagnóstica. Esse enfoque consolidou uma identidade regional capaz de resistir e superar limitações de investimento em ciência veterinária básica e aplicada, sustentada por uma visão multidisciplinar e interinstitucional. Alguns princípios fundamentais orientaram a fundação dos laboratórios de diagnóstico veterinário: 1) capital humano especializado; 2) infraestrutura, veículos, equipamentos e técnicas diagnósticas modernas; 3) financiamento de longo prazo; 4) pesquisa voltada para a solução dos problemas reais dos produtores; 5) coleta e processamento contínuos de dados epidemiológicos; 6) intercâmbio permanente de técnicas e informações entre laboratórios de diagnóstico; e 7) participação ativa de pesquisadores dos laboratórios como orientadores em programas de pós-graduação, com envolvimento de estudantes de pós-graduação nas atividades diagnósticas. Esse modo de operação desencadeou uma reação catalisadora que transformou a trajetória da saúde animal nas últimas décadas, mesmo quando os princípios 2 e 3 não foram plenamente atendidos. Adaptado às condições da América do Sul, esse modelo permitiu a construção de uma visão holística da saúde humana, animal e ambiental, fortalecendo a integração entre pesquisa, ensino, extensão, desenvolvimento científico e confiança nos serviços veterinários, tanto nos mercados internos quanto internacionais. O novo paradigma é que as futuras gerações de patologistas possam levar esse conhecimento adiante. Porque as vacas continuam no campo!

TERMOS DE INDEXAÇÃO:
Diagnóstico a campo; diagnóstico laboratorial; enfermidades de animais de produção; produtores rurais

ABSTRACT:

This article outlines the philosophy underlying the livestock diagnostic system that has been developed and consolidated over the past six decades and is now used in most veterinary diagnostic laboratories in Uruguay, Brazil, and Argentina. The origins of this approach are complex, having been shaped by historical circumstances such as the post-war period, political transitions, military dictatorships, economic crises, and the contributions of numerous institutions and individuals. The emergence of outstanding veterinary pathologists between the 1950s and 1970s played a decisive role in this process. Several diagnostic laboratories recognized the importance of integrating fieldwork and laboratory practice, making this interaction both a lifestyle and a crucial tool for addressing the health challenges of livestock. As a result, a mixed case-entry system was established, combining active investigation through regular field visits with the passive reception of samples submitted by field veterinarians. In parallel, modern and robust diagnostic methods were progressively incorporated, providing a strong basis for impactful scientific publications and postgraduate research. Diagnostic pathology combines morphological findings from anatomopathological examinations with laboratory methods to improve diagnostic accuracy. This systematic approach fostered the development of a regional identity capable of enduring, and often overcoming, the limitations imposed by restricted investment in basic and applied veterinary sciences. Such resilience was sustained by a multidisciplinary and interinstitutional perspective. Several fundamental principles guided the establishment of veterinary diagnostic laboratories: (1) the training and availability of specialized human resources; (2) adequate infrastructure, vehicles, equipment, and modern diagnostic techniques; (3) long-term and stable funding; (4) research oriented toward solving the real problems faced by livestock producers; (5) the continuous collection and processing of epidemiological data; (6) the constant exchange of diagnostic techniques and information among laboratories; and (7) the active participation of researchers as mentors in graduate programs, alongside the direct involvement of graduate students in diagnostic activities. Over the past decades, this approach has significantly transformed animal health in the region, even during periods when principles such as infrastructure and long-term funding were only partially fulfilled. Adapted to South American conditions, the model has enabled a holistic perspective on human, animal, and environmental health, strengthening the integration of research, teaching, extension, scientific development, and trust in veterinary services in both domestic and international markets. The emerging paradigm is that future generations of pathologists will carry this knowledge forward, because the cows are still in the field!

