Open-access Covid-19 e condições crônicas: lições para fortalecer o cuidado na atenção primária

RESUMO

OBJETIVO:  Analisar o processo de trabalho de profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) quanto às práticas em usuários com hipertensão e diabetes durante a pandemia de Covid-19 em uma capital do Nordeste brasileiro.

MÉTODOS:  Foram realizadas 35 entrevistas semiestruturadas com profissionais que atenderam e acompanharam essa subpopulação na atenção primária à saúde, assim como foram analisados documentos municipais e reportagens da Secretaria Municipal de Saúde acerca da Covid-19 e da APS. Os critérios para participar do estudo estiveram relacionados a trabalhadores das equipes de APS que atuaram na pandemia de Covid-19 na mesma unidade de Saúde da Família. Os dados foram analisados segundo referencial do processo de trabalho em saúde de Mendes-Gonçalves.

RESULTADOS:  A pandemia impôs mudanças significativas nas práticas de cuidado da APS. Observou-se priorização da demanda espontânea, fragilidades no monitoramento contínuo dos usuários, ênfase na renovação de receitas e atuação em territórios extensos, com áreas descobertas, pela Estratégia Saúde da Família.

CONCLUSÃO:  As práticas de saúde aplicadas aos usuários com condições crônicas, como hipertensão e diabetes, seguem fragmentadas e precisam ser retomadas, porém pautadas na equidade, com planejamento, monitoramento e conhecimento do seu território para que se possa ofertar o acesso integral e resolutivo à população que continua "isolada", mesmo com o fim da pandemia.

DESCRITORES:
Modelo de Cuidado de Condições Crônicas; Covid-19; Preparação para Pandemia; Atenção Primária à Saúde

ABSTRACT

OBJECTIVE:  To analyze the work process of Primary Health Care (PHC) professionals regarding care practices aimed at users with hypertension and diabetes during the Covid-19 pandemic in a capital in Northeastern Brazil.

METHODS:  Thirty-five semi-structured interviews were conducted with professionals who provided care and followed up this subpopulation in PHC. In addition, municipal documents and news reports from the Municipal Department of Health about Covid-19 and PHC were analyzed. The study criteria were Primary Health Care workers who acted in the Covid-19 pandemic in the same Family Health unit. Data were analyzed according to the health work process reference of Mendes-Gonçalves.

RESULTS:  The pandemic has imposed significant changes in PHC practices. We observed priority of spontaneous demand, weaknesses in continuous monitoring of users, emphasis on prescriptions renewal, and work in vast territories, with unattended areas, by the Family Health Strategy.

CONCLUSIONS:  Health practices aimed at users with chronic conditions, such as hypertension and diabetes, remain fragmented and should be resumed, but based on equity, with planning, monitoring, and knowledge of their territory in such a way to provide comprehensive and problem-solving access to the population that remains "isolated," even with the end of the pandemic.

DESCRIPTORS:
Chronic Care Model; Covid-19; Pandemic Preparedness; Primary Health Care

INTRODUÇÃO

No Brasil, o Sistema Único de Saúde teve papel importante no manejo e no controle da Covid-191 contudo, o período foi marcado por manifestações de negacionismo quanto à gravidade da crise sanitária, além de divergências técnicas na condução do governo federal, o que gerou polarizações políticas e sociais em meio à maior emergência de saúde pública do século XXI2,3.

A Estratégia Saúde da Família (ESF) é reconhecida como uma estratégia eficiente na redução das iniquidades em saúde4,5. Em relação às condições crônicas, entre as quais se destacam a hipertensão arterial e a diabetes, a ESF promove a diversificação do acesso, a oferta de ações e tecnologias de cuidado, o trabalho em equipe e o fortalecimento de vínculos6.

Durante a pandemia, o trabalho das equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) evidenciou a necessidade de garantir atendimento contínuo aos problemas crônicos de saúde e preparar os serviços para futuras epidemias7. Publicações apontam o papel da APS no acompanhamento de usuários, na escuta qualificada, no vínculo e na coordenação do cuidado810. As práticas de saúde ofertadas pelos profissionais da APS foram adaptadas para minimizar as barreiras de acesso, especialmente entre os grupos mais vulneráveis e com condições crônicas, como hipertensão e diabetes1113.

