Open-access Fatores associados às prorrogações e aos trancamentos da pós-graduação stricto sensu no Brasil na pandemia COVID-19: ênfase na saúde mental*

Objetivo: analisar os fatores associados à prorrogação de prazo de conclusão e ao trancamento de curso por discentes brasileiros matriculados em programas de pós-graduação stricto sensu no contexto da pandemia de COVID-19, com ênfase na saúde mental.

Método: estudo transversal analítico, realizado com 5.286 pós-graduandos matriculados no ano de 2022. Os dados foram coletados por meio de formulário eletrônico com informações sociodemográficas, acadêmicas e de saúde, incluindo histórico de transtornos mentais. Empregou-se análise estatística descritiva e inferencial, com regressão logística, por meio do software R.

Resultados: verificou-se que 38% dos participantes prorrogaram seus cursos e 4,8% trancaram a matrícula. A prorrogação esteve associada a cursar doutorado, Engenharias ou Ciências Biológicas, relatar dificuldades na formação e apresentar problemas de saúde mental. Participação em aulas remotas e diagnóstico prévio de hipertensão emergiram como fatores protetores. O trancamento associou-se a ter filhos, cursar Engenharia, enfrentar dificuldades na pandemia, apresentar problemas de saúde mental e histórico de afastamento acadêmico. Ser bolsista foi fator protetor, reduzindo em 50% as chances de trancamento.

Conclusão: os achados indicam que a prorrogação e o trancamento estão relacionados aos fatores acadêmicos, pessoais e de saúde, o que evidencia a necessidade de políticas institucionais promotoras de suporte integral, com atenção especial à saúde mental e à permanência na pós-graduação.

Descritores:
Educação de Pós-Graduação; Saúde Mental; COVID-19; Universidades; Ensino; Fatores de Risco


Destaques:

(1) 38% dos pós-graduandos prorrogaram o curso e 4,8% trancaram suas matrículas. (2) Dificuldades acadêmicas e saúde mental impactaram prorrogação e trancamento. (3) Ser bolsista reduziu em 50% a chance de trancamento da pós-graduação. (4) Aulas remotas foram fator protetor para a prorrogação do curso. (5) Políticas educacionais devem promover suporte acadêmico e bem-estar mental.

Objective: to analyze the factors associated with extension of the completion deadline and the course withdrawals by Brazilian students enrolled in stricto sensu graduate programs during the COVID-19 pandemic, with emphasis on mental health.

Method: cross-sectional analytical study conducted with 5,286 graduate students enrolled in 2022. Data were collected through an electronic form that contained sociodemographic, academic, and health information, including a history of mental disorders. Descriptive and inferential statistical analyses were performed using logistic regression through R software.

Results: the study found that 38% of participants extended their courses and 4.8% withdrew from enrollment. Extension was associated with pursuing a doctorate, studying Engineering or Biological Sciences, reporting training difficulties, and presenting mental health problems. Participation in remote classes and a previous diagnosis of hypertension emerged as protective factors. Withdrawal was associated with having children, studying Engineering, facing pandemic difficulties, presenting mental health problems, and having a history of academic leave. Being a scholarship holder was a protective factor, reducing the chances of withdrawal by 50%.

Conclusion: the findings indicate that extensions and withdrawals are related to academic, personal and health factors, highlighting the need for institutional policies that promote comprehensive support, with special attention to mental health and retention in graduate programs.

Descriptors:
Graduate Education; Mental Health; COVID-19; Universities; Teaching; Risk Factors


Highlights:

(1) 38% of graduate students extended their courses and 4.8% withdrew. (2) Academic difficulties and mental health impacted extensions and withdrawals. (3) Being a scholarship holder reduced the chance of withdrawing by 50%. (4) Remote classes were a protective factor against course extension. (5) Educational policies should promote academic support and mental well-being.

Objetivo: analizar los factores asociados a la prórroga del plazo de finalización y a la suspensión de cursos entre estudiantes brasileños matriculados en programas de postgrado stricto sensu durante la pandemia de COVID-19, con énfasis en la salud mental.

Método: estudio transversal analítico realizado con 5.286 estudiantes de postgrado matriculados en 2022. Los datos se recopilaron mediante un formulario electrónico con información sociodemográfica, académica y de salud, que incluía antecedentes de trastornos mentales. Se realizó un análisis estadístico descriptivo e inferencial, con regresión logística utilizando el software R.

Resultados: se constató que el 38% de los participantes extendió sus cursos y el 4,8% suspendió su matrícula. Las extensiones se asociaron con la realización de carreras de Doctorado, Ingeniería o Ciencias Biológicas, el reporte de dificultades en la formación y la presentación de problemas de salud mental. La participación en clases remotas y un diagnóstico previo de hipertensión emergieron como factores protectores. La suspensión de estudios se asoció con tener hijos, estudiar Ingeniería, enfrentar dificultades durante la pandemia, presentar problemas de salud mental y antecedentes de abandono académico. Ser becario fue un factor protector y redujo las probabilidades de suspensión en un 50%

Conclusión: los hallazgos indican que las prórrogas y suspensiones están relacionadas con factores académicos, personales y de salud y resaltan la necesidad de políticas institucionales que promuevan el apoyo integral, con especial atención a la salud mental y la retención académica de los estudios de postgrado.

