Open-access Competências e habilidades de graduandos de enfermagem como educadores na atenção à saúde da criança

RESUMO

Objetivo:  Analisar a percepção dos graduandos de Enfermagem sobre as competências e habilidades necessárias para a realização da educação em saúde no contexto da saúde da criança.

Método:  O estudo caracteriza-se como exploratório, descritivo e qualitativo. Foi desenvolvido em ambiente virtual por meio de entrevistas no Google Meet, no período de março a maio de 2024. A população foi composta por 30 estudantes de Enfermagem de duas universidades públicas de Pernambuco. As entrevistas tiveram duração máxima de 30 minutos, com seis perguntas subjetivas. As transcrições foram realizadas na plataforma Transkriptor, unificadas em um documento e analisadas pelo software NVivo.

Resultados:  A partir da análise dos dados, foram elaboradas quatro categorias: Compreensão sobre as competências e habilidades em educação em saúde; Especificidades requeridas para atuar como educador em saúde com o público infantil; Estratégias e recursos para a educação em saúde com crianças; e Contribuição da graduação em Enfermagem para as ações de educação em saúde.

Conclusão:  A percepção dos graduandos de Enfermagem sobre as competências e as habilidades necessárias para a educação em saúde no contexto infantil evidencia a existência de um déficit na formação curricular, especialmente no que se refere à preparação para atuar como educadores em saúde de crianças.

DESCRITORES
Educação Baseada em Competências; Habilidades Sociais; Enfermagem; Saúde da Criança

ABSTRACT

Objective:  To analyze the perception of undergraduate nursing students regarding the competencies and skills required for conducting health education in the context of child health.

Method:  This is an exploratory, descriptive, and qualitative study. It was developed in a virtual environment through interviews on Google Meet, between March and May 2024. The study population consisted of 30 Nursing students from two public universities in Pernambuco. The interviews had a maximum duration of 30 minutes, with six open-ended questions. The transcripts were made on the platform Transkryptor, unified into one document and analyzed using the software NVivo.

Results:  Based on the data analysis, four categories were developed: Understanding the competencies and skills required in health education; Specific requirements for working as a health educator with children; Strategies and resources for health education with children; and Contribution of a Nursing degree to health education initiatives.

Conclusion:  Nursing undergraduate students’ perception of the skills and abilities needed for health education in the context of childhood reveals a deficit in their curriculum, especially regarding preparation for working as health educators for children.

DESCRIPTORS
Competency-Based Education; Social Skills; Nursing; Child Health

RESUMEN

Objetivo:  Analizar la percepción de los estudiantes de enfermería de pregrado con respecto a las competencias y habilidades necesarias para impartir educación para la salud en el contexto de la salud infantil.

Método:  El estudio se caracteriza por ser exploratorio, descriptivo y cualitativo. Se desarrolló en un entorno virtual a través de entrevistas en Google Meet, entre marzo y mayo de 2024. La población estudiada estuvo compuesta por 30 estudiantes de enfermería de dos universidades públicas de Pernambuco. Las entrevistas tuvieron una duración máxima de 30 minutos e incluyeron seis preguntas abiertas. Las transcripciones se realizaron en la plataforma Transkryptor, unificadas en un solo documento y analizadas por Software NVivo.

Resultados:  A partir del análisis de datos, se desarrollaron cuatro categorías: Comprensión de las competencias y habilidades necesarias en la educación para la salud; Requisitos específicos para trabajar como educador de salud con niños; Estrategias y recursos para la educación para la salud con niños; y Contribución de un título de enfermería a las iniciativas de educación para la salud.

Conclusión:  La percepción que tienen los estudiantes de enfermería sobre las competencias y habilidades necesarias para la educación sanitaria en el contexto de la infancia revela una deficiencia en su plan de estudios, especialmente en lo que respecta a la preparación para trabajar como educadores sanitarios para niños.

DESCRIPTORES
Educación Basada en Competencias; Habilidades Sociales; Enfermería; Salud Infantil

INTRODUÇÃO

A educação em saúde, embasada nos princípios da educação popular em saúde, emerge com o compromisso de assegurar sua aplicação no cotidiano da assistência à saúde, com ênfase em sua promoção, na contextualização e no entrelaçamento entre saberes científicos e populares, considerando os determinantes sociais e as culturas locais para, efetivamente, promover o cuidado, a equidade e a participação social(1).

Nesse sentido, ao longo dos anos, a educação em saúde agregou diversas metodologias e tecnologias de ensino, com o intuito de se consolidar na área da saúde e na Pedagogia. Na saúde, seu intuito principal é a promoção da saúde e a mudança de hábitos de vida nos diferentes públicos e contextos de saúde, bem como proporcionar a formação de profissionais críticos e competentes no que se refere ao exercício da profissão e ao posicionamento frente às mazelas sociais, por meio da educação, ratificando políticas de saúde e as necessidades da população(2).

