Open-access Intervenção educativa aos profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos: estudo quase experimental*

Objetivo:  avaliar o conhecimento e a autoeficácia sobre cuidados paliativos de profissionais de enfermagem antes e depois de uma intervenção educativa.

Método:  estudo quase experimental, realizado em um hospital de ensino, com profissionais de enfermagem que atendem ao público adulto e idoso. A coleta de dados foi realizada em dois momentos: no primeiro, foram aplicados o questionário sociodemográfico e o instrumento Bonn Palliative Care Knowledge Test, que avalia o conhecimento e a autoeficácia em cuidados paliativos; logo após, ocorreu a intervenção educativa sobre a temática. No segundo momento, após quatro semanas, foi realizada a reaplicação do instrumento que avalia o conhecimento e a autoeficácia. Os dados foram avaliados no programa Statistical Package for the Social Sciences versão 21.0.

Resultados:  participaram 179 profissionais, com média de idade de 40,17 anos e predominância do sexo feminino. O escore de conhecimento obteve médias mais altas após a intervenção (pré-teste=11,77; pós-teste=15,03) enquanto o da autoeficácia foi em menor escala (pré-teste=3,21; pós-teste=3,38), contudo ambas foram estatisticamente significativas (p<0,01).

Conclusão:  a intervenção educativa foi eficaz para o ganho de conhecimento e autoeficácia em cuidados paliativos nos profissionais de enfermagem. Os referidos resultados podem subsidiar a elaboração e disseminação das práticas de cuidados paliativos nos serviços de saúde.

Descritores:
Cuidados Paliativos; Equipe de Enfermagem; Educação Continuada em Enfermagem; Conhecimento; Autoeficácia; Atenção Terciária à Saúde


Destaques:

(1) A intervenção educativa teve um impacto positivo no conhecimento dos profissionais. (2) O número de respostas corretas após a intervenção educativa aumentou. (3) O processo de ensino-aprendizagem em cuidados paliativos deve ser incentivado. (4) Os resultados podem subsidiar a elaboração de outras intervenções educativas. (5) A implementação desses cuidados pode proporcionar maior qualidade na assistência.

Objective:  to assess nursing professionals› knowledge and self-efficacy regarding palliative care before and after an educational intervention.

Method:  a quasi-experimental study conducted in a teaching hospital with nursing professionals who care for adults and the elderly. Data collection was performed at two times: first, a sociodemographic questionnaire and the Bonn Palliative Care Knowledge Test, which assesses knowledge and self-efficacy in palliative care, were administered; immediately afterward, an educational intervention on the topic was conducted. Four weeks later, the instrument that assesses knowledge and self-efficacy was reapplied. The data were analyzed using the Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) version 21.0.

Results:  179 professionals participated, with an average age of 40.17 years and a predominance of females. The knowledge score obtained higher averages after the intervention (pre-test=11.77; post-test=15.03), while the self-efficacy score was lower (pre-test=3.21; post-test=3.38), but both were statistically significant (p<0.01).

Conclusion:  the educational intervention was effective in increasing knowledge and self-efficacy in palliative care among nursing professionals. These results may support the development and dissemination of palliative care practices in health services.

Descriptors:
Palliative Care; Nursing Team; Continuing Nursing Education; Knowledge; Self Efficacy; Tertiary Healthcare


Highlights:

(1) Educational intervention had a positive impact on the professionals’ knowledge. (2) The number of correct answers after the educational intervention increased. (3) The teaching-learning process in palliative care should be encouraged. (4) The results can support the development of other educational interventions. (5) The implementation of this care can provide higher-quality assistance.

Objetivo:  evaluar el conocimiento y la autoeficacia de los profesionales de enfermería sobre los cuidados paliativos antes y después de una intervención educativa.

Método:  estudio cuasiexperimental, realizado en un hospital universitario, con profesionales de enfermería que atienden a adultos y ancianos. La recopilación de datos se realizó en dos momentos: en el primero, se aplicó el cuestionario sociodemográfico y el instrumento Bonn Palliative Care Knowledge Test, que evalúa los conocimientos y la autoeficacia en cuidados paliativos; inmediatamente después, se llevó a cabo la intervención educativa sobre el tema. En un segundo momento, tras cuatro semanas, se volvió a aplicar el instrumento que evalúa los conocimientos y la autoeficacia. Los datos se evaluaron con el programa Statistical Package for the Social Sciences, versión 21.0.

