Open-access Violências entre pares, características socioeconômicas e comportamentais de adolescentes com diversidade sexual e de gênero: estudo transversal*

Objetivo:  identificar o perfil socioeconômico e comportamental dos adolescentes que se autodeclaram lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e outros, bem como as experiências de violências entre pares e suas motivações.

Método:  estudo transversal, descritivo, realizado com 949 adolescentes de 14 a 19 anos, por meio de questionários eletrônicos que foram autopreenchidos e analisados estatisticamente com frequências brutas, relativas e intervalos de confiança de 95%.

Resultados:  predominaram adolescentes cisgêneros (81,0%), da classe média (44,7%), raça/cor pretos/pardos (57,4%) e de escolas públicas (67,2%). A prevalência de bullying foi de 67,8%, com 13,0% motivados por orientação sexual, e o cyberbullying foi identificado em 11,5%. O uso de preservativos foi maior na primeira relação sexual (50,7%) do que na última (40,3%). O uso atual de álcool foi de cerca de 47,2%, o de cigarro de 9,1% e o de drogas foi de 15,1%.

Conclusão:  conclui-se que os adolescentes desta pesquisa enfrentam altos índices de violência, exclusão social e vulnerabilidades comportamentais, reforçando a necessidade de estratégias integradas para promoção de ambientes inclusivos e seguros, bem como políticas públicas voltadas à equidade e saúde dessa população.

Descritores:
Adolescentes; Diversidade Sexual; Bullying; Cyberbullying; Violência; Perfil Socioeconômico.


Destaques:

(1) Constatou-se que 67,8% dos adolescentes LGBT+ relataram ser vítimas de bullying. (2) Treze por cento dos indivíduos relataram sofrer bullying motivado por orientação sexual. (3) Uso de preservativo foi maior na primeira relação (50,7%) que na última (40,3%). (4) Um total de 47,2% dos participantes relatou consumo atual de álcool. (5) Dados reforçam a necessidade de políticas para ambientes seguros e inclusivos.

Objective:  to identify the socioeconomic and behavioral profile of adolescents who self-identify as lesbian, gay, bisexual, transvestite, transgender, and others, as well as their experiences of peer violence and its motivations.

Method:  a cross-sectional, descriptive study was conducted among 949 adolescents aged 14 to 19 years, using self-administered electronic questionnaires, which were analyzed using crude and relative frequencies and 95% confidence intervals.

Results:  cisgender adolescents (81.0%), middle-class students (44.7%), Black or Brown students (57.4%), and public-school students (67.2%) predominated. The prevalence of bullying was 67.8%, with 13.0% motivated by sexual orientation, and cyberbullying was identified in 11.5%. Condom use was higher during the first sexual intercourse (50.7%) than during the last (40.3%). Current alcohol use was around 47.2%, cigarette use was 9.1%, and drug use was 15.1%.

Conclusion:  it is concluded that the adolescents in this study face high rates of violence, social exclusion, and behavioral vulnerabilities, reinforcing the need for integrated strategies to promote inclusive and safe environments, as well as public policies aimed at equity and health for this population.

Descriptors:
Adolescents; Gender Diversity; Bullying; Cyberbullying; Violence; Socioeconomic Profile


Highlights:

(1) It was found that 67.8% of LGBT+ adolescents reported being victims of bullying. (2) Thirteen percent of individuals reported suffering bullying motivated by sexual orientation. (3) Condom use was higher in the first sexual encounter (50.7%) than in the last (40.3%). (4) A total of 47.2% of participants reported current alcohol consumption. (5) Data reinforce the need for policies for safe and inclusive environments

Objetivo:  identificar el perfil socioeconómico y conductual de adolescentes que se autodeclaran lesbianas, gays, bisexuales, travestis, transexuales y otros, así como las experiencias de violencia entre iguales y sus motivaciones.

Método:  estudio transversal y descriptivo realizado con 949 adolescentes de entre 14 y 19 años, utilizando cuestionarios electrónicos autocompletados y analizados estadísticamente con frecuencias brutas y relativas e intervalos de confianza del 95%.