As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) estabelecem que a formação do enfermeiro deve ser pautada em princípios humanistas, científicos e ético-políticos, integrando ensino, pesquisa e extensão, e garantindo experiências que favoreçam o desenvolvimento de competências técnico-científicas e socio-culturais para o cuidado integral(3). Nessa perspectiva, a educação popular em saúde configura-se como eixo transversal e metodológico na formação, pois estimula a práxis educativa problematizadora e o compromisso social com a equidade, a cidadania e a transformação das realidades locais. Desse modo, a graduação, em especial os cursos da área da saúde, passa a ser uma importante ferramenta para o desenvolvimento de habilidades e a solidificação de conhecimentos relacionados às práticas educativas em saúde(4).

De acordo com a literatura, as competências podem ser definidas como o agrupamento de conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para o desenvolvimento de tarefas e para a atuação na resolução de problemas, tornando o indivíduo capacitado para exercer determinada profissão(5). Em consonância, as habilidades podem ser definidas como ferramentas que potencializam a capacidade técnica em determinada área de atuação profissional(6).

Entretanto, no que se refere ao desenvolvimento de competências e habilidades para o cuidado e a promoção da saúde da população infantil, o enfermeiro ou o estudante de Enfermagem, por vezes, vivencia um sentimento de insegurança, pois o manejo e a comunicação em saúde realizados com esse público devem ser individualizados de acordo com a faixa etária e o estágio de desenvolvimento(7). Além disso, o enfermeiro educador na saúde da criança deve desenvolver habilidades comunicativas, lúdicas e dialógicas que favoreçam o protagonismo dessas crianças como agentes ativas de aprendizagem sobre autocuidado e promoção da saúde(8). Nesse sentido, para que a educação em saúde na faixa etária infantil seja efetiva, é necessário desenvolver competências e habilidades desde a graduação(9).

Assim, ao pensar na educação em saúde para a população infantil, é necessário entender que o desenvolvimento desse público-alvo é dinâmico e que este não se configura como mero receptor de informações, mas como indivíduo capaz de desenvolver autonomia por meio da linguagem e da experimentação no mundo à sua volta(7). Adicionalmente, os achados indicam uma insuficiente definição, uma contextualização nacional limitada e um desalinhamento curricular das competências e habilidades que os graduandos de Enfermagem precisam para atuar como educadores em saúde na atenção à criança — tanto pela ausência de evidências brasileiras recentes em saúde escolar quanto por divergências internacionais e por um descompasso entre formação e prática(10,11,12). Em consonância, este estudo apresenta como objetivo analisar a percepção dos graduandos de Enfermagem sobre as competências e as habilidades necessárias para a educação em saúde no contexto da saúde da criança.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo, baseado em entrevistas semiestruturadas. Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo temática, conforme a proposta de Bardin(13). O relato do estudo seguiu as recomendações dos Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)(14), com o objetivo de garantir a transparência e completude na apresentação da pesquisa qualitativa. Todos os itens aplicáveis foram contemplados conforme a natureza e os objetivos da pesquisa.

Local

O estudo foi desenvolvido em ambiente virtual, por meio da plataforma Google Meet, com vistas a flexibilizar os horários das entrevistas, devido à maioria das aulas dos cursos de graduação de Enfermagem ocorrer em horário integral.

População

A população foi composta por estudantes da graduação do curso de Enfermagem de duas universidades públicas do estado de Pernambuco – Brasil, que relataram suas opiniões sobre a temática abordada.

Critérios de Seleção

Foram incluídos no estudo estudantes da graduação de Enfermagem regularmente matriculados em Instituições de Ensino Superior (IES) que, no momento da coleta, já tivessem cursado o módulo ou a disciplina de Saúde da Criança.

Coleta de Dados

A coleta de dados ocorreu de março a maio de 2024. A seleção dos participantes ocorreu por meio da técnica de amostragem snowball, que consiste em utilizar um indivíduo de referência, denominado semente, o qual indica um participante que atenda aos critérios de participação da pesquisa(12). Para captar o indivíduo de referência, foi enviada uma carta convite, que continha informações sobre os objetivos do estudo e sobre a participação. Essa carta foi enviada por meio de e-mail endereçado a um representante de cada turma que atendia aos critérios de seleção, mediante disponibilização pela secretaria das IES participantes. Os representantes aceitaram participar e indicaram um novo integrante; os demais contatos foram mediados pelas redes sociais (Instagram e Whatsapp).

