Objetivo: mapear as tecnologias educacionais desenvolvidas e aplicadas na educação em saúde para pessoas com deficiência.
Método: revisão de escopo baseada nas recomendações do JBI, a partir dos critérios de inclusão: abordar a temática em estudo; texto disponível na íntegra e ser redigido ou traduzido em português, inglês e/ou espanhol. Foram consultadas quatro fontes de informação e literatura cinzenta, no mês de janeiro de 2024.
Resultados: revisão abrangeu oito estudos que abordaram experiências com o planejamento, a construção, a avaliação e a validação de tecnologias voltadas para o processo de educação em saúde de pessoas com deficiência e dos profissionais envolvidos em seus cuidados.
Conclusão: as tecnologias educacionais em saúde às pessoas com deficiência constituem ferramentas para a promoção da inclusão e da autonomia. Predomínio de estudos metodológicos de desenvolvimento e validação, o que mostra lacunas na análise de efetividade e a necessidade de pesquisas mais robustas e diversificadas.
Descritores:
Tecnologia Educacional; Tecnologia Assistiva; Educação em Saúde; Pessoa com Deficiência; Enfermagem; Revisão.
Destaques:
(1) As tecnologias educacionais são ferramentas relevantes para pessoas com deficiência. (2) Contribuem para a promoção da inclusão e da autonomia da pessoa com deficiência. (3) Tem boa aceitação, acessibilidade e potencial de inclusão, especialmente na prática de enfermagem. (4) Predomínio de estudos metodológicos e necessidade de pesquisas de efetividade.
Objective: to map educational technologies developed and applied in health education for people with disabilities.
Method: scope review based on the recommendations JBI, using the following inclusion criteria: addressing the topic under study; text available in full and written or translated into Portuguese, English, and/or Spanish. Four information sources and grey literature were consulted, in January 2024.
Results: the review covered eight studies, that addressed experiences with planning, construction, evaluation, and validation of technologies aimed at the health education process for people with disabilities and the professionals involved in their care.
Conclusion: educational technologies in health for people with disabilities constitute tools for promoting inclusion and autonomy. The predominance of methodological studies reveals gaps in effectiveness analysis and the need for more robust and diversified research.
Descriptors:
Educational Technology; Assistive Technology; Health Education; Person with Disability; Nursing; Revision.
Highlights:
(1) Educational technologies are relevant tools for people with disabilities. (2) They contribute to promoting the inclusion and autonomy of people with disabilities. (3) They have good acceptance, accessibility, and potential for inclusion, especially in nursing practice. (4) There is a predominance of methodological studies and a need for effectiveness research.
Objetivo: mapear las tecnologías educativas desarrolladas y aplicadas en la educación en salud para personas con discapacidad.
Método: revisión de alcance basada en las recomendaciones de JBI, según los criterios de inclusión: abordar el tema en estudio; texto disponible en su totalidad y ser escrito o traducido al portugués, inglés y/o español. Se consultaron cuatro fuentes de información y literatura gris en enero de 2024.
Resultados: a revisión abarcó ocho estudios que abordaron experiencias de planificación, construcción, evaluación y validación de tecnologías dirigidas al proceso de educación en salud de personas con discapacidad y los profesionales involucrados en su atención.
Conclusión: las tecnologías educativas en salud para personas con discapacidad constituyen herramientas para promover la inclusión y la autonomía. El predominio de estudios de desarrollo y validación metodológica revela lagunas en el análisis de efectividad y la necesidad de una investigación más sólida y diversificada.
Descriptores:
Tecnología Educativa; Tecnología de Asistencia; Educación para la Salud; Persona con Discapacidad; Enfermería; Revisión.
Destacados:
(1) Las tecnologías educativas son herramientas relevantes para las personas con discapacidad. (2) Contribuyen a promover la inclusión y la autonomía de las personas con discapacidad. (3) Tienen buena aceptación, accesibilidad y potencial de inclusión, especialmente en la práctica enfermera. (4) Predominan los estudios metodológicos y se necesita investigación sobre su eficacia.
Introdução
As pessoas com deficiência são definidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como aquelas que apresentam impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais de longo prazo que, em interação com barreiras sociais, atitudinais e ambientais, podem restringir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas1. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas no mundo convivam com algum tipo de deficiência, número que pode atingir dois bilhões até 2050 em decorrência do envelhecimento populacional e da maior prevalência de doenças crônicas incapacitantes. No Brasil, dados do Censo de 2022 apontam que 18,6 milhões de pessoas com dois anos ou mais apresentam algum tipo de deficiência, representando 8,9% da população brasileira nessa faixa etária1-2.