Resultados:  predominó adolescentes cisgénero (81,0%), clase media (44,7%), raza/color negro/marrón (57,4%) y escuelas públicas (67,2%). La prevalencia del acoso escolar fue del 67,8%, con un 13,0% motivado por la orientación sexual, y el ciberacoso se identificó en un 11,5%. El uso de preservativos fue mayor en la primera relación sexual (50,7%) que en la anterior (40,3%). El consumo actual de alcohol fue de aproximadamente el 47,2%, los cigarrillos del 9,1% y los de drogas del 15,1%.

Conclusión:  se concluye que los adolescentes en esta investigación enfrentan altas tasas de violencia, exclusión social y vulnerabilidades conductuales, lo que refuerza la necesidad de estrategias integradas para promover entornos inclusivos y seguros, así como políticas públicas orientadas a la equidad y la salud de esta población.

Descriptores:
Adolescentes; Diversidad de Género; Bullying; Ciberacoso; Violencia; Perfil Socioeconómico.


Destacados:

(1) Se encontró que el 67,8% de los adolescentes LGBT+ reportaron haber sido víctimas de acoso escolar. (2) El trece por ciento de las personas reportó haber sido acosada por su orientación sexual. (3) El uso de preservativo fue mayor en la primera relación sexual (50,7%) que en la anterior (40,3%). (4) Un total del 47,2% de los participantes reportó consumo actual de alcohol. (5) Los datos refuerzan la necesidad de políticas para entornos seguros e inclusivos.

Introdução

A adolescência é um período crucial de desenvolvimento, caracterizado por transformações físicas, psicológicas e sociais significativas. Nesse estágio, a formação da identidade e a busca pelo equilíbrio diante das mudanças desempenham papéis essenciais na construção do intelecto, da personalidade e das habilidades sociais do indivíduo1. A orientação sexual, que é moldada por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e familiares, emerge como uma questão central durante essa fase. Compreender essa construção é fundamental para oferecer o apoio adequado aos adolescentes enquanto eles exploram e definem suas identidades2.

Entretanto, em um contexto social frequentemente marcado por normas heteronormativas, adolescentes Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais, Panssexuais e Não Binários (LGBTQIAPN+) enfrentam desafios únicos, como rejeição familiar, intimidação e discriminação. A sigla LGBTQIAPN+* contempla uma ampla diversidade de identidades de gênero e orientações sexuais, incluindo lésbicas (mulheres que se relacionam com mulheres), gays (homens que se relacionam com homens), bissexuais (atração por mais de um gênero), travestis e transexuais (cuja identidade de gênero difere do sexo atribuído ao nascimento), queer (identidade dissidente da norma heterocisnormativa), intersexo (pessoas com variações nas características sexuais), assexuais (indivíduos que não sentem atração sexual), pansexuais (atração independente do gênero) e não binários (pessoas que não se identificam exclusivamente como homem ou mulher)2. Tais experiências podem comprometer o bem-estar psicológico desses indivíduos e dificultar a formação de uma identidade segura e positiva3. Nesse cenário, é imprescindível compreender as dinâmicas sociais e psicológicas que envolvem esses adolescentes, a fim de promover ambientes de apoio, inclusão e proteção.

A violência, em suas diversas formas - física, sexual e psicológica -, é uma questão crítica de saúde pública durante a adolescência. Sua prevalência é amplificada por fatores de risco, como dinâmicas familiares, status socioeconômico e ambientes sociais adversos. Esses fatores precisam ser considerados ao se desenvolver estratégias eficazes de prevenção4. Particularmente, obullying dirigido a adolescentes LGBT+ tem se mostrado uma preocupação crescente. Estudos indicam que esses jovens vivenciam uma vitimização mais acentuada, com múltiplas trajetórias de agressão que impactam diretamente sua saúde mental e bem-estar5.

A vulnerabilidade dos adolescentes é intensificada por fatores como identidade de gênero, orientação sexual e raça, criando disparidades adicionais na exposição à violência, especialmente para aqueles com múltiplas identidades marginalizadas6.

