Open-access SABERES-FAZERES SOCIOAMBIENTAIS E A COPRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS LOCALIZADOS

Resumo

A coprodução de conhecimentos, por meio dos saberes-fazeres socioambientais, podem construir relações universidade-território de mais proximidade e horizontalidade. Assim, o objetivo desse artigo é refletir sobre a práxis territorial, considerando a importância dos saberes-fazeres socioambientais, como caminho de valorização e ativação das territorialidades. Nosso lugar de pesquisa-ação-reflexão é o Centro de Integração Madre Maria Domênica (CIMMAD), localizado no bairro Padre Ulrico, em Francisco Beltrão (Paraná, Brasil). Como caminho metodológico, desenvolvemos a investigação-ação-participativa (IAP), considerando a perspectiva decolonial, como forma de ressignificar nossos fazeres acadêmicos. Para pesquisar-atuar-refletir sobre o território, escolhemos em conjunto com os sujeitos envolvidos na pesquisa a realização de oficinas e cartografia social. Os resultados nos fazem refletir que esse movimento contribui para leituras de território como lugar de vida, em que relações socioambientais, são fontes importantes para a coprodução de conhecimentos localizados, a partir da construção da ciência popular ou de ciências ‘outras’, comprometidas com a transformação social.

Palavras-chave:
Território; IAP; Práxis Territorial

Abstract

The co-production of knowledge, through socio-environmental know-how, can build closer and more horizontal university-territory relationships. Thus, the objective of this article is to reflect on territorial praxis, considering the importance of socio-environmental know-how as a path to valorizing and activating territorialities. Our place for research-action-reflection is the Madre Maria Domênica Integration Center (CIMMAD), located in the Padre Ulrico neighborhood, in Francisco Beltrão (Paraná, Brazil). As a methodological approach, we developed participatory-action research (PAR), considering the decolonial perspective, as a way of redefining our academic activities. In order to research-act-reflect on the territory, we chose, together with the subjects involved in the research, to carry out workshops and social cartography. The results make us reflect that this movement contributes to readings of territory as a place of life, in which socio-environmental relations are important sources for the co-production of localized knowledge, based on the construction of popular science or ‘other’ sciences, committed to social transformation.

Keywords:
Territory; PAR; Territorial Praxis

Resumen

La coproducción de conocimiento, a través del saber socioambiental, puede contribuir a relaciones universidad-territorio con mayor proximidad y horizontalidad. Así, el objetivo de este texto es reflexionar sobre la praxis territorial, considerando la importancia del saber socioambiental, como camino para valorar y activar las territorialidades. Nuestro lugar de investigación-acción-reflexión es el Centro de Integración Madre María Domânica (CIMMAD), ubicado en el barrio Padre Ulrico, en Francisco Beltrão (Paraná, Brasil). Como camino metodológico, desarrollamos la investigación-acción participativa (IAP), considerando la perspectiva decolonial, como una forma de darle un nuevo significado a nuestras actividades académicas. Para ello, investigar-actuar-reflexionar sobre el territorio, optamos junto a los sujetos por realizar talleres y cartografía social, entendiendo que este movimiento contribuye a lecturas del territorio como lugar de vida, en el que las relaciones socioambientales pueden ser fuentes importantes para la coproducción de conocimiento localizado, que contribuya a la construcción de una ciencia popular u 'otra' ciencias, comprometida con la transformación social.

Palabras-clave:
Lluvias; Territorio; IAP; Praxis Territorial

INTRODUÇÃO

As experiências no/do lugar configuram-se como movimentos dinâmicos e complexos, que exige ética e compromisso social, no sentido de pensar formas diversas de contribuir para a coprodução de conhecimentos. Esse movimento volta-se para demandas sociais, a partir dos sujeitos, modos de vida, territórios e saberes-fazeres socioambientais. Assim, a proposta é pensar-agir-pesquisar, a partir da dimensão de territorialidades cotidianas, por meio da metodologia de investigação-ação-participativa (IAP), e como caminho epistêmico optamos pela perspectiva decolonial, buscando refletir nossos fazeres junto a classes populares. O objetivo da pesquisa, é refletir sobre a práxis territorial, considerando a importância dos saberes-fazeres socioambientais como caminho de valorização e ativação das territorialidades. Nosso lugar de pesquisa é o Centro de Integração Madre Maria Domênica (CIMMAD), localizado no bairro Padre Ulrico, em Francisco Beltrão (Paraná, Brasil), o qual, abriga a Horta comunitária Amarbem.

Esse movimento de pesquisar-atuar-refletir com o território, entendendo-o como lugar de vida, pode contribuir para ressignificar a relação universidade-território, considerando a práxis. As relações socioambientais presentes em cada território, são fontes importantes para a coprodução de conhecimentos localizados, o que contribui para a construção da ciência popular - defendida por Fals Borda (2012 [2003]), em que o conhecimento produzido, tem por finalidade a transformação social, a partir da utilidade e não da busca incessante pela verdade.

Nesse contexto, entendemos a perspectiva decolonial, como a resposta epistêmica às violências da colonialidade, enquanto movimento que busca ressignificar os fazeres acadêmicos, por meio de ciências ‘outras’ (ou ciência popular), considerando os saberes e conhecimentos dos sujeitos localizados na parte silenciada e negada pela racionalidade moderna (MIGNOLO, 2006). Pois, conforme o autor, as formas de produzir a ciência moderna, ocorreram por meio da negação dos conhecimentos dos sujeitos colonizados, desta forma a descolonização em marcha, está atrelada à processos de socialização de conhecimentos permeados pela descolonização epistêmica, em favor de ciências outras.