A pandemia trouxe dificuldades significativas para os usuários com essas condições, como diminuição do acesso a consultas presenciais, ausência de acompanhamento longitudinal dos níveis pressóricos e glicêmicos e falhas na disponibilização de medicamentos e insumos essenciais para controle das doenças14,15.

No Brasil e no mundo, a resposta sanitária à Covid-19 foi centrada nos serviços hospitalares, mas no âmbito da APS, muito poderia ter sido feito. Diante disso, este estudo buscou responder a: quem foram os profissionais da APS que ofertaram as práticas de saúde aos usuários com hipertensão e diabetes durante a pandemia? Quais práticas foram desenvolvidas e como foram ofertadas? Quais limitações e desafios foram enfrentados no território para a continuidade desse cuidado? Assim, o objetivo deste estudo foi analisar o processo de trabalho dos profissionais da APS no que tange às práticas de saúde voltadas às condições crônicas de hipertensão e diabetes durante a pandemia de Covid-19.

MÉTODOS

Trata de um subestudo do projeto "Expansão das estratégias de testagem, isolamento, quarentena e telemonitoramento na atenção primária à saúde, em comunidades de alta vulnerabilidade social, no enfrentamento da pandemia de Covid-19 em duas capitais brasileiras" (TQT-Covid)16.

Esta pesquisa analisou o processo de trabalho dos profissionais da APS em uma capital da Região Nordeste do Brasil, no que se refere às práticas de saúde aos usuários com hipertensão e diabetes, durante a pandemia de Covid-19. Para esta pesquisa, foi selecionada uma capital do Nordeste, estruturada em regiões de saúde. Foi selecionada a maior região de saúde, por apresentar uma rede de serviços com abrangência populacional de 400 mil habitantes, sendo assim comparáveis às de outros grandes centros urbanos e municípios do país. O estudo teve como foco a análise do processo de trabalho dos profissionais atuantes na APS, no período de março de 2020, marco inicial da pandemia de Covid-19, a junho de 2022.

Foram realizadas 35 entrevistas semiestruturadas com profissionais que atenderam e acompanharam essa subpopulação na APS, além de analisar documentos municipais e produções de mídia, disponíveis em livre acesso em meios oficiais, acerca da Covid-19 e da APS. A busca pelos documentos foi feita com os descritores Covid-19 e "atenção primária" na internet, no site oficial da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), no site da prefeitura e na rede social do município na página do Instagram. Os documentos institucionais do município analisados foram o plano de contingência para infecção humana do novo coronavírus (SARS-CoV-2), decretos, notas técnicas e notícias do site da prefeitura municipal com referência ao processo de trabalho da APS e aos profissionais e/ou usuários com hipertensão e diabetes, perfazendo 28 documentos (Quadro 1).

Quadro 1
Documentos institucionais relacionados à atenção primária à saúde desenvolvida em um município do Nordeste, 2023.

Para as entrevistas, com roteiro semiestruturado, utilizou-se um gravador para registrar o áudio, que posteriormente foi transcrito. Todas as entrevistas foram obtidas de forma presencial, com um profissional de nível médio, um técnico de enfermagem e um profissional de nível superior, ou seja, três profissionais de cada uma das doze unidades de saúde da família (USFs) da região administrativa, no momento da produção dos dados.

O critério de seleção utilizado foi: profissionais das equipes que atuaram na APS nas 12 USFs, no período da pandemia da Covid-19 (março de 2020 a junho de 2022). Em uma unidade, não houve a participação do profissional técnico de enfermagem.

O presente estudo teve como referencial teórico os elementos que compõem o processo de trabalho de Mendes-Gonçalves17. A teoria do processo de trabalho considera como momentos essenciais a atividade adequada a um fim, ou seja, o próprio trabalho, o objeto de trabalho e os instrumentos ou meios do trabalho17. O objeto analisado foram as práticas de saúde ofertadas pelos profissionais da APS para o cuidado integral e longitudinal dos usuários com hipertensão e diabetes e o modo de se organizar para prestar a assistência necessária a essa população.

