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Open-access Práticas integrativas e complementares em saúde para hipertensão arterial: síntese de recomendações de diretrizes clínicas

Resumo

Objetivo  Identificar os principais usos das práticas integrativas e complementares em saúde (PICS) no manejo da hipertensão arterial sistêmica em adultos.

Métodos  Trata-se de uma síntese de evidências. Os critérios de elegibilidade incluíram diretrizes clínicas que utilizam o sistema Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation e que abordaram PICS para hipertensão, sem restrições de idioma ou data. Foram consultadas as fontes de informação Medline, Embase e Scopus. O risco de viés foi avaliado com a ferramenta Appraisal of Guidelines for Research and Evaluation II, focando o rigor metodológico das diretrizes. A síntese dos resultados foi realizada de forma narrativa, agrupando as recomendações por desfecho e analisando convergências e divergências entre as diretrizes incluídas.

Resultados  Foram incluídas oito diretrizes clínicas nesta síntese de evidências, selecionadas a partir de 560 registros inicialmente identificados. As intervenções mais comuns foram meditação, ioga, técnicas de respiração, tai chi e mindfulness, com impacto positivo sobre a pressão arterial, o controle do estresse e a qualidade de vida dos pacientes. A maioria das diretrizes recomendou essas práticas para o controle da hipertensão, baseando-se em evidências de qualidade moderada e com forte recomendação.

Conclusão  Os resultados desta síntese indicam que PICS são estratégias eficazes e seguras no manejo complementar da hipertensão, sugerindo uma abordagem mais holística e menos medicalizada no tratamento da condição.

Palavras-chave
Guia de Prática Clínica; Abordagem GRADE; Práticas Integrativas e Complementares em Saúde; Hipertensão; Política Informada por Evidências

Abstract

Objective  Identifying the main uses of integrative and complementary healthcare practices (ICPHPs) in managing systemic arterial hypertension in adults.

Methods  Evidence summary. With eligibility criteria for the clinical guidelines from the Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation system and others that addressed ICPHPs hypertension, with no language or date restrictions. Medline, Embase and Scopus were the databases consulted. The Appraisal of Guidelines for Research and Evaluation II tool was used for risk of bias assessment, focusing on methodological rigor. The results were then summarized narratively, grouping the recommendations by outcome and analyzing commonalities and differences between the included guidelines.

Results  Eight clinical guidelines were included in this evidence summary, selected from 560 records initially identified. The most common interventions were meditation, yoga, breathing techniques, tai chi and mindfulness, with a positive impact on blood pressure, stress control and patients’ quality of life. Most guidelines recommended these practices for hypertension control, based on moderate quality evidence with a strong recommendation.

Conclusion  The results of this summary indicate that HCPs are effective and safe strategies in the complementary management for hypertension, suggesting a more holistic and less medicalized approach to managing the condition.

Keywords
Clinical Practice Guide; GRADE Approach; Integrative and Complementary Health Practices; Hypertension; Evidence- Based Policy

Resumen

Objetivo  Identificar los principales usos de las prácticas integrativas y complementarias en salud (PICS) en el manejo de la hipertensión arterial sistémica en adultos.

Métodos  Se trata de una síntesis de evidencia. Los criterios de elegibilidad incluyeron guías clínicas que utilizan el sistema Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation y que abordaban PICS para la hipertensión, sin restricciones de idioma o fecha. Se consultaron las fuentes de información Medline, Embase y Scopus. El riesgo de sesgo se evaluó utilizando la herramienta Appraisal of Guidelines for Research and Evaluation II, centrándose en el rigor metodológico de las guías. La síntesis de los resultados se realizó de forma narrativa, agrupando las recomendaciones por desenlace y analizando convergencias y divergencias entre las guías incluidas.

Resultados  Se incluyeron en esta síntesis de evidencia ocho guías clínicas, seleccionadas de 560 registros identificados inicialmente. Las intervenciones más comunes fueron meditación, yoga, técnicas de respiración, tai chi y mindfulness, con un impacto positivo en la presión arterial, el control del estrés y la calidad de vida de los pacientes. La mayoría de las guías recomiendan estas prácticas para el control de la hipertensión, basándose en evidencia de calidad moderada y con una recomendación fuerte.

