RESUMO
Foi realizado um experimento para estimar o grau potencial de nocividade deBidens pilosa L., picão-preto, paraPhaseolus vulgaris L., feijoeiro, cv. Carioca 80. O experimento foi conduzido em caixas de amianto com dimensões de 30 x 47cme 30cmdeprofundidade contendo47 kgde solo, expostas a condições climáticas naturais e irrigação complementar sempre quefoi necessário. O grau denocividade foideterminado submetendo-se quatro plantas de feijoeiro à convivência forçada de densidades populacionais crescentes de B. pilosa, sob um delineamento de blocos ao acaso, 5 tratamentos e 7 repetições. Os dados mostraram queB. pilosa foi altamente prejudicial parao feijoeiro em todas as medidas de crescimento daplanta cultivada: biomassa epígea seca, número de vagens, biomassa dasvagens secas e sementes secas. Foi determinada uma correlação negativa e significativa entre população deB. pilosa e esses parâmetros, sendo os resultados interpretados por regressões quadráticas em função do aumento da densidade populacional da erva daninha demonstrando, assim, queB. pilosa apresenta um elevado grau de nocividade para o feijoeiro.
PALAVRAS-CHAVE:
Planta daninha; competição; densidade populacional crítica.
ABSTRACT
A experiment was carried out in order to study the effects ofBidens pilosa at different population densities on bean plants (Phaseolus vulgaris L.). The experiment was conducted in boxes (30 x 47 cm and 30 cm deep) containing 47kgof soil, exposed atnatural climatic conditions and complementary irrigation. A randomized block design and seven replications was employed. The results showed thatB. pilosa reduced the biomass, number and weight oflegumes and seeds of bean plants. There was a signiticant and negative relation between weed density population and plant crop growth.
KEY WORDS:
Weed-crop competiton; weeds; critical density.
INTRODUÇÃO
Bidens pilosa L. é uma erva da família Asteraceae (Compositae), anual, originária da América Tropical de onde se difundiu por todas as zonas quentes do mundo (BRAGA, 1960;HOLM et al.,1977;LEITÃOFILHO et al.,1975). Atualmente, é assinalada em 40 países infestando áreas cultivadas com 31plantas econômicas (HOLM et al., 1977).
Na agricultura brasileira é espécie muito freqüente (GEMTCHÚJNICOV, 1976), disseminada em todo o território nacional, sendo o sul apontado como a região ondecausamaioresproblemas (LORENZI, 1982). Ocorre em qualquer tipo de solo, preferindo os argilosos e férteis (HOLM, 1977), ondeconvive comculturas anuais e perenes.
BLANCO (1976), classifica-a como espécie muito abundante e altamente nociva, assinalando que, além do feijão, é infestante de mais outras 14 culturas. Pode ser encontrada, também, em solos não cultivados. BLANCO (1976), indica para o Brasil 22 nomes populares, sendo picão-preto, erva-picão ou simplesmente picão os mais conhecidos. Para os idiomas castelhano e inglês, .o autor indica, respectivamente,25 e 11 sinônimos populares.
Não obstante sua importância, estudos sobre efeitos da convivência deB. pilosa com feijoeiros são escassos na literatura, mesmo em nível internacional. No Brasil, CARVALHO (1980a, 1980b), relatou os resultados da competição deB. pilosa eBrachiariaplantaginea (Link) Hitch com feijoeiros, indicando queo efeitoconjunto foi de 37,3% de perdas no rendimento da cultura. Densidades populacionais de 82 indivíduos/m2 deB. pilosa não influiram no rendimento do número das vagens, sendo necessários índices populacionais de 122 a 183 plantas paraprovocarredução(CARVALHO, 1980b).
Perdas de produção e períodos de competição provocados por comunidades naturais de infestantes na cultura do feijão foram relatados por BLANCO et a/.(1969) e VIEIRA (1970).
Ensaios de campo sobre competição específica de ervas daninhas em agroecossistemas deregiões tropicais apresentam certas dificuldades de condução, pois, em geral, a flora infestante natural é representada por uma comunidade de muitas espécies. Assim, para se estimar a agressividade das espécies antes de se empreender investigação similar no campo, é conveniente estabelecer-se apotencialidadede nocividade daespécie paracada planta cultivada, oquese faz emcondições parcialmente controladas que permitirão uma melhor avaliação dos efeitos. Tal procedimentotemsemostradoválidoevitando trabalho desnecessário, pois, os resultados mostram que certas espécies apresentam graus diferentes de nocividade em relação à cultura. Por exemplo, Cyperus rotundus L.(tiririca) é altamente nociva ao algodoeiro porque em baixa densidade populacional já provoca prejuízo (BLANCO et al., 1991), enquanto que para amendoim é necessário uma alta taxa populacional para osdanos serem significativos (AREV ALOet al.,1986).
Com o objetivo de obter informações sobre os efeitos de diferentes densidades populacionais de B. pilosa crescendo junto com o feijoeiro foi conduzido um experimento, em condições parcialmente controladas, para estimar a potencialidade da nocividade da erva daninha sobre a planta cultivada.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido sob condições climáticas naturais, com irrigação complementar quando necessária, em área da Estação Experimental do Instituto Biológico, Campinas, SP, Brasil.
Como parcelas experimentais utilizaram-se caixas de amianto com superfície de 30 x 47cm e 30cm de profundidade, contendo 47kg de solo de textura franco-argila-arenosa.
O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso com 5 tratamentos e 7 repetições. O experimento foi implantado em 16 de março de 1991.