Num movimento que ampliem as possibilidades de entender as ciências a partir de outras perspectivas, abrindo espaços para movimentos de incorporação de “[...] diferentes princípios e práticas de conhecer e batalhar por uma sociedade cujo objetivo final seja uma vida decentes para todos” (MIGNOLO, 2006, p.683) e todas. O que convida a outras compreensões da relação universidade-território, valorizando os sujeitos, lugares, saberes e fazeres que dinamizam as interações sociedade e natureza.

A IAP, vem ao encontro desse movimento de ressignificar as relações universidade-território, orientando o processo de pesquisa em favor da transformação social. Nesse sentido, Fals Borda (1978), destaca alguns princípios fundamentais dessa metodologia, sendo: i - inserção social, com compromisso político; ii - devolução sistemática, com envolvimento dos sujeitos no processo de pesquisa, e a adoção de uma linguagem adequada e de fácil compreensão para todos/as; iii - relações sujeito-sujeito, configurando relações horizontais (em diálogo e participação); iv - postura de mediação entre os/as pesquisadores/as com as instituições e grupos populares; v - ritmo de reflexão-ação, permeado pela práxis, e; vi - fuga de teorias puras e paradigmas descontextualizados.

Desse modo, considerando os princípios orientados pela IAP, coproduzimos nossa pesquisa, por meio da inserção social, desenvolvimento de oficinas e cartografia social, construção de um diário de campo e leituras de autores/as, que contribuíram para o tema abordado. Outrossim, cabe destacar que os sujeitos da pesquisa, participam da horta comunitária Amarbem, localizada no CIMMAD. O CIMMAD é uma instituição religiosa, de assistência social, sem fins lucrativos, que atua no atendimento e proteção social básica e formativa, atendendo o público infantil (4 a 12 anos), no regime de contraturno escolar, com especial atenção às crianças em vulnerabilidade socioeconômica. Está sob coordenação da Congregação das Pequenas Irmãs da Sagrada Família (PISF), sendo mantida pela Caritas Diocesana de Palmas.

A horta comunitária Amarbem/CIMMAD, é resultado de um projeto de extensão universitária da UNIOESTE (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) - campus de Francisco Beltrão-, voltado para a recuperação e manutenção das plantas medicinais, no bairro Padre Ulrico, contando com a participação das guardiãs das plantas medicinais (mulheres idosas que guardam e reproduzem saberes, usos e cultivos das plantas). O projeto desenvolve atividades no bairro, desde 2013 junto ao grupo da horta comunitária, estando desde 2017 no espaço do CIMMAD. Cabe destacar, que o bairro se originou na periferia urbana do município, congregando sujeitos em situação de vulnerabilidade socioeconômica e ambiental.

Assim, a partir de 2021 passamos a participar das atividades do grupo da horta comunitária e da instituição CIMMAD, por meio da IAP, desenvolvendo diferentes atividades. Também contamos com a colaboração do grupo NAPI - Alimento e Território (Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação). Esse envolvimento com os sujeitos e instituições possibilitou espaços de diálogos de saberes e fazeres distintos, que contribuíram para o desenvolvimento da pesquisa. Este artigo é um dos resultados da pesquisa de doutorado, vinculada ao programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (PPGDR/UTFPR).

Nesse contexto, entendemos a universidade como espaço de formação acadêmica, de diálogos e produção de conhecimentos, mas sem se restringir a ela, pois esta está inserida num território de relações de poder, conflitos, disputas, apropriações e enfrentamentos. E o território é produzido socialmente, complexo e transescalar, contém alianças e afetividades, bem como práticas organizativas, econômicas, culturais e políticas.

O lugar pode ser entendido a partir de uma construção social e histórica que congrega pensamentos, práticas, cosmologias, materialidades, símbolos e significados. Assim, na sua relação com o território, contém uma construção social dinâmica tecida pelos sujeitos, por meio das relações econômicas, ambientais, políticas e culturais; na vida cotidiana, lugar e território não estão separados (SAQUET, 2019), e podem ser entendidos por meio da práxis territorial, conforme iremos refletir.

Para tanto, o artigo está dividido em quatro momentos, nesta introdução buscamos contextualizar a problemática e locus de pesquisa, apresentar o objetivo, justificativa e a perspectiva teórico-metodológica. No segundo momento, refletimos sobre a práxis no território, a partir da atuação do grupo da horta comunitária Amarbem/CIMMAD e, no terceiro, buscamos dialogar sobre a experiência no lugar. Por fim, as considerações finais trazem uma síntese de nossas principais reflexões.

PRÁXIS TERRITORIAL: EXPERIÊNCIAS LOCALIZADAS

A práxis territorial no contexto da IAP, volta-se para relações universidade-território com mais proximidade e horizontalidade, o que exige inserção social e diálogos contínuos com os sujeitos com quem se trabalha. Nesse sentido, buscamos refletir sobre a importância da práxis no território, considerando os modos de vida e os saberes-fazeres do sujeitos, num movimento que considera os lugares de vida.

