Open-access O uso do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional em estudos epidemiológicos sobre o perfil nutricional da população brasileira: revisão de escopo, Brasil, 2008-2025

Resumo

Objetivos:  Identificar e caracterizar a literatura científica sobre o uso do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) na descrição e na análise do perfil nutricional da população brasileira usuária do Sistema Único de Saúde.

Métodos:  Trata-se de revisão de escopo. A seleção dos documentos ocorreu de forma independente em etapas previamente definidas em protocolo de pesquisa. Incluíram-se estudos primários, revisões e literatura cinzenta que passaram por avaliação por pares e produziram evidências a partir de informações quantitativas sobre estado nutricional do Sisvan Web, de todas as populações e localizações. A extração dos dados ocorreu de forma padronizada, e as publicações foram analisadas segundo glossário desenvolvido para padronizar aspectos metodológicos.

Resultados:  Identificaram-se 1.294 registros e analisaram-se 161 após a aplicação dos critérios de elegibilidade. Houve incremento expressivo de publicações, especialmente a partir de 2021, destacando-se delineamentos ecológicos de séries temporais, que têm adotado métodos robustos para analisar dados do Sisvan. Identificaram-se 29 pesquisas que trabalharam dados individualizados, com recorte transversal ou coorte histórica. A fase da vida mais estudada foi a infância, particularmente até os 5 anos. Em 40 pesquisas, a origem do dado foi estratificada, e a maioria utilizou os provenientes do Programa Bolsa Família. Pernambuco, Minas Gerais e Bahia foram os estados mais estudados. Algumas pesquisas investigaram o efeito da pandemia de covid-19 em indicadores do Sisvan ou utilizaram métodos de georreferenciamento/análise espacial.

Conclusão:  Esta revisão apresentou o estado da arte da produção científica com uso de informações nutricionais do Sisvan e caracterizou aspectos metodológicos, informando pesquisas futuras.

Palavras-chave:
Vigilância Alimentar e Nutricional; Sistemas de Informação em Saúde; Estado Nutricional; Epidemiologia Nutricional; Revisão de Escopo

Abstract

Objectives:   To identify and characterize the scientific literature on the use of the Food and Nutrition Surveillance System (SISVAN) in the description and analysis of the nutrition profile of the Brazilian population who use the Brazilian Unified Health System.

Methods:  This is a scoping review. Document selection occurred independently in stages previously defined in a research protocol. The review included primary studies, reviews, and grey literature that underwent peer review and produced evidence from quantitative information on nutrition status held on SISVAN Web, for all populations and locations. Data extraction was standardized, and publications were analyzed according to a glossary developed to standardize methodological aspects.

Results:  A total of 1,294 records were identified, and 161 were analyzed after applying the eligibility criteria. There was a significant increase in publications, especially from 2021 onwards, with emphasis on ecological time-series designs, which have adopted robust methods to analyze SISVAN data. Twenty-nine studies were identified that worked with individualized data, with cross-sectional or retrospective cohort analysis. The most studied life stage was childhood, particularly up to 5 years of age. In 40 studies, the data source was stratified, and most used data from the Bolsa Família Program. Pernambuco, Minas Gerais and Bahia were the states most studied. Some studies investigated the effect of the COVID-19 pandemic on SISVAN indicators or used georeferencing/spatial analysis methods.

Conclusion:  This review presented the state of the art of scientific production using nutrition information from SISVAN and characterized methodological aspects, thus informing future research.

Keywords:
Food and Nutritional Surveillance; Health Information Systems; Nutritional Status; Nutritional Epidemiology; Scoping Review

Resumen

Objetivos:  Identificar y caracterizar la literatura científica sobre el uso del Sistema de Vigilancia de Alimentos y Nutrición (SISVAN) en la descripción y el análisis del perfil nutricional de la población brasileña que utiliza el Sistema Único de Salud.

Métodos:  Se trata de una revisión de alcance. La selección de documentos se realizó de forma independiente en etapas previamente definidas en un protocolo de investigación. Se incluyeron estudios primarios, revisiones y literatura gris que fueron sometidos a revisión por pares y que aportaron evidencia a partir de información cuantitativa sobre el estado nutricional del SISVAN Web, para todas las poblaciones y localidades. La extracción de datos se estandarizó y las publicaciones se analizaron según un glosario desarrollado para estandarizar los aspectos metodológicos.