O reconhecimento da deficiência como questão de direitos humanos foi consolidado a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e reafirmado na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência3. Tais documentos estabelecem princípios universais de dignidade, equidade e participação social, exigindo que os Estados garantam políticas públicas voltadas à acessibilidade, inclusão e promoção da autonomia. Essa mudança de paradigma desloca a compreensão da deficiência de um modelo biomédico para uma abordagem social, centrada na eliminação de barreiras e na valorização das capacidades dos indivíduos4-5.
Nesse contexto, destacam-se as Tecnologias Assistivas (TA), entendidas como recursos, estratégias, produtos e serviços que visam ampliar as habilidades funcionais e a participação social das pessoas com deficiência6-7. Incluem desde órteses e próteses até softwares de leitura de tela, sistemas de comunicação alternativa e adaptações arquitetônicas, configurando-se como ferramentas fundamentais para a autonomia e a inclusão. Em paralelo, as Tecnologias Educacionais (TE), sejam impressas, digitais ou híbridas, têm se mostrado centrais no processo de ensino-aprendizagem em saúde, ao possibilitar a mediação de conhecimentos e a construção de práticas mais acessíveis e participativas8-9.
A integração de TA e TE responde a desafios práticos enfrentados por pessoas com diferentes tipos de deficiência. Pessoas surdas, por exemplo, enfrentam barreiras comunicacionais nos serviços de saúde, que podem ser minimizadas por aplicativos em Libras e materiais bilíngues10. Já indivíduos com deficiência intelectual podem se beneficiar de jogos educativos digitais e recursos visuais simplificados no processo de educação em saúde11. Do mesmo modo, exergames têm sido aplicados na reabilitação de pessoas com deficiência física ou cognitiva, promovendo ganhos funcionais e sociais por meio de atividades lúdicas12. O envelhecimento populacional e o aumento de doenças crônicas também ampliam o contingente de pessoas que adquirem deficiências ao longo da vida, tornando premente a necessidade de ações integrais de cuidado e reabilitação13. Para além da dimensão clínica, o processo de educação em saúde constitui ferramenta estratégica, pois promove não apenas a transmissão de informações, mas também a formação de consciência crítica, favorecendo a autonomia, o protagonismo e a transformação social14-15.
Nesse ínterim, a articulação entre tecnologias assistivas e educação em saúde constitui eixo fundamental para ampliar a autonomia e inclusão das pessoas com deficiência. As tecnologias assistivas, ao oferecer recursos que favorecem a funcionalidade e participação social, tornam-se instrumentos estratégicos quando associadas a processos educativos, potencializando o acesso à informação e promoção da saúde. Nesse cenário, a enfermagem assume papel central por sua proximidade contínua com os usuários, mediando o uso dessas tecnologias, traduzindo informações em linguagem acessível e estimulando o protagonismo dos sujeitos no cuidado de si. Essa articulação amplia não apenas os resultados clínicos e reabilitadores, mas também fortalece as dimensões sociais e cidadãs do cuidado5-6,11.
Nesse contexto, as TE despontam como recursos essenciais no ensino-aprendizagem em saúde. Elas podem assumir diferentes tipologias: tecnologias assistivas (recursos que favorecem funcionalidade e autonomia, como próteses, softwares de leitura e adaptações físicas); tecnologias educacionais tradicionais (cartilhas, guias, manuais, jogos impressos); e tecnologias digitais inovadoras, como exergames e aplicativos interativos, que integram ludicidade, atividade física e aprendizado7-8,16. Todas elas compartilham o potencial de transformar o processo educativo em um espaço dialógico e participativo, fortalecendo a cidadania e inclusão social17-20.
As práticas educativas em saúde, quando direcionadas às pessoas com deficiência, devem articular cuidado direto e indireto, integrando dimensões físicas, subjetivas e sociais. Profissionais de enfermagem, por sua atuação próxima e contínua, assumem papel central nesse processo, tanto na reabilitação quanto na promoção da inclusão e do empoderamento, indo além do modelo curativo e reconhecendo a pessoa com deficiência como sujeito ativo do cuidado21-22.
