RESUMO
Tendo em vista a relevância dos memes na cultura da Internet, este estudo tem como objetivo analisar como memes visuais refletem posicionamentos discursivos e constroem significados a partir das vozes sociais da comunidade surda. Trata-se de uma pesquisa qualitativa que envolveu a observação participante de uma conta da comunidade no Instagram denominada “surdalidades”. A partir dessa conta, foi selecionada uma amostra de três memes, posteriormente analisados com o suporte da análise do discurso. Os resultados indicam a presença de posicionamentos de confronto, os quais refletem o tensionamento com ouvintes e com a língua portuguesa, além da necessidade de afirmar uma identidade linguística e cultural própria. Assim, os memes configuram-se como formas de expressão política, uma vez que o estilo, o conteúdo temático e a estrutura composicional desse gênero revelam como diferentes vozes da comunidade surda se manifestam e se posicionam através dessa forma de comunicação visual.
PALAVRAS-CHAVE:
Vozes sociais; Posicionamentos; Memes; Comunidade surda
ABSTRACT
Given the relevance of memes in Internet culture, this study aims to analyze how visual memes reflect discursive positions and construct meanings based on the social voices of the deaf community. This is a qualitative study that involved participant observation of a community account on Instagram called “surdalidades” [“deafties”]. From this account, a sample of three memes was selected and then analyzed with the support of discourse analysis. Results indicate the presence of confrontational positions, which reflect tension with listeners and with the Portuguese language, as well as the need to assert their own linguistic and cultural identity. Thus, memes are configured as forms of political expression, since the style, thematic content, and compositional structure of this genre reveal how different voices from the deaf community express themselves and position themselves through this form of visual communication.
KEY-WORDS:
Social voices; Positions; Memes; Deaf community
Introdução
Embora os memes sejam frequentemente associados à Internet, na realidade, já existiam muito antes do século XXI. Versões do pôster motivacional “Keep Calm”, que evoluíram de um cartaz de propaganda da coroa britânica durante a Segunda Guerra Mundial podem ser considerados memes, como demonstra Viktor Chagas (2020). No mesmo sentido, também se enquadram, nesta categoria, itens recopiados e parodiados de filmes ou seriados televisivos, ou músicas, uma vez que são replicados de forma humorística e comunicam ideias e valores sociais.
Os memes, hoje, integram a cultura da Internet, destacando-se pela acessibilidade e pela facilidade de criação, o que permite que qualquer pessoa expresse suas ideias e crenças. No caso da comunidade surda, essas criações digitais atuam como meio de afirmação de identidades, valores e vozes, conferindo-lhes um valor cultural particular (Dourado, 2022). Assim, esses artefatos servem como formas de comunicação que manifestam posicionamentos, ideias e interesses de indivíduos ou grupos, dentro de uma interação dialógica de vozes sociais.
É importante esclarecer que a comunidade surda é composta por uma diversidade de identidades, incluindo membros surdos e não surdos, cada qual com características próprias (Moura e Ohkawa, 2024). Esses membros compartilham experiências, interesses e trocas simbólicas por meio de um artefato linguístico-cultural visual, o que contribui para uma organização própria, modos específicos de comportamento e expressão, fortalecendo o reconhecimento do grupo como uma comunidade de direito.
Nesse contexto, o objetivo deste artigo é analisar como os memes visuais refletem posicionamentos discursivos e constroem significados por meio das vozes sociais da comunidade surda, materializadas na e pela própria comunidade, independentemente do grau de audição. A proposta justifica-se pela compreensão de que a comunidade surda representa as vozes surdas, incluindo intenções, posturas e pontos de vista de sujeitos históricos, os quais influenciam as interações dialógicas e a construção de significados a partir dos enunciados produzidos nesse contexto cultural específico.
1 Memes a partir de Bakhtin
Embora Mikhail Bakhtin (1895-1975) não tenha vivido a era digital, sua concepção de linguagem dialoga com a diversidade enunciativa presente em diferentes campos, inclusive nas práticas discursivas contemporâneas, como a circulação de memes. Eles podem ser vistos como palcos de confronto de vozes e ideias, onde diferentes perspectivas se entrecruzam e se tensionam, corroborando a visão bakhtiniana da linguagem como um fenômeno heterogêneo e dialógico.
