Open-access Se as baías falassem História oral e desindustrialização nociva nas Baías de Bizkaia (País Basco, Espanha) e Guanabara (Rio de Janeiro, Brasil)

RESUMO

O artigo posiciona a história oral como prática valiosa para a compreensão da história ambiental urbana das Baías de Bizkaia e de Guanabara, com foco nos seus processos de desindustrialização nociva. Identificamos exemplos de como esses processos de desindustrialização afetaram e afetam comunidades humanas e não humanas, e em que medida os testemunhos dos atores sociais envolvidos, sobretudo ambientalistas e moradores destas áreas entre terra e mar, podem revelar conflitos, desigualdades e violências socioambientais. As memórias do passado que se atualizam no presente contribuem para problematizar paisagens dinâmicas que possuem singularidades, mas compartilham experiências semelhantes de perda ambiental, deslocamento e reconstrução de identidades coletivas. A história oral, ao valorizar a escuta e o relato subjetivo, permite compreender como emoções, pertencimentos e práticas locais se entrelaçam às transformações materiais do território. Sua contribuição à história ambiental é fundamental em tempos que exigem respostas rápidas, reflexão crítica e organização coletiva diante da crise ecológica global.

PALAVRAS-CHAVE:
História oral; história ambiental; desindustrialização

ABSTRACT

The article advocates for oral history as a valuable method for understanding the urban environmental history of the Bays of Bizkaia and Guanabara, focusing on their damaging deindustrialization processes. We highlight examples of how these processes have impacted and continue to impact both human and non-human communities, and the extent to which testimonies from social actors involved particularly environmentalists and residents of these areas between land and sea reveal social, environmental, and economic conflicts, inequalities, and forms of violence. Memories of the past, reactivated in the present, serve to problematise dynamic landscapes that, while unique, share similar experiences of environmental loss, displacement, and the rebuilding of collective identities. By valuing listening and subjective narratives, oral history supports an understanding of how emotions, belonging, and local practices intertwine with the material transformations of the territory. Its contribution to environmental history remains vital in times that demand swift responses, critical reflection, and collective organization amidst the global ecological crisis.

KEYWORDS:
Oral history; environmental history; deindustrialization

INTRODUÇÃO

Baías urbanas tem histórias humanas e não-humanas, e estas histórias se entrelaçam. Cardumes, mangues e crustáceos alimentam comunidades de pescadores, assim como ecossistemas estuarinos podem viver ou morrer nos despejos de efluentes de indústrias ribeirinhas. As águas das Baías de Biskaia1 e de Guanabara, localizadas em dois continentes diversos, nunca se misturaram, mas compartilham de trajetórias comuns da Grande Aceleração, como John McNeill e Peter Engelke (2016) definiram o período pós-1945, de radicais transformações nos sistemas humanos e planetários. Em particular, os processos de industrialização e desindustrialização na Espanha e no Brasil marcaram estas trajetórias, transformando para sempre as duas baías, suas águas e suas comunidades. A desindustrialização, longe de ser um mero declínio produtivo, irradia um espectro de legados nocivos que se manifestam de maneiras complexas e interconectadas nos territórios que outrora pulsavam com a atividade fabril. Para compreender estes processos, é necessário ouvir as muitas vozes destas baías (seja na forma de indicadores biológicos como políticos). São vozes que produzem memórias e, ao fazê-lo, encorajam movimentos.

Este artigo é parte de um projeto de pesquisa, ainda em andamento, ancorado metodologicamente na história oral.2 Por meio da articulação entre entrevistas e o exame de fontes impressas e visuais, buscamos desenvolver uma análise histórica comparativa sobre os impactos destrutivos da desindustrialização nas regiões estuarinas de Bizkaia, no País Basco, e da Baía de Guanabara, no Brasil.3 A desindustrialização nociva, conforme discutida por Mah, Feltrin e Brown (2022), se refere não apenas aos efeitos diretos da atividade industrial sobre a saúde humana e sobre o meio ambiente — como emissões tóxicas, descarte de resíduos plásticos e acidentes industriais —, efeitos que perduram para além do funcionamento pleno da atividade fabril. Refere-se, também, a processos de fechamento de indústrias que não são acompanhados por medidas adequadas de remediação ambiental, de suporte à transição econômica das comunidades afetadas e de responsabilização das empresas poluidoras. O conceito engloba, portanto, as consequências sociais e subjetivas da pós-industrialização, como deterioração das condições ambientais, o agravamento de doenças físicas e psicológicas decorrentes do desemprego em massa, da precarização econômica, da insegurança ocupacional e da fragmentação dos vínculos comunitários.

As baías se configuram como recortes analíticos privilegiados para investigar as complexas interações entre práticas humanas e dinâmicas ecológicas. Por estarem situadas na transição entre os domínios terrestre e marinho, essas zonas costeiras abrigam uma multiplicidade de usos que vão desde portos e atividades industriais até áreas de ocupação residencial e espaços dedicados ao lazer. Ao tomá-las como unidade de análise, se torna possível compreender como acontecem os fluxos de matéria e energia, a dispersão de contaminantes, a interdependência entre ecossistemas conectados — como manguezais, restingas e praias — e os impactos acumulativos das ações antrópicas ao longo do tempo. Assim, a presença de núcleos urbanos nas proximidades dessas baías acrescenta uma dimensão socioeconômica e política relevante, marcada por disputas territoriais, usos diferenciados do espaço e desigualdades no acesso a recursos e infraestrutura. Nesse sentido, o estudo comparativo entre diferentes baías urbanas, como as de Guanabara e de Bizkaia, possibilita a identificação de padrões recorrentes, especificidades locais e trajetórias contrastantes de desenvolvimento, degradação e resistência. Tal abordagem amplia a compreensão dos dilemas socioambientais que afetam os contextos costeiros sob intensa pressão urbana e industrial.

Os custos ecológicos do progresso industrial são internalizados por grupos sociais já marginalizados, enquanto os benefícios do crescimento econômico se distribuem de forma desigual. Ao nos debruçarmos sobre as memórias de diferentes atores sociais que vivenciaram esses processos, revelamos formas de desigualdade e conflito frequentemente invisibilizadas, bem como os múltiplos modos de violência socioambiental — nas palavras de Knowles (2020), slow disaster, um desastre que ocorre em ritmo lento, mas de efeitos profundos. De fato, mesmo desastres propriamente ditos, como um derramamento de óleo excepcional, uma mortandade de peixes inesperada, são resultados de processos políticos e sociais que atribuem riscos diversos a grupos desiguais, processos que antecedem, mas compõe o evento em questão (Sedrez, 2013).

A comparação entre os casos da Baía de Guanabara e da Baía de Bizkaia através da prática da história oral sublinha as formas de resistência, organização coletiva e reivindicação por justiça ambiental protagonizadas pelas populações atingidas. A desindustrialização, frequentemente reduzida apenas à transição para economias pós-industriais, deixa um legado de problemas ambientais e sociais significativos. Esse cenário resulta na persistência de passivos ambientais (contaminação de solos, água e ar), no aumento do desemprego e da precarização do trabalho, na desestruturação social e na perda de identidade territorial.

Os depoimentos orais auxiliam na investigação das particularidades dos processos de desindustrialização em cada contexto e na identificação das consequências mais intensas, desde as mais visíveis, como as águas poluídas, até as mais sutis, como a forma como as populações que vivem nas baías percebem os impactos na biodiversidade das áreas afetadas. No confronto entre o que o poder público se propõe a fazer e como as populações afetadas entendem as transformações do meio biofísico, a história oral permite que políticas públicas e ações da sociedade civil sejam avaliadas no que diz respeito à sua efetividade em mitigar os impactos socioambientais e proteger os ecossistemas. Neste confronto, os testemunhos e entrevistas amplificam vozes periféricas de comunidades que resistem cotidianamente e estabelecem uma certa “rota de fuga” das narrativas oficiais.

MEMÓRIA E NARRATIVA: HISTÓRIA ORAL PARA CONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA AMBIENTAL COMPARADA

A história oral se configura como uma metodologia fundamental para a construção de uma história ambiental comparada das baías urbanas em processo de desindustrialização, uma ferramenta de salvaguarda de memória dessas experiências em um cenário de pressão de transição energética face à crise climática. Através da coleta e análise de narrativas de diversos sujeitos sociais – trabalhadores e trabalhadoras que vivenciaram o auge e o declínio industrial, ativistas e movimentos sociais engajados na luta por justiça ambiental, funcionários públicos e especialistas que atuaram na gestão ambiental e no planejamento territorial e membros das comunidades locais em geral –, é possível acessar memórias e experiências frequentemente silenciadas ou negligenciadas pelas pesquisas voltadas para fontes documentais mais tradicionais. As narrativas revelam percepções sobre as transformações ambientais ao longo do tempo, estratégias de resistência e adaptação desenvolvidas pelas comunidades e os significados atribuídos aos territórios impactados. A história oral temática, focada nas experiências relacionadas à industrialização, poluição, desindustrialização e seus impactos socioambientais permite construir uma análise mais profunda e multifacetada das dinâmicas dos slow disasters (Knowles, 2020), articulando as singularidades de cada contexto com as diferenças nas formas de vivenciar e narrar processos.