Descriptores:
Educación de Posgrado; Salud Mental; COVID-19; Universidades; Enseñanza; Factores de Riesgo


Destacados:

(1) El 38% de los estudiantes de postgrado prorrogaron el curso y el 4,8% suspendieron sus matrículas. (2) Dificultades académicas y de salud mental impactaron en las prórrogas y suspensiones. (3) Ser becario redujo en un 50% la posibilidad de suspender los estudios de postgrado. (4) Las clases remotas fueron un factor protector para las prórrogas de los cursos. (5) Las políticas educativas deben promover el apoyo académico y el bienestar mental.

Introdução

Ao longo de 50 anos de existência, o Sistema Nacional de Pós-Graduação brasileiro consolidou-se como referência em formação avançada na América Latina, com papel essencial na capacitação de acadêmicos e profissionais para o avanço científico, tecnológico e inovador do país(1-4). No entanto, a pandemia de COVID-19 impôs desafios significativos aos estudantes de pós-graduação stricto sensu, por ampliar desigualdades estruturais e impactar na saúde mental(5-9).

Estudo recente apontou que 63,5% dos pós-graduandos brasileiros apresentaram transtornos mentais comuns (TMC) durante a pandemia, sobretudo mulheres, jovens e estudantes de mestrado, especialmente aqueles que enfrentaram dificuldades financeiras e atrasos acadêmicos(5). Em escala global, pesquisadores vivenciaram estresse e ansiedade elevados por insegurança financeira, perda de oportunidades de emprego e isolamento social, reforçando a necessidade de suporte institucional(6,10-12).

No Brasil, a restrição de acesso aos laboratórios, os atrasos nos cronogramas de pesquisa e a transição para o ensino remoto emergencial configuraram-se como barreiras críticas à continuidade da formação acadêmica e potencializaram a sensação de sobrecarga e solidão entre os estudantes(5,13-14). A pressão por produtividade em um cenário de incerteza intensificou o sofrimento psíquico, muitas vezes com necessidade de afastamento temporário das atividades acadêmicas(6,11).

A esse cenário somaram-se os impactos das dificuldades financeiras, que se agravaram durante a pandemia e estiveram associadas ao aumento de sintomas depressivos, em mais uma evidência da importância da estabilidade econômica para a manutenção da saúde mental dos discentes e da necessidade de intervenções específicas para o apoio de indivíduos em situação de vulnerabilidade durante crises(3-7). Pesquisas identificaram também que os discentes de programas de pós-graduação stricto sensu enfrentaram repercussões marcantes em suas vidas pessoais e acadêmicas, sobretudo pela exigência de adaptação ao ensino remoto emergencial e necessidade de enfrentamento de problemas sociais, econômicos e psicológicos complexos(11,15).

Diante desse cenário, muitos recorreram à prorrogação de prazos e ao trancamento de matrícula. No Brasil, esses instrumentos são regulamentados pelas instituições de ensino superior e seguem as normativas estabelecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A prorrogação de prazo de conclusão permite ampliar o tempo máximo estipulado para a finalização do curso, enquanto o trancamento consiste na suspensão temporária das atividades acadêmicas do discente, mantendo seu vínculo com a instituição.

Ambos os instrumentos são essenciais para assegurar a continuidade da formação acadêmica e proporcionam o suporte necessário para que os discentes superem adversidades sem comprometer o rigor e a qualidade do ensino. No contexto pandêmico, a relevância de tais estratégias foi reiterada, pelo reconhecimento e resposta à complexidade dos desafios abruptamente impostos na trajetória dos discentes(15).

Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar os fatores associados à prorrogação de prazo de conclusão e ao trancamento de curso pelos discentes brasileiros matriculados em programas de pós-graduação stricto sensu no contexto da pandemia de COVID-19, com ênfase na saúde mental. Esta análise objetiva oferecer subsídios para políticas e estratégias que assegurem a saúde mental e a continuidade acadêmica dos discentes, especialmente em períodos de crise.

Método

Tipo e local de estudo

Estudo transversal analítico, conforme as diretrizes do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)(16). A pesquisa foi realizada de forma virtual e abrangeu todo o território brasileiro, utilizando a plataforma Research Electronic Data Capture (REDCap). A coleta de dados ocorreu entre maio e julho de 2022.

População e amostra

A população do estudo foi composta por discentes matriculados em programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil em 2022. De acordo com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em 2019, o Brasil contava com 388.629 discentes distribuídos em 4.565 programas de pós-graduação em 498 instituições de ensino superior (IES), abrangendo mestrados e doutorados acadêmicos e profissionais(17).

O cálculo do tamanho amostral, considerando todo o território nacional, foi baseado em uma prevalência estimada de 50%, precisão de 1,5% e intervalo de confiança de 95%, o que resultou em uma amostra mínima necessária de 4.222 participantes. Importante destacar que, na ausência de informações específicas sobre a prevalência de desfechos, como é o caso dos discentes de pós-graduação, o cálculo com prevalência de 50% é recomendado, pois garante que o tamanho amostral seja suficiente para qualquer valor de prevalência observado(18).

