Open-access Instrumento para consulta de enfermagem ao adolescente: construção e validação

Instrumento para consulta de enfermería a adolescentes: elaboración y validación

Resumo

Objetivo  Construir e validar um Instrumento para Consulta de Enfermagem ao Adolescente (ICEA), propiciando o cuidado e a promoção da saúde.

Métodos  Estudo metodológico, realizado em três etapas: levantamento da literatura científica sobre comportamentos saudáveis do adolescente; elaboração da primeira versão do ICEA fundamentado no Modelo de Promoção da Saúde; validação do conteúdo e aparência do instrumento com os juízes. Para avaliação do instrumento, utilizaram-se o Índice de Validação de Conteúdo >0,78 e o alfa de Cronbach ≥80,0%.

Resultados  Todos os requisitos do instrumento alcançaram concordância entre os juízes superior a 0,78%. Todos os juízes apontaram que o instrumento aborda itens importantes para a saúde do adolescente e que serve como suporte de orientação aos enfermeiros durante as consultas de enfermagem ao adolescente, além de ser considerado válido quanto à estrutura, objetivo e relevância. Em relação às avaliações dos juízes sobre o instrumento, obtiveram-se um Índice de Validade de Conteúdo Global de 0,917 e o alfa de Cronbach para todo o instrumento de 0,958.

Conclusão  O ICEA apresentou evidências de validade de conteúdo e aparência consoantes com sua finalidade; portanto, representa uma inovação no cuidado ao adolescente que poderá ser utilizado no contexto da Atenção Primária à Saúde, propiciando o acesso dessa população aos serviços e à promoção da saúde.

Descritores
Cuidados de enfermagem; Saúde do adolescente; Promoção da saúde; Enfermagem ambulatorial; Estudo de validação

Abstract

Objective  To build and validate an Instrument for Adolescent Nursing Consultation (ICEA), providing care and health promotion.

Methods  This is a methodological study, carried out in three stages: survey of scientific literature on healthy adolescent behaviors; development of the first version of ICEA based on the Health Promotion Model; instrument content and appearance validity with judges. For instrument evaluation, the Content Validity Index >0.78 and Cronbach’s alpha ≥80.0% were used.

Results  All the instrument requirements achieved an agreement among judges of over 0.78%. All judges indicated that the instrument addresses important items for adolescent health and that it serves as guidance support for nurses during nursing consultations with adolescents, in addition to being considered valid in terms of structure, objective and relevance. Regarding judges’ assessments of the instrument, an Overall Content Validity Index of 0.917 and a Cronbach’s alpha for the entire instrument of 0.958 were obtained.

Conclusion  ICEA presented evidence of content and appearance validity consistent with its purpose; therefore, it represents an innovation in adolescent care that can be used in the context of Primary Healthcare, providing this population with access to services and health promotion.

Keywords
Nursing care; Adolescent health; Health promotion; Office nursing; Validation study

Resumen

Objetivo  Elaborar y validar un Instrumento para Consulta de Enfermería a Adolescentes (ICEA), para el cuidado y la promoción de la salud.

Métodos  Estudio metodológico realizado en tres etapas: recopilación de literatura científica sobre comportamientos saludables de los adolescentes, elaboración de la primera versión del ICEA fundamentado en el Modelo de Promoción de la Salud y validación del contenido y de la apariencia del instrumento por jueces. Para el análisis de los datos, se utilizó el Índice de Validez de Contenido >0,78 y el alfa de Cronbach ≥80,0 %.

Resultados  Todos los requisitos del instrumento alcanzaron una concordancia superior a 0,78 % entre los jueces. Todos los jueces señalaron que el instrumento aborda ítems importantes para la salud de los adolescentes y que sirve como apoyo orientativo para los enfermeros durante las consultas de enfermería a adolescentes, además de haber sido considerado válido respecto a la estructura, el objetivo y la relevancia. Con relación a las evaluaciones de los jueces sobre el instrumento, se obtuvo un Índice de Validez de Contenido global de 0,917 y un alfa de Cronbach de todo el instrumento de 0,958.

