Objetivo: desenvolver uma matriz de competências para profissionais de saúde no cuidado às pessoas com condições crônicas.
Método: pesquisa de avaliação de impacto ex-post-facto, fundamentada na Teoria de Aprendizagem Experiencial de David Kolb. Foram adotadas as recomendações do SQUIRE 2.0. Foram analisados projetos de intervenção do Curso de Especialização em Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis. A análise envolveu pré-análise, exploração, codificação, categorização, tratamento dos resultados, inferência e interpretação com o software AtlasTi®.
Resultados: foram analisados 337 projetos, adaptados à estrutura teórica de David Kolb sobre o ciclo de aprendizagem experiencial, que compreendeu quatro domínios: identificação, análise, problematização e transformação. Esses resultados subsidiaram a elaboração de uma matriz de competências gerais e específicas.
Conclusão: a matriz proposta contribuiu para a qualificação de profissionais de saúde, preparou especialistas para trabalhar com condições crônicas e reforçou a importância do pensamento crítico, das habilidades analíticas e da aplicação do conhecimento, promovendo uma compreensão abrangente de questões complexas no aprendizado.
Descritores:
Educação Baseada em Competências; Doença Crônica; Avaliação em Saúde; Educação em Enfermagem; Equipe Multiprofissional; Educação Profissional em Saúde Pública.
Destaques:
(1) Matriz de competências para o cuidado de condições crônicas em saúde pública. (2) Relevância da qualificação profissional para o enfrentamento das condições crônicas. (3) Estudo baseado na Teoria da Aprendizagem Experiencial de David Kolb. (4) Pensamento crítico enfatiza a importância do pensamento crítico em saúde. (5) A importância das habilidades analíticas no aprendizado em saúde.
Objective: to develop a competency matrix for healthcare professionals caring for people with chronic conditions.
Method: ex-post-facto impact assessment research, based on David Kolb’s Experiential Learning Theory. The recommendations of SQUIRE 2.0 were adopted. Intervention projects from the Specialization Course in Care for People with Chronic Noncommunicable Diseases were analyzed. The analysis involved pre-analysis, exploration, coding, categorization, treatment of results, inference, and interpretation using AtlasTi® software.
Results: 337 projects were analyzed, adapted to David Kolb’s theoretical framework on the experiential learning cycle, which comprised four domains: identification, analysis, problematization, and transformation. These results supported the development of a matrix of general and specific competencies.
Conclusion: the proposed matrix contributed to the qualification of health professionals, prepares specialists to work with chronic conditions and reinforced the importance of critical thinking, analytical skills, and the application of knowledge, promoting a comprehensive understanding of complex issues in learning.
Descriptors:
Competency-Based Education; Chronic Disease; Health Assessment; Nursing Education; Multidisciplinary Team; Public Health Professional Education.
Highlights:
(1) Competency matrix for the care of chronic conditions in public health. (2) Relevance of professional qualifications for dealing with chronic conditions. (3) Study based on David Kolb’s Theory of Experiential Learning. (4) Critical thinking emphasizes the importance of critical thinking in health. (5) The importance of analytical skills in health learning.
Objetivo: desarrollar una matriz de competencias para profesionales de la salud en la atención a personas con condiciones crónicas.
Método: investigación de evaluación de impacto ex post facto, fundamentada en la Teoría del Aprendizaje Experiencial de David Kolb. Se adoptaron las recomendaciones del SQUIRE 2.0. Se analizaron proyectos de intervención del Curso de Especialización en Atención a las Personas con Enfermedades Crónicas no Transmisibles. El análisis involucró preanálisis, exploración, codificación, categorización, tratamiento de los resultados, inferencia e interpretación con el software AtlasTi®.
Resultados: se analizaron 337 proyectos, adaptados al marco teórico de David Kolb sobre el ciclo de aprendizaje experiencial, que comprendió cuatro dominios: identificación, análisis, problematización y transformación. Estos resultados respaldaron la elaboración de una matriz de competencias generales y específicas.
Conclusión: la matriz propuesta contribuye a la cualificación de profesionales de la salud, preparó a especialistas para trabajar con condiciones crónicas y reforzó la importancia del pensamiento crítico, de las habilidades analíticas y de la aplicación del conocimiento, promoviendo una comprensión amplia de cuestiones complejas en el aprendizaje.