Neste contexto, os profissionais de saúde e educação desempenham um papel essencial no apoio aos adolescentes LGBT+. Por meio de ações educativas, campanhas de conscientização e o desenvolvimento de espaços seguros e inclusivos, esses profissionais podem ajudar a mitigar os impactos da discriminação e promover a saúde mental e o bem-estar. Estratégias integradas entre os setores de saúde e educação são fundamentais para a prevenção de violências e a construção de uma sociedade mais equitativa7.

Diante desse cenário, o objetivo deste artigo é identificar o perfil socioeconômico e comportamental dos adolescentes que se autodeclaram lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e outros, bem como as experiências de violências entre pares e suas motivações.

Método

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo transversal descritivo, realizado em 63 escolas públicas e privadas de ensino médio localizadas na Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), Espírito Santo, abrangendo os municípios de Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra, Viana, Vila Velha e Vitória.

Local

O estudo foi realizado em 38 escolas públicas e 25 privadas da RMGV, Espírito Santo, Brasil, que foram selecionadas de forma aleatória, totalizando 63 escolas. Atualmente, essa região conta com 171 escolas com ensino médio regular, públicas e/ou privadas; assim, as escolas que realizamos o estudo compreendem 36,8%.

Período

A coleta de dados ocorreu entre março e dezembro de 2023.

População

A população total entrevistada foi de 4614 adolescentes matriculados no ensino médio, sendo o recorte para o presente estudo de 949 alunos que se autodeclararam LGBT+. Como critérios de exclusão, foram adotados os déficits cognitivos que impedissem a compreensão do questionário. Para o presente estudo, entendem-se por adolescentes as pessoas entre 10 e 19 anos, conforme a Organização Mundial da Saúde8.

Definição da amostra

Esse estudo é um recorte de uma pesquisa maior intitulada Pesquisa Estadual de Saúde do Escolar Capixaba (PESC), em que, na amostra, garantindo representatividade comparativa entre as redes pública e privada, foi utilizada a técnica de estratificação em Rede pública e Rede privada. Em seguida, amostras simples foram obtidas para cada estrato, sendo posteriormente corrigidas para amostras complexas, utilizando o software SPSS 26, assegurando um intervalo de confiança de 95% e um erro máximo de 5%. Além disso, para cada estrato municipal, foram estabelecidos parâmetros de 95% de confiança e erro máximo de 10%. A amostragem foi realizada por meio de conglomerados e estratificação em 3 estratos diferentes, usando o percentual de 95% de confiança e erro máximo de 5%. Para cada estrato de município, o erro máximo foi de 10%.

Variáveis do estudo

As variáveis analisadas incluíram: socioeconômicas: idade (14/15, 16/17, 18/19 anos); identidade de gênero, em que cisgênero foi classificada como identidade de gênero correspondente àquela atribuída no nascimento, classificada em cisgênero ou não-cisgênero; raça/cor da pele (branca, preta, amarela, parda, indígena); está em algum relacionamento (não, sim); tipo de escola (pública, privada); classificação socioeconômica (A, B, C, D/E) - para essa variável utilizamos o critério da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa9; religião (nenhuma, católica, evangélica, espírita, raiz africana, outra); possui trabalho/estágio (não, sim); status dos pais (vivem juntos, vivem separados, um deles já faleceu - ou os dois); comportamentais: já teve relação sexual (não, sim); uso de preservativo na primeira (não, sim); uso de preservativo na última relação sexual (não, sim); experimentação de drogas (não, sim); uso atual de drogas (não, sim); experimentação de cigarro (não, sim); uso atual de cigarro (não, sim); experimentação de bebida alcoólica (não, sim); uso atual de bebida alcoólica (não, sim); violência entre pares: vítima de bullying (não, sim); praticou bullying (não, sim); vítima de cyberbullying (não, sim); praticou cyberbullying (não, sim); frequência com que se envolveu em brigas físicas (nunca se envolveu, envolveu-se uma ou mais vezes); tipos de bullying sofridos: batiam/esbarravam/chutado/trancado em locais fechados/empurrado (não, sim); era zoado por causa da raça, nacionalidade ou cor de pele (não, sim); era zoado por causa da religião (não, sim); era zoado por meio de brincadeiras ou comentários de cunho sexual ou gestos obscenos (não, sim); era excluído de atividades de propósito ou completamente ignorado (não, sim); era zoado por causa da aparência do corpo ou rosto (não, sim); sofria outra forma de bullying (não, sim); motivação para o bullying: cor/raça (não, sim); religião (não, sim); aparência do rosto (não, sim); aparência do corpo (não, sim); orientação sexual (não, sim); região de origem (não, sim); outros (não, sim).

