Open-access Impactos socioambientais e na saúde provocados por enchentes e ondas de calor no Brasil: uma revisão de escopo

RESUMO

Objetivou-se sistematizar as evidências científicas sobre os impactos socioambientais e na saúde provocados por enchentes e ondas de calor no Brasil. Trata-se de uma revisão de escopo realizada nas bases Medline, SciELO, Lilacs, Embase e Scopus. A busca foi conduzida por pares de forma independente, com recorte histórico de 1992 a 2023. Foram identificados 2.950 artigos, que resultaram em um corpus final de 53 estudos analisados tematicamente. Os resultados apresentam 37 estudos abordando enchentes e 16 sobre ondas de calor, com relatos para todas as regiões do Brasil. Apontam-se efeitos negativos na organização dos territórios, nas condições de vida e no processo de adoecimento e morte, seja para doenças infectocontagiosas, crônicas ou outros agravos; prejuízos na economia, estrutura e oferta de serviços; além de danos ao ambiente, como queimadas, deslizamentos de terra, assoreamento de rios e perda da vegetação. Os impactos variam segundo classe social, gênero, faixa etária e um padrão de exposição mais caracterizado pelos estudos para as enchentes do que para as ondas de calor. Conclui-se que as enchentes e as ondas de calor têm agravado as iniquidades no Brasil a partir de impactos negativos na economia, na sociedade, na agricultura, no ambiente e na saúde.

PALAVRAS-CHAVE
Desigualdades de saúde; Mudança climática; Sistemas de saúde; Inundações; Calor extremo.

ABSTRACT

The aim of this article is to systematise the scientific evidence on the socio-environmental and health impacts caused by floods and heatwaves in Brazil. This is a scoping review conducted using the Medline, SciELO, Lilacs, Embase, and Scopus databases. The search was independently carried out in pairs, covering the period from 1992 to 2023. A total of 2,950 articles were identified, resulting in a final corpus of 53 studies, which were analysed thematically. The findings include 37 studies on floods and 16 on heatwaves, with reports from all regions of Brazil. The results indicate negative effects on territorial organisation, living conditions, and the process of illness and death, whether due to infectious diseases, chronic conditions, or other health issues, as well as economic losses, structural damage, and disruptions in service provision. Environmental damage such as wildfires, landslides, river siltation, and vegetation loss are also highlighted. The impacts vary according to social class, gender, and age group, with a more clearly defined pattern of exposure found in studies on floods than on heatwaves. It is concluded that floods and heatwaves have exacerbated inequalities in Brazil through negative impacts on the economy, society, agriculture, the environment, and health.

KEYWORDS
Health inequities; Climate change; Health systems; Floods; Extreme heat.

Introdução

O mundo tem sofrido profundas transformações sociais, econômicas, políticas e ambientais desde a primeira revolução industrial no século XVIII, sobretudo aquelas associadas à produção e ao uso de energias não renováveis. Ao longo do tempo, instaura-se, de forma crescente, um modelo de desenvolvimento global caracterizado pela exploração do ambiente, dependente de matrizes energéticas centradas no uso de combustíveis fósseis, com alta emissão de gases atmosféricos, dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, que são grandes contribuidores do aquecimento global1.

Os resultados desse modelo de desenvolvimento têm convergido para desequilíbrios em escala planetária, com efeitos que culminam em mudanças climáticas, uma relação amplamente reconhecida pelos principais organismos multilaterais do mundo2. Países de baixa e média renda são mais suscetíveis aos impactos negativos decorrentes das mudanças climáticas, podendo reduzir em até 8% o seu Produto Interno Bruto (PIB), gerando prejuízos globais estimados em até US$ 50 trilhões3,4.

Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, chuvas intensas e ondas de calor, têm gerado crescente preocupação mundial devido às suas consequências ambientais e para as coletividades humanas5. A extensão dos seus efeitos incide sobre todos os ecossistemas, produzindo diminuição da biodiversidade, escassez de alimentos e de água potável, perdas econômicas e de vidas, bem como aumento da incidência de inúmeros problemas de saúde, como desnutrição, doenças infecciosas, doenças crônicas, transtornos mentais e conflitos ambientais5-7. Nesse contexto, injustiças ambientais tendem a ser intensificadas, reproduzindo desigualdades baseadas em raça e etnicidade, gênero e classe, que afetam desproporcionalmente comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, sertanejas e pescadoras8,9.