A partir do contato inicial com o participante, era agendada a entrevista, de forma individual, considerando o melhor dia e horário. No momento da entrevista, foi lido, junto ao participante, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Autorização de Imagem e Depoimento. Após o aceite formal para participar do estudo, o discente era instruído a responder a um formulário, por meio do Google Forms, que continha 11 perguntas objetivas com dados sociodemográficos, com o intuito de traçar o perfil dos participantes. A pesquisadora também utilizou um roteiro de observação de dados subjetivos, apreendidos principalmente pelo tom de voz e pelo tempo de resposta, requerendo sensibilidade para analisar o interesse, a articulação, o domínio e a segurança.

Durante a coleta de dados em ambiente virtual, ocorreu, em apenas uma entrevista, uma interrupção frequente por fragilidade na Internet, sendo acordada a necessidade de reagendamento, quando foi possível a nova participação. Desse modo não houve perda amostral.

Em seguida, iniciava-se a entrevista com a gravação da tela, sendo opcional ao participante a abertura da webcam. Destaca-se que as entrevistas tiveram duração máxima de 30 minutos, nas quais foram realizadas seis perguntas subjetivas baseadas nos objetivos da pesquisa, sendo elas:

“O que você entende por competências em educação em saúde?”; “Como você explicaria a diferença entre competências e habilidades?”; “Na sua opinião, quais são as competências necessárias para desenvolver ações de educação em saúde para o público infantil?”; “Com base na sua experiência, quais estratégias você utiliza(ou) para desenvolver ações de educação em saúde para crianças? Alguma dessas você aprendeu durante a graduação?”; “Se você fosse realizar uma ação educativa para crianças, quais materiais/ferramentas você utilizaria?”; “No seu ponto de vista, como a graduação em Enfermagem contribui para o desenvolvimento dessas competências e habilidades?”.

Para testar a clareza do roteiro de entrevista foi elaborado um estudo piloto com três participantes, com o intuito de observar a compreensibilidade das perguntas. Como não foi necessária a revisão do roteiro, os participantes da aplicação piloto foram incluídos na amostra. A coleta de dados foi interrompida quando foi constatada a saturação de respostas durante as entrevistas, conforme preconiza a abordagem metodológica, na qual, em pesquisas qualitativas, é mais importante abranger as dimensões do tema escolhido do que o número de participantes(15).

Análise e Tratamento dos Dados

Os relatos dos participantes, em forma de áudio, foram transcritos na íntegra com o auxílio da plataforma Transkriptor. No entanto, foi necessário revisar o material para assegurar a preservação do conteúdo literal das falas. Após a organização dos dados coletados iniciou-se a análise por meio da proposta de Análise de Conteúdo, a qual tem o objetivo de categorizar e interpretar os achados do estudo. Segundo Bardin(13), essa prática pode ocorrer em três fases: a pré-análise; exploração do material; e tratamento dos resultados. Na pré-análise, a pesquisadora agregou os relatos dos participantes aos registros de dados subjetivos percebidos durante a entrevista, em que cada pergunta correspondeu, no primeiro momento, a uma variável, e posteriormente, os dados foram unificados em um documento. Na sequência, a etapa de exploração do material foi realizada com auxílio do software NVivo(16), visando facilitar a identificação de unidades que compõem a descrição das características evidenciadas do conteúdo, concorrendo para a classificação e a agregação na definição das categorias(15). Por fim, foi realizada análise indutiva das narrativas compiladas e organizadas por meio da semelhança semântica(15).

Aspectos Éticos

Foram respeitados todos os aspectos éticos descritos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e com aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE), por meio do parecer nº 6.744.689 e CAAE nº 78472224.6.0000.5586. A coleta de dados seguiu todas as recomendações do Ofício Circular nº 2/2021 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) para pesquisas em ambiente virtual, e todos os participantes assinaram o TCLE. Para preservar o anonimato dos participantes, suas falas foram identificadas com a letra “P” seguida pelo algarismo arábico.

RESULTADOS

O estudo contou com a participação de 30 estudantes da graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade de Pernambuco (UPE). Dessa forma, observou-se a participação de 13 graduandos (43%) da UPE e 17 graduandos (57%) da UFPE. O perfil dos discentes foi identificado por meio do formulário sociodemo-gráfico preenchido antes do início das entrevistas, conforme descrito na Tabela 1.

Tabela 1
Distribuição do perfil sociodemográfico dos participantes – Recife, PE, Brasil (2024).