INDEX TERMS:
Field diagnosis; laboratory diagnosis; livestock diseases; livestock owners

RESUMEN

Este artículo describe la filosofía detrás del sistema de diagnóstico en animales de producción que se ha desarrollado y consolidado a lo largo de las últimas seis décadas y que actualmente se utiliza en la mayoría de los laboratorios de diagnóstico veterinario de Uruguay, Brasil y Argentina. Los orígenes de este enfoque son complejos y han sido influenciados por circunstancias históricas como el período de posguerra, las transiciones políticas, las dictaduras militares, las crisis económicas y las contribuciones de numerosas instituciones y personas. La emergencia de destacados patólogos veterinarios entre las décadas de 1950 y 1970 desempeñó un papel decisivo en este proceso. Varios laboratorios de diagnóstico reconocieron la importancia de integrar el trabajo de campo con la práctica de laboratorio, convirtiendo esta interacción tanto en un modo de vida como en una herramienta fundamental para abordar los desafíos sanitarios de la producción ganadera. Como resultado, se estableció un sistema mixto de ingreso de casos, que combinó la investigación activa mediante visitas periódicas al campo con la recepción pasiva de muestras remitidas por veterinarios de campo. En paralelo, se incorporaron progresivamente métodos diagnósticos modernos y robustos, proporcionando una base sólida para publicaciones científicas de impacto y para el desarrollo de la investigación de posgrado. La patología diagnóstica integra los hallazgos morfológicos obtenidos a partir de exámenes anatomopatológicos con métodos de laboratorio, con el fin de mejorar la precisión diagnóstica. Este enfoque sistemático favoreció el desarrollo de una identidad regional capaz de perdurar y, en muchos casos, superar las limitaciones impuestas por la escasez de inversiones en ciencias veterinarias básicas y aplicadas. Dicha resiliencia fue sostenida por una perspectiva multidisciplinaria e interinstitucional. Varios principios fundamentales guiaron la conformación de los laboratorios de diagnóstico veterinario: (1) la formación y disponibilidad de recursos humanos especializados; (2) infraestructura adecuada, vehículos, equipamiento y técnicas diagnósticas modernas; (3) financiamiento estable y de largo plazo; (4) investigación orientada a la resolución de los problemas reales que enfrentan los productores ganaderos; (5) la recolección y el procesamiento continuo de datos epidemiológicos; (6) el intercambio permanente de técnicas diagnósticas e información entre laboratorios; y (7) la participación activa de los investigadores como tutores en programas de posgrado, junto con la integración directa de los estudiantes de posgrado en las actividades diagnósticas. Durante las últimas décadas, este enfoque ha transformado de manera significativa la salud animal en la región, incluso en períodos en los que principios como la infraestructura y el financiamiento a largo plazo solo se cumplieron parcialmente. Adaptado a las condiciones sudamericanas, el modelo ha permitido una visión holística de la salud humana, animal y ambiental, fortaleciendo la integración entre la investigación, la enseñanza, la extensión, el desarrollo científico y la confianza en los servicios veterinarios tanto en los mercados internos como internacionales. El paradigma emergente sostiene que las futuras generaciones de patólogos seguirán proyectando este conocimiento, mientras las vacas continúen en el campo.

TERMINOS DE INDEXACIÓN
Diagnóstico a campo; diagnóstico laboratorial; enfermedades de los animales de producción; productores ganaderos

Introdução

A eficiência dos laboratórios de diagnóstico veterinário depende, em parte, da abordagem adotada pelos patologistas ao enfrentar os desafios relacionados às doenças dos animais de produção. Nos sistemas de produção pecuária da América do Sul, particularmente na bovinocultura, a submissão passiva de amostras, isoladamente, é em geral insuficiente para garantir diagnósticos precisos. Estudos retrospectivos demonstraram que a principal causa de diagnósticos inconclusivos é o envio de amostras autolisadas ou inadequadas por médicos-veterinários de campo (Lucena et al. 2010). Essa situação pode estar relacionada a diversos fatores, incluindo a ausência de incentivos econômicos para que os produtores realizem o transporte de animais ou amostras até os laboratórios de diagnóstico, o número limitado de veterinários que realizam rotineiramente autopsias a campo, bem como as grandes distâncias geográficas envolvidas.