Conclusión  El ICEA presentó evidencias de validez de contenido y apariencia de acuerdo con su fin; por lo tanto, representa una innovación en el cuidado de los adolescentes que podrá ser utilizado en el contexto de la Atención Primaria de Salud y permitirá el acceso de estas personas a los servicios y a la promoción de la salud.

Descriptores
Cuidados de enfermería; Salud del adolescente; Promoción de la salud; Enfermería de consulta; Estudio de validación

Introdução

As práticas de enfermagem foram evoluindo ao longo do tempo em consonância com a ciência e as tecnologias em saúde. No Brasil, a partir da década de 1970, a enfermeira e professora Wanda de Aguiar Horta incentivou o uso das teorias de enfermagem na área acadêmica e assistencial, alicerçando o exercício profissional em um referencial teórico, o que originou o Processo de Enfermagem, o qual, atualmente, segue cinco passos distintos: anamnese e exame físico; levantamento de problemas; diagnóstico; prescrição; e evolução de enfermagem.(1,2)

Esse processo é uma ferramenta intelectual da enfermagem que deve guiar as ações da equipe, permitindo oferecer uma assistência integral.(3) Como parte desse cuidado sistematizado, destaca-se a consulta de enfermagem, atividade privativa do enfermeiro estabelecida pela Lei no 7.498/86 e utilizada no processo de trabalho por meio de orientações, informações e ações, no sentido de decidir um plano de cuidado, incluindo a promoção da saúde do indivíduo, família e comunidade.(2)

Os adolescentes são um dos grupos populacionais em que os enfermeiros têm forte presença, através de atividades educativas e consultas de enfermagem. A adolescência inclui pessoas com idade entre 10 e 19 anos, e trata-se de uma fase rica em descobertas e experiências, acompanhadas de mudanças biológicas, psicológicas e sociais.(4,5) Assim, a criação de um instrumento que possa direcionar a consulta de enfermagem ao adolescente com foco na promoção da saúde é uma invenção tecnológica que vislumbra o cuidado ao adolescente com sua participação ativa.

Em revisão de escopo realizada, não foi encontrado nenhum instrumento para consulta de enfermagem que destaque a promoção da saúde ao adolescente.(6) Além disso, a promoção da saúde é uma estratégia essencial ao bem-estar da população infanto-juvenil que vai ao encontro dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, visando diminuir vulnerabilidades e oferecer ferramentas e habilidades para melhorar a vida de crianças e adolescentes.(7)

Neste contexto, insere-se o Modelo de Promoção da Saúde (MPS) de Nola Pender, teoria focada em motivações positivas voltadas à prevenção dos problemas de saúde, auxiliando enfermeiros na atenção à saúde das pessoas e propiciando um melhor nível de saúde.(8) Desse modo, a proposta desta pesquisa foi a elaboração de instrumento para consulta de enfermagem ao adolescente fundamentado no MPS, considerado referencial para embasar a construção de políticas e ciência em enfermagem, visto que identifica os fatores capazes de influenciar o desenvolvimento saudável, motivando pessoas a adotarem comportamentos promotores de saúde.(9)

Diante de tais considerações, delineou-se o desenvolvimento de uma tecnologia que sistematiza e orienta os passos da consulta de enfermagem ao adolescente, incentivando a adoção de hábitos promotores de saúde, por entender que o enfermeiro tem oportunidades de desenvolver essas ações, notadamente, na atenção primária, sendo possível a integração com outros setores e outros profissionais de saúde.

Diante do exposto, este estudo teve como objetivo construir e validar um Instrumento para Consulta de Enfermagem ao Adolescente (ICEA), propiciando o cuidado e a promoção da saúde.