Resultados:  Se identificaron 1294 registros y se analizaron 161 tras aplicar los criterios de elegibilidad. Se observó un incremento significativo en las publicaciones, especialmente a partir de 2021, destacando los diseños de series temporales ecológicas, que han adoptado métodos robustos para analizar los datos del SISVAN. Se identificaron 29 estudios que trabajaron con datos individualizados, con análisis de cohortes transversales o históricas. La etapa de vida más estudiada fue la infancia, particularmente hasta los 5 años de edad. En 40 estudios, la fuente de datos fue estratificada, y la mayoría utilizó datos del Programa Bolsa Família. Pernambuco, Minas Gerais y Bahía fueron los estados más estudiados. Algunos estudios investigaron el efecto de la pandemia de COVID-19 en los indicadores del SISVAN o utilizaron métodos de georreferenciación/análisis espacial. Conclusión: Esta revisión presentó el estado del arte de la producción científica utilizando información nutricional del SISVAN y caracterizó aspectos metodológicos, lo que permite orientar futuras investigaciones.

Palabras clave:
Vigilancia Alimentaria y Nutricional; Sistemas de Información en Salud; Estado Nutricional; Epidemiología Nutricional; Revisión de Alcance

Introdução

A Política Nacional de Alimentação e Nutrição reconhece a vigilância alimentar e nutricional como qualificadora do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS)1. Para isso, o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) promove o diagnóstico alimentar e nutricional da população e identifica áreas geográficas e grupos sob risco, subsidiando a atenção no SUS e as decisões em saúde pública2.

A prática da vigilância alimentar e nutricional ocorre principalmente na Atenção Primária à Saúde (APS). Baseada na avaliação antropométrica e do consumo alimentar e na triagem da Segurança Alimentar e Nutricional, tal prática é operacionalizada pelo sistema de informação em saúde Sisvan Web, criado em 2007 para centralizar a gestão das informações3-5. Essa plataforma recebe dados do centralizador nacional de informações da APS (estratégia e-SUS APS)6, do Sistema de Gestão do Programa Bolsa Família, além daqueles digitados diretamente na plataforma por gestores do SUS. Os dados são acessados em relatórios públicos, os quais contêm frequências das classificações nutricionais em áreas geográficas ou estabelecimentos de saúde na escala intramunicipal5, ou via módulo restrito por gestores e técnicos das Secretarias de Saúde, que acessam dados individualizados7.

A vigilância alimentar e nutricional tem sido objeto de interesse nas investigações científicas no campo da nutrição em saúde pública. Pesquisadores têm utilizado dados do Sisvan para fundamentar investigações sobre o perfil alimentar e nutricional da população assistida pelo SUS, o desempenho desse sistema e a qualidade dos dados coletados8-14.

Apesar da importância desse sistema para gerar evidências no campo da vigilância e do potencial analítico dos dados coletados continuamente, não há estudos que sistematizem a literatura produzida. Torna-se relevante, portanto, mapear de forma sistematizada a produção científica baseada no Sisvan, para compreender a extensão e o tipo de evidência que vêm sendo produzidos e identificar lacunas, fortalezas e aspectos centrais no conhecimento sobre esse sistema de informação.

Os objetivos deste trabalho foram identificar e caracterizar a literatura científica sobre o uso do Sisvan Web na descrição e na análise do perfil nutricional da população brasileira. Busca-se compreender como as informações provenientes do Sisvan Web têm sido utilizadas na produção científica, identificando as populações mais estudadas no que concerne à faixa etária, à localização, ao sexo, à raça/cor e à escolaridade; os indicadores de estado nutricional mais avaliados; e os delineamentos e as análises de dados mais empregados nas pesquisas.

Métodos

Delineamento

Trata-se de revisão de escopo orientada pelo manual do Instituto Joanna Briggs e pela lista de verificação do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews15-17, bem como pelos elementos população-conceito-contexto.

População: pessoas atendidas na APS do SUS com dados consolidados no Sisvan Web, de todas as fases/evento do curso de vida, sexos, raças/cores e níveis de escolaridade.

Conceito: estudos epidemiológicos sobre o perfil alimentar e nutricional da população com dados consolidados no Sisvan Web.

Contexto: APS do SUS, cobrindo todo o território brasileiro, estados e municípios.

Por mapearem extensamente a literatura sobre temas pouco explorados, as revisões de escopo alinharam-se ao propósito deste trabalho15,18.