Verificou-se que a maioria era do sexo feminino (83%), e apresentava média de idade de 23 anos. Em relação à raça, 44% se autodeclaram brancos, 40% pardos e 17% negros. Além disso, identificou-se que a maioria dos participantes (54%) encontrava-se no 9º período no momento da pesquisa, entre esses apenas 1 (3%) possuía graduação anterior. Do total de participantes, 14 (47%) participaram de projetos de extensão, atividades e oficinas voltados ao público infantil, e 13% participavam de projetos de pesquisa voltados a esse público.

Foi observado pela pesquisadora, a partir da prontidão e da articulação das respostas, maior desenvoltura e domínio da temática por parte dos graduandos de uma determinada IES em relação à outra, pois relataram maior experiência prática com estímulo à produção e à aplicação de materiais educativos lúdicos sobre saúde com o público infantil. Na outra instituição, apenas aqueles que possuíam vivência em projetos de extensão, também envolvendo a produção e a aplicação de materiais educativos lúdicos com esse público, demonstraram maior desenvoltura, articulação e domínio nas respostas.

A partir da análise dos dados e dos discursos dos participantes foram elaboradas quatro categorias: Compreensão sobre as competências e habilidades em educação em saúde; Especificidades requeridas para atuar como educador em saúde com o público infantil; Estratégias e recursos para a educação em saúde com crianças; e Contribuição da graduação em Enfermagem para as ações de educação em saúde.

Compreensão Sobre as Competências e Habilidades em Educação em Saúde

Ao expressarem seus conhecimentos empíricos para distinguir as competências e habilidades requisitadas ao profissional de saúde, alguns graduandos relacionaram as competências em educação em saúde aos conhecimentos teóricos apreendidos durante o processo formativo, enquanto na definição de habilidade observou-se uma associação com o desempenho prático, como demonstrado no discurso:

“Competência é o conhecimento que eu detenho, e habilidade é a minha destreza em poder fazer ações educativas. Por exemplo, cada público que a gente assiste exige uma linguagem e uma forma de se portar (...). Então, a forma como abordamos a pessoa que está sendo assistida é uma habilidade que desempenhamos nesse âmbito da educação em saúde.” (P13)

Durante a apreensão dos relatos, também foram identificados alguns graduandos que apresentaram certa dificuldade para expressar seus conhecimentos sobre as competências e habilidades necessárias ao exercício do papel educativo em saúde do enfermeiro, como demonstrado abaixo:

“Eu nunca pensei nisso, na diferença entre competência e habilidade, mas acredito que habilidade é algo inerente a você, é a capacidade de se comunicar, de você ser compreendido em determinada situação. Já competência deve estar relacionado àquilo que você estudou; ou seja, é ter a competência de passar aquilo que você estudou, passar o seu conhecimento.” (P5)

“Para mim, são termos que estão muito intrínsecos e eu não consigo distinguir o que seria uma competência ou que seria uma habilidade nessa questão de educação.” (P3)

Especificidades Requeridas para Atuar Como Educador em Saúde com o Público Infantil

Para atuar como educador em saúde com o público infantil, os graduandos trouxeram uma visão relacionada ao planejamento das atividades educativas, as quais devem ter como principal meta a utilização de uma linguagem lúdica e adaptada ao público infantil, o domínio do conhecimento científico sobre a temática a ser abordada e a observação do perfil e o ambiente em que a criança está inserida.

“Acredito que a criatividade e a linguagem lúdica, adaptada e acessível, pois estamos acostumados a usar muitos termos técnicos; pela força do hábito, muitas vezes a gente não se “policia” em trazer uma linguagem mais acessível (...). Se a gente usar o termo técnico, o público não vai conseguir entender a informação que está sendo transmitida e não vai causar o impacto da maneira que desejamos, se fosse adaptado para o público específico.” (P2)

“Primeiro, é conseguir perceber as particularidades do público que estamos lidando, compreender como o público infantil está inserido naquele contexto e o que eles gostam, o que é que interessa a eles. Pois, dentro do público infantil, temos uma variedade de interesses, porque a cada faixa etária tem os marcos de desenvolvimento.” (P27)

“Requer a sensibilidade, pois você consegue fazer uma leitura corporal das crianças e consegue notar se elas estão construindo uma linha de raciocínio junto a você (...) acredito que só assim a educação em saúde terá um efeito positivo, porque, ao entender a importância do assunto, a criança irá incentivar os pais, os responsáveis, os amigos etc.” (P25)

Alguns graduandos trouxeram um olhar para a aplicação das ações de educação em saúde também no contexto hospitalar, buscando além de envolver a criança, incluir o cuidador, oportunizando cenários adaptativos para esclarecimentos e orientações, de modo prazeroso e criativo, mobilizados pelo sentimento de empatia.