Foram incluídos no estudo discentes matriculados em programas de pós-graduação stricto sensu acadêmicos e profissionais, com idade mínima de 18 anos, de ambos os sexos, residentes no Brasil e com acesso à internet. Foram excluídos aqueles que não completaram integralmente o formulário de coleta de dados. O estudo alcançou um total de 5.334 respostas. Para a análise de prorrogação de prazo, foram consideradas válidas 5.245 respostas à pergunta específica para este desfecho. Já para a análise de trancamento de matrícula, foram incluídas 5.286 respostas válidas à respectiva questão. Os dois desfechos foram analisados de forma independente e os participantes que relataram ter vivenciado ambos os eventos foram incluídos nas duas análises, conforme suas respostas individuais a cada variável.

Variáveis do estudo

As variáveis dependentes analisadas foram a ocorrência de prorrogação de prazo e de trancamento de matrícula. Definiu-se a prorrogação de prazo como o autorrelato de solicitação formal para estender o período originalmente estipulado para a conclusão do curso, enquanto o trancamento de matrícula foi caracterizado pelo autorrelato de suspensão temporária e formal das atividades acadêmicas por parte do discente.

As variáveis independentes foram organizadas em três categorias principais: sociodemográficas, acadêmicas e histórico de saúde e transtornos mentais. As variáveis sociodemográficas incluíram faixa etária, gênero, orientação sexual, situação conjugal, presença e quantidade de filhos, renda individual mensal, composição do domicílio, cor/raça e religião.

As variáveis acadêmicas abordaram o tipo de curso de pós-graduação stricto sensu (acadêmico ou profissional), a região geográfica do curso, a grande área do conhecimento, a condição de bolsista, a simultaneidade entre trabalho e estudos, a carga horária semanal dedicada aos estudos, a realização de aulas remotas, a percepção de equivalência entre aulas remotas e presenciais, o impacto da pandemia na formação acadêmica, a qualidade do acesso à internet para atividades acadêmicas e o grau de satisfação com o ensino digital.

As variáveis relacionadas ao histórico de saúde e aos transtornos mentais abrangeram múltiplos aspectos, como o medo de contrair ou transmitir o coronavírus, status de imunização contra a COVID-19 (incluindo o número de doses recebidas) e pertencimento aos grupos de risco. Também foi avaliado o uso de medicamentos sem prescrição médica durante a pandemia, inclusive daqueles para proteção contra a COVID-19 e o acesso aos serviços de saúde no último ano, com ênfase no acompanhamento médico e psicológico.

Foram investigadas questões específicas relacionadas à COVID-19, como a ocorrência de testes positivos, necessidade de internações, evolução de casos positivos entre conviventes e uso de medicamentos contínuos, incluindo psicofármacos. Adicionalmente, histórico de tabagismo, com tempo de consumo e quantidade de cigarros por dia, automedicação, episódios de mal-estar psicológico durante a pandemia, diagnósticos prévios de transtornos mentais e necessidade de afastamento das atividades acadêmicas por questões psicológicas também foram considerados.

No campo da saúde mental, foram incluídos autorrelatos de diagnósticos prévios de transtornos mentais e durante a pandemia, utilização de psicofármacos, início ou continuidade do uso desses medicamentos durante a pandemia, sua prescrição ou ausência, bem como acompanhamento psicológico antes e durante a pandemia.

Instrumentos de coleta de dados

Utilizou-se um questionário online estruturado que contemplou dados sociodemográficos, acadêmicos, histórico de saúde e transtornos mentais elaborado pelos pesquisadores do projeto matriz e com validação de conteúdo. Também foi utilizado o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para rastreamento de transtornos mentais comuns (TMC) e validado no Brasil para o rastreamento de transtornos mentais comuns na população geral(19).

O SRQ-20 é composto por 20 perguntas distribuídas em quatro categorias: queixas somáticas, humor depressivo e ansioso, perda de energia vital e pensamentos depressivos. As questões abordam sintomas físicos (4 questões) e emocionais (16 questões), com respostas binárias (sim/não). Cada resposta positiva soma um ponto, gerando uma pontuação total que varia de zero a 20, sendo que maiores pontuações indicam maior probabilidade de transtornos mentais não psicóticos (TMNP). Para este estudo, foram adotados os pontos de corte validados: oito ou mais respostas positivas para mulheres e seis ou mais para homens indicaram suspeita de TMC.

Coleta de dados

A coleta de dados foi conduzida de maneira estruturada e abrangente. Inicialmente, e-mails foram enviados aos 4.592 programas de pós-graduação stricto sensu do Brasil, a fim de solicitar o encaminhamento de uma carta-convite aos discentes regularmente matriculados. A adesão dos programas foi voluntária, e aqueles que concordaram em participar repassaram o e-mail de recrutamento aos seus respectivos discentes.

A carta-convite apresentava informações detalhadas sobre o estudo, incluindo seus objetivos, relevância e procedimentos, além de um link para o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Após a leitura e aceitação do TCLE, os participantes eram redirecionados para o formulário online, desenvolvido e disponibilizado na plataforma REDCap.