O resultado do processo de trabalho envolve as necessidades (carecimento) de saúde dos usuários com hipertensão e diabetes e as práticas (objeto) ofertadas pelos profissionais (agentes) da APS para que os usuários alcancem respostas (produto) para suas demandas de saúde, sejam elas biológicas, físicas, mentais, espirituais ou ambientais. As práticas de saúde consideram as dimensões objetivas do trabalho e, nos serviços de saúde, possibilitam uma reflexão sobre os modelos de atenção por meio da análise das relações sociais, que transversalizam tais práticas, e das representações sociais dos agentes sobre a situação de saúde e sua inserção nas instituições18,19.

O profissional da saúde, além de um "técnico de necessidades sociais de saúde", é também um "gerente de processos coletivos de trabalho em saúde"18,19. Os agentes considerados para este estudo foram enfermeiros(as), dentistas, técnicos(as) de enfermagem e agentes comunitários de saúde (ACS). Foram analisados nas USFs os instrumentos utilizados pelos agentes, considerando a disponibilidade e a adequação de equipamentos, a estrutura física e os saberes imateriais, como formações, vivências e experiências dos profissionais. Os instrumentos de trabalho apresentam a capacidade de sintetizar as qualidades do objeto e o projeto para chegar ao efeito desejado17.

As entrevistas foram anonimizadas, transcritas e revisadas com auxílio do software NVIVO 11. O material empírico produzido foi organizado e analisado no mesmo software. Todo o material coletado foi organizado, codificado e analisado conforme as categorias do referencial do processo de trabalho em saúde17: agentes, objeto e instrumentos. Foi adotada a triangulação de dados como estratégia metodológica, articulando múltiplas fontes e técnicas de coleta20. A sistematização e a análise dos dados seguiram o plano de análise (Quadro 2).

Quadro 2
Matriz de análise de categoria e elementos conceituais que compõem o processo de trabalho dos profissionais das equipes de saúde da família em um município da região Nordeste, 2023.

O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Organização Mundial da Saúde, conforme pareceres ERC WHO CERC.0128A e CERC.0128B; CAAE 53844121.4.1001.5030.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Mudança no Processo de Trabalho Considerando o Novo Cenário Epidemiológico

Em março de 2020, início da pandemia da Covid-19, a SMS lançou um plano de contingência que atribuiu à APS a responsabilidade pela reorganização dos seus fluxos de atendimento nas USFs e nos territórios. As ações incluíram resposta às demandas da Covid-19 e da rotina da APS, monitoramento e orientação da população, testagem ou encaminhamento para coleta, além da promoção de medidas preventivas.

O território analisado possuía mais de 400 mil habitantes assistidos por 12 USFs e 46 equipes. De acordo com a Política Nacional de Atenção Básica, cada equipe da APS em áreas urbanas deve acompanhar até 4 mil pessoas e cada ACS, até 75021. O déficit de equipes, associado à alta transmissibilidade da doença, contribuiu para sobrecarga dos profissionais e priorização das demandas relacionadas à Covid-19 (Quadro 3).

Quadro 3
Práticas de saúde desenvolvidas pelos profissionais da atenção primária à saúde, de março de 2020 a junho de 2022, em um município do Nordeste, 2023.

Os usuários, nas USFs, eram inicialmente acolhidos pela equipe de demanda espontânea e, conforme a escuta inicial, direcionados a dois fluxos: sintomáticos respiratórios (fluxo 1) ou demais demandas, incluindo hipertensão e diabetes (fluxo 2). Os sintomáticos respiratórios tinham prioridade para atendimento médico, assim como pessoas que tiveram contato com casos suspeitos ou confirmados foram garantidos, conforme os documentos municipais (D1 e D6). A divisão dos fluxos visava reduzir o risco de contágio de usuários e profissionais22.

Medidas como aumento da validade de receitas de uso contínuo, dispensação prolongada de medicamentos (D3) e trabalho remoto para servidores com comorbidades foram adotadas para promover o distanciamento social. Diante de um cenário para o qual a APS não estava preparada, a gestão buscou normatizar novas práticas por meio de documentos oficiais. Uma APS estruturada nas necessidades da população e alinhada aos seus atributos mostrava-se essencial para uma resposta efetiva à Covid-19. O novo contexto, com a chegada da pandemia, trouxe para os profissionais da APS mudança brusca na sua rotina, pois foi necessário rápida adaptação para continuar prestando o cuidado aos usuários do seu território.