Trabalhar na interface universidade e território requer entender modos de resistências enquanto práxis de enfrentamento, confronto e disputa, envolvendo sujeitos no ato de resistir e lutar, fortalecendo as relações de confiança, solidariedade e cooperação (NATES-CRUZ, 2009; SAQUET, 2019), do mesmo modo que existem outros elementos que configuram as resistências cotidianas. Elementos estes, que podem ser mobilizados na relação universidade-território a favor de comunidades urbanas e rurais.

Nesse sentido, a práxis territorial pode contribuir para compreensões das relações sociedade-natureza, como caminho de aperfeiçoamento da IAP, na dimensão da inserção social e do ritmo de reflexão-ação, sendo um movimento solidário, participativo e criativo (SAQUET, 2019), que envolve sujeitos, saberes, fazeres e as vivências cotidianas, no processo de coproduzir conhecimentos.

Desse modo, podemos entender a práxis, como caminho de interpretação das possibilidades “[...] numa dialética necessidade-práxis, por meio da qual as pessoas agem cotidianamente para se reproduzir, da melhor maneira possível, biológica e socialmente” (SAQUET, 2019, p. 108). A práxis pode ser experimentada, como aprendizagem, nas experiências dos sujeitos com sua própria realidade e nas relações com a natureza, balizando, assim, diferentes saberes, conhecimentos e modos de vida. Esta compreensão possibilita a incorporação dos sujeitos na construção dos discursos, fortalecendo os processos de desprendimento da lógica moderno/ocidental. Esse movimento, no entanto, exige a valorização dos sujeitos e o reconhecimento de seus saberes-fazeres socioambientais, bem como o respeito e a confiança na autonomia dos grupos sociais de base (FALS BORDA, 2015 [1998]).

Conforme Floriani (2009, p.9), os saberes e fazeres socioambientais precisam estar ligados ao

lugar, de modo que estes saberes estejam localizados e possam ser reinventados “[...] pela diversidade do pensamento vivo e corporificado em práticas, saberes críticos e tecnologias inventadas pela engenhosidade humana, em tenso diálogo, contraditório, criativo e crítico sobre os processos de interação entre as sociedades e a natureza”. Com essa compreensão, a partir de 2021, trabalhando em conjunto com o grupo da horta comunitária Amarbem/CIMMAD, por meio da IAP, desenvolvemos diferentes ações de inserção social, buscando contribuir para a resolução de próprios, valorizando sujeitos, lugares e práticas cotidianas.

Entre as atividades desenvolvidas em participação com o grupo, podemos destacar, a realização de oficinas com cartografia social, entendendo que esse movimento envolve novas percepções sobre o viver bem, em que movimentos sociais, a defesa dos bens comuns e do território, juntamente com a luta pela soberania alimentar, podem contribuir para a transformação social, mesmo na escala do lugar, acontecendo em processos silenciosos e cotidianos.

Então, o lugar contém a dimensão do desenvolvimento da vida em múltiplos níveis, considerando os processos históricos internos e as interferências externas na dinâmica das relações estabelecidas entre os sujeitos e entre os sujeitos e o lugar. Este último é a base para a reprodução da vida, em que as relações que os sujeitos constroem com os espaços habitados se materializam nos modos de vida cotidiano. “É o espaço passível de ser sentido, pensado, apropriado e vivido através do corpo” (CARLOS, 1996, p.20), como forma de experimentação das dinâmicas sociais, culturais e ambientais.

Os saberes territoriais vinculados às resistências cotidianas, como as identificadas e vividas no CIMMAD, fundamentam a tomada de consciência política e de lugar, frente à “[...] transição cultural e ecológica que enfrentamos na crise inter-relacionada do clima, da alimentação, da energia, da pobreza e dos significados” (ESCOBAR, 2016, p.14). Em virtude da íntima relação plantas medicinais-solo-água-corpos-saberes, há uma sinergia com a Terra, em que os sujeitos sentipensam o lugar, buscando afirmar a coexistência nas relações sociedade-natureza-comunidade (FALS BORDA 2015 [1998]).

Dessa forma, o lugar torna-se a dimensão sentida, apropriada e vivida no cotidiano, por meio do corpo, permitindo aos sujeitos habitar o espaço, seja pelos modos de uso seja pelas múltiplas relações sociais, econômicas, religiosas, culturais e políticas, ampliando a dimensão do vivido. E, a partir da nossa pesquisa, o bairro materializa as relações mais sutis do lugar, sendo a base para as relações de vizinhança, encontros, brincadeiras, passeios e compras; é “[...]o percurso reconhecido de uma prática vivida/ reconhecida em pequenos atos corriqueiros, e aparentemente sem sentido que criam laços profundos de identidade” (CARLOS, 1996, p.21), que produzem o território como lugar de vida.

Com essa compreensão o território nos auxilia na compreensão da dimensão epistemológica dos saberes, ao mesmo tempo que estrutura as ações ontológicas das relações sociais e com a natureza. Os sujeitos deixam de ser o “Outro”, para constituírem, no processo de pesquisa, um “Nós”. Esse movimento possibilita diferentes leituras do social e do território, numa íntima relação com a natureza e seus desdobramentos. Dessa forma, para entender o território como lugar de vida, considerando relações presentes no contexto da horta comunitária Amarbem/CIMMAD, a partir da práxis, propomos e realizamos oficinas com o grupo.

