RESUMO
OBJETIVO: Analisar como a pandemia de Covid-19 influenciou as condições de trabalho e saúde de profissionais da atenção primária à saúde de um distrito sanitário de uma capital do Nordeste.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, utilizando o referencial teórico do processo de trabalho em saúde, parte da pesquisa formativa do projeto "Expansão das estratégias de testagem, quarentena, e-health e telemonitoramento no enfrentamento da Covid-19 no Brasil" (Projeto TQT). Os dados foram coletados entre dezembro/2021 e março/2022 em um distrito sanitário de uma capital do Nordeste do Brasil para subsidiar a implementação do referido projeto. Foram analisadas em seu conteúdo 22 entrevistas e três grupos focais com 19 participantes, todos profissionais de saúde do distrito sanitário em estudo.
RESULTADOS: O contexto da pandemia causou repercussões nas condições de trabalho e saúde, sendo observados, na dimensão condições de trabalho, os efeitos da precarização e da instituição de medidas protetivas como elementos de destaque. O sofrimento mental, o impacto das questões de gênero e as condições pós-Covid-19 foram identificados como principais elementos do adoecimento dos profissionais.
CONCLUSÃO: O conjunto de evidências reunidas neste estudo aponta que diversos estressores surgem ou se agravam de forma intensa e indissociável entre os profissionais de saúde, ficando clara a relação da pandemia com o processo saúde-doença dos trabalhadores. Torna-se, portanto, imperioso reverter o quadro de adoecimento dos trabalhadores no pós-pandemia, de modo a mitigar seus efeitos em médio e longo prazos.
DESCRITORES:
COVID-19; Saúde Ocupacional; Pessoal de Saúde; Atenção Primária à Saúde
ABSTRACT
OBJECTIVE: To analyze how the Covid-19 pandemic influenced the working conditions and health of primary health care professionals in a health district of a capital city in Northeast Brazil.
METHODS: This was a qualitative study using the theoretical framework of the health work process, part of the formative research of the project "Expansion of testing, quarantine, e-health and telemonitoring strategies in the fight against Covid-19 in Brazil" (TQT Project). Data were collected between December 2021 and March 2022 in a health district of a capital city in Northeast Brazil to support the implementation of the aforementioned project. Twenty-two interviews and three focus groups with 19 participants, all health care professionals from the health district under study, were analyzed for their content.
RESULTS: The pandemic context caused repercussions on working conditions and health, with the effects of precarious working conditions and the implementation of protective measures being highlighted as key elements in the dimension of working conditions. Mental suffering, the impact of gender issues, and post-Covid-19 conditions were identified as the main elements contributing to the illness of the professionals.
CONCLUSION: The evidence set gathered in this study indicates that various stressors emerge or worsen intensely and inseparably among health care professionals, clearly demonstrating the relationship between the pandemic and the health-disease process of these workers. Therefore, it is imperative to reverse the situation of illness among workers in the post-pandemic period to mitigate its effects in the medium and long term.
DESCRIPTORS:
COVID-19; Occupational Health; Health Personnel; Primary Health Care
INTRODUÇÃO
A pandemia de Covid-19 promoveu uma reorganização sanitária, política e social sem precedentes. A crise sanitária ampliou as dificuldades já existentes nos serviços de saúde, sobretudo em países com sistemas públicos enfraquecidos por décadas de subfinanciamento, além de expor os responsáveis pelo enfrentamento direto do seu cotidiano: os trabalhadores de saúde.
Contextos anteriores de crise sanitária ajudam a dimensionar o impacto, em curto e longo prazos, das repercussões dessa pandemia na saúde dos trabalhadores1. A precarização do trabalho assumiu eminência no conjunto dessas consequências, acentuando-se ou agravando-se durante o contexto pandêmico, em todas as suas dimensões1,2.
É importante contextualizar a sequência cronológica da emergência sanitária no Brasil. A evolução da pandemia apresentou três picos de óbitos (fevereiro a julho/2020, novembro/2020 a abril/2021 e dezembro/2021 a maio/2022), sendo a segunda onda a mais letal de todas. A introdução da vacina, no início de 2021, influenciou a redução da taxa de mortalidade e consequentemente de atendimento em serviços hospitalares, aumentando a demanda para os níveis de atenção primária e secundária3.