Quem Foram os Agentes do Processo de Trabalho?

Os profissionais das unidades de saúde atuaram como agentes do processo de trabalho na produção de práticas de saúde voltadas para usuários com hipertensão e diabetes (Quadro 4).

Quadro 4
Perfil dos agentes que atuaram no Programa de Saúde da Família, em um município da Bahia, 2023.

Foram analisadas entrevistas com 35 profissionais da APS (ACS, dentistas, enfermeiros e técnicos de enfermagem). A maioria declarou-se parda, preta ou negra (82,8%) e 17,1% branca. O sexo feminino foi predominante (91,4%). Quanto ao vínculo institucional, 60% dos profissionais possuíam vínculo estatutário, 8,5% eram contratados de forma temporária e 31,5% não o informaram. Em relação ao tempo de atuação na mesma unidade, 65,7% dos profissionais declararam estar na mesma unidade havia mais de dez anos, 5,7% até cinco anos e 28,6% não o informaram.

A faixa etária predominante foi de 40 a 49 anos (40%), seguida por 50 a 59 anos (31,4%) e 30 a 39 anos (25,7%). Apenas um profissional tinha mais de 60 anos. De acordo com o decreto municipal (D2), servidores com mais de 65 anos, com condições crônicas, gestantes ou em uso de imunossupressores foram direcionados para o trabalho remoto, especialmente por meio do telemonitoramento. Entre os 35 profissionais, apenas um foi realocado para essa função e outro para testagens externas à unidade.

O Dever e a Covid-19: Práticas para os Usuários com Hipertensão e Diabetes na APS

Com a reorganização do processo de trabalho (D12), os profissionais, atuando na perspectiva da vigilância em saúde, deveriam monitorar remotamente os usuários com hipertensão e diabetes assistidos pelas equipes, registrando-o em prontuário. Com base nesse monitoramento, os profissionais deveriam desenvolver as ações de acompanhamento das condições de saúde, organização das renovações de receitas e orientações aos usuários estáveis, por meio de teleconsultas, consultas presenciais ou visitas domiciliares (Quadro 3).

Com o crescimento da incidência da Covid-19, o aumento por atendimentos nas USFs, o adoecimento dos profissionais e a insegurança para algumas atividades, priorizou-se o fluxo das necessidades impostas pela doença. Assim, ficou evidenciada nas entrevistas a suspensão ou a redução do número de atendimentos clínicos e do acompanhamento longitudinal dos usuários com hipertensão e diabetes (Quadro 3).

O diferencial dos profissionais da APS está no vínculo construído com os usuários e na sua inserção qualificada no território adscrito. Nesse contexto, o ACS exerce papel estratégico, especialmente no cuidado de pessoas com hipertensão e diabetes. Sua atuação permite aproximação contínua dos usuários, viabilizando práticas de cuidado que vão além do uso de medicamentos, como ações de educação em saúde voltadas ao fortalecimento da autonomia e do autocuidado, fundamentais diante das restrições impostas pela pandemia.

No entanto, esse potencial da APS foi comprometido por mudanças estruturais, seja no redirecionamento dos ACS para o trabalho interno das unidades, seja na priorização dos carecimentos relacionados à pandemia. Observou-se neste território que o crescimento no número de USFs e de equipes não foi proporcional ao número de ACS. Pelo contrário, houve redução no quantitativo desses profissionais nas equipes e redirecionamento de suas funções para outras unidades. Esse descompasso fragilizou o principal diferencial da APS, limitando a capilaridade das ações de cuidado contínuo, que são essenciais para controlar as condições crônicas de hipertensão e diabetes.

Para além desse acompanhamento contínuo e longitudinal, existiram práticas de saúde que, naquele momento da pandemia, não foram enfatizadas pelos profissionais, como ações integrativas e complementares, autocuidado apoiado e monitoramento por meio virtual ou mesmo das visitas do ACS (Quadro 3).

A falta de acompanhamento das condições clínicas dos usuários com as condições crônicas de hipertensão e diabetes pode ter agravado a saúde do usuário no decorrer do tempo. Recompor as equipes de APS é um desafio atual basilar para o acompanhamento longitudinal dos usuários com hipertensão e diabetes, assim como a estratégia da estratificação de risco desses usuários e o planejamento das ações facilitam a continuidade dos cuidados em tempos de trans e pós-pandemia7.

