Open-access Sobrevivência de Pseudomonas marginalis pv. marginalis no solo, agente etiológico da queima bacteriana do alho

A queima bacteriana do alho causada por Pseudomononas marginalis pv. marginalis (Brown, 1918) Stevens, 1925 sin. Pseudomonas fluorescens biótipo II) é caracterizada como uma das principais doenças na cultura (2,3,6). Os sintomas podem se manifestar em qualquer estádio de desenvolvimento da planta e inicialmente as folhas apresentam uma descoloração parcial ou total e posteriormente a formação de estrias amareladas alongadas e com a evolução da doença, ocorre um encharcamento de cor marrom e amolecimento na nervura central. O restante do limbo pode permanecer verde e firme, porém, tende a ocupar todo o limbo foliar apresentando, ao final, uma coloração marrom e ressequida com aspecto de maturação fisiológica da planta. Os sintomas podem progredir para o pseudocaule e bulbo podendo ocorrer o seu apodrecimento (5). Um dos locais de sobrevivência de bactérias fitopatogênicas é o solo (9) e trabalhos ligados a epidemiologia do inóculo primário da doença exigem o conhecimento prévio das condições de sobrevivência para o início da epidemia, já que pesquisas relacionadas à queima bacteriana ainda são escassas. Para tanto, o conhecimento da sobrevivência do patógeno é de grande importância para compreender o desenvolvimento da doença no campo e o seu manejo. Este trabalho teve como objetivo avaliar em condições de campo a longevidade de P. marginalis pv. marginalis em diferentes profundidades de solo. O trabalho foi realizado no Instituto Federal Catarinense - IFC/Campus Rio do Sul de novembro de 2018 a junho de 2019. Nesse período a precipitação mensal foi de foi de 45,5; 168,5; 211; 241,5; 143; 117,5 e 207 milímetros. O isolado do patógeno foi obtido de plantas de alho com sintoma característico em meio de cultura nutriente-ágar (NA). A identificação foi confirmada pela produção de fluorescência em luz negra em meio de King-B e também sua patogenicidade em inoculação de bulbilho de alho através da técnica de Moura & Romeiro (7). Para diferenciar das bactérias fluorescentes que há no solo esse isolado foi transformado em mutante em meio King-B contendo 150 µg.mL-1 de rifampicina e repicada por três vezes consecutivas, para manutenção da resistência ao antibiótico. Uma suspensão em solução salina (NaCl 0,85%) da bactéria mutante com 48 horas de crescimento com concentração ajustada em espectrofotômetro em OD550=0,5 (4,2x108 UFC/mL) foi vertida na superfície do solo contido em dois conjuntos de duas armações sobrepostas de madeira de 0,5 X 0,5 m2 com 10 cm de altura cada, contendo telado de sombrite (0,1 mm) no fundo de uma delas para separar as alturas de 0 a 10 e de 10 a 20 cm. O solo utilizado foi um cambissolo Háplico, com os seguintes atributos químicos: pH em água de 6,0; matéria orgânica de 2,8%; teores de Ca+2, Mg+2, Al+3 e CTC de 4,2; 1,8; 0,0 e 9,54 cmolc.dm-3, respectivamente; saturação por bases de 66,49%, teor de argila de 30 % e teores de P e K de 14 e 134 mg.dm-3 respectivamente. Foi adicionado uma proporção de 250 µL de suspensão bacteriana por grama de solo, conforme análise prévia da capacidade de campo do solo. A avaliação da sobrevivência constou de três repetições contendo sub-amostras de 1 grama de solo de 0-10cm e de 10-20 cm. Essas sub-amostras foram colocadas em tubo de ensaio contendo 10 mL de solução salina (NaCl 0,85%), e homogeneizadas, com auxílio de um agitador de tubos, durante 15 segundos. Em seguida foram feitas diluições em série até a concentração de 10-8 e plaqueadas, com auxílio de alça de Drigalski, em meio de cultura King-B acrescido de rifampicina a 150 µg.mL-1 e uma suspensão de 100 µL de Clorotalonil (1,3 g/L) espalhada em sua superfície para a não proliferação de fungos. Após a incubação a 28°C por 48 horas, foi contado o número de colônias bacterianas emergentes em câmera de luz negra para confirmar a emissão de fluorescência e mensalmente a população de bactérias (UFC/g de solo) encontradas em cada profundidade do solo. Constatou-se um decréscimo acentuado de mais de 99% da população original colocada nas duas camadas de solo, porém, na de 10-20 cm apresentou maior população, provavelmente devido às condições estáveis de temperatura e umidade (Tabela 1). Não foi constatado colônias em fevereiro na camada superficial e durante os dois meses seguintes manteve-se estável (Tabela 1). A curva de sobrevivência da bactéria foi representada por uma função polinomial expressa em y = 0,239x2-39994x+82218 (R2=0,817). Na profundidade de 10-20 cm houve um decréscimo da população (5,33x102 UFC/g de solo) em março, provavelmente devido à condição de pouca precipitação, mas que voltou a se elevar a população (7,3x103 UFC/g de solo) no mês seguinte devido o incremento da umidade no solo. A sobrevivência da bactéria na camada de 10-20 cm foi ajustada pela equação polinomial y = 16694x2-1E+06x+3E+06 (R2=0,771). No entanto, em ambas as profundidades não foram recuperadas colônias a partir do quinto mês. No ciclo de vidas das fitobactérias, o solo é sítio de sobrevivência em maior ou menor proporção, dependendo de sua interação e das condições com o ambiente e com o hospedeiro. Grahan et al. (4) constataram que Xanthomonas phaseoli var. sojensis, Pseudomonas glycinea e Pseudomonas tabaci podem sobreviver de 3 a 9 meses em solo esterilizado e de 1 a 9 meses em solo não esterilizado, enquanto que Xanthomonas vesicatoria permaneceu viável por 2 semanas em solo não estéril (8). Alippi (1) constatou que Xanthomonas campestris pv. malvacaerum foi detectada superficialmente no solo durante 50 dias e Xanthomonas campestris pv. campestris de 10 a 24 dias conforme o tipo do solo (10). Mediante os resultados obtidos, P. marginalis pv. marginalis consegue sobreviver até 5 meses indiferente da profundidade que se encontra no solo.