Métodos

Pesquisa metodológica, que tem como foco a construção e a validação de um instrumento para consulta de enfermagem ao adolescente. A validação de um construto, no caso, instrumento, tem como objetivo torná-lo válido e confiável, garantindo a qualidade e a credibilidade quando avaliado por especialistas.(10,11)

As etapas de construção e validação aconteceram entre fevereiro e novembro de 2023, em momentos distintos, a saber: levantamento da literatura científica sobre comportamentos saudáveis do adolescente; elaboração da primeira versão do ICEA fundamentado no MPS de Nola Pender,(12) o qual está estruturado em cinco partes; e finalmente a validação do instrumento com os juízes.(13-15)

Assim, o levantamento da literatura científica foi elaborado a partir de revisão integrativa da literatura(16) que buscou identificar os comportamentos que os adolescentes devem assumir para promover sua saúde, de modo a sinalizar pontos importantes sobre o cuidado, visando à promoção da saúde. Esta revisão foi construída a partir da estratégia PICo, na qual identificaram-se a População (P: adolescentes), o Fenômeno de Interesse (I: comportamentos saudáveis) e o Contexto (Co: promoção da saúde).(17)

A busca ocorreu entre os meses de janeiro e abril de 2023 nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), EMBASE, Medical Literature Analysis and Retrieval System (MEDLINE) – via PubMed e na biblioteca virtual Scientific Electronic Library Online (SciELO). Dessa forma, na busca pelos estudos, foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e os Medical Subject Headings (MeSH), os quais foram Adolescent Health, Health Promotion, Saúde do Adolescente, Promoção da Saúde, além de suas sinonímias, de acordo com as bases de dados. Inicialmente, foram encontrados 779 estudos e, após seleção, 15 estudos foram elegíveis para compor a amostra da pesquisa. A pesquisa identificou os principais comportamentos que podem promover a saúde do adolescente, e observou-se que esses devem ser incentivados nos mais diversos ambientes de atenção e cuidados.(17)

O MPS auxilia os enfermeiros a entender como as pessoas podem ser motivadas a alcançar sua saúde, e é estruturado em três dimensões: características e experiências individuais; sentimentos e conhecimentos sobre o comportamento específico que se quer alcançar; e comportamento de promoção de saúde desejável.(12) Com base nestas dimensões, somando-se aos resultados da revisão integrativa, elaborou-se a primeira versão do instrumento, apresentado em cinco partes, seguindo o referencial teórico: identificação do adolescente; características, experiências individuais e comportamento relacionado anterior, fatores pessoais, biológicos, psicológicos e socioculturais; sentimentos e conhecimentos acerca do comportamento específico; comportamentos de promoção da saúde desejáveis; e avaliação processual do plano de ação.

Essa estruturação foi feita de modo a alinhar os eixos integrantes do MPS de Nola Pender às etapas do Processo de Enfermagem (avaliação de enfermagem; diagnóstico de enfermagem; planejamento de enfermagem; implementação de enfermagem; e evolução de enfermagem), possibilitando ao enfermeiro melhorar as interações com o adolescente e obter informações necessárias à identificação do estado de saúde, registro e posterior tomada de decisão.(2,12,18,19)

Após a elaboração da primeira versão do ICEA, este foi submetido à apreciação de juízes (profissionais com experiência na área da construção e/ou aplicação da referida tecnologia) para proceder à validação de conteúdo, que demonstra o valor que este representa ao construto e também a validação de aparência para avaliar clareza e a compreensão da linguagem representada no instrumento.(11)

Os critérios de inclusão para a seleção desses juízes utilizaram parâmetros definidos(20) que conferem pontuação máxima de 10 pontos, sendo elegíveis para ser juiz aqueles enfermeiros que obtiveram pontuação mínima de 5 pontos, distribuídos entre formação acadêmica, produção científica e prática na saúde do adolescente. Foram excluídos do estudo aqueles que responderam fora do prazo estipulado ou entregaram o material com avaliação incompleta. A busca pelos profissionais foi realizada por meio da Plataforma Lattes no portal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), utilizando os filtros “Enfermagem” e “Saúde do Adolescente”. Esses enfermeiros selecionados indicaram outros enfermeiros que também se incluíam como avaliadores, técnica conhecida como amostragem em rede ou bola de neve.(10)