Partimos do pressuposto de que toda ação discursiva, ao tecer relações dialógicas com o seu tempo, por meio de um processo de interação social, compreende um domínio no qual os sujeitos se influenciam e são influenciados pelos outros. Nesse contexto, os memes se inserem nas relações dialógicas contemporâneas, sendo um artefato da cultura digital que indica não apenas um meio de comunicação online, mas também uma prática ideológica, como argumentou Wiggins (2019)1.
Shifman (2014)2 define os memes como um conjunto de itens que compartilham características comuns de conteúdo, forma e postura, sendo amplamente imitados e/ou transformados por usuários na Internet. Guerra e Botta (2018) ampliam essa visão ao caracterizar os memes como um gênero nativo da Web 2.03, criados com a finalidade de manifestar um posicionamento sobre algum acontecimento.
Considerando as contribuições dos autores citados, os memes da Internet são artefatos da cultura digital participativa, que integram a memória e o cotidiano dos usuários, refletindo as possibilidades e características tecnológicas próprias da rede. Nesse contexto, Xavier (2018) questiona se os memes podem ser considerados gêneros discursivos e, para abordar essa questão, baseia-se na concepção bakhtiniana, que define os gêneros pela presença de três elementos: plano composicional, estilo e conteúdo.
Ao analisar os memes, a autora identifica que, embora eles sejam comuns nas novas tecnologias, apresentam determinados atributos em comum com outros gêneros tradicionais, como as charges. Segundo Xavier, “este último [gênero] sofreu alterações para estar adequado ao ambiente virtual e às necessidades comunicativas dos internautas, gerando um novo gênero (2018, p. 74)”.
Dessa forma, os memes demonstram uma grande capacidade de se adaptar a contextos e padrões de comportamento emergentes. Essa flexibilidade é essencial para sua perpetuação, pois permite que eles respondam rapidamente a novas circunstâncias e eventos, garantindo sua disseminação no meio social. Conforme Faraco (2020, p. 127), “as formas relativamente estáveis do dizer no interior de uma atividade qualquer têm de ser abertas à contínua remodelagem; têm de ser capazes de responder ao novo e à mudança”.
Quanto aos elementos constitutivos dos memes, a começar pelo conteúdo temático, Xavier (2018) associa seus discursos ao humor e à ironia, não necessariamente para gerar risos, mas sim para estabelecer uma relação dialógica com outros discursos presentes na sociedade. Essa característica intertextual conecta o humor à criação dos memes, pois permite que eles reconfigurem informações existentes, atribuindo-lhes novos significados. Assim, compreendemos que os memes não são unidades isoladas, mas sim produtos de um diálogo constante com outros textos e contextos. Conforme aponta Wiggins (2019, p. 34), “um meme da Internet não pode existir sem se referir a algo diferente do assunto que ele contém”4.
Quanto à estrutura dos memes, é importante destacar a variedade de formatos utilizados para sua criação, como vídeos, GIFs, fotos, textos e desenhos. Neste estudo, concentramos nossa análise nos memes baseados em imagens. De acordo com Guerra e Botta (2018), os memes visuais ou imagéticos geralmente consistem em uma imagem acompanhada de uma expressão ou frase curta e impactante, sobreposta à imagem (na parte superior ou inferior). Dessa forma, há uma combinação entre linguagem verbal e não-verbal. Por outro lado, para Xavier (2018) não são todos os textos constituídos de linguagem verbal e não-verbal que podem ser considerados meme, mas sim aqueles que possuem uma relação dessa estrutura composicional com o conteúdo e o estilo que ele apresenta para sua definição. Esse argumento é baseado em Bakhtin (2016), contribuindo para entender que determinadas unidades composicionais são indissociáveis de determinadas unidades temáticas, e especialmente, do estilo.
Os memes circulam amplamente em diversas redes sociais, fomentando múltiplas interações. Além de criar e compartilhar esses conteúdos, os indivíduos também os interpretam de formas diversas, desempenhando papéis como produtores, consumidores e disseminadores. Essa dinâmica revela como os memes não apenas refletem os valores e o humor compartilhados por diferentes grupos sociais, mas também funcionam como ferramentas de expressão e posicionamento discursivo.
Nesse sentido, Faraco (2020) destaca:
é por esse caminho que poderemos entender a argumentação daqueles autores segundo a qual a elaboração estilística da enunciação é uma atividade de seleção, de escolha individual, mas de natureza sociológica, já que o estilo se constrói a partir de uma orientação social de caráter apreciativo: as seleções e escolhas são, primordialmente, tomadas de posição axiológicas frente à realidade linguística, incluindo o vasto universo de vozes sociais (Faraco, 2020, p. 136).
