Open-access Perfil dos egressos da pós-graduação em Enfermagem da UFMG (2017–2020): análise freidsoniana

RESUMO

Objetivo:  Caracterizar o perfil demográfico, acadêmico e profissional dos egressos da pós-graduação stricto sensu em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais no quadriênio de 2017 a 2020 à luz da sociologia das profissões de Eliot Freidson.

Método:  Estudo qualitativo histórico-social, conduzido segundo o Consolidated criteria for reporting qualitative research (COREQ). Os dados foram coletados entre outubro de 2024 e abril de 2025 no banco de egressos do Programa e na Plataforma Lattes, analisados por crítica interna e externa segundo pertinência, representatividade e exaustividade, e interpretados à luz da Sociologia das Profissões de Eliot Freidson.

Resultados:  A análise freidsoniana evidenciou credencialismo, fortalecimento do status e autonomia profissional, maior inserção em posições de prestígio entre doutores, persistindo desigualdades de gênero em liderança e diferenças salariais.

Conclusão:  A pesquisa reafirma a relevância do Programa de pós-graduação em enfermagem mineiro como espaço formador de profissionais críticos e comprometidos com a ciência, a docência e a sociedade. O perfil dos egressos evidenciou impactos individuais e institucionais, consolidando o programa como referência nacional em excelência acadêmica.

DESCRITORES
Educação de Pós-Graduação; Programas de Pós-Graduação em Saúde; Educação em Enfermagem; Análise Institucional; Avaliação Educacional

ABSTRACT

Objective:  To characterize the demographic, academic, and professional profile of graduates from the stricto sensu Graduate Program in Nursing at the School of Nursing of the Federal University of Minas Gerais during the 2017–2020 quadrennium, in light of Eliot Freidson’s sociology of professions.

Method:  A qualitative socio-historical study conducted according to COREQ guidelines. Data were collected between October 2024 and April 2025 from the Program’s graduate database and the Lattes Platform, analyzed through internal and external criticism based on pertinence, representativeness, and exhaustiveness, and interpreted using Eliot Freidson’s Sociology of Professions.

Results:  The Freidsonian analysis revealed credentialism, strengthening of professional status and autonomy, and greater insertion of PhD graduates into prestigious positions, while gender inequalities in leadership and salary disparities persisted.

Conclusion:  The study reaffirms the relevance of the Minas Gerais Nursing Graduate Program as a training space for critical professionals committed to science, teaching, and society. The graduates’ profile demonstrated individual and institutional impacts, consolidating the program as a national reference in academic excellence.

DESCRIPTORS
Education, Graduate; Health Postgraduate Programs; Education, Nursing; Institutional Analysis; Educational Measurement

RESUMEN

Objetivo:  Caracterizar el perfil demográfico, académico y profesional de los egresados del programa de posgrado stricto sensu en Enfermería de la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal de Minas Gerais durante el cuatrienio 2017–2020, a la luz de la sociología de las profesiones de Eliot Freidson.

Método:  Estudio cualitativo histórico-social, conducido según las directrices COREQ. Los datos fueron recolectados entre octubre de 2024 y abril de 2025 en la base de egresados del Programa y en la Plataforma Lattes, analizados mediante crítica interna y externa según pertinencia, representatividad y exhaustividad, e interpretados a la luz de la Sociología de las Profesiones de Eliot Freidson.

Resultados:  El análisis freidsoniano evidenció credencialismo, fortalecimiento del estatus y de la autonomía profesional, y una mayor inserción de doctores en posiciones de prestigio, persistiendo desigualdades de género en liderazgo y diferencias salariales.

Conclusión:  La investigación reafirma la relevancia del programa de posgrado en Enfermería de Minas Gerais como un espacio formador de profesionales críticos y comprometidos con la ciencia, la docencia y la sociedad. El perfil de los egresados evidenció impactos individuales e institucionales, consolidando el programa como referencia nacional en excelencia académica.