Previamente, registrou-se protocolo de pesquisa que detalha os métodos empregados, disponível em: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/2UCSA.

Estratégia de busca

A captação de evidências foi sistematizada em três passos: (i) busca inicial de artigos científicos sobre o Sisvan Web nas bases PubMed e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) para identificar palavras presentes em títulos, resumos e termos de indexação e construir a estratégia de busca; (ii) busca em todas as bases de dados (PubMed, Lilacs, Scopus, Web of Science, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature - CINAHL, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações e Google Acadêmico); e (iii) busca retrospectiva por citações nas listas de referência de revisões da literatura e de literatura cinzenta19.

Adotou-se a seguinte estratégia de busca combinando termos com operadores booleanos AND e OR: ("sisvan" OR "food and nutrition* surveillance system" OR "nutrition* surveillance system" OR "food surveillance system") AND ("brazil" OR "brazilian"), utilizada nas bases, exceto na Google Acadêmico (Tabela Suplementar 1). A busca ocorreu em 31 de julho de 2024 e foi atualizada em 21 de maio de 2025. Não houve limitações de data ou idioma de publicação.

Seleção das evidências

Duas pesquisadoras independentes conduziram a seleção de evidências em etapas sequenciais definidas no protocolo (etapas 7 a 12), com suporte da plataforma livre Rayyan20. Incluíram-se estudos primários (sem restrição de delineamento) e revisões da literatura, publicados na forma de artigos científicos, trabalhos de conclusão de curso ou de residência, dissertações de mestrado ou teses de doutorado, que passaram por algum critério de avaliação por pares e produziram evidências a partir de informações quantitativas do Sisvan Web. Artigos derivados de trabalhos de conclusão de curso ou de residência, dissertações e teses substituíram a fonte original, o que evitou duplicidades.

Excluíram-se documentos e relatórios técnicos, artigos de opinião, editoriais, cartas, materiais de advocacy e policy briefs, assim como pesquisas que não trabalharam dados do Sisvan Web ou que utilizaram o Sisvan-Indígena; pesquisas sobre qualidade dos dados ou desempenho do Sisvan (por exemplo, cobertura); estudos de intervenção; e investigações qualitativas (por exemplo, percepção de profissionais ou gestores sobre o Sisvan).

Extração e análise dos dados

Duas pesquisadoras extraíram dados de dez estudos primários para testar a planilha de extração. Somente a pesquisadora principal extraiu as seguintes informações dos documentos selecionados, utilizando o software Google Sheets (Alphabet Inc., Califórnia, Estados Unidos): autor(es), nome do estudo, ano de publicação, tipo de literatura, revista, objetivos, local, nível de desagregação e tipologia dos dados, delineamento, população, indicadores do Sisvan, origem do dado e métodos, em um processo interativo com a equipe.

Acerca da classificação populacional, uma mesma pesquisa pôde ser incluída em diversas categorias, dependendo da estratificação empregada. Exemplificando, um mesmo estudo pode ter avaliado múltiplas faixas etárias ou sistemas de origem do dado (Sistema de Gestão do Programa Bolsa Família, estratégia e-SUS APS e Sisvan Web). Consideraram-se somente estratificações populacionais ou de origem do dado aplicadas à descrição/análise do estado nutricional; as utilizadas apenas para descrições amostrais não foram contabilizadas.

As publicações foram analisadas e categorizadas segundo glossário desenvolvido para padronizar elementos metodológicos (Tabela Suplementar 2)21-24.

Resultados

A Figura 1 apresentou o fluxograma25 com as etapas sequenciais adotadas para selecionar a literatura científica que compôs esta revisão de escopo. Ao todo, uma revisão sistemática foi encontrada, retornando um estudo primário elegível, e dois artigos científicos foram identificados via dissertação/tese.

Os resultados aqui apresentados basearam-se na análise de 161 publicações que investigaram o componente de estado nutricional do Sisvan Web isoladamente (n=123) ou adicionalmente ao componente de consumo alimentar (n=38). Pesquisas que avaliaram somente o componente de consumo alimentar foram excluídas (n=38).

Embora a plataforma tenha sido lançada em 20074, as primeiras duas publicações datam de 2011, aumentando modestamente até 2020. A partir de 2021, observou-se aumento expressivo de publicações, especialmente em 2023. Predominaram artigos científicos, seguidos pelos trabalhos de conclusão de curso ou de residência, enquanto capítulos de livro, dissertações e teses foram menos frequentes (Figura 2).