A oficina do 14/07/2023 ocorreu no espaço do Ecomuseu Jorge Baleeiro de Lacerda, localizado nas dependências do Parque Ambiental Irmão Cirilo (bairro Padre Ulrico). Com duração de 3 horas, em que desenvolvemos: i - devolução sistemática referentes as atividades desenvolvidas junto ao grupo entre 11/2021 a 7/2023, por meio de uma roda de conversa com apresentação de registros fotográficos; ii - uma roda de diálogo sobre o bairro (como é viver no bairro Padre Ulrico?), com registro dos depoimentos, e; iii - desenho da cartografia social do bairro e da horta comunitária.

Já a oficina do 21/07/2023 ocorreu nas dependências do CIMMAD, em que o grupo finalizou a cartografia social, bem como ocorreu uma integração com outros sujeitos que interagem indiretamente com a horta comunitária. A exemplos das professoras e equipes de limpeza e pedagógica do CIMMAD, o que resultou em diálogos importantes sobre a existência da horta e dos benefícios proporcionados às pessoas que vivem cotidianamente na instituição.

Com relação à cartografia social (Figura 1) podemos destacar que esta significou um movimento de escuta e ressoar dos significados, sentimentos e percepções dos sujeitos sobre o território com ênfase no CIMMAD e na horta comunitária. Entre os aspectos que mais chamaram a atenção, tem-se: i - a construção da cartografia em duas etapas, em que primeiro o grupo partiu de suas casas e ruas, descrevendo e comentando a vida no bairro, depois como foi se integrando no grupo da horta comunitária, e; ii - o desenho da horta, em um papel separado, enfatizando a importância da horta e do trabalho coletivo para o reavivamento das territorialidades.

Figura 1
Cartografia social grupo horta/CIMMAD. Fonte: Elaboração própria (2024).

Esse movimento de pensar o território pode ser formas de resistência, que se configuram nos modos de vida, de habitar e viver. Conforme Albán Achinte e Rosero (2016), a resistência se converte em questionamentos sobre o poder, a natureza e as construções das subjetividades, gerando ‘outras’ éticas de vida, rompendo com a dicotomia natureza x cultura. Assim, ao nos inserirmos no território do bairro, considerando o nó territorial do CIMMAD, na teia de redes e relações socioambientais, as cartografias representam as leituras dos sujeitos a partir da sua ótica de vida cotidiana.

Conforme pode ser observado na cartografia social, as leituras sobre o território realizadas pelos sujeitos contém, como se esperava, símbolos, significados, subjetividades e identidades que se caracterizam no nível do imaterial, envolvendo lutas pessoais, conflitos, problemas e memórias que interrelacionam a história do lugar com a vida das pessoas. Bem como, elementos materiais, como as principais ruas, distribuição das habitações, igrejas, escolas, o CIMMAD e a horta, o parque ambiental, o rio, a área industrial. Todos os elementos que caracterizam a dinâmica territorial do bairro Padre Ulrico.

Outro movimento experenciado nas oficinas, foi a escolha do grupo, por cartografar a horta comunitária Amarbem/CIMMAD (figura 2) em papel separado. O que ajuda a entender as relações comunitárias e de resistência que esse lugar representa para o grupo. No sentido de que a horta representa, tanto a produção de alimentos orgânicos quanto a preservação e manutenção das plantas medicinais, remetendo ao cuidado com os saberes, os usos e as formas de cultivos. Assim, podemos entender que as relações construídas na horta comunitária, são modos de resistências, que se organizam no nível local, voltadas para a produção orgânica e para a manutenção dos saberes-fazeres socioambientais.

Figura 2
Cartografia da horta Amarbem/CIMMAD. Fonte: Elaboração própia (2024).

Na cartografia social, podemos observar da esquerda para a direita, a centralidade da horta no bairro, a estrutura da horta (ao centro) e as plantas medicinais - representadas pelas mandalas - também como aspecto essencial, que dá sentido à existência da horta comunitária e do grupo das guardiãs das plantas medicinais. Esses aspectos revelam as territorialidades das pessoas, que podem de acordo com Saquet (2019) configurar redes - de circulação e informação - bem como, interações que podem ser harmoniosas e/ou conflituosas, ou ainda permeadas por coexistências espaço-temporais.

Neste sentido, as experiências que vivenciamos em conjunto com os sujeitos da horta comunitária, mostra que, também somos sujeitos territorializados, por meio da comunicação que estabelecemos com essas pessoas, nas reuniões, oficinas e cartografias. Ou ainda, na prática da inserção social, em que partilhamos experiência semanalmente, por meio da capina, do plantio de plantas medicinais e hortaliças, cuidado de canteiros e das áreas coletivas, nos quais somos atuantes, no trabalho braçal.

Nessa análise, os elementos materiais não se separam dos imateriais, considerando o contexto social e político de formação do bairro, em que as lutas populares foram fundamentais para melhorias das condições de vida dessa população. Desse modo, na área cartografada descreve-se as territorialidades cotidianas dos sujeitos no território, partindo do CIMMAD, como nó territorial de encontro entre sujeitos. A cartografia realizada com os sujeitos evidencia aspectos de pertencimento e identidades que conformam as comunidades, enquanto modos de vida e usos dos territórios, denotando as dimensões mais sutis das resistências.