DESCRIPTORES
Educación de Posgrado; Programas de Posgrado en Salud; Educación en Enfermería; Análisis Institucional; Evaluación Educacional

INTRODUÇÃO

As intensas transformações industriais, econômicas e políticas ocorridas no Brasil na década de 1960 determinaram a promulgação da Reforma Universitária de 1968, repercutindo mudanças nos cursos de graduação e a criação de Programas de Pós-graduação(1,2,3). Na Enfermagem, a consolidação da pós-graduação stricto sensu seguiu um percurso não linear, marcado pelo fortalecimento da profissão, ampliação da produção científica, consolidação nacional e internacional dos programas e contribuição para a internacionalização da ciência brasileira(4).

Programas de Pós-Graduação são constituídos por corpos docente, técnico-administrativo e discente, cuja dinâmica envolve múltiplos olhares e experiências. A visão e a missão desses programas exigem de seus atores sociais uma reflexão assistencial e gerencial voltada ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia na área da Saúde. Portanto, considerar o desenvolvimento desses sujeitos torna-se essencial para compreender os impactos sociais, políticos e culturais gerados, subsidiando o aprimoramento e o fortalecimento dos programas(4).

Em Minas Gerais, a Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG) tem, desde sua fundação em 1933, desempenhado um papel central na profissionalização da enfermagem. Ela foi responsável pela criação do primeiro Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Stricto Sensu (PPGE) no estado, sendo o mesmo instituído em 1993 com a primeira turma de mestrado. O doutorado ocorreu em 2004, ampliando ainda mais sua contribuição para a formação de pesquisadores e para o avanço científico da enfermagem brasileira(3).

O fortalecimento da pós-graduação no Brasil é evidenciado a partir de 1981, com a criação do Plano Nacional de Pós-Graduação Stricto Sensu pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Sendo responsável atualmente pela avaliação quadrienal dos programas, a instituição recomenda que, no que diz respeito à formação, se considere a trajetória dos egressos, analisando sua inserção profissional e os impactos sociais, políticos e econômicos advindos de sua capacitação(5,6).

Desde 2020, o PPGE/UFMG realiza o acompanhamento de seus egressos após a defesa e pelos cinco anos seguintes à conclusão do curso, conforme recomendado pela CAPES. Os egressos são direcionados ao site do programa para preencher um formulário contendo informações sobre dados de identificação, titulação, formação e atuação profissional no período da coleta.

À luz da sociologia das profissões é possível compreender a consolidação da pós-graduação em enfermagem como parte de um processo mais amplo de profissionalização. Segundo Freidson, uma profissão se estrutura a partir de três pilares fundamentais: a expertise, a autonomia e o credencialismo(7). Neste sentido, os PPGEs tornam-se espaços importantes para a constituição de um corpo de conhecimento técnico-científico, contribuindo para a consolidação da enfermagem como campo profissional autônomo e reconhecido. A identificação da trajetória profissional dos egressos, portanto, é fundamental para avaliar como essa formação repercute em sua inserção no mercado de trabalho, em seu prestígio e em sua autoridade técnica, refletindo os mecanismos de reprodução e valorização da profissão no contexto brasileiro contemporâneo.

Apesar dos avanços da pós-graduação stricto sensu em Enfermagem no Brasil, ainda são escassos os estudos que analisam criticamente os impactos dessa formação nas trajetórias profissionais dos egressos(8). A importância de investigações nessa direção é reforçada pela Agenda de Prioridades de Pesquisa do Ministério da Saúde (APPMS), que destaca a necessidade de avaliar o impacto das ofertas educacionais na qualificação dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS)(9). De forma complementar, o documento “Prioridades em Pesquisa para Enfermagem: Proposta Preliminar” da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) aponta a relevância de estudos sobre a formação stricto sensu, sua capacidade de desenvolver competências, qualificar o trabalho em saúde e contribuir para a gestão do SUS(10).