Acerca da estrutura do dado epidemiológico, 82,0% utilizaram dados secundários agregados dos relatórios anuais consolidados do Sisvan Web, à exceção de dois trabalhos que utilizaram relatórios mensais26,27. Do total, 59,0% das pesquisas foram classificadas como longitudinais, e 39,8% como seccionais; "65% foram exploratórias, e 35% analíticas analíticas (Tabela 1).

Figura 1
Processo de seleção dos estudos elegíveis para integrar a revisão de escopo, referente às duas buscas bibliográficas

Figura 2
Número de publicações por ano segundo tipo de literatura (n=161)

Tabela 1
Caracterização metodológica das publicações analisadas (n=161)

Entre os estudos com dados agregados (n=132), 95,5% usaram informações de bases geográficas, e 4,5% os relatórios de estabelecimentos de saúde. A maioria comparou frequências ou tendências entre grupos (localidades ou instituições) (65,9%) e empregou delineamento agregado-observacional-longitudinal (65,2%). Observou-se aumento de publicações com delineamento ecológico, com 23 pesquisas em 2023. Do total (n=88), 46 tiveram caráter descritivo. O restante (n=42) teve caráter analítico; destes, 40 estimaram tendências dos indicadores do Sisvan ao longo do tempo.

Entre os 29 desenhos com dados individualizados, havia 16 transversais28-43, nove coortes históricas44-52 e quatro transversais repetidos53-56. Três usaram informações do Programa Saúde na Escola32,40,43; três de estabelecimentos de saúde38,39,44; e um utilizou microdados inseridos no Sisvan Web pela nutricionista responsável pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar municipal28.

Ao total, 69 estudos utilizaram informações demográficas, a maioria sexo (n=61), seguido por raça/cor (n=15), pertencimento a povos/comunidades tradicionais (n=4) e escolaridade (n=3). Entre os três estudos com esse último aspecto, um trabalhou dados administrativos de menores de 6 meses segundo frequência em creche29; outro classificou idosos que frequentaram ou não a escola37; e o último selecionou somente "ensino fundamental" no Sisvan Web para dados de escolares57. Os quatro trabalhos com povos/comunidades tradicionais foram publicados entre 2021 e 2024, e três trabalharam exclusivamente informações dessas populações30,54,58,59 (Tabela 2).

Tabela 2
Caracterização populacional das pesquisas analisadas (n=161)

Dos trabalhos com estratificação de raça/cor, dez utilizaram todas as categorias do Sisvan29,37,40,50,54,60-64. Dois compararam populações negras e não negras65 ou pretas/pardas e brancas66; e três voltaram-se apenas à população indígena não aldeada, já que o monitoramento das aldeadas ocorre pelo Sisvan-Indígena67-69. Sete estudos relataram ausência de registro de raça/cor em parte dos dados37,50,61-63,70,71.

A infância destacou-se como a fase da vida mais estudada, particularmente até 5 anos, seguida dos escolares, pré-escolares e lactentes. Em menor número, houve análises específicas para faixas etárias mais estratificadas da infância. Os quatro estudos com dados de 0-7 anos foram com beneficiários do Programa Bolsa Família. Menor proporção estudou adultos, adolescentes, idosos e gestantes.

A maioria das pesquisas que estratificou o tipo de acompanhamento utilizou o Sistema de Gestão do Programa Bolsa Família. Destas, 25 estudaram apenas beneficiários, e oito compararam o estado nutricional desse grupo com o de todos os usuários. Os trabalhos que utilizaram dados do próprio Sisvan Web ou da estratégia e-SUS APS não compararam indicadores nutricionais entre sistemas nem justificaram a escolha57,68,72-74, exceto uma tese56 e uma dissertação75 que analisaram dados anteriores à implementação desse último sistema.

Em 124 documentos, foi possível identificar a Unidade Federativa estudada. Doze pesquisas abrangeram todos os estados. Entre as demais, houve de um a 10 estudos por estado, exceto Bahia, Minas Gerais e Pernambuco, que se destacaram com 11 a 19 publicações. Outros 37 estudos não especificaram a Unidade Federativa, por trabalharem dados nacionais, de macrorregiões ou de agrupamentos como municípios de fronteiras do país76 e Regiões Intermediárias de Articulação Urbana77.

