Open-access Estudo multicêntrico sobre satisfação, estresse e condições de trabalho na Enfermagem em países latino-americanos *

Objetivo: avaliar o nível de satisfação profissional, os estressores e as condições de trabalho dos profissionais de enfermagem em alguns países da América Latina durante a pandemia de COVID-19.

Método: estudo transversal realizado com profissionais de enfermagem atuantes em instituições hospitalares, de atenção primária, educacionais, governamentais, de pesquisa, comerciais e independentes. Foi realizada uma pesquisa online que avaliou a satisfação com o instrumento Font-Roja , as características sociodemográficas, os fatores de estresse e as condições de trabalho.

Resultados: participaram 1.215 trabalhadores da Argentina, Colômbia, México, Equador e Panamá. O escore geral de satisfação foi 81,5 (DP:11,6). Houve menor satisfação nas dimensões tensão, pressão, características extrínsecas e monotonia. Foi relatado aumento no estresse no trabalho (84,3%), carga de trabalho (81,3%), medo do SARSCoV-2 (67,7%), incerteza no trabalho (51,2%) e redução salarial (20,4%). Os fatores laborais relacionados à satisfação foram: recomendação do emprego, jornada mista, trabalho assistencial, aumento do estresse, aumento da carga horária, redução salarial e compra de elementos de proteção.

Conclusão: os aspectos da satisfação no trabalho mais afetados durante a pandemia foram pressão, tensão, falta de independência e monotonia no trabalho; esta satisfação foi reduzida devido ao aumento do estresse e da carga de trabalho, aquisição de elementos de proteção individual e redução salarial.

Descritores:
Estresse Ocupacional; Coronavírus; Sobrecarga de Trabalho; Satisfação no Trabalho; Pesquisa em Enfermagem; Multicêntrico


Destaques:

(1) A satisfação no trabalho na América Latina é percebida como um fator de estresse.

(2) É evidenciada a injustiça salarial na Enfermagem durante a pandemia.

(3) A pressão e a tensão percebidas pela profissão limitam a sua autonomia e independência.

(4) A satisfação está diretamente relacionada ao nível educacional e ao cargo ocupado.

Objective: to assess the job satisfaction level, stressors and working conditions of nursing professionals in some Latin American countries during the COVID-19 pandemic.

Methods: this is a cross-sectional study of nursing professionals working in hospital, primary care, educational, governmental, research, commercial and independent institutions. An online survey was carried out to assess satisfaction with the Font-Roja instrument, sociodemographic characteristics, stress factors and working conditions.

Results: a total of 1,215 workers from Argentina, Colombia, Mexico, Ecuador and Panama participated. The overall satisfaction score was 81.5 (SD:11.6). There was less satisfaction in the dimensions of tension, pressure, extrinsic characteristics and monotony. Increased stress at work (84.3%), workload (81.3%), fear of SARS-CoV-2 (67.7%), uncertainty at work (51.2%) and salary reduction (20.4%) were reported. The work factors related to satisfaction were, as follows: job recommendation, mixed working hours, care work, increased stress, increased workload, salary reduction and purchase of protective equipment.

Conclusion: the aspects of job satisfaction most affected during the pandemic were pressure, tension, lack of independence and monotony at work; this satisfaction was reduced due to increased stress and workload, the acquisition of personal protective equipment and a reduction in salary.

Descriptors:
Occupational Stress; Coronavirus; Work Overload; Job Satisfaction; Nursing Research; Multicenter


Highlights:

(1) Job satisfaction in Latin America is perceived as a stress factor.

(2) Wage injustice in nursing during the pandemic is highlighted.

(3) The pressure and tension perceived by the profession limits their autonomy and independence.

(4) Satisfaction is directly related to educational level and the position held.

Objetivo: evaluar el nivel de satisfacción laboral, los estresores y las condiciones laborales de profesionales de enfermería en algunos países latinoamericanos durante la pandemia por COVID-19.