Nesse contexto, a compreensão das trajetórias profissionais dos egressos do PPGE/UFMG no quadriênio 2017–2020 torna-se essencial para subsidiar discussões sobre a valorização da Enfermagem e o fortalecimento do sistema público de saúde. Diante disso, questiona-se: como tem se delineado a trajetória profissional dos egressos do PPGE/UFMG, no quadriênio 2017 a 2020, após a conclusão de seus mestrados e/ou doutorados?

O presente estudo tem como objetivo caracterizar o perfil demográfico, acadêmico e profissional dos egressos da pós-graduação stricto sensu em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais no quadriênio de 2017 a 2020, à luz da sociologia das profissões de Eliot Freidson.

Parte-se do pressuposto de que a titulação stricto sensu em enfermagem representa mais do que uma qualificação acadêmica. Ela atua como mecanismo de diferenciação no campo profissional, conferindo autoridade técnica e status aos egressos. À luz da teoria da sociologia das profissões, supõe-se que a pós-graduação contribui para a construção de um saber especializado, legitima posições de prestígio no mercado de trabalho e reforça processos de profissionalização da enfermagem.

MÉTODO

Tipo de Estudo

O presente estudo insere-se no campo da História, com uma dimensão sócio-histórica, voltada para o exame das especificidades de uma sociedade, incluindo os modos e mecanismos de organização social, as relações entre grupos, instituições e indivíduos, bem como os processos de transformação social(11,12). A pesquisa está alinhada aos domínios da história da enfermagem. A abordagem adotada é qualitativa utilizando-se a História Textual, com análise documental de fontes escritas.

O estudo foi conduzido seguindo as recomendações da diretriz Consolidated criteria for reporting qualitative research COREQ para pesquisas qualitativas.

Local

O estudo foi realizado na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG), em Belo Horizonte, que sedia o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGE). A delimitação temporal e espacial abrange o quadriênio de 2017 a 2020, período marcado por um contexto de liberalismo econômico, ataques à democracia e às instâncias de participação social. Soma-se a esse cenário a pandemia de COVID-19, que exigiu reestruturações nos setores da saúde e da educação.

Fontes e Coleta de Dados

As fontes textuais que compuseram este estudo foram obtidas junto ao Colegiado de Pós-Graduação (CPG) da Escola de Enfermagem da UFMG, incluindo o banco de dados de egressos do PPGE/UFMG. Buscas na Plataforma Lattes, mantida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foram realizadas para compor dados sobre a trajetória profissional de egressos. A escolha dessa plataforma justifica-se por ser o principal sistema virtual brasileiro de currículos científicos e por ter acesso aberto, permitindo assim a confirmação da identidade dos egressos.

Foram incluídas como fontes textuais aquelas que estavam atualizadas e vinculadas ao nome completo do egresso. Foram excluídos registros incompletos, desatualizados ou sem correspondência verificável com o banco de dados do programa.

Os dados foram coletados pela pesquisadora principal entre os meses de outubro de 2024 e abril de 2025.

Análise e Tratamento dos Dados

O tratamento das fontes incluiu a composição e organização de um banco na plataforma Google Drive, descritos e organizados por ano (2017 a 2020). Uma vez catalogadas, as fontes foram categorizadas a partir de critérios metodológicos estabelecidos como pertinência das fontes, suficiência, representatividade, exaustividade e homogeneidade. As fontes textuais foram analisadas criticamente quanto à veracidade e relevância, por meio de crítica interna e externa(12). Os achados foram analisados à luz da Sociologia das Profissões de Eliot Freidson.

Aspectos Éticos

A pesquisa foi apreciada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, garantindo o assentimento e a adequação às normativas éticas e legais vigentes. Foi aprovada sob o parecer n. 7.115.336 no ano de 2024.

RESULTADOS

No quadriênio de 2017 a 2020, o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGE/UFMG) titulou 218 discentes, sendo 130 mestres e 88 doutores. Do total de egressos, 168 responderam ao questionário, o que representam 77,06% do total; destes, 87 eram mestres e 81 doutores.