Diante desse cenário, este estudo tem como objetivo mapear as tecnologias educacionais desenvolvidas e aplicadas na educação em saúde para pessoas com deficiência.
Método
Trata-se de uma revisão de escopo, que possibilitou o mapeamento de evidências ao explorar a amplitude e a extensão da literatura, com o objetivo de identificar lacunas e sugerir estudos futuros23. A revisão de escopo constitui um tipo de pesquisa que fornece uma visão geral sobre a dimensão e a quantidade de estudos disponíveis, tendo como finalidade identificar a natureza e a extensão da produção científica24.
Esta pesquisa foi baseada no guia para revisão de escopo do JBI, que destaca as etapas do processo de construção: 1) Definir e alinhar os objetivos e a pergunta de pesquisa; 2) Desenvolver e alinhar os critérios de inclusão com os objetivos e a pergunta de pesquisa; 3) Descrever a abordagem planejada para identificar as evidências; 4) Pesquisar as evidências; 5) Selecionar as evidências; 6) Extrair os dados; 7) Apresentar os resultados em gráficos e tabelas; 8) Resumir os achados em relação aos objetivos e à pergunta de pesquisa23. O protocolo deste estudo está publicado na plataforma Open Science Framework: https://osf.io/a547g/.
Identificação da pergunta de pesquisa
Para elaboração da questão norteadora e delineamento da busca, foi utilizada a estratégia PICo. Essa estratégia contempla os seguintes elementos sintetizados no acrônimo: P= Problema (Educação em Saúde); I = Interesse (Tecnologia Educacional) e Co = Contexto (Pessoas com Deficiência). Para tanto, a questão norteadora desta pesquisa é: quais são as tecnologias educativas utilizadas para promover educação em saúde nas pessoas com deficiência?
Estratégia de pesquisa
Dentre os portais virtuais disponíveis para coleta de dados, foram selecionadas as bases Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Excerpta Medica database (Embase), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Google Scholar (para literatura cinzenta), por serem amplamente reconhecidas no campo da saúde. O objetivo foi analisar a produção científica acerca da temática proposta em contextos nacional e internacional.
A busca avançada dos artigos foi realizada em janeiro de 2024, simultaneamente nas cinco bases. A seleção e a avaliação dos estudos foram conduzidas de maneira independente e cegada por dois revisores, e eventuais discordâncias foram resolvidas em consenso com um terceiro revisor25. Para selecionar os estudos iniciais e excluir duplicados, os revisores procederam à leitura dos títulos e resumos utilizando o gerenciador de referências online Rayyan. A seleção elaborada por cada revisor foi sistematicamente ordenada com apoio do software e, posteriormente, comparada entre si para validação da amostra final26.
As palavras-chave foram selecionadas a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), sendo elas: “Tecnologia educacional”, “Educational Technology”, “Pessoa com deficiência”, “Disabled Persons”, “Educação em saúde” e “Health Education”, utilizando-se os operadores booleanos OR e AND. Foram combinadas de diferentes formas, como: Tecnologia educacional OR Educação em Saúde AND Pessoa com deficiência; Tecnologia educacional AND Educação em Saúde AND Pessoa com deficiência, em português e inglês. Os resultados estão dispostos na Figura 1:
Tabela de descrição dos operadores booleanos para busca por base. Campina Grande, PB, Brasil, 2024
Critérios de elegibilidade
A seleção dos estudos analisados ocorreu a partir dos critérios de inclusão: abordar a temática em estudo; texto disponível na íntegra e ser redigido ou traduzido em português, inglês e/ou espanhol. Os critérios de exclusão foram: textos incompletos ou com acesso indisponível; repetição de um mesmo artigo em mais de uma base de dados; falta de relação com o objeto de estudo. Não foi considerado recorte no tempo de pesquisa com intuito de resgatar o maior número de estudos possíveis.
Tratamento e análise dos dados
Utilizaram-se as diretrizes da estratégia PRISMA-ScR para revisões de escopo27, para representar graficamente o procedimento de triagem dos estudos, como mostra o fluxograma do procedimento de busca e seleção dos estudos elegíveis na revisão (Figura 2).
Em sua edição de novembro de 2024, o JBI Manual for Evidence Synthesis reforça a importância de abordar a qualidade da evidência mesmo em revisões de escopo. Reconhece-se que, embora esse tipo de revisão não tenha como objetivo avaliar criticamente todos os estudos incluídos, torna-se recomendável uma descrição sistemática de vieses potenciais, limitações metodológicas e heterogeneidade das evidências28.