A força de trabalho em saúde no Brasil, além dos aspectos laborais que envolvem a exposição dos profissionais, enfrenta deterioração das condições de trabalho: precariedade do emprego, irregularidade e extensão da carga horária e contratos temporários, entre outros fatores4. As conjunturas política, econômica e trabalhista brasileira potencializaram a vulnerabilidade dos profissionais, uma vez que a reforma trabalhista de 2017 institucionalizou vínculos com redução ou sem proteção social e direitos dos trabalhadores5.
Discute-se ainda, no contexto pandêmico, que o estresse decorrente da sobrecarga de trabalho e da ausência de protocolos tornou as equipes mais susceptíveis ao sofrimento psíquico e ao aumento da ansiedade. Essa dinâmica pode ter incrementado os riscos de adoecimento mental, bem como agravado problemas já existentes. Estressores adicionais, como medo de infectar-se e limitação da rede de apoio, podem ter implicado maior exposição física e emocional ao novo vírus6.
Este trabalho teve por objetivo analisar como a pandemia de Covid-19 influenciou as condições de trabalho e saúde dos profissionais de saúde da atenção primária à saúde (APS) de um distrito sanitário (DS) de uma capital do Nordeste.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa das condições de trabalho e saúde dos profissionais da APS de um DS de uma capital do Nordeste do Brasil. Este artigo apresenta resultados da pesquisa formativa, que buscou subsidiar a definição das melhores estratégias para implementar a intervenção "Expansão das estratégias de testagem, quarentena, e-health e telemonitoramento no enfrentamento da Covid-19 no Brasil" (Projeto TQT).
A etapa da pesquisa formativa que deu origem a este estudo consistiu, entre dezembro de 2021 e março de 2022, de entrevistas semiestruturadas com profissionais das 22 unidades básicas de saúde (UBS) do DS e três grupos focais (GFs) com trabalhadores daquelas unidades que fizeram testagem de Covid-19 em algum momento. Os participantes foram indicados pelos gerentes das unidades, tendo como critérios de elegibilidade possuir pelo menos um ano de trabalho na unidade e participado de atividades vinculadas ao enfrentamento da Covid-19. Entrevistas e GFs foram realizados presencialmente, sendo mantidas todas as medidas sanitárias de segurança (uso de equipamento de proteção individual, higiene e distanciamento social), considerando o contexto de crise sanitária.
O roteiro das entrevistas semiestruturadas incluiu identificação pessoal e funcional, aspectos do processo de trabalho, concepções e práticas no enfrentamento da pandemia e medidas adotadas pela Secretaria Municipal de Saúde para proteger os profissionais que atuavam na linha de frente no combate da Covid-19.
Para os GFs, o roteiro buscou aprofundar as estratégias usadas nas unidades onde se realizou a testagem, na tentativa de identificar, entre outros elementos, alterações do processo de trabalho. Destaca-se que, no município, a testagem não ocorreu em todas as UBS. Para cada GF, foram convidados pelo menos dois profissionais de saúde e o gerente de duas unidades em que realizaram testagens. Esses encontros ocorreram nos serviços de saúde ou em uma universidade pública localizada no próprio DS.
As entrevistas e os GFs foram gravados, transcritos, revisados e codificados de modo a evitar a identificação dos participantes. As UBS foram numeradas de 1 a 22, enquanto os GFs foram identificados de 1 a 3. Posteriormente, o corpus da pesquisa foi submetido à análise de conteúdo7.
Considerando que o enfrentamento da Covid-19 implicou novos arranjos no interior das unidades de saúde, amplificando a precarização do trabalho em saúde (condições inadequadas de trabalho, salário e segurança), com falta de equipamentos de proteção, insumos, leitos, infraestrutura e pessoal, bem como extensas jornadas de trabalho8, e suas relações com o processo saúde-doença, em especial no adoecimento mental9, foram definidas as seguintes categorias analíticas: condições de trabalho, abordando a precarização e as medidas institucionais para proteção dos trabalhadores; e condições de saúde, incluindo saúde mental, implicações de gênero no processo saúde-doença e Covid-longa, conforme detalhado no Quadro 1.
Categorias de análise das condições de trabalho e saúde dos profissionais de saúde de um distrito sanitário de uma capital do Nordeste do Brasil, 2020–2022.
Nesse sentido, a análise de conteúdo buscou evidenciar as relações entre condições precárias de trabalho e o adoecimento dos trabalhadores, conforme proposto por Franco et al.9, bem como o agravamento dessas condições diante da crise sanitária e das mudanças nas relações de trabalho alavancadas pela reforma trabalhista de 2017, como analisado por Druck8. Por outro lado, buscou-se explicitar as medidas institucionais de proteção do trabalhador adotadas durante a pandemia de Covid-19.