A resistência vai acontecendo a partir dos “[...]dispositivos do saber, fazer, pensar, sentir e atuar desde as experiências históricas” (ALBÁN ACHINTE e ROSERO, 2016, p. 37), buscando valorizar as relações construídas nos territórios, por meio de trocas participativas e respeitosas entre os sujeitos e com a natureza. Esse movimento, em nossa experiência tem como característica, o enfrentamento à pobreza e a insegurança alimentar, mesmo acontecendo em uma escala local, tem como desdobramento o acesso à alimentos saudáveis e a manutenção de saberes-fazeres socioambientais, que fortalecem lutas pela conservação ambiental, promovendo práticas de cuidado com a água, com a terra, com as plantas e com as pessoas.

Dessa forma, entendemos que a relação universidade-território, pode ser trabalhada a partir de práticas, como essas que estamos fazendo, descrevendo e refletindo, como um meio de aproximar os sujeitos das soluções para os problemas cotidianos, trabalhando em favor da transformação social. Esse processo, volta-se para a inteligência criativa e a mediação para produzir conhecimentos úteis socialmente, que estejam a favor das causas populares, valorizando-se as potencialidades dos sujeitos, suas vontades, necessidades e decisões (FREIRE, 2018 [1968]; FALS BORDA 2015 [1998]).

A coprodução de conhecimentos pode acontecer a partir das interrelações socioambientais, envolvendo os diferentes olhares, modos e percepções da realidade, entendendo a natureza como elemento interior ao corpo, sem separação. As experiências vivenciadas no CIMMAD, demonstram modos de interpretação e reprodução da vida, que fogem da lógica moderna, acontecendo nas fronteiras - ontológicas e epistemológicas - voltadas para a solidariedade, a cooperação e o cuidado com o outro e com a natureza.

CARTOGRAFANDO A HORTA COMUNITÁRIA

Nesse movimento de práxis, a cartografia social tornou-se uma ferramenta fundamental de análise e reflexão acerca do território, enquanto lugar de vida, resistência e coprodução de conhecimentos. Assim, entendemos que refletir sobre nossas pesquisas, ações, coprodução de saberes-fazeres nas relações, são importantes como formas possíveis de habitar as e nas fronteiras epistemológicas. O que pode contribuir para o fortalecimento das resistências cotidianas, do território como lugar de vida, valorizando e respeitando as pessoas que conformam essas experiências e territórios.

As fronteiras, desse modo se configuram como “zonas vivas” (CURY, 2019), tecidas em distintos movimentos, contendo conflitos e relações multiescalares, ou ainda é o “lugar da alteridade”, de encontros, desencontros e “descoberta do outro” (MARTINS, 1997). Em que, o pensamento de fronteira pode ser construído por diferentes sujeitos e relações, contribuindo para ciências populares, localizadas nos territórios.

Outrossim, estamos entendendo que o “[...]território de vida institui-se em uma prática histórica, em uma comunicação intercultural e em um diálogo com a ciência e com outros saberes, em um processo de objetivação da vida” (LEFF, 2021, p. 476; grifo do original). Os projetos voltados para o lugar podem contribuir para a transformação social na escala das territorialidades cotidianas, no saber-fazer. Valorizando-se as pessoas, seus modos de vida e subjetividades, bem como suas resistências individuais e coletivas. Nessa direção, buscando compreender essas relações, que os sujeitos configuram com a horta comunitária, desenvolvemos outra cartografia social, em junho de 2024, com o objetivo de atender ao pedido do grupo, para juntos/as cartografarmos a horta, considerando o acervo vivo de plantas medicinais. A realização desse exercício, tornou-se especial, no sentido de materializar relações de confiança, respeito e diálogo.

Em março de 2024, na reunião do grupo, as guardiãs destacaram a importância de identificar melhor a disposição das plantas, bem como atualizar a lista do acervo, tendo em vista a ideia, que a horta funciona como uma casa de plantas medicinais, atendendo a comunidade e instituições que buscam por mudas de plantas medicinais na região. Assim, combinamos um encontro com as guardiãs no dia 04 de junho, na horta para realizarmos o registro fotográfico de todas as plantas e demarcarmos no papel a disposição das mesmas.

Nesse primeiro encontro, além de fotografarmos as plantas, desenhamos o primeiro esboço da cartografia, considerando as escolhas dos símbolos, para a formação da legenda. No dia 18/06/24, nos encontramos novamente para finalizar a cartografia, utilizando as imagens do encontro anterior. Com esse exercício, buscamos coproduzir uma cartografia social voltada para a identificação e planejamento das atividades na horta comunitária. Assim como, realizamos o movimento de devolução sistemática, no sentido de dialogarmos sobre o cuidado e a preservação das relações socioambientais, presentes nesse território.

Outro aspecto importante, foi o movimento de dentro para fora, em que o grupo solicitou a realização da cartografia, com o objetivo de melhorar a comunicação, principalmente na divisão de tarefas, assim, com o uso da cartografia, todas/os tem acesso à disposição das plantas, mandalas e canteiros, podendo indicar o local que trabalhou durante o período que esteve na horta, bem como esse material auxilia no planejamento do plantio de novas plantas ou replantio daquelas que precisam de manutenção (figura 3).

Figura 3
Cartografia da horta comunitária Amarbem/CIMMAD-2024. Fonte: Elaboração prória (2024).

Com a cartografia pronta, o grupo considerou importante a produção de uma representação cartográfica detalhada da área das mandalas. Para tanto, realizamos um exercício conjunto de análise da cartografia social, utilizando uma plataforma de desenho para produzir uma representação temática - colorida e nominada - da área em questão (figura 4). Desse modo, o grupo utiliza de forma didática essa representação para a proposição e plantio de novas plantas medicinais, bem como organiza a limpeza do espaço.