Segundo o manual, deve-se ao menos classificar o nível de confiança global e as características dos estudos (por exemplo: risco de viés, imprecisão, inconsistência), para que o leitor compreenda o grau de robustez das conclusões extraídas na síntese. Esse enfoque contribui para a transparência metodológica e permite identificar lacunas de conhecimento, orientando futuras revisões com metodologias mais rigorosas ou específicas28.
Resultados
Os procedimentos metodológicos utilizados na composição do corpus de pesquisa foram graficamente representados por meio de um fluxograma, produzido a partir das diretrizes da estratégia PRISMA-ScR para revisões de escopo conforme Figura 2 a seguir:
Fluxograma PRISMA-ScR utilizado para identificação e seleção dos estudos. Campina Grande, PB, Brasil, 2024
Inicialmente, com aplicação de filtros (texto na íntegra; língua: português, inglês e espanhol) nas bases de dados selecionadas, foram identificados 200 artigos por meio das pesquisas para essa revisão; os dados desses artigos foram importados na plataforma Rayyan. O software do Rayyan faz um resumo automático acerca dos anos de publicações dos estudos importados; com isso, surgiu a informação de que a primeira publicação com esses descritores ocorreu no ano de 2015, porém, entre 2019 e 2023, as publicações aumentaram; de 2019, houve 49 publicações encontradas, em 2020 foram 51, em 2021 e 2022 foram 34 publicações em cada ano e, em 2023, o número de publicações encontradas envolvendo o tema proposto caiu para 24. Essas informações foram extraídas do Rayyan.
A amostra final foi composta por oito estudos, sendo sete artigos publicados em periódicos científicos e uma tese de doutorado. Quanto ao país de origem, sete foram realizados no Brasil e um na Romênia, publicado em inglês. O período de publicação variou entre 2015 e 2022.
As populações-alvo contemplaram diferentes tipos de deficiência: três estudos voltados a pessoas com deficiência auditiva, três a pessoas com deficiência visual, um a pessoas com deficiência intelectual e um a pessoas com deficiência cognitiva. Em relação às tecnologias utilizadas, identificaram-se tecnologias educacionais digitais e impressas (como cartilhas e cursos online acessíveis), tecnologias assistivas (softwares, avatares, recursos de acessibilidade digital) e tecnologias inovadoras (exergames). As temáticas abordaram desde saúde bucal, saúde sexual e reprodutiva e prevenção do abuso sexual até hipertensão arterial, saúde mamária e atividade física.
No que se refere à autoria, a maioria das produções foi conduzida por pesquisadores da enfermagem, com participação colaborativa de outras áreas em casos pontuais, como educação física, computação e educação. De forma geral, todos os estudos reportaram resultados positivos em termos de validade, acessibilidade, aceitabilidade e viabilidade das tecnologias, ainda que limitados por amostras pequenas, ausência de grupo controle e curta duração de acompanhamento. A Figura 3 a seguir mostra a caracterização dos estudos incluídos.
O conjunto analisado é composto predominantemente por estudos metodológicos de desenvolvimento e validação de tecnologias educacionais e assistivas, relatos de experiência e estudos exploratórios de intervenção, com foco em diferentes tipos de deficiência (intelectual, visual, auditiva e cognitiva). A maioria dos estudos foi desenvolvida no Brasil, com exceção de um estudo realizado na Romênia, refletindo uma produção concentrada em contextos latino-americanos.
Os principais tipos de tecnologias identificados foram: tecnologias educacionais digitais e impressas: cartilhas virtuais e cursos online acessíveis, desenvolvidos para pessoas cegas, e abordando temas como saúde sexual, prevenção de violência e hipertensão arterial. Tecnologias assistivas: softwares de acessibilidade (leitores de tela, avaliação automática de acessibilidade) e adaptações para comunicação em Libras. Tecnologias inovadoras: exergames e avatares, utilizados tanto para promover atividade física em pessoas com deficiência cognitiva quanto para facilitar a comunicação em saúde bucal de pessoas surdas. Em relação aos principais achados, os estudos apontaram que as tecnologias validadas apresentaram alta concordância entre especialistas quanto ao conteúdo e aparência, como em um estudo11) em que a tecnologia sobre prevenção da violência sexual para jovens com deficiência intelectual obteve índice de validade de conteúdo próximo a 1,0. Recursos educacionais acessíveis para pessoas cegas, como cartilhas virtuais e cursos online, foram considerados viáveis, compreensíveis e adequados, embora testados em amostras pequenas e, em geral, sem avaliação longitudinal de impacto.
