Open-access Consulta de Enfermagem baseada no autocuidado apoiado para manejo do diabetes mellitus tipo 2: estudo quase experimental*

Objetivo:  avaliar o efeito da consulta de enfermagem baseada no autocuidado apoiado na realização de atividades de autocuidado e sobre parâmetros laboratoriais em pessoas com diabetes mellitus tipo 2.

Método:  estudo quase experimental junto a pessoas com diabetes mellitus tipo 2, com grupo comparador, cujos participantes receberam acompanhamento habitual oferecido pela unidade, e grupo intervenção, que recebeu três consultas de enfermagem e duas ligações telefônicas de monitoramento. Dados analisados mediante modelos lineares mistos, com significância de 5%.

Resultados:  participaram do estudo 57 indivíduos. Observou-se efeito significativo da intervenção sobre os escores de adesão às atividades de autocuidado e nos níveis de colesterol total, lipoproteína de muito baixa densidade, triglicérides.

Conclusão:  a consulta de enfermagem centrada no apoio ao autocuidado associada ao monitoramento telefônico, favorece a compreensão sobre a doença e o engajamento no manejo da condição crônica por pessoas com diabetes mellitus tipo 2, com reflexos nos parâmetros laboratoriais.

Descritores:
Enfermagem Ambulatorial; Diabetes Mellitus; Autocuidado; Engajamento do Paciente; Atenção Primária à Saúde; Enfermagem.


Destaques:

(1) Aumento na adesão às práticas de autocuidado e melhora nos parâmetros laboratoriais. (2) Autocuidado apoiado na APS: prática viável, sustentável e centrada no paciente. (3) Papel estratégico do enfermeiro na implementação de práticas inovadoras e humanizadas. (4) Contribuição da abordagem telefônica no suporte contínuo ao cuidado. (5) Modelo sustentável na APS amplia engajamento e eficiência no manejo do DM2.

Objective:   to evaluate the effect of nursing consultations based on self-care, supported by the performance of self-care activities, on laboratory parameters in people with type 2 diabetes mellitus.

Method:  a quasi-experimental study was conducted with people with type 2 diabetes mellitus, with a Comparison group, whose participants received usual follow-up offered by the health unit, and an intervention group, which received three nursing consultations and two telephone monitoring calls. Data were analyzed using mixed linear models, with a significance level of 5%.

Results:  57 individuals participated in the study. A significant effect of the intervention was observed on adherence scores to self-care activities and on levels of total cholesterol, very low-density lipoprotein, and triglycerides.

Conclusion:  nursing consultations focused on supporting self-care, associated with telephone monitoring, promote understanding of the disease and engagement in the management of the chronic condition by people with type 2 diabetes mellitus, with positive effects on laboratory parameters.

Descriptors:
Office Nursing; Diabetes Mellitus; Self Care; Patient Participation; Primary Health Care; Nursing


Highlights:

(1) Increased adherence to self-care practices and improvement in laboratory parameters. (2) Self-care supported by primary health care: a viable, sustainable, and patient-centered practice. (3) Strategic role of the nurse in implementing innovative and humanized practices. (4) Contribution of the telephone approach to continuous care support. (5) Sustainable model in primary health care increases engagement and efficiency in the management of type 2 diabetes.

Objetivo:  evaluar el efecto de la consulta de enfermería basada en el autocuidado apoyado en la realización de actividades de autocuidado y sobre parámetros de laboratorio en personas con diabetes mellitus tipo 2.

Método:  estudio cuasi experimental con personas con diabetes mellitus tipo 2, con grupo comparador, cuyos participantes recibieron el seguimiento habitual ofrecido por la unidad, y grupo intervención, que recibió tres consultas de enfermería y dos llamadas telefónicas de monitoreo. Los datos se analizaron mediante modelos lineales mixtos, con nivel de significación del 5%.

