Open-access Sentidos da Esperança construídos por usuários de serviços de saúde mental na pandemia da COVID-19

RESUMO

Objetivo:  Analisar a produção de sentidos da esperança nos discursos de usuários de serviços especializados de saúde mental de uma cidade do interior mineiro no contexto pandêmico da COVID-19.

Método:  Estudo qualitativo embasado no referencial teórico-metodológico da Análise de Discurso de matriz francesa e constructo teórico de esperança. Foram conduzidas entrevistas semiestruturadas no período de agosto de 2022 a maio de 2023.

Resultados:  O bloco discursivo intitulado “Os sentidos da Esperança construídos na Pandemia da COVID-19” aborda os sentidos construídos sobre esperança que são permeados pelos efeitos advindos de memórias discursivas. Os recortes discursivos enunciam indícios do discurso religioso/de espiritualidade; discurso de solidariedade; modelo de doença; e discurso de resiliência.

Conclusão:  Os discursos pré-construídos, em outro lugar, sobre espiritualidade/religiosidade, solidariedade, modelo de doença e resiliência permeiam a produção de sentidos da esperança nos discursos de usuários de serviços de saúde mental. É importante capacitar os enfermeiros a apreenderem os sentidos construídos de esperança e a reconhecerem-nos enquanto recurso terapêutico constituinte do cuidado.

DESCRITORES
Saúde Mental; Esperança; COVID-19

ABSTRACT

Objective:  To analyze the production of meanings of hope in the discourses of specialized mental health services users in an inland city of Minas Gerais in the context of the COVID-19 pandemic.

Method:  Qualitative study based on the theoretical-methodological framework of French Discourse Analysis and the theoretical construct of hope. Semi-structured interviews were conducted from August 2022 to May 2023.

Results:  The discursive block entitled “The meanings of Hope constructed in the COVID-19 Pandemic” addresses the meanings constructed about hope that are permeated by the effects arising from discursive memories. The discursive excerpts enunciate signs of religious/spirituality discourse; solidarity discourse; disease model; and resilience discourse.

Conclusion:  Pre-constructed discourses elsewhere on spirituality/religiosity, solidarity, disease model and resilience permeate the production of meanings of hope in the discourses of mental health services users. It is important to enable nurses to grasp the constructed meanings of hope and to recognize them as a therapeutic resource that constitutes care.

DESCRIPTORS
Mental Health; Hope; COVID-19

RESUMEN

Objetivo:  Analizar la producción de sentidos de esperanza en los discursos de usuarios de servicios especializados de salud mental de una ciudad del interior de Minas Gerais en el contexto de la pandemia de COVID-19.

Método:  Estudio cualitativo basado en el marco teórico-metodológico del Análisis del Discurso francés y el constructo teórico de la esperanza. Se realizaron entrevistas semiestructuradas de agosto de 2022 a mayo de 2023.

Resultados:  El bloque discursivo titulado “Los sentidos de la Esperanza construidos en la pandemia del COVID-19” aborda los sentidos construidos sobre la esperanza que se encuentran permeados por los efectos que surgen de las memorias discursivas. Los extractos discursivos plantean indicios del discurso religioso/espiritual; discurso de solidaridad; modelo de enfermedad; y el discurso de la resiliencia.

Conclusión:  Los discursos preconstruidos en otros lugares sobre espiritualidad/religiosidad, solidaridad, modelo de enfermedad y resiliencia permean la producción de significados de esperanza en los discursos de los usuarios de servicios de salud mental. Es importante permitir que los enfermeros comprendan los significados construidos de la esperanza y los reconozcan como un recurso terapéutico que constituye el cuidado.

DESCRIPTORES
Salud Mental; Esperanza; COVID-19

INTRODUÇÃO

A pandemia da COVID-19 (Doença do Coronavírus de 2019), enquanto emergência de saúde pública internacional, foi decretada no ano de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e desencadeou não só desafios aos sistemas de saúde e às políticas de saúde pública mundialmente(1), mas também modificações em todos os setores da sociedade, afetando as condições de trabalho/emprego, educação e principalmente a saúde mental da população.

Sintomas como insônia, estresse, ansiedade e sintomas depressivos foram relatados na literatura na população em situações pandêmicas(2). Na pandemia da COVID-19, a população experenciou diversas dificuldades que afetaram a saúde mental, tais como: medo desta doença e da morte; medo relacionado à fonte de renda prejudicada; alterações do sono; sentimentos de desesperança, solidão e sintomas depressivos; raiva, frustração ou irritabilidade; medo da possibilidade de o indivíduo ou de membros de sua família contraírem a COVID-19, ansiedade ou outras reações de estresse(3).

Toda a sociedade sofreu e ainda sofre com as consequências da pandemia da COVID-19; no entanto alguns segmentos da população estiveram mais expostos aos riscos da COVID-19 e encontraram-se mais vulneráveis, como pessoas convivendo com transtornos mentais ou transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas (SPA)(3,4). Em relação às pessoas que consomem SPA, o período pandêmico influenciou e intensificou as suas condições clínicas e psicossociais, inclusive no aumento deste consumo(5). Além disso, a aderência e adesão desses usuários ao tratamento em serviços de saúde ficaram comprometidas devido a mudanças sociais e econômicas, por exemplo(6,7,8).