A partir disso, foram encontrados 42 juízes, os quais foram convidados a participar da pesquisa por meio de carta convite, enviada por e-mail. Aqueles que aceitaram participar receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a primeira versão do ICEA e um instrumento de avaliação dele. Essa primeira versão estava subdividida em cinco partes, respeitando as etapas do Processo de Enfermagem e os elementos estruturantes do modelo de Nola Pender. A parte referente à avaliação de enfermagem continha 39 itens referentes à abordagem dos comportamentos saudáveis com os adolescentes.

Estabeleceu-se o prazo de até 30 dias para devolução do formulário de avaliação do instrumento. Este analisou estrutura, objetivo e relevância dos itens, a partir de um questionário adaptado pelos autores(21). Ele continha informações iniciais de caracterização do juiz, seguido dos itens de avaliação da tecnologia elaborada. Utilizou-se escala do tipo Likert com quatro opções de resposta: (1) inadequado; (2) parcialmente adequado; (3) adequado; e (4) totalmente adequado. Após cada item, havia espaço para que os juízes pudessem registrar sugestões de modificação e melhorias. Um total de nove juízes retornaram em tempo hábil e com todos os itens preenchidos, compondo a amostra deste estudo. Foi realizada uma rodada de avaliação com esses participantes, considerando que as sugestões pertinentes foram acatadas plenamente, e as não incluídas foram justificadas pela viabilidade e finalidade do instrumento.

Para a análise, as respostas dos juízes foram inseridas em um banco de dados no Microsoft Excel 2020, e foram analisadas observando-se as pontuações atribuídas a cada item. A relevância dos itens foi obtida pela aplicação do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), e foram considerados válidos itens com um IVC maior do que 0,78, ou seja, uma concordância maior do que 78% entre os juízes. Para avaliar a consistência interna do questionário, foi calculado o alfa de Cronbach, sendo o valor ideal maior ou igual a 0,8.(22)

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, com aprovação sob Parecer nº 5.901.545 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética nº 64220422.0.0000.5294. Todos os procedimentos éticos foram cumpridos no decurso da pesquisa.

Resultados

O instrumento elaborado seguiu os itens que compõem o Processo de Enfermagem, tendo a especificidade de contemplar o MPS de Nola Pender. Além disso, os comportamentos saudáveis que embasaram a construção do referido instrumento foram decorrentes da revisão integrativa realizada; entre eles, destacam-se prática de atividade física, alimentação saudável, planejamento de vida, espiritualidade, atividades de lazer, saúde sexual, higiene corporal, saúde mental, sono e repouso.

Inicialmente, disponibilizou-se espaço para identificação do adolescente, seguindo-se o campo das características e experiências individuais, que considera aspectos pessoais, biológicos, psicológicos e socioculturais, contemplando o histórico de enfermagem desse adolescente. Prosseguiu-se com os sentimentos e comportamentos específicos, momento em que o adolescente e o enfermeiro, juntos, elencam comportamentos de saúde a serem modificados ou mantidos. No quarto ponto, eles estabeleceram os comportamentos de promoção da saúde desejáveis e o planejamento para executá-los. Por fim, correspondendo à quinta fase do Processo de Enfermagem, foi aprazada data de nova consulta, mantendo-se, assim, espaço para no retorno realizar a avaliação de como foi implementado esse plano de ação.

Após a construção do instrumento, procedeu-se à etapa de validação sobre o conteúdo com a participação dos nove juízes. Entre os participantes, a idade mínima foi de 32 anos e a máxima de 44 anos (com uma média de 37 anos). Houve predominância do sexo feminino (seis participantes), e quanto à formação acadêmica, sete tinham doutorado. Todos eram docentes em enfermagem; entre estes, seis atuavam na assistência direta ao adolescente nos serviços de saúde e oito tinham conhecimento sobre a construção de instrumentos ou escalas. Assim, todos os juízes tinham experiência na área da saúde do adolescente e seis desenvolviam pesquisas na área (Tabela 1).

