Open-access Conhecimentos, atitudes e práticas sobre preparação para desastres em estudantes de enfermagem

Objetivo:  analisar os conhecimentos, atitudes e práticas sobre a preparação para desastres em estudantes de enfermagem de um município altamente vulnerável a desastres naturais, em relação à sua preparação diante desses eventos.

Método:  foi aplicado um questionário a 363 estudantes, com idade média de 21,54 anos, em sua maioria mulheres (78,51%).

Resultados:  97,25% apresentaram conhecimentos adequados sobre desastres, no entanto, apenas 66,67% conheciam os procedimentos de evacuação de sua faculdade. Quanto às atitudes, 93,11% mostraram disposição positiva em relação à preparação para desastres, embora apenas 26,72% tivessem recebido formação acadêmica continuada sobre o tema. Em relação às práticas, somente 20,39% relataram ações adequadas em situações de emergência e 19,01% consideraram que sua universidade estava preparada para enfrentar um desastre natural. Identificou-se correlação positiva entre o nível de conhecimento e as práticas, o que sugere que maior nível de conhecimento favorece a aplicação de medidas efetivas em contextos de emergência.

Conclusão:  embora os estudantes de enfermagem tenham apresentado conhecimentos e atitudes favoráveis, as práticas continuam sendo limitadas. Esses achados evidenciam a necessidade de reforçar a formação prática em gestão de desastres para fortalecer sua capacidade de resposta diante de emergências.

Descritores:
Enfermagem; Estudantes de Enfermagem; Conhecimento; Atitudes; Práticas; Preparação em Desastres


Destaques:

(1) Primeiro estudo no México sobre preparação para desastres em estudantes de enfermagem. (2) Conhecimentos adequados e atitudes favoráveis, porém práticas limitadas em situações de desastres. (3) Maior nível de conhecimento associa-se a melhores práticas diante de emergências e desastres. (4) Apenas 26,72% receberam formação continuada em gestão de desastres naturais.

Objective:  to analyze the knowledge, attitudes, and practices regarding disaster preparedness among nursing students, in a municipality highly vulnerable to natural disasters, in relation to their preparation for such events.

Method:  a questionnaire was administered to 363 students, with a mean age of 21.54 years, most of whom were women (78.51%).

Results:  97.25% demonstrated adequate knowledge about disasters; however, only 66.67% were familiar with their college’s evacuation procedures. In terms of attitudes, 93.11% showed a positive disposition toward disaster preparedness, although only 26.72% had received continuing academic training on the subject. Regarding practices, only 20.39% reported adequate actions in emergency situations, and 19.01% considered that their university was prepared to face a natural disaster. A positive correlation was identified between the level of knowledge and practices, suggesting that a higher level of knowledge favors the application of effective measures in emergency contexts.

Conclusion:  although nursing students demonstrated favorable knowledge and attitudes, practices remain limited. These findings highlight the need to reinforce practical training in disaster management to strengthen their capacity to respond to emergencies.

Descriptors:
Nursing; Nursing Students; Knowledge; Attitudes; Practices; Disaster Preparedness.


Highlights:

(1) First study in Mexico on disaster preparedness among nursing students. (2) Adequate knowledge and favorable attitudes, but limited practices in disaster situations. (3) Higher level of knowledge is associated with better practices in emergencies and disasters. (4) Only 26.72% received continuing education in natural disaster management.

Objetivo:  analizar los conocimientos, actitudes y prácticas sobre la preparación ante desastres en estudiantes de enfermería de un municipio altamente vulnerable a desastres naturales, en relación con su preparación ante estos eventos.

Método:  se aplicó una encuesta a 363 estudiantes, con una edad media de 21,54 años, en su mayoría mujeres (78,51%).

Resultados:  el 97,25% presentó conocimientos adecuados sobre desastres; no obstante, solo el 66,67% conocía los procedimientos de evacuación de su facultad. En cuanto a actitudes, el 93,11% mostró disposición positiva hacia la preparación ante desastres, aunque solo el 26,72% había recibido formación académica continua en el tema. Respecto a las prácticas, únicamente el 20,39% reportó acciones adecuadas en situaciones de emergencia y el 19,01% consideró que su universidad estaba preparada para enfrentar un desastre natural. Se identificó una correlación positiva entre el nivel de conocimiento y las prácticas, lo que sugiere que un mayor nivel de conocimiento favorece la aplicación de medidas efectivas en contextos de emergencia.