Foi evidenciado nas entrevistas que as práticas do cuidado aos usuários com hipertensão e diabetes se baseou na demanda espontânea às unidades (Quadro 3). A oferta organizada, pautada na estratificação de risco e no monitoramento dos usuários, não foi apontada nas falas dos profissionais, também não houve relatos de práticas de promoção da saúde e prevenção de agravos referentes à hipertensão e à diabetes (Quadro 3).

Ademais, não foi encontrado padrão de oferta das práticas de saúde aos usuários com hipertensão e diabetes relativas ao tempo de vínculo e atuação na mesma função pelos agentes sociais participantes do estudo (Quadro 5).

Quadro 5
Relação de agentes, instrumentos e produtos do processo de trabalho dos profissionais das equipes de saúde da família de um município da Bahia, 2023.

O processo de trabalho dos profissionais da APS no cuidado oferecido aos usuários com hipertensão e diabetes compreende um conjunto de práticas que extrapola as consultas clínicas por médicos e enfermeiros. Trata-se de um acompanhamento ampliado, que inclui ações voltadas para promover a adesão terapêutica, estimular a prática regular de atividade física, incentivar a alimentação saudável e o manejo do estresse, além de enfrentar dificuldades psicológicas, intensificadas pelas restrições da pandemia. Essas práticas contribuem para fortalecer o autocuidado e o autoconhecimento, favorecendo a construção de melhor qualidade de vida e autonomia dos usuários na condução de sua condição crônica.

Os Limites e os Desafios do Novo Cenário na APS: Discrepâncias entre o Almejado e o Realizado

Ocorreu, no Brasil, aumento da incidência de usuários com hipertensão e diabetes durante a pandemia, agravando o cenário das condições crônicas, constituindo-se na chamada quarta onda da pandemia, que poderá trazer agudizações durante muitos anos a seguir23. Assim, o objeto do processo de trabalho dos profissionais da APS foi mais direcionado para atender às demandas da Covid-19, deixando para um segundo plano as necessidades de saúde que coexistiam no território.

No tocante ao planejamento para ações nas unidades de saúde, verificou-se um momento não programático na sua maioria, tendo as ações voltadas para a construção de escala, na qual a equipe era dividida entre as "ações Covid" e "não Covid", e também de forma não sistemática, pois ocorriam de acordo com a rotina da unidade e as demandas que emergiam, com pouca ou nenhuma participação dos profissionais da equipe para discutir as melhores estratégias ou condições de trabalho.

Em uma crise sanitária, ações precisam ser voltadas para identificar pacientes de alto risco, assim como construir um plano que organize e direcione as práticas de saúde para os usuários com condições crônicas7. O planejamento, na gestão em saúde, é uma forma para desenhar, organizar e acompanhar proposições, a fim de operacionalizar as decisões institucionais24. Desse modo, é possível verificar um planejamento estruturado e sistemático nas ações no nível da SMS, porém este não foi evidenciado nas narrativas dos profissionais em relação ao planejamento e à prática nas USFs (Quadro 3).

O "fica em casa" da pandemia levou ao afastamento dos usuários das USFs e à descontinuidade do cuidado longitudinal presencial para aqueles com condições crônicas, porém novas tecnologias foram inseridas no cenário pandêmico, possibilitando novas formas de acesso11,16. Para atender à rápida mudança no processo de trabalho na APS, foram necessários instrumentos que subsidiassem as práticas, preparação dos profissionais e, acima de tudo, financiamento que sustentasse essas alterações9.

Nessa perspectiva, a análise dos instrumentos que seriam utilizados pelos profissionais como meios de transformação para o produto final mostrou discordância sobre as capacitações dos agentes, já que alguns relataram treinamento sobre a Covid e outros referiram que o conhecimento se deu por conta própria, por meio das informações veiculadas nas mídias e repassadas pelas gerências das unidades. Outra lacuna foi a disponibilização de equipamentos de proteção individual, a exemplo de máscaras do tipo N95 (Quadro 3).