O Brasil tem enfrentado, nos últimos anos, eventos climáticos com consequências catastróficas para as populações, tendo como exemplo as enchentes enfrentadas pelos estados do Rio Grande do Sul10, de Pernambuco11 e do Rio de Janeiro12, ou as ondas de calor em Minas Gerais, Brasília e Mato Grosso13. Esses eventos têm pressionado o Sistema Único de Saúde (SUS) e a produção científica no País, diante da necessidade de gerar evidências que subsidiem a formulação de políticas, programas e ações para o controle e a mitigação dos impactos desses eventos extremos.

Na literatura, não há pesquisas que sintetizem os múltiplos impactos das enchentes e ondas de calor nas dimensões sociais, sanitárias e ambientais ocorridas no Brasil, constituindo-se, ainda, um hiato importante para a política, o planejamento e a gestão da saúde. Isso dificulta a organização dos serviços e processos de trabalho pela não compreensão global desses fenômenos, de seus reflexos e suas particularidades no País, reduzindo a capacidade de resposta à emergência e a posterior recuperação14. Assim, o objetivo desta revisão é sistematizar as evidências científicas sobre os impactos socioambientais e na saúde provocados por enchentes e ondas de calor no Brasil.

Material e métodos

Tipo de estudo

Trata-se de uma revisão de escopo realizada segundo os princípios e as diretrizes do Joanna Briggs Institute (JBI)15, além das orientações adaptadas do checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses - Extension for Scoping Reviews (Prisma-ScR)16. Esse tipo de revisão é estratégico na produção científica ao possibilitar o mapeamento de conceitos, teorias e sintetizar evidências de uma determinada área do conhecimento15 O protocolo desta revisão está cadastrado no repositório científico Open Science Framework (OSF)17.

Questão de pesquisa

A formulação da pergunta de pesquisa baseou-se na estratégia PCC (População, Conceito e Contexto), sendo P a população brasileira e ecossistemas, C os impactos socioambientais e na saúde, e C as enchentes e ondas de calor. A pergunta de pesquisa foi sintetizada da seguinte forma: quais são os impactos socioambientais e na saúde provocados por enchentes e ondas de calor no Brasil, considerando a população e os ecossistemas?

Critério de elegibilidade

Foram incluídos estudos que: i) abordem enchentes ou ondas de calor no Brasil; ii) escritos em português, inglês ou espanhol; e iii) publicados entre 1992 e 2023.

O recorte histórico a partir de 1992 justifica-se pela realização, no Brasil, da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), reconhecida como um marco importante na governança global relacionada às questões ambientais. Foi a partir dessa conferência que formuladores de políticas, gestores, movimentos sociais e pesquisadores se engajaram mais intensamente em torno dessas questões na perspectiva do desenvolvimento sustentável e com justiça climática18.

As exclusões dos estudos se deram a partir dos seguintes critérios: i) duplicidade; ii) literatura cinzenta; iii) documentos expedidos por órgãos da administração pública; iv) teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso; v) revisões de literatura, cartas aos editores e anais de congressos; vi) artigos que tratem de inundações ou ondas de calor no Brasil como fenômenos de ocorrência comum nos territórios em que ocorrem, e não associados a desastres; e vii) artigos que, embora mencionem enchentes ou ondas de calor no Brasil, não respondem à pergunta norteadora.

Fontes de informação e estratégia de busca

Os estudos foram selecionados nas seguintes bases de dados e bibliotecas virtuais: Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (Medline); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs); Scientific Electronic Library Online (SciELO); Excerpta Medica Database (Embase) e Scopus. A estratégia de busca foi criada a partir da combinação de descritores controlados sobre o tema (ondas de calor, enchentes, Brasil), utilizando operadores booleanos OR e AND, conforme detalhado no quadro 1.

Quadro 1
Estratégias de busca por base de dados e biblioteca virtual

Optou-se por uma estratégia de busca ampla, para capturar o máximo de estudos relacionados ao tema da pesquisa, considerando a necessidade de mapear os estudos de forma abrangente, mas refinando os resultados com base nos critérios de elegibilidade.