Conforme sugerem Williams e Riley (2020), a história oral nos convida a escutar de forma atenta e sensível aqueles que viveram, em seus corpos e cotidianos, as transformações do ambiente ao longo do tempo. Ao reconhecer essas pessoas como protagonistas e testemunhas das paisagens que habitam, ampliamos nosso entendimento sobre os processos de degradação ambiental, mas também sobre as formas de resistência, cuidado e reinvenção que emergem dessas vivências. Mais do que um recurso metodológico ou uma exigência ética, o vínculo que a história oral estabelece entre narrador e ouvinte pode ser uma chave poderosa para compreender os modos como as pessoas constroem sentido sobre o mundo — sentidos atravessados por memórias, experiências compartilhadas e saberes herdados, todos profundamente enraizados nas relações que mantêm com os lugares e com os outros.

Ao mesmo tempo, os relatos orais oferecem registros únicos das relações entre humanos e ambiente. São memórias que nascem da experiência, que revelam práticas, gestos e tecnologias muitas vezes ausentes dos documentos oficiais. De fato, a história oral desafia os próprios critérios do que se entende por conhecimento ambiental legítimo. Ela desloca o centro das narrativas e convida à escuta de outras vozes — aquelas que, historicamente, ficaram à margem dos discursos autorizados sobre a natureza. Vista assim, não como instrumento de coleta, mas como prática viva e participativa, a história oral tem o potencial de transformar não apenas o que sabemos, mas também como nos relacionamos com o mundo que habitamos.

Do ponto de vista metodológico, portanto, partimos das premissas metodológicas da história oral ambiental (Goodhal; Holmes, 2017). Até a redação desse projeto já haviam sido entrevistados 5 pessoas no Brasil e 5 pessoas na Espanha, mas o projeto encontra-se em desenvolvimento e novas entrevistas continuam a ser feitas. O formato de entrevista utilizado foi o da entrevista temática semiestruturada de formato aberto, em que se estabelecem certos eixos orientadores, mas se permite flexibilidade para que o entrevistado aprofunde livremente. Essa abordagem facilita a exploração de experiências pessoais ligadas a temas específicos, mantendo um equilíbrio entre direção e espontaneidade. Complementarmente, utilizamos a técnica da entrevista narrativa conversacional, que promove um diálogo fluido e natural, incentivando o entrevistado a construir seu relato como uma história coerente. Assim, privilegia-se a subjetividade, a memória e o contexto sociocultural do narrador, em uma fonte de caráter eminentemente qualitativo.

A análise comparativa das dinâmicas ambientais nas baías de Guanabara e Bizkaia busca identificar tanto as singularidades de cada contexto quanto as diferenças nas trajetórias de industrialização, desindustrialização e nas respostas sociais e políticas aos desafios ambientais. As singularidades podem residir nas características geográficas e ecológicas específicas de cada baía, nos modelos de desenvolvimento industrial adotados, nas particularidades da legislação ambiental e nas características socioculturais das populações locais. As diferenças podem se manifestar na velocidade e intensidade dos processos de desindustrialização, na natureza e magnitude dos legados nocivos, nas formas de organização e mobilização social, e na efetividade das políticas de remediação e revitalização. A compreensão das dinâmicas ambientais a partir dessa perspectiva comparativa permite a identificação de fatores contextuais tanto dos processos de degradação e recuperação ambiental, como das diferentes formas de resistência, resiliência e os limites da adaptação em cada território investigado.

Em ambos os “maretórios-territórios” de Biskaia e da Guanabara, tanto a industrialização como a desindustrialização deixaram marcas indeléveis no mundo biofísico. A contaminação de ecossistemas aquáticos e terrestres persiste como um desafio central. Na Baía de Guanabara, décadas de descargas industriais e de efluentes urbanos não tratados resultaram em altos níveis de poluição, afetando a biodiversidade e comprometendo a saúde dos ecossistemas costeiros. A recorrência de eventos como a proliferação de algas nocivas e a mortandade de peixes atestam a fragilidade ecológica persistente (Klabin et al, 2017). De modo análogo, a intensa atividade industrial na Baía de Bizkaia durante o “longo século” industrial iniciado a partir do último terço do século XIX deixou um legado de contaminação de solos e sedimentos, impactando a qualidade da água e a saúde dos ecossistemas costeiros. A poluição do ar, embora tenda a diminuir com o fechamento das grandes indústrias, pode persistir em áreas portuárias remanescentes e devido ao aumento do tráfego veicular. A perda de biodiversidade é uma consequência transversal, afetando diversas formas de vida marinha e costeira em ambos os contextos. As alterações na paisagem são igualmente significativas, com a presença de estruturas industriais abandonadas, áreas degradadas e a expansão urbana muitas vezes desordenada sobre áreas naturais sensíveis, como se observa em certas áreas da Baía de Guanabara e nas áreas de estuário da Baía de Bizkaia. A degradação dos serviços ecossistêmicos impacta diretamente a resiliência das comunidades humanas e não-humanas nestes territórios a eventos climáticos extremos.

A desindustrialização, em especial, acarreta desdobramentos significativos no tecido socioeconômico das regiões afetadas. O fechamento de oportunidades de trabalho nas indústrias-âncora gera ondas de desemprego estrutural, com consequências diretas na renda e na qualidade de vida das populações locais. Na Baía de Bizkaia, a abrupta retração dos setores industriais levou a um aumento expressivo do desemprego, exigindo medidas de reconversão e requalificação profissional. Na Baía de Guanabara, a desindustrialização também resultou na perda de empregos industriais tradicionais, muitas vezes sem a criação de alternativas de trabalho formal com salários e benefícios equivalentes. Esse cenário desafia a capacidade de recuperação econômica sustentável e agrava as desigualdades sociais preexistentes.

Diante dos legados nocivos da desindustrialização, as comunidades afetadas desenvolvem diferentes formas de resistência e mobilização em busca de justiça ambiental e reparação dos danos. Na Baía de Bizkaia, a forte resistência da comunidade organizada em movimentos sociais e apoiada por instituições locais foi fundamental para advocar a favor da responsabilização das indústrias poluidoras. No entanto, ainda não obtiveram a implementação de medidas de remediação ambiental e transformação urbana da região, a não ser pela intenção governamental de implementar o museu Guggenheim, que conta tanto com resistência como apoio da população. No caso da Baía de Guanabara, muitas comunidades se voltam para a defesa de atividades tradicionais seculares (a pesca) para legitimar suas demandas por ressarcimento ao poder público, ao mesmo tempo em que a indústria migra rapidamente para uma baía vizinha, Sepetiba, uma indústria que já na sua acepção manifesta pouca integração com a população local.

O interesse que desperta o caso do Golfo da Biscaia, e mais concretamente o processo de transformação urbana experimentado pela cidade de Bilbao e sua área metropolitana, está relacionado ao fato de constituir um caso paradigmático da transição de uma Industrial Tough City para uma “cidade global”, caracterizada por uma economia baseada no turismo e no setor de serviços. No centro desse processo, destaca-se a construção do Museu Guggenheim, uma obra de arquitetura pós-moderna frequentemente descrita como “o museu do futuro” (Zulaika, 2011).

A transformação urbana da Baía de Bizkaia, marcada pela revitalização de áreas portuárias e industriais abandonadas e pelo investimento em setores como serviços, turismo e tecnologia, demonstra o potencial de uma resposta coletiva e estratégica à desindustrialização, muito embora até o momento estejamos vendo mais os aspectos negativos desse processo - principalmente quando consideramos a gentrificação e a exploração da região para turismo de massa. As vozes oriundas da experiência basca oferecem insights valiosos para a Baía de Guanabara, outras baías urbanas e vice-versa, evidenciando a importância da participação da sociedade civil, do planejamento integrado e de políticas públicas eficazes para mitigar os legados nocivos da desindustrialização e construir um futuro mais sustentável e equitativo. A comparação detalhada dos fatores que contribuíram para o sucesso (e os eventuais insucessos) das iniciativas em ambos os contextos pode fornecer lições cruciais para a definição de estratégias de recuperação e desenvolvimento em outras realidades impactadas pela desindustrialização. Daí, mais uma vez, a importância de produzir um acervo de entrevistas de história oral com a memória desses processos, seja no País Basco, seja no Brasil, para análises cruzadas.