Pressupõe-se que, durante a pandemia da COVID-19, a população necessitou de esperança para enfrentar os desafios diários. Acredita-se que a esperança esteve ainda mais comprometida na percepção de usuários de serviços especializados em saúde mental, devido a fatores de isolamento social, mudanças na rotina diária, dificuldade de acesso ao cuidado ofertado pelos serviços de saúde mental, modificações no âmbito do trabalho, dúvidas e incertezas quanto à doença da COVID-19(3).

Diante desse cenário de adversidades e desafios, ter e manter a esperança pode ser um recurso importante de promoção da saúde mental e motivador para (re)construir e conduzir a vida. O sentido de esperança adotado neste estudo é o de força vital, dinâmica, complexa e multidimensional. Processo caracterizado por uma expectativa confiante de se alcançar um objetivo futuro significativo para a pessoa(9). É um recurso psicossocial que promove condições para lidar com situações de crise e proporciona efeitos favoráveis à saúde. Constitui em ferramenta de suporte para enfrentar questões relacionadas às necessidades de saúde e manter a qualidade de vida(10).

Diante do exposto, percebe-se a relevância científica e social da temática esperança na saúde mental durante o período pandêmico da COVID-19, principalmente no contexto de álcool e outras drogas e questiona-se: quais os sentidos da esperança construídos pelos usuários de serviços especializados de saúde mental no contexto da pandemia da COVID-19?

O objetivo deste estudo foi analisar a produção de sentidos da esperança nos discursos de usuários de serviços especializados de saúde mental de uma cidade do interior mineiro no contexto pandêmico da COVID-19.

MÉTODO

Tipo

Estudo qualitativo, exploratório e norteado pela ferramenta Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ). O estudo foi fundamentado no referencial teórico e metodológico da Análise de Discurso (AD) de matriz francesa de Michel Pêcheux e de sua filiada Eni Orlandi, introdutora do referencial no Brasil, e no quadro teórico interpretativo do Modelo de Esperança de Dufault e Martocchio.

A Análise de Discurso ocupa-se dos efeitos de sentidos produzidos entre locutores em seus locais sociais determinados pela estrutura social(11). Para a AD os sentidos são construídos socialmente e determinados pela história, pela ideologia e pelo inconsciente(12). A AD permite interpretar o discurso identificando os vestígios e marcas do contexto ideológico, histórico e social, que não são organizados pelo próprio enunciador, mas que se revelam na materialidade linguística(13).

Os sentidos produzidos pelos sujeitos imprimem-se nas Formações Discursivas (FD), as quais constituem algo que, em uma posição e conjuntura dadas, permite o que se pode e deve se dizer. Portanto, uma determinada FD produzida pelo sujeito é interpelada por outras FD construídas anterior e externamente a ele. Nessa configuração, encontra-se o esquecimento número 1, termo utilizado na AD para designar a ilusão de que somos originários do pensamento ou do dizer(13).

O modelo de Esperança de Dufault e Martocchio(9) defende que a esperança pode ser definida como força vital dinâmica, que envolve diversas dimensões caracterizadas por expectativa confiante de se alcançar um objetivo futuro significativo para a pessoa. As seis dimensões da esperança consistem em: afetiva, cognitiva, comportamental, contextual, afiliativa e temporal(9).

Local

A pesquisa envolveu quatro serviços especializados de saúde mental: Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), Centro de Atenção Psicossocial II, Centro Multiprofissional de Saúde Mental e Centro de Atendimento em Saúde Mental Pós-covid, pertencentes a uma cidade do interior de Minas Gerais.

População e Critérios de Seleção

Trabalhou-se com amostra de conveniência de 14 usuários que utilizam tais serviços especializados de saúde mental. Os critérios de inclusão constituíram em: idade maior ou igual a 18 anos e fazer tratamento no serviço especializado de saúde mental e os critérios de exclusão envolveram a apresentação de dificuldade de compreensão que impediu o andamento das entrevistas e/ou estar intoxicado ou em surto psicótico no dia da entrevista, apresentando sinais físicos e psíquicos alterados. Na intoxicação, dependendo da SPA, seriam: labilidade intensa do humor, euforia, sonolência, descoordenação motora e confusão mental. No surto psicótico seriam: agitação, agressividade, confusão mental, alucinações ou delírios.

O fechamento amostral deu-se por saturação teórica de dados, em que se considera o ponto de saturação quando houver o entendimento de que já foram obtidos dados suficientes para compreender a temática(14).