Muitas enfermidades, como a morte súbita após exercício causada por plantas tóxicas e o botulismo, não apresentam lesões macroscópicas ou microscópicas. Assim, as visitas às propriedades rurais tornam-se essenciais para a obtenção de dados epidemiológicos. Como resposta a essas limitações, patologistas do Uruguai, Brasil e Argentina desenvolveram um sistema de diagnóstico misto, que combina a recepção passiva de amostras com visitas regulares a campo. Nesse contexto, foram implementados programas de capacitação com o objetivo de preparar novos médicos-veterinários para a condução de investigações a campo com o mesmo rigor científico aplicado em ambientes laboratoriais, assegurando, assim, a geração de dados diagnósticos confiáveis e de publicações científicas robustas. A integração entre a investigação a campo e o diagnóstico laboratorial culminou no desenvolvimento de uma filosofia diagnóstica distintiva, especificamente adaptada às realidades epidemiológicas e logísticas dos sistemas de produção pecuária da América do Sul.

Os Pioneiros da Filosofia do Diagnóstico das Doenças dos Animais de Produção

As contribuições de patologistas sul-americanos são há muito reconhecidas na medicina veterinária. Durante a fundação da revista Veterinary Pathology (1964), entre os integrantes de seu primeiro conselho editorial, apenas um representante da América do Sul: o Dr. Paulo Dacorso Filho (1914-1975), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) foi incluído (Cheville 2013). Um marco fundamental nesse processo foi a formação de três estudantes de medicina veterinária sob sua orientação: Dr. Carlos Hubinger Tokarnia (1929-2015, UFRRJ), Dr.h.c. Jürgen Döbereiner (1923-2018, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa) e Dr. Severo Sales de Barros (1932-2022, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM). Os patologistas conhecidos como os “Dacorso boys” (Fig. 1), denominação respeitosa atribuída a Tokarnia, Döbereiner e Barros, influenciaram direta ou indiretamente gerações subsequentes de patologistas no Brasil.

Fig. 1.
A filosofia por trás do diagnóstico das doenças dos animais de produção na América do Sul. O treinamento de Tokarnia, Döbereiner e Barros por Dacorso contribuiu para avanços significativos na compreensão das enfermidades dos rebanhos, na formação de futuros profissionais e na aplicação do diagnóstico a campo para enfrentar os desafios vivenciados pelos produtores. As imagens de Tokarnia e Döbereiner foram reproduzidas a partir da página dos fundadores do CBPA9. A imagem de Dacorso foi reproduzida a partir da página da UFRRJ10.

Entre as décadas de 1960 e 1980, o Dr. Carlos Hubinger Tokarnia e o Dr.h.c. Jürgen Döbereiner realizaram extensas investigações a campo em todo o Brasil, com foco em enfermidades infecciosas, tóxicas e nutricionais que acometem bovinos (Dutra et al. 2019). Esses estudos ampliaram significativamente o conhecimento sobre doenças que impactam a produção pecuária em ambientes tropicais e subtropicais. No mesmo período, o Dr. Severo Sales de Barros estabeleceu as bases da patologia diagnóstica veterinária moderna no sul do Brasil, na UFSM. Após especializar-se em patologia na “University of Veterinary Medicine Hannover” (TiHo), na Alemanha, introduziu a microscopia eletrônica de transmissão como ferramenta diagnóstica e de pesquisa no Brasil.

Durante sua formação na Alemanha, Barros foi profundamente influenciado pelo Dr.h.c. Paul Cohrs (1897-1977) e pelo Dr.h.c. Leo-Clemens Schulz (1923-2002), cuja orientação teve papel decisivo em sua formação profissional (Schild et al. 2022). Barros é considerado o único discípulo latino-americano desses dois eminentes patologistas alemães. Por muitos anos, a maioria dos livros-texto de patologia utilizados por estudantes de medicina veterinária e profissionais de diagnóstico foi escrita em alemão (Fig. 2-4), refletindo a forte influência da escola alemã de patologia veterinária na formação dos patologistas sul-americanos. Em 1975, o Dr. Jefferson Andrade dos Santos publicou um livro de patologia em português, representando um avanço significativo no ensino da patologia veterinária no Brasil.

Fig. 2-4.
A filosofia por trás do diagnóstico das doenças dos animais de produção na América do Sul. A coleção deixada pelo Dr. Severo Barros inclui (2 e 3) um livro enviado pelo Dr. h.c. Paul Cohrs em 1962 e (4) um recibo de um livro adquirido pelo Dr. Paulo Dacorso Filho em 1966. Nesse período, a maior parte da literatura científica relacionado a patologia era publicada em alemão. Cortesia do Dr. David Driemeier (UFRGS).