(...)ter a competência de identificar o público que você irá realizar a ação. Falando particularmente de crianças, eu acredito que seja mais complexo, porque é necessário realizar esse processo de maneira lúdica, para que ela consiga compreender. As crianças já têm um medo cultural de hospital, de enfermeiro, médico etc., então acho difícil fazer essa quebra de pensamento.” (P30)

Estratégias e Recursos para a Educação em Saúde com Crianças

Em relação ao uso de estratégias e recursos para viabilizar o processo de ensino-aprendizagem, no contexto infantil, os participantes apontaram como essencial o conhecimento da realidade cotidiana da criança, para que seja possível promover a troca de conhecimentos com o público-alvo, por meio de estratégias lúdicas, do uso de metodologias ativas e de recursos didáticos, os quais, segundo os participantes da pesquisa, garantem a participação ativa.

“Então, eu acho que desenvolver uma metodologia ativa é a base: que a criança participe, que seja lúdico, que seja dinâmico, trazer algumas coisas do dia a dia para que a criança consiga identificar aquela situação, que seja mais dentro da realidade dela. Eu usei, em alguns momentos, a roda de conversa, onde as crianças podiam falar, opinar sobre a situação, dar exemplos, antes mesmo da gente começar a falar sobre o assunto. Incluir elas nesse diálogo é importante para que elas se interessem mais pelo assunto.” (P1)

“Brincadeiras, para fazer com que a criança participe ativamente da atividade (...) fazer mais do que só explanar sobre algum assunto; por exemplo, utilizar jogos, encenação teatral, estratégias que coloque a criança como protagonista daquele contexto.” (P16)

Foi possível observar um favoritismo para o uso de jogos educativos como recurso didático na atualidade, segundo os participantes, o uso desses recursos auxilia na associação entre o conteúdo trabalhado e o cotidiano do público, bem como também se afasta do processo de ensino-aprendizagem tradicional, trazendo a brincadeira como forma de aprendizagem.

“Lembro do estágio de saúde da criança, pois, quando estávamos na enfermaria, pensamos em trabalhar a temática de higiene pessoal com as crianças internadas. Então, utilizamos a estratégia de jogos, como o jogo da memória, e algumas imagens para eles colorirem, pois enquanto as crianças iam brincando, elas aprendiam sobre a temática.” (P21)

“Brincadeiras, competições e figuras. Crianças adoram brincadeiras, principalmente aquelas que envolvem recompensa, e as brincadeiras e competições estimulam elas a participar desse momento de forma espontânea.” (P29)

Ademais, foi possível notar, como reflexo da pandemia da COVID-19 que alguns graduandos adaptaram suas estratégias lúdicas, anteriormente utilizadas presencialmente, para o contexto on-line, como forma de continuar disseminando informações de saúde ao público infantil.

“Eu só tive a oportunidade de realizar uma ação educativa para crianças uma vez; no entanto, como foi durante a pandemia, a ação teve que ocorrer de modo on-line. Então, a estratégia que utilizamos foi slides coloridos e lúdicos, e pedimos para eles confeccionarem, previamente, um boneco de garrafa PET para simular as compressões de RCP. Apesar de ser on-line, eu acredito que foi bastante proveitoso o uso dessa estratégia, pois elas interagiram bastante, principalmente no final, quando fizemos a dinâmica de perguntas de verdadeiro ou falso. Infelizmente, eu nunca tive a oportunidade de fazer educação em saúde com crianças pessoalmente, mas acredito que realizar essas estratégias pessoalmente chamaria mais atenção desse público.” (P26)

Contribuição da Graduação em Enfermagem para as Ações de Educação em Saúde

Quanto à contribuição da graduação em Enfermagem para o desenvolvimento de competências e habilidades voltadas às ações de educação em saúde, os graduandos destacaram a importância de estar inserido em atividades extracurriculares que estimulam a vivência, principalmente aquelas que são voltadas para o público infantil, pois contribuem para a segurança no desenvolvimento de atividades educativas. Observa-se que, segundo a visão dos participantes, a obtenção de competências e habilidades para lidar com a educação em saúde com o público infantil é pouco abordada nas disciplinas da grade curricular.