A coleta de dados foi conduzida de forma totalmente virtual, por meio da plataforma REDCap, a qual assegura altos padrões de segurança, acessibilidade e eficiência no armazenamento e processamento das informações. O uso dessa plataforma garantiu o anonimato dos participantes e a integridade dos dados durante todas as etapas da pesquisa, promovendo confiabilidade e proteção das informações coletadas. As informações foram armazenadas de forma criptografada, com autenticação por senha e acesso restrito à equipe responsável, para garantir a confidencialidade dos dados conforme os princípios éticos aplicáveis às pesquisas com seres humanos.

Tratamento e análise dos dados

Os dados foram compilados e exportados para uma planilha eletrônica, por meio do programa Excel® Windows. Houve dupla-digitação independente e verificação dos erros e inconsistências. As análises estatísticas foram realizadas pelo software R versão 4.2.3, com o suporte do pacote Vector Generalized Additive Models (VGAM).

Conduziu-se a análise em duas etapas principais. Na primeira, realizou-se uma análise bivariada para identificar associações estatisticamente significativas (α = 0,05) entre as variáveis independentes e os desfechos (prorrogação de prazo e trancamento de matrícula). O Teste da Razão de Verossimilhanças foi utilizado para avaliar a significância de cada variável nas etapas de inclusão e exclusão do modelo, permitindo comparações entre os modelos ajustados.

Na etapa subsequente, utilizou-se o modelo de regressão logística binária para identificar os fatores associados aos desfechos investigados. Esse modelo foi escolhido por sua adequação na análise de variáveis categóricas e desfechos binários, permitindo a estimativa de razões de chances (Odds Ratios) e seus intervalos de confiança (IC95%). O nível de significância adotado para as análises foi de 5% (α = 0,05).

Para a composição dos modelos finais de regressão, foram incluídas apenas as variáveis que apresentaram associação estatisticamente significativa na análise bivariada. Em seguida, aplicou-se o teste da razão de verossimilhanças para avaliar a permanência das variáveis nos modelos ajustados. Essa estratégia visou garantir parcimônia e robustez estatística, assim evitando sobreajuste. Embora diversas condições clínicas e acadêmicas tenham sido inicialmente consideradas, apenas aquelas que se mantiveram estatisticamente significativas foram incluídas nas análises multivariadas.

Neste estudo, todos os fatores estatisticamente associados aos desfechos (prorrogação e trancamento) foram denominados fatores associados. Para fins de interpretação, aqueles com razão de chance (OR) > 1 foram considerados fatores de risco, e aqueles com OR < 1, fatores de proteção.

Aspectos éticos

O estudo foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº: 56048822.9.0000.5393 e parecer nº 5.384.965. Foram respeitados todos os preceitos estabelecidos na Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

Da amostra de 5.245 estudantes dos quais foram obtidas respostas válidas relacionadas à prorrogação de prazo, identificou-se prevalência de 38,7% na solicitação de prorrogação durante a pandemia de COVID-19. A prorrogação foi, predominantemente, solicitada por estudantes que tinham entre 18 e 39 anos (38%), eram solteiros (38,8%), não tinham filhos (39%), declararam não ter renda (46,2%) nem afiliação religiosa (42,2%), identificavam-se como pessoas não binárias (40,5%), não heterossexuais (42,5%), identificados como “outras” categorias raciais (46,7%) e que viviam com duas a três pessoas (39,6%).

No contexto acadêmico, a prorrogação obteve maior prevalência entre doutorandos (44,9%), especialmente na Região Sudeste (39,2%), nas áreas de Ciências Biológicas (49,3%) e Engenharias (46,6%), bolsistas (39,7%) e aqueles com emprego não vinculado (41,3%). Além disso, esses pós-graduandos não precisavam viajar para estudar (39,7%), dedicavam mais de 40 horas aos estudos (42,0%), não tiveram aulas remotas (60,1%), consideraram aulas remotas inferiores às aulas presenciais (40,1%), sentiram que sua formação foi prejudicada (45,2%) e expressaram insatisfação com o ensino on-line (48,2%).

No contexto de saúde relacionado à COVID-19 dos discentes, verificou-se maior prevalência de prorrogações entre aqueles que manifestaram medo de contrair e/ou transmitir COVID-19 (38,4%) e faziam parte do grupo de risco incluindo tabagismo anterior à pandemia (45,7%), gestantes (48,2%), com hipertensão arterial (23,2%) e problemas renais (50,9%).

As prorrogações de prazos também foram mais frequentes entre aqueles que fizeram uso de medicamentos em geral, sem prescrição médica (40,9%), utilizaram medicamentos para se proteger da COVID-19 por conta própria (37,9%), autorreferiram testes positivos para COVID-19 (39,2%), residiam com pessoas que testaram positivo para COVID-19 e que desenvolveram sintomas graves e internação (47,8%) e foram ao óbito (47,7%).

Ademais, no grupo de participantes que realizaram prorrogação de prazos, muitos relataram ter utilizado os serviços de saúde três ou mais vezes no último ano (39,7%). Além disso, grande parte recebeu acompanhamento médico durante a pandemia (41,2%) e muitos referiram problemas de saúde mental (45,3%).

