Open-access Inflação: reflexões à margem da experiência brasileira

Inflation: reflections on the margins of the Brazilian experience

RESUMO

Muito já foi dito sobre inflação e particularmente sobre o processo no Brasil. Esta nota visa enriquecer o debate discutindo as principais teorias dos efeitos causais dos processos inflacionários e identificando os problemas e as soluções propostas para resolver a crise brasileira e expor um modelo esquemático da política governamental.

PALAVRAS-CHAVE:
Inflação; emissão de moeda; crise

ABSTRACT

Plenty has already been said about inflation and particularly on the process in Brazil. This note aims to enrich the debate by discussing the main theories of the causal effects of inflationary processes and identifying the problems and the solutions proposed to solve the Brazilian crisis and expose a schematic model of the government policy.

KEYWORDS:
Inflation; money supply; crisis

INTRODUÇÃO

Quase tudo já se escreveu sobre a questão inflacionária. Entre economistas há pouco consenso e muitas teorias sobre os processos causais e as consequências dos processos inflacionários. Para os não-especialistas, estas questões não são menos confusas. Há, no entanto, amplo consenso no fato de que inflação é um dos mais angustiantes problemas políticos e econômicos de nosso tempo. Portanto; aceitar o desafio de elaborar sobre o problema não deixa de ser um ato arriscado.

Daí então não termos a pretensão nestas notas de esgotar a questão inflacionária. Nossos objetivos são, em verdade, bastante modestos. Primeiro, adiantamos algumas proposições básicas e controversas sobre a questão inflacionária. Aqui as mensagens são:

  1. não há uma forma inequívoca de medir as taxas de inflação. É da própria natureza dos processos inflacionários a observação de ampla dispersão entre as diferentes medidas de inflação;

  2. não há uma relação causal única e bem definida entre inflação e meios de pagamentos, nem entre inflação e salários. No entanto, não há dúvida quanto ao fato de que preços (inclusive salários) e moeda correm na mesma direção ao longo do tempo. Neste sentido, inflação é um fenômeno monetário por excelência; e

  3. há uma inequívoca tendência para se observar uma ampliação na dispersão dos preços relativos em momentos de inflexão dos processos inflacionários. No entanto, isso não cria uma tendência redistributiva sistemática e persistente entre setores e/ou grupos de renda.

Segundo, discutimos brevemente as principais teorias causais dos processos inflacionários. Após tratar das teorias monetaristas e não-monetaristas, conclui-se que o problema central da inflação reside na explicação da inércia inflacionária, ou seja, nos mecanismos de reajuste de preços, salários, câmbio e juros, e não em identificar causas únicas e universais dos processos, a exemplo das teorias que nomeiam moeda ou salário ou petróleo como causa única da inflação.

Em terceiro lugar, tentamos de forma a mais sucinta possível identificar os problemas e interpretar esquematicamente a solução que vem sendo perseguida pelo governo para a questão no Brasil. Pretende-se esboçar tão-somente a estrutura básica do modelo que orienta a política econômica. Daí por que se evitam digressões importantes que, em outras circunstâncias, seriam bastante pertinentes, a exemplo das implicações políticas e sociais dos eventuais efeitos da política.

INFLAÇÃO: ALGUNS ESCLARECIMENTOS BÁSICOS

De início, é importante fixar algumas noções básicas para melhor compreender a questão inflacionária.

Definição

Não raro se define inflação como um aumento persistente no tempo do índice geral de preços.1 Há pelo menos dois destaques nesta definição.

Primeiro, enfatiza-se a persistência dos aumentos de preços para permitir uma distinção - por vezes não muito clara - entre movimentos de preços relativos, de um lado, e um processo inflacionário generalizado, de outro. Por exemplo, a quase quadruplicação do preço do petróleo entre 1973 e 1974, em si mesma, não define uma situação inflacionária. A elevação persistente no tempo dos demais preços nos países importadores do petróleo, ocorrida como uma reação àquela, é que a define. Isso por certo não eliminaria todas as ambiguidades na distinção entre aumentos de preços relativos (preço do tomate em relação ao preço do leite, por exemplo) e do índice geral de preços, mas, pelo menos, nos alertaria sobre uma fonte comum de confusão na discussão sobre inflação. Naturalmente ninguém caracterizaria a drástica elevação do preço do tomate que usualmente ocorre no inverno como um surto inflacionário. O mesmo por certo não ocorre com o petróleo.

Segundo, deve-se atentar para o conjunto de preços relevantes que devem ser incorporados na definição de índice geral de preços. É ponto pacífico que preços de bens não-reproduzíveis através da consorciação de trabalho, tempo e matérias-primas não devem ser incluídos na medida de inflação. Assim, preço de terreno, preço de ações e outros títulos financeiros, imóveis usados etc. não são incluídos no índice de preços, que serve de base à definição de inflação.

Em princípio, o índice ideal seria o dado pelo deflator implícito do produto nacional (gerado num dado espaço de tempo). Isso nos daria uma medida, a uma certa periodicidade, da evolução dos preços dos bens de consumo, dos bens de produção e de todos os serviços gerados no intervalo de tempo relevante com o concurso da força de trabalho.2 Por múltiplas razões, inclusive pela impossibilidade prática de se medir tal índice numa periodicidade relevante para o estudo da inflação, esta no entanto não é prática comum. Usualmente se encontram inúmeras medidas de inflação, mesmo em países que dispõem de uma boa infraestrutura para geração de informações estatísticas sobre o sistema econômico.

No Brasil, a exemplo do que ocorre nos demais países, há uma grande variedade de índices de preços. Entre eles há profundas diferenças quanto aos tipos e mesmo qualidade dos bens e serviços que entram na medida dos índices; há também diferenças quanto ao espaço geográfico coberto e mesmo quanto a questões metodológicas de levantamento de informações sobre preços.

Isso por certo gera uma grande dispersão entre as diferentes medidas de inflação e, por consequência, graves problemas jurídicos e sociais face aos reajustes compulsórios ou não de valores contratados pelos agentes econômicos, a exemplo de salário, aluguéis etc.

A esse respeito a experiência inflacionária brasileira em 1980 é rica em ilustrações. As medidas de inflação em 1980 variam entre 121,4% - medido pelo Indice de Preços por Atacado da Fundação Getúlio Vargas, o qual, não por mérito de qualidade técnica, mas simplesmente por tradição, é considerado a medida oficiosa da inflação no país3 - e 84,2%, medido pelo Indice de Custo de Vida da Cidade de São Paulo, calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) ligada à USP.4

Argumenta-se que essa amplitude registrada em 1980 entre as diferentes medidas de inflação, contudo, tende a diminuir quando se mede a inflação em períodos mais longos. Infelizmente, nem sempre essa proposição é verdadeira. Por exemplo, entre janeiro de 1976 e dezembro de 1980 o IPA/FGV cresceu 11,2 vezes e foi superior em 33% ao crescimento do índice da FIPE, maior diferença portanto que a registrada em 1980.