A DIMENSÃO PÚBLICA DAS MEMÓRIAS DA DESINDUSTRIALIZAÇÃO NOCIVA NA BAÍA DE BIZKAIA E O “EFEITO GUGGENHEIM”

A região da Baía de Bizkaia, marcada por uma intensa industrialização desde 1875, viu o surgimento de uma sensibilidade ambiental entre sua comunidade trabalhadora, num processo paralelo ao início do movimento ambientalista mundial, nos anos 1960. O forte desenvolvimento industrial, concentrado em cidades como Bilbao, Barakaldo, Sestao e Santurtzi (margem esquerda) e Erandio (margem direita), transformou a vida cotidiana de seus habitantes e, desde cedo, os efeitos nocivos da poluição começaram a gerar preocupação e resistência (ver mapa 2). Um exemplo dessa resistência inicial é a primeira manifestação contra a poluição em Erandio, ocorrida em 1969, que resultou na trágica morte de dois manifestantes (Buces Cabello, 2021). No auge do franquismo, um regime autoritário que reprimia duramente qualquer forma de dissidência, a comunidade local se mobilizou para denunciar os impactos da poluição industrial, evidenciando a gravidade do problema e a coragem daqueles que o enfrentaram.

Figura 1
: Baía de Biscaia

A entrevista com Alejandro Kabiezes, ex-trabalhador e ativista da Associação de Vizinhos de Luchana (o bairro de Barakaldo), ilustra a intensidade da atividade industrial em seu depoimento. Kabiezes descreve a concentração de indústrias químicas na área:4

A fábrica (de amoníacos, Sefanitro) creio que inaugurou em 1955 [...] E foi a maior empresa que tivemos aqui. Além dessa, havia outra empresa que fabricava, além de explosivos, fertilizantes, que era Explosivos Rio Tinto. Além disso, estava a Sociedad Española de Oxígeno, Oxinorte. Tínhamos a fábrica de lindano, que se chamava ao princípio Standard Química. A fábrica de pinturas, ISOC. Todas aqui... Explosivos Rio Tinto, também. [...] Há mais empresas. Uma fábrica, a Huesera, que lhe chamávamos nós, que o que fazia era produtos, sabões etc., queimavam ossos, vísceras... um cheiro insuportável. AFO, que era uma empresa que trabalhava com produtos químicos e borrachas, que nos anos 60 se mudou para Gasteiz. Todas neste bairro, sem chegar ao resto da cidade [...] aqui tivemos a maior concentração de químicas do País Basco, não tem havido tantas juntas.5

O testemunho evidencia a consciência existente entre os habitantes sobre a toxicidade das indústrias situadas a curta distância de suas residências, a escala e diversidade da produção industrial química, e a complexidade da crise ambiental multidimensional na área. Evidencia, também, a desconfiança generalizada em relação às informações divulgadas pelas autoridades, em um contexto histórico — final da década de 1970 — marcado pela coexistência do fechamento de determinadas unidades industriais com a previsível expansão daquelas mais poluentes. Na contemporaneidade, tais palavras reverberam como parte de uma memória coletiva que incorpora esse legado industrial tóxico à identidade do bairro, influenciando sua percepção pública e reivindicando visibilidade na história subterrânea e amplamente desconhecida dessa comunidade.

Na segunda metade do século XX, o desenvolvimento de Bilbao (e da margem esquerda da Baía de Biskaia) a identificava como a cidade industrial por excelência em toda a Espanha quase por antonomásia. Mas cidades, industriais ou não, estão fundadas em territórios específicos, e as conexões entre Bilbao, os municípios do entorno, e as margens da Baía de Biskaia são parte do que torna esta narrativa uma história ambiental urbana.

Baías não são unidades homogêneas. Elas têm afluentes, bacias, várzeas, regimes de águas, canais submersos, e uma infinidade de características singulares, que tornam, por exemplo, a margem esquerda diferente da margem direita. Para entender a história da Baía de Biskaia, é importante esclarecer a distinção entre “rio” e “ria,” um termo geográfico relevante para a região. Um rio é um curso d’água doce que flui em direção a um oceano, lago ou outro rio. Já uma “ria” é um vale fluvial submerso pelo mar, caracterizado por uma entrada estreita e alongada com margens íngremes, com distinta variação de marés. A ria de Bilbao, onde Erandio e Barakaldo estão localizados, foi formada pela inundação do vale do rio Nervión pelo mar. Essa formação geológica particular e a proximidade das minas de ferro influenciaram o desenvolvimento industrial da área, ao criar um porto natural que facilitava o transporte de mercadorias.

No que diz respeito à distribuição das indústrias, o núcleo central teve lugar na margem esquerda (sobretudo nas localidades de Barakaldo e Sestao, onde se localizava a maior empresa da Espanha, Altos Hornos de Vizcaya) e na zona da margem mais próxima à cidade de Bilbao, estendendo-se até a vizinha Erandio. Sua história está intrinsecamente ligada à industrialização do País Basco, tendo sido um dos principais centros da indústria siderúrgica e naval da região. A industrialização de Barakaldo remonta a uma primeira onda em final do século XIX, caracterizada pela presença de estaleiros e siderúrgicas, até a reindustrialização franquista dos anos 1950 e 60. Tornou-se então um dos maiores polos da indústria química da Espanha, junto a Tarragona e Huelva, em uma atividade que também se estendeu até Erandio, situada na margem direita, na zona mais próxima à cidade de Bilbao.

Nos anos 1980 e 1990, assim como Erandio, Barakaldo sofreu intensamente com os impactos da poluição industrial, resultado da concentração de atividades pesadas em seu território. Além disso, enfrentou desafios econômicos e sociais significativos com a desindustrialização, que levou ao fechamento de muitas de suas indústrias tradicionais. Ao compreender o contexto geográfico, com a presença marcante da ria de Bilbao, e o histórico desses municípios, podemos abarcar a complexidade das questões ambientais e sociais em jogo na região. Erandio e Barakaldo representam microcosmos da experiência da Baía de Bizkaia, ilustrando tanto os benefícios quanto os custos da industrialização e os desafios da transição para um novo modelo de desenvolvimento. São processos emblemáticos de industrialização e desindustrialização, mas também de lutas operárias pela defesa de postos de trabalho e de mobilizações dos moradores contra a poluição e pelo direito à cidade, e a bairros mais saudáveis.

No entanto, esse rico legado de memórias relacionadas à indústria, à toxicidade e às mobilizações cidadãs não foi incorporado à nova imagem vanguardista projetada pelo Guggenheim na Bilbao pós-industrial, frequentemente descrito como “O Museu do Futuro” (Guasch, Zulaika, 2007), no âmbito de um vertiginoso processo de transformação urbana. A imposição desse projeto, bem como a supressão das vozes críticas por meio de uma narrativa triunfalista promovida pelas autoridades locais, alterou de forma definitiva a configuração da cidade, sendo posteriormente o museu apropriado em um relato de sucesso que enfatizava, entre outros aspectos, a descontaminação de grande parte dos legados tóxicos da atividade industrial.

A intenção atual de replicar o modelo de Bilbao nas localidades vizinhas de Gernika e Murueta, situadas a 30 quilômetros de Bilbao, pouco mais de vinte anos depois da construção do primeiro museu, parte de premissas semelhantes: implantar museus em duas zonas industriais e altamente contaminadas, situadas em uma área em declínio econômico desde o processo de desindustrialização ocorrido na década de 1980. No entanto, a zona metropolitana composta por Bilbao e suas margens abriga cerca de metade da população de todo o País Basco (aproximadamente um milhão de pessoas). Em contraste, a ria que atravessa Gernika apresenta menor grau de intervenção humana e possui uma densidade populacional muito menor. Abriga, além disto, áreas de especial relevância do ponto de vista ecossistêmico, que contam com um nível elevado de proteção ambiental ao formar parte da rede de Reservas da Biosfera da Unesco. Como aconteceu em Bilbao, a proposta de construir equipamentos destinados a atrair mais turistas para a região tem gerado forte oposição, revelando um questionamento profundo ao chamado “efeito Guggenheim”. Tal crítica se baseia, por um lado, na gentrificação e no “esverdeamento” (greenificação) de antigos espaços industriais e, por outro, na fragilidade ecossistêmica do estuário e na necessidade de preservar áreas naturais das marismas.6 Outro aspecto frequentemente criticado se refere ao caráter impositivo do projeto e à ausência de diálogo com os atores locais.