A maioria das publicações com o público infantojuvenil avaliou o índice de massa corporal-para-idade, seguido da estatura-para-idade. Para estudos com adultos, idosos ou gestantes, o único índice disponibilizado pelo Sisvan Web foi o índice de massa corporal (Tabela 3).

Nove pesquisas com informações individualizadas exploraram outros indicadores nutricionais, o que é possível apenas com esse tipo de unidade analítica. Em geral, os autores empregaram delineamentos diversos (coorte histórica, transversal e transversal repetido) para analisar distribuições médias e percentis de medidas de peso e altura; trajetórias de crescimento infantil (peso, estatura e índice de massa corporal em valores brutos e escore-z); catch-up growth (recuperação do crescimento segundo escore-z); e ganho de peso gestacional. Algumas pesquisas relacionaram esses indicadores com variáveis sociodemográficas, como sexo e raça/cor materna, marcadores de consumo alimentar utilizados na APS e aspectos contextuais dos municípios 30,42,45-47,51-53,56.

Tabela 3
Caracterização dos indicadores de estado nutricional empregados na literatura revisada (n=161)

Acerca das técnicas estatísticas utilizadas para estimar tendências entre os estudos com desenho agregado-observacional-longitudinal, nove pesquisas empregaram modelos de regressão linear simples66,74,77-83. Uma delas teve caráter preditivo e estimou a frequência de obesidade em adultos para 2025 e 2030, investigando a influência da pandemia de covid-1983.

A maioria das publicações empregou a técnica de regressão linear generalizada de Prais-Winsten (n=24), com as primeiras duas datadas de 202184,85. A partir desse período, cresceu o uso desse método9,10,27,67,76,86-101. Identificou-se o uso dessa abordagem em um artigo com desenho individualizado-observacional-transversal repetido54. Ainda, seis pesquisas utilizaram o programa Joinpoint Trend Analysis, criado pelo National Cancer Institute102, para quantificar tendências63,103-107.

Encontrou-se aplicação da abordagem de séries temporais interrompidas em um artigo que investigou o efeito da pandemia de covid-19 sobre indicadores de má nutrição em lactentes inscritos no Programa Bolsa Família, utilizando a técnica de Prais-Winsten e um modelo autorregressivo, integrado e de médias móveis para séries com sazonalidade, por meio de relatórios mensais do Sisvan Web27.

Identificaram-se 12 publicações que objetivaram estudar o impacto da crise sanitária de covid-19108 sobre desfechos nutricionais, sendo o público infantil o mais estudado. Destas, oito empregaram desenhos ecológicos longitudinais, sendo seis descritivos70,109-113 e dois analíticos27,83. Os demais tiveram caráter transversal descritivo, sendo um inquérito33 e três ecológicos seccionais64,114,115.

A variável de cobertura do Sisvan foi relatada em 29 dos 161 documentos e calculada de formas distintas. Entre as pesquisas que estimaram tendências temporais (n=41), 17 calcularam a cobertura do Sisvan. Destas, quatro a utilizaram para ajustar os modelos de regressão, no entendimento de que variações na cobertura podem explicar parte das estimativas de tendência dos desfechos pela relação com notificações de casos ou acesso/qualidade dos serviços de saúde54,87,89,93.

Algumas publicações empregaram análises exploratórias de dados espaciais às informações individualizadas53 ou agregadas do Sisvan - mapas temáticos (n=12), índice de Moran global e índice de Moran local - utilizando diversos sistemas de informação e análise geográfica em um77,91,116-120 ou mais pontos no tempo89,98,105,121. Três trabalhos aplicaram técnicas de georreferenciamento/geocodificação para espacializar desvios nutricionais em escalas municipais, seja por meio de coordenadas geográficas de endereços individuais33,41, seja por meio de dados agregados do Sisvan, localizando estabelecimentos de saúde segundo bairros do município70.

Discussão

Tratou-se da primeira revisão de escopo sobre o uso do Sisvan Web na investigação do perfil nutricional da população assistida pelo SUS. A primeira infância foi a fase mais estudada, especialmente quanto ao índice de massa corporal-para-idade. A maioria dos trabalhos estratificou as análises por sexo, enquanto raça/cor e escolaridade foram menos explorados e apresentaram limitações. Beneficiários do Programa Bolsa Família constituíram o grupo mais estudado quanto à origem do dado. Concentraram-se pesquisas em Pernambuco, Minas Gerais e Bahia. Predominaram delineamentos ecológicos, com incremento de séries temporais robustas. Alguns pesquisadores utilizaram dados individualizados do Sisvan, o que ampliou seu potencial analítico.