Conclusión:  aunque los estudiantes de enfermería mostraron conocimientos y actitudes favorables, las prácticas siguen siendo limitadas. Estos hallazgos evidencian la necesidad de reforzar la formación práctica en gestión de desastres para fortalecer su capacidad de respuesta ante emergencias.

Descriptores:
Enfermería; Estudiantes de Enfermería; Conocimiento; Actitudes; Prácticas; Preparación ante Desastres


Destacados:

(1) Primer estudio en México sobre preparación ante desastres en estudiantes de enfermería. (2) Conocimientos adecuados y actitudes favorables, pero prácticas limitadas en situaciones de desastres. (3) Un mayor nivel de conocimiento se asocia con mejores prácticas ante emergencias y desastres. (4) Solo el 26,72% recibió formación continua en gestión de desastres naturales.

Introdução

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os desastres são definidos como “situações imprevistas que representam sérias e imediatas ameaças para a saúde pública ou qualquer situação de saúde pública que coloca em perigo a vida ou a saúde de uma quantidade significativa de pessoas e exige ação imediata”1. Os desastres costumam estar associados a graves crises físicas, mentais, ambientais e econômicas na população afetada2-4.

O México é um país vulnerável aos desastres naturais5. Nas últimas décadas, o país tem experimentado uma grande variedade de desastres associados a fenômenos naturais, principalmente furacões, inundações e sismos6-7. Nesse contexto, Acapulco, um município situado no estado de Guerrero, apresenta vulnerabilidade significativa devido à sua localização geográfica e à constante exposição a esses fenômenos. Em 25 de outubro de 2023, Acapulco sofreu o devastador impacto do furacão Otis, de categoria 5, que ocasionou graves danos à infraestrutura, ao meio ambiente e à população local8. Do mesmo modo, as inundações ocasionadas pela tempestade tropical John, no final de setembro de 2024, evidenciaram a recorrência e a magnitude dos desastres que afetam o município. Por isso, a prevenção de desastres constitui uma prioridade essencial para mitigar seus impactos negativos e proteger as comunidades mais vulneráveis.

Diante desse panorama, diversos estudos têm explorado os conhecimentos, atitudes e práticas (CAP) sobre a preparação para desastres em estudantes universitários da área da saúde que, como futuros profissionais, devem estar adequadamente preparados para desempenhar um papel fundamental na gestão e mitigação dos impactos desses eventos9.

Um estudo multicêntrico realizado com 2.546 estudantes de medicina de nove países da América Latina e do Caribe teve como objetivo descrever os conhecimentos, percepções e práticas sobre riscos e desastres. Os resultados revelaram que 43,6% se consideraram preparados para ajudar em caso de um desastre natural, enquanto 91,2% consideraram que os países da região não estavam adequadamente preparados para enfrentar esse tipo de situação10. Por outro lado, em um estudo realizado no Líbano, os autores relataram que os estudantes de medicina apresentaram conhecimento moderado e atitude favorável em relação à medicina de desastres, o que ressalta a necessidade de cursos específicos para fortalecer sua preparação11. Em Cingapura, um estudo constatou que os estudantes de medicina apresentaram nível limitado de conhecimentos sobre preparação para emergências e, além disso, a maioria manifestou interesse em incluir a medicina de desastres no plano de estudos, com o objetivo de melhorar sua capacidade de resposta diante de emergências12.