Com base nessa perspectiva, a criação de memes envolve escolhas estilísticas que vão além da individualidade, sendo marcadas por um contexto sociológico. A seleção de palavras, o uso de metáforas, metonímias, bricolagem, pastiche, sinédoque e a remixagem de imagens, entre outros recursos (Wiggins, 2019)5 são decisões deliberadas que refletem posicionamentos axiológicos. Esses recursos têm o propósito de gerar reações específicas, influenciar percepções e engajar leitores, evidenciando a intencionalidade subjacente na construção dos memes. Consequentemente, tais escolhas promovem novas formas de interação e mobilização no ambiente digital, reforçando os vínculos entre os produtores e seus seguidores.
Tendo em vista o exposto, no próximo tópico será apresentada a revisão teórica sobre o conceito de voz e posicionamento.
2 Voz e posicionamento
Na perspectiva bakhtiniana, as vozes sociais representam os diferentes posicionamentos que emergem no discurso. Essas vozes são caracterizadas por marcas valorativas específicas, que refletem as experiências e os contextos de seus enunciadores. Aplicada na análise de memes da comunidade surda, essa abordagem teórica evidencia como práticas discursivas constroem significados e estruturam posicionamentos ideológicos.
Conforme Molon e Viana (2012), cada enunciado carrega o posicionamento de seu enunciador, configurando o que denominam voz. Nas palavras dos autores:
Fica claro, portanto, que cada enunciado é marcado pelo posicionamento de seu enunciador. E é a essa marca que se pode dar nome de voz. As vozes do discurso, então, são os diversos posicionamentos marcados no enunciado, posicionamentos e marcas que carregam consigo um acento valorativo frente a um enunciado e frente à vida. (Molon e Viana, 2012, p. 158).
Enquanto Molon e Viana (2012) enfatizam o caráter valorativo das vozes no enunciado, Sipriano e Gonçalves (2017) ampliam essa discussão ao analisar como essas marcas se manifestam por meio de recursos discursivos, como o discurso citado e os acentos apreciativos. Esses elementos evidenciam embates ideológicos e perspectivas valorativas, que também emergem no contexto digital dos memes.
Nesse contexto, a voz não é neutra. Conforme Sipriano e Gonçalves (2017), ela reflete uma postura ideológica moldada pelo confronto dialógico com outras vozes e direcionada a interlocutores futuros. Essa perspectiva dialoga com Bakhtin (2016), segundo a qual não somos seres adâmicos - ou seja, nossa palavra nunca é a primeira nem a última sobre um tema. Estamos constantemente imersos em um fluxo histórico e social de enunciações, respondendo a discursos anteriores e influenciando aqueles que virão. Nesse sentido, a voz emerge como fenômeno dialógico e dinâmico, refletindo o entrelaçamento entre sujeitos, discursos e os contextos socioculturais em que se inserem.
Para Bubnova (2011), Bakhtin não estabelece uma separação rígida entre oralidade e escrita, compreendendo ambas como manifestações de uma dinâmica interativa contínua. Essa visão é particularmente relevante no contexto dos memes, que, embora sejam predominantemente imagéticos, integram elementos escritos e visuais que dialogam com contextos culturais específicos. Nessa perspectiva, Bakhtin entende a linguagem como um ato ético, intrinsecamente vinculado a valores e responsabilidades, ressaltando seu caráter heterogêneo e sua capacidade de atuar sobre o mundo e sobre o outro.
Assim, as palavras dos outros carregam tonalidades e valores que são assimilados, reelaborados e reacentuados, e, no processo de criação e compartilhamento de memes, o sujeito - seja ele o criador ou o disseminador - internaliza e ressignifica discursos preexistentes, gerando novos enunciados que refletem um posicionamento valorativo.
No contexto digital, os memes destacam-se pela dinâmica de apropriação e reinterpretação. Constantemente adaptados, parodiados e comentados, esses enunciados multimodais geram uma multiplicidade de significados. No caso da comunidade surda, eles expressam conflitos de valores e perspectivas identitárias e ideológicas.
Segundo Bakhtin (2015), os enunciados carregam uma “autoridade” discursiva, resultado das forças sociais que os moldam e os tornam reconhecíveis como pertencentes a determinados grupos. Essa autoridade se manifesta em um “tom” característico, que reflete a memória coletiva do grupo ao incorporar experiências, valores e formas de expressão.