Em sumo, por razões teóricas e metodológicas o leitor não deve se surpreender com a grande dispersão existente entre as múltiplas medidas de inflação. Pode-se dizer até que este estado de confusão é da própria natureza dos processos inflacionários. Contudo, não se deve ter a impressão de que estas medidas sejam inócuas. É melhor saber que a inflação em 1980 foi algo em torno de 90 a 130% a.a. do que não ter nenhuma informação sobre o problema ou pretender estabelecer uma única e correta medida da inflação. O ônus adicional que esta ambiguidade impõe aos agentes econômicos é um dos mais desastrosos males do processo inflacionário. E cresce com o próprio nível da taxa de inflação. Tira a força e enfraquece a legitimidade dos contratos e, por consequência, também enfraquece as instituições monetárias e jurídicas.5

Moeda e preços

Inflação é também um fenômeno monetário, por excelência. Qualquer que seja sua causa primária, o processo inflacionário se manifesta, por definição, numa continuada e persistente perda de poder de compra da moeda. É natural, portanto, que a questão inflacionária evoque a desorganização crescente do sistema monetário, de um lado, e termine, de outro lado, por magnificar as tensões normais criadas pelos reajustes na matriz básica do sistema de preços de uma economia monetária: os de salário, câmbio e juros.

Naturalmente, as ondas inflacionárias não se esgotam no sistema monetário stritu-senso, como querem os monetaristas. Contudo, é absolutamente certo que há uma estreita correlação entre expansão persistente dos meios de pagamentos e aumentos persistentes do índice geral de preços. A dificuldade reside em estabelecer a relação causal entre estes dois fenômenos. Para os monetaristas, como veremos abaixo, a causação básica corre de moeda para preços; para os não-monetaristas, corre de preços para moeda. Para estes, a expansão monetária ocorre por exigências financeiras impostas pelas dificuldades do sistema econômico.

Não há tampouco uma relação estreita entre aumentos persistentes do índice geral de preços e do estoque de moeda, de um lado, e a evolução do produto nacional, de outro. A Fig. 1 ilustra, para o caso brasileiro no após-guerra, a interdependência entre estas 3 variáveis. Preço e moeda correm com extraordinário paralelismo entre 1947 e 1965/1966; depois disto, a expansão monetária se faz a uma velocidade maior, mas na mesma direção que a dos preços. Fenômeno de maior interesse, contudo, ocorre a partir de meados da década dos 60: a um só tempo se observa forte recrudescimento inflacionário e da expansão monetária, de um lado, e drástica desaceleração do crescimento econômico, de outro. Movimentos em direção oposta ocorrem entre 1968 e 1973, para a partir de então voltar a coincidir momentos de aceleração da inflação com desaceleração de crescimento.

Estas simples observações encerram importantes lições. Primeiro, inflação e crescimento coexistem há muito no país. E mais, essa coexistência não tem sido muito pacífica. Após pelo menos 3 não bem-sucedidos planos de estabilização - em 1954 com Getúlio Vargas, em 1958/1959 com Kubitschek e em 1961 com Jânio Quadros - a aceleração inflacionária do início da década dos 60 coincide com a crise de crescimento, com a insolvência externa e com elevadas e desordenadas demandas de reajustes de preços, particularmente de salários. Abre-se então espaço para um bem-sucedido, mas duro plano de estabilização entre 1964 e 1967. Então se reorganizam de forma drástica os instrumentos de coordenação das demandas salariais, se reformula radicalmente o sistema monetário, financeiro e fiscal e se busca por todos os meios a regularização das contas externas como pressupostos básicos para o crescimento econômico que volta a ocorrer após 1968. Segundo, é importante fixar que estes não são eventos episódicos. Em todo e qualquer plano de estabilização e quaisquer que sejam as causas primárias do processo inflacionário, em maior ou menor intensidade, o disciplinamento das demandas salariais - leia-se queda do salário real -, a recomposição das contas externas - leia-se ampliação das exportações e da disponibilidade de moeda estrangeira - e o reaparelhamento do Estado para exercer maior controle sobre os meios de pagamentos, o crédito e o fisco - leia-se controle dos gastos públicos - são ingredientes indispensáveis - ao sucesso do plano. Assim tem sido na experiência brasileira e em inúmeros outros países, particularmente na América Latina6. Por isso, planos de estabilização são a um só tempo indesejáveis, mas indispensáveis quando o processo inflacionário é agudo, as contas externas asfixiam o crescimento econômico e, por consequência, as demandas sobre o sistema econômico são irreconciliáveis com a escassez física de bens e serviços.

A não-naturalidade do processo inflacionário

Diz-se corretamente que se pode também interpretar o processo inflacionário como uma simples manifestação, no plano monetário, de inconsistências redistributivas inadministráveis que ocorrem na alocação de recursos físicos entre setores (agricultura versus indústria, setores internacionalizados versus setores domésticos, bens de capital versus bens de consumo, etc.) e/ou entre grupos de renda (lucro versus salários, renda de juros e aluguéis versus lucro industrial, governo versus setor privado, etc ... ).

Figura 1:
Evolução das taxas de crescimento de moeda, preços e produto (PIB) 1947/77 (médias móveis de 5 anos).

Esta parece ser uma proposição aceita universalmente. Há, no entanto, profundas divergências de opinião quando se busca identificar os que sistematicamente ganham com o processo inflacionário. Para os que estão à direita do spectrum político, o setor privado perde sistematicamente em todo processo inflacionário. Neste caso, a inflação é vista como um tributo arbitrário cujo resultado é apropriado pelo Estado para satisfazer seu incomensurável apetite de gastos em detrimento do setor privado. Para os que estão à esquerda, a inflação é vista como instrumento de expropriação exercido pelos capitalistas contra a classe trabalhadora. Para outros ainda, os grupos que vivem de renda - de aluguéis, de aplicações financeiras e outras - são sistematicamente expropriados por trabalhadores e empresários.

Em geral, contudo, estas e outras proposições de igual natureza são a um só tempo falsas e verdadeiras. Verdadeiras porque episodicamente sempre é possível identificar subsetores e/ou subgrupos que perdem liquidamente num específico surto inflacionário. Falsa porque é impossível definir com clareza grupos ou setores que sistemática e continuadamente ao longo do tempo ganhem ou percam por causa do processo inflacionário.