Os documentos institucionais referiam-se às novas ferramentas tecnológicas como estratégias para minimizar os riscos aos profissionais e evitar a desassistência aos usuários, principalmente dos grupos estratégicos, que incluíam usuários com condições crônicas de saúde. Entretanto, a tentativa da SMS de ampliar o acesso aos usuários na APS não foi utilizada de forma equânime nas 12 unidades da região administrativa. As práticas de cuidado dos usuários com hipertensão e diabetes na APS demandam mudanças tanto de profissionais e gestores preparados para atuar no cuidado e abertos a romper com o modelo hospitalocêntrico quanto de políticas públicas que subsidiem um novo modelo de atenção, além de usuários empoderados e corresponsáveis por seu processo de saúde6.

Em um cenário em que a APS contava com áreas descobertas, ACS voltados para o trabalho burocrático dentro das unidades, redução de consultas presenciais ou virtuais, prescrições com validade prorrogada sem verificar o controle dos parâmetros e falta ou insuficiência de equipamentos para monitorar essa subpopulação, além do próprio medo dos profissionais de se contaminarem, as limitações no processo de trabalho foram veementemente evidenciadas nas entrevistas dos profissionais da APS (Quadro 3).

As práticas de saúde ofertadas aos usuários com hipertensão e diabetes foram baseadas na demanda espontânea, principalmente para renovação das receitas. As práticas de prevenção de doenças e promoção de saúde não constam das evidências do presente estudo. Os agentes desse processo precisam ter condições para conhecer seus usuários e o território no qual estão inseridos, para isso, faz-se necessário ampliar as equipes de saúde com ACS e o quantitativo de profissionais, além de estruturar o processo de trabalho. Os agentes sociais são movidos por uma tensão de vontade para mudar o produto final do seu processo de trabalho.

O prejuízo no acompanhamento e no acesso à APS no tocante aos usuários com hipertensão e diabetes, na pandemia, também foi identificado em outras localidades, o que impôs aos trabalhadores a readequação do seu processo de trabalho25,26. Evidenciaram-se práticas de saúde pautadas na demanda espontânea, com fragilidades no monitoramento dos usuários assistidos pelas equipes e enfoque na renovação de receitas, semelhantemente a experiências em demais territórios do país4,25,26.

A pandemia da Covid-19 mostrou uma mudança no produto final do processo de trabalho, que foi mais direcionado aos efeitos da pandemia do que relacionado, de forma abrangente, às melhorias na saúde da população contempladas pelo olhar da APS.

CONCLUSÃO

Diante da nova realidade imposta pela pandemia da Covid-19, fica evidenciado que esse período mostrou alteração nas práticas de saúde ofertadas pelos profissionais da APS. Naquele momento, foi preciso, para esse agente, reinventar-se, mesmo com pouca habilidade/recurso para a nova realidade e com alta demanda pelas novas necessidades de saúde impostas pelo cenário4,25.

Houve distanciamento real dos usuários com hipertensão e diabetes das unidades, seja por medo da contaminação ou pelo redirecionamento da atenção dos profissionais às demandas da Covid-19, porém com o avançar da pandemia, a chegada da vacina e, consequentemente, a diminuição da incidência dos casos, os atendimentos retornaram lentamente, mas com características limitadas.

Destaca-se que as práticas de saúde oferecidas aos usuários com condições crônicas, como hipertensão e diabetes, seguem fragmentadas e precisam ser retomadas/qualificadas, porém pautadas na equidade, com planejamento, monitoramento e conhecimento do seu território, para que se possa ofertar o acesso integral e resolutivo a essa população, que continua "isolada", mesmo com o fim da pandemia.

  • Financiamento:
    UNITAID (#2017-15-FIOTECPrEP).

Disponibilidade de Dados:

Os dados da pesquisa não incluídos no artigo não estão disponíveis.