No que diz respeito aos estudantes de enfermagem, diversos estudos têm destacado a importância de fortalecer sua formação em gestão de desastres, dado seu papel fundamental na atenção primária e na resposta imediata às emergências13-14. Identificou-se que esses estudantes possuem uma base de conhecimentos, habilidades e capacidades que os converte em ativos valiosos e únicos durante os esforços de resposta a desastres, o que reforça a necessidade de melhorar sua preparação para enfrentar esse tipo de situação de forma eficaz14-15. Um estudo recente no norte de Chipre relatou níveis moderados de preparação para desastres em estudantes de enfermagem, e os autores destacaram a importância de implementar uma educação baseada no modelo de crenças em saúde16. Uma investigação realizada com 206 estudantes de uma faculdade de enfermagem na Arábia Saudita revelou que 69% dos participantes tinham conhecimentos adequados, 72% apresentavam atitude positiva em relação à preparação para desastres, no entanto, 84% apresentavam prática inadequada17. Outro estudo identificou que a maioria dos estudantes mostrou atitude favorável em relação à preparação para desastres e percebeu alta competência em enfermagem de desastres, entretanto, apresentou conhecimentos insuficientes e compreensão limitada de seu papel na resposta às emergências18. Um estudo na Turquia constatou que mais da metade dos estudantes de enfermagem apresentava nível limitado de conhecimentos sobre desastres e destacou fragilidades na fase de reabilitação, o que ressalta a importância de fortalecer a formação prática em gestão de emergências19.

A formação de profissionais de enfermagem constitui um pilar fundamental para a preparação e a resposta diante de emergências e desastres. No entanto, o plano de estudos da graduação em Enfermagem da Facultad de Enfermería N. º 2 da Universidad Autónoma de Guerrero (UAGro) não contempla disciplinas específicas sobre gestão de desastres. Essa ausência curricular adquire especial relevância em um município como Acapulco, um dos mais vulneráveis a esses fenômenos naturais.

Atualmente, os desastres naturais são uma preocupação crescente devido à sua frequência e intensidade, bem como ao seu impacto na saúde pública, razão pela qual é necessário que os profissionais de saúde, especialmente enfermeiras e enfermeiros, estejam preparados para responder de maneira oportuna nessas situações críticas20. A avaliação de seus CAP neste âmbito permite identificar aspectos positivos e áreas de melhoria em sua formação, o que garante que disponham das competências necessárias para atuar de forma oportuna14,20. A adequada preparação dos futuros profissionais de enfermagem não apenas possibilita uma resposta mais eficiente diante dos desastres, como também contribui para a mitigação de seus impactos e para a proteção das populações vulneráveis. A partir do exposto, o presente estudo teve como objetivo analisar os CAP dos estudantes de Enfermagem de um município altamente vulnerável a desastres naturais, em relação à sua preparação diante desses eventos.

Método

Desenho do estudo

Realizou-se um estudo observacional transversal com o objetivo de explorar os CAP dos estudantes de enfermagem em relação à prevenção de desastres, seguindo as recomendações do guia Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) para estudos observacionais21.

Local

O estudo foi realizado na Facultad de Enfermería N.º 2 da Universidad Autónoma de Guerrero (UAGro), localizada na cidade e porto de Acapulco, Guerrero, México.

Período

A coleta de dados foi realizada entre 25 de novembro de 2024 e 20 de janeiro de 2025.

População e critérios de seleção

A população foi composta por estudantes da Facultad de Enfermería N.º 2 da UAGro, do turno matutino, do segundo, terceiro e quarto anos. Convidou-se 460 estudantes a participar, dos quais 363 completaram o questionário, o que representa uma taxa de resposta de 78,9%. Foram incluídos estudantes que aceitaram participar de forma voluntária e registraram sua resposta por meio de um link individual enviado pelos representantes de turma via e-mail institucional. Foram excluídos os questionários incompletos e os registros duplicados.