A utilização de exergames mostrou viabilidade pedagógica e potencial para promover socialização, autonomia e habilidades motoras, apesar da ausência de grupos controle e da heterogeneidade dos tipos de jogos aplicados. O uso de avatares e vídeos em Libras indicou benefícios na comunicação em saúde para pessoas surdas, mas os estudos se limitaram a análises técnicas ou a pilotos com poucos participantes.
No que se refere à avaliação da qualidade das evidências, em conformidade com as orientações do JBI Manual for Evidence Synthesis28, foi realizada uma descrição sistemática dos vieses potenciais, limitações metodológicas e heterogeneidade. De modo geral: os estudos apresentaram amostras reduzidas, frequentemente selecionadas por conveniência, o que gera risco de viés de seleção e limita a generalização. Muitos trabalhos concentraram-se apenas em validar conteúdo e aparência com especialistas, sem testar efetividade em populações usuárias, restringindo a força da evidência para avaliar o impacto em saúde.
A heterogeneidade entre as tecnologias (cartilhas, cursos, softwares, exergames, avatares) e entre os desfechos (validade de conteúdo, aceitabilidade, conformidade técnica, viabilidade) impossibilita comparações diretas ou metanálises, indicando a necessidade de uma síntese narrativa. A qualidade geral da evidência foi classificada como moderada para validade e aceitabilidade e baixa para eficácia clínica ou mudança de comportamento, já que nenhum dos estudos empregou desenhos robustos como ensaios clínicos randomizados ou acompanhamentos longitudinais.
Esses achados mostram que, embora a produção existente seja limitada em termos de rigor metodológico, os estudos fornecem subsídios relevantes para a prática da educação em saúde e para o desenvolvimento de tecnologias inclusivas em saúde, principalmente no que tange à viabilidade, acessibilidade e adequação cultural dos recursos. O quadro construído (Figura 4), em conformidade com o Manual JBI, apresenta detalhadamente os vieses potenciais, limitações metodológicas e a qualidade atribuída a cada estudo incluído, servindo como referência complementar à síntese narrativa.
Discussão
A presente revisão de escopo identificou oito estudos, em sua maioria metodológicos, voltados ao desenvolvimento e validação de tecnologias educacionais e assistivas. Essa predominância reflete a natureza ainda emergente do campo, em que a produção científica se concentra em propor e testar recursos inovadores, mais do que em estudos de impacto ou revisões sistemáticas. Para garantir clareza terminológica, é importante distinguir as tecnologias educacionais (TE), associadas a processos de ensino-aprendizagem, das tecnologias assistivas (TA), voltadas à promoção de acessibilidade, autonomia e inclusão de pessoas com deficiência5-6. Essa diferenciação orientou a análise dos achados e evita a sobreposição de termos.
Os dados foram organizados de acordo com os tipos de tecnologias identificadas (educacionais, assistivas, digitais inovadoras), seus contextos de aplicação (saúde bucal, saúde sexual e reprodutiva, prevenção de agravos, atividade física e comunicação em saúde) e os grupos populacionais atendidos (pessoas com deficiência auditiva, visual, intelectual e cognitiva). Essa sistematização permitiu compreender a diversidade de abordagens e a convergência dos resultados em torno de aspectos comuns, como validade, viabilidade, acessibilidade e aceitação das tecnologias.
No campo da saúde sexual e reprodutiva, destaca-se o estudo que validou uma tecnologia educacional voltada à prevenção da violência sexual em jovens com deficiência intelectual11, trazendo à tona um tema frequentemente silenciado. De forma complementar, outro autor desenvolveu uma cartilha virtual para pessoas com deficiência visual, também com foco na prevenção da violência sexual29, reforçando o potencial das tecnologias educacionais para abordar questões sensíveis e negligenciadas.