Coleta de Dados

A coleta de dados foi realizada no período de agosto de 2022 a maio de 2023, pela pesquisadora principal do estudo (doutoranda), que possui experiência em saúde mental, na temática de esperança e em entrevistas para pesquisas qualitativas. Utilizou-se um questionário sociodemográfico e clínico para caracterização dos participantes do estudo (com perguntas sobre sexo, religião, escolaridade, estado civil, situação de trabalho atual, tempo de tratamento no serviço e satisfação em relação ao tratamento) e um roteiro semiestruturado de entrevista com perguntas que questionavam o sentido da esperança para os usuários durante o período da pandemia da COVID-19, perspectivas futuras na vida destes, fatores inibidores e facilitadores de esperança. As entrevistas tiveram duração média de 25 minutos e foram gravadas por áudio.

O recrutamento dos participantes foi por intermédio de contato prévio e indicação pelos profissionais de saúde dos respectivos serviços, após autorização dos usuários, ou pela pesquisadora em sala de espera. As entrevistas ocorreram nestes serviços, em sala privativa, assegurando a privacidade e respeitando os protocolos sanitários e medidas de segurança contra a COVID-19 determinados na época pelo Ministério da Saúde.

Os participantes foram identificados como Sujeitos Discursivos (SD) seguidos por numeração sequencial à ordem das entrevistas. As sequências discursivas foram representadas pela sigla “sd”, seguidas da numeração, sendo sublinhados os textos com presença de vestígios e marcas linguísticas.

Análise e Tratamento dos Dados

Foram utilizados os dispositivos analíticos do referencial metodológico da AD(13), os quais possibilitaram captar o dito e o não dito para além da superfície e analisar a materialidade que veicula o discurso. A primeira etapa consistiu em transcrever as entrevistas, identificar vestígios e marcas linguísticas para compreender o funcionamento discursivo. A segunda etapa permitiu compreender como se constituem os sentidos em determinado discurso, identificando os segmentos e recortes discursivos. Na próxima etapa, os recortes discursivos foram agrupados em blocos discursivos, de acordo com as formações ideológicas semelhantes. Para validação e fidedignidade das sequências discursivas, dos recortes e blocos discursivos, participaram três pesquisadores enfermeiros: um na temática de esperança e saúde mental, outro no tema de álcool e outras drogas e um terceiro em AD.

Aspectos Éticos

Estudo aprovado pelo Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos de uma Universidade Federal, no ano de 2022 sob o parecer n. 5.264316. O estudo está em conformidade com a Resolução Conselho Nacional de Saúde n. 510/16. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Foram convidados 18 usuários no total, destes 4 recusaram o convite e não houve desistência uma vez iniciada a entrevista. Foram realizadas 14 entrevistas com usuários de serviços especializados em saúde mental, sendo 5 usuários do Centro Multiprofissional de Saúde Mental, 4 usuários do CAPS II, 3 usuários do CAPS AD e 2 usuários do Centro de Atendimento em Saúde Mental Pós-COVID. Destes 14 sujeitos, 10 eram do sexo feminino e 4 do sexo masculino. A média de idade é de 40 anos. Em relação ao estado civil, 7 eram solteiros, 2 casados, 4 divorciados e 1 viúva; 2 possuíam ensino superior, 5 ensino médio completo, 4 ensino médio incompleto, 1 ensino fundamental completo e 2 ensino fundamental incompleto. Dos usuários, 7 pessoas eram católicas, 4 evangélicas, 1 sem religião, 1 espírita e 1 agnóstica. Atualmente 11 sujeitos não estavam exercendo atividade profissional e 3 sim. A média de tempo em acompanhamento no serviço foi de 18 meses e meio.

A análise de dados produziu o bloco discursivo intitulado “Os sentidos da Esperança construídos na Pandemia da COVID-19”. Este bloco discursivo aborda os sentidos construídos sobre esperança que são permeados pelos efeitos advindos de memórias discursivas. Na AD, o interdiscurso é retomado por meio de memória discursiva, é o já dito anteriormente, em outro lugar pré-construído, que possibilita o dizer. São as memórias coletivas e sociais que são delineadas na história e materializam-se no discurso(13). Os recortes discursivos enunciam indícios de discurso religioso/de espiritualidade, discurso de solidariedade, modelo de doença e discurso de resiliência.

Os recortes 1 a 4 evidenciam as memórias discursivas advindas do discurso religioso/de espiritualidade, em que as entidades religiosas proporcionam luz, o que reforça a existência de Deus. Há perspectiva de um futuro melhor e transformador, apoiado pela fé, religião e espiritualidade.

Recorte 1: [Esperança] é não fazer mais as coisas que eu fazia (sd8). Não viver naquele mundo escuro, enxergar que tudo é possível, que Deus existe (sd9). E que tudo pode dar certo (sd10). (SD5).

Recorte 2: Jesus é tudo (sd6). A esperança é Jesus (sd7). Respondi bem procê? A esperança é a gente fazer a coisa certa e querer ter fé (sd8). (SD11).

Recorte 3: orar, interceder, falar um pouco pras pessoas do amor de Deus, (sd10) Deus é amor nas nossas vida, (sd11) expressar um pouquinho da parte espiritual pra que as pessoas também não venham a perder a esperança (sd12) e mostrar pra eles que nada está perdido né, (sd13) nunca é tarde pra recomeçar...entendeu, uma nova vida (sd14). (SD14).