No Uruguai, o Dr. Miguel Rubino (1886-1945) (Fig. 5), que se formou no Instituto Kaiser Wilhelm (atual Sociedade Max Planck), em Berlim, e no “Institut Pasteur”, em Paris, dedicou sua carreira ao diagnóstico de doenças infecciosas, parasitárias e da deficiência de fósforo em bovinos (Zunino 2023). Seu trabalho lançou as bases para a criação de uma rede nacional de laboratórios de diagnóstico veterinário no âmbito da “División de Laboratorios Veterinarios”, “Ministério de Ganadería, Agricultura y Pesca” (DILAVE-MGAP), com unidades em Treinta y Tres, Paysandú, Tacuarembó e Montevidéu.

Fig. 5.
A filosofia por trás do diagnóstico das doenças dos animais de produção na América do Sul. Dr. Miguel Rubino. Imagem reproduzida a partir da página Durazno Digital9.

Na Argentina, durante as décadas de 1960 e 1970, o Dr. Adolfo Casaro (1936-2016) (Fig. 6-7) e o Dr. Bernardo Carrillo (1931-2024) (Fig. 8-9) estabeleceram o Grupo de Sanidade Animal no “Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria” (INTA), em Balcarce, após concluírem estudos de pós-graduação na “University of California”, Davis. Essa iniciativa marcou o início de uma tradição diagnóstica duradoura e levou à criação de um programa de residência em sanidade animal voltado à formação de novos veterinários (Casaro 1998). O Serviço Especializado de Diagnóstico de Balcarce permanece ativo até os dias atuais. Laboratórios como o INTA Bariloche e o INTA Salta, juntamente com outros grupos diagnósticos do INTA, continuam a aplicar a mesma abordagem metodológica. Esses profissionais pioneiros implementaram, dentro do contexto histórico e regional em que atuaram, um modelo diagnóstico adaptado às condições locais, enfatizando a estreita interação com a realidade do campo, sem abrir mão do rigor científico. Por meio do trabalho desses patologistas e das gerações subsequentes de pesquisadores, esses países alcançaram avanços significativos na compreensão das doenças que afetam a produção pecuária.

Fig. 6-7.
A filosofia por trás do diagnóstico das doenças dos animais de produção na América do Sul. O Dr. Adolfo Casaro é retratado (6) realizando uma autopsia a campo e (7) analisando lâminas histológicas. Cortesia do Dr. Germán Cantón (INTA Balcarce).

Fig. 8-9.
A filosofia por trás do diagnóstico das doenças dos animais de produção na América do Sul. O Dr. Bernardo Carrillo é retratado (8) investigando a calcinose enzoótica associada a Solanum glaucophyllum e (9) seccionando um cérebro no laboratório. Cortesia do Dr. Juan F. Micheloud (INTA Salta).

Identidade Regional

Na América do Norte, Europa e Oceania, o diagnóstico laboratorial veterinário baseia-se predominantemente na submissão passiva de casos. Esse modelo é sustentado por recursos financeiros substanciais, pela forte presença de universidades privadas com laboratórios diagnósticos de alta capacidade, pela existência de laboratórios estaduais estrategicamente estruturados, por incentivos fiscais que apoiam os serviços veterinários e por uma infraestrutura logística bem desenvolvida. Em contraste, os países da América do Sul enfrentam importantes limitações estruturais, incluindo restrições de recursos financeiros, a predominância de laboratórios diagnósticos vinculados a universidades públicas, a presença limitada de centros diagnósticos estaduais e uma infraestrutura logística menos desenvolvida.

Como consequência, os sistemas de diagnóstico veterinário na América do Sul adotaram uma estratégia complementar que incorpora a investigação ativa a campo (Fig. 10), associada à submissão passiva de casos. Nesse modelo, patologistas e equipes diagnósticas realizam visitas regulares às propriedades rurais para investigar surtos de doenças diretamente no campo. Sem essa abordagem, a capacidade de alcançar diagnósticos precisos nos sistemas de produção pecuária seria substancialmente limitada. Ressalta-se que diversas doenças e padrões epidemiológicos previamente não reconhecidos foram identificados durante essas investigações externas, evidenciando o papel fundamental do trabalho a campo na tradição diagnóstica sul-americana.