A comunicação em saúde foi outro eixo central, com destaque aos autores que desenvolveram uma TE baseada na Libras para facilitar a interação entre enfermeiros e pessoas surdas10, revelando que barreiras de linguagem ainda são obstáculos à inclusão plena nos serviços de saúde. Nesse mesmo campo, outros autores aplicaram o instrumento Automatic System for Evaluating Software Accessibility (ASES) em conteúdos digitais, identificando conformidade técnica, mas ressaltando a importância de avaliar também a experiência real dos usuários surdos30.
O uso de modelos validados de design instrucional mostrou-se estratégico para a construção de tecnologias acessíveis. Exemplo disso são os cursos online sobre saúde mamária31 e sobre hipertensão arterial32, ambos desenvolvidos na Universidade Federal do Ceará. Esses estudos utilizaram o modelo de Falkembach e demonstraram que metodologias consistentes podem assegurar qualidade, acessibilidade e segurança na elaboração de recursos digitais para pessoas cegas.
No eixo da saúde bucal, destaca-se uma contribuição internacional. O estudo realizado na Romênia comparou o uso de avatares e vídeos em aplicativos para surdos, mostrando que ambos os recursos favoreceram a comunicação em saúde oral, ainda que com diferenças de custo e complexidade33.
Por fim, a utilização de exergames em programas de atividade física para pessoas com deficiência cognitiva34 revelou benefícios relacionados à socialização, ganho de habilidades motoras e autonomia, mostrando-se uma alternativa de baixo custo e viável para a promoção da saúde nesse público.
De forma geral, os achados mostram que tanto as TE quanto as TA emergem como recursos valiosos para a promoção da saúde inclusiva, contribuindo para a educação em saúde, a prevenção de agravos, a reabilitação e a inclusão social. A síntese realizada evidencia que diferentes áreas (saúde sexual e reprodutiva, saúde bucal, comunicação em saúde e atividade física) podem se beneficiar de tecnologias quando desenvolvidas e aplicadas de forma inclusiva.
Ainda assim, cabe destacar que a maioria dos estudos se concentrou em etapas iniciais de desenvolvimento e validação, sem avançar para análises de efetividade em contextos reais ou em larga escala. Vale reforçar a importância de futuros trabalhos ampliarem amostras, incluírem grupo controle e avaliarem o impacto das tecnologias em desfechos clínicos e sociais. Por fim, ressalta-se que a pandemia de COVID-19, embora tenha imposto desafios sanitários, também impulsionou a adoção de ferramentas digitais inclusivas, abrindo caminho para novos estudos e práticas inovadoras, mas sem eliminar as lacunas de acesso e a necessidade de políticas públicas que assegurem sustentabilidade e equidade.
Conclusão
Os resultados evidenciam que as tecnologias educacionais digitais e impressas, tecnologias assistivas e tecnologias inovadoras contemplam diferentes formatos (cursos online acessíveis, cartilhas digitais, recursos em Libras, aplicativos, avatares e exergames) e foram direcionadas a variados públicos, incluindo pessoas com deficiência auditiva, visual, intelectual e cognitiva. De modo geral, os estudos mostraram que as tecnologias desenvolvidas apresentam boa aceitação, validade de conteúdo, acessibilidade e viabilidade, contribuindo para o empoderamento, a inclusão e o fortalecimento da prática profissional em saúde, especialmente na enfermagem.
Apesar da diversidade de propostas, observou-se que a maioria das pesquisas se concentrou em etapas de desenvolvimento e validação, sem avançar para análises de efetividade em larga escala. Além disso, houve a predominância de estudos metodológicos e de intervenções exploratórias. Essa característica aponta tanto para a relevância do campo em expansão quanto para a necessidade de investigações mais robustas, com amostras maiores, seguimento longitudinal e comparações controladas, a fim de fortalecer a qualidade da evidência.
Considera-se, portanto, que este estudo atingiu seu objetivo, mostrando que as tecnologias educacionais em saúde voltadas às pessoas com deficiência são ferramentas relevantes para a promoção da inclusão e da autonomia. Entretanto, a revisão também evidencia lacunas importantes, como a limitação de bases de dados consultadas, a concentração geográfica da produção científica e a escassez de estudos avaliando impactos concretos dessas tecnologias. Recomenda-se que futuras pesquisas ampliem as estratégias de busca, diversifiquem os contextos de investigação e avancem em análises de efetividade, de modo a consolidar a contribuição das tecnologias educacionais para a saúde inclusiva.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
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Editora Associada:
Maria Lúcia Zanetti