Instrumento de coleta de dados

O instrumento foi adaptado a partir de um questionário previamente validado e utilizado em outro estudo semelhante17. Realizaram-se adaptações na linguagem e no conteúdo para ajustá-lo ao contexto local dos estudantes de enfermagem da UAGro, mantendo a estrutura original das dimensões CAP. A validade de conteúdo foi revisada por duas docentes de enfermagem. Além da revisão por especialistas, realizou-se um estudo-piloto com um grupo de 12 estudantes que não fizeram parte da amostra final. Os estudantes verificaram a clareza, a compreensão e a pertinência dos itens, o que permitiu identificar e corrigir expressões ambíguas. Esse retorno assegurou que o questionário fosse compreensível para a população-alvo. A versão final do instrumento foi estruturada em quatro seções: características demográficas dos estudantes, que incluíram variáveis como idade, sexo, local de procedência, média acadêmica; conhecimento, avaliado por meio de 17 perguntas com opções de resposta “Sim” ou “Não”, atribuindo-se 1 ponto para “Sim” e 0 para “Não”. O conhecimento foi classificado como insatisfatório quando o estudante obteve ≤ 10 respostas corretas (≤ 60%) e satisfatório quando superou esse limiar; atitudes, que consistiram em 16 perguntas, avaliadas em uma escala Likert: 2 pontos para “Concordo”, 1 ponto para “Nem concordo nem discordo” e 0 pontos para “Discordo”. A atitude foi classificada como positiva quando a pontuação foi ≥ 60% e negativa quando foi menor; práticas, compostas por sete perguntas, que avaliaram a participação, a capacitação e a preparação dos estudantes na gestão de desastres. Cada resposta foi pontuada com 1 ponto para “Sim” e 0 para “Não”. Considerou-se prática satisfatória quando a pontuação foi ≥ 60% e insatisfatória quando ficou abaixo desse limiar.

Em comparação com o questionário original, nesta adaptação foram acrescentadas perguntas adicionais e modificada a distribuição de itens por dimensão, o que resultou em maior número de itens na dimensão de conhecimentos (17 vs. 16), em atitudes (16 vs. 11) e em práticas (7 vs. 3). Essas modificações foram realizadas com o propósito de ampliar a seção de práticas e adaptar o instrumento à realidade acadêmica e profissional dos estudantes de enfermagem em Acapulco, sem alterar a lógica da estrutura CAP. Além disso, foram integradas duas perguntas relativas à percepção da preparação institucional frente a desastres, com o objetivo de enriquecer a avaliação do contexto estudado.

Validação e confiabilidade

A consistência interna do questionário foi avaliada por meio da fórmula Kuder-Richardson 20 (KR-20) para as seções com respostas dicotômicas. Os coeficientes de confiabilidade do KR-20 inferiores a 0,50 são considerados baixos; os compreendidos entre 0,50 e 0,80, moderados e superiores a 0,80, altos22. O alfa de Cronbach foi determinado para a seção de atitudes, sendo considerados aceitáveis os valores entre 0,75 e 0,90.

Coleta dos dados

O convite foi gerenciado exclusivamente por meio dos representantes de turma, sem envolver o corpo docente, a fim de evitar vieses na relação professor-aluno. Inicialmente, o link foi enviado por e-mail institucional, juntamente com uma explicação sobre os objetivos e a relevância do estudo. Um segundo convite foi enviado 15 dias depois, com o intuito de aumentar a taxa de resposta. Cada estudante acessou o formulário mediante um registro único no Google Forms, o que garantiu a individualidade das respostas e evitou duplicidades.

Tratamento e análise dos dados

Os dados foram organizados em uma planilha do Microsoft Excel e posteriormente analisados com o software estatístico R. Para as variáveis qualitativas (nominais e ordinais), foram calculadas frequências relativas e porcentagens, enquanto as variáveis contínuas foram expressas como média e desvio-padrão (DP). A comparação das variáveis categóricas foi realizada por meio do teste exato de Fisher. As correlações entre as pontuações de conhecimento, atitudes e práticas foram calculadas por meio do coeficiente de correlação de Pearson (r). Para cada correlação, foi obtido um intervalo de confiança de 95% (IC 95%). Considerou-se estatisticamente significativo um valor de p < 0,05.

Aspectos éticos

O presente estudo atendeu aos princípios básicos da bioética e ao Código de Ética de Enfermagem, bem como ao disposto no Regulamento da Lei Geral de Saúde referente aos aspectos éticos da pesquisa em seres humanos. Além disso, foram respeitadas as convenções internacionais contidas na Declaração de Helsinki. O protocolo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Facultad de Enfermería N.º 2 da UAGro, sob o número de protocolo PI-O1:10-11-2024.