Processo de seleção dos estudos

As buscas foram realizadas de 20 a 30 de setembro de 2024 por dois pesquisadores independentes, em duplo-cego (R.C. e A.M.), conforme os critérios de elegibilidade estabelecidos. Os eventuais dissensos foram resolvidos por uma terceira pesquisadora (M.O.), especialista na temática.

Na primeira fase, os estudos foram identificados nas bases de dados por meio da chave de busca. Na segunda fase, a elegibilidade foi avaliada mediante a leitura dos títulos e resumos. Os estudos que permaneceram elegíveis foram encaminhados para a terceira etapa, na qual os textos completos foram lidos, e suas referências também foram verificadas para a inclusão de novos estudos não capturados pela estratégia inicial. Nessa fase, os estudos que atenderam aos critérios de inclusão foram considerados para composição do corpus final da revisão (figura 1).

Figura 1
Fluxograma do processo de seleção dos estudos

Processo de extração de dados dos estudos selecionados

Os dados dos estudos selecionados foram coletados por meio de um formulário padrão no Excel®, pelos mesmos revisores da fase anterior, de forma independente (R.C. e A.M.), com posterior validação das informações pela terceira pesquisadora (M.O). As variáveis coletadas foram: autor e ano do estudo; tipo de evento estudado (enchentes ou ondas de calor); tipo do estudo; local do estudo; impactos sociais, ambientais ou na saúde decorrentes do evento; exposição; vulnerabilidade; descrição de ações ou práticas que favoreçam a construção de resiliência social e em saúde; sugestão para futuras pesquisas e limitações do estudo.

Síntese dos dados

Os dados extraídos do corpus foram organizados e analisados segundo categorizações temáticas, utilizando a quantificação descritiva das informações coletadas e a síntese qualitativa dos estudos19. Para os valores econômicos apontados como prejuízos dos eventos, ajustamos os valores a preços de fevereiro de 2025 por meio do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Resultados

Foram analisados 53 estudos que abordam os impactos socioambientais e na saúde provocados por enchentes (37) e ondas de calor (16) em todas as regiões do Brasil, sendo a maioria baseada em métodos quantitativos (41) (figura 2).

Figura 2
Distribuição dos estudos que abordam os impactos socioambientais e na saúde das enchentes e ondas de calor no Brasil, por unidade da federação*

Enchentes no Brasil: impactos, exposições, vulnerabilidade e resiliência do sistema de saúde

A literatura aborda um conjunto de impactos sociais relacionados às enchentes que incidem diretamente na organização da vida nos territórios atingidos (figura 3). Os estudos mencionam a capacidade de destruição desse evento sobre habitações20-33; prédios comerciais29,34-37; unidades de saúde21,35; hospitais20; escolas33,35; carros25,32; pontes20,36,38; estradas e rodovias20,22,27,31-33,36,37; além de ocasionarem a interrupção nos serviços de transporte público39 e no fornecimento de energia elétrica, gás, água e comunicação20,27,30,32,38-40, tudo isso ocasionando também deslocamentos massivos das populações atingidas21 (figura 3).

Figura 3
Impactos socioambientais e na saúde decorrentes das enchentes no Brasil

As enchentes relatadas nos estudos atingiram um quantitativo populacional que variou de 32 mil pessoas em Santa Catarina em 200827; 800 mil no Rio de Janeiro em 201140; a 119 mil em Pernambuco em 202241. As perdas econômicas no País foram estimadas em R$ 97 milhões (R$ 248 milhões, corrigidos pela inflação) em São Paulo em 200834; R$ 253 milhões (R$ 550 milhões, corrigidos pela inflação) em 2011 no Rio de Janeiro38; e R$ 780 milhões (R$ 1,3 bilhão, corrigido pela inflação) no Acre em 201537. Quando estimados nacionalmente, os prejuízos ultrapassaram R$ 331 bilhões (R$ 605 bilhões, corrigidos pela inflação) entre 2010 e 201435. Danos financeiros ao sistema de saúde relacionados ao tratamento de doenças influenciadas pelas enchentes foram estimados em R$ 700 mil (R$ 1,5 milhão, corrigido pela inflação) para o tratamento dos casos de dengue30; e em R$ 160 mil (R$ 350 mil, corrigidos pela inflação) para os de leptospirose39, ambos os eventos ocorridos em 2011. Impactos na microeconomia também foram estimados, como a diminuição de 16% nos valores dos imóveis expostos às enchentes42, assim como no nível macro, com a diminuição do PIB dos estados, como Santa Catarina em 200833, que perdeu 7,8% dos seus rendimentos27 (figura 3).