Método: estudio transversal con profesionales de enfermería activos laboralmente en instituciones hospitalarias, de atención primaria, educativas, gubernamentales, de investigación, comerciales e independientes. Se realizó una encuesta por internet que evaluó la satisfacción con el instrumento Font-Roja, las características sociodemográficas, los factores de estrés y las condiciones de trabajo.

Resultados: participaron 1.215 trabajadores de Argentina, Colombia, México, Ecuador y Panamá. El puntaje global de satisfacción fue 81,5 (DE:11,6). Hubo menor satisfacción en las dimensiones de tensión, presión, características extrínsecas y monotonía. Se reportó un incrementó del estrés laboral (84,3%), carga laboral (81,3%), miedo al SARS-CoV-2 (67,7%), incertidumbre laboral (51,2%) y reducción salarial (20,4%). Los factores laborales relacionados con la satisfacción fueron: recomendar el trabajo, jornada mixta, trabajo asistencial, incremento del estrés, aumento de la carga, reducción salarial y compra de elementos de protección.

Conclusión: los aspectos de la satisfacción laboral más afectados durante la pandemia fueron la presión, tensión, falta de independencia y monotonía laboral; esta satisfacción se redujo ante el aumento del estrés y la carga laboral, compra de elementos de protección personal y reducción salarial.

Descriptores:
Estrés Ocupacional; Coronavirus; Sobrecarga de Trabajo; Satisfacción Laboral; Investigación en Enfermería; Multicéntrico


Puntos destacados:

(1) Se evidencia injusticia salarial en Enfermería durante la pandemia

(2) La presión y tensión percibida por la profesión limitan su autonomía e independencia.

(3) La satisfacción está directamente relacionada con el nivel educativo y el cargo desempeñado.

Introdução

Durante o início de 2020, a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV2 tornou-se um desafio sem precedentes para os trabalhadores da saúde: a emergência sanitária modificou suas rotinas e condições de trabalho, aumentando o esgotamento e gerando uma sobrecarga de trabalho significativa ( 1 ) . Os profissionais de enfermagem têm sofrido o impacto da pandemia não só no nível laboral, mas também no nível pessoal. Este impacto pode ser medido em termos de maior exposição a situações estressantes, aumento da carga de trabalho, maior probabilidade de contágio e aumento da pressão para enfrentar a situação de emergência com resiliência. Estas condições levaram ao êxodo, à insatisfação no trabalho e até mesmo a problemas de saúde física e mental ( 2 ) .

Estima-se que existam aproximadamente 28 milhões de profissionais de enfermagem em todo o mundo e que um terço (8,4 milhões) trabalhe na Região das Américas. Desse número, 59% correspondem a profissionais ou graduados que prestam seus serviços em diversas áreas de atuação ( 3 ) . Estes números posicionam os profissionais de enfermagem como a maior força de trabalho durante a pandemia da COVID-19. Contudo, a emergência sanitária produziu desgastes nesta força de trabalho causados por jornadas exaustivas de trabalho, cargas adicionais, deserção de emprego e falta de preparo dos sistemas de saúde para enfrentar situações de crise ( 4 ) .

Como prova destes efeitos, foi relatado que, antes da pandemia, apenas 30% dos enfermeiros nos Estados Unidos da América estavam dispostos a procurar outro emprego. Durante a pandemia, porém, esse número subiu para 60% ( 5 ) . Da mesma forma, no Reino Unido foi evidente que, durante a pandemia, 60% dos enfermeiros estavam insatisfeitos e desmoralizados com o seu trabalho, especialmente quando perceberam pouco apoio laboral após contraírem o vírus ( 6 ) e escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs), situação que gerou níveis mais baixos de satisfação no trabalho ( 7 ) .

Por outro lado, a pandemia de COVID-19 evidenciou a insegurança laboral, não só nas condições instáveis de emprego e contratação, mas também na imposição de uma maior carga de trabalho sob a pressão de ser demitido, situação que pode ser considerada abuso laboral e produzir alterações físicas e psicológicas em quem a sofre ( 8 ) .