E isso porque, ao longo do tempo, vão surgindo mecanismos de defesa da renda real dos diferentes grupos e/ou setores. A esse respeito a experiência brasileira é bastante ilustrativa. As rendas de aluguéis, financeiras e outras de igual natureza têm na institucionalização do princípio da correção monetária um mecanismo relativamente eficiente de defesa contra o processo inflacionário; os assalariados, seja através do mecanismo de correção automática seja através da luta sindical, têm obtido reajustes salariais não-inferiores às taxas de inflação; a política de minidesvalorização do cruzeiro em relação às moedas estrangeiras busca neutralizar os efeitos nocivos tradicionais sobre os setores voltados para o mercado internacional causados pelo processo inflacionário; o sistema de controle dos reajustes de preços via Comissão Interministerial de Preços - CIP busca sistematizar os reajustes em função dos aumentos do custo por unidade de produto para: evitar a descapitalização de importantes setores industriais e de serviços públicos.

É evidente, contudo, que não se pode afirmar que a inflação seja neutra quanto à dispersão de preços relativos entre setores e/ou grupos de rendas. O caráter redistributivo das ondas inflacionárias não desaparece com esse amplo esquema de reajustes de preços.

Primeiro, porque coexistem, por razões inclusive técnicas e práticas, mecanismos automáticos e discricionários, assim como institucionalizados e espontâneos, de reajustes de preços; portanto movimentos súbitos e não-esperados do índice geral de preços geram avanços e/ou atrasos de reajustes e, portanto, é possível localizar eventuais perdedores.

Segundo, porque há, inclusive pela própria natureza da organização jurídica que respalda os contratos econômicos, amplas divergências quanto à frequência e intensidade dos reajustes de preços; e,

Finalmente, porque podem ocorrer profundas divergências entre as diferentes medidas de inflação relevantes para as partes interessadas no reajuste em pauta.

E essas tensões são tanto mais agudas quanto maior for o nível da taxa de inflação e quanto mais intensa forem as flutuações inesperadas na própria taxa da inflação. A dança dos preços entre setores ocorrida no caso brasileiro é bastante ilustrativa a esse respeito. Por exemplo, como ilustrado na Fig. 2, o índice de preços dos produtos agrícolas relativamente ao dos preços dos produtos industriais cresceu quase que monotonicamente entre 1975 e 1980. Ainda assim, seria um equívoco afirmar que isso transferia renda para a agricultura. No entanto, nas Figuras 3 e 4 se mostra que a dispersão de reajustes de preços no grupo de produtos agrícolas é substancialmente maior que a dispersão observada no grupo de produtos industriais. E não há forma de aprioristicamente definir os preços dos produtos que sobem mais e dos que sobem menos que a média dada pelo índice geral de preços dos produtos agrícolas. O caráter redistributivo permanece, mas tem um grande componente aleatório. E mais, essa diferença de comportamento entre grupos se agudiza nas fases de aceleração da taxa de inflação e desaceleração do crescimento econômico, ou seja, em 1974, 1976 e 1979/1980.7

Figura 2

Figura 3

Figura 4

É importante também registrar que estes mecanismos de defesa da renda real têm um grande potencial desestabilizador do sistema econômico. Ou seja, magnificam e generalizam desequilíbrios setoriais transformando reajustes localizados de preços em amplas e generalizadas tensões inflacionárias.

Essa proposição merece uma ilustração. Suponha a existência de um mecanismo próximo da perfeição para os reajustes de câmbio, juros e salário - o tripé básico do sistema de preços. Suponha mais, que ocorra uma duplicação do preço (em moeda estrangeira) do petróleo importado no mês t e que isso represente uma elevação de 10% do índice geral de preços no mesmo mês. No mês seguinte, pelo mecanismo de reajuste, os salários e o câmbio sobem 10% e assim todos os demais preços, tudo fabricando uma inflação de 10% em t + 1. Ora, como a inflação subiu 10% em t + 1, segue-se um novo reajuste de salário e câmbio também de 10% em t + 2, e assim sucessivamente. À medida que isso vai ocorrendo - ou seja, os preços subindo à taxa de 10% ao mês, a taxa de juros mensal também dá um salto de l 0% ao mês e aí se manterá enquanto a inflação for de 10% ao mês. Assim, um aumento episódico de um preço particular pode gerar um processo inflacionário na medida em que não se quebrem os mecanismos de defesa da renda real, seja via mudanças das regras de reajustes, seja via desemprego gerado por uma crise de liquidez.8 Note mais que se pelo menos um preço - seja câmbio ou salário - for reajustado acima da inflação passada, o foco inflacionário localizado no aumento do preço do petróleo no mercado externo pode gerar um processo inflacionário explosivo.

Em suma, a neutralidade do processo inflacionário é um sonho impossível, ainda que se monte um amplo esquema de correção monetária. Essa não-neutralidade, contudo, não nos permite afirmar que tal ou qual setor perde renda real sistematicamente em todo processo inflacionário. Há, no entanto, pela maior dispersão dos preços relativos, uma maior incerteza associada à rentabilidade futura dos recursos alocados na ampliação da capacidade produtiva dos diferentes setores, discriminando contra projetos de investimentos de longa maturação em setores com maior dispersão de preços relativos.

AS TEORIAS CAUSAIS DO PROCESSO INFLACIONÁRIO

As observações acima privilegiam aspectos importantes, mas pouco ou nada dizem a respeito das fontes causais dos processos inflacionários. Nessa questão nos deteremos nesta seção.

Há abundante material na literatura que busca determinar as causas primeiras dos processos inflacionários. Implicitamente, se admite que, uma vez identificada a causa, fácil seria recomendar a solução do problema. Essa parece ser uma proposição no mínimo duvidosa. Há, por exemplo, quem localize na recente evolução do preço do petróleo a fonte primeira do surto inflacionário que ora se alastra pelas economias do mundo ocidental. No entanto, o preço do petróleo se elevou entre 1973 e 1974 e permaneceu relativamente constante até meados de 1979, quando dá um novo salto, enquanto a inflação provou-se incontrolável ao longo de todo esse período nas principais economias do mundo. Ou seja, durante 6 anos o preço do petróleo permaneceu estável sem que o processo inflacionário desaparecesse.

Por outro lado, há quem afirme que não há controle da inflação sem controle dos meios de pagamentos. Em seguida, passa-se desta proposição cristalinamente correta para uma outra de conteúdo duvidoso ou falso: todo processo inflacionário tem como causa primeira a expansão autônoma dos meios de pagamentos. Ora, na medida em que a expansão dos meios de pagamentos seja endógena e assim ocorra espontaneamente como resposta a algum desequilíbrio localizado no sistema econômico, seja o preço do petróleo, seja um desastre natural, seja desemprego em massa, ela é uma proposição falsa.