Os impactos ambientais se concentraram nos efeitos de deslizamentos de terra20,22,38-40,43; com destruição da vegetação nativa21, áreas agrícolas29,37,42; morte de árvores nativas não adaptadas a períodos de alagamento29; capacidade de gerar um enorme contingente de resíduos sólidos22,37; alteração dos cursos dos rios ocasionada por assoreamento e erosão21,22; e rompimento de barragens41 (figura 3).

Na saúde, os impactos identificados incluíram elevação da incidência de casos de diarreia24,32,44; leptospirose21,24,39,45-52; doenças de pele24; esquistossomose53; dengue30,32; hepatite A54; malária55; lesões traumáticas, como fraturas múltiplas, esmagamento, amputação, perfuração de tecidos moles, inalação de poeira38; distúrbios ou sofrimento mental21,37,56; e doenças respiratórias32,37 (figura 3).

Mortes em decorrência das enchentes também foram mencionadas20,24,27,28,38,40,41,43, tendo sido reportados 135 óbitos em Santa Catarina em 200827; 1.300 no Rio de Janeiro em 201140; 100 em Recife em 202220; e 4.389 em todo o Brasil ocorridas entre 2013 e 201624 (figura 3).

Os estudos sinalizam aspectos temporais importantes a serem considerados na identificação dos impactos das enchentes. Por exemplo, pode não haver uma relação instantânea de enchentes e desfechos em saúde, sendo necessário um tempo para o aumento da incidência de determinados agravos. Evidências indicam um período de até 3 meses para casos de hepatite A54; de 1 ano para o aumento da procura de atendimento em saúde mental após o evento56; de 1 a 4 meses para malária55; de 3 meses para a busca inicial de reabilitação fisioterápica em decorrência de lesões traumáticas38; e de até 12 meses para óbitos decorrentes de complicações de agravos sofridos ou doenças desenvolvidas durante o evento24 (figura 3).

Os impactos aqui identificados concentram-se em áreas rurais, periféricas, morros e margens de rios21-23,31,32,41,51,52; regiões de menores altitudes47; com pouca infraestrutura de saneamento e drenagem como bueiro, esgoto, vala, canal, com deposição e acúmulo de lixo26,32,46,48,51; locais com habitações de madeira32,48; e onde a mobilidade se dá por dentro das áreas alagadas53.

As populações mais impactadas foram as pessoas de baixa condição econômica20,25,26,28,32,46,51,53; com menores níveis educacionais26; pessoas idosas32,48, crianças32 e mulheres30. Essas características foram relevantes para a suscetibilidade aos impactos sociais e em saúde que precisam ser mais bem compreendidas para formulação de políticas e organização dos serviços e ações de saúde, tanto nas etapas de preparação quanto de resposta a esses eventos.

As ações ou práticas sociais e em saúde para a mitigação dos impactos nos territórios afetados pelas enchentes descritas incluíram: instituição de um planejamento de uso do solo, regulação da construção civil, financiamento para a construção de diques, represas, alargamento e aprofundamento de canais23; adoção de equipe de saúde multiprofissional, com terapeuta ocupacional e fisioterapeuta na Atenção Primária à Saúde (APS)38; repasses financeiros para moradores desabrigados alugarem novas habitações25,37; doação de colchões, lençóis, vestimenta e alimentos de forma imediata26,28,31; reutilização dos detritos dos escombros para a reconstrução ecológica de casas22; construção de abrigos temporários31,37; aumento da vigilância policial37; uso de bombas hidráulicas para drenagem das águas acumuladas31; políticas de construção de habitações seguras em áreas distantes de zonas de risco21.