Conclusión  Los resultados de esta síntesis indican que las PICS son estrategias efectivas y seguras en el manejo complementario de la hipertensión, sugiriendo un enfoque más holístico y menos medicalizado en el tratamiento de la enfermedad.

Palabras clave
Guía de Práctica Clínica; Enfoque GRADE; Prácticas Integrativas y Complementarias en Salud; Hipertensión; Política Basada en Evidencia

Aspectos éticos

Trata-se de estudo baseada em revisão da literatura, a qual dispensa aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa.:

Introdução

A hipertensão arterial sistêmica representa um desafio importante para Sistema Único de Saúde (SUS), com uma prevalência de 19%, em 2017 (1). Como principal fator de risco para doenças cardiovasculares e mortalidade no Brasil, a hipertensão tem impacto sobre os recursos de saúde. Em 2019, estima-se que Int$ 581 milhões foram gastos apenas no SUS (2). Apesar da redução das taxas de mortalidade ajustadas por idade atribuíveis à hipertensão entre 1990 e 2017, o total de mortes aumentou em 53%, em grande parte devido ao envelhecimento populacional (1). O SUS tem adotado estratégias para o enfrentamento da hipertensão, especialmente por meio da oferta de medicamentos gratuitos e do suporte de equipes multiprofissionais na atenção primária (2).

Nesse contexto, as práticas integrativas e complementares em saúde (PICS) têm ganhado espaço na gestão da hipertensão e são vistas como ferramentas valiosas para a promoção da saúde e o cuidado integral. No entanto, sua adoção no SUS, majoritariamente vinculado à biomedicina tradicional, ainda é incipiente (3). A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC) surgiu como um marco para a incorporação de PICS no SUS, alinhando-se aos princípios de promoção da saúde (4). Entre os profissionais de saúde, especialmente enfermeiros, há um crescente interesse em PICS, com 37% relatando treinamento e 14% utilizando essas práticas no manejo da hipertensão (5). Técnicas como auriculoterapia e sangria – uma prática derivada da acupuntura – são frequentemente utilizadas para abordar a hipertensão arterial e fatores associados, como ansiedade e estresse. Essas abordagens podem contribuir para uma maior adesão ao tratamento, além de promoverem um cuidado mais holístico e centrado no paciente.

Diversos fatores influenciam o uso de PICS no manejo da hipertensão. Nível educacional, ansiedade, gênero e crenças sobre a doença são preditores importantes para a adoção de PICS (6,7). As práticas mais comuns entre pacientes hipertensos incluem o uso de plantas medicinais, alho e auriculoterapia (5,6,8). Embora os benefícios potenciais sejam promissores, a adoção das PICS ainda é limitada, destacando-se a necessidade de maior integração dessas práticas no SUS.

Para garantir a avaliação robusta de diretrizes clínicas, o sistema GRADE (Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation) tem sido amplamente adotado para avaliar a qualidade das evidências e a força das recomendações (9,10). O GRADE fornece uma abordagem sistemática que considera a qualidade dos estudos, consistência dos achados e potenciais vieses, categorizando as evidências em quatro níveis (alta, moderada, baixa e muito baixa) e classificando a força das recomendações como forte, fraca ou condicional (10). Essa abordagem integra a melhor literatura disponível com as preferências dos pacientes e a experiência clínica.

O presente estudo teve como objetivo identificar os principais usos recomendados das PICS no manejo da hipertensão em adultos, a partir de uma síntese de diretrizes clínicas GRADE disponíveis globalmente.