Por tudo isso, é necessário conhecer as condições de trabalho dos profissionais de enfermagem durante esta fase de crise global, especialmente no contexto latino-americano, onde se projeta uma maior deterioração na qualidade do emprego e se considera que a enfermagem é uma das profissões laboralmente vulneráveis ( 9 ) . O objetivo do presente estudo foi avaliar o nível de satisfação no trabalho, os estressores e as condições de trabalho dos profissionais de enfermagem em alguns países da América Latina durante a pandemia de COVID-19 ( 10 ) .

Método

Tipo de estudo

Estudo transversal, correlacional e multicêntrico.

Local e período

A partir do eixo Colômbia da Red Internacional de Enfermería Basada en la Evidencia REDIEBE ( 11 ) , países latino-americanos da rede foram convidados a participar voluntariamente do estudo, estabelecendo os países Argentina, Colômbia, México, Equador e Panamá como focos do estudo.

População e amostra

Buscou-se a participação de graduados em enfermagem ou de profissionais atuantes na área como enfermeiros com desempenho nos âmbitos da atenção primária, hospitalar, domiciliar, docência, gerência, pesquisa, comerciais e de trabalho independente, com mais de seis meses de experiência, e que desejassem participar de forma anônima e voluntária. Foram excluídos da amostra os aposentados, estudantes ou estagiários. A amostragem foi por conveniência, levando em consideração o número de enfermeiros informado pela Organização Pan-Americana da Saúde para cada país participante ( 12 ) , com nível de confiança de 95% e erro estimado de 10% com previsão de 20% de perdas. O tamanho da amostra foi de 805 enfermeiros, porém, 1.215 enfermeiros responderam à pesquisa, obtendo-se uma amostra maior que o tamanho estimado.

Variáveis do estudo e instrumentos utilizados

Foi realizada uma pesquisa online por meio de um formulário do Google Forms . A pesquisa foi autopreenchida pelos participantes voluntariamente e incluiu as seguintes seções:

Dados sociodemográficos: idade, sexo, estado civil, país e número de pessoas a cargo dos profissionais. O nível socioeconômico foi avaliado levando-se em consideração a classificação utilizada pela Divisão de Desenvolvimento Social da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) ( 13 ) e as pessoas foram autorizadas a se autoidentificar entre as categorias de nível baixo, médio e alto.

Satisfação no trabalho: a satisfação no trabalho é entendida como o julgamento positivo ou negativo que o trabalhador faz sobre sua situação de trabalho, desde uma perspectiva cognitiva que contempla as características e atributos que um trabalho deve ter, bem como a partir da resposta emocional ou afetiva em relação ao trabalho como um todo ( 14 ) . Para avaliar a satisfação foi utilizado o questionário Font-Roja elaborado por Aranaz ( 15 ) , obtendo autorização do autor para sua utilização. Este questionário é composto por 9 dimensões (satisfação no trabalho, tensão, competência profissional, pressão, promoção profissional, relacionamento interpessoal-chefes, relacionamento interpessoal-colegas, características extrínsecas e monotonia), com 24 itens distribuídos nas 9 dimensões e avaliados em uma escala tipo Likert de 5 pontos na qual 1 significa “discordo totalmente” e 5 “concordo totalmente” para os itens 6, 7, 12 a 17 e 19, utilizando pontuação invertida para os demais itens, obtendo uma pontuação global que varia de 24 a 120 pontos. O questionário também possui características psicométricas de validade, confiabilidade e consistência interna ( 15 - 16 ) .

Fatores de estresse no trabalho: foi questionado se os profissionais de enfermagem devido à pandemia sentiram aumento do estresse no trabalho, maior carga horária, medo de se infectar pelo SARS-Cov-2, instabilidade no emprego, redução de salário e necessidade de aquisição de equipamentos de proteção individual (EPIs) pagando do próprio bolso. Foram utilizadas opções de resposta dicotômicas (sim/não) para essas questões.