Resultados

A idade média dos estudantes que participaram do estudo foi de 21,54 anos (DP = 3,12). A maioria dos participantes encontrava-se no grupo etário de 21 a 23 anos (49,86%). Do total, 78,51% (285) eram mulheres, enquanto 21,49% (78) eram homens. Em relação à posição no curso, 43,25% (157) dos estudantes cursavam o quarto ano, 28,93% (105) o segundo ano e 27,82% (101) o terceiro ano. A maioria dos respondentes era solteira (95,04%), enquanto 3,03% eram casados e 1,93% viviam em união estável (Tabela 1). Em relação ao local de residência atual, 81,54% (296) residiam com a família e 18,46% (67) longe dela. A maioria dos estudantes era natural de Acapulco (79,06%), seguida por regiões como Costa Chica (7,99%) e Costa Grande (7,99%). A média do semestre anterior dos estudantes foi de 9,20 (DP = 0,49) (Tabela 1).

Tabela 1
Variáveis sociodemográficas e acadêmicas dos estudantes de enfermagem. Acapulco, Guerrero, México, 2024

A consistência interna da seção de conhecimento, avaliada por meio do coeficiente KR-20, foi de 0,61, o que indica confiabilidade moderada da escala.

Entre os estudantes entrevistados, 97,25% (353) indicaram conhecer o conceito de desastre e 98,62% (358) reconheceram que a cidade onde residiam poderia sofrer um desastre em algum momento. Um total de 92,29% (335) dos estudantes indicou conhecer os desastres que podem afetar com maior probabilidade sua cidade e 97,80% (355) consideraram que um desastre poderia afetar as instalações de sua faculdade. Apenas 66,67% (242) receberam informações em sua formação acadêmica sobre a importância da organização para enfrentar desastres. Do total, 91,74% (333) dos estudantes afirmaram saber o que fazer em caso de um sismo ou terremoto; porém, apenas 65,01% (236) referiram estar familiarizados com os procedimentos de evacuação de emergência em sua faculdade. Além disso, 88,43% (321) dos estudantes indicaram saber quais ações tomar diante da chegada de um furacão ou tempestade tropical, mas somente 59,23% (215) afirmaram conhecer o lugar mais seguro durante uma inundação. O nível de conhecimento sobre preparação para desastres entre os estudantes de enfermagem foi predominantemente adequado.

De acordo com os resultados, 96,97% (352) dos participantes demonstraram nível adequado de conhecimento, enquanto apenas 3,03% (11) apresentaram nível inadequado. A média da pontuação foi de 14,54 (DP=2,07) (Tabela 2).

Tabela 2
Conhecimentos dos estudantes de enfermagem sobre a preparação para desastres. Acapulco, Guerrero, México, 2024

A consistência interna da seção de atitudes, avaliada por meio do alfa de Cronbach, foi de 0,85, o que indica alta confiabilidade desta seção.

Do total, 91,46% (332) dos estudantes consideraram fundamental dispor de um plano de resposta diante de desastres e da necessidade de identificar e reduzir riscos potenciais. Além disso, 90,63% (329) declararam que a capacitação em preparação para desastres é essencial para todo o corpo universitário, enquanto 85,95% (312) referiram que essa capacitação deveria fazer parte integral da formação profissional dos estudantes de enfermagem. Um total de 85,67% (311) opinou que é importante que a universidade organize simulações de desastres de forma regular e 85,40% (310) informaram que esses exercícios melhorariam a preparação da comunidade universitária. Entre os respondentes, 66,39% (241) consideraram que a preparação para desastres deveria integrar o currículo obrigatório de todos os programas educacionais relacionados à área da saúde. Por outro lado, 88,15% (320) relataram que os estudantes de enfermagem deveriam ser capacitados não apenas na atenção em saúde, mas também na gestão emocional e psicológica durante desastres. Do total, 85,67% (311) assinalaram que é importante que os estudantes participem ativamente dos simulados e 80,72% (293) consideraram que esses exercícios deveriam incluir cenários de desastres naturais e emergências causadas por acidentes ou violência. Além disso, 90,36% (328) manifestaram concordar que os gestores universitários deveriam estar capacitados para liderar situações de desastre e 88,98% (323) reconheceram que a responsabilidade inclui todos os membros da comunidade universitária (Tabela 3).

O nível de atitude diante da preparação e resposta a desastres mostrou que 93,11% (338) dos estudantes apresentaram atitude positiva, enquanto 6,89% (25) apresentaram atitude negativa. A pontuação média de atitude foi de 26,79 (DP = 4,33), o que indica que, em geral, os estudantes demonstram disposição favorável em relação à preparação para desastres.