Recorte 4: A minha esperança vem de Deus, vem de Jesus (sd10). Eu posso colocar a fé com a esperança, quase a mesma palavra (sd11). Eu tenho fé que o amanhã vai ser melhor, e eu tenho esperança que o dia de amanhã vai ser melhor, que tudo vai mudar (sd12). (SD6).

Os recortes de 5 a 7 evidenciam discursos amparados no Interdiscurso da solidariedade, em que há a expressão da ideia de que a pandemia da COVID-19 inspirou o sentimento de solidariedade na sociedade, bem como de afeto, humildade e o sentimento de valorizar as coisas ao redor.

Recorte 5: [Esperança é] um símbolo verde, sabe? (sd3) assim, de solidariedade... de mais afeto, mais carinho... (sd4) as pessoas... elas deveriam ser mais assim (sd5). Hoje em dia... hoje em dia tem muita briga, muita discordância... (sd6). (SD1).

Recorte 6: Eu sinto que... que [a pandemia] agora tá melhorando, em certos aspectos, as coisas tão voltando ao normal (sd2)As pessoas tão criando mais humildade umas com as outra. tão sabendo...(sd3) tão sabendo ter Deus mais no coração...(sd4) dar valor nas coisas que perde...(sd5). (SD4).

Recorte 7: Ah a gente imaginava que as pessoas fossem mudar um pouco, que as pessoas fossem parar e pisar um pouco no freio (sd4), e valorizar um pouco mais a vida como as pessoas romantizaram tanto durante a pandemia (sd5), mas agora que voltou tudo ao normal todo mundo esqueceu né (sd6), essa visão romantizada e infelizmente a humanidade caminha no seu normal de novo (sd7). (SD12).

Os recortes de 8 a 11 enunciam efeitos de sentido afetados pelas memórias discursivas advindas do modelo de doença. Os discursos foram afetados pelo paradigma biomédico e o modelo problema-solução, ideias pré-construídas e consolidadas de maneira hegemônica na história da saúde e do cuidado.

Recorte 8: Sobre a pandemia, ela piorou muito o meu estado (sd11). Em primeiro lugar, eu espero a minha cura (sd12). E sei que em nome de Jesus, eu vou me curar (sd13). Eu vou conseguir me libertar de todos esses remédios, porque eles não são brincadeira (sd14). (SD7).

Recorte 9: Eu espero não ter recaídas (sd6). Recaídas a gente pode ter né, mas eu tô reagindo contra (sd7). (SD5).

Recorte 10: [Na pandemia] eu traficava, então eu tinha droga dentro de casa do mesmo jeito, aí que eu usava mais ainda (sd1). Não tinha nada pra fazer, aí eu fervia usando mais ainda (sd2). [Hoje tenho] Sentimento de que eu tenho que viver no remédio né...porque senão, não guenta (sd3). (SD9).

Recorte 11: Aí descobri que tava com depressão, agora a depressão está instalada (sd6), ela [psicóloga da unidade] já me falou que tá instalada, então tenho que fazer de tudo pra sair (sd7), então é como uma droga, você vai, um dia cê tá bem, outro dia cê não tá bem, tá? (sd8) [...] eu preciso sair dessa depressão que eu tô, pra da outra vez falar pra você que eu tenho sonhos, porque eu não tenho mais (sd10). Esperança pra mim significava muita coisa sabe, esperança pra mim era tudo, era uma palavra-chave (sd12)[...]agora filha, vou falar pra você, na depressão que eu tô, como tá instalada, se eu falar pra você que eu tenho objetivo na vida, eu vou tá mentindo (sd14). (SD13).

Os recortes de 12 a 15 expressam sentidos de esperança advindos de memórias discursivas ancorados no discurso de resiliência. Os recortes enunciam sentidos de valorização de recursos internos e pessoais para a superação de adversidades. Alguns discursos reiteram a ideia de que as dificuldades são importantes para trazer força interna.

Recorte 12: Ela [a pandemia] tá sendo assim, basicamente, de aprendizado, sabe? (sd7) foi assim, no sentido de... Sentido de olhar as coisas sabe? (sd8) que a pandemia pra mim, ela não foi fácil (sd9). Ela foi uma tremenda bagunça (sd10). Então, ela foi bem... é... teve um desequilíbrio da minha saúde mental (sd11) [...] mas aí eu acabei levantando e... fui mudando um pouco a situação(sd12). [Minha esperança] vem mais mesmo da minha coragem, digamos assim. Às vezes, eu tenho uma coragem mesmo de viver mais a vida. Além de desanimar bastante, como às vezes acontece, é... às vezes, eu sou bastante corajosa em fazer algumas coisas (sd13). (SD1).

Recorte 13: não foi fácil, pra ninguém foi fácil, todo mundo sofreu, as consequências da pandemia (sd3), então nós somos sobreviventes de um naufrágio...(sd4) estamos sobrevivendo ainda, graças a Deus...(sd5). (SD14).