Métodos

Este estudo apresenta uma síntese baseada em uma revisão rápida para avaliação de tecnologias em saúde (11). A revisão rápida utiliza simplificações metodológicas para sintetizar as melhores evidências disponíveis em um prazo reduzido, e é especialmente útil em contextos que exigem respostas oportunas para subsidiar decisões clínicas ou políticas em saúde. Optou-se pela revisão rápida devido à necessidade política de fornecer evidências consistentes e atualizadas em curto prazo para subsidiar as discussões sobre PICS no SUS. Entre as simplificações adotadas, estão a delimitação precisa e objetiva da pergunta de pesquisa, a priorização de estudos secundários (como diretrizes clínicas), o uso de ferramentas específicas para avaliação crítica, além da otimização no processo de extração e análise de dados (realizada por um revisor e revisada por outro, com resolução consensual das divergências).

Critérios de elegibilidade

Os critérios de elegibilidade para inclusão de estudos nesta síntese foram: diretrizes clínicas que utilizassem o sistema GRADE para avaliar a qualidade da evidência e a força das recomendações; abordassem o uso de PICS (apiterapia; aromaterapia; arteterapia; ayurveda; biodança; bioenergética; constelação familiar; cromoterapia; dança circular; geoterapia; hipnoterapia; homeopatia; imposição de mãos; medicina antroposófica/antroposofia aplicada à saúde; medicina tradicional chinesa – acupuntura; meditação; musicoterapia; naturopatia; osteopatia; ozonioterapia; plantas medicinais – fitoterapia; quiropraxia; reflexoterapia; reiki; shantala; terapia comunitária integrativa; terapia de florais; termalismo social/crenoterapia; ioga) no tratamento da hipertensão (pressão arterial ≥130/80 mmHg ou uso de anti-hipertensivos) em adultos (≥18 anos); e estivessem disponíveis em qualquer idioma, independentemente da data de publicação. A escolha por diretrizes que adotam o sistema GRADE justifica-se pela robustez e transparência do método. A inclusão de diretrizes sem restrição de idioma ou data visou ampliar o escopo e a representatividade das recomendações analisadas.

Fontes de informação

As diretrizes clínicas foram buscadas nas bases Medline (via Pubmed), Embase e Scopus. Essas bases têm ampla cobertura em saúde e ciências biomédicas e são reconhecidas pela qualidade e abrangência dos periódicos indexados. Outras bases, como LILACS ou Web of Science, não foram incluídas, devido à sobreposição de conteúdos e menor número de diretrizes clínicas exclusivas. A seleção dessas fontes buscou otimizar a eficiência da pesquisa sem prejuízo da abrangência dos resultados.

Estratégia de busca

A Tabela 1 descreve a estratégia de busca utilizada para identificar diretrizes clínicas sobre o uso de PICS no tratamento da hipertensão. A estratégia combinou termos relacionados aos termos “hipertensão”, “diretrizes” e “sistema GRADE”, ajustados conforme a especificidade de cada fonte de informação. Foram utilizados operadores booleanos e descritores próprios de cada plataforma, visando maximizar a sensibilidade e a especificidade na recuperação de informação relevante.

Tabela 1
Estratégia de busca nas fontes de informação selecionadas e resultados obtidos em 9 de outubro de 2024

Processo de seleção

A seleção das diretrizes foi realizada em duas etapas. Primeiramente, dois revisores independentes realizaram a triagem de títulos e resumos dos estudos identificados, de acordo com os critérios de elegibilidade predefinidos. Divergências foram resolvidas por consenso. Na segunda etapa, os registros potencialmente elegíveis tiveram seus textos completos avaliados em detalhe por um revisor, com a verificação de um segundo revisor para garantir a elegibilidade. Um diagrama de fluxo PRISMA foi elaborado para ilustrar o processo de seleção

Processo de coleta de dados

Um revisor extraiu os dados das diretrizes incluídas utilizando uma planilha eletrônica padronizada, enquanto um segundo revisor confirmou as informações extraídas.

Lista de dados

Os dados coletados incluíram: ano de publicação, país de origem, população-alvo (tipo de hipertensão), PICS investigadas, desfechos analisados, recomendações sobre o uso das PICS, qualidade da evidência (alta, moderada, baixa ou muito baixa) e força da recomendação (forte ou fraca).