Do total de egressos pertencentes a esse quadriênio, 190 eram mulheres e 28 homens, o que evidencia uma expressiva predominância feminina (87%). A faixa etária dos egressos do PPGE/UFMG está presente no gráfico abaixo (Figura 1), mostrando uma maior ocorrência aos 36 anos, com 23 egressos, seguido pelas idades de 37 (n = 18), 38 (n = 13) e 34 (n = 14) anos.

Figura 1
Faixa etária dos egressos do PPGE.

A formação inicial dos egressos do PPGE/UFMG é majoritariamente composta por enfermeiros, somando 147 profissionais. O programa também acolheu, ao longo do quadriênio 2017–2020, um profissional de Educação Física, um de Estatística, dois farmacêuticos, três gestores de saúde e oito nutricionistas, um pedagogo, quatro psicólogos e um terapeuta ocupacional.

Após identificar a predominância de enfermeiros entre os egressos, observa-se, nesse grupo, uma expressiva participação feminina. Os dados do PPGE/UFMG indicam que, no período de 2017 a 2020, 128 mulheres concluíram o curso, em contraste com apenas 19 homens.

Em relação ao local de formação dos egressos, 62 estudantes graduaram-se pela UFMG, 63 em outras universidades públicas do Brasil e 36 em instituições de nível superior privadas.

Dos 168 egressos que responderam ao questionário do CPG, 126 (75%) possuíam pós-graduação lato sensu, enquanto 42 (25%) não haviam realizado especialização alguma. Acerca do local de formação do mestrado, observou-se uma predominância da UFMG, com 132 egressos, dos quais 53 indicaram especificamente a Escola de Enfermagem da UFMG. Outros locais também foram citados, como a Universidade Federal da Paraíba, a Universidade Estadual da Paraíba, a Universidade Federal de Alfenas, Universidade Federal de Juiz de Fora, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Federal de Viçosa, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), a Universidade de la Sabana - Colômbia, a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e a Universidade de São Paulo (USP).

Durante o mestrado, 38 egressos relataram ter recebido bolsa de estudos, enquanto 49 cursaram o programa sem esse apoio. No doutorado, 49 egressos foram beneficiados com bolsa, enquanto 32 realizaram o curso sem o recebimento desse auxílio. Dos 87 mestrandos egressos do quadriênio 2017–2020 que responderam ao questionário do CPG, 18 prosseguiram para o doutorado na EEUFMG enquanto cinco seguiram para outras instituições como: Faculdade Medicina UFMG (n = 3), Faculdades de Ciências Econômicas da UFMG (n = 1) e Fiocruz (n = 1).

Antes de ingressarem no PPGE/UFMG, a maioria dos estudantes já possuía experiências profissionais diversas, refletindo múltiplas inserções no campo da Enfermagem e da Saúde. Os dados mostram que 59 egressos já estavam inseridos no mercado de trabalho antes da pós-graduação, enquanto outros 39 iniciaram suas atividades profissionais durante o curso. Após a conclusão do mestrado ou doutorado, observa-se uma redução progressiva em novas inserções profissionais: 28 até um ano depois, 16 entre um e três anos, e apenas nove após três anos.

Sobre a adesão ao mercado de trabalho, os egressos demonstram que a maioria está atuando em uma única instituição, com 168 respondentes. Um grupo menor, composto por 33 egressos, atua simultaneamente em mais de uma instituição, configurando mais de um vínculo empregatício. Em contrapartida, 17 egressos declararam não estar trabalhando no momento da resposta ao questionário. Apenas três respondentes indicaram atuar de forma autônoma.

Acerca dos cargos ocupados pelos egressos, observa-se uma diferença marcante entre aqueles que concluíram o mestrado e os que finalizaram o doutorado. Dos 88 mestres que responderam ao questionário no período analisado, 43 relataram atuar em atividades assistenciais, o que sugere que muitos egressos mantêm uma atuação direta nos serviços de saúde. Além deste dado, 44 relataram uma relação com supervisão e gerência, e três em cargos de coordenação.