Recorte 14: Então, eu espero felicidade, correr atrás de todos os meus objetivos (sd12). Acordar cedo e ir para a luta, ter uma vida normal, como qualquer outra pessoa tem (sd13). (SD5).

Recorte 15: [Esperança significa] Tentar alcançar os pontos positivos na vida... (sd9)“ah! eu tenho esperança de não ter problema”...(sd10) mas tem que ter problema na vida pra crescer...(sd11) tiro [esperança] de mim mesmo e um pouquinho da fé que eu tenho, em Deus ... (sd12) é que minha vida foi meio complicada desde criança, então acho que foi eu mesmo, aí precisei ter mais força pra eu poder lutar (sd13). (SD6).

DISCUSSÃO

O estudo apontou que os sujeitos produziram diversos sentidos sobre esperança no período pandêmico, sentidos estes afetados pelas memórias discursivas, as quais não são acessíveis conscientemente pelo sujeito, mas são constitutivas dos discursos(12,13). Os sentidos já estão no mundo antes, no já-dito, no pré-construído e retornam no dizer(15).

Os recortes de 1 a 4 expressam sentidos de esperança permeados pelas memórias discursivas construídas pelo discurso religioso/de espiritualidade. Religiosidade pode ser definida como as ações, práticas e crenças articuladas a determinada religião. A espiritualidade possui sentido mais abrangente, envolvendo a busca pessoal por questões essenciais à vida e conexão com o sagrado ou transcendental(16). O recorte 1 apresenta a resposta da SD5 à pergunta - “Como você descreveria a esperança na sua vida?”. As condições de produção dos discursos são de uma usuária do serviço CAPS AD, que está retornando ao tratamento há pouco tempo e sofre as consequências do uso abusivo de SPA. O recorte 1 enuncia que o sentido de esperança é a ausência das drogas. Na sd8 a expressão “as coisas que eu fazia” silencia o sentido “usar drogas”, sendo que, na perspectiva de SD5, tal consumo é considerado inconveniente ou inadequado. Esse silêncio consiste na ocultação de outros sentidos possíveis que causam desconforto, ou seja, concebido como inconveniente(13).

Em efeito metafórico de deslizamento de sentidos “mundo escuro” significa “drogas” e a droga cega a pessoa e tudo é impossível, enquanto que o sentido oposto, a “luz” seria a figura de Deus, ou seja, quando ela sai da escuridão, “enxerga” e “vê” a existência de Deus. Nesse sentido, as drogas são a escuridão e Deus é a luz. O paradoxo entre escuridão e luz remete ao discurso religioso de que a figura de Deus seria a solução para a problemática do uso de SPA. Como a SD5 enuncia, quando ela enxerga Deus, “tudo é possível” (sd9) e “tudo pode dar certo”(sd10).

No recorte 2, o sentido de esperança é personificado na figura de Jesus. Em deslocamento de sentidos, o significante “esperança” ganha um sentido espiritual e religioso. O seguimento discursivo - “fazer a coisa certa” - silencia outros sentidos possíveis de que a coisa certa seria a crença em Jesus e a vontade, o desejo em ter fé. Esse recorte expressou indícios de memórias discursivas articuladas ao discurso religioso e de justiça/ética, em que a esperança pertence ao universo da fé, do transcendente, mas da justiça/ética, ou seja, de fazer a coisa certa.

O Recorte 3 apresenta a resposta da SD5 à pergunta - “Como você descreveria a esperança na sua vida?” O sentido de esperança ganha o sentido de que Deus ajuda as pessoas a não perderem a esperança. A ideia de esperançar uma nova vida, um novo recomeço (perspectiva futura) – emerge na paráfrase “Nunca é tarde para recomeçar” (sd14). A sd11 reforça o discurso de espiritualidade por meio da paráfrase “Deus é amor nas nossas vida”. O pré-construído em outro lugar retorna no dizer demonstrando sentidos de que a espiritualidade expressa sentidos de amor, caridade, ajuda e esperança.

A SD14 enuncia que a esperança em sua vida seria compartilhar esse sentido com outras pessoas. O sujeito elenca ações de cunho espiritual que para ela se relacionam com o sentido de esperança (orar, interceder, falar de Deus para as pessoas). Essas ações fazem parte da dimensão comportamental da esperança do Modelo de Esperança, a qual envolve as ações de caráter social, psicológico, físico ou religioso implicadas no processo de esperar e ter esperança(9).

O Recorte 4 apresenta a resposta da SD5 à pergunta: “Como você descreveria a esperança na sua vida?”. Em efeito metafórico, o sentido de esperança é deslocado para o sentido de fé, em movimento de transferência contextual. Fé e esperança, para a SD6 são “quase” como sinônimos, ou seja, para ela o sentido de esperança está intimamente conectado com a crença na espiritualidade. Parafraseando o modelo de Esperança de Dufault e Martocchio(9), há um sentido de esperança generalizada, ou seja, não referente a um objeto de esperança específico, mas sim de sentimento generalizado de um “amanhã melhor”, de um “futuro melhor” e na expectativa por mudanças no presente.