Tabela 1
Caracterização dos juízes participantes

No que se refere às avaliações dos juízes sobre o instrumento, obtiveram-se um IVC Global de 0,917 e o alfa de Cronbach para todo o instrumento de 0,958. Todos os juízes apontaram que o instrumento aborda itens importantes para a saúde do adolescente e que serve como suporte de orientação aos enfermeiros durante as consultas de enfermagem ao adolescente, além de ter sido válido quanto à estrutura, objetivo e relevância, como mostra a tabela 2.

Tabela 2
Concordância dos juízes a respeito dos aspectos relacionados à estrutura, objetivo e relevância do instrumento por completo

A primeira versão do instrumento que foi enviada aos juízes estava subdividida em cinco partes, de acordo com as etapas do MPS de Nola Pender. Esse formato foi aprovado pelos juízes e mantido na versão final (Apêndice 1). Dentro do item referente à identificação do adolescente e dos subitens referentes aos comportamentos de saúde a serem adotados, estes possuem a maioria dos seus itens aprovados com um IVC maior ou igual a 0,78, exceto o subitem de saúde mental, com um IVC de 0,67. Esses valores estão descritos na tabela 3.

Tabela 3
Concordância dos juízes a respeito dos aspectos relacionados à organização e relevância de cada item ou subitem

Algumas recomendações foram feitas, e aceitas, na etapa de identificação, tais como incluir o nome social, endereço e sexo do adolescente. Dentro dos subitens referentes aos comportamentos promotores de saúde, foram solicitadas e acatadas as seguintes alterações ou inclusões: substituir o termo igreja por religião; reformular pergunta sobre composição alimentar das principais refeições; reformular pergunta sobre conflitos na família e rede de apoio em caso de violência; incluir pergunta sobre como se dá o relacionamento com o(a) parceiro(a); dar maior clareza no questionamento sobre higiene corporal. Quanto ao subitem de saúde mental, avaliado pelos juízes com um IVC abaixo da média, é necessário esclarecer as modificações que foram solicitadas pelos juízes, no intuito de melhorar a abordagem desse tema. A primeira delas foi de reformular a pergunta que, na primeira versão, era “Como tem procurado gerenciar e controlar as alterações emocionais?”, e após validação passou a ser “Como você se comporta quando fica triste?”. Outra solicitação feita pelos juízes e executada foi a inclusão da pergunta “Já tentou se machucar?”. Além disso, foi solicitada a inserção, ao final do instrumento, de um fluxograma para encaminhamento das demandas de saúde mental, acréscimo que não foi feito pelos pesquisadores em virtude das especificidades da rede de apoio psicossocial em cada município ou região. Então, cada profissional poderá agir nesse campo de acordo com os serviços disponíveis.

Discussão

As características dos juízes que contribuíram na avaliação do instrumento mostram que possuem experiência na área da saúde do adolescente, seja na assistência ou no ensino, associando, ainda, conhecimento sobre a validação de instrumentos. Este aspecto é ressaltado na literatura, pois a avaliação dos juízes vai imprimir qualidade ao construto, observando a validade e a confiabilidade.(10,11)

Nesse processo, a escolha dos avaliadores é fundamental, pois a validação do conteúdo contribui para a cientificidade do instrumento; no caso, destinado à consulta de enfermagem, observando-se pontos fundamentais para direcionar o cuidado ao adolescente, uma vez que, na atenção a esse público, é fundamental considerar a multiplicidade de aspectos que influenciam a sua saúde, indo além da prevenção do adoecimento, na busca pela promoção da saúde.(18,23)