Condições de trabalho: investigou-se o tipo de instituição onde o profissional de enfermagem trabalhava para que ele pudesse se identificar com uma das categorias, levando em consideração o local onde trabalharam por mais tempo, sendo classificado a priori da seguinte forma: 1-Assistencial (hospitais, unidades básicas de saúde ou atenção domiciliar), 2-Educacional (escolas, universidades ou centros de ensino), 3-Gestão pública (secretarias de governo, ministérios, prefeituras, câmaras municipais), 4-Comercial (indústria farmacêutica, venda de produtos), 5-Pesquisa (laboratórios, institutos nacionais, centros de pesquisa) e 6-Independente ou atividade por conta própria (consultor/assessor, contratista).

Foram investigados o tipo de contrato de trabalho, o nível acadêmico, os anos de experiência no momento da pesquisa, o tipo de jornada laboral (diurna, noturna ou mista) e a jornada de trabalho semanal. Foi realizada uma adaptação linguística das perguntas em relação aos termos trabalhistas utilizados em cada país participante. Para isso, os colaboradores dos países foram solicitados a revisar a pesquisa online e em uma revisão por pares foram feitas as alterações dos termos que não fossem de fácil compreensão.

Coleta e análise de dados

A pesquisa foi divulgada por meio de sindicatos, redes de trabalho, redes sociais e boca a boca para obter uma amostra de profissionais de enfermagem que coincidisse com o público-alvo. O refinamento dos dados foi realizada excluindo aqueles que não atendiam aos critérios de inclusão. Os dados foram descritos por meio de medidas de tendência central e dispersão de acordo com sua distribuição. A satisfação no trabalho foi relatada, para cada item, como a pontuação média juntamente com seu respectivo desvio-padrão, que abrangeu um intervalo de 0 a 5. Além disso, ao final do relatório, foi relacionada a soma geral de satisfação para cada um dos países estudados.

Ao exposto, acrescenta-se a análise das características sociodemográficas, laborais e de estresse. Para realizar esta análise, no que diz respeito às variáveis qualitativas, comparou-se a média do escore de satisfação no trabalho com as variáveis sociodemográficas e laborais por meio do teste de Fisher e do qui-quadrado de Pearson, para as variáveis quantitativas foram utilizados os testes t-Student, Anova e tendência. Adicionalmente, foi realizada correlação de Spearman entre a satisfação no trabalho e as variáveis estudadas. Por fim, para identificar os fatores que estavam relacionados à satisfação no trabalho, foi utilizado um modelo de regressão linear. Utilizou-se o programa Stata/ 17 SE para a análise.

Aspectos éticos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidad Manuela Beltrán , termo de avaliação número 20072820, e foi realizado considerando os códigos de Nuremberg e Belmont e a Resolução 8.430 de 1993, seção número 2, do Ministério de Proteção Social e Saúde da Colômbia. Foi solicitado um consentimento informado virtual antes do preenchimento da pesquisa que esteve disponível no formulário Google .

Resultados

Entre outubro de 2021 e abril de 2022 participaram 1.221 enfermeiros, foram excluídos dois aposentados e quatro estudantes de enfermagem, restando uma amostra final de 1.215 participantes. Quanto às características sociodemográficas, a amostra foi composta majoritariamente por mulheres (79,2%), com idade mediana de 38 anos, de nível socioeconômico médio (85,8%), casadas ou vivendo em casal (51,2%) sendo graduandos/graduados (53,7%) ( Tabela 1 ). Além disso, dependendo do país de origem dos entrevistados, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em cada uma das variáveis mencionadas: a idade mediana mais alta foi no Equador; a menor proporção de mulheres, na Argentina; a melhor condição socioeconômica foi a da Colômbia e a maior proporção de enfermeiros com mestrado e doutoramento encontrou-se no Equador.

Quanto às condições de trabalho, constatou-se que a amostra era composta, em sua maioria, por profissionais de enfermagem que atuam em instituições de saúde como hospitais, unidades básicas de saúde e atenção domiciliar (73,1%), e que mais da metade estava vinculada às empresas onde prestavam os seus serviços com contrato por tempo indeterminado (58,1%). Desta amostra, cerca de metade tinha trabalho diurno ou misto (53,6% e 41,7% respetivamente); a mediana de horas trabalhadas foi de 42 e a mediana de experiência profissional foi de 10 anos ( Tabela 1 ).