Resultados:  participaron en el estudio 57 individuos. Se observó un efecto significativo de la intervención sobre los puntajes de adherencia a las actividades de autocuidado y en los niveles de colesterol total, lipoproteína de muy baja densidad, triglicéridos.

Conclusión:  la consulta de enfermería centrada en el apoyo al autocuidado asociada al monitoreo telefónico favorece la comprensión sobre la enfermedad y el compromiso con el manejo de la condición crónica por parte de personas con diabetes mellitus tipo 2, con repercusiones en los parámetros de laboratorio.

Descriptores:
Enfermería de Consulta; Diabetes Mellitus; Autocuidado; Participación del Paciente; Atención Primaria de Salud; Enfermería


Destacados:

(1) Aumento de la adherencia a las prácticas de autocuidado y mejora de los parámetros de laboratorio. (2) Autocuidado apoyado en la APS: práctica viable, sostenible y centrada en el paciente. (3) Papel estratégico del enfermero en la implementación de prácticas innovadoras y humanizadas. (4) Contribución del abordaje telefónico en el apoyo continuo al cuidado. (5) Modelo sostenible en la APS amplía el compromiso y la eficiencia en el manejo de la DM2.

Introdução

A consulta de enfermagem (CE) demanda raciocínio clínico e integra avaliações sistemáticas, intervenções individualizadas e ações educativas que visam à promoção do cuidado integral. As orientações realizadas durante as CE são adaptadas às necessidades e singularidades dos usuários e de suas famílias1 sendo considerada uma tecnologia leve-dura, sustentada por saberes estruturados e fundamentos técnicos-científicos que norteiam o processo de trabalho do enfermeiro2.

As ações educativas voltadas à promoção da saúde são essenciais, pois estimulam as pessoas a refletirem sobre comportamentos e necessidades de mudanças que favoreçam o bem-estar e o manejo de condições crônicas. Estudos indicam que intervenções baseadas no autocuidado apoiado exercem impacto positivo na autogestão da saúde de pessoas com condição crônica3-5, como o Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2). O autocuidado apoiado fundamenta-se na metodologia dos 5As (Avaliar, Aconselhar, Acordar, Assistir e Acompanhar), que organiza de forma estruturada o processo de apoio à mudança de comportamento, orientando o profissional na avaliação das necessidades do usuário, no aconselhamento qualificado, na pactuação de metas e no acompanhamento sistemático6.

De forma mais ampla, o autocuidado constitui um componente essencial na promoção da saúde e no manejo das condições crônicas, sendo compreendido como um processo multidimensional que envolve conhecimento, desenvolvimento de habilidades e mudança de atitude para o monitoramento e manutenção da própria condição de saúde5,7-8. Quando apoiado em uma comunicação efetiva e centrada na perspectiva do usuário, esse processo contribui para o fortalecimento da confiança e da corresponsabilização das pessoas em relação ao seu próprio cuidado8-9.

A American Diabetes Association (ADA) recomenda fortemente intervenções no estilo de vida como estratégia central para o manejo do DM210. Nesse manejo, o autocuidado é essencial e envolve atividades como o monitoramento frequente da glicemia capilar, alimentação saudável, prática de atividade física regular, uso correto das medicações e cuidados com os pés11.

Na Atenção Primária à Saúde (APS), a CE fundamentada no referencial do autocuidado apoiado pode constituir uma estratégia promissora para promover o engajamento das pessoas em relação à sua condição de saúde. Por meio da avaliação clínica, pactuação de metas, elaboração de planos de cuidado individualizados e acompanhamento contínuo, o enfermeiro pode auxiliar as pessoas com DM2 a realizarem o manejo mais eficaz de sua condição de saúde, utilizando os recursos disponíveis nos serviços e na comunidade1,6,12.

Embora estudos apontem a importância das intervenções centradas no paciente para a promoção da saúde e autogestão da condição crônica, constata-se a predominância daqueles focados na prevenção de complicações da doença13-15. Portanto, persistem lacunas na literatura que traduzam as recomendações em práticas estruturadas de enfermagem no âmbito da APS16.