A atenção à saúde dos adolescentes representa um desafio, por tratar-se de um grupo social que passa por importantes e grandes transformações psicobiológicas articuladas a um envolvimento social.(4) Além disso, pode-se destacar o comprometimento da enfermagem com a saúde e o desenvolvimento dos adolescentes, reconhecendo que esses são responsáveis por diversas ações que lhes são dirigidas, desde a identificação dos problemas e necessidades até a formulação da solução e a tomada de decisão.(24)

Destarte, a construção e a validação do instrumento foram desenvolvidas no intuito de propiciar atenção integral ao adolescente, facilitando a consulta de enfermagem com foco na promoção da saúde. Assim, o instrumento pôde auxiliar nesse processo, direcionando os cuidados de enfermagem com consequente melhora na qualidade da assistência.(25)

Durante a etapa de validação do conteúdo do instrumento proposto, a totalidade dos juízes afirmou que o instrumento poderá servir como suporte de orientação aos enfermeiros durante as consultas com foco na promoção da saúde do adolescente, confirmando-se o propósito do instrumento.

O MPS explora processos biopsicossociais que motivam os indivíduos a adotar comportamentos saudáveis.(13) Pesquisa envolvendo profissionais de saúde e adolescentes mostrou que, ao abordar a promoção da saúde com esse público, deve-se desenvolver o diálogo no intuito de orientar e ganhar a confiança. Este estudo recomendou reforçar ações sobre a saúde sexual e reprodutiva, autoconhecimento e o protagonismo nas ações voltadas a manter comportamentos saudáveis.(26)

A tecnologia em discussão contempla as várias dimensões do cuidado e envolve essas perspectivas de comunicação, sugerindo aspectos que poderão motivar a reflexão e, a partir disso, estimular a adoção de comportamentos saudáveis no adolescente. Tal afirmação foi corroborada pelos juízes, quando todos concordaram com o conteúdo e a aparência do instrumento, ressaltando-se a relevância dos itens retratados na consulta, abordando aspectos relevantes que devem ser reforçados junto aos adolescentes.

Nesse sentido, observa-se que o instrumento oferece informações estruturadas e sistematizadas que permitem levantar vários aspectos pessoais, familiares e do desenvolvimento do adolescente, contexto de vida e saúde, elementos que podem identificar pontos a serem modificados, com as orientações e negociações entre o enfermeiro e o adolescente conduzindo a comportamentos promotores de saúde.(9)

A segunda versão apresenta-se enriquecida com um olhar coletivo, pois traz as modificações de cada item, conforme sugestões dos juízes, tais como a inserção de alguns termos no item referente à identificação dos adolescentes, com o objetivo de melhorar a abordagem a esses, pois a intenção é que o cuidado seja centrado na pessoa, considerando seu contexto de vida pessoal, familiar e social. Analisar todos os aspectos relacionados ao adolescente é fundamental para promoção da saúde e cuidado integral, indo além da prevenção de comportamentos de risco, envolvendo aspectos vinculados ao desenvolvimento de competências socioemocionais, proteção contra violência, acesso às condições básicas de vida, moradia, educação, lazer, saúde, entre outras.(27)

Na parte que envolve os comportamentos em saúde a serem adotados pelos adolescentes, as mudanças solicitadas foram no sentido de melhorar as perguntas, tornando-as mais claras aos sujeitos a quem se direcionam. Tal fato pode ser explicado pela necessidade de melhor compreensão de suas necessidades de saúde, para que eles possam ser protagonistas nas ações que são orientadas para a promoção da saúde. Defende-se que os adolescentes sejam agentes ativos de sua própria mudança, participando efetivamente das ações implementadas para seu desenvolvimento integral.(28)

No que se refere à saúde mental, sabe-se da relevância de discutir sobre essa temática entre os escolares, pois estudos recentes enfatizam a necessidade de ações de promoção da saúde mental do adolescente, visto que a prevalência do sofrimento psíquico nessa população tem aumentado.(29) Sobre a não inclusão no instrumento de um fluxograma de encaminhamento para saúde mental proposto por um dos juízes, destaca-se que o ICEA busca a promoção da saúde do adolescente de forma integral. Além disso, o instrumento foi construído para direcionar a atuação da enfermagem na saúde do adolescente em diversos cenários de prática em todo o país, e o fluxo de direcionamento para serviços de saúde mental pode variar a depender da realidade local.