Foram encontradas diferenças importantes nas condições de trabalho entre países. Por exemplo, na Argentina predominou a participação de enfermeiros assistenciais com maior estabilidade contratual, enquanto, na Colômbia, havia mais enfermeiros que trabalhavam durante o dia com maior número de horas trabalhadas por semana. No Equador, por sua vez, os participantes tinham mais experiência profissional ( Tabela 1 ).

Tabela 1 -
Características sociodemográficas e condições de trabalho durante a pandemia de COVID-19 em profissionais de enfermagem de alguns países da América Latina (n * = 1215). Argentina, Colômbia, México, Equador e Panamá, 2021-2022

A Tabela 2 apresenta os resultados da satisfação no trabalho para cada dimensão e item de acordo com o país. Observa-se aí que as médias de satisfação global foram menores na Argentina e no Panamá. Existem também evidências, no nível geral, de menor satisfação nas dimensões de tensão e pressão relacionadas com o trabalho e a monotonia laboral. As dimensões das relações interpessoais com chefes e colegas foram avaliadas com maior satisfação no trabalho.

Ao analisar os dados, observou-se menor satisfação nos itens relacionados à fadiga/cansaço do trabalhador, carga de trabalho, falta de tempo e independência e monotonia. Pelo contrário, a melhor avaliação foi obtida nas capacidades de promoção profissional e no relacionamento entre chefes e colegas. No geral, a satisfação foi avaliada com pontuação média de 81,5 de 120 pontos, com desvio-padrão (DP) de 11,8 pontos ( Tabela 2 ).

Tabela 2 -
Escores de satisfação no trabalho durante a pandemia de COVID-19 em profissionais de enfermagem em cinco países latino-americanos (n * = 1215). Argentina, Colômbia, México, Equador e Panamá, 2021-2022
Tabela 3 -
Características do trabalho relacionadas à pandemia de COVID-19 em trabalhadores de enfermagem em alguns países da América Latina (n * = 1215). Argentina, Colômbia, México, Equador e Panamá, 2021-2022

Em relação aos fatores de estresse no trabalho durante a pandemia de COVID-19, a maioria dos entrevistados relatou estresse (84,3%) e aumento da carga de trabalho (81,3%); pelo contrário, apenas 20,4% sofreram redução salarial e 35% reportaram mudança para o teletrabalho. Na comparação entre os países, foram encontradas diferenças importantes: na Argentina foi relatada maior proporção de estresse no trabalho (90,3%; p<0,001), enquanto a maioria dos profissionais mexicanos expressou medo devido à exposição ao vírus (81%; p=0,02); por sua vez, os enfermeiros do Panamá perceberam mais sobrecarga (89,5%; p<0,001) e incerteza no trabalho (66,1%; p<0,001); os profissionais colombianos e equatorianos foram os que mais enfrentaram a mudança para o teletrabalho (53,1% e 55,7% respectivamente; p<0,001).

Por fim, foi realizado um modelo de regressão linear, encontrando fatores socioeconômicos e de trabalho relacionados ao nível de satisfação profissional dos profissionais de enfermagem, sendo eles: nível socioeconômico, estado civil, tipo de instituição onde trabalhavam no momento da pesquisa, recomendar ou não o trabalho, estresse percebido, redução salarial, compra de EPIs pagando do próprio bolso e aumento da carga horária devido à pandemia.