Nesse sentido, evidenciar que o uso de uma tecnologia leve-dura como a CE pode favorecer o manejo adequado do DM2 viabiliza contribuições com o processo de trabalho nas unidades de Saúde da Família, com a redução de hospitalização, com a adesão ao tratamento e às práticas de autocuidado e com a melhora na qualidade de vida1,3,10. Para além, contribui também com o avanço do conhecimento sobre a assistência oferecida às pessoas com condições crônicas, especialmente o diabetes.

Diante do exposto, surge o seguinte questionamento: quais são os efeitos da CE baseada no autocuidado apoiado na adoção de práticas de autocuidado e sobre os parâmetros laboratoriais de pessoas com DM2? Para respondê-lo, definiu-se como objetivo do estudo: avaliar o efeito da CE baseada no autocuidado apoiado na realização de atividade de autocuidado e sobre parâmetros laboratoriais em pessoas com DM2.

Método

Delineamento do estudo

Estudo quase experimental, de natureza quantitativa, vinculado a um projeto matricial financiado pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT), no edital do Programa Pesquisa para o SUS: gestão compartilhada em saúde (PPSUS). As recomendações do Transparent Reporting of Evaluations With Nonrandomized Designs (TREND)17 foram utilizadas na elaboração desse relatório de pesquisa.

Local e período da coleta de dados

O estudo foi realizado em duas Unidades de Saúde da Família (USFs) em uma capital do Centro-Oeste brasileiro. A primeira tinha 447 pessoas com DM2 cadastradas, e foi destinada para o grupo comparador; a segunda tinha 332 pessoas cadastradas e foi destinada ao grupo intervenção. Os dados foram coletados no período de março a novembro de 2023.

População e critérios de seleção

A população do estudo foi composta por pessoas com DM2. Foram critérios de inclusão: 18 anos ou mais, cadastrado em uma das USF em estudo e manifestação de interesse por participar da pesquisa ao ter conhecimento sobre ela. Os critérios de exclusão foram: apresentar condições de saúde que dificultariam ou impossibilitariam a comunicação verbal e/ou o deslocamento até a unidade, conforme informado pelo ACS.

Considerou-se como motivos de descontinuidade: hospitalização no período de coleta de dados e o não atendimento de três tentativas de contato telefônico em dias e horários distintos.

Definição da amostra e variáveis de estudo

A pesquisa foi divulgada mediante cartazes fixados nas unidades, distribuição de panfletos e convites pessoais realizados pelos membros da equipe de Saúde da Família, sobretudo os Agentes Comunitários de Saúde (ACS). A amostra foi do tipo não probabilística, definida por conveniência.

As variáveis de interesse foram aquelas relacionadas com a caracterização dos participantes (faixa etária, sexo, raça, estado civil, ocupação, escolaridade, tempo de diagnóstico) e com os desfechos. Foram considerados dois tipos específicos de desfechos: a) Parâmetros laboratoriais dos exames: glicemia de jejum, colesterol total, lipoproteína de alta densidade (HDL), lipoproteína de baixa densidade (LDL), lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL), triglicérides, ureia, creatinina, hemoglobina glicada (HbA1c); e b) Atividades de autocuidado com o diabetes.

Caracterização da intervenção

Os indivíduos participantes do grupo comparador receberam o acompanhamento habitual da unidade em que estavam vinculados, o que inclui consultas médicas por demanda, distribuição de medicamentos e de insumos para aplicação de insulina e monitoramento da glicemia. Para a pesquisa, realizou-se exames laboratoriais e os participantes responderam ao questionário em dois momentos. Já os integrantes do grupo intervenção, além do já citado, receberam também três CE presenciais e duas ligações telefônicas de monitoramento.