As produções discursivas religiosas/de espiritualidade exemplificam como a dimensão afiliativa do processo de esperança é mobilizada(9), a qual se refere às relações com outras pessoas (vivas ou mortas) ou com um Ser Superior. Os recortes discursivos enunciam que relacionar-se com Deus constitui-se em fonte de esperança para os sujeitos do discurso. A espiritualidade insere-se na dimensão comportamental da esperança(9), considerando-se que ritos e práticas religiosas, tais como orações, meditações, cultos e participação em instituições religiosas, por exemplo, são ações e comportamentos que podem facilitar o surgimento ou fortalecimento do estado de esperança.

Estudos(17,18) corroboram o pressuposto de que a dimensão da espiritualidade está intimamente relacionada com a experiência da esperança e demonstram que as crenças espirituais são recursos internos significativos para a obtenção ou manutenção de esperança. A espiritualidade foi identificada como fonte de esperança nestes estudos(17,18).

Os discursos acima evocam memórias discursivas advindas do discurso religioso/de espiritualidade. Os sentidos construídos sobre esperança são fortemente atravessados pelos sentidos de fé, crença e espiritualidade. Como condição de produção ampla, destaca-se que a população brasileira é em sua maioria cristã, de religiões católica ou evangélica(19). As condições de produção referem-se às circunstâncias em que os discursos são produzidos e sua relação para permitir o dizer. Envolvem o contexto sócio-histórico, aspectos imaginários e ideológicos em que o sujeito está inserido(13).

A religião apresenta-se como uma forma própria de linguagem que possui seus códigos e ritos e atua na mediação do processo de significação da vida e da realidade(16). As religiões, enquanto práticas sociais, fazem parte da constituição do sujeito e organização social, influenciando o modo de ser e construir sentidos dos sujeitos(16,20), portanto é esperado que a espiritualidade seja transversal aos discursos dos sujeitos discursivos deste estudo.

Outro discurso evidenciado neste estudo envolveu o apelo à solidariedade como forma de lidar com as dificuldades impostas pela pandemia. A disseminação veiculada pelas redes sociais e discursos midiáticos foi de que a pandemia proporcionou sensação positiva, ou seja, a pandemia poderia invocar a experiência e sentimentos solidários nas pessoas, bem como a percepção de que a adversidade pandêmica desencadearia sentimentos de valorizar mais a vida das pessoas.

O discurso de solidariedade é retomado por meio de processos parafrásicos nos recortes discursivos de 5 a 8. O Recorte 5 é parte da resposta dada pela SD1 à pergunta: “Quando você escuta a palavra esperança durante a pandemia, o que te vem à cabeça?”. Em efeito metafórico, a SD1 resgata a memória discursiva de que a cor verde simboliza a esperança. A cor verde, no imaginário social relaciona-se à natureza, germinação e renascimento; preservar o ambiente, o equilíbrio e a harmonia (contrário ao ambiente de briga e discordância). Os seguimentos discursivos “assim, de solidariedade... de mais afeto, mais carinho... (sd4) as pessoas... elas deveriam ser mais assim (sd5). Hoje em dia... hoje em dia tem muita briga, muita discordância... (sd6)” revelam indícios de sentido de esperança relacionados com o sentido de solidariedade. Há a relação de efeitos de sentido ancorados no Interdiscurso de valorização da solidariedade, ou seja, ser solidário envolve ser afetuoso e carinhoso, bem como manter ambiente harmônico. O sujeito atribui o sentido de solidariedade ao significante “esperança”.

O recorte 6 também enuncia sentidos ancorados no Interdiscurso de solidariedade, em que a pandemia transforma as pessoas mais solidárias e valorizam mais as coisas que perdem. Para o SD4, a esperança no período pandêmico seria ter mais “humildade” entre as pessoas. Percebe-se ato falho quando SD4 escolhe o significante “humildade” e não outros possíveis, como “humanidade ou solidariedade”. Entretanto, no recorte discursivo, o significante “humildade” adquire outro significado quando inscrito nesta determinada formação discursiva - o sentido de solidariedade, sentido este diferente de seu significado literal que, de acordo com o dicionário Aurélio, significa “modéstia, simplicidade”. Para a AD, esse efeito de sentido demonstra como as palavras não possuem significado literal, originário; o sentido pode ser deslocado e receber outro efeito, ou seja, circular entre regiões discursivas diferentes(21).

A solidariedade surge como resposta da sociedade ao período pandêmico, a qual constitui recurso que pode ser mobilizado de maneira individual e/ou coletiva, por empresas, grupos organizados pela sociedade civil, movimentos sociais e pelo poder público(22). No estudo, o sentido de “solidariedade” relaciona-se ao sentido de “solidariedade filantrópica”, expressa pela conduta individual ou de pequenos grupos para realizar ações voluntárias, assistencialistas e caritativas, bem como manter postura empática.