Em contraste, no caso dos doutores, nove egressos atuam na assistência, 13 exercem funções de supervisão e gerência, 17 atuam em cargos de coordenação, enquanto a docência se destaca como o principal campo de inserção profissional, sendo mencionada por 64 colaboradores do estudo.

Além da docência, observa-se também uma ampliação da inserção em atividades de pesquisa e gestão acadêmica entre os egressos do doutorado. Dos participantes do mestrado, 18 declararam envolvimento com pesquisas, enquanto no doutorado esse número foi significativamente maior, com 50 respondentes atuando na área.

Em um universo de 168 respondentes, os dados sobre ocupação de cargos de coordenação e diretoria revelam que, entre os egressos do mestrado, foram identificadas quatro coordenações e nenhuma diretoria, enquanto no doutorado registraram-se 17 coordenações e uma diretoria. Das 21 coordenações relatadas pelos egressos, 17 são ocupadas por mulheres e quatro por homens.

Quanto aos regine de vínculo empregatícios dos egressos, os respondentes mostraram que em sua maioria (n = 128) trabalham em instituições públicas, seguido pelo setor privado, com 64 profissionais, enquanto apenas cinco egressos atuam de forma autônoma. E quanto a seus rendimentos, após o mestrado, a maioria dos egressos (n = 22) recebe entre quatro e cinco salários-mínimos, com rendas distribuídas de até dois a acima de nove salários. No doutorado, o perfil muda: prevalecem rendas acima de nove salários-mínimos (n = 26), seguidas por faixas de seis a sete (n = 17) e oito a nove salários-mínimos (n = 16), sem registros abaixo de dois salários.

Quanto a participação dos egressos do PPGE/UFMG em entidades representativas da enfermagem, revela-se um movimento de baixa adesão, com apenas 23 mestres e nove doutores envolvidos em organizações da profissão.

DISCUSSÃO

A análise do perfil da trajetória profissional dos egressos do PPGE/UFMG, à luz da sociologia das profissões de Eliot Freidson, possibilita compreender como a formação stricto sensu em Enfermagem contribui para o processo de profissionalização e para o fortalecimento do status e da autonomia do enfermeiro no campo profissional.

A idade dos egressos do PPGE/UFMG demonstra um perfil semelhante ao encontrado em outras pesquisas nacionais sobre pós-graduação stricto sensu. Estudos como o de Gomes e colaboradores(13), que apresenta pesquisa com egressos do Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE), identificaram que 59,2% dos respondentes tinham até 40 anos, enquanto Heinzle e colaboradores(14) apontaram que 49,5% dos egressos do Mestrado em Educação da Universidade Regional de Blumenau (FURB) estavam entre 31 e 40 anos - dados que se assemelham aos achados do PPGE/UFMG.

A característica multidisciplinar do PPGE/UFMG evidencia a abertura do programa para a integração de diferentes saberes e práticas profissionais, consolidando-o como um espaço de construção coletiva do conhecimento. Essa característica acompanha as tendências da pós-graduação em saúde global, marcada por formações interprofissionais e abordagens interdisciplinares(15). Além disso, a heterogeneidade do corpo discente e as múltiplas motivações para o ingresso, apontadas por estudos recentes, reforçam a importância de programas capazes de acolher e potencializar distintas trajetórias acadêmicas e profissionais(16).

Na perspectiva da sociologia das profissões, disputas e articulações interprofissionais marcaram a historicidade da pós-graduação em Enfermagem no Brasil, fortalecendo seu reconhecimento como campo de conhecimento(3). Ao integrar profissionais de diversas áreas, o PPGE/UFMG promove o compartilhamento entre profissões e amplia a produção de saber técnico e científico, elemento central para a consolidação profissional.

Os dados evidenciam a predominância feminina no PPGE/UFMG, refletindo desequilíbrio de gênero historicamente presentes na Enfermagem. Estudos internacionais apontam baixa participação masculina, como nos EUA (9,6%), no Mediterrâneo Oriental (21%), na Europa (16%), no Sudeste Asiático (21%) e no Pacífico Ocidental (19%)(17,18). No Brasil, entre 1950 e 1999, apenas 2,37% dos egressos da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) eram homens(19). Revisões indicam que o modelo nightingaleano, com forte influência na Enfermagem brasileira, reforçou estereótipos que associam o cuidado ao feminino, dificultando a escolha e permanência masculina na profissão(20).