Em relação à saúde mental, houve elevada prevalência de prorrogação do prazo entre aqueles que disseram não ter se sentido bem psicologicamente no último ano (38,8%); passaram por acompanhamento psicológico antes da pandemia (40,2%), sobretudo por Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) (50,9%), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) (41,6%) e depressão (38,3%).

Observou-se ainda elevada prevalência entre participantes que, durante a pandemia, fizeram acompanhamento para os transtornos mentais (44,3%), sendo os mais recorrentes o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) (51,6%), TAB (51,1%) e Síndrome do Pânico (SP) (50,2%), bem como naqueles que tinham algum membro da família com transtorno mental (39,9%), sendo mais frequente no cônjuge (43,7%). Além disso, a prorrogação foi observada naqueles com diagnóstico de transtorno mental (44,4%), diagnósticos de transtorno de TEPT (49,5%), TAB (48,4%) e SP (46,1%), naqueles que relataram não se sentir bem psicologicamente durante a pandemia e precisaram se afastar (49,9%), nos discentes com TMC positivo (42,9%) e naqueles que fizeram uso de psicofármacos durante a pandemia (50,8%), sendo os mais frequentes os potencializadores de cognição (56,2%), antidepressivos (45,2%) e ansiolíticos (43,3%).

O modelo final da análise de regressão logística revelou os fatores de risco e de proteção dos pós-graduandos que realizaram prorrogação de prazo para conclusão de curso de pós-graduação stricto sensu (Tabela 1).

Tabela 1-
Análise de regressão logística final dos fatores associados à prorrogação de prazo para conclusão de curso de pós-graduação stricto sensu (N = 5.245). Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2022

Para a análise do trancamento de curso, foram consideradas 5.286 respostas válidas. Deste total, 254 participantes (4,8%) relataram ter realizado o trancamento da matrícula durante a pandemia, constituindo os casos positivos do desfecho. O maior percentual foi observado entre alunos com 60 anos ou mais (11,9%), que tinham companheiros (a) (5,7%), com um filho ou menos (8,8%), que se autodeclararam racialmente como “outros” (8,5%).

O trancamento foi mais elevado entre pós-graduandos nas Regiões Norte (6,7%), Centro-Oeste (6,0%) e Sul (4,9%). Dentro da grande área de conhecimento CAPES de Engenharias (7,5%), predominaram aqueles não bolsistas (6,1%), que tinham emprego formal (6,5%), dedicavam menos de 40 horas semanais aos estudos (4,9%), não tiveram aula remota (8,0%), relataram prejuízos em sua formação (5,7%) e insatisfação com o ensino on-line (6,0%).

Para o trancamento de curso, a prevalência foi maior entre pós-graduandos pertencentes ao grupo de risco da COVID-19 (8,0%), principalmente entre aqueles com problemas renais (18,9%) e gestantes (12,3%). Também foi mais elevado em indivíduos que necessitaram de internação por COVID-19 (15,2%), conviviam com pessoas que testaram positivo para a doença (5,4%), apresentaram sintomas graves que exigiram hospitalização (9,8%) e buscaram serviços de saúde três ou mais vezes no último ano (5,4%).

O trancamento também foi mais frequente entre os que realizaram acompanhamento médico durante a pandemia (6,4%), sobretudo nos grupos com problemas vasculares (10,1%), gastrointestinais (7,8%) e de saúde mental (7,7%).

Ainda no contexto de saúde mental, prevalências mais elevadas para o trancamento foram observadas entre os discentes que relataram não se sentir bem psicologicamente no último ano (5,0%), que procuraram atendimento psicológico antes da pandemia com relatos de diagnósticos de TAB (17,0%) e depressão (7,2%) e que fizeram acompanhamento psicológico antes da pandemia (5,5%) e já acompanhavam para tratar esquizofrenia anteriormente à pandemia (33,3%).

Ademais, o trancamento também foi mais observado entre os que fizeram acompanhamento psicológico durante a pandemia (6,6%), com diagnósticos de TEPT (17,4%), TAB (17,0%) e SP (10,5%), que tinham um familiar com diagnóstico de transtorno mental (5,8%), com destaque para filhos (14,1%) e cônjuges (8,6%); naqueles que já tinham diagnósticos de transtorno mental (8,5%), com destaque para TEPT (16,2%), TAB (12,9%) e depressão (9,9%); nos que precisaram se afastar de suas atividades por não se sentirem bem (8,7%) e naqueles com TMC positivo (5,9%), entre aqueles que utilizavam psicofármacos antes da pandemia (7,5%) e os que passaram a utilizá-los durante esse período (10,6%). Como exemplos de psicofármacos mais utilizados, emergiram os sedativos (11,5%), os antipsicóticos (10,7%) e os potencializadores de cognição (10,2%).

O modelo final da análise de regressão logística revelou os fatores de risco e de proteção dos pós-graduandos que solicitaram o trancamento de matrícula do curso de pós-graduação stricto sensu (Tabela 2).

Tabela 2-
Modelo de regressão logística final dos fatores associados ao trancamento de curso de pós-graduação stricto sensu (N = 5.286). Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2022

Discussão

Os resultados deste estudo indicam que a prorrogação de prazo e o trancamento de matrícula na pós-graduação stricto sensu no Brasil estiveram diretamente associados aos desafios acadêmicos, financeiros e de saúde mental no período investigado. A pandemia da COVID-19 agravou esses fatores, ao expor as vulnerabilidades estruturais no ensino superior(20) e dificultar a continuidade dos estudos em diferentes áreas do conhecimento(6-7,11-12,21-23). A crise sanitária impôs transformações abruptas nas instituições acadêmicas, o que exigiu adaptações nos modelos de ensino e no suporte aos discentes.