E aqui surge a primeira lição básica: inflação não é fenômeno de causa única, é resultante de uma multiplicidade de fatores. Antes de buscar a causa primária, mais importante é localizar e controlar os· esquemas de propagação das ondas inflacionárias se algum sucesso se pretende obter nos planos de combate à inflação. Ou seja, a dinâmica inflacionária tem autonomia suficiente para se autoalimentar independentemente do elo primário que iniciou o processo de elevação dos preços. Esta talvez seja a mais importante lição que se extrai da literatura recente.

Se tomarmos o “estado das artes” como expresso em Johnson (1963) e Holzman e Bronfenbrenner (1963) no início da década dos 60, o tema inflacionário logo evocava um debate surdo entre causas estruturais versus causas monetárias ou entre inflação de custo versus inflação de demanda. Pouco ou quase nada se encontrava na literatura sobre a inércia ou autonomia dos processos inflacionários (parecia haver um fosso insuperável entre as teorias antagônicas). No entanto, se tomarmos os surveys dos anos 70, a exemplo de Laidler e Parkin (1975) e Lopes (1979), o quadro muda substantivamente.

A ênfase agora se concentra menos nas causas primárias e mais na inércia dos processos inflacionários. Do lado monetarista, às expectativas inflacionárias atribui-se papel crítico para explicar as elevações das taxas de juros, as maiores demandas salariais e mesmo os reajustes sistemáticos da taxa de câmbio e, portanto, para entender a autonomia relativa dos processos inflacionários. E mais, neste caso essa inércia surge espontaneamente em função do comportamento racional de trabalhadores, empresários e consumidores operando em mercados competitivos.

De outra parte, há os que explicam essa inércia em função de algumas características dominantes das sociedades modernas, as quais, de um lado, transformaram as demandas salariais em questões políticas e sociais, envolvendo grandes sindicatos, grandes empresas e governo, ao invés de só questões econômicas resolvidas nos mercados de trabalho como concebidos tradicionalmente e, de outro lado, criam clima propício para universalizar a prática das grandes empresas de fixar preços em função de aumentos de custos, ao invés do rigor impessoal dos mecanismos automáticos dos mercados competitivos.9

A ênfase, portanto, desloca-se, a nível analítico, da busca das causas primárias para a determinação dos mecanismos de propagação das ondas inflacionárias. E nisto há claramente um processo de convergência entre as diferentes posições no que respeita à terapêutica antinflacionária: qualquer que seja a causa primária, a questão antinflacionária maior consiste em neutralizar a ação dos mecanismos de reajustes, espontâneos ou não, de preços, salariais, câmbio e taxas de juros. Há também importantes divergências entre elas. Na ótica monetarista, busca-se quebrar a inércia inflacionária de forma “espontânea”. Para muitos, Friedman (1977), por exemplo, maiores taxas de desemprego é o preço a pagar para quebrar a inércia inflacionária. Para uns poucos - Sargent e Wallace (1975), por exemplo, - basta a confiança dos agentes econômicos na política econômica “correta” enunciada pelos governos para mudar as expectativas inflacionárias e assim eliminar as tensões temporárias criadas pelo desemprego.

A posição não-monetarista, de sua parte, privilegia a intervenção direta nos reajustes de preços, salários, câmbio e juros como forma de controle das ondas inflacionárias. Para estes, a questão é menos de expectativas inflacionárias e mais de organização de mercados com poder bem localizado nas grandes empresas e sindicatos. Para estes, por exemplo, de nada adiantam as expectativas inflacionárias de trabalhadores operando em mercados sem organização sindical, porque não têm condições de transformar essas expectativas em demandas de aumentos salariais. Individualmente, nestes casos, o risco de desernprego é maior do que a eventual vantagem do aumento salarial. Se feito organizada e centralizadamente, então as expectativas inflacionárias podem se transformar em maiores demandas salariais.

Naturalmente a maior ênfase nos mecanismos não torna inócua a formalização dos elos causais dos processos inflacionários. A seguir, de forma heurística, tentaremos explicitar as principais teorias causais do processo inflacionário. Primeiro explicitamos os ensinamentos básicos da teoria monetarista; a seguir, identificaremos as principais críticas a essa formulação.

As chamadas teorias monetaristas dos processos inflacionários têm seu ponto de partida na conhecida expressão da teoria quantitativa da moeda dada por

P = M V y (1)

onde P é o índice geral de preços medido no intervalo relevante de tempo, y é o índice de produção física ocorrida neste intervalo, V é a velocidade-renda da moeda ou o número de vezes que um dado estoque de moeda (M) “gira” no intervalo de tempo relevante para financiar compras de um dado nível de produção (y) a um dado nível de preços (P). Essa é uma identidade elementar. O conteúdo substantivo da aproximação monetarista vem dos seguintes elementos analíticos:

  1. os movimentos do nível de produção física (y) no longo prazo são independentes dos movimentos do estoque nominal de moeda (M) e do índice geral de preços (P). Ou seja, nem o nível nem a variança de M e P afeta de forma sistemática e persistente o nível de produção física do sistema econômico. Este é determinado por aspectos tecnológicos da produção e pela estrutura de preços relativos. Neste esquema as expectativas inflacionárias se materializam em elevações de preços, salários, câmbio e juros de tal forma a não estimular de forma sistemática e, portanto, a não alterar a trajetória de equilíbrio de longo prazo da produção (y), nem sua composição entre bens de consumo e bens de capital. Os eventuais efeitos do nível geral de preços e das flutuações do estoque de moeda são de vida curta e aparentemente reversíveis (SIC) e duram enquanto a ação das expectativas inflacionárias não realiza sua tarefa. Esta hipótese é crítica na formulação monetarista dos processos macroeconômicos. Equivale a uma noção atemporal de equilíbrio na qual o nível e a composição física da produção de longo prazo são independentes das flutuações de curto prazo dos preços relativos e de salário real.

  2. os movimentos da velocidade-renda da moeda (V) refletem a atitude dos agentes econômicos em relação ao estoque real de moeda que o público deseja reter face às flutuações do produto real e das expectativas inflacionárias e são assim não-controláveis pelos responsáveis pela condução da política econômica. Assim como y, a trajetória de V é independente das variações no estoque nominal de moeda e reflete o comportamento racional e previsível dos agentes econômicos, empresários, trabalhadores e consumidores).

  3. o estoque nominal de moeda (M) pode eventualmente ficar submetido ao controle das autoridades monetárias, seja através do controle da base monetária, seja através dos instrumentos de controle direto do sistema bancário.