Figura 4
Representação das mandalas Amarbem/CIMMAD-2024. Fonte: Fonte própria (2024).

Com esse movimento podemos entender diferentes sensibilidades e leituras da realidade e a construção do pensamento a partir de outros perspectivas e com mais autonomia decisória, por parte do grupo. Em que, situar-se como sujeitos políticos apresenta-se como uma necessidade no processo de mudança dos modos de produção de conhecimento e saberes-fazeres socioambientais, que podem potencializar diferentes modos de pensar e conhecer, para então fortalecer bases de uma consciência histórica voltada para a produção de territórios como lugar vida.

E, foi e permanece, a partir dessas bases epistêmicas, que buscamos refletir coproduções de saberes socioambientais, com base em nossas experiências no CIMMAD, no bairro Padre Ulrico. Nesse contexto, podemos entender a diversidade presente no lugar, tanto de materialidades quanto de imaterialidades (afetos, saberes, subjetividades, sensibilidades) que conformam as territorialidades cotidianas e os saberes socioambientais. Essa compreensão volta-se para a sustentabilidade da vida, que nessa experiência, está associada à problemática ambiental, situada numa trama complexa que envolve interrelações sociedade-natureza.

A coprodução de conhecimentos socioambientais, dessa forma, pode contribuir para potencializar a construção de sentidos e maneiras outras de interação com a natureza, de modo a mobilizar “[...]ação com valores não mercantis e para fins não materiais nem utilitários” (LEFF, 2011, p. 319); em que o diálogo de saberes se configura como “[...]saber marcado pela diversidade de saberes e pela diferenciação dos sentidos do ser” (LEFF, 2011, p. 330), voltados para a existência dos sujeitos, seus saberes, modos de vida e sensibilidades de viver. À construção da sustentabilidade pelos sujeitos, enquanto coletivos que sentipensam o lugar, a natureza, os territórios, as geografias, as subjetividades, identidades e culturas espaço-temporalmente, configurando processos que podem contribuir para superar o desenvolvimento hegemônico.

Esse movimento exige sentir, trabalhar e educar em favor de relações socioambientais, fundamentadas na sustentabilidade da vida, sem exclusão e violência, valorizando-se os sujeitos e a natureza em interrelações continuas e dinâmicas, dessa forma, trabalha-se para a paz, em suas diferentes dimensões e níveis, em favor de uma práxis sentipensante voltada para as pessoas, comunidades, culturas, saberes, identidades e histórias (SANDOVAL-FORERO, 2021).

Nesse caminho, outro aspecto importante relacionado ao movimento de consolidação da horta em questão, em favor dos saberes-fazeres socioambientais, é a realização dos mutirões de limpeza, expansão de canteiros, plantio de hortaliças e construção e cultivo de plantas medicinais. Esse movimento também é um dos resultados da IAP. Nesse sentido, na figura 5 destacamos a horta comunitária em 2021 e na figura 6, as modificações estruturais, que ocorreram ao longo da nossa participação.

Figura 5
Horta Amarbem/CIMMAD-2021. Fonte: Arquivo pessoal (2024).

Figura 6
Horta Amarbem/CIMMAD-2024. Fonte: Arquivo pessoal (2024).

É possível observar na figura, algumas imagens que trazem a experiência de 2021, enquanto a instituição estava passando por reformas em sua estrutura e após a flexibilização das medidas de prevenção ao Covid-19. Naquele momento realizamos algumas atividades de limpeza e extensão dos canteiros, tendo em vista o recebimento do material - canos de pvc, sombrite e mangueiras - da prefeitura municipal, considerando a retomada das atividades presenciais pelo grupo; foram realizados mutirões mensais, com controle no número de participantes, considerando as medidas de saúde municipal.

Cabe destacar, que a limpeza do espaço das plantas medicinais e a extensão dos canteiros de hortaliças foram acontecendo de forma concomitante, de modo que o grupo se dividia nas tarefas, respeitando os saberes-fazeres e as condições de saúde de cada um/uma. Desse modo, em 2022 foram realizados 6 mutirões e em 2023 foram 10, aproximadamente um por mês, respeitando o período de recesso e férias previstos no calendário do CIMMAD.

Já em 2024, com a mudança de coordenação do projeto de extensão e da comissão da horta comunitária, os mutirões passaram a acontecer semanalmente (totalizando 4 por mês). A mudança possibilitou a manutenção dos canteiros e ampliação no número de mandalas, bem como a recuperação de plantas medicinais (Figura 6).

A realização dos mutirões possibilitou melhorias na infraestrutura da horta, de modo que os canteiros foram redistribuídos, aumentando o tamanho da área de cultivos, tanto individual quanto coletiva. Desse modo, 50% de toda a produção é destinada para a alimentação das crianças matriculadas na Instituição, e o restante fica para o/a membro/a do grupo responsável pelo canteiro, o qual tem autonomia para o destino da produção, seja consumo familiar, venda do excedente ou doação.