Referências bibliográficas

  • 1 Souza CDF, Santos VTG, Correia DS, Martins Filho PR, Santos VS. The need to strengthen Primary Health Care in Brazil in the context of the Covid-19 pandemic. Braz Oral Res. 2020;34:e047. https://doi.org/10.1590/1807-3107bor-2020.vol34.0047
    » https://doi.org/10.1590/1807-3107bor-2020.vol34.0047
  • 2 Teixeira CF, Santos JS. Análise estratégica da atuação do governo federal brasileiro na pandemia de Covid-19: 2020-2021. Ciênc Saúde Coletiva. 2023;28(5):1277-86. https://doi.org/10.1590/1413-81232023285.10502022
    » https://doi.org/10.1590/1413-81232023285.10502022
  • 3 Henriques CMP, Vasconcelos W. Crises dentro da crise: respostas, incertezas e desencontros no combate à pandemia da Covid-19 no Brasil. Estud Av. 2020;34(99):25-44. https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2020.3499.003
    » https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2020.3499.003
  • 4 Santos VTG, Santos VS, Souza CDF, Tavares CSS, Gurgel RQ, Martins Filho PR. Primary Health Care in Brasil in the times of Covid-19: changes, challenges and perspectives. Rev Assoc Med Bras (1992). 2020;66(7):876-9. https://doi.org/10.1590/1806-9282.66.7.876
    » https://doi.org/10.1590/1806-9282.66.7.876
  • 5 Sarti TD, Lazarini WS, Fontenelle LF, Almeida APSC. Qual o papel da Atenção Primária à Saúde diante da pandemia provocada pela Covid-19?. Epidemiol Serv Saude. 2020;29(2):e2020166. https://doi.org/10.5123/S1679-49742020000200024
    » https://doi.org/10.5123/S1679-49742020000200024
  • 6 Oliveira CN, Soares DA, Amorim WWCC, Louzado JA, Cortes ML, Mistro S, et al. Práticas de cuidado para doenças não transmissíveis na Estratégia Saúde da Família. Av Enferm. 2021;39(2):255-63. https://doi.org/10.15446/av.enferm.v39n2.85762
    » https://doi.org/10.15446/av.enferm.v39n2.85762
  • 7 Danhieux K, Buffel V, Pairon A, Benkheil A, Remmen R, Wouters E, et al. The impact of Covid-19 on chronic care according to providers: a qualitative study among primary care practices in Belgium. BMC Fam Pract. 2020;21(1):255. https://doi.org/10.1186/s12875-020-01326-3
    » https://doi.org/10.1186/s12875-020-01326-3
  • 8 Medina MG, Giovanella L, Bousquat A, Mendonça MHM, Aquino R, Comitê Gestor da Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde da Abrasco. Atenção primária à saúde em tempos de Covid-19: o que fazer? Cad Saúde Pública. 2020;36(8):e00149720. https://doi.org/10.1590/0102-311X00149720
    » https://doi.org/10.1590/0102-311X00149720
  • 9 Rawaf S, Allen LN, Stigler FL, Kringos D, Yamamoto HG, van Weel C. Em nome do Fórum Global sobre Cobertura Universal de Saúde e Cuidados Primários de Saúde. Lições sobre a pandemia de Covid-19, para e por profissionais de cuidados primários em todo o mundo. Eur J Gen Pract. 2020;26(1):129-33. https://doi.org/10.1080/13814788.2020.1820479
    » https://doi.org/10.1080/13814788.2020.1820479
  • 10 Cabral ERM, Melo MC, Cesar ID, Oliveira REM, Bastos TF, Machado LO, et al. Contribuições e desafios da Atenção Primária à Saúde frente à pandemia de Covid-19. InterAm J Med Health. 2020;3:e202003012. https://doi.org/10.31005/iajmh.v3i0.87
    » https://doi.org/10.31005/iajmh.v3i0.87
  • 11 Basu S. Manejo de doenças não transmissíveis em pacientes vulneráveis durante a Covid-19. Indian J Med Ethics. 2020;V(2):103-5. https://doi.org/10.20529/ijme.2020.041
    » https://doi.org/10.20529/ijme.2020.041
  • 12 Albert SL, Paul MM, Nguyen AM, Shelley DR, Berry CA. A qualitative study of high-performing primary care practices during the Covid-19 pandemic. BMC Fam Pract. 2021;22(1):237. https://doi.org/10.1186/s12875-021-01589-4
    » https://doi.org/10.1186/s12875-021-01589-4
  • 13 Dhaliwal JK, Hall TD, LaRue JL, Maynard SE, Pierre PE, Bransby KA. Expansion of telehealth in primary care during the Covid-19 pandemic: benefits and barriers. J Am Assoc Nurse Pract. 2021;34(2):224-9. https://doi.org/10.1097/jxx.0000000000000626