Outras lições para a construção de uma resposta efetiva, oportuna e qualificada ao contexto das enchentes foram destacadas. Dentre elas, a necessidade de treinamento das equipes de resgate e de saúde; a implementação instantânea de respostas aos impactos dos eventos climáticos; a centralização dos corpos das vítimas em um espaço único para uma ágil identificação e liberação40; a manutenção e expansão dos sistemas de monitoramento dos impactos, com enfoque nas áreas de risco densamente povoadas; o incentivo a pesquisas sobre enchentes e seus impactos; as estratégias de comunicação entre a população e os governos locais41; a promoção de educação comunitária sobre desastres; o financiamento robusto e sustentável para o desenvolvimento de serviços climáticos; e a produção de planos de contingência de forma intersetorial20.

No geral, os estudos apontam uma definição polissêmica do termo enchentes, como qualquer evento hidrológico que ocasiona transbordamento ou escoamento de cursos d’água, ambos com poder destrutivo, convergindo, assim, os fenômenos de inundações, enxurradas e alagamentos. Configuram-se de forma destoante dos métodos oficiais de classificação do governo federal, que apresentam especificações para cada tipo de evento e são utilizados pela Defesa Civil do País57, assemelhando-se mais aos conceitos de dicionários como Houaiss58, no qual os termos são tidos como sinônimos.

Sugestões de futuras pesquisas e limitações apontadas pelos estudos sobre enchentes no Brasil

Os estudos sugerem que novas pesquisas sejam realizadas em três perspectivas. A primeira diz respeito a um maior aprofundamento teórico e analítico que dialogue com as ciências sociais e humanas na saúde41, permitindo melhor compreensão dos impactos econômicos30,33,52, sociais39 e demográficos52 que apresentam alta capacidade de aprofundar as iniquidades sociais, sendo urgente identificar as populações mais vulneráveis56. A segunda se refere à inclusão das características ambientais nos estudos, uma vez que as enchentes podem alterar a epidemiologia das doenças, notadamente as infectocontagiosas, devido a alterações ambientais do território30,33, o que pode influenciar a sobrevivência de espécies da fauna e da flora não adaptadas ao contexto de enchente29. A terceira concerne a estudos que investiguem a organização do sistema de saúde para o acesso aos cuidados de atenção em saúde mental para as populações expostas33,56, considerando aqueles que têm acesso exclusivo ao SUS ou ao setor privado56. Adicionalmente, há uma preocupação de que as discussões devem permitir uma desagregação geográfica local para melhor subsidiar o planejamento de risco48.

As limitações descritas estão relacionadas aos métodos utilizados. No que se refere aos estudos quantitativos, destacam-se os desafios típicos dos estudos ecológicos45,52; a utilização de dados secundários que apresentam problemas de confiabilidade, qualidade e ausência do preenchimento de alguns campos23,30,32,35,38,45,47,52,56; e a possibilidade de destruição de fichas clínicas físicas durante o desastre38. Nos estudos qualitativos, há a possibilidade do viés de memória38, violência e insegurança territorial que impede a realização de entrevistas32; desconsideração de aspectos socioeconômicos na investigação52; barreiras de acesso aos serviços de saúde56; escassez de outros estudos sobre a temática que pode influenciar em uma reduzida discussão33. Salienta-se que os estudos apontam as dificuldades de estabelecer uma relação linear entre clima e desfechos em saúde por suas variáveis serem complexas e ainda pouco compreendidas em sua totalidade30,55.

Ondas de calor no Brasil: impactos, exposições, vulnerabilidade e resiliência do sistema de saúde

Os impactos sociais das ondas de calor identificados na literatura incluem prejuízos econômicos em setores da agricultura ou da produção de energia59; maior risco de morte de animais criados de forma intensiva para o comércio, como galinhas60; e baixo rendimento das lavouras de soja61. Entre os impactos ambientais, estão as altas taxas de evaporação, a dessecação do solo, a secura da vegetação e o aumento da inflamabilidade territorial, propiciando, assim, incêndios florestais59,61,62 (figura 4).