Resultados:  participaron 179 profesionales, con una edad media de 40,17 años y predominio del sexo femenino. El puntaje de conocimiento obtuvo medias más altas después de la intervención (preprueba=11,77; posprueba=15,03) mientras que el puntaje de autoeficacia fue en una escala menor (preprueba=3,21; posprueba=3,38), aunque ambos fueron estadísticamente significativos (p<0,01).

Conclusión:  la intervención educativa fue efectiva para adquirir conocimiento y autoeficacia en cuidados paliativos en profesionales de enfermería. Estos resultados pueden apoyar el desarrollo y la difusión de prácticas de cuidados paliativos en los servicios de salud.

Descriptores:
Cuidados Paliativos; Grupo de Enfermería; Educación Continua en Enfermería; Conocimiento; Autoeficacia; Atención Terciaria de Salud


Destacados:

(1) La intervención educativa tuvo un impacto positivo en el conocimiento de los profesionales. (2) El número de respuestas correctas después de la intervención educativa aumentó. (3) Se debe fomentar el proceso de enseñanza-aprendizaje en cuidados paliativos. (4) Los resultados pueden apoyar el desarrollo de otras intervenciones educativas. (5) La implementación de esta atención puede proporcionar una atención de mayor calidad.

Introdução

Os Cuidados Paliativos (CP) são destinados às pessoas com doenças ou condições que ameaçam a vida e ocasionam limitações e perda progressiva da funcionalidade. Têm como benefícios e objetivo principal prevenir e tratar o sofrimento que o paciente, família e o cuidador possam vivenciar, seja ele de natureza física, psicológica, social e/ou espiritual1.

Apesar de muitos avanços no Brasil, os CP ainda são pouco difundidos, tanto na assistência em serviços especializados quanto na área da educação, visto que existem falhas no conhecimento dos profissionais de saúde, falta de treinamento com as equipes já atuantes e ausência do conteúdo na matriz curricular dos ensinos de graduação2.

Análise sobre a compreensão dos profissionais de saúde acerca de CP evidenciou que eles possuem pouco conhecimento ou têm uma visão distorcida sobre o tema. Tais dados são preocupantes, pois a falta de capacitação gera insegurança em relação a como agir em situações específicas, privando pacientes e familiares de receberem os benefícios que os CP podem proporcionar3.

O Ministério da Saúde (MS) brasileiro vem contribuindo para a implementação dessa abordagem no país. Em sete de dezembro de 2023, foi publicada a Resolução n.º 729, que aprovou a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no Sistema Único de Saúde (SUS), que prevê a garantia de acesso a essa assistência em qualquer ponto da Rede de Atenção à Saúde (RAS). Diante desse cenário, entende-se que a demanda relacionada aos cuidados desses pacientes não será suprida apenas por equipes especializadas em CP, pois apresentam número insuficiente no Brasil. Dessa forma, os profissionais não especialistas, já atuantes nas RAS, seriam os responsáveis por cuidar da maior parte das demandas relacionadas aos CP4.

Porém, para que isso aconteça, estes profissionais precisam desenvolver conhecimento e competências sobre a temática, para assim aplicar esta prática corretamente, seguindo os princípios e oferecendo assistência com qualidade, sem deixar a população desassistida. Profissionais de enfermagem são responsáveis por cuidar da maior parte das demandas; com isso, tornam-se necessárias ações de educação como parte do planejamento do sistema de saúde, para que se favoreça não só o acesso, mas a resolutividade das necessidades de saúde dos usuários que precisam desses cuidados5.

A educação em serviço é um processo contínuo e dinâmico para a construção do saber profissional. Atividades educativas proporcionam pensamento crítico e transformação da realidade em que o profissional está inserido. Aliado a isso, as práticas de enfermagem estão sempre associadas às ações educativas, promovendo mudanças em suas atividades, garantindo a qualidade da assistência e o contínuo aprimoramento profissional6.

Assim, tendo em vista o baixo desenvolvimento dos CP no Brasil, possivelmente associado às lacunas no conhecimento dos profissionais e considerando que se trata de uma prática essencial nos sistemas de saúde, principalmente nesse contexto de transição sociodemográfica, com uma crescente demanda de pacientes que podem se beneficiar dessa abordagem, torna-se relevante o desenvolvimento de ações voltadas à construção de conhecimento e à sensibilização sobre o tema, com vistas a qualificar a assistência prestada à população5.

Nesse contexto, identificar o que o profissional possui de conhecimento deve ser considerado na prática de ensino, pois facilita o processo de aprendizagem e sua transmutação em ações práticas para mudança de realidade7. Dado o cenário exposto, este estudo objetivou avaliar o conhecimento e a autoeficácia sobre CP de profissionais de enfermagem antes e depois de uma intervenção educativa.