Nestas circunstâncias, o nível geral de preços (P) é o resultado das forças econômicas do lado real da economia, de um lado, e da política monetária (M), de outro. Ora, como na visão monetarista os valores de y e V refletem movimentos estáveis das forças automáticas dos mercados livres, segue-se que os movimentos do índice geral de preços refletem os movimentos do estoque nominal da moeda, o qual, por sua vez, é determinado pela política econômica.10 Desta forma, aumentos persistentes de P ao longo do tempo refletem aumentos persistentes de M gerados pela política econômica.11

Por que então ocorrem aumentos persistentes do estoque ·nominal de moeda? Ainda segundo a visão monetarista, isso é quase sempre resultado:

  • - de planos de gastos excessivos por parte do governo; excessivos em relação à capacidade de tributar e de se endividar do Tesouro Nacional. Podem advir de uma política ampla de subsídio creditício;

  • - e/ou de política econômica incompetente, a exemplo de insistir em controlar as taxas de juros abaixo dos níveis de equilíbrio ou de insistir em manter uma política cambial irrealista.

A lógica desta versão é simples e bastante intuitiva. A coisa tem a seguinte explicação sequencial. A expansão inicial de M gera um excesso de caixa nas mãos dos agentes econômicos para um dado nível de produção e uma dada constelação de preços relativos e absoluto. Se os agentes econômicos decidissem reter esse excesso de moeda nada ocorreria nem com y nem com P e verificar-se-ia uma queda na velocidade-renda da moeda (V). Como, no entanto, V, como y, depende do comportamento racional dos agentes econômicos à luz das flutuações de y e das expectativas inflacionárias, segue-se que este excesso motiva maiores gastos por parte dos que detêm esse excesso de moeda, gerando dessa forma um excesso de demanda no mercado de bens e serviços. Ora, se fosse possível obter quantidades ilimitadas de recursos (capacidade instalada, homens e matérias-primas básicas) e as empresas pudessem expandir sua produção sem diminuir sua eficiência técnica, ocorreria um aumento de produção como consequência da expansão monetária. No entanto, com custos crescentes, escassez de matérias-primas e eventualmente com limitações de capacidade esse excesso de demanda gera elevação de preços e talvez algum aumento de produção.

Mantida a expansão dos meios de pagamentos e, portanto, o excesso de demanda ao longo do tempo, então começa a ocorrer elevação dos preços, o público passa a antecipar aumentos futuros de preços e as expectativas inflacionárias se materializam em reajustes de salários e juros, reconstruindo-se dessa forma a estrutura de preços relativos anterior à expansão inicial. Na medida em que as autoridades monetárias burlem o público em termos de gerar expansão dos meios de pagamentos e dos preços além do esperado, pode ocorrer, ao lado do aumento da inflação, alguma expansão do produto. No entanto, este é um processo de vida curta. Após algum tempo, toda expansão de M se traduz em expansão de P.

Ora, se esta é lógica correta, por que então não se controlam facilmente as pressões inflacionárias? Esse controle não ocorre sem tensões devido à inércia inflacionária gerada pelas expectativas inflacionárias. Por exemplo, iniciado o processo inflacionário, os agentes (trabalhadores e empresários) normalmente atuam como se o processo fosse continuar no futuro e assim reajustam seus preços em função da inflação passada. Assim, momentos de corte na expansão dos meios de pagamentos para controlar dispêndio e, portanto, o excesso de demanda coincide com pressões altistas de preços, salários e juros.

Naturalmente há pesadas críticas à formulação acima. A primeira e talvez a mais comum seja a que disputa a hipótese de exogeneidade da política monetária. Por exemplo, Robinson (1971) traduz a identidade da teoria quantitativa em termos de margem bruta de lucro (0), taxa de salário (w) e nível de emprego (L) para dizer que a relação causal básica ocorre do emprego ou da taxa de salário ou da margem de lucro para moeda e não ao contrário. Ou seja, reescrevendo (I) como:

M V = p y = w L (2)

segue-se que nas sociedades modernas:

  • a política econômica consagra a meta de alcançar o maior nível de emprego possível, ou seja, qualquer tendência de diminuição de L é seguida por expansão dos gastos do governo ou por expansão dos meios de pagamentos para evitar a tendência depressiva do nível de emprego.

  • e as grandes empresas controlam suas margens de lucro.

Segue-se que M se expande para satisfazer as necessidades de manutenção de emprego face às dificuldades de se manterem elevados os níveis de acumulação de capital, de um lado, e da especulação financeira bancária e não bancária, de outro. Essa tendência é magnificada se ao lado de tudo isso ocorrerem fortes resistências sociais à queda de taxa de salário, como efetivamente ocorre em sociedades com forte tradição sindical. Neste caso a política monetária tornar-se-ia uma quase endógena variável.

Adicionalmente argumenta-se que, numa sociedade aberta financeiramente para o resto do mundo, há como que uma impossibilidade lógica de se controlar M, uma vez que não se adote uma política de perfeita flexibilidade cambial, sem nenhuma intervenção do governo na fixação da taxa cambial. Ironicamente, esta crítica tem sido formulada por monetaristas preocupados com os ajustes financeiros internacionais, a exemplo de Mundell (1960).

Não há dúvida de que esta é uma crítica pertinente. Ao invés de se localizarem as fontes de distúrbios no sistema de política econômica, busca-se localizá-las na instabilidade inerente do sistema de mercado, mormente no que se refere às decisões de investimento e no mercado de trabalho. De qualquer forma, a importância deste ponto pode ser melhor apreciada através da avaliação de Simonsen sobre o sistema monetário brasileiro:

“Summing up, for a determined Minister of Finance, backed enough by the President of the Republic, the money supply can be managed as a quasiexogenous variable”. 12

Uma segunda crítica se concentra no caráter atemporal da noção de equilíbrio e na hipótese de separabilidade entre o setor monetário e o real como formulado acima. Isso equivale a dizer que as decisões tomadas durante o processo de ajuste e, portanto, a partir de informações “falsas” (porque preços e salários nominais estão fora de equilíbrio no processo de formação das expectativas) são irrelevantes para o equilíbrio final. Ou seja, a composição do produto de longo prazo é independente da dinâmica de curto prazo entre setores. E isso se constitui, na verdade, no ponto central da explicação estruturalista do processo inflacionário.

A essência da crítica estruturalista pode melhor ser entendida a partir de um simples modelo macroeconômico. Escrevendo a expressão (1) acima como

M V = p y = Y = C + I = I I + W (3)

onde Y é a renda nominal, C gastos em bens de consumo, I gastos em bens de investimento, II a massa de lucro e W a folha de salários e se adicionalmente admitirmos que os trabalhadores consomem uma parcela a de sua renda (W) e os capitalistas uma parcela  dos lucros (II), pode-se expressar o equilíbrio do setor de bens de consumo como:13

P c = W b c 1 + Q r Q I I b e b r α + β - 1 (4)

onde Pe é o preço nominal dos bens de consumo, W é a taxa de salário, be e bI são respectivamente a produtividade do trabalho nos setores de bens de consumo (QI) e de bens de capital (QI).