Instrumentos utilizados para coleta das informações

A coleta de dados foi realizada por meio de questionários eletrônicos autopreenchidos em tablets por meio do sistema RedCAP (Research Electronic Data Capture), compostos por blocos de caracterização socioeconômica e comportamental. Além disso, as experiências de violências entre pares e suas motivações foram rastreadas por meio de instrumento baseado no Adverse Childhood Experiences International Questionnaire (ACE-IQ), adaptado e validado para uso no Brasil10.

Coleta de dados

A coleta de dados foi conduzida por uma equipe responsável, treinada e supervisionada para assegurar a qualidade e integridade das informações. Antes do início da pesquisa, foi solicitada e obtida autorização da Secretaria de Estado da Educação (SEDU) para a realização do estudo nas escolas públicas sorteadas. Em seguida, estabeleceu-se contato prévio com as instituições públicas, assim como as escolas privadas, para apresentação da proposta em seminário realizado em março de 2023, onde aconteceu a participação de aproximadamente 80% das escolas selecionadas para a pesquisa. Na presente ocasião, foram expostos os objetivos e procedimentos da pesquisa e entregues os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aos representantes das instituições. Para as escolas ausentes, a equipe realizou visitas presenciais, garantindo adesão de 100% das unidades sorteadas. Posteriormente, foi feito novo contato para recolhimento nas escolas do TCLE e agendamento da coleta de dados, que acontecia em sala de aula e/ou auditório, conforme disponibilidade da escola. Importante destacar que, no momento da coleta de dados, a equipe distribuía um tablet para cada aluno participante e realizava as orientações para o uso do material. O tempo médio de preenchimento do questionário era cerca de cinquenta minutos.

Tratamento e análise dos dados

As análises estatísticas descritivas foram conduzidas mediante apresentação de frequência bruta, relativa e intervalos de confiança de 95% (IC95%). Todas as análises foram realizadas por meio do programa estatístico Stata 17.0.

Aspectos éticos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, em conformidade com a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Pais e/ou responsáveis pelos adolescentes participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e, os adolescentes, o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE). Ressalta-se que essa pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES) sob o número de processo CAAE 65545622.5.0000.5060.

Resultados

As características socioeconômicas dos escolares autodeclarados LGBT+ da RMGV (Tabela 1) mostraram que a maioria se declarou como negra (pardos - 38,9%; pretos - 18,5%). Predominaram adolescentes de 16 a 17 anos (65,5%), que não estavam em um relacionamento (69,0%), cisgêneros (81,0%) e frequentavam escolas públicas (67,2%).

Nota-se que 44,7% pertenciam às classes B e 45,3% não tinham religião. Por fim, 76,7% não trabalhavam e, no status dos pais, 47,1% viviam separados.

Tabela 1
Características socioeconômicas dos escolares autodeclarados LGBT+. Vitória, ES, Brasil, 2023

As características comportamentais dos escolares autodeclarados LGBT+ da RMGV são apresentadas na Tabela 2. Em relação à experiência sexual, a maioria (56,6%) nunca teve relação sexual, enquanto 43,4% afirmaram já ter tido. O uso de preservativo na primeira relação sexual foi apontado por cerca de 51,0% dos adolescentes (IC95%: 45,9-55,5); todavia, na última relação sexual, aproximadamente 40,0% afirmaram fazerem uso (IC95%: 44,4-54,1). Quanto ao uso de drogas ao longo da vida, 33,6% já usaram, e, atualmente, 15,1% fazem uso. Verifica-se que 31,8% já fumaram e atualmente essa frequência é de 9,1%. Em relação ao uso de bebidas alcoólicas ao longo da vida, 77,2% já consumiram e 47,2% fazem uso no momento presente.