Fig. 10-11.
A filosofia por trás do diagnóstico das doenças dos animais de produção na América do Sul. (10) Um médico-veterinário de campo encaminhou amostras de órgãos em duas ocasiões; entretanto, ambas apresentavam autólise. Os bovinos afetados apresentavam diarreia, perda de peso e incoordenação. Posteriormente, uma equipe da “Plataforma de Investigación en Salud Animal” (PSA-INIA Tacuarembó) visitou a propriedade e realizou a autopsia de um animal. Ao exame macroscópico, foram observados ascite, edema do abomaso e do mesentério, além de fibrose hepática. Durante a inspeção do piquete, identificou-se a invasão por Senecio spp. Esses achados sustentaram o diagnóstico de seneciose durante a visita. (11) Uma expedição diagnóstica foi realizada em regiões áridas de Salta, Argentina, na qual caixas de necropsia foram transportadas em lombos de burros até as propriedades rurais.

O principal objetivo dessa abordagem é integrar a investigação ativa a campo com a submissão passiva de casos. Essa integração garante o acesso in situ a informações diagnósticas essenciais, especialmente dados epidemiológicos, e facilita a realização de autopsias em animais de grande porte, particularmente durante surtos de doenças. Nessas circunstâncias, patologistas com ampla experiência diagnóstica encontram-se melhor capacitados para avaliar sinais clínicos e investigar potenciais fatores de risco, incluindo condições de pastagem, fontes de alimentação, instalações, qualidade da água, acesso a áreas florestais e a presença de plantas tóxicas (Riet-Correa et al. 2025).

Essa abordagem também enfatiza a interação direta com produtores rurais e trabalhadores das propriedades, o que contribui para o estabelecimento de relações de confiança e possibilita a coleta de informações mais precisas e contextualizadas. Em muitos casos, a obtenção de um diagnóstico acurado é difícil, ou mesmo inviável, sem visitas às propriedades. Ao integrar observações de campo com análises laboratoriais, essa metodologia possibilita a identificação de doenças novas, endêmicas, emergentes e reemergentes, como as encefalomielites equinas do leste e oeste (Silva et al. 2011, JPC 2025), além de atuar como um sistema de alerta precoce para a possível introdução de doenças exóticas, incluindo a peste suína africana (Tokarnia et al. 2004).

Um exemplo prático ilustra a relevância dessa abordagem. Durante surtos de intoxicação por plantas hepatotóxicas, os achados laboratoriais podem revelar lesões como necrose centrolobular. No entanto, em muitas regiões, essa lesão não é específica e pode resultar da exposição a diferentes plantas tóxicas, a determinados fármacos, a larvas de moscas (Perreyia flavipes) ou a algas tóxicas. Dessa forma, as investigações a campo tornam-se essenciais para a identificação do agente etiológico preciso. A demora na determinação da causa pode prolongar a exposição dos animais ao fator de risco, resultando em perdas econômicas significativas para os produtores rurais.

A Consolidação da Filosofia

Após o desenvolvimento de uma estratégia adaptada às condições da América do Sul, essa filosofia diagnóstica passou a ser implementada em numerosos laboratórios da região. Sua adoção mais ampla coincidiu com a criação e consolidação de centros diagnósticos em diversas instituições, incluindo a UFSM, Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Universidade do Estado de Santa Catarina (UESC), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), no Brasil; a División de Laboratorios Veterinarios (DILAVE) e o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (INIA), no Uruguai; e o Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (INTA), na Argentina, entre outras.

Como exemplo, na Argentina, o INTA estabeleceu formalmente, em 2019, a Rede Nacional de Laboratórios de Diagnóstico Veterinário, composta por mais de 50 laboratórios distribuídos em 15 províncias. Em conjunto, essas instituições fortaleceram as atividades diagnósticas baseadas em investigações a campo e promoveram avanços significativos na compreensão das doenças que afetam a produção pecuária, conforme documentado em numerosos trabalhos científicos. Reuniões científicas regulares também desempenharam papel fundamental na consolidação dessa rede colaborativa. O Encontro dos Laboratórios de Diagnóstico (ENDIVET), realizado regularmente no Brasil desde 1992 e, em uma ocasião, no Uruguai, tem servido como um fórum central para a troca contínua de experiências diagnósticas, metodologias e informações epidemiológicas entre os laboratórios. Considerados em conjunto, esses avanços constituem evidências claras da efetividade dessa filosofia e demonstram a consolidação de um modo de operação distintivo para pesquisar as doenças dos animais de produção na América do Sul.