Método

Delineamento do estudo

Este é um estudo quase experimental, do tipo antes e depois, no qual os mesmos sujeitos foram avaliados no pré-teste e no pós-teste de uma intervenção educativa, que seguiu a lista de verificação Template for Intervention Description and Replication (TIDieR).

Local

A pesquisa foi realizada em um hospital público de ensino, na cidade de Uberaba, no estado de Minas Gerais (MG), Brasil. O hospital possui 302 leitos ativos e atende à demanda do SUS de uma macrorregião de Minas Gerais. A instituição é referência para a média e alta complexidade8.

Período

A coleta de dados foi realizada no período de maio a setembro de 2024.

Amostra e critérios de inclusão

A população do estudo foi composta por profissionais de enfermagem (enfermeiros, técnicos em enfermagem e auxiliares de enfermagem) com idade igual ou superior a 18 anos, que atuavam na assistência direta ao paciente adulto/idoso, dos seguintes setores em regime de internação: ortopedia, clínica médica, clínica cirúrgica, unidade de doenças infecciosas e parasitárias, neurologia, ginecologia e obstetrícia, onco-hematologia, unidade de terapia intensiva I, II e coronária e pronto-socorro adulto. Foram excluídos os profissionais que estavam de férias ou afastados do trabalho no período da realização do estudo.

O cálculo do tamanho amostral foi realizado após análise do estudo-piloto com 18 profissionais. O nível de significância considerado foi um erro do tipo I (α=0,01), um erro do tipo II (β=0,1) e um poder estatístico de 90%. Considerando o conhecimento em CP como o desfecho primário, a média de aumento dos escores do pré-teste para o pós-teste foi de 5,72 pontos (dp=3,10), o que equivale a um ganho superior a 50%. Com base nesses valores, o tamanho amostral foi realizado por meio do programa Power Analysis and Sample Size (PASS), resultando em um total de 30 participantes. Salienta-se que os participantes do estudo-piloto não fizeram parte do estudo principal.

Tendo em vista que a magnitude do efeito da intervenção no estudo-piloto foi maior do que o esperado, decidiu-se, por precaução, que o estudo principal deveria incluir um número de participantes superior ao preconizado no estudo-piloto. Como a intervenção foi realizada em parceria e cadastrada no Serviço de Educação em Enfermagem (SEE) do referido hospital, optou-se por convidar todos os profissionais de enfermagem interessados em participar do estudo. Portanto, utilizou-se uma amostragem não probabilística, do tipo por conveniência.

Dessa forma, participaram do estudo no pré-teste 214 profissionais de enfermagem; entretanto, na etapa da aplicação do pós-teste, houve perda de 35 participantes, sendo a amostra final de 179 profissionais.

Instrumentos de coleta de dados

Utilizou-se para caracterizar a amostra um questionário sociodemográfico e profissional elaborado pelos próprios autores, contendo as variáveis: idade, sexo, grau de escolaridade, categoria profissional de atuação, titulação, especialização (pós-graduação), setor de lotação, tempo total de experiência profissional e o turno de trabalho.

Para a avaliação do conhecimento e autoeficácia em CP, foi utilizado o instrumento Bonn Palliative Care Knowledge Test (BPW), desenvolvido na Alemanha em 20119, traduzido e adaptado culturalmente para o contexto brasileiro em 201810. Ele contém 38 questões, sendo 23 destinadas à avaliação do conhecimento, com tópicos sobre o controle da dor e outros sintomas, o conhecimento geral sobre o tema e as atitudes ante a morte e o morrer. De acordo com as instruções do instrumento, os itens de conhecimento numerados como 1 a 4, 6 a 10, 12, 14 e 16 a 20 devem ser considerados incorretos, enquanto os itens 5,11,13,15,21 a 23 são considerados corretos.

As 15 questões restantes avaliam a autoeficácia na prestação de CP e fornecem informações sobre confiança do participante para implementar o que foi aprendido na prática clínica. As questões são organizadas no formato de uma escala tipo Likert, cujas respostas incluem “correto”, “mais correto que incorreto”, “mais incorreto que correto” ou “incorreto”9-10.

Para a escala do conhecimento, o escore geral representa a soma dos itens considerados corretos e pode variar de zero (se o respondente errou todos os itens) a 23 (se acertou todos). Quanto maior o escore, maior o conhecimento do profissional. Na escala de autoeficácia, o escore geral representa a média das respostas aos itens da escala e pode variar de zero (sente-se incapaz) a quatro (sente-se totalmente capaz), ou seja, quanto mais próximo de quatro, mais o profissional sente-se capaz para realizar determinada ação descrita no instrumento9-10.