Tabela 2
Características comportamentais dos escolares autodeclarados LGBT+. Vitória, ES, Brasil, 2023

No que diz respeito à prevalência de violência entre pares (Tabela 3), 67,8% dos escolares LGBT+ relataram já terem sido vítimas de bullying e 11,5% afirmaram ter vivenciado cyberbullying. Em relação à prática de bullying, 15,2% dos participantes admitiram já ter cometido atos dessa natureza, enquanto 7,0% relataram a prática de cyberbullying. Além disso, cerca de 38,0% declararam envolvimento em brigas físicas pelo menos uma vez.

Tabela 3
Prevalência de bullying e cyberbullying entre os escolares autodeclarados como LGBT+. Vitória, ES, Brasil, 2023

Quanto aos tipos de bullying (Tabela 4), observa-se que 8,0% dos participantes relataram terem sofrido agressões físicas, como serem chutados, empurrados ou trancados em locais fechados. Insultos relacionados à raça, nacionalidade ou cor de pele foram mencionados por aproximadamente 19,0%. Comentários de cunho religioso foram relatados por 5,5% e brincadeiras ou gestos obscenos de cunho sexual foram apontados por 17,3%. Além disso, 29,2% relataram serem excluídos de atividades ou completamente ignorados, enquanto 44,3% sofreram insultos relacionados à aparência física e outras formas de bullying foram identificadas por 12,9%.

Tabela 4
Tipos de bullying praticados contra os escolares autodeclarados como LGBT+. Vitória, ES, Brasil, 2023

A análise das motivações para o bullying entre adolescentes LGBT+ (Tabela 5) revelou que a cor ou raça foi mencionada por 5,0% dos participantes, enquanto a religião foi relatada por 4,2%. Em relação à aparência do rosto, 9,1% dos adolescentes relataram ter sofrido bullying por esse motivo e 10,4% indicaram a aparência do corpo como fator motivador. Vale destacar que a orientação sexual apresentou a maior prevalência entre os motivos apresentados, sendo citada por 13,0% dos participantes.

Tabela 5
Motivações para ocorrência do bullying praticado contra os escolares autodeclarados como LGBT+. Vitória, ES, Brasil, 2023

Discussão

Os dados socioeconômicos apresentados revelam aspectos importantes sobre o perfil dos escolares autodeclarados LGBT+ do Espírito Santo. Observa-se que 65,5% estavam na faixa etária de 16 e 17 anos, predominantemente cisgêneros (81,0%), o que reflete a tendência majoritária em muitas sociedades, embora uma parcela significativa (19,0%) tenha se identificado como não cisgêneros, destacando a diversidade de identidades de gênero dentro desse grupo11. Além disso, 69,0% dos participantes não estavam em um relacionamento, o que pode indicar um padrão de relacionamentos ou uma fase da vida em que a maioria ainda não se envolveu em relacionamentos formais, algo comum em faixas etárias mais jovens12.

Em termos de religião, 45,3% dos adolescentes se declararam sem religião. Muitos adolescentes LGBT+ vivenciam um conflito entre suas identidades sexuais e religiosas, o que frequentemente resulta em sentimentos de desconexão de suas comunidades religiosas11. Relatam experiências de conexões iniciais com sua fé, mas posteriormente passam a questionar suas crenças devido à sua orientação sexual13.

Ao comparar os dados obtidos na pesquisa com outros estudos do Brasil, observa-se que a prevalência de iniciação sexual na presente pesquisa entre os adolescentes da amostra é consideravelmente mais alta (43,4%). Estudo realizado no Piauí, com adolescentes sem recorte por orientação sexual, indicou uma prevalência de 24,2%14 e, em Curitiba, também com a população geral de adolescentes, a prevalência foi de 22,9%15. Esses dados sugerem que a iniciação sexual é um fenômeno presente na adolescência LGBT+, tendo a orientação sexual como fator que pode influenciar a idade de início, reforçando a importância de programas de educação sexual para este público.