Tabela 1
População bacteriana (UFC/g de solo) de Pseudomononas marginalis pv. marginalis em diferentes profundidades de solo. IFC/Campus Rio do Sul, 2018-2019

REFERÊNCIAS

  • 1 Allipi, A.M. Survival of Xanthomonas campestris pv. malvacearum in soil. Turrialba, San Jose, v.39, n.176, p.178, 1989.
  • 2 Becker, W. F. Doenças do alho: sintomatologia e controle Florianópolis: Epagri, 2004, 53p. (Boletim técnico 126).
  • 3 Becker, W. F. Queima bacteriana do alho. Agropecuária Catarinense, Florianópolis, v.4, n.3, p.14-19, 1991.
  • 4 Graham, J.H.; Mcguire, R.G.; Miller, J.W. Overwintering of three bacterial pathogens of soybean. Phytopathology, St. Paul, v.43, n.2, p.189-192, 1953.
  • 5 Lopes, C.A. Quezado-Soares, A.M. Doenças bacterianas das hortaliças: Diagnose e controle Brasília: EMBRAPA CNPH, 1997, 70p.
  • 6 Marcuzzo, L.L. Queima bacteriana em alho. Cultivar hortaliças e frutas, Pelotas, v.112, p.5-7. 2018.
  • 7 Moura, A.B.; Romeiro, R.S. Garlic bulbils as biological baits for detection an diagnosis of Pseudomonas marginalis Summa phytopathologica, Jaguaríuna, v.23, n.3/4, p.252-254, 1997.
  • 8 Peterson, G.H. Survival of Xanthomonas vesicatoria in soil and diseased tomato plants. Phytopathology, St. Paul, v.53, n.6, p.765-767, 1963.
  • 9 Romeiro, R.S. Doenças causadas por bactérias em alho. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.17, n.183, p.46-49, 1995.
  • 10 Silva, J.C Sobrevivência de Xanthomonas campestris pv. campestris no solo, no filoplano e na rizosfera de plantas daninhas 2015. 62f. Dissertação (Mestrado em Agronomia – proteção de plantas) - Universidade Estadual Paulista, Botucatu.

Publication Dates

  • Publication in this collection
    13 Feb 2023
  • Date of issue
    Oct-Dec 2022

History

  • Received
    06 June 2019
  • Accepted
    23 Sept 2022
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