Descriptores:
Educación Basada em Competencias; Enfermedad Crónica; Evaluación em Salud; Educación em Enfermería; Equipo Multiprofesional; Educación em Salud Pública Profesional
Destacados:
(1) Matriz de competencias para la atención de condiciones crónicas en salud pública. (2) Relevancia de la cualificación profesional para el abordaje de las condiciones crónicas. (3) Estudio basado en la Teoría del Aprendizaje Experiencial de David Kolb. (4) Pensamiento crítico: enfatiza la importancia del pensamiento crítico en salud. (5) La importancia de las habilidades analíticas en el aprendizaje en salud.
Introdução
A Educação Permanente em Saúde (EPS) é uma estratégia que integra a aprendizagem ao processo de trabalho para transformar as práticas em saúde. A Atenção Primária à Saúde (APS) tem se mostrado um espaço potente para a consolidação da EPS, pois promove a reflexão e a aprendizagem a partir das singularidades do território1. Nesse contexto, a Educação Terapêutica do Paciente (ETP) emergiu como uma estratégia relevante para o manejo de condições crônicas não transmissíveis (CCNT), destacando-se por seu papel na promoção do autocuidado e na melhoria da gestão dessas condições, tanto ao nível individual quanto populacional2.
A inserção da ETP nos currículos de formação de profissionais de saúde tem sido incentivada em diversos países, especialmente na Europa, com medidas voltadas à revisão das regulamentações da força de trabalho, à inclusão de programas educacionais específicos e à ampliação das responsabilidades dos profissionais de saúde em áreas interdisciplinares2. Essas ações reforçam a importância de preparar profissionais não apenas para prestar assistência imediata, mas também para educar os pacientes, tornando o cuidado mais eficaz e abrangente.
A competência dos profissionais de saúde é definida pela combinação de Conhecimentos, Habilidades e Atitudes (CHA), indispensáveis para garantir um atendimento de qualidade e promover a saúde de forma efetiva3. Nesse sentido, a educação permanente em saúde tem um papel central, sendo uma ferramenta estratégica para garantir que os profissionais mantenham-se atualizados e capacitados para atender às demandas da população, principalmente no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), que abrange uma vasta rede de trabalhadores em todo o país4. A 4ª Conferência Nacional de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde reforçou a necessidade de valorizar esses profissionais por meio de investimentos em sua formação contínua4.
Dentre as diversas teorias educacionais aplicáveis à formação em saúde, a Teoria da Aprendizagem Experiencial de David Kolb, psicólogo, professor e teórico da educação americano, destaca-se por integrar experiências concretas e processos cognitivos, promovendo um ciclo de aprendizado que envolve experimentação ativa e reflexão crítica5. A teoria experiencial oferece suporte para práticas que otimizam como os adultos constroem e organizam o conhecimento. Isso é feito ao identificar e detalhar modelos e estilos de aprendizagem que se caracterizam por traços únicos e predominantes. Um estilo de aprendizagem é definido como “[... ] um estado duradouro e estável que deriva de configurações consistentes das transações entre o indivíduo e o seu meio ambiente”5.
Os diferentes estilos de aprendizagem são organizados e definidos por quatro modelos adaptativos que se interligam de forma cíclica. Nesse processo, o estudante ou aprendiz vivencia a Experiência Concreta (EC), que corresponde ao contato direto com a situação, envolvendo o fazer e o experienciar, pautando-se em conhecimentos preexistentes. Segue-se a Observação Reflexiva (OR), que consiste em um movimento introspectivo de reflexão sobre a ação realizada, visando identificar seus efeitos e as relações estabelecidas. Posteriormente, ocorre a Conceituação Abstrata (CA), caracterizada pela formação de conceitos abstratos, por meio da generalização de regras e princípios, bem como pela síntese dos elementos da experiência que foram refletidos. Por fim, a Experimentação Ativa (EA), que é um movimento voltado para o exterior, aplicando, na prática, os conhecimentos e os processos de pensamento refletidos, explicados e generalizados5.
Esta teoria tem como foco a inclusão das experiências do indivíduo e o processo de aprendizagem e mudança ocorrem a partir do envolvimento de experiências emocionais concretas e integradas aos processos cognitivos6-7. Essa abordagem não só favorece o desenvolvimento do pensamento crítico, como também incentiva os alunos a tornarem-se participantes ativos no processo. Assim, as características da aprendizagem experiencial são o ato de aprender na prática, refletir sobre um conhecimento, explorar o novo, utilizar conceitos teóricos e aceitar desafios8.
Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo desenvolver uma matriz de competências para profissionais de saúde no cuidado às pessoas com condições crônicas. A matriz foi construída a partir da análise de 337 projetos de intervenção elaborados por profissionais egressos de um curso de especialização ofertado por uma universidade pública do Sul do Brasil, com ênfase em condições como diabetes, hipertensão, obesidade e tabagismo, e com intervenções voltadas à educação, promoção da saúde e gestão do cuidado em contextos multidisciplinares.
Método
Trata-se de uma pesquisa de Avaliação de Impacto do tipo ex-post-facto, originada de uma tese de doutorado em Enfermagem, que analisou um Curso de Especialização em Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis. O curso foi oferecido por uma universidade pública localizada na cidade de Florianópolis, em Santa Catarina, na Região Sul do Brasil e adotou a Teoria da Aprendizagem Experiencial5 como seu referencial teórico-metodológico, analisado sob essa perspectiva teórica.
A redação deste estudo seguiu as diretrizes do SQUIRE 2.0 (Standards for Quality Improvement Reporting Excellence), adequadas para pesquisas que descrevem intervenções voltadas à qualificação do cuidado em saúde. Essa escolha metodológica justifica-se pela natureza da pesquisa, que se fundamentou na análise documental de 337 projetos de intervenção desenvolvidos por profissionais de saúde durante a especialização sobre condições crônicas. Esses projetos, implementados em contextos reais do SUS, tinham como objetivo aprimorar as práticas assistenciais, o que alinha o estudo ao escopo do SQUIRE, que busca promover mudanças sustentadas na qualidade do cuidado.
Coleta e organização dos dados
Os dados examinados para este estudo foram obtidos em 2024 e originaram-se dos trabalhos de conclusão dos profissionais de saúde que finalizaram o curso. Todos os 337 projetos de intervenção (PI) foram lidos e submetidos a uma análise rigorosa. É importante ressaltar que os documentos analisados, de acesso público, estão disponíveis na plataforma online ARES (Acervo de Recursos Educacionais em Saúde), da UNA-SUS (Universidade Aberta do SUS), onde o curso foi desenvolvido. O acesso pode ser feito pelo seguinte endereço: https://ares.unasus.gov.br/acervo/.
Para a organização e análise desses documentos, os arquivos foram importados no formato Word para o software Atlas.Ti® na versão 24.1.1.30183.
Análise dos dados
A análise dos dados foi conduzida em duas etapas, seguindo a operacionalização do software Atlas.Ti® para dados qualitativos, os quais incluíram: Importação de Dados; Organização dos Dados; Codificação; Análise de Códigos; Criação de Redes; Interpretação dos Resultados; Geração de Relatórios e, por fim, a análise das redes geradas pelo software. Com base nas redes de conceitos criadas no Atlas.Ti®, a matriz de competências foi construída, aplicando o modelo teórico e metodológico do curso de especialização no processo de análise. A partir da sistematização e organização das competências gerais e específicas, os resultados apresentam trechos textuais dos trabalhos de conclusão que ilustram a categoria ou competência. Essas foram caracterizadas a partir de Kolb5) como: experiência concreta (contexto da realidade); observação reflexiva (problematização); conceitualização abstrata (justificativa e exequibilidade) e experimentação ativa (método e aplicação), bem como do processo de construção e implementação dos projetos de intervenção. Cada ciclo recebeu um novo conceito para representar cada etapa do processo de aprendizagem de Kolb5) (Figura 1) e caracterizar uma definição elucidativa do movimento realizado pelo egresso nesse processo, os quais foram identificados como domínios6. Para aprimorar a visualização e clareza das informações, a ferramenta Miro® foi utilizada na elaboração da imagem ilustrativa.
Domínios do Ciclo de Aprendizagem Experiencial do Curso de Especialização Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Florianópolis, SC, Brasil, 2024
Aspectos éticos e confidencialidade
Embora se trate de uma pesquisa documental que geralmente dispensa aprovação ética, o presente estudo obteve parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) número 66635322.0.0000.0121. Foram seguidas as normas estabelecidas pela Resolução n.º 466 de 2012, do Conselho Nacional de Saúde, e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Para garantir o anonimato dos autores, os 337 Projetos de Intervenção (PI) foram codificados sequencialmente, recebendo a identificação de PI 1 a PI 337. A custódia dos documentos foi realizada por um controlador (pessoa natural responsável pelas decisões sobre o tratamento de dados pessoais, consentimento dos titulares, informação sobre seus direitos e segurança das informações) e um operador (pessoa jurídica que executa o tratamento dos dados pessoais sob a orientação do controlador)9.