Em cada caixa foram deixadas, por desbaste, 4 plantas de feijão, cv. Carioca 80, em convivência com densidades populacionais crescentes deB. pilosa que constituíram-se nos tratamentos. As densidades populacionais da erva daninha foram zero, 5, 10, 20 e 40 plantas por parcela experimental.
No dia do plantio o solo foi adubado com a fórmula básica 0-120-60kg ha-1 ; 35 dias após foram aplicados 35 kg ha-1 de adubação nitrogenada, em cobertura.
Para verificação dos efeitos dos tratamentos foram determinadas, por ocasião da colheita, as seguintes medidas decrescimento dasplantas de feijão: biomassa epígea seca (70ºC), número das vagens, e biomassa das vagens secas e sementes secas.
A colheita do material foi realizada em 30 de junho.
As análises da variância e de regressão foram realizadas com os dados originais, utlizando-se o nível de 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A tabela 1 apresenta os resultados da influência da presença de Bidens pilosa sobre o desenvolvimento (peso da parte aérea) e produção do feijoeiro (número e peso das vagens, e peso das sementes).
A análise davariância desses dados demonstra queo valordeFparaa variável "tratamentos" foi significativo para qualquer parâmetro considerado, o que demonstra que B. pilosa crescendo no mesmo ambiente que o feijoeiro traz prejuízos para a planta cultivada.
Aplicando-se o Teste de Tukey de comparação de médias para separação dos efeitos das diferentes densidades populacionais de B. pilosa, verifica-se que os resultados foram variáveis conforme a medida considerada de crescimento do feijoeiro. Ora os efeitos se expressaram já com 5 plantas/parcela, como no caso do número e o peso das vagens, ora só passam a ser significativos a partir de 10 plantas/parcela (peso das plantas e das sementes). Por esta razão, optou-se por interpretar os resultados pela análise de regressão polinomial.
Por esta análise (Tabela 1), verifica-se queafunção quadrática satisfaz e explica os efeitos sobre todos os parâmetros considerados, não obstante o efeito sobre o número de vagens possa ser, também, interpretado pela equação cúbica. Como polinômios degraus mais elevados que o do segundo grau têm comportamento pouco apropriado à interpretação defenômenos biológicos, considerou-se queafunção quadrática foi aque melhor se ajustou aos resultados.
As figuras 1, 2, 3 e 4 apresentam as curvas de regressão do 2º grau para as parâmetros de crescimento do feijoeiro. Por estas figuras verifica-se que à medida que se aumenta a po.pulação deB. pilosa, o crescimento e a produção do feijoeiro diminui progressivamente, sendo a redução mais marcante em níveis populacionais mais baixos, tornando-se a curva assintótica a partir de populações de aproximadamente 25 plantas/caixa. Isto se explica pela plasticidade comum das ervas daninhas, isto é, plantas isoladas apresentam maior desenvolvimento, e pela competição intra-específica existente em altas densidades populaciona_is.
A figura 5 compara a curva da massa epígea seca de um indivíduo deBidens pilosa com a da biomassa epígea seca do feijoeiro. Pode-se observar não só a existência de competição inter-específicacomo aocorrência de competição entre aprópriaespécieB. pilosa (intra-específica). Observa-se que o peso médio da erva daninha decresce, significativamente, a cada aumento da sua população. Este fenômeno ocorre também em condições de campo.
A julgar por resultados relatados por diversos pesquisadores,B. pilosa é grande extratora denutrientes do solo: deferroecobre.(GALLO et al., 1958); de potássio, cálcio, ferro, cobre e zinco (MICHELINi et al, 1982); depotássio, nitrogênio, fósforo e magnésio (COSTALLAT, 1974); edenitrogênio, potássio, cálcio, magnésio, enxofre e fósforo (GALLO & MIYASAKA, 1961). HAAGetaL (1967), relacionaram ocrescimento do feijoeiro com aabsorção mineral, concluindo que a planta absorve todo N, K e Ca que necessita nos primeiros 50 dias do seu ciclo; o Mg e S são extraídos até os 70e 60 primeiros dias, respectivamente, sendo o P absorvido até o fim do ciclo. Sabese, também, queB. pilosa completa o seu ciclo de vida em 30 a 50 dias, período em que ocoITe a maior extração dos elementos minerais do solo.
Efeito da convivência de Bidens pilosa no crescimento e produção do feijoeiro. Dados médios de 7 repetições determinados no fim do ciclo do feijoeiro.
Por essas informações, considerando-se que houve sempre disponibilidadede água para as plantas, pode-se inferir quea interferência deB. pilosa nodesenvolvimento dofeijoeiro deve ser explicada por suagrande competição de N, K, Fe e Cu e, possivelmente, Mg em detrimento da nutrição do feijoeiro. Sabe-se que todos esseselementos sãoimportantes noprocesso fotossintético, seja participando damoléculadaclorofila(Mg), ou como ativador de processos enzimáticos (Fe e Cu), ou sendo o cation mais abundante nas células vegetais (K), desempenhando papel importante na produção de ATP. Isso explicaria os resultados encontrados.
Esses resultados estariam, assim, demonstrando que a presença de R pilosa em áreas cultivadas com feijão é altamente prejudicial, e que ensaios de campo para quantificar umbrais de competição da espécie em nível de campo devem ser levados a efeito.
CONCLUSÕES
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A convivência da erva daninhaBidens pilosa L. com feijoeiro é altamente prejudicial ao desenvolvimento e produção da planta cultivada. O seu grau de nocividade para o feijoeiro é elevado.
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A nocividade deBidens pilosa L. é traduzidapor regressões quadráticas em função do aumento da sua densidade populacional ; há uma co1Telação negativa e significativa entre número de indivíduos deB. pilosa e produção do feijoeiro.
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