Observa-se a predominância de vínculos com instituições públicas de ensino, com participação de egressos de diversas universidades públicas do país, reforçando a relevância nacional do PPGE/UFMG. A baixa presença de titulados em faculdades privadas pode refletir desigualdades de acesso e diferenças na trajetória formativa, que influenciam o ingresso e a permanência na pós-graduação. Segundo Silva et al. (2023)(16), motivações como carreira acadêmica, qualificação e aprofundamento de conhecimentos estão frequentemente associadas a experiências de iniciação científica, grupos de pesquisa e redes acadêmicas vivenciadas na graduação.

As universidades públicas oferecem maior exposição à pesquisa e extensão, enquanto faculdades privadas tendem a priorizar a formação prática, o que pode impactar a preparação para a pós-graduação(15). Contudo, motivações para o ingresso nem sempre dependem da instituição de origem, abrangendo interesses como especialização técnica, reconhecimento profissional, docência e identidade acadêmica. Assim, apesar da predominância pública na produção científica, estudantes de diferentes formações veem na pós-graduação stricto sensu uma oportunidade de transformação profissional e intelectual(21).

Os dados identificaram que grande parte dos ex-discentes do programa já havia cursado especializações antes de ingressar na pós-graduação stricto sensu, caracterizando uma trajetória formativa progressiva. Em uma outra pesquisa, realizada por Souza e colaboradores(22), ao analisarem o perfil dos egressos do doutorado em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia entre os anos de 2014 e 2022, observou-se que a maioria dos doutorandos também havia realizado cursos lato sensu previamente. Assim, os dados do PPGE/UFMG confirmam que a especialização ainda representa um importante marco intermediário no percurso de qualificação de muitos profissionais que buscam avançar para o stricto sensu.

À luz da sociologia das profissões de Eliot Freidson, a elevada proporção de egressos com especializações evidencia um dos pilares centrais de sua teoria: o credencialismo, entendido como a aquisição dos títulos e certificações formais como forma de legitimação do saber profissional(7). A sociologia freidsoniana destaca três pilares fundamentais para o reconhecimento de uma ocupação como profissão(23). Desta forma, a busca por especializações não representa apenas um esforço individual por qualificação, mas sim um movimento coletivo de reconhecimento profissional como demonstrado pelos egressos do PPGE, no qual os títulos, ou seja, as credenciais, operam como formas de reconhecimento técnico e prestígio profissional, mas também influencia na ocupação de cargos no mercado de trabalho e melhoria salarial.

No que se refere à dedicação exclusiva, os dados indicam que essa não foi a primeira escolha para a maioria dos egressos. Esse cenário é visto em outros estudos, em que os participantes da pesquisa trouxeram a necessidade de manter vínculos empregatícios para garantir o sustento pessoal e familiar intensificando a sobrecarga, gerando impactos na produtividade acadêmica, no bem-estar emocional, e nas possibilidades de inserção mais ampla em projetos de pesquisa(24). Assim, o quadro identificado no PPGE/UFMG não é isolado, mas reflete uma condição vista em outra instituições, enfrentada por muitos pós-graduandos na Enfermagem.

A inserção profissional dos egressos ocorreu em sua maioria antes da entrada na pós-graduação stricto sensu. Esse dado do PPGE/UFMG está em consonância com estudos realizados no Brasil(25,26,27), que apontam os cursos de pós-graduação stricto sensu como importantes mecanismos de consolidação e qualificação das trajetórias profissionais dos discentes. De modo semelhante, em estudo transversal realizado com estudantes de doutorado em enfermagem na China, identificou-se que a maioria dos estudantes já possuía inserção profissional anterior e buscava, por meio da formação acadêmica, ampliar suas oportunidades nas áreas de ensino e pesquisa, consolidando assim seus projetos de carreira(28).