Na vivência com os sujeitos, ficou evidente que a comercialização não possui centralidade, pois os integrantes do grupo não vendem sua produção, sendo doada para a instituição que guarda em uma câmara fria. Outro aspecto, é o cuidado com a produção de hortaliças em áreas coletivas - entre canteiros e bordas-, pois a produção é dividida de acordo com a demanda e gosto de cada membro do grupo, sendo cultivada e mantida por todos/as. Por fim, as mandalas também são de responsabilidade do grupo, cabendo as guardiãs das plantas medicinais, a decisão sobre a retirada, replantio, distribuição e entrada de novas plantas.

Todas decisões que foram tomadas para a reorganização da horta comunitária

Amarbem/CIMMAD a partir de 2021, ocorreram de forma coletiva, participativa e dialogada, ora com a presença de mais pessoas, ora menos, mas sempre respeitando a autonomia e os saberes-fazeres do grupo. Isto significa um posicionamento político, ético e epistêmico que se alinhe em uma relação com os conflitos sociais, buscando participar ativamente numa perspectiva decolonial, enquanto movimento que objetiva contribuir para a transformação social. Desse modo, a resistência cotidiana se caracteriza a partir de práticas que se opõem ao discurso dominante, ou ainda conforme Freire (2018 [1968]), as resistências congregam lutas políticas e culturais que se inscrevem na contramão dos ideais hegemônicos.

Foi por isto que tentamos construir relações sujeito-sujeito, de modo que a comunicação passou a ser imprescindível, para criar espaços de diálogos e trocas de saberes e fazeres que não puderam ser previamente planejados. O que queremos dizer é que, enquanto estávamos investigando, agindo, lendo, trabalhando, ouvindo e dialogando de modo respeitoso, coproduzimos movimentos participativos, que permitiram a tomada de decisão pelo grupo envolvido, atendendo as demandas deste grupo e contando com a participação ativa dos sujeitos.

O conhecimento coproduzido na horta comunitária, movimenta-se em uma rede de conexões e circulações, sendo absorvido e adaptado, dependendo das singularidades do lugar, contribuindo para romper a noção de isolamento. Essa compreensão possibilita entendermos que, ao coproduzir conhecimentos por meio da IAP, comprometidos com a transformação social local, a configuração das redes, torna-se um aspecto relevante para o movimento de superação da colonialidade do saber, do ser, do poder e da natureza.

Ao configurar redes os sujeitos - nesse caso em que estamos envolvidos - congregam ações em favor da manutenção do nó territorial - CIMMAD - ao mesmo tempo que tecem algumas condições para viver bem. Conforme a figura 7, podemos observar a teia de relações e conexões que conformam as ações a partir do CIMMAD, envolvendo várias instituições como: a Caritas Diocesana de Palmas, a PISF, a UNIOESTE (Projeto Plantas medicinais e NAPI - Alimento e Território), a UTFPR (PPGDR), ASSESOAR e a prefeitura municipal.

Figura 7
Síntese das instituições e relações coexistentes no lugar. Fonte: Elaboração própria (2023).

Esse movimento tem possibilitado a formação de teias de saberes, fazeres, sujeitos, histórias e geografias que resistem por meio dos hábitos cotidianos e dos diálogos de saberes, que configuram os modos de vida que se materializam na horta comunitária Amarbem/CIMMAD. Os sujeitos com que trabalhamos, foram e são o centro da nossa investigação, em que o objetivo primordial sempre foi entender a coprodução de saberes-fazeres socioambientais fronteiriços.

A realidade que nos inserimos no bairro Padre Ulrico - Franscisco Beltrão, possibilitou aproximações com a produção de territórios ‘outros’, com tempos, ritmos e singularidades que se contrapõem à lógica dominante. Nesse contexto, o lugar-comunidade apareceu com centralidade nas relações socioambientais, demonstrando a importância de projetos de extensão vinculados aos movimentos sociais.

Nessa perspectiva entre os aprendizados que podemos destacar, está o projeto das plantas medicinais, que resultou em dois aspectos positivos para o bairro, sendo - i: a construção da horta comunitária Amarbem, que se transformou em um espaço de diálogo de saberes e fazeres socioambientais voltados para o cuidado humano e ambiental, e: ii - a promoção de uma pauta positiva para o bairro, ressignificando o lugar a partir de novos símbolos e valores. Esse ressignificar do lugar, está ligado à presença de novas experiências no bairro, mais positivas social e culturalmente, desprendendo-se do noticiário negativo de violência e pobreza.

Também, a atuação da equipe do Napi - Alimento e Território, com o desenvolvimento de oficinas com o público matriculado no CIMMAD, possibilitou novos debates sobre educação ambiental a partir do território vivido. Bem como, contribuiu para a construção das mandalas de plantas medicinais, auxiliando no processo inicial, fortalecendo posturas e sentimentos de participação, solidariedade e autonomia com o grupo.

Quanto ao projeto da PISF, podemos destacar: i - a ressignificação do lugar (instituição) com a presença das irmãs, no sentido de atrair novas parcerias e investimentos infraestruturais; ii - a oferta de vagas de contraturno escolar, atendendo um número significativo de famílias; iii - o trabalho interdisciplinar voltado para a busca da sustentabilidade da vida; iv - o sentimento de segurança coproduzido entre as irmãs (religiosas) e as guardiãs, no sentido de permanência e fortalecimento da horta comunitária, como um lugar a ser preservado e valioso, e; v - a produção de um lugar que fortalece novos símbolos e valores para o bairro, distanciando-se dos noticiários de violência.