Entre os principais fatores de risco relacionados à prorrogação de prazo, destacam-se estar matriculado no doutorado, cursar Engenharias ou Ciências Biológicas, percepção de prejuízos na formação e apresentar problemas de saúde mental. O trancamento de matrícula, por sua vez, esteve relacionado a estar cursando pós-graduação em Engenharia, à percepção de prejuízos na formação intensificados pela pandemia, ao diagnóstico de transtornos mentais e à necessidade de afastamento acadêmico.

Assim, enquanto a prorrogação de prazo reflete uma tentativa de continuidade acadêmica, mesmo diante de adversidades, o trancamento representa uma interrupção mais significativa do percurso formativo, geralmente associada às condições mais graves de comprometimento emocional, institucional ou de saúde. Embora ambos os desfechos estejam vinculados à vulnerabilidade estudantil, eles demandam respostas institucionais distintas, ajustadas ao grau de comprometimento e às características do contexto vivenciado pelos discentes.

A rápida transição para o ensino remoto revelou dificuldades estruturais importantes, como a falta de infraestrutura tecnológica e a exclusão digital de estudantes com menor poder aquisitivo(3,7,14). Tais obstáculos afetaram de forma desigual os programas de pós-graduação, sendo particularmente evidentes em áreas que dependem de atividades práticas, como as Engenharias, nas quais a migração para o ensino remoto limitou significativamente o desenvolvimento de pesquisas experimentais, sobretudo aquelas que exigiam acesso aos laboratórios e às atividades de campo(24).

Mesmo antes da pandemia, estudantes de doutorado já enfrentavam desafios para manter o bem-estar físico e mental diante da intensa carga acadêmica e da falta de tempo para autocuidado(9,15,25). Com a pandemia, essas dificuldades agravaram-se pela necessidade de conciliar ensino remoto, continuidade das pesquisas e responsabilidades familiares, muitas vezes sem suporte financeiro ou social adequado(11-12,26-27).

A sobrecarga acadêmica, as incertezas acerca do futuro e as perdas pessoais intensificaram transtornos como ansiedade e depressão, destacando a necessidade de um suporte institucional mais efetivo(5,15,28). A elevada exigência acadêmica e a pressão por produtividade afetaram significativamente a saúde mental dos pós-graduandos, que passaram a apresentar altos níveis de estresse com consequente comprometimento da permanência e desempenho acadêmico(5,11). Ademais, a dificuldade de equilibrar as demandas acadêmicas, pessoais e financeiras pode ser reconhecida como um obstáculo crítico para o bem-estar desses estudantes e reforçar a importância de estratégias institucionais para a mitigação desses impactos(6,11-12).

Destaca-se que a pandemia agravou significativamente o cenário de sofrimento psíquico entre estudantes, especialmente daqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica, em razão do isolamento social e da redução das interações presenciais(3-4,7,24). A prevalência de transtornos mentais comuns (TMC) entre pós-graduandos brasileiros alcançou 63,5%, associada aos fatores como dificuldades acadêmicas, insegurança financeira, prorrogação de prazos e afastamentos temporários dos estudos(5,27). Em resposta às pressões vivenciadas, muitos recorreram ao uso de psicofármacos sem acompanhamento médico, o que evidencia a urgência da implementação de políticas institucionais que fortaleçam o suporte em saúde mental e incentivem estratégias de enfrentamento mais seguras e eficazes(9,15,25).

Estudos indicam que, durante a pandemia de COVID-19, houve um aumento expressivo nos sintomas de ansiedade e depressão entre estudantes universitários, especialmente entre aqueles vinculados à área da saúde. A prevalência de sintomas depressivos variou entre 31% e 38%, enquanto os de ansiedade alcançaram cerca de 41%(29). Entre pesquisadores de pós-graduação, aproximadamente 70% relataram sofrimento psicológico de leve a grave, apesar dos níveis mais elevados de letramento em saúde mental(30). Esses achados ressaltam a importância de políticas institucionais para garantir atenção contínua à saúde mental desse público, particularmente diante da exposição prolongada aos múltiplos estressores acadêmicos e pessoais(25,27,29-30).

A presença de dificuldades acadêmicas intensificadas pela pandemia, a migração para o ensino remoto e a sobrecarga vivenciada por docentes e discentes durante esse período pode ter contribuído para maior vulnerabilidade emocional dos discentes, evidenciando a necessidade de estratégias institucionais para fortalecer o suporte acadêmico e a saúde mental(11,24). Segundo pesquisas, uma relação positiva entre orientador e pós-graduando pode reduzir significativamente o estresse acadêmico (β = -0.27, p < 0.01), sendo esse efeito parcialmente mediado pela autoeficácia (β = -0.14, p < 0.01) e moderado pela resiliência psicológica (β = -0.10, p < 0.01)(26). Nesse contexto, a qualidade da orientação acadêmica e a existência de um ambiente de suporte mostram-se fundamentais para minimizar os impactos negativos da pós-graduação(11,26) e reduzir a necessidade de prorrogações e trancamentos(9,12).