Do ponto de vista da história pública, é interessante observar como o conflito desencadeado em decorrência da localização do Guggenheim em Gernika fez emergir não apenas uma forte oposição ao projeto, mas também um questionamento das supostas virtudes atribuídas ao “efeito Guggenheim” no caso de Bilbao — o que contrasta diametralmente com a narrativa de sucesso promovida pelas autoridades e pelo próprio museu. Nesse sentido, destacam-se as palavras de Eider Gotxi,7 porta-voz da plataforma Guggenheim Urdaibai Stop e uma das principais vozes de oposição ao projeto:

Sempre ouvimos dizer que o Guggenheim de Bilbao gera enormes benefícios econômicos. Isso não é verdade, e trata-se de um dado público. O Guggenheim de Bilbao, o museu, apresenta prejuízos anuais de 4 a 6 milhões de euros, que são cobertos todos os anos pelo Governo Basco com dinheiro público. Outra questão é que essas pessoas que vêm visitar o museu Guggenheim de Bilbao se hospedam em hotéis, frequentam restaurantes [...] Urdaibai não é Bilbao, e estão nos comparando a Bilbao. Dizem que em Bilbao também houve opositores naquela época [...]. Nós somos 45 mil habitantes e estão nos propondo receber 150 mil pessoas em quatro meses...!8

Gernika, para além de seu trágico passado como símbolo da Guerra Civil Espanhola, compartilha com Erandio e Bakaraldo, e outras cidades da ria de Bilbao, esta trajetória de industrialização e desindustrialização. Aqui a fábrica Dalia, onde querem construir um novo museu, se torna emblemática deste processo. Antes um importante motor econômico local, seu fechamento e o de outras instalações locais é um exemplo da desindustrialização nociva, mencionado no início do texto, em que pouco suporte social ou ambiental foi oferecido às comunidades que antes atendiam ao parque industrial, mesmo com repetidas denúncias anteriores do visível declive econômico (Zallo, 2021). Nesse contexto, projetos como a construção do Museu Guggenheim em Bilbao, iniciado nos anos 1990 e hoje um dos lugares mais visitados da Espanha, podem ser vistos como tentativas de dar um novo rumo à economia local, com o objetivo de atrair turismo e investimento em cultura. A antiga fábrica Dalia torna-se, assim, um símbolo desse processo. Sua demolição apaga uma parte da memória industrial da cidade, invisibilizando as memórias dos trabalhadores, as relações sociais ali estabelecidas e os impactos (positivos e negativos) da indústria na vida local. O museu, longe de resolver as disputas de ocupação do território da Baía de Bizkaia, acrescenta mais uma camada que soterra estas disputas em um processo de gentrificação acelerado.

A intervenção em um local como a fábrica Dalia oferece um estudo de caso rico para nossa análise ao relacionar a desindustrialização, por um lado, e a gentrificação e greenificação de antigos espaços industriais, por outro. Como a sociedade lida com os vestígios do passado industrial? Quais memórias são preservadas e quais são apagadas? Quais os impactos da desindustrialização nas comunidades locais? Como projetos culturais e turísticos se inserem nesse contexto? Quais os interesses em jogo na disputa pelo uso de áreas industriais desativadas? Como as diferentes visões de futuro para a cidade se manifestam?

Como que em reforço ao nosso argumento de que a história oral pode trazer memórias subterrâneas dos processos de desindustrialização nociva no território e os conflitos, analizamos a entrevista de Txato Etxániz,9 ex-trabalhador industrial em Gernika, que oferece um testemunho sobre os impactos da atividade industrial na saúde dos trabalhadores. Como lembra o próprio Etxániz, a totalidade de sua vida laboral e sindical foi determinada por sua vinculação à fábrica Dalia, o que o torna um interlocutor privilegiado em relação aos acontecimentos dessa empresa e às instalações circundantes. Ele aponta que começou a trabalhar em setembro de 1968 e se aposentou em 2013.

Todo o tempo de trabalho foi na ourivesaria e pratearia de Gernika, na fábrica de talheres Dalia, onde comecei como aspirante administrativo, passei pelo ateliê, fui muitos anos administrativo, oficineiro e, no final, bom, também fui militante operário, dirigente sindical da empresa e, por fim, terminei vendendo a empresa para o governo.10

O seu depoimento lança luz sobre as consequências da desindustrialização nociva em Gernika, revelando um legado de sofrimento e injustiça que persiste muito depois do fechamento das fábricas. Etxániz descreve um padrão perturbador de mortes por câncer de fígado entre os trabalhadores dos “banhos de prata”, uma área da fábrica onde se manuseavam substâncias tóxicas como os cianetos. A falta de reparação fica evidente na aparente negligência em proteger a saúde dos trabalhadores. Etxániz relata que a preocupação com a segurança e higiene no trabalho só se intensificou após a constatação dos casos de câncer, indicando uma falha em prevenir a exposição a substâncias perigosas e em monitorar adequadamente a saúde dos empregados, mesmo após o fechamento da fábrica. Isso demonstra como os efeitos da desindustrialização nociva podem persistir por décadas, com os trabalhadores continuando a sofrer as consequências da exposição a substâncias tóxicas muito tempo depois de deixarem seus empregos.

Nós na fábrica descobrimos tarde que morríamos... Todos que trabalhavam nos banhos de prata, morreram há 10 anos. E todos de fígado. Era porque metabolizavam os metais, metabolizavam no fígado. Sim, tivemos vários cânceres de fígado. 8 ou 9 em 20 anos ou assim. E todos eram trabalhadores dos banhos. [...] Soubemos depois. [...] Também tem… Como se chama? As tubulações... O amianto. [...] [A fábrica] está fechada, não? Mas algumas pessoas têm câncer, pelo amianto. Sim, temos já dois ou três...11

Dando continuidade ao seu relato, o entrevistado oferece informações precisas sobre a intensa contaminação que afetou o aquífero que abastecia de água a localidade durante praticamente todo o período industrial — o mesmo aquífero que, após anos de abandono, passou a ser considerado para descontaminação, com o objetivo de viabilizar a construção da nova sede do Museu Guggenheim. Essa preocupação expressa pelo entrevistado revela uma crescente inquietação com os impactos à saúde e ao meio ambiente decorrentes do longo século industrial de Bizkaia, em um contexto fortemente condicionado pela projeção do museu estadunidense na localidade. Neste sentido, não podemos desvincular a produção dos testemunhos da dimensão pública que estes adquirem em cenários de conflito.

E o aquífero está contaminado com cianetos, com mercúrio. [...] Claro, fizeram um estudo dos produtos que usávamos na fabricação de talheres, que eram utilizados na maioria das fábricas, produtos que eram empregados na fabricação de pistolas. Mas aparecia o mercúrio, e mercúrio não... Aí acende a luz para mim e eu digo: “Pô, claro que usavam mercúrio, porra. O mercúrio era usado no fulminato de mercúrio, nas espoletas das bombas de aviação que eram feitas nos Oficinas de Gernika, que começaram a ser produzidas na época da guerra de Marrocos, em 23-24, e terminaram em 68. [...] A política de resíduos era para a ria e para o poço. Ou seja, por exemplo, todo o resíduo da Dalia, agora, eu disse: “Pode ter lindano”, por quê? Porque eu me lembro que traziam caminhões da Dow Chemical e despejavam um pó branco. A fábrica estava a um determinado nível, ao lado da ria, e era necessário elevar o nível para evitar inundações. Lá se jogavam, eu me lembro, escórias da Vasconia... Ou seja, todos os resíduos que tinham os fornos da Vasconia (outra fábrica próxima) ... “Tragam para a Dalia!”12

Referindo-se igualmente à toxicidade dos aquíferos como parte da memória coletiva da desindustrialização de Gernika, Edorta Jiménez,13 escritor e militante histórico da organização ecologista Zain Dezagun, ofereceu um relato elucidativo sobre os desafios ambientais e sociais intrinsecamente ligados aos processos de desindustrialização e gentrificação em localidade. Nesse trecho da entrevista, sua narrativa inicia com a descrição das atividades produtivas da antiga fábrica Dalia, caracterizada pela manufatura de joias, pratarias e cutelarias, o que implicava o manuseio de substâncias como prata, cromo, chumbo e ácidos. Essa atividade industrial, típica de muitas áreas da Baía de Bizkaia, causou um passivo ambiental significativo, representando um risco à saúde pública. Jiménez critica a falta de transparência das autoridades em relação à contaminação do local, denunciando a ausência de informações repassadas.

Com o que trabalhavam? Faziam joias e pratarias, ou seja, cutelarias [...] trabalhavam evidentemente com algo de prata. Tinham que fazer os tratamentos. Trabalhavam com cromo, com chumbo. Usavam ácidos para tratar tudo isso. [...] Acredito que havia benzenos também. É preciso saber o que há porque a nós, a Zain Dezagun, não nos disseram. De repente descobriu-se que havia lindano. “E o que é isso?” Disseram: “Aqui embaixo há veneno, que vamos construir, não vamos matar mais gente”. E gerou-se a polêmica disso do lindano. Aqui, em Gernika, tem que se abrir o debate do que há aí em baixo e enfrentar isso.14

Esses testemunhos relativos ao legado tóxico das indústrias de Gernika adquirem um significado inequivocamente contrário à instalação de um novo museu na localidade, ao mesmo tempo em que exigem que as empresas e as autoridades assumam a responsabilidade pela descontaminação dos terrenos, sem subordinar esse processo à construção de um novo museu. O depoimento de Jiménez é um apelo por justiça ambiental. Ele defende a responsabilização das autoridades e das empresas pela descontaminação das áreas afetadas, pela proteção da saúde das comunidades locais e pelo direito dos moradores de serem plenamente informados sobre os riscos a que estão expostos. A construção de um museu sobre “veneno” é questionada em termos éticos, levantando um debate sobre os valores que devem orientar o desenvolvimento urbano e a gestão do território. No meio dos debates e conflitos que rodeiam a questão do novo Guggenheim, os depoimentos adquirem intensa ressonância pública e assinam novos significados ao passado toxico e o processo de desindustrialização.