O Trabalho a Campo

Quando um laboratório inicia visitas a campo para a investigação de doenças em animais de produção, diversos fatores devem ser considerados. A interação efetiva com os produtores rurais exige a compreensão das práticas e tradições do meio rural, bem como a capacidade de conquistar a confiança das pessoas que vivem e trabalham nessas regiões há gerações. Esse aspecto é fundamental, pois os produtores frequentemente contribuem de maneira significativa para o processo diagnóstico por meio de sua experiência observacional, fornecendo, em muitos casos, indícios valiosos sobre as possíveis causas dos surtos de doenças.

No Brasil, diversas enfermidades foram inicialmente reconhecidas por agricultores e posteriormente confirmadas por laboratórios de diagnóstico. Como exemplo, o surto de intoxicação causado pelo cogumelo Ramaria flavo-brunnescens, ocorrido em 1958, foi inicialmente relatado por um produtor rural que informou ao Dr. Severo Sales de Barros que a enfermidade surgia em áreas de reflorestamento de eucalipto após os bovinos ingerirem o que ele descreveu como um “cogumelo amarelo” (Barros 1958). Na Argentina, o diagnóstico de intoxicação pela gramínea Phalaris angusta foi sugerido por um trabalhador rural que relatou ao Dr. Ernesto Odriozola sua suspeita quanto ao envolvimento dessa planta (Odriozola, comunicação pessoal). De forma semelhante, no Uruguai, casos de hepatotoxicidade em ovinos causados por Vernonia plantaginoides vêm sendo reconhecidos por produtores e médicos-veterinários de campo desde a década de 1960 (Dutra et al. 2016).

No Uruguai, os médicos veterinários de campo estão organizados por meio de centros médico-veterinários departamentais, que atuam como elo entre os produtores e os laboratórios de diagnóstico veterinário. Essa estrutura melhora o alcance e a eficácia dos serviços de diagnóstico em todo o país. As investigações a campo também demandam um forte comprometimento logístico. As equipes diagnósticas frequentemente precisam realizar longos deslocamentos e atuar sob condições ambientais adversas, incluindo temperaturas extremas, chuvas intensas, tempestades, alagamentos e infraestrutura viária precária. Em regiões remotas, como o noroeste da Argentina, algumas visitas às propriedades são realizadas utilizando-se mulas (Fig. 11) ou mesmo a pé, uma vez que as áreas afetadas são inacessíveis por veículos.

Registro Sistemático das Informações Geradas na Rotina Diagnóstica

Em laboratórios de diagnóstico veterinários que se baseiam tanto na vigilância ativa quanto na passiva de doenças, o aumento contínuo do número de casos impõe desafios significativos para o registro, a organização e o gerenciamento das informações ao longo do tempo. Historicamente, os dados diagnósticos eram registrados manualmente e posteriormente armazenados por meio de ferramentas computacionais relativamente simples. Apesar dos avanços tecnológicos expressivos na área de gestão de dados em âmbito global, muitos dos sistemas de bancos de dados atualmente utilizados em laboratórios de diagnóstico veterinário ainda apresentam limitações relevantes. Em diversos casos, esses sistemas foram desenvolvidos sem a participação direta de médicos-veterinários, resultando em ferramentas que não refletem adequadamente o fluxo de trabalho, o raciocínio diagnóstico e as necessidades específicas de dados da patologia veterinária e da investigação de enfermidades a campo. Como consequência, essas plataformas frequentemente se mostram insuficientes para atender às demandas práticas e analíticas dos laboratórios de diagnóstico veterinário.