Etapa operacional

O conteúdo programático da aula da intervenção educativa foi desenvolvido com base no manual de CP do Ministério da Saúde em parceria com o Hospital Sírio-Libanês (2023)1 e na literatura vigente, com foco nas questões importantes para o conhecimento em CP.

Sendo assim, os tópicos de abordagem selecionados e elaborados foram: a) conceito atualizado e os princípios de CP; b) a importância do tema para os profissionais de saúde, com apresentação de dados epidemiológicos; c) a relação dos CP com tratamento modificador da doença, destacando que os objetivos da terapêutica paliativa estarão de acordo com a evolução funcional e clínica de cada paciente; d) a importância da assistência multiprofissional; e) identificação e controle dos sintomas físicos prevalentes nesta demanda (dor, náuseas e vômitos, constipação e dispneia); f) os principais sintomas psíquicos (ansiedade, depressão e delirium); g) os aspectos sociais mais comuns, como perda da identidade social, perda do papel social e familiar e isolamento social; h) espiritualidade; i) cuidados de fim de vida, destacando que os tratamentos propostos devem ser avaliados em relação à sua proporcionalidade ante o processo de finitude; j) comunicação efetiva entre equipe, paciente e família; k) os serviços que estão disponíveis no hospital para atender à demanda de CP e como realizar a solicitação desse serviço.

Após a elaboração da aula, o conteúdo foi enviado para validação, que ocorreu de forma independente, por meio de uma carta-convite, via eletrônica (e-mail), para 13 doutores previamente selecionados por meio da análise do Currículo Lattes, que possuíam conhecimento sobre o constructo em questão. Dos 13 doutores, sete não responderam a nenhum dos contatos eletrônicos e três recusaram participar. Assim, três doutores fizeram parte da validação do conteúdo.

Para aqueles que concordaram em participar da validação, foi enviado um novo e-mail contendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Instrumento de Validação de Conteúdo Educativo em Saúde (IVCES). O prazo solicitado para devolução do instrumento pelo especialista aos pesquisadores foi de 10 dias, podendo esse período ser flexibilizado, caso necessário.

O IVCES possui 18 itens, sendo dividido em três grupos: objetivos (1-5), estrutura e apresentação (6-15) e relevância (16-18), com opções de respostas utilizando a escala Likert, sendo 0 = discordo, 1 = concordo parcialmente e 2 = concordo totalmente. Além da pontuação do instrumento, o especialista podia também registrar em texto corrido, caso necessário, suas considerações11.

Após o preenchimento e a devolução do instrumento por todos os especialistas, procedeu-se à avaliação da concordância entre os juízes quanto à validação do conteúdo. Para isso, foi calculado o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), que corresponde à divisão entre a soma do número de respostas em concordância (itens marcados como 2) pelo total de respostas, considerando como concordância aceitável o valor mínimo recomendável de 80%.

O especialista 1 atribuiu a pontuação máxima (100%), assinalando a opção “concordo totalmente” para todos os 18 itens do instrumento. Já os especialistas 2 e 3 obtiveram um índice de 80%, com 15 itens avaliados como “concordo totalmente” e 3 como “concordo parcialmente”.

Salienta-se que esse processo de validação é importante, pois avalia a clareza e o entendimento do público-alvo, sua representatividade ao abordar adequadamente o universo a que se propõe e, ainda, busca evitar a inclusão de elementos desnecessários11.

Após a validação do conteúdo, a intervenção educativa foi cadastrada no SEE do referido hospital. Foram realizadas reuniões com os pesquisadores, a enfermeira do SEE e os Responsáveis Técnicos (RT) de cada setor participante da pesquisa, com o objetivo de definir e agendar as datas e os horários das aulas. Os RT ficaram responsáveis pela divulgação e direcionamento da equipe de enfermagem para a participação na intervenção.

Em seguida, a intervenção educativa foi testada em um estudo-piloto com 18 profissionais e, então, foram realizadas adequações apenas em relação à estrutura da apresentação, sem alteração no conteúdo, a fim de otimizar o tempo da intervenção no horário programado. Após a realização do piloto, foi iniciada a fase da intervenção educativa do estudo principal.

Coleta de dados

A intervenção educativa foi realizada por meio de apresentação expositiva com o apoio do recurso visual Microsoft Power Point® e utilizou também a metodologia participativa e dialógica, com o objetivo de permitir a troca de experiências, esclarecimento de dúvidas e discussão das questões levantadas pelos participantes sobre o tema.