Avaliação do risco de viés dos estudos

Para avaliar o risco de viés nas diretrizes incluídas, utilizou-se o domínio “rigor metodológico” da ferramenta Appraisal of Guidelines for Research and Evaluation II (AGREE II) (12). Esse domínio contém oito itens que foram avaliados individualmente por um revisor e confirmado por outro. Os revisores atribuíram as respostas “sim”, “parcialmente” ou “não”, considerando: (i) uso de métodos sistemáticos na busca das evidências; (ii) clareza nos critérios de seleção dessas evidências; (iii) descrição explícita dos pontos fortes e limitações das evidências incluídas; (iv) transparência na formulação das recomendações; (v) consideração explícita dos benefícios, riscos e efeitos adversos à saúde nas recomendações apresentadas; (vi) existência de uma relação clara entre recomendações e evidências; (vii) realização de revisão externa por especialistas antes da publicação; e (viii) existência documentada de procedimentos para atualização periódica das diretrizes. Após avaliação, as divergências entre os revisores foram resolvidas por consenso. A partir do julgamento obtido, foi possível determinar o rigor metodológico e a qualidade global das diretrizes incluídas.

Métodos de síntese

A análise das recomendações das diretrizes incluídas foi conduzida de forma narrativa, levando em consideração a qualidade metodológica das diretrizes e a qualidade das evidências que embasam cada recomendação. As recomendações foram agrupadas por desfecho, com ênfase na identificação de convergências e divergências entre as diretrizes.

Avaliação da certeza

A confiança nas diretrizes foi avaliada com base na aplicação da ferramenta AGREE II, conferindo maior peso às diretrizes com baixo risco de viés, ou seja, aquelas que responderam “sim” à maioria dos critérios de rigor metodológico. Diretrizes com maior número de respostas “sim” foram classificadas como de alta confiança, enquanto aquelas com respostas equilibradas entre “sim”, “parcialmente” e “não” foram classificadas como de confiança moderada, e as com predominância de respostas “parcialmente” e “não” foram consideradas de baixa confiança. A força das recomendações e a qualidade das evidências foram extraídas diretamente do sistema GRADE das diretrizes, permitindo uma interpretação mais precisa das recomendações. A combinação das recomendações foi feita de forma qualitativa, buscando equilíbrio a partir de uma análise crítica do conjunto de evidências disponíveis.

Resultados

Os resultados de cada etapa do processo de seleção de diretrizes sobre hipertensão arterial para esta síntese de evidências estão descritos na Figura 1. Em 9 de outubro de 2024, foram identificados 560 registros nas fontes de informação. Após a remoção de 117 duplicações, restaram 443 estudos para triagem. Desses, 402 foram excluídos com base nos títulos e resumos, resultando em 41 estudos avaliados em texto completo. Após a aplicação de critérios de elegibilidade, 33 estudos foram excluídos, restando 8 estudos incluídos na síntese (13-20).

Figura 1
Fluxo de identificação das diretrizes sobre hipertensão e uso de práticas integrativas e complementares em saúde (PICS)

As diretrizes clínicas relacionadas à hipertensão, abrangendo diversos contextos geográficos e PICS, estão caracterizadas na Tabela 2. Os estudos englobaram diferentes países e contextos, como Brasil, Espanha, Índia, Japão, Taiwan, Estados Unidos e outras nações de baixa e média renda. A população-alvo incluiu adultos hipertensos e com diferentes riscos cardiovasculares. Outros tipos de hipertensão (secundária, gravidez, branca ou maligna) não foram especificados, sugerindo maior interesse pela hipertensão essencial. As intervenções incluem meditação transcendental, ioga, técnicas de relaxamento e biofeedback. Dentre os desfechos, destacam-se redução da pressão arterial, controle do estresse e melhora na qualidade de vida.