Figura 4
Impactos socioambientais e na saúde decorrentes de ondas de calor no Brasil

Na saúde, os estudos relatam que, durante ondas de calor no Brasil, houve maior risco de hospitalizações por diversas condições, que incluem: doenças perinatais, endócrinas, nutricionais e metabólicas, problemas de pele e doenças geniturinárias63; doença cardíaca isquêmica, asma, pneumonia, doenças renais, condições de saúde mental e neoplasias64,65. Efeitos sobre a mortalidade também foram relatados, especificamente por doenças cardiovasculares, respiratórias66-74 e diabetes62. Esses estudos foram realizados nos municípios do Rio de Janeiro67,68,70,71 e de São Paulo69,72; além de cidades da Amazônia Legal, distribuídas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão66 (figura 4).

As populações mais vulneráveis às ondas de calor identificadas nos estudos analisados foram as crianças de 0 a 9 anos63, mulheres63,66,67,69,70;71,73, pessoas idosas acima de 60 anos63,66,67,69,70-72,74; pessoas com piores condições econômicas64,71; e menores níveis educacionais64,73,74.

A definição de onda de calor variou entre os estudos incluídos, indicando pouco consenso sobre sua descrição, embora todos tenham considerado critérios baseados na intensidade e duração, normalmente a partir de dois ou mais dias59,60,63,64,66,69-72. Alguns estudos destacam que a intensidade dos eventos pode ser mais relevante que sua duração66,70, enquanto outros sugerem que a combinação de maior duração e intensidade está associada a riscos mais elevados de desfechos negativos em saúde63.

A temporalidade dos desfechos em saúde associados às ondas de calor envolve um período de latência necessário para a manifestação dos efeitos da exposição71,72, que pode ocorrer entre 2 e 11 dias após o evento de onda de calor71.

Fisiologicamente, pessoas idosas e crianças podem ser as mais suscetíveis por limitações biológicas dessas faixas etárias, em decorrência dos excessos metabólicos ocasionados por intensa desidratação, vasodilatação, aumento da frequência cardíaca, aumento da viscosidade do sangue, redução da pressão arterial e diminuição da circulação cerebral72.

Sugestões de futuras pesquisas e limitações apontadas pelos estudos sobre ondas de calor no Brasil

As sugestões para estudos futuros com ondas de calor apontam para uma ampliação das análises em populações idosas71, com menores condições econômicas71; pesquisas que possam investigar se melhores condições socioeconômicas promovem maior adaptabilidade ao calor64, em outras regiões do País que não aquelas concentradas no Sul ou Sudeste71,74; investigação da interação com outras variáveis, como umidade, velocidade do vento, poluição do ar, incêndios florestais59,67,70, ou seja, estudos que possam melhor caracterizar o papel das características individuais e contextuais; além de estudos clínicos e experimentais que possam estabelecer os mecanismos biológicos envolvidos no estresse termofisiológico68.

As limitações observadas são similares às apontadas no contextos das enchentes e incluem as características dos estudos ecológicos59,72 e do uso dos dados secundários que podem ter incompletude, inconsistências ou subregistro65,67,68,72; a não inserção de um conjunto de variáveis ambientais para além das ondas de calor63,64,67,70,72, como altitude, qualidade do ar, cobertura do solo, proximidade da água, radiação solar, velocidade do vento, espaços verdes, utilização de equipamento de ar condicionado64,70; medições de temperatura em apenas uma ou duas estações metereológicas67,72; possíveis perdas de notificações de casos internados ou óbitos por deficiência do sistema de informação70; ausência de dados em nível individual64; literatura escassa sobre ondas de calor nas diversas regiões do País65, ou de plausibilidade biológica para seus efeitos63, diminuindo a possibilidade de estabelecer discussões comparativas e explicativas mais robustas.

Os dados aqui relatados podem ser consultados em sua completude na OSF17.

Discussão

Segundo o nosso levantamento realizado, esta revisão de escopo é o primeiro estudo que identifica os impactos sociais, ambientais e em saúde das ondas de calor e enchentes no Brasil, descrevendo as análises dos efeitos, populações vulnerabilizadas e estratégias de respostas para esses eventos climáticos no País. A região Sudeste foi a mais estudada, embora estados de todo o território nacional tenham relatado algum dano sofrido.