Ter um nível socioeconômico médio aumentou a satisfação em média em 3,5 pontos (IC 95%: 1,4; 5,6), enquanto estar em um nível alto aumentou a satisfação em 9,9 pontos (IC 95%: 4,3;15) quando comparado com enfermeiros de baixo nível econômico (p < 0,001). Da mesma forma, os profissionais que recomendaram seu trabalho apresentaram média 8,7 pontos (IC 95%:6,4;11) acima daqueles que não o recomendaram. Pelo contrário, os níveis de satisfação no trabalho foram reduzidos em média em 2,3 pontos (IC 95%: -3,8;-0,8) naqueles que alternam entre turnos diurnos e noturnos e em 3,8 pontos (IC 95%: -5,7;-1,9) naqueles que atuam em instituições de saúde, comparando esses dados com instituições de ensino ou pesquisa. Da mesma forma, devido à pandemia, a satisfação caiu 5,4 pontos (IC 95%:-7,3;-3,5) em quem tinha maior estresse no trabalho, 4 pontos (IC 95%:-5,7;-2,3) em quem viu seu salário reduzido, 3,2 pontos (IC 95%:-4,5;-0,8) naqueles que tiveram que comprar EPIs pagando do próprio bolso e 2,7 pontos (IC 95%:-4,6;-0,9) nos que relataram aumento na carga de trabalho ( Figura 1 ).

Figura 1 -
Fatores relacionados aos escores de satisfação no trabalho durante a pandemia de COVID-19 em enfermeiros de alguns países da América Latina: Argentina, Colômbia, México, Equador e Panamá, 2021-2022

Discussão

Neste estudo, observou-se um nível moderado de satisfação profissional entre os profissionais de enfermagem, com diferenças entre os países participantes. Também foi encontrado um índice de satisfação mais elevado para a Colômbia em comparação com o relatado em 2014 por 105 enfermeiros assistenciais da cidade de Bogotá, Colômbia (69,98 DP: 5,67) com a utilização do mesmo instrumento Font-Roja ( 17 ) . Pelo contrário, no México, em 2012, foi relatada uma média mais elevada de satisfação no trabalho (101; DP:10) com base nos resultados de 594 enfermeiros de quatro instituições de saúde ( 18 ) . Por outro lado, em Córdoba, Argentina, evidenciou-se que, de 333 inquéritos realizadas em hospitais públicos, o maior índice de insatisfação esteve relacionado ao crescimento profissional na instituição e ao valor da remuneração ( 19 ) .

Os itens em que se registrou maior insatisfação (tanto intrínseca quanto extrínseca) foram aqueles que de alguma forma avaliaram como os trabalhadores perceberam suas possibilidades de crescimento, tanto na instituição quanto economicamente. Assim, uma proporção significativa dos profissionais pesquisados enfrentou suas tarefas diárias com a percepção de que não recebe um salário adequado nem teve possibilidade de promoção no local onde presta serviço.

Estes resultados díspares podem ser explicados pelo contexto da pandemia, bem como pelo tipo de instituições a que os participantes estão vinculados. Exemplo disso é que no nosso estudo constatou-se que trabalhar na área da saúde estava associado a uma menor satisfação em comparação com outras áreas.

Da mesma forma, neste estudo as mulheres participaram em maior proporção, embora não tenham sido encontradas diferenças na satisfação por sexo. Contrariamente a isto, observou-se que as enfermeiras têm tido menor satisfação profissional em comparação com os homens ( 20 ) e maior estresse laboral ( 21 ) . Os processos de formação e emprego em enfermagem têm sido predominantemente femininos, uma vez que o ato de cuidar está socialmente vinculado às mulheres ( 22 ) , também de acordo com o relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para a Região das Américas, aproximadamente 87% do pessoal de enfermagem são mulheres ( 10 ) . Isto significa que as mulheres são a maioria na força de trabalho dos cuidados e, consequentemente, têm uma maior carga por conta desses cuidados ( 23 ) .

Outro achado de interesse foi a relação entre o nível socioeconômico e a satisfação no trabalho. Esse fenômeno já foi descrito anteriormente considerando o salário e sua relação com a satisfação ( 24 ) , constatando que quanto melhor o nível econômico, melhor a percepção de satisfação. Além do nível socioeconômico obtido por meio do salário, é importante levar em consideração outros aspectos na avaliação da satisfação no trabalho, como longas jornadas de trabalho e necessidades de tempo e descanso ( 25 ) . Além disso, observou-se que as enfermeiras perceberam uma injustiça salarial, quando comparados os seus salários com o que ganhavam outras profissões com menor responsabilidade ou carga horária, disparidade salarial que pode ser determinada pela discriminação de gênero, causando insatisfação profissional em uma profissão com predominância do sexo feminino ( 26 ) .