As CE foram guiadas por um instrumento elaborado pela equipe de pesquisa com base nas informações contidas no manual do Autocuidado, o qual é fundamentado na metodologia dos “5 As” (Avaliar, Aconselhar, Acordar, Assistir e Acompanhar)18. Com duração média de 60 minutos, as etapas foram realizadas conforme cronograma apresentado na Figura 1, na própria unidade ou no domicílio, quando extremamente necessário - intercorrência que impossibilitou o deslocamento do paciente (dois casos).

Figura 1
Esquema de intervenção

Na primeira CE, realizou-se o exame físico e investigou-se a percepção sobre o diabetes, além de se identificar as principais dificuldades/problemas enfrentados para o manejo dessa condição. Também foi feita uma avaliação clínica composta por aferição da pressão arterial, verificação do peso e altura para determinação do Índice de Massa Corporal, circunferência abdominal e medição da glicemia capilar.

Ao final da CE foi solicitado que os participantes priorizassem um dos problemas/dificuldades no manejo do DM2 e sugerissem ações que consideravam viáveis para contorná-lo. A partir disto, foi elaborado, de forma conjunta, um plano de cuidados individualizado para cada participante, constituído por metas e atividades a serem realizadas.

Nas duas consultas seguintes, a avaliação clínica foi realizada novamente e investigado o cumprimento das metas. Quando as metas eram alcançadas, o indivíduo indicava outro problema/dificuldade e sugeria ações para contorná-lo(a), estabelecendo uma nova meta. Se a meta não fosse alcançada no período de trinta dias, ela era discutida novamente, com base nos deslizes e recaídas do processo de mudança de comportamento, e repactuada, respeitando os limites e as possibilidades do indivíduo.

O telemonitoramento, por sua vez, teve por objetivo acompanhar a meta pactuada, identificar as expectativas para a próxima consulta, sanar dúvidas durante o processo de mudança de hábito e auxiliar os indivíduos nas dificuldades relacionadas ao seguimento das metas. Para cada participante, criou-se um prontuário físico contendo os registros das informações obtidas durante as CE e os telemonitoramentos.

A pesquisadora principal (enfermeira, mestranda em Enfermagem, devidamente treinada para a realização da CE, elaboração de planos de cuidados e aplicação dos instrumentos de coleta de dados) não tinha qualquer tipo de relação anterior com os participantes), foi responsável pela realização de todas as CE e telemonitoramentos.

Coleta de dados e instrumento utilizado

Nos períodos pré e pós-intervenção, os participantes de ambos os grupos realizaram exames laboratoriais de rotina para o acompanhamento do DM2 [glicemia jejum, hemoglobina glicada (HbA1c), lipidograma, ureia e creatinina]19 e responderam ao Questionário de Atividades de Autocuidado com o Diabetes (QAD). Os resultados dos exames foram impressos em duas vias: uma entregue ao paciente e outra arquivada no prontuário.

Para avaliar a adesão às atividades de autocuidado, utilizou-se o QAD, traduzido, adaptado e validado para o Brasil19. O QAD contém 15 itens que abordam alimentação, atividade física, monitoramento da glicemia, cuidado com os pés, uso de medicação e tabagismo. As respostas são apresentadas em escala do tipo Likert (zero a sete) correspondendo ao número de dias na semana em que a atividade foi realizada, sendo zero a pior e sete a melhor situação possível. A pontuação é invertida nos itens sobre o consumo de gordura e doces20. No início da pesquisa o QAD foi aplicado pela pesquisadora principal junto aos integrantes dos dois grupos, quando os mesmos compareciam à Unidade para coleta de material para os exames laboratoriais.