Um exemplo prático que ilustra essa autoridade discursiva e seu impacto no discurso identitário é a expressão “eu sou surdo, porra!” - sinalizada em Libras e popularizada como meme. A escolha lexical enfática do termo “porra!” incorpora um tom de insatisfação crítica e contestação, respondendo a práticas sociais equivocadas, como a crença de que falar mais alto facilita a comunicação com pessoas surdas. Essa expressão não apenas ressoa valores compartilhados, mas também reforça os vínculos identitários da comunidade surda, ao consolidar o enunciado como um ato de resistência cultural. Ao ser apropriado e replicado na esfera digital, o meme transcende o contexto individual e se torna um marcador coletivo de confrontação e afirmação identitária.
Nesse contexto, os elementos estilísticos dos memes, conforme Bakhtin (2015), revelam embates ideológicos e posicionamentos marcados pelas múltiplas vozes que participam da construção de sentido. Recursos como a linguagem visual, o discurso direto e o uso estratégico de verbos e adjetivos conferem aos memes uma direcionalidade específica. Esses aspectos orientam as interpretações pela comunidade surda, promovendo perspectivas que são validadas, questionadas ou ressignificadas pelos seus membros.
Segundo Bakhtin (2015), os enunciados são dinâmicos, sujeitos a transformações e contestações contínuas. No contexto digital, essa característica possibilita que os membros da comunidade surda renegociem e reformulem sentidos a partir de suas vivências e práticas culturais. Por meio dos memes, essa renegociação surge na forma de paródias, ressignificações ou críticas a discursos do senso-comum, configurando uma identidade coletiva que resiste dentro das dinâmicas interativas do ambiente virtual.
Após a revisão teórica que fundamenta a análise dos memes como expressão das vozes posicionadas da comunidade surda, seguiremos agora para os procedimentos metodológicos da pesquisa.
3 Procedimentos metodológicos
Nesta seção, abordamos os aspectos metodológicos da pesquisa e descrevemos os procedimentos utilizados para analisar como os memes refletem posicionamentos discursivos e constroem significados a partir das vozes da comunidade surda.
Para alcançar o objetivo proposto, adotamos uma abordagem qualitativa, com foco na observação participante de uma conta do Instagram denominada “surdalidades”. O corpus da pesquisa, composto pelos materiais gerados nessa conta e previamente utilizados em um estudo anterior (Dourado, 2022), foi ampliado para incluir novos memes, permitindo capturar outras nuances da discussão sobre os conteúdos ali produzidos. A partir desse corpus ampliado, selecionamos uma amostra de três memes que melhor representavam a surdez como um campo de disputa simbólica em torno da significação da língua e da identidade cultural em um contexto mais amplo.
A construção desses sentidos não se limita a um grupo fechado, mas se estende às relações com o outro não surdo (ouvinte), em um constante processo de negociação e confrontação. Dessa forma, a análise dos memes selecionados visa demonstrar como esses enunciados visuais e textuais refletem os conflitos, crenças e valores da comunidade surda, tanto em seu conteúdo temático quanto em seu estilo linguístico e composição imagética.
Para a análise do gênero, utilizamos a estrutura proposta por Bakhtin (2016) como ponto de partida, complementando-a com o modelo desenvolvido por Wiggins (2019), que se dedica especificamente à análise de memes de imagens. Baseado na tipologia de Shifman (2014), Wiggins6 destaca a integração entre conteúdo e postura nos memes, argumentando que a transmissão de ideias e ideologias nesses formatos ocorre por meio de uma construção semiótica e intertextual deliberada, mesmo na ausência de fala humana.
Wiggins (2019)7 sugere iniciar a análise pela forma, para então avançar na interpretação com base em uma fusão das dimensões de conteúdo e postura, buscando compreender as implicações ideológicas de um meme, além da maneira como seu significado é construído.
Essa abordagem enriquece nosso papel como analistas do discurso, pois examinamos os aspectos estilísticos, plano composicional, conteúdo, interpretando-os como pistas das ações ideológicas em jogo. “Assim, não é só o enunciado, enquanto materialidade linguística, o foco de interesse da Análise do Discurso, mas também as condições de sua produção” (Voese, 2002, p. 191).
Ao examinarmos a materialidade dos memes e ao compreendermos o contexto social e cultural em que são criados, podemos obter informações sobre como as comunidades geram os seus próprios conteúdos e moldam seus posicionamentos em resposta aos eventos que vivenciam. Passamos, então, à seção seguinte, a análise dos resultados.