Resultados
A etapa de análise, que seguiu a operacionalização de dados qualitativos do software ATLAS.Ti®, compreendeu a importação, organização e codificação dos dados, bem como a análise dos códigos. Esse processo resultou na rede de relações conceituais, que serviu de base para a elaboração da matriz de competências (Figura 2), adaptada posteriormente no software Miro®.
Matriz de competências para o enfrentamento das condições crônicas. Florianópolis, SC, Brasil, 2024
Adicionalmente, elaborou-se uma síntese descritiva que pormenoriza a aplicação das competências em cada eixo da teoria de Kolb, com especial enfoque no contexto do cuidado às pessoas com condições crônicas (Figura 3). Essa síntese compreendeu o Eixo 1: Relações e comunicações interpessoais e interprofissionais; o Eixo 2: Profissionalismo e Ética; o Eixo 3: Enfoque dirigido à pessoa, família e comunidade e o Eixo 4: Gestão e avaliação.
Detalhamento da aplicação das competências enfocadas no contexto de cuidado às pessoas com condições crônicas do Curso de Especialização Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Florianópolis, SC, Brasil, 2024
Discussão
O desenvolvimento de uma matriz de competências adaptada da teoria de Kolb5) representa uma abordagem inovadora e robusta para o ensino em saúde, particularmente voltada para o manejo das CCNT. O ciclo experiencial que envolve as fases de experiência concreta, observação reflexiva, conceitualização abstrata e experimentação ativa, oferece uma metodologia altamente aplicável aos contextos clínicos complexos e desafiadores. Ao seguir esse ciclo, os profissionais de saúde não apenas adquirem conhecimento teórico, mas também aprimoram suas habilidades práticas por meio da reflexão crítica e da experimentação ativa em situações reais6. Essa integração fomenta o desenvolvimento de competências indispensáveis para o cuidado de condições crônicas, que exigem abordagens adaptativas e multidisciplinares9.
A Experiência Concreta, a primeira fase do ciclo de Kolb, alinha-se com o Eixo 1: Relações e Comunicações Interpessoais e Interprofissionais. Nesta etapa, o foco está na identificação de problemas, no reconhecimento de lacunas e na caracterização das necessidades específicas do cuidado em saúde para pessoas com condições crônicas. Esse processo exige a observação ativa de situações reais e a interação contínua com outros profissionais e com os próprios pacientes, o que é fundamental para o trabalho em equipe eficaz e a comunicação interpessoal. A literatura corrobora a eficácia da comunicação como um elemento importante em todas as profissões de saúde e nas instituições. Ela impulsiona a inovação, o desenvolvimento de estratégias de comunicação e o uso de tecnologias que promovam uma interação clara e objetiva10-11. Além disso, a capacidade de adaptar a linguagem para diferentes públicos, seja a equipe multiprofissional, sejam os pacientes e suas famílias, contribui significativamente para aumentar a adesão ao tratamento e a percepção de cuidado11. Isso ocorre porque uma comunicação eficaz esclarece dúvidas, suaviza sentimentos diante das condições clínicas e favorece o estabelecimento de vínculo afetivo, gerando benefícios diretos para a qualidade da assistência e para a recuperação dos pacientes12.
Essa fase inicial da Experiência Concreta é fundamental, pois estabelece a base para o engajamento interpessoal e interprofissional, promovendo a colaboração entre diferentes especialidades. A Atenção Primária Interprofissional (Interprofessional Primary Care - IPC), como um modelo de assistência colaborativa ao paciente, torna-se cada vez mais vital no cenário de sistemas de saúde complexos e diante das crescentes necessidades dos pacientes13. Dessa forma, a Experiência Concreta facilita as interações colaborativas e é vista como o ponto de partida para a criação de uma matriz de competências focada na atenção às CCNT.