Tratamento e análise dos dados

Os dados foram tabulados em uma planilha por meio do software Excel. Os registros das CE e telemonitoramentos foram analisados com o intuito de quantificar as metas de autocuidado mais frequentemente pactuadas. Os testes t para amostras independentes, X2 de Pearson e Exato de Fisher foram empregados para comparação dos grupos de estudo na linha de base, conforme características socidemográficas e tempo de diagnóstico. Realizou-se o teste de Wilcoxon para a comparação não ajustada dos escores dos grupos entre os dois momentos de observação.

Conduziu-se análise por meio de modelos lineares mistos (Linear Mixed Models - LMM) para avaliar o efeito da intervenção sobre o autocuidado ao longo do tempo e sobre os valores de exames laboratoriais. Essa abordagem foi escolhida por considerar a dependência entre as medidas repetidas realizadas nos mesmos participantes e por permitir a inclusão de casos com dados ausentes em um ou mais momentos de observação, sob a suposição de que os dados faltantes eram do tipo aleatório (Missing at Random - MAR)21.

O momento pré e pós-intervenção foi especificado como fator intrassujeito (efeito de medidas repetidas) e o grupo (intervenção vs comparador) como fator intersujeitos. O efeito de interação “momento × grupo” foi incluído para testar se a variação do desfecho ao longo do tempo diferiu entre os grupos, representando o efeito da intervenção.

Os modelos foram ajustados com intercepto aleatório por participante, permitindo estimar a variabilidade individual nos valores de linha de base. A estrutura de covariância “compound symmetry” foi adotada, considerando a correlação constante entre as medidas repetidas (adequada para dois momentos de observação). As análises foram ajustadas por covariáveis potencialmente confundidoras previamente definidas (idade, sexo, raça/cor e tempo de diagnóstico), inseridas como efeitos fixos.

Os pressupostos de normalidade e homocedasticidade dos resíduos foram verificados graficamente (histograma, Q-Q plot e gráfico de resíduos padronizados versus valores preditos). Pequenas violações foram consideradas toleráveis, dado o caráter robusto dos modelos mistos. Adotou-se o nível de significância de 5%. As análises foram realizadas no software IBM Statistical Package for the Social Sciences (SPSS)® Statistics, versão 20.

Considerações éticas

O estudo foi desenvolvido em conformidade com as recomendações éticas nacionais e internacionais para pesquisas envolvendo seres humanos, com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da instituição signatária (Parecer nº 4.321.389).

Resultados

Foram alocados 29 indivíduos no grupo intervenção e 28 no grupo comparador. A Figura 2 apresenta o fluxo do estudo da inclusão à análise dos dados.

Figura 2
Fluxograma de inclusão, alocação, seguimento e análise dos participantes do estudo

Os participantes de ambos os grupos foram considerados semelhantes do ponto de vista estatístico. Embora o resultado do teste de comparação de proporções aponte diferença significativa para escolaridade, observa-se que os intervalos de confiança se sobrepõem em alguma medida para todas as proporções observadas (Tabela 1).

Tabela 1
Comparação dos grupos Intervenção e Comparador com base em características sociodemográficas e tempo de diagnóstico na linha de base. Campo Grande, MS, Brasil, 2023- 2024

A meta pactuada com maior frequência durante as CE foi a alimentação saudável (65,52%), com ênfase na redução de gorduras e carboidratos e maior consumo de frutas. A prática de atividade física, principalmente no que se refere a caminhadas três vezes por semana, por 30 minutos, foi a segunda meta mais pactuada (58,62%), seguida pelo aumento na ingestão de água (37,93%) e o manejo do estresse por meio de atividades prazerosas (27,59%).

De acordo com a Tabela 2, os escores de atividades de autocuidado apresentaram diferença significativa entre os momentos pré e pós para o grupo intervenção, ao passo que, para o grupo comparador a diferença não foi estatisticamente significativa.