Nestas circunstâncias, rápida acumulação representada por uma elevação dos bens de capital relativamente aos de consumo (QI / Qr crescente) pode ocasionar um desequilíbrio estrutural que tenderá a ser corrigido ou por elevação dos preços de bens de consumo ou por uma dramática elevação da produtividade do trabalho no setor de bens de consumo, de tal forma a gerar uma redistribuição a favor dos capitalistas.

Se nestas circunstâncias:

  1. tivermos, por exemplo, uma estagnação do setor de consumo em termos de produtividade, como ocorre com o setor agrícola nas economias em desenvolvimento;

  2. tivermos um esquema de indexação do salário nominal aos preços dos bens de consumo (Pc); e

  3. o preço do setor de bens de capital for fixado a partir do custo unitário da mão-de-obra;

segue-se que uma mudança estrutural deste tipo pode desencadear um processo inflacionário se as autoridades monetárias responderem passivamente ao desequilíbrio inicial.14

Note-se que o argumento central para inflação reside nas hipóteses b) e c) coadjuvadas por a) e pela passividade das autoridades monetárias e não no desequilíbrio estrutural. Ou seja, o sistema de propagação e não o foco original das tensões é que causa inflação. Sem a hipótese b), o desequilíbrio inicial causaria somente uma queda do salário real. Sem a passividade monetária, o desequilíbrio inicial causaria crise de liquidez, desemprego “urbano” e uma onda inflacionária de curta duração em função da queda das margens de lucro do setor II e/ou do desrespeito à regra de indexação causado pelo desemprego.

Note-se mais que os mecanismos b) e c) geram uma inércia inflacionária tanto quanto as expectativas inflacionárias no caso monetarista. E mais, tanto num caso como noutro o ponto central reside nos mecanismos de propagação associados ou não à endogenização da oferta de moeda para explicar o processo inflacionário.

De uma ótica mais fundamental, portanto, nos parece pouco produtivo querermos descobrir se a inflação é de demanda ou de oferta ou se tem causa monetária ou estruturalista, visto o problema central estar localizado nos mecanismos de propagação de desequilíbrios de preços setoriais. (Portanto, combater o processo inflacionário exige, primordialmente, maior controle destes mecanismos de propagação). É certo que isso não elimina as diferenças entre monetaristas e estruturalistas. No entanto, reduz o debate a se perguntar se o choque inicial que deflagra o processo inflacionário vem de um aquecimento exógeno da demanda financiada pela moeda ou se vem de um choque de oferta, o que pouco ajuda na concepção de um plano de estabilização.

Assim se reduz bastante o fosso que separava estruturalistas e monetaristas nos inícios da década dos 60. Através de uma boa compreensão dos mecanismos de propagação (indexação dos salários, de câmbio, juros, reajustes espontâneos de preços calcados em expectativas inflacionárias etc.) podem-se formular modelos híbridos para a explicação dos processos inflacionários, a exemplo dos formulados por Simonsen (1980), Lopes, e Lara Resende (1980) e outros. Por certo nada há nessa reconciliação que comprometa a visão do analista em termos de soluções monetaristas radicais ou não. Tudo depende de como cada analista atribui conteúdo político a cada qual destes mecanismos de propagação. Por exemplo, para os monetaristas a prática de fixar preços a partir do custo unitário variável representa uma prática indesejável, enquanto para muitos não-monetaristas essa é uma das mais caras características do desenvolvimento industrial das sociedades capitalistas.

UMA BREVE DIGRESSÃO SOBRE A SITUAÇÃO BRASILEIRA

Vejamos agora de forma bastante sucinta como se podem utilizar estes ensinamentos para melhor compreender a lógica da política de estabilização que vem sendo seguida no Brasil. Convém, de início, registrar que nosso tratamento será esquemático e prender-se-á essencialmente à questão inflacionária e a de balanço de pagamentos. Será, portanto, uma visão tipicamente de curto prazo. Ao final tentaremos indicar as implicações de longo prazo da política de que está sendo posta em prática.

De início comecemos pela caracterização do problema. Argumenta-se corretamente que temos dois problemas críticos de curto prazo: a asfixia cambial, dada por uma dívida externa crescente e um desequilíbrio estrutural na balança comercial, de um lado, e inflação crescente e desestabilizadora das relações sociais e políticas, de outro. Pretende-se, portanto, estabelecer uma política econômica de tal forma a se obter taxas decrescentes de inflação e volumes decrescentes de déficit ou eventualmente se obter superávit na balança comercial. Entende-se que o sucesso desta política é condição sine qua non para a manutenção dos planos de desenvolvimento, de um lado, e para a solução da dívida externa no longo prazo, de outro. Isto porque assim será possível financiar no exterior sem dificuldades o giro da dívida externa que hoje nos asfixia. Essa parece ser a prioridade primeira da política econômica.

Isto posto, vejamos agora as condições necessárias para se obter este duplo objetivo. A julgar pelo exposto acima, duas tarefas básicas devem ser realizadas para enfrentar a questão inflacionária:

romper alguns elos dos mecanismos de propagação das ondas inflacionárias, ou seja, romper a inércia inflacionária. Isso equivale a estabelecer uma política coerente na matriz básica do sistema de preços; qual seja, as políticas salariais, cambial, de juros e de preços de matérias-primas universais (importadas), a exemplo de energia;

recompor a política fiscal, monetária e creditícia a fim de evitar a total endogeinização da expansão dos meios de pagamentos. Isso equivale a repensar a política de subsídio creditício, a arrecadação fiscal e a política de gastos do governo.

Além disso, contornar a asfixia cambial exige uma expansão das exportações e das atividades substituidoras de importações (energia, metais etc ... ) relativamente às atividades voltadas para o mercado doméstico. As condições necessárias para que isso ocorra são:

  1. aumento da rentabilidade relativa das atividades exportadoras e substituidoras de importações quando comparadas com as atividades voltadas para o mercado doméstico;

  2. queda da taxa de absorção doméstica relativamente à produção doméstica promovida pela política de controle do dispêndio.

Em suma, estas duas condições exigem que a expansão da produção doméstica não se transforme em ampliação do “consumo” doméstico. Ou seja, o esforço de produção do álcool não aumenta, mas substitui o consumo de energéticos derivados de petróleo e, portanto, substitui importações de petróleo; da mesma forma, o aumento de produção de calçados deve aumentar as exportações, mas não o consumo de calçados. É evidente que, em ambos os casos, se cria emprego doméstico, se gera maior produção doméstica e, portanto, renda que deve ser encaminhada para o resto do mundo de forma a aliviar a asfixia cambial. É isso que representa produzir mais e poupar. Ou seja, produzir mais e exportar mais e importar menos por unidade de produto gerado domesticamente.