Entre os participantes que relataram acesso às aulas remotas, observou-se menor frequência de prorrogação do curso, o que justifica o resultado deste atuar como fator protetor nesse subgrupo, apesar de representar somente 40% da amostra. A despeito das dificuldades para adaptação ao ensino remoto, a participação em aulas virtuais mostrou-se um fator protetor contra a prorrogação de prazos, possivelmente pela flexibilidade proporcionada por esse modelo. A possibilidade de gerenciar melhor o tempo, acessar novas oportunidades de aprendizado e aumentar a produtividade favoreceu a continuidade acadêmica dos estudantes(6,21-22,24).

Estudos prévios já apontavam que a eliminação da necessidade de deslocamento físico facilitou a permanência de muitos pós-graduandos em seus cursos, ao reduzir barreiras logísticas e otimizar o tempo dedicado às atividades acadêmicas(4,24). Além disso, a ampliação do acesso aos cursos e conteúdos antes restritos aos determinados locais, juntamente com a flexibilização dos horários de estudo, beneficiou especialmente os estudantes que conciliavam atividades acadêmicas e profissionais, tornando o ensino mais acessível e adaptável às suas realidades(11,24,26).

Um achado merecedor de destaque é o fato de que o diagnóstico prévio de hipertensão arterial sistêmica, embora classificado como fator de risco para complicações da COVID-19, foi identificado neste estudo como um fator protetor contra a prorrogação de curso na pós-graduação stricto sensu. Uma possível explicação para esse resultado é que estudantes com hipertensão, por estarem em acompanhamento médico contínuo, tendem a apresentar maior adesão às práticas de autocuidado, maior consciência sobre a gestão do estresse e melhor estruturação de rotinas pessoais e acadêmicas, mesmo diante das adversidades impostas pela pandemia.

Embora a hipertensão seja geralmente associada aos piores desfechos clínicos(31), ela pode também funcionar como um marcador de maior vigilância à saúde, particularmente em indivíduos com acesso a serviços médicos e suporte terapêutico(32). De acordo com estudos recentes, fatores como atividade física, resiliência psicológica e estratégias de enfrentamento positivas podem mitigar os efeitos do estresse sobre a saúde mental e acadêmica de pessoas hipertensas(31-32). Assim, o diagnóstico prévio pode refletir não apenas uma condição crônica, mas também uma trajetória de adaptação e cuidado, o que pode ter favorecido a continuidade das atividades acadêmicas durante o período pandêmico.

Ainda assim, trata-se de um achado não usual e pouco explorado na literatura científica. Faz-se, portanto, necessária investigação complementar em estudos futuros para elucidar os mecanismos envolvidos e avaliar se esse padrão confirma-se em outras populações acadêmicas ou contextos institucionais.

As implicações deste estudo reforçam a necessidade urgente de políticas institucionais voltadas à promoção da saúde mental e à mitigação dos impactos da sobrecarga acadêmica na pós-graduação. Estratégias eficazes incluem a ampliação do suporte psicológico, a capacitação de orientadores, a flexibilização acadêmica e o fortalecimento da assistência estudantil, no sentido de garantir condições mais equitativas para a permanência dos discentes(5,8-9). Ademais, destaca-se a importância da reformulação das matrizes curriculares, para torná-las mais eficazes e flexíveis, de modo a assegurar a sustentabilidade da pós-graduação e reduzir a incidência de prorrogações e evasões(21).

O fortalecimento do suporte psicológico revelou-se essencial, envolvendo a ampliação dos serviços de atendimento nas universidades, a criação de grupos de apoio, ações de acolhimento e programas de mentoria acadêmica. Essas iniciativas poderão contribuir para um ambiente universitário mais saudável e reduzir os impactos negativos da pressão acadêmica sobre os estudantes(21,25).

Embora a relação entre orientador e estudante não tenha sido diretamente avaliada neste estudo, a literatura destaca sua importância como fator determinante para o sucesso acadêmico(26-27). A capacitação de orientadores revela-se, portanto, fundamental. Estratégias institucionais que incentivem a formação continuada dos docentes, com foco em uma orientação mais humanizada e sensível às necessidades dos discentes, podem minimizar os impactos negativos de um acompanhamento inadequado. A implementação de diretrizes institucionais que estabeleçam boas práticas na orientação acadêmica contribui diretamente para um ambiente mais produtivo, colaborativo e menos estressante(26-27).

A flexibilização acadêmica deve ser incentivada, a fim de permitir ajustes nos prazos de conclusão de disciplinas, dissertações e teses para que os estudantes possam superar períodos de maior dificuldade sem comprometer a trajetória acadêmica. A adaptação das avaliações e a promoção de currículos mais flexíveis tornam o ensino mais acessível e sustentável, com consequente redução das taxas de prorrogação de prazos e trancamento de matrículas(28).