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, sob o número 53844121.4.1001.5030. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
RESULTADOS
O estudo evidenciou condições inadequadas de trabalho e segurança, falta de equipamentos de proteção individual, insumos, infraestrutura e de pessoal, bem como extensas jornadas de trabalho, além de ter sido identificada a contratação de profissionais em regime precarizado, que implicaram em adoecimento da força de trabalho da APS. Os profissionais apontaram a insuficiência das medidas de proteção do trabalhador, seja pela conduta diferenciada de estatutários e celetistas em relação aos profissionais contratados durante a pandemia (pejotizados/ pessoas jurídicas), seja pela suspensão de serviços estabelecidos após o período mais crítico da pandemia.
Caracterização dos Participantes
Participaram deste estudo 39 profissionais de saúde de 22 unidades de APS do DS da intervenção: 20 participaram apenas de entrevistas; 17 participaram de GFs e dois participaram tanto de entrevistas como de GFs. A maioria dos participantes eram mulheres negras (pretas e/ou pardas). Quanto ao cargo, a maior participação foi de enfermeiras, dentistas e médicos para as entrevistas, e enfermeiras, gerentes e dentistas para os GFs. A idade dos participantes variou de 28 a 62 anos (Tabela).
Condições de Trabalho
Os efeitos nocivos à saúde dos trabalhadores decorrentes do trabalho precário apareceram destacados nas falas dos profissionais. A insuficiência de recursos humanos expõe os trabalhadores a longas e extenuantes jornadas de trabalho, situação agravada no cenário pandêmico, quando houve suspensão do gozo de férias e/ou concessão de períodos inadequados de descanso.
Não existe uma substituição de férias […] Não existe substituição de aposentadoria. Certo? Não existe substituição de licença-prêmio. […] a gente ficou dois anos sem poder fazer isso. Então, o déficit de RH é muito grande […] Acaba sobrecarregando as outras pessoas (UBS 21, sexo feminino, enfermeira).
Formas de contratação precarizadas da força de trabalho, como a pejotização, implicando a ausência de garantias trabalhistas a profissionais em relação inclusive ao direito à saúde, os quais estavam ali para promovê-la, de modo que a ausência no trabalho para submissão a exames diagnósticos ou cuidado com a saúde era penalizada financeiramente.
Aqui eu sou PJ [pessoa jurídica] […]. Eu tenho todas as obrigações de servidor público, mas não tenho as vantagens do servidor público. […] se eu ficar doente por Covid, eu consigo ser afastada e eles pagam por aquilo. Mas se eu ficar doente por qualquer outra coisa, […] eu perco os dias em que eu faltar. Quem cuida não é cuidado. […] agora dá suporte pra quem é funcionário público (UBS 17, sexo feminino, médica).
Destaca-se nos relatos dos trabalhadores a criação de um locus institucional específico de proteção da saúde dos trabalhadores durante o enfrentamento da Covid-19, contudo, de forma tardia e insuficiente.
Toda essa questão de colocar o profissional na linha de frente, assim, foi uma grande exposição […] acho que quase um ano depois […] Com o NAAT, isso facilitou bastante, porque você chega na hora marcada, vai e é avaliado (UBS 16, sexo feminino, enfermeira).
Vários funcionários estavam adoecendo emocionalmente, com um nível de desgaste muito alto [….]. Eles fizeram um grupo de trabalho na Secretaria para dar suporte emocional e trabalhar as equipes que se sentissem fragilizadas emocionalmente nessa rotina do Covid (UBS 19, sexo feminino, assistente social).
Sobre esse serviço (Núcleo de Apoio e Atendimento ao Trabalhador — NAAT) específico para os trabalhadores da saúde, instituído durante a pandemia para sua proteção, há convergência dos discursos no que se refere a sua importância na produção do cuidado. Os entrevistados destacaram ainda a importância da continuidade da oferta desse serviço após o período pandêmico, visando à permanência do cuidado da saúde dos profissionais de saúde.
Ainda bem que ele existiu, mas ainda precisava dele existir de forma mais forte […]. É uma coisa essencial, não dá pra acabar, vai ter que ser eterno isso aí (UBS 03, sexo feminino, médica).