    » https://doi.org/10.1097/jxx.0000000000000626
  • 14 Rosa MM, Almeida RN, Freitas DRJ, Silva GS, Rodrigues HC. Desafios de pessoas hipertensas no acesso à atenção primária durante a pandemia de Covid-19: uma revisão integrada. Res Soc Dev. 2022;11(9):e16911931576. https://doi.org/10.33448/rsd-v11i9.31576
    » https://doi.org/10.33448/rsd-v11i9.31576
  • 15 Barone MTU, Harnik SB, Luca PV, Lima BLS, Wieselberg RJP, Ngongo B, et al. The impact of Covid-19 on people with diabetes in Brazil. Diabetes Res Clin Pract. 2020;166:108304. https://doi.org/10.1016/j.diabres.2020.108304
    » https://doi.org/10.1016/j.diabres.2020.108304
  • 16 Magno L, Rossi TRA, Castanheira D, Torres TS, Santos CCD, Soares F, et al. Expansion of testing, isolation, quarantine, e-health and telemonitoring strategies in socioeconomically vulnerable neighbourhoods at primary healthcare in the fight against Covid-19 in Brazil: a study protocol of a multisite testing intervention using a mixed method approach. BMJ Open. 2023;13(6):e068016. https://doi.org/10.1136/bmjopen-2022-068016
    » https://doi.org/10.1136/bmjopen-2022-068016
  • 17 Mendes-Gonçalves RB. Práticas de saúde e tecnologia: contribuição para a reflexão teórica. In: Ayres JRCM, Santos L, editores. Saúde, sociedade e história. São Paulo: Hucitec; Porto Alegre: Rede Unida; 2017. p. 317-418. 439 p. (Saúde em debate; 270)
  • 18 Paim JS. Desafios para a saúde coletiva no século XXI. Salvador: EDUFBA; 2006. 158 p.
  • 19 Paim JS. As ambigüidades da noção de necessidades de saúde. Planejamento. Salvador. 1998;8(1/2):19-46.
  • 20 Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6ª ed. São Paulo: Atlas; 2010.
  • 21 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Portaria n° 2.436, de 21 de setembro de 2017. Política Nacional da Atenção Básica. Diário Oficial da União [Internet]. 2017 [cited 2022 July 12]. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/g
    » https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/g
  • 22 Keppel G, Cole AM, Ramsbottom M, Nagpal S, Hornecker J, Thomson C, et al. Resposta precoce das práticas de atenção primária à pandemia de Covid-19. J Prim Care Community Health. 2022;13. https://doi.org/10.1177/21501319221085374
    » https://doi.org/10.1177/21501319221085374
  • 23 Malta DC, Gomes CS, Prates EJS, Bernal RTI. Mudanças nas doenças crônicas e os fatores de risco e proteção antes e após a terceira onda da Covid-19 no Brasil. Ciênc Saúde Coletiva. 2023;28(12):3659-71. https://doi.org/10.1590/1413-812320232812.08252022
    » https://doi.org/10.1590/1413-812320232812.08252022
  • 24 Vilasbôas ALQ, Paim JS. Práticas de planejamento e implementação de políticas no âmbito municipal. Cad Saúde Pública. 2008;24(6):1239-50. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2008000600005
    » https://doi.org/10.1590/S0102-311X2008000600005
  • 25 Cavalcante TMFB. O acompanhamento das pessoas com hipertensão e/ou diabetes pelas equipes da Estratégia Saúde da Família no contexto da pandemia de Covid-19: limites e possibilidades [dissertação online]. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte; 2023 [cited 2025 Dec. 15]. Available from: https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/52372
    » https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/52372
  • 26 Chisini LA, Castilhos ED, Costa FS, D'Avila OP. Impact of the Covid-19 pandemic on prenatal, diabetes and medical appointments in the Brazilian National Health System. Rev Bras Epidemiol. 2021;24:e210013. https://doi.org/10.1590/1980-549720210013
    » https://doi.org/10.1590/1980-549720210013

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    24 Fev 2025
  • Aceito
    31 Maio 2025
location_on
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo Avenida Dr. Arnaldo, 715, 01246-904 São Paulo SP Brazil, Tel./Fax: +55 11 3061-7985 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@usp.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error