Como propõe Anne Valk (2017) em seu trabalho sobre áreas contaminadas em Rhode Island, a atual consciência da contaminação provocada pelas indústrias, presente entre os moradores da região, foi incorporada como parte da memória coletiva e dos significados culturais associados a esse lugar. Dando continuidade ao testemunho de Jiménez, o entrevistado amplia sua análise para além da fábrica Dalia, mencionando os riscos associados ao amianto nos Estaleiros de Murueta (outra antiga fábrica prevista para abrigar um terceiro novo Guggenheim, junto à Dalia, situada na foz do estuário no mar), e questionando a moralidade de expor trabalhadores a condições insalubres. Essa observação estabelece uma conexão entre a desindustrialização, a precarização do trabalho e a persistência de problemas de saúde ocupacional em áreas com histórico industrial, continuamente sujeitas a flagrantes delitos ambientais, que não foram submetidos a julgamento nem a qualquer forma de reparação, apesar da existência de algumas investigações conclusivas no campo dos contaminantes tóxicos.

Sabes o que há no Estaleiro de Murueta? Todo o amianto [...] Eles têm que dizer o que é e descontaminar. [...] estiveram fazendo uma investigação ali sobre os metais depositados em suspensão na água. E se encontraram com uma presença enorme, alarmante, estatisticamente muito desviada do normal, de estanho. O que pensaram? Que havia uma venda de estanho no estuário de Urdaibai. Sabes o que era? Do Estaleiro, as soldaduras. Um irmão meu morreu dos pulmões ferrados este ano.15

Os depoimentos de Edorta Jiménez e Chato Echániz oferecem uma perspectiva crítica sobre os processos da desindustrialização nociva na Baía de Bizkaia, destacando os desafios da contaminação ambiental, da falta de transparência e dos riscos à saúde pública, e conectando esses problemas com os processos de gentrificação e as disputas pelo uso do espaço urbano. Os relatos lançam luz sobre o legado nocivo deixado pela atividade industrial na região, especificamente na antiga fábrica de cutelaria e nos estale. O abandono de áreas industriais sem a implementação de medidas de remediação adequadas resulta na persistência de um passivo ambiental que pode ter consequências graves para a saúde pública e para os ecossistemas circundantes.

Do ponto de vista da história pública, as narrativas que circulam na comunidade e relatam a descoberta de substâncias tóxicas no subsolo e nas águas de Gernika, bem como sua denúncia pública, buscam desencadear um debate sobre os efeitos negativos associados à construção do Museu Guggenheim em uma área contaminada, levantando questões éticas a respeito da priorização do desenvolvimento econômico em detrimento da saúde e segurança da população. Propostas de ampliação do Museu Guggenheim, no entanto, resultado do seu sucesso como empreendimento turístico, levaram as autoridades a reexaminarem a área e, agora sim, a prometer trabalhos de descontaminação. Em outras palavras, a preocupação com a poluição é atrelada à possibilidade de novo empreendimento cultural a ser construído, e não a um histórico de contaminação e risco das comunidades locais.

VOZES DA LUTA POR UMA BAIA DE GUANABARA LIMPA: HISTÓRIA ORAL PLURAL DE NITERÓI A MAGÉ

A Baía de Guanabara compartilha com a Baía de Bizcaia a mesma rápida industrialização e uma igualmente rápida desindustrialização, principalmente a partir dos anos 1980. Frente a uma população desassistida pela perda dos cobiçados empregos industriais e pela deterioração da qualidade de ecossistemas marinhos, as promessas de revitalização, de novos recomeços, são cíclicas – assim como as tentativas de apagamento de desigualdades e de responsabilidades passadas. No caso da Guanabara, pelo menos desde 1990, se sucedem projetos de despoluição da Baía de Guanabara, com grande fanfarra, e normalmente associados a grandes eventos com visibilidade mundial: a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, os Jogos Panamericanos de 2007, ou os Jogos Olímpicos de 2016. A interação com as populações atingidas, como no caso de Bizkaia, é escassa.

Figura 2
: Baía de Guanabara, visão de satélite.

Curiosamente, houve também uma proposta para a construção de um Museu Gugenheim no Rio de Janeiro, no antigo porto da cidade, onde foi construído o Museu do Amanhã. No início do século XXI, a cidade do Rio de Janeiro preparou-se para receber uma reforma urbana sob a prefeitura de Cesar Maia. O projeto incluía a construção de uma filial do Museu Guggenheim no Píer Mauá, acompanhada de uma revitalização do Cais do Porto e mais uma ação de despoluição da Baía de Guanabara. O sucesso do Museu Guggenheim em Bilbao, a partir de 1991, foi certamente uma inspiração para o que já se tornara um franchise cultural. Todavia, o plano de construção do museu na cidade carioca gerou discussões, como aponta em entrevista o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Augusto Pádua,16 especialista em História Ambiental e um dos consultores do Museu do Amanhã. De acordo com Pádua, mesmo sem ter acompanhado o projeto anterior de perto na época, a ideia lhe pareceu pouco criativa e a construção pobre, sem o impacto arquitetônico julgado necessário para a região. Pádua afirma:

A própria concepção do Guggenheim, na época, eu me lembro que achei ruim porque nós ficaríamos dependentes da coleção do Guggenheim, expondo uma parte da coleção deles. Nós comentamos que o Rio de Janeiro era uma cidade com vida cultural própria e vida artística forte e não era o caso de gastar dinheiro em uma filial de um museu internacional. Era mais importante construir alguma coisa própria, inovadora. Tanto em termos de arte como em termos de arquitetura.

O projeto de construção do Guggenheim foi abandonado e substituído pelo Museu do Amanhã, que, segundo Pádua, diferiu do projeto anterior por ter sido pensado e desenvolvido por estudiosos brasileiros. Embora o projeto arquitetônico seja do controvertido arquiteto espanhol Santiago Calatrava, frequentemente associado a grandes projetos de alto custo econômico e de difícil manutenção. Junto com a construção do museu, mais uma vez veio a revitalização da região central da cidade do Rio de Janeiro – o projeto conhecido como Porto Maravilha. Indagado sobre a gentrificação acarretada pelo projeto, Pádua respondeu que todo projeto de revitalização urbana implica um processo de gentrificação da área. Mas, para ele, é importante considerar também a valorização da região vivenciada pelos moradores antigos que não se mudam. O entrevistado comenta ainda sobre iniciativas educacionais e de estímulo econômico desenvolvidas pelo museu e voltadas para a região, e essa construção de uma relação forte do Museu do Amanhã com seus vizinhos seria uma forma de suavizar, de alguma maneira, as consequências da gentrificação.

Como a Baía de Bizkaia, Guanabara não é uma entidade homogênea, tanto por suas características ambientais como por sua história. Geologicamente é um estuário afundado (Amador, 1997), com ilhas, afluentes, uma vasta bacia de drenagem, um abençoado canal submarino profundo que permite excelente troca de águas com o mar, e grandes extensões de mangues – menos extensas após 500 anos de ocupação europeia. Povos indígenas construíram em suas margens vastos montes de sambaqui, garimpados séculos depois na cidade oitocentista pela cal para suas olarias. Ilhas foram fundidas para a construção da Cidade Universitária da UFRJ, alterando para sempre o regime de águas. Aterros, tanto na margem ocidental como oriental, ampliaram o território urbano às custas dos manguezais e dos rios - muitos deles retificados e soterrados (Capilé; Sedrez, 2021). Na margem ocidental, se encontra a cidade do Rio de Janeiro, ex-capital colonial, imperial e republicana, e um dos primeiros parques industriais e químicos das Américas na Grande Aceleração. Na parte oriental, a cidade de Niterói, cuja principal atração para as indústrias nos anos 1960 era a baixa estrutura de fiscalização sanitária para aqueles que ali quisessem se instalar (Sedrez, 2005). Nos fundos da baía, a vasta Baixada Fluminense, região cheia de alagadiços, cidades dormitórios para os trabalhadores das indústrias da região metropolitana, e sede de uma das primeiras áreas de preservação ambiental de mangues, a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim, cuja proposta remonta a 1978.

Há registros de preocupações oficiais sobre deterioração de ecossistemas guanabarinos desde o início do século XX, mas somente na década de 1980, com o enfraquecimento da ditadura militar (1964-1985) estas preocupações se convertem em movimentos da sociedade civil, com protestos e manifestações. A poluição mais perceptível era orgânica, pela proximidade dos lixões na baía e despejos de efluentes sem tratamento da crescente população da região metropolitana, o que dificultava a identificação do parque industrial como agente poluidor significativo. E, no entanto, as instituições governamentais registravam poluição por óleo, de navios e refinarias, dejetos químicos de indústrias farmacêuticas e curtumes despejados principalmente nos afluentes da baía de Guanabara para finalmente chegarem às suas águas. A reação de muitos pescadores nas regiões afetadas era simplesmente buscar novas áreas de pesca, mais afastadas das suas moradias, em disputa com outras comunidades.