Ressalta-se que, nos âmbitos de assistência à saúde, a pandemia causou maior impacto no trabalho, devido a jornadas prolongadas, falta ou perda de pessoal, risco de infecção e limitações em equipamentos de proteção individual ( 2 ) . Por exemplo, em Israel, a satisfação profissional dos enfermeiros foi avaliada durante a pandemia, sendo menor naqueles que trabalhavam em hospitais, que testaram positivo para COVID-19 ou que tinham equipamento de proteção individual deficiente ( 7 ) . Além disso, há maior insatisfação quando os enfermeiros não conseguem prestar os cuidados necessários aos pacientes, quando não têm apoio e supervisão, quando há falta de pessoal ou quando se sentem incapazes de fazer uma pausa e precisam fazer horas extras ( 6 ) . Embora os enfermeiros docentes tenham relatado uma satisfação média mais elevada do que os enfermeiros assistenciais, isso não significa que não tenham enfrentado múltiplos desafios de trabalho, como a necessidade de adaptação abrupta às tecnologias educacionais remotas.

Outro aspecto importante a ser analisado é a carga de trabalho, considerada o estressor que mais frequente e negativamente se relaciona com a satisfação no trabalho e a qualidade do cuidado percebida ( 27 ) . Por exemplo, quem trabalhava em Unidades de Terapia Intensiva teve maior exposição a estressores ( 28 ) e aumento na frequência de sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático ( 29 ) .

O vínculo empregatício também desempenha um papel fundamental no bem-estar do trabalhador. No presente estudo constatou-se que apenas 58,1% dos trabalhadores de enfermagem participantes possuíam contrato por tempo indeterminado. Embora as condições de trabalho anteriores à pandemia indicassem a necessidade de reduzir a informalidade, os salários abaixo do mínimo legal ou a falta de segurança social, é possível que, com a pandemia, estes fenómenos tenham se agravado ( 9 ) . Por isso, os contratos estáveis devem ser favorecidos, pois têm demonstrado efeito positivo nas atitudes em relação à comunicação, inteligência emocional e empatia ( 30 ) , além de favorecer a saúde do trabalhador em aspectos como nível de estresse, qualidade do sono, burnout , taxas de rotatividade do pessoal, e otimização do atendimento ( 31 - 33 ) .

Além do exposto, a pandemia também provocou alterações na remuneração salarial em cerca de 30% dos enfermeiros que participaram do estudo. Considerou-se que a percepção de um salário baixo também foi um fator estressante para a equipe de enfermagem durante a pandemia, principalmente quando aumentaram a carga de trabalho, o cansaço e o risco de infecção ( 34 ) . Ainda assim, no Líbano, 38,3% dos enfermeiros que trabalharam durante a pandemia o fizeram porque precisavam de um salário para as suas famílias, mesmo que quisessem pedir demissão ( 35 ) .

Por outro lado, a pandemia de COVID-19 obrigou a uma mudança na dinâmica de trabalho, sendo relatada menor satisfação laboral por trabalhadores de turnos diurnos e noturnos, bem como um aumento da carga de trabalho, maior estresse no trabalho e incerteza laboral, com diferenças importantes entre os países participantes. Além disso, a satisfação foi menor nos itens relacionados à carga de trabalho, cansaço e falta de tempo e independência. Da mesma forma, no México, os enfermeiros que trabalharam mais de 12 horas por dia durante a pandemia sofreram maior estresse ( 36 ) , e no Uruguai 52,4% dos entrevistados trabalharam até 12 horas, 96,1% viram seu ritmo de trabalho acelerado e 87% sentiram um aumento na carga de trabalho quando a pandemia começou, em comparação com a que tinham normalmente ( 37 ) . Da mesma forma, no Peru, 38,8% dos enfermeiros relataram estresse moderado durante a pandemia ( 38 ) e no Equador, mais de 90% dos médicos e enfermeiros relataram esgotamento profissional ( 39 ) . O medo de ter que se expor ao vírus foi outra das preocupações laborais dos participantes (65,4%). Esse medo surge principalmente na prestação de cuidados diretos, o que denota vulnerabilidade a um cenário de maior carga horária e instabilidade laboral ( 40 ) .