Um banco de dados desenvolvido pelo patologista veterinário Dr. Fernando Dutra (DILAVE Treinta y Tres), em colaboração com profissionais da área de desenvolvimento de software, resultou em uma plataforma capaz de integrar dados epidemiológicos, clínicos, patológicos e estatísticos (Quintela 2025). O sistema utiliza códigos padronizados para o registro de sinais clínicos, características individuais dos animais (idade, sexo e raça), achados patológicos e diagnósticos finais. Os casos são georreferenciados por meio do número único de nove dígitos atribuído aos estabelecimentos pecuários pela Dirección de Contralor de Semovientes (DICOSE), órgão oficial responsável pelo controle da movimentação animal no Uruguai. Essa funcionalidade possibilita análises espaço-temporais detalhadas da ocorrência das enfermidades. O banco de dados encontra-se ainda conectado a um sistema de informações geográficas (SIG), que incorpora polígonos correspondentes às jurisdições policiais oficiais e integra registros anuais de estabelecimentos pecuários e declarações de efetivo animal, permitindo, assim, análises espaciais altamente precisas dos casos diagnósticos.

Atualmente, a plataforma reúne mais de 50 anos de informações diagnósticas geradas pela DILAVE e, mais recentemente, pela Plataforma de Investigación en Salud Animal (PSA-INIA). Essa iniciativa representa o primeiro esforço na América do Sul para integrar, em uma única plataforma, informações diagnósticas provenientes tanto da vigilância ativa quanto da passiva, com o objetivo de gerar conhecimento estratégico voltado à vigilância e ao controle das doenças dos animais de produção. Grande parte dos dados gerados durante as atividades diagnósticas realizadas a campo têm subsidiado a publicação de diversos livros sobre enfermidades de ruminantes e equídeos (Riet-Correa et al. 2023), plantas tóxicas (Tokarnia et al. 2012a, Riet-Correa et al. 2024) e distúrbios decorrentes de deficiências minerais (Tokarnia et al. 2012b).

Conclusões

A adaptação das estratégias diagnósticas utilizadas para identificar as enfermidades dos animais de produção tornou-se necessária diante das particularidades dos sistemas produtivos da América do Sul. A capacitação das equipes dos laboratórios de diagnóstico para a realização sistemática de visitas às propriedades rurais representou uma mudança significativa na investigação e no diagnóstico das doenças dos animais de produção. Esse modelo não apenas aprimorou a acurácia diagnóstica, como também contribuiu para o fortalecimento de recursos humanos especializados e para o desenvolvimento de programas de formação na graduação e na pós-graduação em medicina veterinária e patologia.

O conhecimento gerado ao longo desse processo constitui, atualmente, uma referência importante para as futuras gerações de profissionais que serão responsáveis pela condução de novos laboratórios de diagnóstico. Esse legado integra uma história de sucesso cuja preservação e avanço são responsabilidades atribuídas aos profissionais contemporâneos da área. Além disso, a experiência acumulada ao longo de décadas evidencia a importância crítica da colaboração contínua entre laboratórios de diagnóstico, médicos-veterinários de campo e instituições de pesquisa. O fortalecimento dessas redes de cooperação é essencial para assegurar que os sistemas de diagnóstico veterinário continuem a evoluir e permaneçam aptos a responder de forma eficaz aos desafios emergentes relacionados à saúde e à produção animal.

Agradecimentos

Mizael Machado é pesquisador do “Sistema Nacional de Investigadores” (SNI, ANII) do Uruguai.

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  • 9
    Acesso em 9 de março de 2026. https://www.pvb.com.br/portal/fundadores
  • 10
  • 9
    Acesso em 9 de março de 2026. https://www.duraznodigital.uy/
  • Aprovação ética
    Não foi necessária a aprovação por comitês de ética em pesquisa para a realização deste estudo, uma vez que não foram conduzidos experimentos com animais.
  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os autores confirmam que os dados que sustentam os achados deste estudo estão disponíveis no próprio artigo. Os dados derivados que embasam os achados deste estudo podem ser obtidos junto ao autor correspondente, mediante solicitação.

Editado por

  • Editor-Chefe
    Fabiano José Ferreira de Sant’Ana

Disponibilidade de dados

Os autores confirmam que os dados que sustentam os achados deste estudo estão disponíveis no próprio artigo. Os dados derivados que embasam os achados deste estudo podem ser obtidos junto ao autor correspondente, mediante solicitação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Mar 2026
  • Aceito
    09 Abr 2026
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