“Na minha experiência, dentro da graduação, eu não vi nada que abordasse sobre educação em saúde para crianças, sobre o lúdico e as estratégias que a gente possa utilizar com esse público, mas em atividades extracurriculares, como projetos de extensão.” (P14)

“A graduação em Enfermagem contribui me aproximando de projetos voltados para essa temática, porque, na grade curricular, pelo menos no meu ponto de vista, trata muito sobre as doenças e afecções das crianças, sendo muito focado para o lado assistencial. E, quando temos o auxílio de projetos de extensão ou ligas acadêmicas, nós conseguimos desenvolver melhor essas habilidades. Além disso, as monitorias dadas pelos próprios alunos nos permite perceber como é planejar e executar uma aula, além de nos auxiliar nesse processo de repassar o conteúdo que aprendemos.” (P27)

Ademais, os graduandos também trouxeram a necessidade de ajustes na grade curricular visando à melhoria do desenvolvimento destas competências e habilidades. Entre os pontos elencados para aprimoramento, destacam-se: a redução do foco nas práticas de assistência hospitalar; a inserção de aulas voltadas para estratégias e metodologias ativas que possam ser utilizadas em educação em saúde; discussões sobre a educação popular com a inclusão do público infantil; bem como o estímulo ao desenvolvimento de ações educativas com crianças, como descrito nas falas abaixo:

“A graduação foca muito na parte clínica e esquece que a educação em saúde vai desde a atenção básica até a alta complexidade. E, apesar dessa importância, durante a graduação eu não me recordo de ter aulas sobre as estratégias de educação em saúde; então, o que eu aprendi foi durante a prática, através das tentativas e erros, e fui aprimorando para os diferentes contextos.” (P22)

DISCUSSÃO

Ao estimular o pensamento crítico sobre as competências e habilidades em educação em saúde, os graduandos puderam apresentar suas compreensões a respeito da temática. No que se refere às competências, nota-se a relação intrínseca com a obtenção de conhecimento científico e com a capacidade de transformá-lo em conteúdo acessível aos diferentes públicos, o que exige não apenas competências, mas também habilidades educativas. Assim, pode-se afirmar que as competências englobam um conjunto de conhecimentos, atitudes, motivações, autopercepções e habilidades que tornam possível a realização da ação educativa(17).

Apesar de compreender o conceito de educação em saúde, houve certa dificuldade de alguns discentes para correlacionar este entendimento com as competências necessárias ao profissional enfermeiro no âmbito da promoção da saúde. Seguindo uma concepção alinhada à literatura nacional e às DCNs de Enfermagem, entende-se por competência, no âmbito da formação, a mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores, os quais possibilitam ao egresso adotar uma postura de liderança, comunicação, tomada de decisões e atuação como facilitador em ações educativas(3).

Embora se ratifique a visão do enfermeiro como educador em saúde, nem sempre se evidencia a compreensão sobre as competências que esse profissional deve desenvolver para que tal papel se consolide como ferramenta de trabalho. Com base nos achados da literatura, as competências devem estar relacionadas ao julgamento clínico, à comunicação, ao cuidado centrado na pessoa, à equidade, à inclusão, à ética, à prática baseada em evidências, às políticas de saúde e aos determinantes sociais da saúde(18).

Em relação às habilidades educativas, a compreensão estendeu-se às capacidades práticas, à ação e ao momento educativo propriamente dito, sendo descrita como a capacidade de transformar o conhecimento científico em conhecimento popular por meio de diferentes metodologias. Ao refletir sobre as habilidades requisitadas ao profissional enfermeiro no exercício de ações educativas, observa-se que elas se referem a dimensões práticas, cognitivas e socioemocionais que orientam a mobilização das competências no trabalho em saúde. Ao incentivar o desenvolvimento de tais habilidades durante a graduação, possibilita-se ao futuro profissional um melhor desempenho assistencial e educativo(19,20).

Além disso, foi possível notar que a habilidade de comunicação foi a mais citada entre os participantes da pesquisa. Esse entendimento é reforçado pela literatura, em que Daza-Betancourt et al.(21) destacaram que a habilidade de comunicação assume papel central, pois dentre outras a serem desenvolvidas pelo enfermeiro, torna-se essencial por oportunizar a criação de vínculos, confiança, empatia, além de facilitar a construção de um ambiente propício à troca de informações.

Em relação à categoria “Especificidades requeridas para atuação do profissional enfermeiro como educador em saúde com o público infantil”, foi possível notar a preocupação dos graduandos quanto à promoção da saúde infantil por meio de atividades educativas lúdicas, acessíveis, adaptadas ao público e à realidade em que as crianças estão inseridas. Ao pensar em educação em saúde, o ambiente escolar destaca-se por possibilitar ação intersetorial entre saúde e educação. Dentre os profissionais da saúde, o enfermeiro assume o papel de protagonista como agente mobilizador e articulador das ações educativas, pois ele utiliza das suas competências para promover a prevenção e proteção contra agravos, visando mitigar vulnerabilidades e contribuir para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes(22).