Tabela 2
Comparação dos escores de Atividades de Autocuidado com o Diabetes no Grupo Intervenção e Grupo Comparador nos momentos pré e pós-intervenção. Campo Grande, MS, Brasil, 2023-2024

O modelo linear misto indicou efeito significativo da interação “momento x grupo” sobre o desfecho (F (50,0)=5,30; p=0,025), demonstrando que a intervenção produziu efeito significativamente distinto do resultado obtido pelo grupo comparador. O efeito superior da intervenção fica evidente ao se analisar o coeficiente estimado e ajustado pelas variáveis sexo, idade, raça/cor e tempo de diagnóstico, que foi igual a 0,55 (erro-padrão = 0,23; IC95% = 0,07 - 1,03). Portanto, a variação positiva nos valores do escore de autocuidado com o diabetes entre as pessoas que receberam a intervenção foi significativamente diferente da variação no grupo comparador ao longo do tempo.

A Tabela 3 mostra que, de acordo com os modelos lineares mistos, houve efeito positivo significativo da intervenção sobre os valores de Colesterol Total, VLDL e Triglicérides. Isto evidencia que a variação entre momentos pré e pós-intervenção foi diferente entre os grupos independentemente das covariáveis analisadas.

Em termos proporcionais e levando-se em consideração os valores do coeficiente estimado contidos na Tabela 3 (que desconta o efeito sobre o grupo comparador), destacam-se as reduções nos valores de Glicemia de Jejum, Colesterol Total e Triglicérides para o Grupo Intervenção que foram, respectivamente, de 16,7% (média = 171,41 mg/dl), 11,7% (média = 199,52 mg/dl) e 32% (média = 228,55 mg/dl).

Tabela 3
Efeitos da intervenção com base na interação “momento x grupo” sobre os valores de exames laboratoriais. Campo Grande, MS, Brasil, 2023-2024

Discussão

Os resultados deste estudo demonstraram efeitos positivos da CE baseada no autocuidado apoiado sobre as práticas de autocuidado e sobre os níveis de colesterol total, lipoproteína de muito baixa densidade, triglicérides de pessoas com DM2 acompanhadas na APS. Esse resultado indica que intervenções não farmacológicas conduzidas por enfermeiros podem contribuir para o manejo da doença e prevenção de complicações cardiovasculares, reforçando os achados de pesquisas anteriores sobre a efetividade de estratégias de estímulo ao autocuidado em pessoas com DM222-24.

A abordagem individualizada, com pactuação de metas realistas e acompanhamento contínuo, favoreceu o envolvimento ativo dos participantes no cuidado. Esse processo colaborativo, pautado na escuta e na corresponsabilidade estimula o protagonismo e a autoconfiança das pessoas com DM2, corroborando estudos que destacam o papel do enfermeiro como facilitador de mudanças comportamentais sustentáveis3,9,25.

O telemonitoramento mostrou-se um recurso importante de suporte entre as consultas, possibilitando o reforço das orientações, a revisão de metas e o esclarecimento de dúvidas. Essa modalidade de acompanhamento amplia o acesso, fortalece o vínculo terapêutico e sustenta comportamentos de autocuidado ao longo do tempo. Estes benefícios também foram descritos em estudo que utilizou um aplicativo de saúde móvel como forma de intervenção26.

Além dos benefícios clínicos e comportamentais, os achados do presente estudo reforçam a relevância do cuidado centrado no paciente com valorização do contexto social, cultural e emocional de cada pessoa. Destarte, o uso de linguagem acessível, a construção compartilhada do plano de cuidados e o incentivo à autonomia são estratégias que tornam o processo educativo mais significativo e eficaz27-28.

A redução significativa nos níveis de colesterol total, VLDL e triglicérides nos participantes do grupo intervenção pode estar relacionada às principais metas pactuadas durante as CE que foram a melhora nas práticas de alimentação e atividade física. Essa evolução reflete o impacto positivo da intervenção no conhecimento, na autonomia e no engajamento dos participantes, aspectos centrais no manejo de condições crônicas9,23.