Tabela 2
Caracterização das diretrizes clínicas incluídas sobre hipertensão

A avaliação crítica das diretrizes clínicas incluídas nesta síntese está apresentada na Tabela 3. A maioria das diretrizes avaliadas utilizou métodos sistemáticos adequados para a busca de evidências. Houve variação importante na descrição dos critérios de seleção de evidências. A maioria das diretrizes falhou em fornecer uma descrição clara dos pontos fortes e limitações das evidências. Apenas três diretrizes forneceram uma descrição completa e clara dos métodos utilizados para a formulação de suas recomendações. A maior parte das diretrizes consideraram adequadamente os benefícios, riscos e efeitos colaterais à saúde na formulação de suas recomendações. A relação entre recomendações e evidências foi explicitamente demonstrada em quase todas as diretrizes. A revisão externa por especialistas foi uma prática comum nas diretrizes. As diretrizes mais recentes disponibilizaram procedimentos claros para a sua atualização.

Tabela 3
Avaliação crítica das diretrizes clínicas incluídas sobre hipertensão

As recomendações de PICS nas diretrizes clínicas para o manejo da hipertensão estão resumidas na Tabela 4. Respiração lenta guiada, ioga, mindfulness, tai chi e meditação são estratégias recomendadas para o controle da pressão arterial em indivíduos hipertensos (qualidade de evidência: moderada; força de recomendação: forte). Técnicas de relaxamento, como meditação, ioga e exercícios respiratórios melhoram o controle do estresse e da ansiedade (qualidade da evidência: moderada; força da recomendação: forte). Abordagens que promovem bem-estar e autonomia, como ioga, meditação, espiritualidade e religiosidade, destacaram-se pelo seu efeito na qualidade de vida (qualidade da evidência: moderada; força da recomendação: forte). Musicoterapia, biofeedback e grupos de autoajuda apresentam resultados promissores (qualidade da evidência: baixa; força da recomendação: fraca).

Tabela 4
Síntese das recomendações de uso de PICS em diretrizes clínicas sobre hipertensão

Discussão

Os achados desta revisão rápida indicam que as diretrizes clínicas sobre o manejo da hipertensão sugerem que meditação, ioga, tai chi e técnicas de respiração estão associadas à melhora do controle da pressão arterial e ao bem-estar geral dos pacientes. A análise crítica das diretrizes revelou variações quanto à clareza na formulação das recomendações e à descrição dos pontos fortes e limitações das evidências. Apesar dessas diferenças, a maioria das diretrizes mostrou-se alinhada na consideração dos benefícios e riscos à saúde, reforçando o potencial das PICS como uma abordagem complementar no manejo da hipertensão.

Entre as principais limitações desta síntese, destaca-se a restrição às diretrizes clínicas que adotaram o sistema GRADE, o que pode ter levado à exclusão de documentos relevantes que utilizam outros sistemas de avaliação. A variabilidade na qualidade metodológica das diretrizes incluídas, refletida pela inconsistência na descrição dos critérios de seleção de evidências e na formulação das recomendações, pode introduzir vieses na interpretação dos achados (21,22). A possível exclusão de diretrizes não indexadas nas bases de dados utilizadas também representa uma limitação, reduzindo o escopo da análise. O viés de publicação é uma preocupação crítica nas PICS, uma vez que estudos com resultados positivos tendem a ser publicados com maior frequência do que aqueles com achados negativos, o que pode distorcer a avaliação da real eficácia dessas intervenções (23).

Os resultados desta síntese apontam para desempenho favorável da meditação, ioga, tai chi, técnicas de respiração e mindfulness no manejo da hipertensão, evidenciando seu impacto positivo no controle da pressão arterial e na qualidade de vida dos pacientes hipertensos. Meditação para hipertensos com mais de 60 anos e ioga para hipertensos com menos de 60 anos diminuem significativamente a pressão arterial sistólica e diastólica (24). Meditação transcendental e redução do estresse baseada na atenção plena podem produzir reduções clinicamente significativas da pressão arterial (25). A base fisiológica para esses efeitos pode estar relacionada à redução do estresse e à regulação autonômica, promovida por essas práticas, o que favorece o relaxamento e a diminuição da atividade simpática, resultando em melhor controle cardiovascular (26,27). Ressalta-se que as PICS promovem um maior engajamento dos pacientes com sua própria saúde, favorecendo uma abordagem mais holística e menos medicalizada do cuidado, o que pode contribuir para a adesão ao tratamento em longo prazo (28). Tais achados reforçam a importância de considerar as PICS como uma opção viável e complementar às abordagens farmacológicas tradicionais no tratamento da hipertensão.