Neste estudo, aproximadamente 51,0% dos participantes relataram uso de preservativo na primeira relação sexual, achado superior ao identificado em pesquisa com adolescentes da população geral (24,7%)16. Por outro lado, na última relação sexual, a prevalência de uso foi de 40,3%, percentual inferior ao encontrado em outro estudo realizado com adolescentes da população geral (68,8%)17. Esses achados sugerem que adolescentes LGBT+ tendem a adotar maior proteção no início da vida sexual, motivados principalmente pela prevenção de ISTs, desconfiança ou imposição do(a) parceiro(a). Contudo, a redução na adesão ao preservativo nas relações subsequentes pode estar relacionada à confiança no parceiro, preferências pessoais, esquecimento ou indisponibilidade do método18.

Diante do exposto, é importante chamarmos atenção para o trabalho de educação em saúde que precisa ser realizado no âmbito escolar por profissionais da saúde, justamente para que a adesão aos métodos contraceptivos seja estendida para além da primeira relação sexual, pois, por meio desta ação, há melhora na compreensão dos adolescentes sobre saúde sexual, levando a boas atitudes e comportamentos em relação às IST19.

Quanto às drogas, 33,6% declararam já terem experimentado, e, atualmente, 15,1% fazem uso. Comparando esses achados, há estudos que apontam 20,9% dos adolescentes, sem distinção de orientação sexual, relatando uso de drogas ilícitas ao longo da vida, e uma prevalência de 15,8% do uso atual de droga, como a maconha, na adolescência1,20. Os elevados níveis encontrados na população LGBT+ são discutidos na literatura à luz da rejeição e discriminação que essa população enfrenta, que estão intimamente ligados ao aumento de problemas de saúde mental, os quais são reconhecidos como determinantes importantes para o uso de substâncias entre adolescentes LGBT+21. Além disso, as experiências recorrentes de bullying e comportamentos opressivos intensificam sentimentos de isolamento e angústia, criando um ambiente propício para o uso inadequado de substâncias como forma de enfrentamento ou alívio temporário das adversidades22.

Verifica-se que 31,8% já fumaram e, atualmente, essa frequência é de 9,1%. Uma pesquisa aponta que 22,58% dos adolescentes da população geral relataram ter experimentado tabaco, enquanto o uso atual é de aproximadamente 6,8%23, prevalências menores do que as encontradas na presente pesquisa, o que evidencia a maior vulnerabilidade dos adolescentes autodeclarados LGBT+ ao tabagismo. As experiências de discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero aumentam significativamente a probabilidade de uso de tabaco entre jovens LGBT+24.

Os dados sobre o uso de álcool em nossa amostra revelam aproximadamente 77,0% dos participantes relatando a experimentação de álcool alguma vez na vida, prevalência alta quando comparamos o resultado com outros achados, que constataram 52,9% de experimentação por parte de adolescentes brasileiros da população geral25. Já o uso atual de álcool foi mencionado por 47,2%, prevalência também alta quando comparamos com o uso global de adolescentes da população geral (25,2%)26. Destaca-se uma realidade preocupante da nossa população estudada, sugerindo que fatores sociais, como a vivência de estigmas e desafios relacionados à orientação sexual, podem influenciar esse comportamento27.

No ambiente escolar, o bullying se configura como uma expressão dessa violência estrutural, revelando uma realidade alarmante. Dados apontam que a LGBTfobia é a terceira maior causa de bullying nas escolas, com 73,0% dos estudantes LGBT+ relatando agressões verbais e 36,0% relatando agressões físicas28. Esses achados são corroborados pelo presente estudo, no qual 67,8% (IC95%: 64,7-70,7) dos adolescentes LGBT+ relataram ter sido vítimas de bullying e 37,8% (IC95%: 34,7-40,9) admitiram envolvimento em brigas físicas.