Sob o olhar freidsoniano, esses dados reforçam a ideia de que o PPGE/UFMG atua como um espaço de profissionalização no cenário mineiro e brasileiro mais do que como uma porta de entrada para o exercício profissional. Uma das bases do profissionalismo está no domínio de um conhecimento esotérico, não acessível ao senso comum, que confere autoridade técnica e status profissional(22). Nesse sentido, a entrada na pós-graduação stricto sensu por atores sociais já inseridos no mercado demonstra um movimento de credencialismo, em que a titulação acadêmica é buscada como instrumento de ampliação da autonomia, do prestígio e da legitimidade no campo de atuação.

Acerca dos cargos ocupados pelos egressos, observa-se uma diferença marcante entre aqueles que concluíram o mestrado e os que finalizaram o doutorado. As respostas ao questionário do PPGE/UFMG mostram que a maioria dos mestres permanece atuando em funções assistenciais, enquanto os doutores se concentram mais no ensino superior e na carreira acadêmica. Embora o título de mestre aprofunde a formação teórica e prática, esse avanço nem sempre se traduz em reconhecimento institucional ou progressão imediata na carreira. Assim, a prática assistencial permanece como eixo central na identidade profissional dos egressos do mestrado, mesmo diante da ampliação de oportunidades, como a docência. Vale refletir que, provavelmente, com qualificação no mestrado, este egresso esteja mais preparado para o cuidado assistencial. Já o doutorado, mais do que o mestrado, tem se mostrado uma ferramenta potente de inserção na vida docente, reforçando o papel da pós-graduação stricto sensu como um dos principais caminhos de profissionalização no campo acadêmico da Enfermagem e de outras áreas da saúde.

Sobre os cargos ocupados pelos egressos, um achado importante demonstra que maioria dos egressos do PPGE/UFMG são mulheres, porém, a aquisição dos cargos de gestão está proporcionalmente maior para os homens nas coordenações. Esse fato demostra uma desigualdade de gênero no acesso a cargos de liderança, mesmo em um campo composto em sua maioria pelo feminino.

A enfermagem é vista como uma profissão feminina, pois, segundo Terra et al.(29), esta visão é muito ligada ao contexto histórico de que o cuidado é tido como extensão do trabalho doméstico. Outros estudos apontam que embora a enfermagem seja uma profissão com maior presença feminina, ela é marcada por relações desiguais de poder, onde os homens, mesmo sendo uma minoria, ocupam com maior frequência cargos de chefia e recebem salários superiores(29,30,31,32).

A disparidade de gênero é uma temática estudada mundialmente e faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que é uma iniciativa global lançada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como parte da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. A desigualdade de gênero está abordada na ODS 05. Por mais que a enfermagem seja uma profissão majoritariamente feminina, ela ainda apresenta desigualdades de gênero em seus espaços de liderança, conforme demonstrado pelos dados dos egressos do PPGE/UFMG. Tal dado revela que o discurso da equidade nem sempre se reflete na prática. Taminato et al.(33) demonstram que é essencial que o compromisso com os ODS promova mudanças reais na cultura organizacional da enfermagem, enfrentando as raízes históricas dessa desigualdade.

Acerca da remuneração, os dados do PPGE/UFMG indicam que os mestres apresentam rendimentos médios, enquanto os doutores mostram inserção mais expressiva em instituições de ensino superior, pesquisa e gestão pública, o que se reflete positivamente nos salários. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) corrobora esses achados, apontando que o título de doutor está associado a maior estabilidade empregatícia e à ocupação de cargos estratégicos, especialmente em instituições públicas, fatores que contribuem para faixas salariais mais elevadas, tal como evidenciado nos dados do PPGE(25).