A coleta de dados foi realizada em dois momentos (pré-teste e pós-teste). O primeiro, de forma coletiva e em pequenos grupos com as equipes de enfermagem, em sala de aula reservada no próprio hospital, com agendamento prévio das datas e horários dentro do expediente de trabalho dos profissionais, nos três turnos (matutino, vespertino e noturno). Foram necessárias várias disponibilidades de horários e dias de aula devido à impossibilidade de saída dos profissionais ao mesmo tempo de cada setor, sendo que, no total, foram ofertadas 51 aulas.

Foram apresentados em cada encontro os objetivos da pesquisa, bem como foi lido o TCLE. Após aceitação e assinatura, foram aplicados o questionário sociodemográfico e profissional e o instrumento BPW. Estabeleceu-se um tempo aproximado de vinte minutos para o preenchimento dos instrumentos, os quais foram preenchidos individualmente. Esse tempo está de acordo com o preconizado pelos autores do estudo original do instrumento e foi determinado também com base no estudo-piloto. Em seguida, ocorreu a educação em serviço de saúde em CP, conduzida pelos próprios pesquisadores. A aula teve duração de aproximadamente quarenta minutos, totalizando cerca de uma hora para toda a atividade.

No segundo momento da coleta de dados, quatro semanas após a intervenção educativa, foi realizada a reaplicação apenas do instrumento BPW. Essa etapa ocorreu de forma individual, por meio de busca ativa dos participantes nos próprios setores em que atuavam. O preenchimento do instrumento teve duração aproximada de dez minutos.

Tratamento e análise dos dados

Os dados coletados foram inseridos em uma planilha eletrônica Excel® do programa Windows® por meio da técnica de dupla digitação, para posterior validação. A identificação de cada participante do estudo ocorreu por meio de códigos. Em seguida, o banco de dados validado foi importado no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 21.0 para processamento e análise12.

Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva com medidas de tendência central (média) e de dispersão (desvio-padrão) para as variáveis quantitativas e frequências absolutas e relativas para as categóricas. Foi avaliada a diferença das médias entre o pré-teste e o pós-teste tanto do conhecimento quanto da autoeficácia em CP. Todos os requisitos para a utilização de testes paramétricos foram devidamente verificados, incluindo a normalidade dos dados e a análise de valores atípicos. Sendo assim, foi aplicado o teste T pareado, nível de significância I α=0,01, considerando intervalo de confiança de 99%.

Para verificar a magnitude do efeito da intervenção, utilizou-se um aplicativo disponibilizado no site Psychometrica.de (https://www.psychometrica.de/effect_size.html)13. A interpretação dos tamanhos de efeito seguiu a seguinte classificação de Cohen: d de Cohen (0,0 a 0,1) = sem efeito; d de Cohen (0,2 a 0,4) = efeito pequeno; d de Cohen (0,5 a 0,7) = efeito moderado e d de Cohen (0,8 a ≥1,0) = efeito grande.

Aspectos éticos

A pesquisa foi registrada na Rede Pesquisa, ferramenta que compõe a Rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), sob o código n.o 3738, obteve o assentimento da Gerência de Ensino e Pesquisa do referido hospital e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição proponente, parecer n.o 6.510.776, respeitando os princípios éticos.

Resultados

Dos 179 participantes avaliados neste estudo, a maioria (82,1%) era do sexo feminino, com média de idade de 40,17 anos (dp = 8,5), sendo a mínima 23 e a máxima 64 anos.

Quanto aos dados profissionais, a maioria (69,3%) foi composta por técnicos em enfermagem, predominando os que atuavam no setor da clínica médica (26,3%) e turno noturno (36,3%), com tempo de experiência profissional de mais de 10 anos (64,2%). No que se refere à pós-graduação, 44,1% relataram ter feito alguma especialização, prevalecendo cursos nas áreas de cuidados intensivos (30,37%) e urgência e emergência (26,58%). Apenas um participante relatou possuir pós-graduação na área de CP.

Em relação ao escore de conhecimento e autoeficácia em CP, houve um aumento no número de respostas corretas após a intervenção educativa, conforme mostra a Tabela 1.

Tabela 1
Distribuição dos escores da amostra aferidos pelo Bonn Palliative Care Knowledge Test (n = 179). Uberaba, MG, Brasil, 2024

Quanto aos constructos do conhecimento, as médias aumentaram consideravelmente após a educação em serviço, com um ganho de três pontos na média de desempenho. Já os resultados referentes à autoeficácia obtiveram aumento, porém, em uma menor escala, com um ganho apenas de 0,1. Ambas foram consideradas estatisticamente significativas (p<0,01). Em relação ao efeito da magnitude da intervenção, o teste de conhecimento foi considerado grande (0,8 a 1,0) e o de autoeficácia obteve efeito moderado (0,5 a 0,7), conforme demonstrado na Tabela 2. Vale ressaltar que, para as avaliações do instrumento, quanto mais próximo de 23, maior o conhecimento e quanto mais próximo de quatro, maior a autoeficácia percebida.