Ao considerar o contexto social, econômico e de saúde em que o público está inserido, é possível planejar uma ação que simule o cotidiano dentro daquela população, configurandose como fator estimulante para que a criança se torne multiplicadora de conhecimentos em saúde na comunidade. Embora o lúdico atue como facilitador do processo de ensinoaprendizagem, é necessário ir além de linguagem acessível e afastada de termos técnicos; deve-se considerar o contexto de vida da criança, suas opiniões, interesses e raciocínios próprios, para que seja possível sensibilizá-la, motivando-a por meio da relação das suas vivências com o conteúdo abordado(23).

Ao planejar ações de educação em saúde, o facilitador, além do conhecimento científico sobre o tema a ser abordado, deve utilizar de metodologias que se constituem pontes para a construção do conhecimento junto ao público-alvo, bem como prever e manejar possíveis imprevistos durante a ação educativa.

Em consonância com os achados da pesquisa, compreendese que, para exercer atividade educativa no cenário infantil, é necessário planejar o momento educativo considerando local, público-alvo, duração da atividade e conteúdo, com o intuito de promover o conhecimento por meio do estabelecimento de relação de confiança(24). Além disso, ao definir que o público da atividade educativa seja composto por crianças, o educador em saúde deve considerar as diferentes abordagens correspondentes aos distintos estágios do desenvolvimento infantil, pois o insucesso de algumas ações educativas está relacionado à generalização de materiais e métodos para diferentes faixas etárias, em desacordo com a literatura, que preconiza que a implementação de atividades educativas na infância deve considerar os estágios de desenvolvimento da criança(25).

Para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, no contexto infantil, os graduandos destacaram como essencial a articulação da ação educativa com o cotidiano da criança, utilizando de estratégias como teatro de fantoches, encenação teatral, contação de histórias, paródias, vídeos educativos, desenhos, brinquedos, musicoterapia, entre outras, pois tais estratégias lúdicas garantem participação ativa e viabilizam a troca de conhecimento com o público-alvo. Nessa perspectiva, a literatura aponta que essas estratégias apresentam potencial de aprendizagem, principalmente porque a brincadeira permite a simulação de cenários e contextos, onde as crianças podem explorar, tirar dúvidas e construir um repertório sobre o assunto abordado(26).

Entre as estratégias educativas referidas, além das que simulam o cotidiano da criança, destacaram-se estratégias que estimulam o protagonismo infantil, como a construção de rodas de conversa, nas quais as crianças são incentivadas a falar, expressar opiniões e apresentar exemplos. Ao utilizar estratégias que promovem o protagonismo infantil, evidencia-se o sucesso da atividade educativa, pois, embora o uso de materiais lúdicos seja amplamente difundido, o sucesso da intervenção em saúde reside nas relações estabelecidas durante o processo, não se restringindo ao uso de objetos no momento educativo(23).

Ademais, dentre os recursos utilizados para garantir a participação ativa do público infantil, os graduandos destacaram o uso de jogos educativos, tanto tradicionais quanto digitais, com ênfase no desenvolvimento de tecnologias educativas virtuais. Observou-se predileção pelo desenvolvimento e aplicação de jogos educativos digitais com crianças, uma vez que esses estimulam a aprendizagem por meio da valorização das experiências prévias, favorecem o diálogo entre os facilitadores e o público-alvo e contribuem para o desenvolvimento de aspectos emocionais, cognitivos e motores, além de se distanciarem das metodologias tradicionais de ensino(27).

Também se evidenciou, nos resultados da pesquisa, o impacto da pandemia da COVID-19 sobre as ações de promoção da saúde com o público infantil, tornando necessária a reformulação das metodologias tradicionalmente utilizadas para viabilizar a continuidade das ações educativas. Nesse contexto, introduziu-se o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), que compreendem recursos eletrônicos que permitem comunicar, interagir e aprender, tais como softwares educacionais, vídeos educativos, jogos, sites, imagens, possibilitando a promoção da saúde para além das barreiras físicas(28).

Nos achados da pesquisa, evidenciou-se uma limitação na expressão da compreensão sobre competências e habilidades, bem como também sobre as estratégias e os recursos a serem utilizados em atividades educativas com o público infantil, entre os graduandos que não apresentavam experiência extensionista ou atuação prática. A inserção no cenário escolar, a escuta das demandas dos escolares e a integração com os professores e gestores contribuem para uma maior segurança e desenvolvimento de expertise na condução de ações educativas, ressaltando a importância do tripé universitário.