Foi bastante importante na questão do acolhimento […], dessas orientações. Era o único local em que a gente tinha esse contato com a Gestão, porque o NAAT representava a Gestão pra gente, né? […] eu acho que foi muito importante existir. Tinha as estratégias de testagem dos profissionais, que eu acho que foi uma retaguarda importante que o Município criou (UBS 04, sexo feminino, enfermeira).
Condições de Saúde
Durante a pandemia, os profissionais de saúde estiveram expostos frequentemente a trabalho exaustivo e associados a um contexto de forte tensão, necessitando da incorporação de saberes e habilidades (Quadro 2).
Dimensões relacionadas às condições de saúde dos profissionais de saúde de um distrito sanitário de uma capital do Nordeste do Brasil, 2020–2022.
Além das mudanças no cotidiano e no processo de trabalho, os profissionais da APS que atuaram na linha de frente no combate da Covid-19 tinham preocupações relacionadas ao medo de se infectar e infectar outras pessoas, levando-os à privação do convívio familiar, a mudanças constantes nos protocolos assistenciais, dado o desconhecimento da doença, e à falta de equipamentos de proteção individual. Esse cenário de extrema pressão foi responsável por intenso desgaste emocional dos trabalhadores e perdurou por grande parte do enfrentamento da pandemia mas, em especial, no período anterior ao da vacinação (Quadro 2, 2.2).
Com o avanço da pandemia, a força de trabalho em saúde foi submetida ao estresse crônico, e o desgaste provocado pelo prolongamento da carga horária repercutiu nas relações de trabalho e no bem-estar emocional, tornando os trabalhadores da APS ainda mais vulneráveis. A suspensão dos períodos de férias e folgas em boa parte do período da pandemia acentuou o cansaço e o adoecimento dos trabalhadores (Quadro 2, 2.3).
Observou-se que o medo, o pânico e suas repercussões fizeram parte da narrativa dos profissionais que atuaram na APS. As alterações de ordem psíquica apareceram de forma destacada, em especial a depressão e o sentimento de desvalorização. A pandemia tornou os ambientes assistenciais mais sobrecarregados, guardando relação recíproca com o adoecimento dos trabalhadores (Quadro 2, 2.4).
Observou-se desigualdade na manifestação do adoecimento dos trabalhadores e das trabalhadoras. Os relatos evidenciaram o acúmulo de responsabilidades das trabalhadoras também no âmbito domiciliar, tornando as sequelas da pandemia ainda mais contundentes entre as mulheres, destacadamente enquanto permaneceram as medidas de suspensão de atividades coletivas, como escolas, creches e outros equipamentos sociais (Quadro 2, 2.5).
Além de estresse físico e emocional, decorrentes do ambiente laboral em meio à pandemia, alguns trabalhadores que tiveram Covid-19 passaram a conviver com o prolongamento dos sintomas, apresentando um quadro de Covid de longa duração. As entrevistas destacaram sintomas como falta de ar, perda de memória e insônia, entre outras condições de saúde. Nesse contexto, alguns profissionais relataram dificuldade no desenvolvimento das suas atividades laborais (Quadro 2, 2.6).
DISCUSSÃO
Os principais achados deste estudo demonstraram que o agravamento da precarização do trabalho em saúde e a insuficiência de medidas institucionais de proteção dos profissionais durante a emergência sanitária implicaram repercussões na sua saúde mental, em especial entre mulheres.
Não há dúvidas de que a pandemia tornou as fragilidades relacionadas a condições de trabalho e de saúde ainda mais evidentes. A precarização do trabalho possui as próprias dimensões, podendo ser entendida como reflexo da reestruturação produtiva2. O esgotamento derivado do prolongamento da jornada de trabalho, exponenciado pela desproteção social e por problemas emocionais, potencializou negativamente a saúde dos trabalhadores, gerando impactos que extrapolaram as fronteiras da faceta biológica do processo saúde-doença9.
Contratos de trabalho por meio de pessoa jurídica ou contratos temporários contribuíram para aumentar a vulnerabilidade dos profissionais, comprometendo sua remuneração após afastamentos por motivo de doença, inclusive a testagem para Covid-1910. De modo geral, a vinculação da força de trabalho em saúde com esses tipos de contratação vem acompanhada de um discurso de flexibilidade e liberdade, muitas vezes apreciadas pelos trabalhadores, embora, na prática, promovam sobrecarga de trabalho, transferência de riscos e custos aos próprios trabalhadores decorrentes da supressão de direitos trabalhistas11.