Tabela 3
Atitudes dos estudantes de enfermagem sobre a preparação para desastres. Acapulco, Guerrero, México, 2024

A consistência interna da seção de práticas, avaliada por meio do coeficiente KR-20, foi de 0,75, o que indica confiabilidade moderada da escala.

Na Tabela 4 são apresentados alguns dos resultados relacionados às práticas dos estudantes. Apenas 26,72% (97) dos estudantes receberam formação acadêmica continuada sobre gestão de desastres como parte de seu programa de estudos, enquanto 73,28% (266) não a receberam. Do total, 66,12% (240) dos respondentes mencionaram que em sua faculdade são realizadas simulações de desastres (sismos, inundações, incêndios, furacões), embora 33,88% (163) tenham indicado que eles não eram realizados. Somente 24,79% (90) compareceram a capacitações ou oficinas organizadas pela universidade sobre preparação para desastres. Um total de 22,87% (83) dos estudantes participou ativamente de atividades relacionadas à prevenção de desastres em sua comunidade universitária. Do total, 50,69% (184) dos estudantes referiram estar familiarizados com os protocolos de resposta diante de desastres naturais nos locais onde realizam suas práticas clínicas ou serviço social. Apenas 37,47% (136) receberam capacitação para realizar ações de primeiros socorros em caso de um desastre natural.

Somente 20,39% (74) dos estudantes apresentaram práticas adequadas, enquanto 79,61% (289) evidenciaram práticas inadequadas. A pontuação média de práticas foi de 2,85 (DP = 2,07), o que indica baixo nível de aplicação de medidas práticas em situações de emergência.

Tabela 4
Práticas dos estudantes de enfermagem sobre a preparação para desastres. Acapulco, Guerrero, México, 2024

Quanto à percepção dos estudantes sobre a preparação institucional frente a desastres, apenas 20,66% (75) dos estudantes consideraram que os simulados realizados em sua universidade eram suficientes para prepará-los adequadamente diante de um desastre real, enquanto 48,21% (175) tiveram uma percepção neutra e 31,13% (113) opinaram que não são suficientes. Por outro lado, apenas 19,01% (69) dos estudantes perceberam que sua universidade estava bem preparada para enfrentar um desastre natural, enquanto 53,44% (194) manifestaram ter uma percepção neutra e 27,55% (100) consideraram que não estava.

Não foram encontradas diferenças significativas em conhecimento e atitude segundo idade, série, sexo, residência ou desempenho acadêmico (p > 0,05). No entanto, os estudantes do quarto ano realizaram mais práticas adequadas em comparação com os de anos inferiores (p = 0,03), enquanto idade, sexo, residência e desempenho acadêmico não influenciaram as práticas (p > 0,05) (Tabela 5).

Tabela 5
Distribuição do nível de conhecimento, atitude e práticas segundo características sociodemográficas dos estudantes. Acapulco, Guerrero, México, 2024

Foram analisadas as pontuações totais de conhecimentos, atitudes e práticas por meio do coeficiente de correlação de Pearson. Observou-se correlação positiva moderada entre conhecimentos e práticas (r = 0,35; IC 95%: 0,25, 0,43), o que sugere que um nível mais elevado de conhecimento se associa a melhores práticas. A relação entre conhecimento e atitude foi fraca (r = 0,07; IC 95%: -0,03, 0,17), enquanto entre atitude e prática foi ligeiramente negativa (r = -0,07; IC 95%: -0,17, 0,02), sem significância estatística em ambos os casos.

Discussão

O aumento constante, a complexidade e a gravidade dos desastres em nível mundial e, em particular, no México, ressaltam a importância de dispor de pessoal de enfermagem capacitado que garanta uma atenção segura e oportuna em situações de emergência23. Este estudo avaliou pela primeira vez, na região sul do México, o nível de CAP em prevenção de desastres em estudantes de enfermagem da Facultad de Enfermería N.º 2 de Acapulco, Guerrero, uma área altamente vulnerável a fenômenos naturais.