Os impactos descritos no Brasil são similares aos discutidos na literatura internacional, sejam para as enchentes na Somália75, no Reino Unido e na Alemanha76; seja para as ondas de calor na China77 e na Itália78, em que todos convergem para a necessidade dos Estados nacionais se prepararem para a intensificação desses eventos nas próximas décadas em decorrência do agravamento das mudanças climáticas e dos eventos extremos, especialmente nos países tropicais de baixa renda79.

Os resultados deste artigo apontam que existem marcadores importantes de vulnerabilidades aos efeitos das ondas de calor e enchentes no Brasil, segundo características de idade, gênero e classe, que precisam ser considerados na formulação de políticas públicas à luz da determinação social da saúde e das interseccionalidades80. Há um consenso de que a construção da resiliência climática precisará considerar as características individuais dos sujeitos, além das singularidades territoriais em que estão inseridos, pois a reprodução social, ambiental e na saúde é experienciada de forma desigual81.

Os extremos de idade podem apresentar as menores capacidades de resistir aos desfechos em saúde, por limitações físicas, sociais ou pouco amadurecimento do sistema fisiológico82, tendo 14 vezes mais chances de ir a óbito em um desastre83. Estudos anteriores também destacam que o acesso à saúde em contextos de desastres climáticos ocorre de forma desigual, por exemplo: os custos diretos desembolsados para o pagamento de serviços hospitalares durante os eventos extremos são maiores para pessoas idosas e mulheres, com um gasto médio, respectivamente, de US$ 1.600 e US$ 500, valor mais elevado em comparação com outros grupos populacionais84,85. Esses valores refletem a maior complexidade no atendimento ou o prolongamento do tempo de internação associado a esses grupos85.

A síntese da influência das enchentes e ondas de calor no Brasil demonstra que os danos sociais, ambientais e em saúde incidem em um aumento da demanda por assistência social e cuidados em saúde; dias de trabalho perdidos ou redução da produtividade; e aspectos relacionados ao bem-estar e à qualidade de vida86. Tais variáveis acarretam perdas humanas, financeiras e estruturais, com potencial para agravar as iniquidades entre as nações.

Salienta-se que a exposição aos eventos climáticos aqui pesquisados está associada a uma ocupação do solo desordenada, infraestrutura precária, além de um processo de concretização urbana e pouca arborização territorial já amplamente discutido82,87, cujos piores indicadores estão em locais periféricos87 com ausência histórica de políticas públicas de habitação e saneamento82. Nos últimos 12 anos (2010-2022), houve um crescimento de 103% no número de pessoas vivendo em favelas no Brasil. Aproximadamente 16 milhões de pessoas ou 8,1% da população do País vivem nos territórios com as piores condições de vida e moradia88, sujeitas às ondas de calor e enchentes, o que se assemelha aos resultados observados em países da África89 e da Europa90. Cabe ressaltar que vulnerabilidades sociais contribuem tanto para a exposição quanto para a capacidade de adaptação aos eventos climáticos91, pois definem a autonomia ou não de comprar um ar-condicionado, de morar em um bairro arborizado, de ter água encanada no domicílio, ou de simplesmente não habitar uma área de risco.

Embora o Brasil apresente um sistema de saúde com uma APS consolidada, barreiras de acesso ainda são enfrentadas por populações específicas, como as rurais, de rua e tradicionais92. Tal cenário agrava os impactos decorrentes das ondas de calor e enchentes por potencializar os riscos e danos, considerando-se o reduzido alcance da rede de atenção à saúde e outras abordagens intersetoriais81.

Ainda que enchentes e estações com temperaturas mais elevadas possam ser vistas em alguns territórios como eventos naturais de ocorrência cíclica, o aumento na intensidade e a redução dos intervalos de ocorrência apontam para uma influência antrópica93. Como exemplo, eventos extremos sucedidos a grandes desastres registrados no Brasil, como as enchentes em Pernambuco em 2023 e as no Rio Grande do Sul em 2024, estão intimamente ligados a padrões anormais de fenômenos climáticos como a La Niña e o El Niño, cuja mudança de comportamento é fortemente atribuída à ação antrópica94. Outros exemplos é o aumento de queimadas e o desmatamento na Amazônia Legal ou em áreas da região Centro-Oeste, cujas consequências são amplamente conhecidas pela sua capacidade de influenciar na dinâmica atmosférica, aumentando a retenção térmica, contribuindo para que frentes frias não atravessem o País95. Ao mesmo tempo que o desmatamento aumenta o escoamento superficial da água, amplificando a vazão que atinge os cursos d’água, acirra a erosão pela perda da cobertura superficial do solo, diminuindo sua estabilidade, assoreando os rios e aumentando os riscos de enchentes e deslizamentos28,96.