Neste artigo, no entanto, tentamos entender como a experiência de combate à poluição industrial criou comunidades políticas. Nossas primeiras entrevistas saíram, com este fim, da região onde a indústria se instalara mais cedo e de forma hegemônica, na margem ocidental, e buscamos testemunhos de ambientalistas que iniciaram a mobilização contra a poluição de fábricas de Sardinha em Jurujuba, praia de pescadores de Niterói, nos anos 1980, na margem oriental, e de pescadores que hoje protestam contra a poluição industrial no fundo da Baía, em Magé, Baixada Fluminense.

Nossa primeira entrevistada, Alba Simon era jovem quando se tornou parte do recém-formado Movimento de Resistência Ecológica (MORE), no município de Niterói, Rio de Janeiro, no início dos anos 1980. Quarenta anos mais tarde, o ambientalismo sempre vivo na Alba Simon de hoje continua em diálogo com as ideias da jovem Alba. Simon descobriu o movimento ambientalista quando cursava a faculdade de Biologia e percebeu que estava diante de algo que procurou a vida inteira: o ambientalismo falava do que era de todos, tratava dos Direitos Humanos e da educação.

Na memória de Simon, na década de 1980, a Baía de Guanabara não tinha um problema de poluição industrial. A poluição era orgânica, vinha de detritos e esgotamentos sanitários. Todavia, segundo ela, havia um problema pontual causado por algumas poucas fábricas de sardinha nos bairros niteroienses da Ilha da Conceição e de Jurujuba, “que traziam um volume de carga de detritos, da confecção, da elaboração, da manipulação da sardinha, dos produtos da industrialização da sardinha, que agravavam a mil o problema já histórico da Baía de Guanabara”.17 As fábricas de sardinhas (Santa Iria, Atlantic e Conservas Ribeiro S.A.) tornaram-se um alvo mais acessível para o MORE porque não era viável revoltar-se contra o problema do saneamento. Não era um problema menor. Segundo o órgão de fiscalização ambiental da época, FEEMA, o complexo de indústrias de sardinha jogava na Baía de Guanabara o equivalente à carga orgânica de todo o esgoto da cidade do Niterói .

Os membros do grupo de Alba tinham a evidência da poluição da Baía, tinham os responsáveis pela poluição e o rosto daqueles que ganhavam dinheiro com a poluição. No entanto, o MORE não tinha do seu lado um elemento central para a luta: os funcionários das indústrias. Alba Simon ainda conta que:

Com os trabalhadores da fábrica, nós tínhamos uma espécie de humanidade. Mas não vestíamos a camisa deles. Nós pensávamos: “Bom, qual é o pensamento com relação ao desemprego? Se fechar, vai ter que remunerar, vai ter que pagar.” Nós éramos muito bobos. “Vai ter que pagar. E eles vão procurar outro emprego.” Era muito simplista. A luta era para botar filtro nas fábricas, nunca fechar. 18

O ápice deste conflito entre ambientalistas e trabalhadores se deu no que Simon chama de “Dia D”. Neste dia, o MORE, que usava as manifestações na rua e mobilizações públicas como sua melhor arma, decidiu fazer uma ação direta e devolver para a fábrica o que ela lançava ao meio ambiente. As areias da praia de Jurujuba formavam uma lama negra e fétida em virtude dos detritos oriundos dos processos de embalar e conservar as sardinhas. Os ambientalistas, em um esforço coletivo e voluntário, levaram baldes dessa lama para as portas das fábricas. No contexto da Ditadura Militar, os manifestantes tiveram de lidar com a presença dos agentes e o rótulo de “subversivos”, isto é, contrários ao governo. Entretanto, para Simon,19 a falta de “subversão” foi o maior erro cometido pelo coletivo:

Todo mundo gritando, os funcionários, muito irritados, fazendo movimento dentro da fábrica contra a gente. Os moradores batendo palma nas casas e diziam “Parabéns para vocês que gritaram, vocês tiveram coragem”. Os funcionários reclamando da gente, dizendo: “Vou perder emprego, eu tenho família, eu tenho filho, eu vou morrer de fome”. Eu falava: “Seu filho vai morrer de câncer, seu neto também”. [...] O movimento ambientalista não se misturou, e essa foi uma crítica que a gente levou para o resto da vida dos nossos amigos da esquerda. Fomos muito criticados, [as pessoas diziam] a fábrica fechou porque ela não tinha condição de botar filtro. As leis foram mais duras, os órgãos se equiparam, e as fábricas viram que era mais barato quando não tinha lei, quando não tinha fiscalização, quando tem que cumprir, o lucro era maior, então era melhor ir para lugares onde era mais frouxo.

Os trabalhadores das fábricas de sardinhas de Jurujuba foram duplamente afetados pela indústria. Sofreram com a industrialização e com a desindustrialização. Foram vítimas da poluição e do desemprego, enquanto as autoridades das fábricas, além de não se afetarem pela poluição durante seu funcionamento, simplesmente deixaram o espaço e foram produzir- e poluir em uma porção menos fiscalizada e, portanto, mais barata. De fato, a fábrica de sardinhas Rubi, criada em 1934 a alguns quilômetros ao norte de Jurujuba, no menos visível município de São Gonçalo, continuou a poluir a baía sem grandes reações públicas até 2013, não obstantes as inúmeras tentativas de ajustamento de conduta.

O MORE exigia que as fábricas funcionassem com a instalação de estações de tratamentos de despejos industriais (ETDI). Uma longa batalha judicial se seguiu ao “Dia D” de Alba Simon, e os empregos dos operários das fábricas eram o argumento-refém de uma verdadeira chantagem recitada pelas fábricas junto ao público e às autoridades: se exigirem o enquadramento nas normas ambientais, as fábricas fechariam e os operários ficariam desempregados. Vinte anos depois, as empresas faliram, sem jamais terem realmente se adequado às normas ambientais. O passivo ambiental de décadas de poluição, no entanto, permanece, agora somado ao passivo social do desemprego.

A entrevista de Simon descortina, ainda, a participação de outro grupo de atores, além dos trabalhadores da fábrica, os proprietários, o poder público e os próprios ambientalistas: os moradores que batiam palmas. Quem são eles? Jurujuba é a sede de uma tradicional colônia de pescadores, a Z-8. A fábrica de sardinhas instalada na área era uma fonte de renda para alguns, mas também um desastre para as atividades das colônias. Os velejadores que aderiram ao MORE falam da gordura e lixo que ficavam agarrados aos seus barcos, e algo parecido deveria acontecer também aos pequenos barcos de pesca. Seriam estes os moradores que aplaudiam a ação direta do MORE? A reação radicalmente distinta de “moradores” e “funcionários” na entrevista de Simon abre espaços para imaginar uma comunidade dividida. Hoje, sem as fábricas, Jurujuba ainda tem atividades de pesca artesanal, mas numa praia poluída, que não convida para banho. Tornou-se um polo gastronômico de frutos do mar, mas pouco do que é servido nos restaurantes é pescado nas águas bem em frente.

A pesca na baía de Guanabara sofreu grandes perdas com o crescimento industrial na década de 1960. A instalação da Refinaria de Duque de Caxias (REDUC) em 1961, na margem direita da Baía, reduziu a pesca de camarão naquela área em até 60% em poucos anos, reclamavam os pescadores da Ponta do Caju, na época (Sedrez, 2005). Aos poucos, a perda dos mangues (importantes berçários da fauna guanabarina) por aterros ou lixos, e os vazamentos de óleo dos navios e das tubulações submersas afetaram as populações marinhas em áreas cada vez mais distantes das fábricas e refinarias. São os desastres lentos (slow disasters), perceptíveis em uma escala do tempo maior. Ainda assim, várias colônias de pescadores resistem, e a pesca persiste em áreas como o fundo da Baía de Guanabara, perto da área de proteção ambiental de Guapimirim.

Mesmo estas áreas mais preservadas não estão livres dos desastres mais extremos. Alexandre Leite,20 pescador em Magé, município no estado do Rio de Janeiro no fundo da baía, assistiu em primeira mão a um dos maiores acidentes ambientais envolvendo a baía de Guanabara: o vazamento de óleo da REDUC em 18 de janeiro de 2000. Na entrevista, ele pinta uma imagem bem vívida dos horrores do acidente:

Ah, o acidente. Eu estava na beira da praia, a água estava limpinha. Daqui a pouco eu começo a ver o pessoal saindo da água preto, tipo piche. Veio aquele negócio escuro. Escuro, igual filme. Chegou na praia, mostrei para o meu pai, meu pai começou a chorar. [...] Aquele óleo grosso, grosso mesmo, que é ruim até de sair do corpo. E as garças… molhando as garças de óleo, morreu muita garça. Os peixes morrendo aqui tudo…

O desastre/evento provocou aquilo que o ritmo lento dos desastres cotidianos evitara: uma mobilização ruidosa da comunidade de pescadores. No dia 21 do mês seguinte, os pescadores de Magé foram protestar na porta da Petrobras na Avenida Chile, no centro do Rio de Janeiro, porque a empresa, alegando que o Ibama havia liberado o consumo dos pescados na Baía, reduziu a indenização pela metade. O ato terminou com confronto entre os pescadores e os policiais militares do Batalhão de Choque.21 Seu Alexandre se recorda do protesto:

Teve protesto na Avenida Chile. Sabe qual o protesto que teve? Teve pescador que quis bater de frente e tomou porrada e spray de pimenta, isso também é errado. Nós não somos bandidos. Se queremos protestar, é nosso direito, não é?