Esses aspectos apareceram no processo de pesquisa-ação-reflexão em muitos momentos, principalmente nas falas dos sujeitos envolvidos na pesquisa, bem como em espaços fora do bairro. A presença da horta comunitária desde 2013 e a abertura do CIMMAD em 2022, tem fortalecido lutas populares silenciosas de autorreconhecimento do lugar (bairro Padre Ulrico) como um território produzido, por sujeitos em resistências - sejam elas sociais, políticas, culturais e/ou ambientais - ligadas a busca pela sustentabilidade da vida em todas as suas formas.

Os saberes e fazeres socioambientais, o lugar, o conhecimento local, podem assim, ser entendidos, como caminhos que permitem a construção de modos diversos de produção e de vida que não sejam necessariamente capitalistas (ALBÁN ACHINTE e ROSERO, 2016). Bem como, a importância do lugar, como locus da perpetuação da cultura, das identidades da resistência (CARLOS, 1996), da auto-organização e da participação popular, podem resultar em coproduções de conhecimentos voltados para a transformação social, em prol da vida e do fortalecimento de ciência ‘outras’ ou ciências populares localizadas, em favor do povo e do cuidado com o planeta. Ou ainda, conforme Floriani (2009), precisamos aprender a conviver com a diversidade, valorizando os conhecimentos culturalmente localizados e os modos de vida sustentáveis presentes nas comunidades. Assim, a urgência está em reaprender a conviver, dando lugar a formas ‘outras’ de produzir e viver, sem necessariamente destruir a natureza.

CONCLUSÃO

A construção de conhecimentos localizados perpassa a coprodução de saberes-fazeres socioambientais, a partir de outras compreensões de natureza, cultura e conhecimentos, voltados para realidades fronteiriças, modos de vida invisibilizados, práticas e saberes subalternizados, ritmos mais lentos que coexistem com a lógica moderna de desenvolvimento socioeconômico, dinamizando territórios. Assim, nosso objetivo foi refletir sobre a práxis territorial, considerando saberes-fazeres socioambientais, como caminho de ativação das territorialidades, valorizando os sujeitos e os lugares de vida.

Nesse sentido, as cartografias coproduzidas ao longo da investigação-ação-participativa, buscaram revelar outros modos de viver em rede, por meio de processos de cooperação e solidariedade, revelando outros modos de vida, voltados para relações sociedade e natureza mais respeitosas em todas as dimensões. Essa perspectiva considera a reprodução da vida associada a formas ‘outras’ de ser e estar com os outros, desse modo a sustentabilidade da vida tem como base, a existência de relações de afeto (diretos ou indiretos), dependências e solidariedade, o que inclui interdependências que se materializam no lugar. São formas de perceber experiências de vida, inclusive de resistências, reconhecendo relações subjetivas de afetos, pertencimentos e solidariedades. Assim, a produção de conhecimentos perpassa diferentes dimensões do vivido, conforme estamos refletindo-agindo-praticando no CIMMAD, considerando-o como um ‘nó’ territorial, permeado por distintas relações sociedade-natureza.

A produção de conhecimentos no contexto do CIMMAD, conforme buscamos refletir nesta pesquisa-ação, perpassa a compreensão da interconexão das relações sujeito-natureza, na direção da produção do viver bem. As relações comunitárias, o pertencimento territorial e as percepções de naturezas, presentes nesse contexto, congregam experiências socioambientais promovidas por sujeitos e instituições diferentes, que se unem em objetivos comuns, para contribuir com a sustentabilidade da vida.

Dessa forma, acreditamos que a coprodução de conhecimentos a partir dos saberes-fazeres socioambientais das guardiãs e dos demais sujeitos inseridos no CIMMAD, pode contribuir, para o fortalecimento de movimentos em favor de ciências populares, voltadas para a resolução de problemas locais. O território e as territorialidades cotidianas se inscrevem nesse contexto, como aspectos fundamentais para a compreensão das sensibilidades de viver. Os saberes e fazeres presentes nesses territórios situados nas fronteiras ontológicas e epistemológicas, são a materialização das resistências promovidas e vividas pelos sujeitos, num movimento solidário, cooperado e respeitoso para com a vida.

Essa compreensão, nos ajuda a refletir relações que envolvem noções de viver bem, cuidado, naturezas, saberes-fazeres, territórios, subjetividades e temporalidades coexistindo no lugar. A experiência de investigação-ação-participativa que vivenciamos no CIMMAD, em especial junto ao grupo da horta comunitária Amarbem/CIMMAD, nos faz refletir e compreender potencialidades de sentir-pensar-fazer conhecimentos por meio da coprodução, configurando caminhos “outros” de entender relações sociedade-natureza, a partir da práxis territorial.

Esse movimento mostrou formas de viver, pensar e territorializar, localizadas nas fronteiras da lógica moderno/colonial. Formas de viver que se aproximam de outras lógicas de viver bem (tema para outro texto), estando localizadas numa dimensão de coexistência, que incluem formas de resistência desde dentro, sutis e silenciosas, praticadas no cotidiano, reproduzindo modos de vida, com pertencimento territorial.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho contou com o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

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  • SAQUET, Marcos. Saber popular, práxis territoriais e contra-hegemonia. Rio de Janeiro: Editora Consequência, 2019.
  • Editores Responsáveis
    Alexandra Maria Oliveira
    Alexandre Queiroz Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    30 Out 2024
  • Aceito
    10 Dez 2024
  • Publicado
    10 Jan 2025
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