No entanto, os resultados divergem de uma revisão sistemática de 18 estudos conduzidos na África, totalizando 2.599 participantes, que não evidenciou melhorias estatisticamente significativas no perfil lipídico após intervenções voltadas ao autogerenciamento do diabetes29. Os autores atribuíram tais achados a limitações referentes e à heterogeneidade das intervenções, bem como à necessidade de profissionais capacitados, recursos adequados e atenção à alfabetização em saúde das pessoas com DM2.

Na perspectiva do manejo clínico, o efeito observado sobre o colesterol total difere de estudo realizado na Cidade do México, junto a 2.334 pessoas, em que se observou aumento discreto do colesterol total como efeito da aplicação de ferramenta multimídia30. Acerca do efeito sobre os triglicérides, o mesmo estudo encontrou redução de 7,6% (de 227,78 para 210,38 mg/dl; p = 0,001), o que sinaliza que a integração entre estratégias (consulta de enfermagem com telemonitoramento) pode favorecer o alcance de melhores resultados.

O erro-padrão do coeficiente estimado para a glicemia de jejum foi considerado alto (57,5% do valor do coeficiente), o que pode estar diretamente relacionado ao fato de a diferença entre os grupos não ter sido considerada estatisticamente significativa. Contudo, o efeito observado sobre a glicemia de jejum é comparável aos efeitos observados na literatura e que foram considerados significativos também do ponto de vista estatístico31.

Em uma intervenção realizada por enfermeiros, baseada em consultas de enfermagem e em plano de cuidados junto a 249 pessoas com DM2 na Espanha, encontrou-se redução de 10,1% nos valores glicêmicos (baseados na HbA1c)31. Já em outro estudo realizado na Tailândia, o efeito ajustado observado foi de uma redução de 7,3% nos valores glicêmicos em 77 pessoas com DM2, a partir de uma intervenção durante 4 meses baseada em educação para o autogerenciamento do diabetes32.

A incorporação de práticas baseadas no autocuidado apoiado na APS é viável e coerente com os princípios da integralidade e da continuidade do cuidado. Contudo, a disposição do profissional não basta, é preciso investimento em capacitação profissional, reorganização dos processos de trabalho e apoio institucional para garantir a sustentabilidade das ações e a integração entre os diferentes níveis de atenção33. O estudo realizado no sul do Brasil constatou que apesar de os enfermeiros acreditarem que o uso das tecnologias pode favorecer a comunicação com outros pontos da RAS e com o paciente, otimizar e apoiar o trabalho em equipe, eles consideram que ausência de capacitações e de apoio institucional e insuficiência de equipamentos e recursos humanos são fatores que afetam e podem inviabilizar o uso do telemonitoramento no acompanhamento de pessoas com condições crônicas como hipertensão e diabetes na APS34.

A reorganização dos processos de trabalho é um requisito para que as práticas que endossem o engajamento dos usuários em condições crônicas se deem sob o escopo proposto no Modelo de Atenção às Condições Crônicas. A implementação da política pública de saúde passa por entraves no microcenário da atenção à saúde e que, no caso do cuidado em condições crônicas, envolve: divergências entre o cumprimento de tarefas individuais dos profissionais e o envolvimento coletivo, predominância do atendimento curativo, falta de planejamento e de integração profissional e a pressão de trabalho relacionada a metas e prazos baseados na produtividade35.

Observa-se na literatura que a oferta de suporte técnico-pedagógico aos profissionais da APS faz parte do processo de reorganização da atenção e que o mesmo contribuiu para a implementação de tecnologias leves e leves-duras no âmbito desse nível assistencial e, consequentemente, para a estabilização do estado de saúde dos usuários com condições crônicas36. Destaca-se, portanto, que para a aplicação prática do autocuidado apoiado na APS, o passo inicial deve envolver gestão, setores de educação permanente e universidades no suporte aos profissionais do ponto de atenção à saúde, a fim de que se sintam apoiados e envolvidos pela cultura da corresponsabilização entre profissional-usuário.