O potencial das PICS para promover o bem-estar e a autonomia dos pacientes hipertensos é outro aspecto relevante evidenciado nesta revisão. Intervenções como ioga e meditação mostram impacto positivo no controle da hipertensão e também melhoras na qualidade de vida e no bem-estar geral (29,30). Ao permitir que os pacientes participem ativamente no gerenciamento de sua saúde, essas práticas promovem um maior senso de autonomia e controle sobre sua condição, o que pode reduzir a dependência exclusiva de tratamentos farmacológicos (31,32). Ao favorecer o equilíbrio emocional e mental, essas intervenções podem contribuir para a redução de sintomas associados ao estresse e à ansiedade, fatores frequentemente correlacionados com a hipertensão (33,34). Essa abordagem mais integrada ao tratamento, ao envolver aspectos físicos, mentais e espirituais, alinha-se com um modelo de atenção centrado no paciente, promovendo não apenas o alívio dos sintomas, mas uma transformação no estilo de vida que beneficia tanto a saúde física quanto o bem-estar psicológico.

Estudos futuros devem realizar avaliações clínicas mais rigorosas e padronizadas sobre as PICS na hipertensão arterial. Uma revisão sistemática evidenciou que as diretrizes clínicas atuais mencionam pouco essas práticas, destacando uma lacuna importante para orientar profissionais e pacientes (35). Sugere-se que novas diretrizes clínicas utilizem métodos sistemáticos e transparentes, preferencialmente o sistema GRADE, para melhorar a qualidade das recomendações. No Brasil, estudos acadêmicos indicam efeitos positivos de técnicas como ioga, acupuntura e meditação na redução da pressão arterial, porém reforçam a necessidade de métodos mais robustos e amostras maiores (36). Assim, recomenda-se que pesquisas futuras adotem delineamentos rigorosos, como ensaios clínicos randomizados, com amostras representativas. Estudos também devem investigar o impacto das PICS em desfechos de longo prazo, como adesão ao tratamento, qualidade de vida e custo-efetividade, visando fornecer evidências abrangentes e sustentáveis para a prática clínica.

Em conclusão, esta revisão rápida aponta que as PICS apresentam benefícios no manejo da hipertensão, tanto no controle da pressão arterial quanto na melhora da qualidade de vida dos pacientes. Embora haja variações na qualidade metodológica das diretrizes, as evidências indicam que intervenções como meditação, ioga, tai chi e mindfulness são estratégias eficazes e seguras como complemento ao tratamento convencional. Esses achados reforçam a relevância das PICS como uma abordagem promissora no cuidado integral da hipertensão, com potencial para melhorar o bem-estar e a autonomia dos pacientes.

  • Gestora de pareceristas
  • Pareceristas
    Pedro Henrique Brito da Silva https://orcid.org/0000-0003-3552-0439, Cintia de Freitas Oliveira https://orcid.org/0000-0001-6331-6510
  • Disponibilidade de dados
    Não houve criação de banco de dados e/ou códigos de análise nesta pesquisa, além das ilustrações já disponíveis no manuscrito.
  • Uso de inteligência artificial generativa
    O texto foi elaborado com o auxílio do Elicit (https://elicit.com/) e com o Modelo GPT-4o (https://chatgpt.com/). Todas as referências citadas neste texto foram verificadas em texto completo e cada citação foi conferida, para assegurar a confiabilidade e originalidade das afirmações construídas com auxílio de inteligência artificial generativa.
  • Registro do protocolo
    O protocolo desta síntese de evidências está disponível no repositório Open Science Framework, no endereço https://osf.io/q3sbw/. Não houve alterações importantes entre o protocolo e esta versão do manuscrito.
  • Financiamento
    Ministério da Saúde: Projeto FIOCRUZ-VPGDI-014-FIO-20

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    6 Dez 2024
  • Aceito
    13 Abr 2025
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