Eventualmente, o Ministério do Meio Ambiente, através do IBAMA, aplicou à Petrobrás uma multa de cerca de cinquenta milhões de reais. Nos anos seguintes, a empresa ainda seria interpelada judicialmente e pagaria indenizações significativas aos pescadores e ao Estado. Mas não sem conflito. Anos depois do acidente, os pescadores continuam lutando contra a poluição da Baía, articulando protestos e manifestações públicas. Em 2016, pescadores da região administrativa da Ilha do Governador, localizada no município do Rio de Janeiro, usaram suas embarcações para protestar contra a poluição das águas e o não cumprimento da promessa do governo estadual de tratar 80% do esgoto despejado antes das Olimpíadas, realizadas na cidade aquele ano.22 Dois anos depois, pescadores se reuniram em frente ao Museu do Amanhã para protestar contra mais um vazamento: 60 mil litros de óleo foram despejados no Rio Estrela, que deságua na Baía, novamente um duto da Petrobrás.23 Alexandre24 explicou a relação entre o rio e a Baía e a diferença entre a poluição de diferentes ecossistemas:

O pessoal não fala que a água da chuva e do rio corre para o mar? Então, é a mesma coisa. Tudo que é rio vai para o mar… o óleo foi para o mar. Você chega nos mangues e, se você cavar a lama, vai ver óleo embaixo. Isso aí nunca mais vai sair do mangue, só se arrancar a lama toda, mas ninguém vai fazer isso. Agora, o fundo da Baía de Guanabara dá para limpar.

Como nas rias da Baía de Bizcaia, a unidade de análise precisa aqui ser ampliada para entender o impacto dos processos de industrialização e desindustrialização sobre a baía: a bacia da baía de Guanabara absorve a poluição de indústrias localizadas a quilômetros de distância da foz, nos rios tributários, e transforma a vida das comunidades guanabarinas.

Em 2023, um grupo de pescadores artesanais da Baía fez uma manifestação pública em duas etapas: primeiro, se concentraram em frente à sede da Petrobrás para protestar contra o lucro que a empresa fatura enquanto destrói o meio-ambiente e polui ecossistemas vitais para as comunidades tradicionais. Em seguida, se dirigiram para o bairro da Urca, na Zona Sul do Rio, para defender o uso de energias renováveis no lugar dos combustíveis fósseis.25 Nota-se aqui uma mudança dos discursos e as reivindicações dos manifestantes ao longo dos anos. Diferente de protestos anteriores, que pediam o pagamento de indenizações ou a limpeza da Baía, este se colocava diretamente contra o próprio conceito da Petrobras como empresa, isto é, de lucro versus danos ambientais. Além disso, propôs o uso de fontes de energia alternativas. O ato, portanto, não só protestava contra as consequências da poluição, mas chamava atenção para as causas desta e ainda propunha uma alternativa.

Alexandre Leite,26 na entrevista de história oral dada para nosso projeto em 2024, nos relata a continuidade do problema, a permanência da poluição mesmo depois de anos do maior acidente:

Agora, o peixe que está dando aqui é peixe de água suja: bagre, tainha, os que conseguiram sobreviver aqui. Parati dava muito, de 2000 para cá parou por causa do óleo. Tem muito óleo no fundo da Baía. Jogaram aquele pó canadense para limpar a água, mas desceu a sujeira toda, todo o óleo. Está tudo enterrado na lama. Eu puxo a rede e às vezes vem um pouco de óleo. Está tudo no fundo da Baía, plástico e óleo da Petrobras. Se o óleo já está na lama, como é que o peixe vai desovar? Por isso que a pescaria está fraca. O peixe não cria mais aqui dentro, antes do acidente, criava.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste texto, argumentamos que a história oral tem um papel importante numa investigação que inclua tanto as ações dos movimentos sociais como as dinâmicas socioambientais. Nossa abordagem “glocal” e comparada destaca tanto a singularidade dos contextos locais como muitos dos elementos comuns aos cenários de desindustrialização, incluindo as lutas pelo direito à cidade, à saúde e ao ambiente. A análise revela dinâmicas de exclusão, de desigualdade e de slow disasters que afetam as populações humanas e não humanas, constituindo a desindustrialização nociva um dos principais cenários de confrontação social, política, económica e ambiental que se avizinham no futuro imediato.

Os depoimentos tanto da Espanha quanto do Brasil revelam um padrão perturbador: a desindustrialização nociva não representa apenas o encerramento de um ciclo econômico, mas se configura como um processo contínuo de violência socioambiental, cujos efeitos se estendem por décadas. Tanto em Bizkaia quanto na Guanabara, observa-se um legado comum de abandono e de luta. No contexto basco, o fechamento abrupto de fábricas metalúrgicas e químicas resultou na demissão de milhares de trabalhadores sem qualquer alternativa profissional ou suporte social. Já na Guanabara, a instalação do polo petroquímico levou a uma precarização das condições de vida tradicional, sem participação nos ganhos do capital.

A contaminação em longa escala de tempo é outro traço comum. No País Basco, inúmeros tóxicos invisíveis ainda estão presentes no solo, na água e na memória dos cidadãos, atingindo mesmo aqueles nascidos décadas após o encerramento das atividades industriais. De forma análoga, no Rio de Janeiro, petróleo e dejetos químicos de décadas passadas continuam presentes nos ecossistemas da Baía de Guanabara. Apesar da negligência institucional, as comunidades afetadas organizam formas de resistência, mobilização e ações de preservação da memória das lutas pela defesa dos territórios. Em Bizkaia, movimentos como Zain Dezagun ou Guggenheim Urdaibai Stop exigem a descontaminação dos territórios. No Rio de Janeiro, parcerias entre pescadores e cientistas têm produzido redes de monitoramento ambiental independente, além de que a mobilização tem provocado uma série de audiências públicas forçando a ação de fábricas ainda em funcionamento.

Os caminhos para uma reparação justa passam por uma combinação de justiça ambiental e ciência cidadã, políticas públicas baseadas em evidências e preservação da memória. Torna-se fundamental adotar uma epistemologia que valorize os saberes locais — como o conhecimento tradicional dos pescadores sobre os ecossistemas —, que descentralize o poder técnico, incluindo as comunidades no processo de monitoramento, e que reconheça a dívida histórica das indústrias para com esses territórios. Entre as políticas públicas urgentes, destacam-se a criação de registros epidemiológicos detalhados que cruzem dados de saúde com históricos laborais; a constituição de fundos de compensação permanentes, financiados por empresas poluidoras; e o desenvolvimento de programas de transição justa, que promovam a capacitação profissional orientada para a economia verde, como energia solar gestão e saneamento de resíduos.

A preservação da memória deve ser entendida como um ato político de resistência que inclui as relações que as comunidades estabelecem com a toxicidade e as responsabilidades derivadas dos desastres ambientais provocados pelas fábricas, ainda que elas não estejam mais ativas. Se museus não devem romantizar o passado fabril, tampouco podem esconder seus custos humanos e ecológicos com o verniz de propostas de arte contemporânea que apague a memória dos lugares industriais. Arquivos públicos com depoimentos orais, documentos trabalhistas e laudos ambientais podem servir de base para ações judiciais e educativas. A educação ambiental, por sua vez, deve incorporar a história local.

As trajetórias de Bizkaia e Guanabara demonstram que o caminho da reparação é árduo, mas possível. Os depoimentos aqui reunidos provam que a memória é arma de luta por direitos e a resistência não apenas persiste, como também se transforma em ferramenta de transformação e justiça.