Embora o presente estudo demonstre que o uso dos princípios do autocuidado apoiado pelo enfermeiro produza efeitos positivos sobre os resultados clínicos, entende-se que sua aplicabilidade ultrapassa a prática uniprofissional. Para a realidade nacional, o envolvimento dos ACS é condição fundamental ao considerar a implantação e sustentação das práticas de engajamento, aconselhamento e telemonitoramento a tais condições37. O papel de médicos, profissionais de educação física, nutricionistas e psicólogos deve ser considerado conforme as especificidades locorregionais da RAS e as necessidades e metas dos usuários. Oportunizar as modalidades individual e de Cuidado Compartilhado em grupo podem ampliar o alcance do autocuidado apoiado na prática24-25.

Dentre as possíveis limitações deste estudo, destaca-se a ausência da estratificação do grau de risco, além de fatores externos, como falhas na distribuição de medicamentos durante o período de coleta de dados, que não foram controlados na análise dos dados. Outro aspecto a ser considerado foi a dificuldade em obter o envolvimento ativo dos enfermeiros da ESF nas CE como acordado inicialmente, uma vez que a proposta visava a aplicabilidade no SUS. As justificativas apresentadas para a baixa adesão incluíram o cotidiano sobrecarregado da atenção básica e a percepção de que a presença da pesquisadora principal na condução das atividades dispensaria a participação direta dos demais profissionais. De qualquer modo, os resultados oferecem subsídios para o fortalecimento da enfermagem como prática científica e social, evidenciando o potencial da CE baseada no autocuidado apoiado para promover a autonomia dos indivíduos no manejo do diabetes e melhorar desfechos clínicos.

Conclusão

A consulta de enfermagem baseada no autocuidado apoiado demonstrou efeito positivo no engajamento das práticas de autocuidado em pessoas com DM2 acompanhadas na APS e sobre parâmetros laboratoriais, especialmente colesterol total, lipoproteína de muito baixa densidade e triglicérides. Esses resultados evidenciam que intervenções educativas estruturadas, centradas na pactuação de metas e acompanhadas de suporte contínuo, podem promover o engajamento, autonomia e melhor manejo da condição crônica.

Os achados reforçam o papel estratégico do enfermeiro na implementação de práticas inovadoras e humanizadas de cuidado, capazes de integrar aspectos clínicos, educativos e relacionais. A adoção sistemática da CE fundamentada no autocuidado apoiado contribui para a consolidação de um modelo assistencial centrado no paciente e alinhado aos princípios da integralidade e da corresponsabilização.

Recomenda-se que estudos futuros ampliem as estratégias de intervenção, incluindo a análise dos efeitos da atuação multiprofissional, de abordagens coletivas, de tecnologias digitais e de diferentes contextos assistenciais. Essa ampliação de abordagens poderá fortalecer as evidências sobre a efetividade e aplicabilidade do autocuidado apoiado no enfrentamento das condições crônicas.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Os conjuntos de dados relacionados a este artigo estarão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

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  • *
    *A publicação deste artigo na série temática “Escopo de prática de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde” se insere na atividade 2.2 do Termo de Referência 2 do Plano de Trabalho do Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil. Artigo extraído da dissertação de mestrado “Consulta de enfermagem e telemonitoramento para o autocuidado apoiado no manejo do diabetes mellitus”, apresentada à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, MS, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001, Brasil. Apoio financeiro da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT), Brasil.
  • Como citar este artigo:
    Teston EF, Brito GS, Palasson RR, Dias TG, Arruda GO, Marcon SS. Nursing consultation based on supported self-care for the management of type 2 diabetes mellitus: a quasi-experimental study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4873 [cited ano mês dia ]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.8132.4873

Editado por

  • Editor Associado:
    Omar Pereira de Almeida Neto

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Jun 2025
  • Aceito
    13 Dez 2025
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