O significante “esperança”, quando pertence ao universo semântico do significante “solidariedade”, remete à dimensão afiliativa do Modelo de Esperança(9). Ajuda mútua, reciprocidade e preocupação com o outro fazem parte do processo de esperança à medida que nos relacionamos uns com os outros e podemos fortalecer a esperança por meio das relações.

O recorte 7 expressa o sentido de que a pandemia desencadearia o bem para a humanidade, ou seja, momentos reflexivos para que as pessoas parassem e levassem a vida “mais devagar”. Segundo SD12 houve uma romantização no período da pandemia, isto é, vivenciar tempos difíceis pode incentivar as pessoas a valorizarem mais a vida. Em efeito de deslizamento de sentidos, no sd4 “as pessoas fossem parar e pisar um pouco no freio” dá efeitos de desaceleração, calma, pausa, o que, na conjuntura dada, implicaria na valorização da vida (sd5). Entretanto, no sd6, a SD12 conclui que não houve essa mudança esperada, ao “voltar tudo ao normal”, a “humanidade caminha no seu normal”, ou seja, retorna ao ritmo acelerado, ritmo este que não proporciona a valorização da vida. Outra pista importante neste recorte discursivo é a “visão romantizada” mencionada no sd7, que remete às memórias discursivas disseminadas na pandemia, de um período bom para a humanidade, ou seja, de valorizar a vida diante das adversidades pandêmicas.

Durante o período pandêmico, as redes sociais online e midiáticas expuseram o imaginário social diversificado, ou seja, parte da população privilegiou disseminar informações sobre a pandemia, outra parcela enfatizou sobre o potencial perigoso do vírus e as perdas ocasionadas por complicações da COVID-19, e outra expressou experiências positivas advindas da pandemia, como por exemplo relatos de solidariedade e atos caridosos, experiências individuais de superação e experiências pessoais positivas de reinvenções de hábitos e rotinas, conforme literatura(23).

Os recortes de 8 a 11 enunciam efeitos de sentido afetados pelas memórias discursivas advindas do modelo de doença, em que os sintomas e as medicações adquirem posições centrais no processo terapêutico, baseando-se na premissa de “doença-cura” e “problema-solução”. No âmbito do uso de álcool e outras drogas, a dependência química é doença e a sua “cura” é somente por meio da abstemia(24). No contexto de transtornos mentais e os derivados de consumo de SPA, o transtorno mental é uma doença que pode ser tratada por meio de medicações, constituindo-se um problema que tem uma causa e requer uma solução, neste caso, o medicamento.

O paradigma racionalista de “problema-solução” era hegemônico até as primeiras experiências de Reforma Psiquiátrica no período de 1960 e subsidiava as práticas em Saúde Mental e Psiquiatria. Nesse paradigma, o problema dado seria a doença e a solução esperada seria a cura. A terapia nessa lógica é considerada um processo que articula o diagnóstico ao prognóstico esperado – a cura. Com as primeiras iniciativas de Reforma e o avanço do conhecimento na área de saúde mental, entende-se que as pessoas com transtornos mentais possuem uma experiência integral, complexa e concreta que não pode ser reduzida à lógica “problema-solução”(25). Para atuar na prática com usuários de serviços especializados de saúde mental é necessário superar o paradigma problema-solução e caminhar para um sentido de que, no âmbito dos transtornos mentais, o sofrimento psíquico é uma experiência subjetiva e complexa em contexto social e, no âmbito do consumo de álcool e drogas, existem abordagens que reconhecem a autonomia, protagonismo e singularidade dos usuários, como por exemplo a abordagem da Redução de Danos(25,26). Dessa forma, consideram-se os usuários sujeitos sociais e atores da mudança e de reconstituição de sentidos de vida(25).

No recorte 9, a SD5 tem esperança em não ter mais “recaídas”, sendo que este significante revela indícios de um discurso fundamentado no modelo de doença e de prevenção de recaídas. Nesta perspectiva, a dependência de SPA é uma doença e, portanto, busca-se atingir a cura, ou seja, a abstemia. Recair significa voltar ao uso, o qual deve ser prevenido neste modelo(24).

Os recortes acima expressam a dimensão cognitiva do processo de esperar e ter esperança, quando os sujeitos discursivos elaboram, interpretam, julgam e elencam seus objetos de esperança, definindo prioridades, por exemplo(9). A SD2 atribui o significado de esperança ao desejo de “recuperação” e SD7 destaca a cura como seu principal e primeiro objeto de esperança. A SD5 define como seu objeto de esperança a abstemia das SPA, mantendo-se livre de recaídas.