Quanto aos outros itens de instrumento que apresentaram IVC limítrofe, em todos eles, houve sugestão dos juízes para reorganização dos itens, e estas foram aceitas, o que confere melhoria da organização do instrumento. Esses itens foram identificação do adolescente, trabalho e estudo, antecedentes pessoais e familiares, espiritualidade, saúde sexual, higiene, hábitos alimentares e exame físico. A importância de alinhar esses itens conforme solicitação é explicada pela necessidade de elaboração de estratégias ancoradas no reconhecimento dos comportamentos dos adolescentes decorrentes da maturação biológica, dimensões sociais e relações com pares e com o ambiente.(28)

Nos demais tópicos do instrumento, não foram solicitadas alterações, mostrando que estão condizentes com as etapas da consulta de enfermagem, tal como definido pela literatura e reforçando que o MPS possibilita construir uma base sólida para a prática clínica do enfermeiro, permitindo o planejamento, a implementação de intervenções e a avaliação das ações.(30)

Outro ponto positivo do instrumento que merece destaque é o fato de os juízes não terem apresentado dificuldade em compreender o instrumento. Soma-se a isso a solicitação por parte de um juiz para que o instrumento já fosse incorporado nos serviços de saúde e que fosse finalizado o processo de validação, reafirmando a carência de um instrumento nessa configuração.

As evidências de validade do ICEA apresentam oportunidades para o enfermeiro no contexto da Atenção Primária à Saúde, pois poderá direcionar a consulta de enfermagem ao adolescente, aprimorando competências, fortalecendo vínculos, apoiando a tomada de decisão e estimulando o pensamento crítico, uma vez que os adolescentes se encontram em uma fase de desenvolvimento humano de reconhecida vulnerabilidade, caracterizada por diversas mudanças ou comportamentos relacionados ao estilo de vida que podem ser vistos como fatores de proteção ou de risco para doenças.(31)

Como limitação deste estudo, destaca-se a dificuldade em encontrar juízes com expertise e disponibilidade para avaliar o instrumento no período solicitado, resultando em pequena amostra, embora representativa, pois foi constituída por um número que é considerado adequado de acordo com o referencial teórico adotado.(22)

Por outro lado, a construção e validação desse instrumento permitiu entender como o Processo de Enfermagem e o MPS de Nola Pender estão interligados, e reforça a importância da aplicação do referido modelo como recurso teórico-metodológico que norteia a consulta de enfermagem. Diante do ineditismo e da necessidade na prática do enfermeiro, acredita-se na contribuição dele na gestão do cuidado clínico ao adolescente, no ensino e, consequentemente, no avanço do conhecimento à ciência da enfermagem.

Conclusão

A partir do processo de construção do instrumento e dos resultados da avaliação deste, considera-se que o ICEA apresentou evidências de validade de conteúdo e aparência consoantes com sua finalidade, representando uma inovação no cuidado ao adolescente. Essas evidências de validade podem impulsionar as ações do enfermeiro, com vistas a melhorar a assistência prestada e, assim, colaborar para a adesão dos adolescentes a hábitos promotores de saúde. Incentiva-se, portanto, sua utilização no contexto da Atenção Primária à Saúde, impactando a melhoria do acesso dos adolescentes aos serviços e dando novas possibilidades de ações e intervenções de promoção da saúde.

Agradecimentos

Agradecemos aos juízes especialistas que participaram desta pesquisa e colaboraram para o refinamento do Instrumento para Consulta de Enfermagem aos Adolescentes.

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Apêndice 1


Instrumento para Consulta de Enfermagem ao Adolescente baseado no Modelo de Promoção da Saúde, de Nola Pender, após validação dos juízes

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2024
  • Aceito
    10 Abr 2025
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