Tabela 2
Comparação da diferença das médias entre o pré-teste e o pós-teste da equipe de enfermagem do Bonn Palliative Care Knowledge Test (n = 179). Uberaba, MG, Brasil, 2024

A Tabela 3 apresenta os resultados do pré-teste e pós-teste de cada item da avaliação de conhecimento do BPW e a Tabela 4, os da avaliação da autoeficácia. A questão que apresentou um ganho maior de acertos após a intervenção foi o item dois (diferença percentual de 35,2%), que se refere ao uso de medicamentos anti-inflamatórios com o uso de opioides. Já nos dados referentes à autoeficácia, houve uma menor variância de amplitude entre o pré-teste e o pós-teste, pois a escala varia apenas de um a quatro e ressalta-se que, no pré-teste, os resultados foram próximos do valor limite. Dentre os itens que tiveram maior ganho após educação em serviço, destacou-se o item 26 (diferença percentual de 17,2%), que aborda a informação sobre CP na própria instituição.

Tabela 3
Avaliação de cada item do conhecimento pré-teste e pós-teste da equipe de enfermagem do instrumento Bonn Palliative Care Knowledge Test (n = 179). Uberaba, MG, Brasil, 2024
Tabela 4
Avaliação de cada item da autoeficácia pré-teste e pós-teste da equipe de enfermagem do instrumento Bonn Palliative Care Knowledge Test (n = 179). Uberaba, MG, Brasil, 2024

Discussão

A análise dos dados coletados indicou a predominância do curso de pós-graduação em cuidados intensivos e urgência e emergência. Tal foco na cura e no tratamento da doença pode influenciar a equipe de enfermagem a não compreender a importância da integração precoce e os benefícios de uma abordagem paliativa aliada à terapia modificadora da doença1.

As competências em CP são essenciais para que os profissionais exerçam uma prática de alta qualidade. É necessário que compreendam que, tão fundamental quanto realizar procedimentos técnicos, é desenvolver habilidades como avaliação e controle de sintomas, comunicação adequada e entendimento da proporcionalidade do cuidado, que modifica de acordo com a condição clínica e a capacidade de recuperação do paciente14.

Essas habilidades são cada vez mais importantes em um cenário de mudança epidemiológica, no qual a demanda por CP é crescente2. Estudos sobre intervenções educativas contribuem significativamente para fortalecer as evidências científicas sobre seus benefícios e evidenciar a relevância dessas propostas no aprimoramento do conhecimento. Ademais, podem favorecer mudanças de atitudes, a modificação de crenças e a redução de barreiras nos serviços de saúde, resultando em uma melhor experiência do paciente15.

Neste estudo, a intervenção educativa em CP mostrou-se eficaz no ganho de conhecimento dos profissionais de enfermagem. Resultado semelhante foi observado em pesquisa realizada com 102 enfermeiros, demonstrando que a educação em serviço contribui para aprimorar a competência dos profissionais na prestação de serviços qualificados em CP. Constatou-se, entretanto, que o conhecimento básico sobre CP ainda é limitado. Nesse sentido, intervenções de aprendizagem, como a educação continuada em enfermagem, podem promover avanços significativos na compreensão dos CP e auxiliar na superação de lacunas relacionadas ao conhecimento e às habilidades profissionais16.

Acredita-se que a modificação do comportamento dos profissionais ocorre quando necessidades internas e externas transformam-se em motivação e propósito, mediadas pela autoconsciência e compreensão. A educação em serviço de saúde promove a reflexão crítica sobre os processos de trabalho, favorecendo a problematização da realidade dos serviços e a construção de soluções, integrando formação, gestão e atenção para aprimorar práticas, fortalecer a atuação da equipe e melhorar a qualidade do cuidado à comunidade17. Dessa forma, nota-se que a inserção do processo educacional nos serviços de saúde é essencial para promover mudanças efetivas na prática profissional.