O apoio financeiro e a assistência estudantil são fundamentais para garantir a permanência dos pós-graduandos. A ampliação de bolsas de pesquisa, auxílios financeiros para transporte e moradia e a criação de programas de financiamento estudantil podem minimizar a evasão acadêmica motivada por dificuldades econômicas. A segurança financeira, comprovadamente, reduz a vulnerabilidade dos estudantes e melhora a capacidade de enfrentar os desafios da pós-graduação(5,21).

Outrossim, a promoção do bem-estar e de estratégias de enfrentamento saudáveis deve ser incentivada por meio de atividades culturais, esportivas e sociais, que atuam como fatores de proteção à saúde mental. Programas de mentoria entre pares, incentivo à prática de atividades físicas e a criação de espaços de convivência dentro das universidades auxiliam na redução do estresse e no fortalecimento das redes de apoio social(26,28).

Por fim, o monitoramento contínuo da saúde mental dos discentes deve ser implementado por meio de pesquisas institucionais periódicas, para subsidiar a elaboração de políticas eficazes de suporte. O desenvolvimento de plataformas anônimas para denúncia de más práticas acadêmicas e assédio pode contribuir para um ambiente acadêmico mais seguro e acolhedor. A adoção de estratégias institucionais que priorizem tanto a excelência acadêmica quanto o bem-estar dos discentes é essencial para um sistema educacional mais sustentável e equitativo(3,7,9,11,25,29-30).

Mesmo com as contribuições deste estudo, algumas limitações devem ser consideradas. O delineamento transversal impede a determinação de causalidade entre os fatores analisados e os desfechos acadêmicos, limitando-se à identificação de associações. A coleta de dados autodeclarados pode ter gerado viés de resposta, especialmente em questões sensíveis, como saúde mental e insegurança financeira. Além disso, a ausência de dados qualitativos restringe uma compreensão mais aprofundada sobre as percepções dos pós-graduandos em relação ao suporte institucional e às estratégias individuais de enfrentamento.

A representatividade da amostra pode não abranger todas as realidades da pós-graduação brasileira, o que indica a necessidade de estudos futuros para contemplar diferentes contextos institucionais e regionais. Pesquisas longitudinais são essenciais para avaliar o impacto de políticas institucionais na permanência acadêmica e na saúde mental dos discentes ao longo do tempo. Além disso, abordagens qualitativas podem aprofundar a análise dos desafios enfrentados e das estratégias utilizadas pelos estudantes para lidar com as adversidades acadêmicas(25).

Diante dos desafios identificados, é essencial que as instituições de ensino invistam em estratégias integradas promotoras de saúde mental e fortalecedoras da permanência dos pós-graduandos. A ampliação do suporte psicológico, a capacitação humanizada de orientadores, a flexibilização acadêmica, o investimento em assistência estudantil e a promoção do bem-estar devem compor um conjunto de ações contínuas e acessíveis, ajustadas à diversidade sociocultural e digital dos estudantes. Tais medidas não apenas reduzem a evasão e o sofrimento psíquico como fortalecem o sistema educacional, contribuindo para um percurso acadêmico mais equitativo, saudável e favorável ao desenvolvimento científico e profissional.

Conclusão

Este estudo evidenciou que a prorrogação do prazo e o trancamento de curso na pós-graduação stricto sensu, durante a pandemia de COVID-19, foram influenciados por fatores de risco e de proteção de natureza acadêmica, pessoal e psicossocial. A prorrogação esteve associada, principalmente, ao vínculo com programas de doutorado, às áreas de Engenharias e Ciências Biológicas, à percepção de prejuízos na formação e à presença de transtornos mentais. Em contrapartida, a participação em aulas remotas e o diagnóstico prévio de hipertensão atuaram como fatores de proteção, embora limitações como a precariedade da infraestrutura tecnológica e a redução da interação social tenham sido desafios relevantes para muitos discentes.

O trancamento esteve relacionado aos fatores como parentalidade, dificuldades vivenciadas durante a pandemia, histórico de afastamento e problemas de saúde mental, enquanto o recebimento de bolsa emergiu como fator protetivo. Os resultados destacam a centralidade da saúde mental na permanência acadêmica e reforçam a necessidade de políticas institucionais voltadas ao apoio psicossocial, à redução das desigualdades socioeconômicas, à flexibilização de trajetórias formativas e à promoção de ambientes acadêmicos mais inclusivos, sobretudo em contextos de crise.

Agradecimentos

Agradecemos a Maysa Ferreira Martins Ribeiro pela colaboração na fase de concepção do estudo; a Miyeko Hayashida e Jonas Bodini Alonso pela colaboração na fase de análise de dados.

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  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.
  • *
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Fatores associados à prorrogação e trancamento de curso em programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil durante a pandemia da COVID-19”, apresentada à Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, GO, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES - Código de Financiamento 001, processo IMPACTOS1986301P.
  • Como citar este artigo
    Teixeira LR, Miasso AI, Rezende MAD, Molina NPFM, Vila VSC. Factors associated with extensions and withdrawals from stricto sensu graduate programs in Brazil during the COVID-19 pandemic: emphasis on mental health. Rev. Latino-Am. Enfermagem. [cited]. Available from: https://doi.org/10.1590/1518-8345.7988.4753

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lucia do Carmo Cruz Robazzi

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2025
  • Aceito
    17 Jul 2025
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