A integração entre o ensino, pesquisa e extensão promovida dentro do ambiente acadêmico foi enfatizada como principal contribuição para o desenvolvimento de competências e habilidades voltadas às ações de educação em saúde, uma vez que permite a inserção de graduandos em cenários teórico-práticos, favorecendo uma visão multidimensional, desenvolvimento de um olhar clínico crítico e contextualização do conhecimento para a transformação social(29). Além disso, os graduandos referiram a importância da monitoria acadêmica como estratégia para aprimorar os conhecimentos adquiridos na disciplina e desenvolver habilidades de ensino-aprendizagem, visto que a monitoria tem como propósito esclarecer dúvidas referentes à área de conhecimento, auxiliar no aprofundamento teórico e reforçar habilidades práticas apreendidas durante a disciplina(30).

Salienta-se a insatisfação dos graduandos quanto à grade curricular, os quais ressaltam maior proximidade das disciplinas com doenças e afecções e afastamento da perspectiva da educação popular em saúde, especialmente relacionada ao público infantil. Evidenciou-se nos discursos a necessidade de ajustes curriculares, considerando que, para melhor capacitar futuros enfermeiros, o currículo da graduação deve estar alinhado às transformações na prestação de cuidados em saúde para os diferentes públicos. Nesse sentido, o ambiente acadêmico configura-se como o espaço de transformação e alinhamento às necessidades atuais e futuras no âmbito da saúde(17).

Embora o desenvolvimento das competências e habilidades do enfermeiro ocorra de maneira gradual, a partir do acúmulo de experiências com diferentes públicos e da ressignificação dos conhecimentos frente a novas situações, os discentes relataram dificuldade e insegurança para promover ações educativas ao público infantil, devido ao maior enfoque da graduação no público adulto e idoso. Nesse sentido, para reduzir tal insegurança, os graduandos devem ser estimulados durante a formação, ao desenvolvimento da autonomia na aquisição de conhecimentos em saúde, ao aprimoramento da comunicação, ao fortalecimento das relações interpessoais e à resolutividade(31).

Para que isto ocorra, as IES podem adotar metodologias ativas de aprendizagem na formação profissional, visto que essas simulam ou inserem o acadêmico no campo de atuação com o objetivo de oportunizar a apreensão de habilidades em saúde(32). Entre tais estratégias, destaca-se a utilização de tecnologias educativas digitais, que favorecem o desenvolvimento cognitivo e atitudinal necessário ao contexto de promoção da saúde, além de diversificar o processo de ensino-aprendizagem(30).

Embora este estudo tenha contribuído na compreensão das competências e habilidades necessárias aos graduandos de Enfermagem para atuarem como educadores em saúde na atenção à saúde da criança, observou-se que a inclusão apenas de universidades públicas e de um único estado configura limitação quanto ao aprofundamento da temática. Ademais, identificaram-se as lacunas encontradas na literatura sobre a conceituação de competências em educação em saúde e de habilidades educativas no contexto da Enfermagem, o que restringiu uma discussão mais específica e comparativa dos achados. Portanto, sugere-se que estudos futuros ampliem a compreensão desses conceitos, abrangendo maior quantidade de IES, incluindo as instituições privadas, que concentram uma parcela significativa dos graduandos de Enfermagem.

CONCLUSÃO

A percepção dos graduandos de Enfermagem sobre as competências e habilidades necessárias para a educação em saúde no contexto infantil evidencia a existência de um déficit na formação curricular, especialmente no que se refere à preparação para atuar como educadores em saúde de crianças. Embora demonstrem compreender a importância de articular o conteúdo científico com metodologias lúdicas para transformá-lo em conhecimento acessível e significativo, os discentes revelaram insegurança e dificuldade em aplicar essas práticas, o que é atribuído à escassa vivência com o público infantil durante a graduação.

Entretanto, para os graduandos com vivência teórico-prática em contexto escolar, a competência pode ser definida como a articulação integrada entre conhecimentos, habilidades e atitudes, requerida para que o profissional mobilize o que sabe (conhecimento) e saiba como fazer (habilidade), de modo contextualizado e adequado ao público e à situação vivenciada. Destaca-se, ainda, a importância da sensibilidade do discente para reconhecer e valorizar as especificidades de cada público, considerando suas reais necessidades e o compromisso de propiciar uma arena lúdica e criativa, capaz de motivar e estimular a participação das crianças.

Nesse cenário, destacam-se as atividades extensionistas, os grupos de pesquisa e a monitoria acadêmica como espaços privilegiados para o desenvolvimento dessas competências, uma vez que promovem a inserção dos estudantes em contextos reais e estimulam a integração entre teoria e prática. Assim, tais experiências complementam as lacunas curriculares e contribuem para a formação de enfermeiros mais preparados para atuar como educadores em saúde no cuidado à criança.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

  • Apoio financeiro
    O presente trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Processo 404071/2023-6).

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Editado por

  • ASSOCIATE EDITOR
    Ivone Evangelista Cabral

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Ago 2025
  • Aceito
    25 Mar 2026
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