Uma limitação deste trabalho recaiu na ausência de avaliação crítica dos estudos, incorrendo em possível seleção com viés, embora essa etapa não seja prevista em revisões de escopo. Contudo, o volume de publicações revisadas permitiu atender ao propósito exploratório abrangente esperado neste tipo de síntese15,16,18. A análise do extenso volume de evidências representou um desafio metodológico. Idealmente, a extração de dados deve ser conduzida por dois ou mais pesquisadores15; entretanto, os processos colaborativos adotados contribuíram para minimizar possíveis vieses de extração e categorização dos resultados.

A crescente aplicabilidade do Sisvan na produção científica pode ter sido impulsionada pela informatização nacional em 2007, que trouxe melhorias operacionais, o que favoreceu sua consolidação e expansão da cobertura. Em 2014, o sistema registrava todos os municípios, embora o maior volume de dados ainda se concentrasse na infância122. Também cresceu o interesse acadêmico em torno desse sistema, evidenciado pelo aumento das publicações, sobretudo após 2021. O aumento da insegurança alimentar, agravado pelas crises política e econômica, repercutiu nas condições de vida da população. Sabe-se que esse cenário incide e se reflete no estado de saúde dos indivíduos, colocando-os em risco de diversas formas de má-nutrição93,123.

O incremento de pesquisas ecológicas condiz com a facilidade operacional e o baixo custo associados às informações secundárias, enquanto dados individualizados anonimizados exigem cessão pelo Ministério da Saúde ou acesso ao módulo restrito da plataforma7, limitando o uso por pesquisadores. Todavia, ambos os tipos de dados oferecem potencialidades: os individualizados são considerados ideais para inferir sobre fatores associados ou causais de agravos à saúde, porém os ecológicos possibilitam compreensões dos fenômenos em um nível de determinação mais totalizador, ao captarem condicionantes estruturais. Quando combinados em modelos hierárquicos, como observado nos trabalhos revisados, podem proporcionar compreensões relevantes sobre os fenômenos de interesse, sendo esta uma aplicação significativa de informações individualizadas do Sisvan Web21,22,24.

Esse sistema pode sinalizar desigualdades sociais por meio de variáveis sociodemográficas70,124, ainda pouco presentes nos estudos agregados, à exceção do sexo. Na ficha do Sisvan, apenas sexo e raça/cor são de preenchimento obrigatório; pertencimento a povos e comunidades tradicionais está disponível desde 20135,30. Estudos evidenciaram falhas de preenchimento no campo raça/cor37,50,61-63,70,71, bem como menor cobertura do Sisvan para a população negra65 ou possíveis erros classificatórios ou de registro desta variável54.

Entretanto, desde 2017, o centralizador nacional da APS é a via preferencial para enviar os dados da vigilância alimentar e nutricional, em detrimento da digitação direta na plataforma Sisvan Web, cuja entrada será descontinuada conforme avançar a implementação da estratégia e-SUS12,125,126. Essa interface é oportuna para qualificar informações do Sisvan e fortalecer o uso de informações sociodemográficas na compreensão de determinantes sociais da saúde124.

Relativamente aos indicadores nutricionais, uma pesquisa relatou a preferência pelo peso-para-idade para menores de 5 anos, por dispensar a aferição da altura, minimizando erros nas estimativas e abrangendo um maior número de crianças no Sisvan103. Para gestantes, o Ministério da Saúde passou a adotar o ganho de peso gestacional como critério diagnóstico, embora o Sisvan Web ainda utilize o índice de massa corporal por semana gestacional para consolidar os dados dessa população3. A não obrigatoriedade de preenchimento do campo de peso pré-gestacional no Sisvan pode incorrer em expressiva ausência desse dado53.