4 Análise dos resultados: posicionamentos tensos
Buscando compreender como os memes do perfil “surdalidades” refletem posicionamentos discursivos e constroem significados por meio das vozes sociais da comunidade surda, esta pesquisa analisa os aspectos estilísticos, a composição e o conteúdo dos memes, interpretando-os como indicativos das ações ideológicas subjacentes.
Quanto à forma, os memes apresentados a seguir se enquadram na definição de imagem-macro proposta por Wiggins (2019)8, consistindo em uma imagem sobreposta com texto para a construção de um significado específico.
A imagem de fundo do meme mostra uma cena de combate, com uma pessoa em uniforme militar saltando em direção a outra que segura uma arma, criando uma tensão visual e dramática. Os textos sobrepostos rotulam os personagens: o soldado saltando é “surdo” e o outro, com uma arma, é “ouvintes: criando um sinal”. A escolha desta imagem para o meme transforma o cenário de combate em uma metáfora para a relação entre as pessoas surdas e ouvintes.
Nesse contexto, no plano de conteúdo, o meme utiliza a metáfora de uma cena de guerra para representar um conflito cultural e linguístico. A imagem reflete o embate entre o “mundo surdo” e o “mundo ouvinte” (termos usados por Paddy Ladd, 2013), sugerindo uma disputa sobre quem tem o direito e a competência para criar sinais em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Essa representação sugere que, quando ouvintes criam sinais, muitas vezes o fazem de maneira inadequada ou sem o devido respeito e compreensão das experiências surdas. O humor emerge na ironia e na crítica implícita, em que o “surdo” (representado pelo soldado avançando) surge como um defensor ativo contra a “invasão” de ouvintes em um território que considera como seu.
Sobre o estilo (na concepção bakhtiniana) ou sobre a semiótica (como proposta por Wiggins, 2019), o meme expressa a resistência da comunidade surda à hegemonia ouvinte na criação e disseminação de sinais em Libras. No artigo de Perlin (2003, grifo nosso), “o ouvinte: o outro do outro surdo” é caracterizado como o indivíduo que, por não ter experiências visuais, não possui a capacidade de elaborar uma língua de sinais em sua originalidade e construir uma cultura visual autêntica. Assim, o meme sugere que a criação de sinais em Libras é um direito exclusivo das pessoas surdas. A “arma” na mão do ouvinte, representando o ato de “criar um sinal” torna-se uma ferramenta de poder e colonização, uma metáfora para o “roubo” da autoridade linguística da comunidade surda.
A imagem utiliza a analogia de uma guerra para refletir o embate entre culturas e, intertextualmente, sugere que a comunidade surda tem a capacidade de defender seus interesses e resistir à intervenção externa de ouvintes. Por meio do humor, o meme ironiza a presunção dos ouvintes em criar sinais, subvertendo a ideia de que essa ação seja neutra ou bem-intencionada. Na prática, o meme representa o ouvinte como uma figura que invade e ameaça a autenticidade cultural surda. Essa representação se insere no discurso de resistência, no qual a comunidade surda se posiciona ativamente contra qualquer ameaça à construção de uma identidade cultural e linguística própria.
De certo modo, isso gera uma contradição no conteúdo do gênero, tendo em vista que pessoas ouvintes também fazem parte do universo da surdez. No entanto, a comunidade surda, em sua busca por reconhecimento e valorização da experiência surda, busca demarcar um espaço próprio de identidade e cultura, o que pode levar à exclusão de outros atores. Essa necessidade de delimitar um território identitário justifica-se pela construção de uma representatividade cultural, que, segundo Klein e Lunardi (2006), tem se apresentado equivocadamente como um “ideal” a ser alcançado, como se houvesse uma cultura surda na singularidade e não na multiplicidade.
O exemplo a seguir evidencia uma relação tensa com a língua portuguesa em provas de concurso.
O meme apresenta uma imagem remixada de um banheiro público, onde duas pessoas estão descalças e um sabonete está caído no chão. Essa composição visual sugere uma sensação de exposição e desconforto para o “surdo” representado na imagem. Nesse contexto, a imagem do sabonete molhado e escorregadio simboliza a fragilidade e a vulnerabilidade do sujeito surdo em alcançar êxito em situações adversas. Ao associar essa ideia à participação de surdos em concursos com provas escritas, o meme sugere que eles estão em uma posição de desvantagem, forçados a competir em um sistema cujas regras não foram pensadas para contemplá-los. A metáfora do sabonete caído evidencia o caráter excludente e desigual desse processo seletivo, que favorece aqueles para quem o português é a primeira língua.