Segundo a sociologia das profissões, esse evento diz muito sobre o credencialismo, onde os títulos e certificações formais legitimam o conhecimento e diferenciam os indivíduos no mercado de trabalho(7). O título de doutor, como demonstrado pelos egressos do PPGE/UFMG, amplia o acesso a posições mais prestigiadas e bem remuneradas, como cargos de docência em universidades públicas e privadas e gestão acadêmica. Assim, a ausência de egressos do doutorado nas faixas de renda mais baixas corrobora a perspectiva da sociologia das profissões, que indica que as credenciais redefinem as posições profissionais, fortalecendo o argumento de que o saber científico-acadêmico é uma mola propulsora na busca por status, prestígio e melhores condições de trabalho.

À luz da sociologia das profissões, as entidades de classe são estruturantes para a profissionalização, pois elas legitimam o conhecimento, asseguram a autonomia do exercício profissional e protegem os interesses da categoria, sendo essenciais para consolidar uma profissão como de consulta(7,34). Elas trabalham para a enfermagem e para a sociedade e defendem projetos políticos de formação e qualificação que levem aos interesses dos profissionais da enfermagem e às demandas sociais. Elas representam os profissionais nos diversos campos de atuação em que estão inseridos(34).

A participação dos egressos do PPGE/UFMG em entidades representativas da enfermagem revela um movimento de baixa adesão. Esse baixo quantitativo de respostas referentes ao envolvimento dos egressos do PPGE/UFMG com as entidades civis de sua classe profissional é um dado de alerta visto que, como abordado por Carregal et al.(3), a pós-graduação stricto sensu é tida como um espaço privilegiado de produção crítica e de fortalecimento da identidade profissional, alinhando-se às concepções freidsonianas de profissionalização.

CONCLUSÃO

A pós-graduação stricto sensu reforçou a busca por um conhecimento próprio, também chamado de isotérico, como abordado por Freidson, que legitima a autoridade técnica dos egressos em seus campos de trabalho. Essa autoridade vem junto à autonomia profissional, sobretudo na capacidade de tomar frente a projetos de pesquisa, conduzir processos formativos e intervir nos espaços institucionais assim como demostrado por diversos egressos.

Apesar dos avanços formativos e das conquistas acadêmicas promovidas pelo PPGE/UFMG, os egressos também revelam importantes desafios enfrentados no processo de formação, e até mesmo após o término do curso, que culminam em sua trajetória profissional. Foram observadas tanto desigualdades de gênero, baixa adesão a bolsas de estudos e embora as mulheres representem a maioria entre os participantes da pesquisa, elas ocupam proporcionalmente menos cargos de gestão em comparação aos homens, corroborando outros estudos.

A expertise obtida por meio da credencial do mestrado e doutorado, não apenas fortalece o campo da Enfermagem como ciência, mas também aumenta seus campos de atuação, inserindo seus egressos em espaços importantes de decisão, gestão, pesquisa e políticas públicas. Contudo, há uma baixa conscientização em relação à participação associativa, ponto importante da profissionalização na lógica freidsoniana, que merece ações promotoras por parte dos PPG.

Como todo estudo, esta pesquisa apresenta limitações que devem ser reconhecidas, com destaque para a parcela de egressos que não respondeu ao questionário encaminhado pelo colegiado. Dessa forma, torna-se necessária a realização de novos estudos que acompanhem a trajetória dos egressos ao longo do tempo, ampliando a compreensão acerca dos impactos da formação stricto sensu em diferentes etapas da trajetória profissional.

A partir dos achados desta pesquisa, reafirma-se a relevância do PPGE/UFMG como espaço formador de atores sociais com conhecimento próprios e críticos, comprometidos com a ciência, docência e sociedade. O perfil dos egressos revela não apenas os impactos individuais da formação acadêmica, mas também os efeitos institucionais e coletivos do programa que se consolida como referência nacional, evidenciado pela sua ascensão à excelência.

  • Apoio financeiro
    O presente trabalho foi realizado com o apoio da CHAMADA do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil - CNPQ/MCTI Nº 44/2024, Processo: 406504/2025-3.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Maria Amélia de Campos Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Abr 2026
  • Aceito
    05 Maio 2026
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