Como então satisfazer as exigências acima listadas para controlar a inflação e reverter a tendência da balança comercial?

Começamos pela discussão da matriz básica do sistema de preços, ou seja, câmbio, salário, juros e preços das matérias-primas básicas. É evidente que todos os demais preços são transformações - com ponderações diferenciadas - destes básicos. No que se segue, tomaremos como preço representativo das atividades exportadoras e substituidoras de exportações a taxa de câmbio; e das atividades domésticas, a taxa de salário (“trabalho” é a “mercadoria” menos internacionalizada do sistema).

A partir da matriz básica de preços é possível, a um só tempo, romper os mecanismos de propagação inflacionária e alterar os preços relativos de forma a não prejudicar ou até a melhorar a rentabilidade relativa das atividades “internacionalizadas” (exportadoras e substituidoras de exportações). E isso pode, em princípio, ser feito de várias maneiras:

  1. para manter a atual política salarial (indexado ao índice nacional de custo de vida de tal forma a tentar promover aumentos reais de salários superiores a 10% a.a. de algo em torno de 65% a 70% da força de trabalho), de um lado, e a cambial (manter o valor real do câmbio, descontada a inflação externa, numa trajetória ligeiramente crescente), de outro, obter-se-ia uma relação salário/câmbio inconsistente com o objetivo de aumentar a rentabilidade relativa das atividades “internacionalizadas”, a menos de um expressivo aumento da produtividade do trabalho no Brasil relativamente à de nossos parceiros comerciais. Isso, no entanto, parece ser uma rota inviável no curto prazo. Primeiro, porque aumentar a produtividade através da expansão da produção corrente - ainda que haja ociosidade de homens e máquinas - esbarra na escassez de matérias-primas (energia, metais, produtos químicos, fertilizantes etc.) e, portanto, na limitação de balanço de pagamentos. Segundo, porque o país se encontra numa fase particularmente complexa no que respeita a volumosos investimentos ainda em processo, a exemplo de Itaipu, das Centrais Nucleares, Tucuruí, em plantas para a transformação de metais e outros e, portanto, com, baixíssima relação produto/capital e produto/trabalho. Nestas circunstâncias, ainda que se façam esforços no sentido de pressionar aumentos de produtividade, dificilmente se poderá contar somente com este tipo de ajuste para reequilibrar as contas externas e combater a inflação.

  2. Alternativamente e/ou complementarmente poder-se-ia obter uma melhoria de rentabilidade das atividades internacionalizadas através de uma política cambial mais agressiva. No entanto, mantida a política salarial, essa seria uma rota altamente inflacionária, a exemplo do que ocorreu em 1980. Ao cabo de alguns meses, a inflação doméstica elimina a vantagem relativa e temporária de uma política cambial desta natureza. E mais, isso provocaria inúmeras dificuldades financeiras para as empresas endividadas em moeda estrangeira, além de provocar um movimento altista nas taxas de juros domésticos. Esta é obviamente uma rota indesejável.

  3. Ainda na linha da política cambial poder-se-ia pensar em dois tipos de câmbio. Um, que seria desvalorizado mais rapidamente, para proteger as atividades internacionalizadas e, outro, que seria desvalorizado menos acentuadamente, para proteger empresas endividadas em moeda estrangeira. Este caminho tem inúmeros inconvenientes. Primeiro, mantida a política salarial, teria o mesmo caráter inflacionário da alternativa anterior. Segundo, daria um subsídio expressivo às empresas multinacionais, às estatais e às instituições financeiras que são responsáveis por parcela expressiva dos US$ 50 bilhões da dívida externa brasileira. Terceiro, pressionaria mais ainda as contas monetárias no sentido de endogenizar mais ainda a política monetária.

  4. Poder-se-ia também - preservando a atual política cambial e salarial - reinstituir os subsídios fiscais às exportações e impor maior tributação às importações, de forma a privilegiar as atividades internacionalizadas da economia nacional. Esta é a rota que tem sido seguida até agora. Isto é eficaz para mudar os preços relativos na direção perseguida, mas tem alguns inconvenientes. Primeiro, gera uma pressão autônoma de elevação de preços. Segundo, onera mais ainda as já deficitárias contas do Tesouro Nacional.

  5. Uma outra alternativa seria alterar a política salarial e manter a política cambial de tal forma que a taxa de câmbio medida em unidades de salários e corrigida pela relação de troca crescesse ao longo do tempo. Isso poderia ocorrer, por exemplo, mantendo a atual política salarial, exceto pelo reajuste de 10% além do índice do custo de vida, que incide sobre os salários abaixo de 3 salários-mínimos. A um só tempo, isso quebraria um importante mecanismo de inércia inflacionária e promoveria a mudança de preços relativos desejada. É evidente que outras modificações na lei salarial poderiam ser bem mais eficazes do ponto de vista da política antinflacionária. Evidentemente este tipo de medida tem graves inconvenientes políticos.

Do ponto de vista da matriz básica de preços, estas são as alternativas. No entanto, as alternativas viáveis são poucas. Do ponto de vista antinflacionário e da mudança de preços relativos requerida pelo ajuste da balança comercial, a mais eficiente seria o caminho via política salarial. Os caminhos (b) e (c) são tecnicamente ineficazes além de provocar sérios problemas financeiros e redistributivos.

Sem alterar as regras básicas de reajuste de preços, a rota da política econômica para obter algum sucesso na perseguição das metas supramencionadas exige uma severa contração da liquidez real da economia. Essa contração, por sua vez, gera desemprego e, portanto, um clima para um efetivo desrespeito às regras legais de reajuste salarial. E isso com dois agravantes adicionais: elevação da taxa de juros e dramática queda da folha de salários da economia como um todo, além de prejudicar sobremaneira as pequenas e médias empresas e as atividades agrícolas voltadas para o mercado doméstico.15

É evidente que qualquer que seja a rota perseguida, uma condição sine qua non para efetivar a mudança estrutural requerida é uma maior autonomia relativa da política econômica para evitar que as tensões inerentes às mudanças terminem por destruir os já escassos graus de liberdade de política econômica. Esta autonomia relativa exige, entre outras coisas, uma forte escalada fiscal (maior carga tributária) e uma maior ampliação da dívida interna do Tesouro (via títulos públicos, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, etc.) para permitir uma realocação dos dispêndios públicos e privados na direção de expandir as atividades exportadoras e substituidoras de importações a uma velocidade maior que a do crescimento das atividades voltadas para o mercado doméstico.