Dessa forma, o conteúdo transmite uma crítica à estrutura dos concursos públicos que exigem provas escritas, evidenciando a tensão com a língua portuguesa enfrentada por pessoas surdas, cuja primeira língua é a Libras, e que encontram barreiras na comunicação escrita. O sabonete molhado no chão representa, metaforicamente, uma armadilha que prejudica candidatos surdos, reforçando a hegemonia do português como norma no contexto de “concurso prova escrita”. Essa imposição linguística limita o acesso de pessoas surdas ao mercado de trabalho e perpetua a exclusão social.
Além disso, o contexto visual do meme revela a interdiscursividade presente, permitindo que diferentes vozes e discursos se sobreponham e ressoem. No caso deste meme, coexistem várias vozes: o discurso da comunidade surda, que reivindica acesso justo nos concursos públicos (ver nota técnica9); o discurso das instituições, que impõem o português como norma; e o discurso cultural associado à brincadeira sobre “deixar cair o sabonete”, que evoca referências a uma cultura machista e homofóbica, reforçando a ideia de vulnerabilidade e inferioridade associada ao personagem surdo. Esses discursos, com suas diferentes perspectivas, constroem uma rede dialógica marcada pela atitude do sujeito em resposta a outros, manifestando um posicionamento valorativo em relação aos discursos alheios.
O meme a seguir mostra uma orientação discursiva diferente, embora apresente mais um posicionamento tenso:
O meme ilustra a frustação e a descrença da comunidade surda ao constatar que, mesmo em espaços destinados à promoção da Libras, como palestras e eventos voltados para o público surdo, a hegemonia do português persiste. A postura do “palestrante ouvinte” que se desculpa por falar em português, justificando-o como sua língua materna (L1), revela uma resistência ou desconforto em adotar a Libras como língua de instrução e comunicação. Esse comportamento contraria as diretrizes das políticas linguísticas brasileiras e desconsidera o esforço histórico da comunidade surda para a implantação da Libras como língua de interlocução nos ambientes educacionais e institucionais para surdos.
A Lei 10.436/2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão, estabelecendo sua promoção em todas as esferas sociais. Entretanto, o cenário representado no meme expõe uma discrepância entre o reconhecimento legal e sua aplicação prática: muitos palestrantes ouvintes, mesmo em contextos que requerem a valorização da Libras, continuam priorizando o português. Essa prática reforça a subalternização da língua de sinais e negligencia a necessidade de espaços de comunicação alinhados à cultura surda.
A escolha de se comunicar em português diante de uma audiência surda perpetua uma visão etnocêntrica, na qual a língua majoritária é privilegiada, relegando a Libras a um papel secundário. Esse comportamento evidencia as relações de poder entre grupos linguísticos, conforme Júnior et al (2018), que discutem como línguas dominantes se impõem sobre línguas minoritárias, mesmo em contextos nos quais o uso destas é essencial para a valorização social e a construção identitária.
Esse cenário reflete os desafios enfrentados pela comunidade surda para que a Libras seja não apenas uma língua reconhecida legalmente, mas também praticada e respeitada em espaços formais. Teske (2016) ressalta que a língua de sinais é fundamental para as relações sociais e identitárias, fortalecendo a coesão da comunidade surda. A postura do palestrante, nesse caso, interfere diretamente na experiência de pertencimento e na vivência coletiva da cultura surda.
Dessa forma, o meme manifesta, por meio de um tom crítico, a contínua luta da comunidade surda por espaços onde a Libras seja valorizada e respeitada. Embora as políticas linguísticas representem avanços, tornam-se necessárias ações mais concretas para assegurar que a Libras seja tratada com a mesma legitimidade do português em ambientes voltados para a comunidade surda.
Considerações finais
Levando em conta nosso objetivo de analisar como memes visuais refletem posicionamentos discursivos e constroem significados por meio das vozes sociais da comunidade surda, os resultados encontrados indicam a presença de posições de confronto, especialmente evidenciadas pela justaposição polarizada entre “surdos” e “ouvintes”. Nesses memes, identificamos marcas linguísticas que revelam as vozes da comunidade surda como expressão social, e que, ao mesmo tempo, reencenam posições ideológicas que refletem o tensionamento com ouvintes e a língua portuguesa, bem como a necessidade de afirmar uma identidade linguística e cultural.