Países do Sul Global, como Egito, Gâmbia, Nigéria e Namíbia, apresentam experiências importantes de adequação dos seus sistemas de saúde ao cenário de crise ambiental, podendo servir de exemplo para outros Estados nacionais, embora o Brasil tenha implementado ações semelhantes e pontuais. Naqueles países, as ações envolvem: sistema de previsão meteorológico com emissão de alertas precoces; estratégias de educação, treinamento e conscientização para a população e trabalhadores da saúde; vigilância e controle epidemiológico; políticas socioambientais saudáveis; ampliação de serviços habitacionais, de saneamento e em saúde; além do estímulo ao desenvolvimento de pesquisas sobre mudanças climáticas e sua divulgação para o planejamento governamental97.

Certamente, as respostas envolvidas no contexto de mudanças climáticas devem ser intersetoriais, garantindo ao SUS absorção, adaptação e sua transformação de forma equitativa, eficiente e oportuna, desenvolvendo assim seus atributos de resiliência98, colocados como estratégicos no 13º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A realização da 30ª Conferência das Partes (COP30) no Brasil, em 2025, configura-se como uma janela de oportunidade para a construção de uma agenda geopolítica climática que deve considerar como estruturante para as escolhas políticas a melhoria das condições de vida e do ambiente80, conforme as necessidades apontadas por este estudo e em diálogo com outras pesquisas79,86,92.

Os efeitos das enchentes e ondas de calor não podem ser discutidos sem considerar as reformas neoliberais do Estado e a precarização dos sistemas de saúde que culminam na redução do financiamento da saúde, dependência do mercado e aumento das desigualdades sociais99. A retórica do ajuste fiscal, produzida por um modelo ultraliberal e conservador, não pode ser usada como artifício para a perda de direitos sociais, piora das condições de vida, desregulamentação ambiental e injustiças climáticas80.

Esperamos que este artigo instigue e dê subsídios aos formuladores de política, gestores, controle social, pesquisadores e profissionais da saúde no desenvolvimento de estratégias que fortaleçam, segundo Freitas e colaboradores83,

[...] a capacidade de propor e agir do setor saúde, em parceria com outros setores, tanto na prevenção dos desastres como nas ações de preparação, resposta, reabilitação, recuperação e reconstrução pós-desastres83(3628).

Considerações finais

Esta revisão apresenta uma síntese das principais evidências dos impactos negativos das ondas de calor e enchentes no Brasil, demonstrando sua influência nos aspectos sociais, ambientais e em saúde. Os dados apontam para a urgência de construir uma resiliência climática do sistema nacional de saúde e de proteção social, a fim de melhor responder aos desafios que emergem de um evento extremo e são agravados em um contexto de profundas desigualdades sociais.

Embora os estudos abordem um conjunto de sugestões para novas pesquisas acerca do tema, chamamos atenção para a ausência de menção àqueles relacionados aos aspectos da saúde materno e infantil, arboviroses, violência, além daqueles com enfoque em populações específicas, como de rua, indígenas e quilombolas, que apresentarão marcadores e experiências distintas de adoecimento e morte no esteio das mudanças climáticas.

Como limitação de nosso estudo, mencionamos que esta revisão adota uma estratégia de busca ampla, embora justificável pela necessidade de maior escopo de seleção dos artigos. Além disso, a inclusão de estudos exclusivamente empíricos também pode ter sido um fator limitador. No entanto, considera-se que este primeiro levantamento constitui um disparador para outras pesquisas sobre o tema.

  • Suporte financeiro:
    a pesquisa recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por meio de bolsa de doutorado (código de financiamento 001) concedida ao primeiro autor do artigo. Também do Programa Inova Fiocruz Territórios Sustentáveis e Saudáveis na Atenção à Saúde - Chamada Nº 6/2024

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2025
  • Aceito
    17 Dez 2025
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