Dados provenientes do Programa Bolsa Família foram os mais utilizados, condizentes com o atrelamento histórico das ações de vigilância nutricional a programas governamentais assistencialistas, como o Programa Bolsa Família desde 2004, e a vinculação desse sistema com o Sisvan Web desde o seu lançamento4,127,128. Em 2020, desobrigaram-se o cumprimento e o registro das condicionalidades em saúde do Programa Bolsa Família, incluindo a avaliação nutricional. Entre 2021 e 2022, esse programa foi substituído pelo Programa Auxílio Brasil, sendo novamente instituído em junho de 2023. Faz-se necessário compreender o impacto dessas mudanças nos indicadores do Sisvan129-131.

São incipientes os estudos com dados da estratégia e-SUS, possivelmente pela recente interface entre os sistemas, iniciada em 20176,7,125. Essa medida fez crescer o número de registros de consumo alimentar inseridos via esse sistema entre 2015 e 2019. Não há evidências sobre indicadores nutricionais, sendo necessário melhor avaliar os efeitos dessa estratégia sobre o desempenho do Sisvan como um todo12.

A expansão de delineamentos ecológicos de série temporal foi possibilitada pelo volume de informação regularmente armazenada no Sisvan Web desde seu advento. Percebeu-se o crescente uso de técnicas estatísticas robustas para estimar tendências temporais, a exemplo da metodologia de Prais-Winsten, indicada para essa finalidade por considerar a autocorrelação serial presente em medidas populacionais. Tal característica viola premissas requeridas em modelos tradicionais de regressão, limitando seu uso em análises temporais ao potencialmente induzir interpretações incorretas sobre os fenômenos132-134. Não se recomenda a operação de centralização da variável "ano" para lidar com a autocorrelação, como identificado em um documento80,132.

O uso da abordagem de Prais-Winsten cresceu em trabalhos nacionais com diversos indicadores de saúde, mortalidade e desempenho dos serviços135. A primeira aplicação dessa técnica a dados do Sisvan data de 2020, em avaliação da cobertura do sistema para crianças da região Norte, entre 2008 e 20178 (busca nas bases Lilacs e Pubmed em agosto de 2025 com os termos "prais-winsten" AND "sisvan"). Houve também aplicação dessa metodologia a dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, outra estratégia de vigilância alimentar e nutricional136-138.

Além do uso na vigilância epidemiológica, estudos temporais podem evidenciar efeitos de eventos ou políticas públicas. Para isso, dados coletados rotineiramente, como os do Sisvan, são apropriados ao permitirem construir séries longas. A análise de séries interrompidas, considerado o modelo quasi-experimental mais robusto para essa finalidade, ainda incipiente na área da vigilância nutricional, pode avaliar efeitos longitudinais de eventos/intervenções sobre indicadores alimentares e nutricionais133,134,139.

Pesquisas com recursos de análise espacial e geocodificação salientam ferramentas metodológicas importantes para a epidemiologia. Sistemas de informação geográfica de livre acesso podem facilitar seu uso ao Sisvan, o que contribui para a visualização espacial dos agravos alimentares e nutricionais e conhecimento de territórios prioritários para intervenções e medidas de vigilância.

Esta revisão de escopo possibilitou identificar elementos a serem explorados em futuras pesquisas: (i) estimativas de tendências com dados do Sisvan Web baseadas em métodos padronizados e robustos, para as diversas fases/evento do curso de vida e localizações geográficas; (ii) análises longitudinais que considerem o efeito de eventos/intervenções populacionais sobre os indicadores nutricionais incrementarão a aplicabilidade das informações da vigilância nutricional; (iii) análises espaciais e geocodificação em escalas intramunicipais permitem acompanhar problemas locais e direcionar esforços efetivos; (iv) melhor compreender o efeito da interoperabilidade entre o Sisvan Web e o centralizador nacional da APS e o impacto das mudanças no acompanhamento das condicionalidades do Programa Bolsa Família sobre indicadores do sistema; (v) sistematizar a ausência de informações demográficas nos macrodados, visando informar setores responsáveis pela gestão da plataforma; e (vi) incorporação de modelos hierárquicos aos microdados para investigar determinantes individuais e contextuais dos agravos nutricionais.

Este trabalho apresentou o estado da arte da produção científica e reconheceu o campo de estudos sobre a vigilância nutricional por meio do Sisvan, caracterizando metodologicamente amplo corpo de evidências e identificando o uso das informações desse sistema. Espera-se que os achados contribuam para informar pesquisas futuras e embasar o aperfeiçoamento do Sisvan.

Material Suplementar

Tabela Suplementar

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Set 2025
  • Aceito
    26 Abr 2026
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