Todos esses achados mostram a necessidade de os países da América Latina estabelecerem políticas que garantam condições de trabalho mais justas, sem disparidades entre as diferentes áreas de atuação dos enfermeiros, como é o caso da Colômbia, onde foi relatada uma mediana de trabalho de 48 horas por semana, muito superior aos outros países participantes.

Além disso, este estudo fornece evidências de como alguns aspectos sociodemográficos e trabalhistas afetam a percepção da satisfação profissional dos profissionais de enfermagem, principalmente em países onde persiste a fragilidade laboral devido às condições de contratação, à sobrecarga e ao clima organizacional, além da falta de preparo dos sistemas de saúde ( 41 ) .

Embora tenha sido difícil conseguir a participação dos profissionais de enfermagem nos diferentes países latino-americanos dada a dinâmica da pandemia e as limitações de disponibilidade de tempo, as associações de enfermagem foram uma forma facilitadora para a coleta de dados. Espera-se que, em estudos futuros, seja avaliada a percepção de satisfação e sua relação com a qualidade de vida ou saúde do trabalhador, ou em situações como o trabalho múltiplo ou o desempenho simultâneo de funções, aspectos não avaliados neste estudo.

Conclusão

A satisfação profissional da enfermagem em alguns países latino-americanos durante a pandemia diminuiu devido à percepção de pressão e tensão, falta de independência e monotonia. Além disso, os profissionais de enfermagem estavam mais satisfeitos com seu trabalho quando possuíam nível socioeconômico mais elevado e quando seu estado civil era solteiro, casado ou vivia em casal.

Adicionalmente, em termos de condições de trabalho, a satisfação foi menor naqueles que trabalhavam em ambientes de saúde, em turnos mistos (diurno e noturno) ou não recomendavam o seu trabalho. Diante das implicações que a pandemia teve no trabalho, a satisfação diminuiu para quem percebeu aumento da carga horária, maior estresse e redução salarial. O dito anteriormente confirma que, com efeito, a pandemia de COVID-19 teve um impacto negativo na insegurança no trabalho e, portanto, na satisfação profissional dos enfermeiros em alguns países latino-americanos.

Proteger a segurança do emprego dos enfermeiros é fundamental. São necessárias normas internacionais e nacionais que possam ser aplicadas juntamente com políticas laborais, para melhorar as condições de emprego dos enfermeiros e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A negociação coletiva por meio da participação em sindicatos e redes pode ser uma forma de exigir emprego e condições de trabalho mais justas.

Agradecimentos

Agradecemos aos Profissionais de Enfermagem pela colaboração na elaboração da pesquisa: Yahaira Oran, Giovanna Figueroa Castillo, Gerardo Fernández, Amalia Silva, Rosa Nury Zambrano, Lina Marcela Parra, Rosa Villareal Unisangil e Julia Karina Mejía Rincón.

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  • Todos os autores aprovaram a versão final do texto.
  • *
    Apoio financeiro da Universidad Manuela Beltrán, processo nº 20072820, Colômbia.
  • Como citar este artigo
    Tiga-Loza DC, Mancilla-Lucumi A, Castro-Bernal MA, Llanganate-Osorio DM, Vergara-Escobar OJ, Acosta EGR. Multicenter study on satisfaction, stress and working conditions in nursing in Latin American countries. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4392 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7337.4392

Editado por

  • Editora Associada:
    Lorena Chaparro Díaz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    27 Fev 2024
  • Aceito
    18 Jul 2024
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