A violência contra adolescentes LGBT+ nas escolas representa uma questão relevante, especialmente ao se considerarem as múltiplas formas de agressão enfrentadas por esses indivíduos e o impacto negativo dessas experiências sobre sua saúde mental e bem-estar social. Estudos indicam um crescimento desses episódios, refletindo a discriminação estrutural que ainda permeia a sociedade brasileira29-30.

Observamos uma alta prevalência de cyberbullying entre adolescentes LGBT+ (11,5%), um valor significativo ao compararmos com outras realidades internacionais e nacionais de adolescentes. Um estudo realizado em Yixing, na China, relatou uma taxa de vitimização por cyberbullying geral de apenas 2,9% entre adolescentes, evidenciando uma diferença marcante com a população estudada31. Já uma análise abrangente dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Estudante (PeNSE) de 2019 revelou uma prevalência de 13,2% entre escolares brasileiros de 13 a 17 anos32. Esses dados sugerem que, embora o cyberbullying seja uma questão global, sua magnitude pode variar significativamente de acordo com o contexto sociocultural.

Em relação à prática de bullying, 15,2% dos participantes admitiram já ter cometido atos dessa natureza, enquanto 7,0% relataram a prática de cyberbullying. Nesse contexto, fatores como raiva, problemas familiares e a reprodução de uma violência sofrida emergem como pilares dos conflitos entre pares33, especialmente entre adolescentes LGBT+, que, apesar de muitas vezes serem vítimas dessa violência, também podem, em certos casos, reproduzi-la como uma resposta a suas próprias experiências de marginalização e sofrimento34.

Ademais, 8,0% dos participantes relataram terem sofrido agressões físicas, como serem chutados, empurrados ou trancados em locais fechados. Esses comportamentos não só são indicativos de violência escolar, mas também podem ser reflexos de um ambiente educacional em que a resolução de conflitos de forma pacífica não é devidamente incentivada. A prática de brigas físicas pode resultar em traumas tanto físicos quanto emocionais, com consequências duradouras no desenvolvimento acadêmico dos adolescentes35.

Insultos relacionados à raça, nacionalidade ou cor de pele foram mencionados por aproximadamente 19,0% dos adolescentes. O racismo e a xenofobia são formas de violência psicológica que têm impacto direto na construção da identidade do indivíduo e podem contribuir para o aumento do isolamento social e da exclusão escolar36; além disso, destaca-se que os estereótipos negativos nas escolas contribuem significativamente para o risco de bullying entre minorias raciais e étnicas37.

Comentários de cunho religioso foram relatados por 5,5% e brincadeiras ou gestos obscenos de cunho sexual foram apontados por 17,3%. Comentários de cunho religioso, além de serem uma forma de discriminação, podem agravar conflitos identitários, especialmente em uma sociedade plural como a nossa38. Já os gestos ou comentários de cunho sexual são formas sutis de violência sexual, muitas vezes minimizadas, mas com impacto profundo no desenvolvimento emocional e psicológico dos jovens. Essas brincadeiras ou gestos, embora não fisicamente invasivos, podem gerar danos duradouros à autoestima e à saúde mental, sendo essencial que sejam identificados e abordados em ambientes escolares39.

Adolescentes LGBT+ frequentemente enfrentam bullying relacionado à sua aparência, como críticas ao formato corporal e características faciais, influenciadas pelos padrões de beleza social. Neste contexto, os achados revelam uma prevalência significativa (44,3%) de adolescentes que relatam ser alvo de zombarias relacionadas à aparência física. Esse tipo de bullying pode ter impactos duradouros na autoestima e bem-estar dos jovens, reforçando a necessidade de ações educativas e de apoio para combater o estigma e promover a aceitação da diversidade nas escolas e na sociedade40.