A Observação Reflexiva, segunda fase do ciclo, está diretamente ligada ao Eixo 2: Profissionalismo e Ética. Nessa etapa, o profissional dedica-se a refletir criticamente sobre as ações realizadas, analisando os eventos vivenciados e os resultados obtidos. Profissionais que trabalham com pacientes crônicos enfrentam desafios éticos contínuos, como garantir o respeito à autonomia dos pacientes e à confidencialidade, ao mesmo tempo que promovem a justiça social no acesso aos tratamentos14. Para que a assistência alcance um patamar de alta qualidade ética, é imprescindível que os princípios de respeito à autonomia do paciente e justiça sejam devidamente considerados15. A capacidade de refletir sobre essas questões permite que os profissionais de saúde aprimorem continuamente suas práticas, assegurando que suas ações obedeçam a padrões éticos elevados.
Nessa fase de observação reflexiva, a aprendizagem experiencial também fomenta o desenvolvimento de uma visão crítica e criativa. Profissionais precisam ser capazes de contextualizar situações complexas e aprofundar a reflexão, um processo que pode ser descrito como um aprendizado criativo, dinâmico e transformador, que aprimora a prática ao promover a autoconsciência e o pensamento crítico16.
Dessa forma, o Eixo 2, que aborda o profissionalismo e a ética, evidencia como a observação reflexiva contribui significativamente para a formação de profissionais de saúde aptos a atuar com responsabilidade e sensibilidade diante dos dilemas éticos, especialmente em contextos de longa duração, como as CCNT.
Na sequência, a Conceitualização Abstrata, a terceira fase do ciclo, corresponde ao Eixo 3: Enfoque na Pessoa, Família e Comunidade. Nessa etapa, os profissionais de saúde analisam os dados coletados e as observações realizadas para construir interpretações críticas sobre as condições de saúde dos pacientes. Aqui, a ênfase recai na capacidade dos profissionais de associar as condições crônicas aos determinantes sociais, culturais e familiares, além de prover tratamento, aconselhamento sobre gestão da saúde e troca de informações, especialmente para indivíduos que convivem com doenças crônicas17-18. A conceitualização abstrata envolve comparar a experiência atual com situações semelhantes, generalizar regras e princípios, e sintetizar ideias a partir de discussões, formando um núcleo comum de conceitos compartilhados19. Essa abordagem permite que os profissionais de saúde adaptem suas intervenções de forma holística, atendendo às necessidades físicas, emocionais e sociais do paciente.
Essa fase é especialmente relevante no manejo das CCNT, em que a adesão ao tratamento e o acompanhamento regular são fundamentais. Ao integrar essa análise crítica com o foco nas famílias e comunidades, os profissionais são capacitados a oferecer um cuidado que vai além do tratamento médico. Isso promove uma abordagem integral da saúde, que inclui a educação do paciente e o fortalecimento de redes de apoio comunitários.
Por fim, a Experimentação Ativa, última fase do ciclo, alinha-se ao Eixo 4: Gestão e Avaliação. Nessa etapa, os profissionais de saúde aplicam o conhecimento adquirido diretamente na prática clínica. Isso impulsiona a transformação dos processos de trabalho e a implementação de estratégias baseadas em evidências científicas. O cerne da experimentação ativa é a ação: ela representa a aplicação prática de conhecimentos e processos de pensamento em novas situações, sempre com ênfase na colaboração e no trabalho em equipe20.
A educação sobre doenças crônicas capacita as pessoas, fornecendo-lhes o conhecimento, a competência e os recursos necessários para compreender melhor sua condição, tomar decisões eficazes sobre o tratamento e adotar escolhas de estilo de vida saudáveis. Essa educação geralmente abrange informações sobre a natureza das condições crônicas, incluindo suas causas e sintomas, opções de tratamento e estratégias de gestão. Nesse contexto, o desenvolvimento profissional contínuo é essencial para garantir que os profissionais de saúde estejam sempre atualizados e preparados para enfrentar os desafios impostos pelas CCNT21.
A matriz de competências proposta é, portanto, uma ferramenta indispensável para alinhar os princípios teóricos estudados com as necessidades reais dos profissionais de saúde que atuam no manejo de condições crônicas. Ao se seguir as fases do ciclo de Kolb, os profissionais tornam-se capacitados a desenvolver competências que não apenas respondem às demandas técnicas do cuidado, mas também promovem a reflexão crítica, a análise contextual e a experimentação prática, todas essenciais para o enfrentamento dos desafios complexos associados às CCNT.