Verificou-se que, neste estudo, o valor médio para o constructo do conhecimento em CP no pré-teste foi baixo; já na autoeficácia, os profissionais responderam que se sentiam capazes de prestar esse tipo de cuidado. Estudos semelhantes, nacional e internacional, corroboram tais resultados18-19. Entretanto, não é surpreendente que indivíduos considerem-se competentes mesmo com grandes lacunas em conhecimento, pois há grande diferença entre possuir conhecimentos e ser capaz de utilizá-los bem, sob variadas circunstâncias. A autoeficácia exerce influência sobre performance; assim, uma pessoa pode se considerar competente em razão do feedback recebido, o que pode não ter relação direta com seu nível de conhecimento20.

Com relação à diferença de escore em autoeficácia entre o pré-teste e o pós-teste, percebeu-se um baixo ganho. Esse resultado pode estar relacionado à variância de amplitude pequena da escala (um a quatro) e à falta de uma metodologia que envolva parte prática no assunto abordado. Dessa forma, para ter um impacto mais positivo em autoeficácia em CP, é importante a utilização de diferentes métodos de aprendizagem ativa, como, por exemplo, a simulação de um caso clínico. Essa estratégia permite que os participantes aprendam a avaliar corretamente o paciente, identifiquem suas necessidades e elaborem um plano de cuidados. Com isso, os profissionais tendem a sentir-se mais autoconfiantes na realização das tarefas e demandas atribuídas21.

Ao analisar separadamente os itens do instrumento no constructo do conhecimento, é importante destacar que as questões referentes ao uso de medicamentos foram os itens que obtiveram um ganho significativo de acertos no pós-teste (itens 2, 4 e 19). Por serem questões que envolvem um conhecimento mais técnico, considera-se que os referidos itens tenham constituído um desafio no pré-teste para a equipe de enfermagem que respondeu ao questionário.

Nesse sentido, enfatiza-se que ter conhecimento técnico, habilidades e sentir-se capaz de prestar os cuidados em uma abordagem paliativa, especialmente no controle de dor, é essencial para os profissionais de enfermagem. O tratamento da dor em CP envolve uma avaliação integral, considerando determinantes físicos, psicológicos, sociais e espirituais e combina abordagens farmacológicas e não farmacológicas. A equipe de enfermagem deve realizar uma avaliação completa, incorporando comportamentos do paciente e informações subjetivas e objetivas, a fim de comunicar adequadamente os níveis de dor à equipe interdisciplinar e elaborar um plano de manejo eficaz. No entanto, barreiras como a falta de conhecimento sobre avaliação e manejo da dor, comunicação deficiente entre os profissionais e ausência de diretrizes padronizadas podem comprometer o reconhecimento adequado da percepção do paciente, tornando essencial o preparo técnico e a prática reflexiva da equipe de saúde22.

Verificou-se que, neste estudo, o item 1 também apresentou um maior número de respostas corretas no pós-teste, o qual se refere à integração de CP com o tratamento curativo. Acredita-se que, no pré-teste, tenha ocorrido confusão devido à falta de entendimento dos profissionais sobre o conceito atualizado de CP. Esse resultado tem grande importância para a prática clínica, uma vez que a integração precoce dessa abordagem promove o planejamento antecipado dos cuidados, abordando questões como controle da dor, manejo dos sintomas físicos e apoio psicossocial e espiritual, o que reflete no sucesso terapêutico do paciente23.

Estudo realizado na Holanda identificou que, quando a integração de CP ocorre tardiamente, já durante a fase fim de vida, os pacientes são internados com sintomas severos e de difícil controle, devido à falta de reconhecimento das necessidades em tempo hábil24. Esse atraso na elegibilidade deve-se às diversas barreiras, como estigmas relacionados ao encaminhamento devido a um prognóstico incerto, dificuldade em conhecer os critérios de identificação dos pacientes mais propensos a se beneficiarem do acompanhamento precoce e falta de conhecimento dos profissionais sobre o tema24-25. Esses achados ressaltam a importância do conhecimento e da necessidade de discussão sobre CP, tanto no meio acadêmico quanto entre profissionais já atuantes nas instituições de saúde.

Para os itens de autoeficácia, inexiste um parâmetro do quão verdadeira é a afirmação, já que diz respeito ao que o profissional acredita sobre si mesmo, sendo uma percepção mais subjetiva. Espera-se, no entanto, que as respostas afirmem a veracidade dos itens, representando que se sentem capazes de enfrentar determinadas situações26. No presente estudo, o item com maior ganho na autoeficácia foi o item 26: “Informar o paciente e aos familiares sobre os cuidados paliativos na instituição”. Esse achado reforça a importância da divulgação dos CP na atual realidade do hospital, em que o assunto é tão pouco abordado que interferiu no conhecimento da equipe de enfermagem em relação à presença do grupo interdisciplinar de CP na instituição. Dessa forma, evidencia-se a importância da presente pesquisa em preencher uma lacuna no contexto do estudo.