Os resultados mostram que a grande maioria dos estudantes (96,97%) apresentou nível adequado de conhecimento sobre preparação diante de desastres, valor superior ao relatado em Chipre e na Arábia Saudita16-17 e comparável ao de estudos multicêntricos na América Latina e no Caribe10. Isso sugere que, no contexto mexicano, os estudantes de enfermagem contam com uma base teórica sólida, provavelmente relacionada aos planos de estudo e à exposição a eventos catastróficos na região.

No que se refere às atitudes, 93,11% dos participantes manifestaram disposição positiva em relação à preparação e resposta diante de desastres, o que é coerente com achados internacionais que apontam atitudes favoráveis apesar de limitações em conhecimento técnico ou em experiência prática11-12,18. Estudos na Turquia demonstraram que cursos específicos em enfermagem de desastres melhoram a consciência e a autoeficácia dos estudantes, elementos estreitamente vinculados a uma atitude proativa diante de emergências24.

No entanto, as práticas adequadas foram limitadas: apenas 20,39% dos estudantes realizaram ações efetivas. Esse achado reflete uma lacuna crítica entre conhecimento e ação, padrão descrito em outros contextos nos quais, apesar de níveis adequados de conhecimento e de atitudes positivas, os estudantes carecem de experiência prática suficiente16-19. A exposição clínica progressiva parece exercer influência, uma vez que os estudantes do quarto ano realizaram significativamente mais práticas adequadas do que os de anos inferiores (p = 0,03).

A análise de correlação evidenciou relação moderada entre conhecimento e prática, enquanto a relação entre conhecimento e atitude, bem como entre atitude e prática, foi fraca e não significativa. Isso indica que a formação teórica e a motivação não se traduzem automaticamente em práticas efetivas, o que ressalta a necessidade de estratégias que integrem simulados, oficinas e experiências práticas para fortalecer a preparação efetiva dos estudantes.

O estudo aporta evidências relevantes sobre as discrepâncias entre os CAP dos estudantes de enfermagem no sul do México; complementa a literatura internacional e destaca a necessidade de incorporar competências práticas sistemáticas no plano de estudos. Atualmente, a graduação em enfermagem aborda temas de desastres em disciplinas isoladas, como saúde pública e primeiros socorros, porém não existe um curso integral que combine prevenção, mitigação e resposta diante de emergências. Dada a crescente frequência e intensidade de desastres vinculados às mudanças climáticas, torna-se prioritário reforçar a formação prática e a colaboração com organismos de proteção civil e de saúde.

Recomenda-se que as instituições de enfermagem implementem programas de formação continuada e oficinas práticas, especialmente em regiões com alta probabilidade de desastres23-26. Pesquisas futuras poderiam incorporar métodos qualitativos para explorar percepções, barreiras e necessidades dos estudantes, o que permitiria desenhar intervenções mais efetivas15,26.

Entre as limitações, destacam-se o desenho transversal, que impede estabelecer relações causais, e a inclusão de estudantes de uma única faculdade, o que pode limitar a generalização dos resultados. Sugere-se replicar o estudo com um desenho mais robusto e maior cobertura geográfica, a fim de fortalecer as conclusões.

Conclusão

Os estudantes de enfermagem da Facultad de Enfermería N.º 2 de Acapulco apresentaram nível adequado de conhecimentos e atitude positiva em relação à preparação diante de desastres. No entanto, as práticas adequadas foram limitadas, o que evidencia uma lacuna entre teoria e ação. Os estudantes do quarto ano mostraram melhores práticas do que os de anos inferiores, sugerindo a importância da formação progressiva e da experiência clínica. É necessário incorporar esses temas no plano de estudos e fortalecer a capacitação prática, uma vez que a maioria dos estudantes não estava familiarizada com os protocolos de resposta diante de desastres e com a gestão de primeiros socorros.

Agradecimentos

Agradecemos sinceramente a participação voluntária dos estudantes neste estudo.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

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  • Como citar este artigo:
    Delgado-Delgado J, Pérez-Castro E, Bueno-Brito C. Knowledge, attitudes and practices regarding disaster preparedness among nursing students. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4855 [cited ano mês dia ]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7954.4855

Editado por

  • Editor Associado:
    César Calvo Lobo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Jul 2025
  • Aceito
    05 Nov 2025
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