Apesar de os memes expressarem um sentido de comunidade, promovendo um sentimento de pertença e compreensão partilhada de experiências e de humor, é importante ressaltar que eles também podem gerar um sentimento de exclusão ao reencenar e reforçar as marcas da diferença, traçando uma linha divisória entre aqueles que pertencem à cultura surda e aqueles que não pertencem, ou seja, o outro ouvinte.
Indo além de uma simples imagem com texto, o meme representa um ato estilístico, que carrega uma carga política e ideológica. Essa postura, juntamente com o contexto do enunciado, influencia a interpretação e a avaliação do leitor. Essa característica está em consonância com o conceito bakhtiniano de que todo enunciado está interconectado a outros enunciados, moldados pelo contexto social, histórico e cultural resultante de práticas discursivas dentro de uma comunidade. Desse modo, os memes atuam como uma plataforma de expressão e disseminação de atitudes políticas, sendo reconhecida e legitimada pelo grupo no embate constante de vozes sociais e posições ideológicas.
Portanto, com este estudo, conseguimos confirmar que os memes não são apenas formas de entretenimento, mas também meios de expressão política. Ao analisar os aspectos estilísticos, o conteúdo e a estrutura composicional do gênero, revelamos os conflitos ideológicos presentes na comunidade surda e entendemos como diferentes vozes sociais se posicionam e se manifestam através dessa forma de comunicação visual.
No entanto, é importante ressaltar que este trabalho apresenta algumas limitações. Por exemplo, o estudo pode não ter considerado todas as nuances e variações existentes nos memes produzidos e compartilhados pela comunidade, já que a análise de seus aspectos estilísticos e de conteúdo pode ser subjetiva e variar de acordo com a interpretação de cada indivíduo. Portanto, é necessária investigação adicional para aprofundar nossa compreensão sobre o papel dos memes nesse contexto cultural.
Para pesquisas futuras, seria interessante investigar a recepção dos memes entre diferentes membros da comunidade surda, uma vez que eles se apropriam dessa forma de comunicação visual para compor suas vozes.
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1
Citação indireta do original, em inglês: “The central argument is that internet memes are discursive units of digital culture and that these units of discourse indicate an ideological practice.” (Wiggins, 2019, p. XV).
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2
Citação indireta do original, em inglês: “[...] I define an Internet meme as: (a) a group of digital items sharing common characteristics of content, form, and/or stance, which (b) were created with awareness of each other, and (c) were circulated, imitated, and/or transformed via the Internet by many users.” (Shifman, 2014, p. 38).
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3
O termo Web 2.0 refere-se ao avanço tecnológico e ao surgimento de novas plataformas digitais, como as mídias sociais, que se tornaram parte integrante da vida cotidiana dos usuários.
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4
No original, em inglês: “An Internet meme cannot exist without referring to something other than the subject matter it contains.” (Wiggins, 2019, p. 34).
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5
Citação indireta do original, em inglês: “[...] a semiotic elaboration within stance means that the role of metaphor, metonymy, juxtaposition, bricolage, pastiche, synecdoche, etc. is asserted due to the lack of human speech”. (Wiggins, 2019, p. 17).
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6
Citação indireta do original, em inglês: “Content and stance merge given that the conveyance of ideias and ideologies occurs within deliberate semiotic and intertextual construction, especially with the absence of human speech.” (Wiggins, 2019, p. 16).
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7
Citação indireta do original, em inglês: “With image-based (or simply, non-video) meme, it may be helpful to start not with content or stance but rather with form, then follow with the anlysis with the knowledge proffered by a merging of the content and stance dimensions.” (Wiggins, 2019, p. 17).“In general, my suggestion is to dig deeply when analyzing internet memes and to attempt to ascertain the ideological implications of given meme, in terms also of how its meaning is constructed and what it uses to make sense in an increasingly TLDR (too long, didn’t read) world.” (Wiggins, 2019, p. 19).
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8
Citação indireta do original, em inglês: “In terms of form, users simply took the image and added text, making it a version of an image-macro meme.” (Wiggins, 2019, p. 18).
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9
Nota técnica considerando as orientações para concursos públicos. Disponível em: https://feneis.org.br/wp-content/uploads/2024/03/NOTA-FENEIS-CONCURSOS-PUBLICOS-E-PROFESSORES-DE-LIBRAS.pdf. Acesso em 5 de maio 2024.