É importante registrar que estes são os caminhos logicamente requeridos para se tentar resolver os problemas acima enunciados. E mais, ainda que se obtenha o que se propõe na condução da política econômica, não há nenhuma segurança de que a inflação seja efetivamente controlada e se supere a asfixia cambial. Inúmeros fatores podem conspirar contra o sucesso desta política. Elevação do preço do petróleo pela OPEP, elevação da taxa de juros pelos banqueiros internacionais, nova escalada protecionista na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, queda de preços no mercado internacional dos principais produtos de exportação do Brasil, etc. podem neutralizar os eventuais efeitos benéficos da política econômica acima enunciada.

É também evidente que não há como deixar de caminhar no sentido de tentar resolver os problemas. E isso porque já há inequívocos sinais de que o processo de ajuste caminha na direção apontada. São claros os indícios de que significativos investimentos já começam a se definir nas áreas de transformações de metais (alumínio, cobre etc.), na área do Pró-Álcool, na área de carvão, na área de cimento e até mesmo nas áreas de montadoras de veículos que buscam somente agora, 6 anos depois da crise do petróleo, um efetivo ajuste de produto e plantas industriais à luz da nova realidade de preços relativos. E isso tudo na direção de privilegiar as atividades internacionalizadas da economia brasileira.

Esta me parece ser a rota natural a ser seguida pela economia diante da asfixia do balanço de pagamentos. Por certo tudo isto tem profundas implicações para a política industrial do país, para a realocação física entre regiões da atividade econômica e mesmo para a política de redistribuição de renda de longo prazo. A respeito destes problemas basta ter em mente que a realocação de recursos para os setores internacionalizados (transformação de metais, exploração do carvão, exportação de minérios, agroindústria alcooleira etc ... ) exige uma realocação geográfica dos novos polos de crescimento, com o consequente efeito depressivo sobre os mercados de trabalho da região centrada no eixo Rio-São Paulo. Exige também um sacrifício relativo em termos de investimentos voltados para a expansão dos setores produtores de bens de salário, o que, por sua vez, terá implicações regressivas do ponto de vista redistributivo. E mais, não deixará de reacender o tradicional debate no que respeita à relevância ou não da desnacionalização da indústria nacional.

Enquanto dura, é também evidente que a situação atual clama por uma política compensatória de emprego, face à forte desaceleração da produção corrente do setor industrial.

Em resumo, o eventual sucesso da política econômica de curto prazo passa inexoravelmente:

por uma redefinição da política de reajustes de preços relativos de tal forma a privilegiar as atividades internacionalizadas da economia nacional. Nisto o ajuste eficaz terminará por exigir sacrifícios em termos ou de menor crescimento ou mesmo de queda do salário real. A asfixia cambial, de um lado, e a desorganização financeira do Estado, de outro, criam obstáculos à quebra da inércia inflacionária através da política cambial (que entre outras coisas determina a taxa de juros) e da política de preços das principais matérias controladas pelo governo;

por uma maior autonomia relativa da política econômica, a qual passa necessariamente por uma ampliação da folga financeira do Tesouro Nacional e das autoridades monetárias. Enquanto se mantiverem os esquemas de subsídios creditícios, a não endogenização da política monetária exige intervenções ineficientes de política econômica, a exemplo do controle quantitativo do crédito doméstico.

Levar a cabo com sucesso tal política equivale a embarcar num plano de estabilização com todos os possíveis inconvenientes destes planos em termos da queda do salário real, em termos de uma nova escalada fiscal e financeira do governo, em termos de ampliar as dificuldades da pequena e média empresa, em termos da expansão da atividade das empresas multinacionais no Brasil etc. Resta o consolo de que o futuro poderá oferecer melhores oportunidades de emprego para a força de trabalho. No entanto, enquanto dura o ajuste, pesados sacrifícios serão exigidos da força de trabalho e mesmo do empresariado.

REFERÊNCIAS BTBLIOGRÁFICAS

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  • 1
    A esse respeito, para uma breve, mas competente definição de inflação, veja Johnson, II (1963).
  • 2
    Uma discussão inteligente deste problema o leitor encontra em Davidson, P. (1972).
  • 3
    Por vários anos este foi o índice no qual se baseou todo o sistema brasileiro de correção monetária. Servia de base para o cálculo dos valores da ORTN e, por consequência, da Unidade Padrão de Capital do BNH e de todo sistema de correção monetária.
  • 4
    O índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo FIBGE, que serve de base aos reajustes salariais, registra uma inflação de 95,6% para o ano de 1980.
  • 5
    Este me parece é o ponto central levantado por Keynes sobre o processo inflacionário. Veja por exemplo Keynes (1926) e Leijonhufund (1975).
  • 6
    Veja, por exemplo, Skidmore (1978) para um relato e comparação dos casos brasileiro e argentino. Veja também Moura da Silva (1979) para um retrospecto e políticas econômicas no caso brasileiro.
  • 7
    Para um tratamento mais sistemático deste problema. veja Moura da Silva e Kadota (1980).
  • 8
    A esse ponto voltaremos abaixo quando tratarmos dos planos de estabilização. Veja a esse respeito Canavese (1978) e Simonsen (1980).
  • 9
    Este tipo de· análise tem obtido importantes adeptos, a exemplo de Wiles (1973) e Hiks (1974).
  • 10
    Note que a estabilidade de y e V não significa constância dessas variáveis, mas sim trajetória estável e não-sujeita a flutuações erráticas, a menos de intervenções danosas do governo através de controle de preços, excesso de gastos, subsídios generosos e políticas ineficientes de emprego. Esta é a crença básica que permeia a visão monetarista dos processos inflacionários.
  • 11
    A esse respeito a literatura monetarista é abundante. Veja, por exemplo, Friedman (1971) para uma exposição competente desta visão dos processos inflacionários.
  • 12
    Citação extraída de trabalho apresentado cm Seminário Internacional (daí a expressão estar em língua inglesa) realizado pela FGV em dezembro de 1980.
  • 13
    Para uma derivação mais explícita dessa relação o leitor interessado pode consultar Moura da Silva (1979). É evidente que a relação (4) expressa somente o mercado de bens de consumo e é derivada na hipótese de retorno constante de escala nos dois setores (c e I).
  • 14
    Há inúmeros modelos estruturalistas que mais ou menos se enquadram neste esquema. Em alguns os setores são “batizados” de agrícolas versus industriais; em outros de internacionais versus domésticos, etc. sem alterar a mecânica do processo inflacionário. Veja Canavese (1978), Moura da Silva (1979), Sayad (1979), entre outros.
  • 15
    As voltadas para o mercado externo teriam, pelo menos em princípio, a proteção da política cambial.
  • JEL Classification:
    E31; E51; E52.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 1981
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