Adicionalmente, a matriz de competências proposta reforça a necessidade de uma Educação Permanente em Saúde. Essa necessidade é amplamente enfatizada pelo Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis (Plano DANT), que preconiza o desenvolvimento contínuo das habilidades dos profissionais de saúde para lidar com as crescentes demandas das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT)21. Esse aprimoramento é essencial não apenas para melhorar a qualidade do cuidado prestado, mas também para garantir que os profissionais estejam aptos a atuar de maneira proativa e inovadora no complexo contexto da saúde pública.
Assim, a matriz de competências, ao integrar a teoria com a prática por meio da aprendizagem experiencial, promove uma abordagem que prepara os profissionais de saúde para transformar a realidade do cuidado em saúde. Ao unir as quatro fases do ciclo de Kolb com os quatro eixos da matriz, os profissionais são preparados para enfrentar as condições crônicas de maneira inovadora, eficiente e humanizada, contribuindo para a melhoria contínua dos serviços de saúde e para o bem-estar das comunidades atendidas.
A pesquisa salienta que a maioria dos egressos era composta por enfermeiros. Desse modo, a matriz de competências reforça a importância do enfermeiro como um dos pilares para a cooperação no atendimento. Reconhece-se a habilidade e o conhecimento desses profissionais em orientar atividades educativas junto a pacientes, família, comunidade e equipes, conectando-os em redes de apoio. A prática ajusta-se à realidade local, possibilitando ao enfermeiro oferecer um cuidado mais eficiente, humanizado e focado nas verdadeiras necessidades das pessoas. Isso contribui de forma significativa para a melhoria dos resultados de saúde e para a efetivação da atenção integral.
Este estudo, por basear-se exclusivamente em dados qualitativos oriundos de projetos de intervenção, apresenta limitações inerentes ao seu desenho metodológico. Essa abordagem pode restringir a amplitude das evidências sobre a eficácia da matriz de competências em diferentes contextos de prática clínica, dificultando a generalização dos achados. Além disso, por se tratar de uma análise documental ex-post-facto, não foi possível realizar entrevistas ou triangulações complementares para aprofundar os resultados.
Para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que possam avaliar a aplicação e o impacto da matriz em diversos cenários de saúde e regiões. A inclusão de metodologias quantitativas também se mostra relevante para mensurar de forma mais robusta os resultados obtidos com o uso da matriz de competências. Outra oportunidade seria o desenvolvimento de estudos comparativos entre diferentes abordagens educacionais, a fim de verificar o potencial de replicabilidade da aprendizagem experiencial em outros contextos de saúde e formação profissional. Tais investigações poderiam ampliar a validade externa da proposta e fornecer uma compreensão mais abrangente de seu impacto.
Conclusão
A análise dos projetos de intervenção, realizada por meio do modelo de aprendizagem experiencial de Kolb, permitiu desvelar um rol de competências que apoiam a gestão da prática clínica no âmbito das Condições Crônicas de Saúde (CCS). Essa abordagem não apenas combina a teoria com a prática para proporcionar uma formação que prepare os profissionais de saúde para enfrentarem os desafios das CCS nos mais variados contextos, mas também amplia o escopo de atuação da Enfermagem como campo protagonista na promoção da saúde.
A matriz de competências desenvolvida, além de preparar especialistas para atuar com CCS, reforça a importância do pensamento crítico, das características analíticas e da aplicação do conhecimento, promovendo uma maior compreensão de questões complexas no aprendizado em saúde.
Agradecimentos
Ao Grupo Lites - Laboratório Interdisciplinar de Tecnologias Educacionais em Saúde.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
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» https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/doencas-cronicas-nao-transmissiveis-dcnt/09-plano-de-dant-2022_2030.pdf/view
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Artigo extraído da tese de doutorado “Competências pós-qualificação de profissionais da saúde para o enfrentamento as pessoas com condições crônicas face ao modelo de aprendizagem experiencial”, apresentada à Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. Apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 443751/2020-0 e da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado Santa Catarina (FAPESC), processo nº 2022TR001898, Brasil.
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Como citar este artigo:
Ramos SF, Amadigi FR, Gonçalves N, Waterkemper R, Silva KL, Lino MM. Competency matrix for healthcare professionals caring for people with chronic conditions. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4759 [cited ano mês dia]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7751.4759Todos os autores aprovaram a versão final do texto.
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Editora Associada:
Maria Lucia do Carmo Cruz Robazzi