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Pareceres
Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.
Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais
O conteúdo subjacente ao texto da pesquisa está incluído no manuscrito.
REFERÊNCIAS
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» https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/7286 - CHAGAS, Viktor. Da memética aos estudos sobre memes: uma revisão da literatura concernente ao campo nas últimas cinco décadas (1976-2019). In: Viktor Chagas (org.). A cultura dos memes: aspetos sociológicos e dimensões políticas de um fenômeno do mundo digital. Salvador: EDUFBA, 2020. pp. 23-78.
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Editores responsáveisAdriana Pucci Penteado de Faria e SilvaBeth BraitBruna LopesMaria Helena Cruz PistoriPaulo Rogério StellaRegina Godinho de Alcântara
Parecer I
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer I
Há necessidade de revisão de língua, de definição de “comunidade surda; substituir “apud” pela leitura do original; sinônimos mais adequados de alguns termos. Consulte anexo. APROVADO COM SUGESTÕES [Revisado]
- recomendação: aceitar
Parecer III
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer III
O trabalho submetido apresenta adequação ao tema proposto, explicita o objetivo e coerência de seu desenvolvimento no texto, analisando os posicionamentos discursivos presentes nos memes visuais produzidos pela comunidade surda. Também está em conformidade com a teoria proposta, que é primordialmente a bakhtiniana, demonstrando conhecimento atualizado da bibliografia relevante. Além disso, evidencia originalidade da reflexão e contribuição para o campo de conhecimento, bem como demonstra clareza, correção e adequação da linguagem a um trabalho científico. Sendo assim, este parecer é favorável à publicação deste trabalho. APROVADO
- recomendação: aceitar
Parecer IV
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer IV
O artigo Vozes sociais em memes da comunidade surda / Social voices in deaf community memes se propõe a abordar tema relevante sobre tensões experimentadas por surdos e ouvintes, de comunidades brasileiras e, talvez, norte-americanas, a julgar pela escolha de um dos quatro memes analisados. Justificar a escolha de um meme produzido em outra comunidade surda parece relevante. Embora as línguas - Libras e português - sejam centrais nos conflitos entre os dois grupos em contexto brasileiro, os memes se utilizam da escrita em português e, não, em Libras. Esse ponto de tensão, relacionado ao conteúdo verbal, não foi discutido. Ao longo do texto, há indicações para reflexão e sugestões para preenchimento de algumas lacunas encontradas no texto. A seguir, algumas são destacadas. 1. Os memes analisados não pertencem a uma única comunidade surda, sendo assim, o título apresenta inconsistência. 2. A metodologia não apresenta justificativa para a seleção de uma amostra relacionada a contextos socioculturais diferentes (brasileiro e estrangeiro), assim como não identifica se os memes são produzidos por surdos ou por ouvintes. 3. Como a voz dos ouvintes aparece em todos os memes não fica claro na seção de análise. Com ajustes, o artigo ganha em conteúdo e clareza, podendo ser publicado. CORREÇÕES OBRIGATÓRIAS [Revisado]
- recomendação: aceitar
Parecer V
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer V
Inicialmente, é pertinente expor que há adequação entre o título e o conteúdo disposto no artigo. Como o título é instigante, ele é convidativo e, certamente, fará com que muitos leitores se interessem pela sua leitura. O objetivo do trabalho é exposto de maneira clara e está coerente com o que é discorrido ao longo do texto. As referências utilizadas estão em conformidade com a teoria proposta e, além disso, os autores citados e as referências às pesquisas demonstram que o/a autor/a buscou o conhecimento atualizada sobre o tema proposto. O artigo apresentado é original, contribuindo para reflexões e discussões não apenas no campo da AD, mas também na área dos Estudos Culturais/Surdos. Posto isso, vale destacar que o trabalho enviado possui a qualidade de um artigo científico, pois há clareza, correção e adequação da linguagem. O artigo necessita apenas de pequenos ajustes em relação ao uso de algumas vírgulas e remissão de espaços duplos em alguns trechos. APROVADO
- recomendação: aceitar
Parecer VI
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer VI
As indicações do parecer foram observadas na nova versão, no entanto identifiquei alguns ajustes que podem deixar o texto mais claro. Sendo realizados, minha indicação é pela publicação. APROVADO
- recomendação: aceitar




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