Esses vínculos frágeis e sem proteção social levam ao presenteísmo, que consiste no ato de o profissional comparecer ao trabalho com sinais e/ou sintomas de adoecimento, fenômeno que ocorre em vários locais e repercurte negativamente na saúde do trabalhador e nas instituições12. A ausência de proteção social e o receio de perder o emprego fazem com que indivíduos, inclusive médicos, como apontado no presente estudo, compareçam ao trabalho mesmo quando seu afastamento é necessário ou recomendado, como apontado na fala de uma das profissionais entrevistadas (Quadro 2)13.
Convém acrescentar ainda a repercussão na saúde derivada do vínculo precário, uma vez que a desproteção social pode implicar o comprometimento da assistência à saúde e da remuneração durante o afastamento do trabalho.
Outro ponto importante no enfrentamento da pandemia é a proteção fisica e emocional dos trabalhadores. Durante a crise sanitária, os profissionais da linha de frente conviveram com sobrecarga de emoções negativas em seus ambientes laborais, o que demandava cuidado psicológico desde o início do problema14. Medidas institucionais de proteção dos trabalhadores são imprescindíveis para superação de uma pandemia.
Em alinhamento com o contexto federal15, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) publicou um Plano de Contingência para os Trabalhadores em 2020, tendo como um dos principais objetivos preservar a força de trabalho da rede municipal, incluindo a saúde física e mental dos servidores. Foi criado então um serviço, percebido pelos trabalhadores, como espaço de oferta de testagem, apoio psicológico e psiquiátrico durante a crise sanitária, que funcionou entre maio de 2020 e novembro de 2021, quando foi descontinuado16.
Em dezembro de 2023, o município publicou nota técnica com orientações gerais sobre medidas de prevenção e controle da Covid-19, não contemplando a proteção dos profissionais de saúde nas medidas de prevenção e controle da doença. Nesse documento, esse serviço de atenção exclusiva aos trabalhadores da SMS aparecia como oferta de testagem aos profissionais, demonstrando retrocesso institucional no cuidado com os trabalhadores.
A falta de compromisso dos gestores com as intervenções propostas constitui uma dificuldade de continuidade das ações de proteção dos trabalhadores17. Evidencia que, apesar do arcabouço jurídico disponível para execução das atividades previstas na Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora18, a prática de proteção dos profissionais é permeada por dificuldades.
O adoecimento dos profissionais de saúde pode reduzir os recursos humanos disponíveis para o enfrentamento da pandemia e comprometer a resposta dos serviços de saúde. O novo contexto laboral decorrente da pandemia impôs a necessidade de aprendizagem de protocolos assistenciais, dado o desconhecimento da doença. Os indivíduos que formavam a força de trabalho em saúde conviveram com o medo, a angústia e a sobrecarga de trabalho, entre outros fatores que podem ser considerados gatilhos para desencadeamento ou agravamento de doenças mentais19,20. Proteger a saúde física e mental dos trabalhadores da saúde é de fundamental importância para manutenção dos serviços e preservação da vida humana, em especial em contextos de crise sanitária.
Os profissionais de saúde conviviam também com a escassez de equipamentos de proteção individuais, isolamento social e carga horária extensiva de trabalho21.
Ademais, destacaram-se nas narrativas a sobrecarga de trabalho durante grande parte da crise sanitária. A ampliação do horário de trabalho reduziu a possibilidade da manutenção de um estilo de vida saudável, ampliando o risco de adoecimento22. A Organização Internacional do Trabalho23 destaca que os indivíduos que trabalham 48 horas por semana, presencial ou virtualmente, sofrem consequências negativas em curto e longo prazos.
O aumento no nível de estresse no ambiente laboral repercute em três principais problemas: esgotamento mental, transtornos de ansiedade e depressão21. A prevalência de sintomas de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, em profissionais de saúde da APS, durante a pandemia, foi em torno de 43,2%, e a sobrecarga de trabalho é um dos elementos associados à presença de transtornos24.
Artigo de revisão sobre a saúde mental dos trabalhadores da linha de frente mostrou prevalências de sintomas de ansiedade variando de 44,6 a 62%, com cerca de 30% dos profissionais apresentando nível moderado ou grave de ansiedade, e 50% apresentando sintomas de depressão25.
Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde26 indicou aumento global na prevalência de ansiedade e depressão de 25% no primeiro ano da pandemia. O atendimento às medidas de distanciamento físico promoveu interrupções nos serviços de saúde mental, levando a lacunas no tratamento ofertado à população, sendo essencial ampliar os serviços de saúde mental e psicossocial, reconhecendo-os como componentes da cobertura universal da saúde em todo o mundo.
O estresse crônico proveniente do trabalho trouxe para alguns trabalhadores o desenvolvimento da síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional. De modo geral, o impacto do adoecimento psíquico de profissionais de saúde traz consequências sociais, pessoais e institucionais, repercutindo no bem-estar das pessoas atendidas27.
Observa-se, portanto, que a saúde mental deve ser considerada como um dos elementos centrais nas políticas públicas para a saúde do trabalhador no Sistema Único de Saúde, tendo em vista o caráter essencial do serviço que esses profissionais prestam na atenção à população.
Ainda considerando as condições de saúde dos trabalhadores, fica evidente a influência da questão de gênero no adoecimento das trabalhadoras.
Os achados deste estudo corroboram a literatura revisada22,28,29 sobre a participação das mulheres na área da saúde: elas são maioria. No contexto da crise sanitária, acúmulo de vínculos trabalhistas, baixos salários, falta de compartilhamento das tarefas domésticas, entre outros elementos, contribuíram para aumentar o risco de infecção e repercussões na saúde física e mental das trabalhadoras28.
Levando em cosideração os diversos tipos de violência que estão expostas cotidianamente, as mulheres possuem três vezes mais possibilidade de apresentar transtornos mentais menores em relação aos homens30. Isto posto, a análise dos impactos da pandemia na saúde dos trabalhadores por meio do recorte de gênero expõe iniquidades e vulnerabilidades que permeiam as práticas laborais e a vida em sociedade.
Destaca-se ainda a identificação de trabalhadores com o prolongamento dos sintomas de Covid-19. No Brasil, o Ministério da Saúde optou pelo termo "condições pós-Covid" para denominar as alterações de saúde que permanecem ou se iniciam quatro semanas ou mais após infecção por Covid-19, não podendo ser enquadradas em outro diagnóstico31. Considerando a importância dessa condição no contexto do trabalho, a Agência Europeia para Segurança e Saúde no Trabalho elaborou guias para orientar gestores e empregadores para o retorno seguro e saudável dos profissionais com sintomas contínuos ao ambiente laboral, incluindo a manutenção do contato com o trabalhador durante o afastamento e a preparação para o seu retorno, considerando estratégias como regresso faseado (ou gradual) e ajustes nas funções e nos horários32.
Essa condição também tem implicações no desenvolvimento de novas doenças crônicas e, por conseguinte, os serviços de saúde devem estar preparados para lidar com essas novas demandas33, assim como as empresas e os serviços nos quais esses profissionais estão lotados.
Como limites desse estudo, destaca-se que os profissionais entrevistados pertenciam a um único DS e que a expansão da amostra poderia gerar reflexões mais robustas sobre as dimensões destacadas. Contudo, as evidências do potencial comprometimento da saúde dos trabalhadores infectados pela Covid-19 indicam a necessidade de acompanhamento desses profissionais e o estabelecimento de ações de coordenação do cuidado no contexto pós-Covid.
Analisando-se as condições de saúde e trabalho dos profissionais da APS, observou-se que o contexto singular da pandemia amplificou o adoecimento e abriu espaço para novos estressores. Vale ressaltar que a precarização do trabalho e, em especial, do trabalho em saúde, é resultado de processo histórico e não restrito ao Brasil. Compreender as implicações do avanço das políticas neoliberais e seus impactos na saúde dos trabalhadores e seu processo de trabalho são essenciais para o aprimoramento das políticas públicas e da qualidade da assistência prestada. Os resultados desta pesquisa colaboram para o entendimento dos elementos que atuam, de forma entrelaçada, na saúde do trabalhador.
Apesar de os problemas descritos não serem novos, não há dúvida de que a pandemia agravou as fragilidades. No centro da crise sanitária, permaneceram os trabalhadores de saúde, vivenciando no seu cotidiano problemas que já os permeavam antes mesmo da eclosão da pandemia.
Disponibilidade de Dados:
Os dados da pesquisa não inclusos no artigo não estão disponíveis.
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Editor associado:
Bruno Pereira Nunes https://orcid.org/0000-0002-4496-4122