REFERÊNCIAS

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  • ZULAIKA, Joseba. Tough Beauty: Bilbao as Ruin, Architecture and Allegory. In: RESINA, Joan Ramon (org.). Iberian Cities. London: Routledge, 2011. p. 1-18.
  • 1
    Preferimos manter a grafia em língua vasca (euskera) porque é a forma mais utilizada atualmente e reconhecida. O mesmo para as cidades e municípios do País Vasco, como Guernica. Iremos utilizar Gernika.
  • 2
    Seguindo as normas éticas da Associação Brasileira de História Oral. Disponível em: https://www.historiaoral.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=542. Acesso em: 3 nov. 2025.
  • 3
    Este estudo faz parte de um projeto maior, intitulado Memória e experiência em Zonas de Sacrifício - Implicações Sociais e Ambientais num Estudo Histórico Comparativo da Desindustrialização Nociva entre Espanha (País Basco) e Brasil (Rio de Janeiro) - financiado pelo CNPq e pela FAPERJ, e conta com a colaboração de Ana Clara Freitas B. Soares (Pibic/CNPq/UFRJ), sob orientação de Andréa Casa Nova Maia.
  • 4
    KABIEZES, Alejandro. Entrevistadores: Andréa Casa Nova Maia e David Beorlegui Zarranz. Acervo dos autores, entrevista realizada em 22 de junho de 2023 en Luchana (Barakaldo).
  • 5
    Trad. Livre dos autores: “La fábrica (de amoniacos, Sefanitro) creo que se inauguró en el 55 [...] Y fue la mayor empresa que tuvimos aquí. Además de esa, había otra empresa que fabricaba, además de explosivos, fertilizantes, que era Explosivos Río Tinto. Además, estaba la Sociedad Española de Oxígeno, Oxinorte. Teníamos la fábrica de lindano, que se llamaba al principio Standard Química. La fábrica de pinturas, ISOC. Todas aquí Explosivos Río Tinto, también. [...] Hay más empresas Una fábrica, la Huesera, que le llamábamos nosotros, que lo que hacía era productos, jabones etc etc, quemaban huesos, vísceras... un olor insoportable. Más. AFO, que era una empresa que trabajaba con productos químicos y cauchos, que en los años 60 se marchó a Gasteiz. Todas en este barrio, sin llegar al resto del pueblo [...] Aquí tuvimos la mayor concentración de químicas de Euskal Herria, fijo, no ha habido tantas juntas.”
  • 6
    Marismas são ecossistemas alagadiço e úmidos, normalmente em deltas fluviais com forte influência marinha. Estão entre o mar e o rio, e entre a terra e a água.
  • 7
    GOTXI, Eider. Entrevistador: David Beorlegui Zarranz e Elena Galán del Castillo. Acervo dos autores. Entrevista realizada em 26 de fevereiro de 2024.
  • 8
    Trad. livre dos autores: “Porque siempre estamos escuchando que el Guggenheim de Bilbao trae muchísimo beneficio económico. Esto no es real, esto no es real y esto es un dato que es público. El Guggenheim de Bilbao, el museo, tiene unas pérdidas anuales de 4 o 6 millones de euros que todos los años las cubre el Gobierno Vasco con dinero de todos. Otra cosa es que esa gente que venga a visitar el museo Guggenheim de Bilbao se hospede en hoteles, utilice restaurantes... Porque Urdaibai no es Bilbao y nos lo están comparando con Bilbao. Nos dicen que en Bilbao también hubo opositores en aquella época [...][...] Nosotros somos 45.000 y nos están proponiendo 150.000 personas en cuatro meses.”
  • 9
    ETXÁNIZ, Txato. Entrevistador: David Beorlegui Zarranz. Acervo dos autores, entrevista realizada em 17 de novembro de 2023.
  • 10
    Tradução livre dos autores: “Todo el tiempo de trabajo lo he hecho en joyería y platería de Gernika, fábrica de cubiertos Dalia, en la cual empecé como aspirante administrativo, he pasado por el taller, he sido muchos años administrativo, oficinista y al final, bueno, también he sido militante obrero, dirigente sindical de la empresa y al final terminé vendiendo la empresa a la Diputación.”
  • 11
    Trad. livre dos autores: “Nosotros en la fábrica descubrimos tarde que se nos morían... Toda la gente que trabajaba en los baños del plateo, se moría hace 10 años. Y todos de… de hígado. Era porque metabolizaban los metales, metabolizaban en el hígado. Sí, tuvimos arios cánceres de hígado. 8 o 9 en 20 años o así. Y todos eran trabajadores de los baños. Claro, cuando preparaban los baños, los cianuros y tal, se metabolizaban. Luego lo hemos sabido. Cuando yo supe el tema, y estaba en el comité de empresa, aquí la seguridad higiene a rajatabla. Pero no sabemos por ejemplo tampoco que... ¿Cómo se llama? Las tuberías... El amianto. Se nos ha muerto la gente. (La fábrica) Está cerrada, ¿no? Pero tenemos gente que tiene cáncer, por el amianto. Sí, tenemos ya dos o tres…”
  • 12
    Tradução livre dos autores: “Y el acuífero está contaminado con cianuros, con mercurio [...][...] Claro habían hecho un estudio de los productos que utilizábamos en la cubertería, que era en la mayoría de las fábricas, productos que se utilizaban en la fabricación de la pistola. Pero aparecía el mercurio, y mercurio no.... Se me enciende a mí la luz y digo: “¡Cago en la hostia! ¡Claro que se utilizaba mercurio, joder! El mercurio se utilizaba en el fulminito de mercurio en las espoletas de las bombas de aviación que se hacían en Talleres de Gernika, que se empezaron a hacer en la época de la guerra de Marruecos en el 23-24, y se acabaron en el 68.[...][...] La política de residuos era a la ría y al pozo. O sea, por ejemplo, todo Dalia ahora, les dije: “puede haber lindane”, ¿por qué? Porque yo recuerdo que se traían camiones de Dow Chemical y se tiraba un polvo blanco. Porque la fábrica estaba a un determinado nivel, al lado de la ría, y había que subir el nivel para que no hubiera inundaciones. Allí se tiraban, yo me acuerdo, escorias de la Vasconia... O sea, todos los residuos que tenían todos los hornos y la Vasconia... “¡trae a Dalia!” ”.
  • 13
    JIMÉNEZ, Edorta. Entrevistador: David Beorlegui Zarranz e Elena Galán del Castillo. Acervo dos autores, entrevista realizada em 1 de dezembro de 2023.
  • 14
    Trad. livre dos autores: “Qué trabajaban? Hacían joyas y platerías, es decir, cuberterías en el momento del boom, del crecimiento de los años 70-60 junto con la construcción. Pues trabajarían evidentemente con algo de plata. Tendrían que hacer los tratamientos. Trabajarían con cromo. Trabajarían con plomo. Trabajarían con ácidos para tratar todo eso. [...] Parece ser que hay bencenos también. Hay que saber lo que hay porque a nosotros, a Zain Dezagun no nos lo han dicho. De pronto se descubrió que había lindane. ‘¿Y esto qué es?’ Dijeron, ‘aquí abajo hay veneno, que vamos a construir, no vamos a matar a más gente’. Y se generó la polémica del esto del lindane. Aquí, en Gernika, tiene que abrirse el debate de qué hay ahí abajo y afrontarlo.”
  • 15
    JIMÉNEZ, Edorta. Entrevistador: David Beorlegui Zarranz e Elena Galán del Castillo. Acervo dos autores, entrevista realizada em 1 de dezembro de 2023. Tradução livre: ¿Sabes lo que hay en el astillero de Murueta? Todo el amianto [...] Tienen que decir qué es y descontaminarlo. [...] Allí han estado haciendo una investigación sobre los metales depositados en suspensión en el agua. Y encontraron una enorme y alarmante presencia de estaño, estadísticamente muy lejos de lo normal. ¿Qué pensaban? Que había una venta de estaño en la ría de Urdaibai. ¿Sabes de qué se trataba? Del astillero, de los soldadores. Un hermano mío murió de pulmones jodidos este año.
  • 16
    PÁDUA, José Augusto. Entrevistadora: Andréa Casa Nova Maia. Acervo dos autores, entrevista realizada em 2 de outubro de 2024.
  • 17
    SIMON, Alba. Entrevistadores: Andréa Casa Nova Maia e Lise Fernanda Sedrez. Acervo dos autores, entrevista realizada em 8 de maio de 2024.
  • 18
    SIMON, Alba. Entrevistadores: Andréa Casa Nova Maia e Lise Fernanda Sedrez. Acervo dos autores, entrevista realizada em 8 de maio de 2024.
  • 19
    SIMON, Alba. Entrevistadores: Andréa Casa Nova Maia e Lise Fernanda Sedrez. Acervo dos autores, entrevista realizada em 8 de maio de 2024.
  • 20
    LEITE, Alexandre. Entrevistadora: Andréa Casa Nova Maia. Acervo dos autores, entrevista realizada em 3 de maio de 2024.
  • 21
    Jornal do Brasil, 1 de fev. de 2000.
  • 22
    O Globo, 5 de ago. de 2016.
  • 23
    Agência Brasil, 20 de dez. de 2018.
  • 24
    LEITE, Alexandre. Entrevistadora: Andréa Casa Nova Maia. Acervo dos autores, entrevista realizada em 3 de maio de 2024.
  • 25
    Diário Carioca, 3 de nov. de 2023.
  • 26
    LEITE, Alexandre. Entrevistadora: Andréa Casa Nova Maia. Acervo dos autores, entrevista realizada em 3 de maio de 2024.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
    Todos os entrevistados assinaram a Carta de sessão e ao final do projeto todas as entrevistas ficarão disponíveis no repositório do Laboratório IMAM-UFRJ.
  • Editor responsável:
    Ely Bergo de Carvalho

Disponibilidade de dados

Todos os entrevistados assinaram a Carta de sessão e ao final do projeto todas as entrevistas ficarão disponíveis no repositório do Laboratório IMAM-UFRJ.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2025
  • Revisado
    3 Nov 2025
  • Aceito
    9 Set 2025
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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