O papel do enfermeiro no cuidado de pacientes com necessidades em CP está associado às diversas práticas essenciais da enfermagem em múltiplas áreas, como o cuidado direto ao paciente e à família, a liderança e o gerenciamento do ambiente, bem como a garantia da segurança do paciente. No entanto, há uma necessidade maior de enfermeiros envolvidos em atividades de pesquisas especificamente voltadas ao tema dos CP, que são essenciais para a prática baseada em evidências. Dessa forma, há uma oportunidade de preencher lacunas por meio de publicações científicas, pois, ao abordar as recomendações relacionadas à pesquisa, à educação e às políticas públicas, as partes interessadas podem trabalhar para fortalecer o papel do enfermeiro em CP e aprimorar os resultados da assistência prestada aos pacientes e seus familiares27.

Entende-se como limitação do estudo a ausência de ensino prático associado ao conteúdo teórico durante a intervenção educativa, o que auxiliaria no desenvolvimento com benefícios mais significativos, não apenas no ganho de conhecimento, mas, principalmente, na autoeficácia, contribuindo para que os profissionais se sentissem mais seguros e confiantes na aplicação dos conhecimentos adquiridos em sua prática profissional. Além disso, o tempo destinado para a realização da intervenção educativa foi considerado limitado para a abordagem aprofundada de todos os aspectos relacionados ao tema.

Os referidos resultados apontam um aumento nas respostas assertivas entre o pré-teste e o pós-teste, o que reforça a relevância do estudo e a necessidade de ações educativas no serviço de saúde voltadas à equipe de enfermagem. Isso evidencia que a intervenção educativa é uma importante ferramenta no processo de ensino-aprendizagem sobre essa temática. Ressalta-se que a implementação desses cuidados pode mitigar o sofrimento do paciente e de seus familiares, proporcionar maior conforto e qualidade na assistência, de modo a reduzir a obstinação terapêutica.

O estudo contribui significativamente para o avanço do conhecimento na área dos CP ao demonstrar a efetividade de uma intervenção educativa. Poderá, portanto, contribuir para o cuidado de enfermagem mais planejado e direcionado quanto às orientações, diálogos e condutas em saúde para essa população específica. No âmbito científico e acadêmico, a pesquisa fortalece a base de evidências sobre intervenções educativas em enfermagem, incentivando novas pesquisas voltadas à humanização do cuidado e à ampliação do acesso aos CP de forma abrangente e eficaz.

Dessa forma, os profissionais de enfermagem devem estar dispostos a aplicar na prática as evidências disponíveis na literatura, visando obter os melhores desfechos em saúde. A prática profissional em CP deve ser sustentada por uma estrutura sólida de conhecimento, ética, princípios, aplicação do método científico e desenvolvimento de um plano de cuidados no processo do pensamento crítico e clínico, com foco na tomada de decisão e na resolução de problemas, interferindo na melhora da qualidade de vida, conforto e dignidade dos pacientes e seus respectivos familiares e cuidadores.

Conclusão

A intervenção educativa foi eficaz para o ganho do conhecimento e da autoeficácia em CP entre os profissionais de enfermagem, sendo observada uma melhora significativa, principalmente no conhecimento. Para o ganho de conhecimento, o destaque foi para as questões medicamentosas para tratamento da dor. Já quanto à autoeficácia, ressalta-se o maior ganho no item relacionado ao profissional conduzir o paciente e seus familiares aos serviços de CP na própria instituição.

Os resultados podem subsidiar a elaboração e a efetivação de intervenções educativas, especificamente em CP, nos serviços de saúde, a fim de minimizar as lacunas consideradas relevantes nessa abordagem.

Agradecimentos

Agradecemos ao Prof. Dr. Vanderlei José Haas pela assessoria na análise estatística da pesquisa; à Enf.ª Rosana Huppes Engel, do Serviço de Educação em Enfermagem, e às graduandas Bianca e Maria Eduarda pelas contribuições na condução da coleta de dados.

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  • *
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Avaliação do conhecimento e da autoeficácia de profissionais de enfermagem sobre cuidados paliativos: estudo quase experimental”, apresentada à Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Barros JA, Ferreira TFA, Bolela F, Pan R, Toffano SEM, Nicolussi AC. Educational intervention for nursing professionals on palliative care: quasi-experimental study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. Available from: https://doi.org/10.1590/1518-8345.8026.4822
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
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Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lucia do Carmo Cruz Robazzi

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Abr 2025
  • Aceito
    30 Set 2025
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