Open-access Notas a propósito de “Da Dualidade Paradoxal”: uma réplica

Notes on “Of Paradoxical Duality”: a reply

RESUMO

Esta é uma resposta à resposta de Mazzotti ao artigo do autor que trata da dualidade no crescimento econômico publicado neste mesmo número desta revista.

PALAVRAS-CHAVE:
Desenvolvimento econômico; formação do Estado; capitalismo; feudalismo; história econômica da Europa; história econômica do Brasil; dualidade; Estado-nação

ABSTRACT

This is a reply to Mazzotti’s answer to the author’s article dealing with duality in economic growth published in this same number of this journal.

KEYWORDS:
Economic development; state formation; capitalism; feudalism; economic history of Europe; economic history of Brazil; duality; nation-state

Todas as coisas têm, naturalmente, um lado de dentro e um lado de fora - um lado interno e um lado externo - de modo que o estudo da contradição entre o interno e o externo, como tais, não nos pode levar a coisa alguma. Quando examinamos a coisa pelo aspecto pelo qual ela não muda, caímos no que Hegel chamava de ardil do conceito, numa elaboração estéril.

Não é sempre, porém, que o lado interno e o externo são feitos do mesmo material, e essa circunstância pode emprestar interesse ao caso. Noutros termos, constataremos, primeiro, que a coisa é composta de dois materiais heterogêneos e, em segundo lugar, que um desses materiais está do lado de dentro e o outro do lado de fora. Interno e externo são, portanto, qualificações secundárias, em relação à determinação da natureza dos materiais interno e externo, respectivamente.

Similarmente, todas as sociedades, todas as instituições sociais, têm seu lado interno e seu lado externo. Mas não é sempre que os lados opostos das sociedades ou instituições são representativos de modos de produção diferentes. Por exemplo, um país capitalista que se relacione com outros países através de um comércio capitalista; um senhor feudal que se relacione com o suserano por laços de natureza feudal e, com os seus servos, no interior do feudo, por laços da mesma natureza, não constituem dualidades, nem um, nem outro.

Inversamente, se um país não capitalista - pré ou pós-capitalista - relaciona-se com o resto do mundo por um comércio de tipo capitalista, então teremos uma situação especial, à qual proponho que chamemos de dualidade; ou, então, se um vassalo recebe do seu suserano uma data de terra, em troca de obrigações de natureza feudal, e explora sua fazenda pelo emprego de mão-de-obra escrava, então teremos também uma dualidade, isto é, a fazenda será, vista pelo lado de dentro, uma villa, como em Roma, ou um oikos, como na Grécia, e, vista pelo lado de fora, um. feudo, como na Idade Média. Teremos, pois, em ambos os casos, formações duais ou dualidades.

Essas determinações liminares não parecem haver sido percebidas pelo Sr. Mazzotti, em seu artigo “Da Dualidade Paradoxal”, no qual pretende criticar meu artigo (in “Revista de Economia Política”, n. 4) “A História da Dualidade Brasileira”, no qual busco modestamente fazer a história natural desse processo. Resulta que passa ao largo do assunto, ao absolutizar os conceitos de interno e externo, sem cogitar de saber que é que é externo ou interno.

Assim, em vez de criticar o meu trabalho, não admira que se tenha aplicado muito mais a resumir as próprias ideias, aparentemente compendiadas em artigo escrito em 1981, mas que não conhecemos, porque permanece inédito. Maior atenção deve merecer esse artigo, quando, finalmente, for publicado. Sem isso, uma tréplica seria impossível, inclusive porque tréplica não pode haver sem réplica, e o seu artigo não é tal, porque cuida de assuntos diferentes dos do trabalho criticado, de minha autoria.

Não obstante, talvez por essa peculiaridade que têm as construções do espírito, de terem andares superiores perfeitamente habitáveis, antes de se assentarem os alicerces, o trabalho do Sr. Mazzotti levanta questões muito interessantes, que ele infelizmente, não pode resolver, por não haver dominado o tema central.

Por exemplo, interessa-se pelo problema da luta de classes no seio da sociedade dual e pela superação do próprio fenômeno da dualidade. São questões um pouco inesperadas, levantadas por quem não parece convencido da realidade do fenômeno da dualidade, mas a história da filosofia está cheia de paradoxos assim.

A resposta ao primeiro problema é que, sim, a sociedade dual brasileira é movida, como todas as sociedades divididas em classes, pelas lutas destas, umas com as outras, mas, naturalmente, essas lutas revestem-se de feições próprias, cujo estudo escapa ao meu artigo em causa. Por outro lado, limitei-me, no artigo, a assinalar a transitoriedade do fenômeno da dualidade, mas as elucubrações sobre as condições em que sobrevirá o fim ficam inteiramente por conta do Sr. Bonilha.

Tenho a consciência de haver metido em trinta páginas mais matéria do que seria razoável e os equívocos do meu crítico mostram que, como se diz em meu Maranhão, andei querendo “meter a Sé em Santaninha”. Espero que o debate não termine aqui e que haja momentos para abordar esses e outros problemas correlatos com a Dualidade.

Entrementes, cada coisa ao seu tempo. Primeiro reler o artigo, sem pretender tirar dele o que nele não foi posto.

  • JEL Classification:
    O10; P40; P51; P10.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 1982
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