De igual modo, chama-nos a atenção a prevalência de exclusão social, dita como motivação em ser excluído(a) de atividades de propósito ou completamente ignorado(a) (29,2%). As atitudes sociais entre colegas podem levar à exclusão de indivíduos LGBT+, com os adolescentes percebendo que é mais aceitável excluir colegas gays ou lésbicas em comparação com os heterossexuais41. As consequências da exclusão social são graves, com adolescentes LGBT+ experimentando taxas mais altas de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas42.

Ainda analisando as motivações que levaram os adolescentes LGBT+ a sofrerem bullying, observa-se que 13,0% dos participantes relataram que sofreram violência por ter declarado a sua orientação sexual. Pesquisadores analisaram uma amostra de 815 adolescentes e identificaram que aqueles que se autodeclararam homossexuais ou bissexuais apresentaram relações inversas significativas entre vitimização homofóbica e qualidade de vida relacionada à saúde, evidenciando os efeitos prejudiciais deste tipo de bullying43. O bullying homofóbico é particularmente danoso, resultando em uma redução significativa da qualidade de vida, afetando negativamente humor, emoções e aceitação social dos adolescentes afetados42.

Os resultados deste estudo destacam a importância de intervenções direcionadas pelos profissionais de saúde e educação, que são essenciais na prevenção de violências e na promoção de ambientes inclusivos para adolescentes LGBT+. A integração entre esses setores pode potencializar o impacto de programas educativos e de conscientização, favorecendo a construção de um ambiente escolar acolhedor e seguro. Ações como treinamento de professores e gestores escolares, aliadas ao suporte psicológico aos alunos, são fundamentais para reduzir os índices de bullying e discriminação.

É importante destacar as limitações inerentes ao desenho do estudo, com possíveis vieses de memória e informação. Todavia, a relevância da pesquisa está não apenas na utilização de uma amostra abrangente, contemplando escolas públicas e privadas, mas também no uso de questionários autoaplicados que permitem maior confidencialidade e precisão nas respostas.

Os achados fornecem subsídios valiosos para o desenvolvimento de políticas públicas e intervenções voltadas à promoção da equidade e saúde da população adolescente LGBT+, além de estimular profissionais da saúde, sobretudo da enfermagem, a utilizar destas informações para o desenvolvimento de estratégias de acolhimento para este grupo.

Conclusão

Este estudo evidenciou que o perfil socioeconômico dos adolescentes LGBT+ da RMGV compreende em sua maioria negros, na faixa etária de 16 a 17 anos, estudantes de escola pública e pertencentes à classe socioeconômica B. Além disso, observa-se a presença de comportamentos de risco relacionados ao uso inadequado de preservativos e consumo de substâncias psicoativas. Relatam experiências de violência, com altas prevalências de bullying, cyberbullying e exclusão social, em sua maioria sendo motivada pelo relato de declaração da sua orientação sexual.

É inegável que a adolescência é uma fase de descobertas e vulnerabilidades, e para adolescentes LGBT+, esses desafios são ampliados por estigmas e barreiras estruturais. Diante disso, é essencial que educadores, profissionais de saúde e gestores públicos atuem de forma integrada, promovendo ambientes mais inclusivos e seguros, nos quais a diversidade seja respeitada e celebrada. Garantir o bem-estar dos adolescentes LGBT+ não é apenas uma questão de saúde pública, mas um compromisso com a equidade e os direitos humanos.

A implementação de políticas públicas baseadas nesses dados ainda enfrenta desafios significativos, como a resistência sociocultural à inclusão de questões de diversidade sexual e de gênero no ambiente escolar e nos serviços de saúde. Superar essas barreiras exige ações intersetoriais coordenadas, formação continuada de profissionais e engajamento comunitário.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

Referências bibliográficas

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  • Como citar este artigo:
    Alves MF, Leite FMC. Intra-peer violence, socioeconomic and behavioral characteristics of sexual and gender diverse adolescents: a cross-sectional study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4864 [cited ano mês dia ]. Available from: URL .https://doi.org/10.1590/1518-8345.7920.4864

Editado por

  • Editora Associada:
    Sueli Aparecida Frari Galera

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Fev 2025
  • Aceito
    28 Nov 2025
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