No recorte 10, o sd1 aponta contradição e crítica diante da posição do sujeito discursivo em sua posição social, em um determinado momento de sua vida, ou seja, de ser traficante e consumidor de SPA, ao mesmo tempo. O significante “fervia” na sd2 denota sentidos de ebulição, efervescência, borbulhar o que enuncia sentidos de uso de drogas intenso, principalmente na pandemia. Destaca-se em sd3 - “eu tenho que viver no remédio” - o enunciado de sentidos retoma as memórias discursivas do modelo de doença, em que as medicações são a principal solução terapêutica para o sofrimento psíquico(24). O discurso salienta não só a dependência da SPA, mas também dos fármacos, o que sustenta o gerir da vida do enunciador.

No recorte 11, a SD13 refere não ter esperança devido à depressão “instalada”, sendo este significante em efeito metafórico de transferência contextual, ou seja, sentidos de “concretizada”, “assentada”, “diagnosticada”. Para a SD13 o fato de seu transtorno mental estar “instalado” condiciona e determina sua experiência de esperança. As marcas linguísticas e os vestígios derivam efeitos metafóricos de que a usuária teria que “fazer de tudo pra sair” da depressão, curar-se, para que em tempo futuro, “da outra vez”, pudesse ter sonhos e objetivos.

A condição do diagnóstico de depressão, ou ausência deste, é determinante para a capacidade de ter esperança. A dimensão contextual influencia no processo de esperança, pois as circunstâncias e situações da vida interferem na capacidade do sujeito de manter a esperança(9). A condição de produção estrita de agravamento da depressão e a vivência de situação de luto de SD13 devido à pandemia, desencadeou-lhe sentimentos de desesperança.

O pressuposto de que desesperança e esperança não são antagônicas reforça a percepção de que uma mesma situação pode provocar oportunidades para a esperança ou desesperança, dependendo de como o sujeito percebe, interpreta e reage ao contexto. Contextos que denotam desesperança podem despertar para novas metas, revisar planos e suas estratégias(9).

Os recortes de 12 a 15 enunciam sentidos de esperança que são afetados por memórias discursivas pré-construídas, do discurso de resiliência. A SD1 relata “desequilíbrio da saúde mental” quando define o significado pessoal de esperança em tempos pandêmicos. O significante “desequilíbrio” denota deriva de efeitos metafóricos de sentidos de que o sofrimento psíquico a faz perder o equilíbrio e cair, apesar do sujeito discursivo reconhecer sua “coragem” como fonte de esperança motivadora para “se levantar” e “mudar a situação”. Esses sentidos apontam para a valorização de características internas e recursos pessoais de enfrentamento e resiliência, buscando superar as dificuldades do período pandêmico.

Resgatando as condições de produção estritas de SD1 em que o discurso foi enunciado, destaca-se a linguagem não verbal da entrevistada, expressa pela sua postura cansada e desanimada. Percebe-se contradição e ambivalência diante do reconhecimento da “coragem” de SD1 e a posição-sujeito de desânimo. A esperança está intimamente articulada à condição de incerteza e é caracterizada como experiência humana que pode oscilar, alternando entre momentos de alta e baixa esperança. Algumas respostas afetivas para as incertezas são sentimentos de ansiedade, vulnerabilidade, preocupação e tristeza das pessoas(9).

No recorte discursivo 13, a SD14 utiliza-se da figura de linguagem metáfora para comparar a sociedade com um navio afundando no período da pandemia, denotando sentidos de destruição e aniquilamento, mas com sobreviventes. O sujeito discursivo salienta a empatia, ao enunciar o sofrimento compartilhado e vivenciado coletivamente neste período pelas pessoas. A escolha pelo significante “sobreviventes” por sua vez sugere sentidos de resiliência. Na condição de produção estrita em que o discurso foi emitido, a SD14 acredita que é possível se adaptar e superar as dificuldades impostas pela pandemia, ou seja, “sobreviver ao naufrágio”.

No recorte 14 o sujeito do discurso atribui ao significante “esperança” sentidos de resiliência e esforço elucidando o funcionamento da dimensão comportamental da esperança, que envolve as ações mobilizadas pelos sujeitos em alcançar algo significativo para si e para os outros(9). O sujeito discursivo elabora estratégias relacionadas ao campo da ação, do agir (acordar cedo, correr atrás, ir à luta), as quais a ajudarão a atingir seu resultado esperado. A sd13 enuncia a marca linguística da paráfrase, quando SD5, no seu dizer - “Acordar cedo e ir para a luta” - parafraseia o ditado popular - “Deus ajuda quem cedo madruga”. O mecanismo de paráfrase retoma sentidos pré-construídos de valorização da dedicação e esforço.

Para a SD5, tais sentidos são atribuídos a “ter uma vida normal”, ao escolher o significante “normal” e não outros. Esse fenômeno da AD é chamado de esquecimento n.2, em que o sujeito do discurso privilegia e seleciona determinados dizeres em detrimento de outros(12). A escolha em dizer determinada palavra e não outra possui um significado que está relacionado com as condições de produção amplas e estritas, com o histórico e o ideológico(13). O “normal” para a SD5 relaciona-se ao trabalho duro, funcionalidade e luta.

Percebe-se que o sentido de resiliência é transversal aos recortes acima, o qual é compreendido enquanto fenômeno complexo, que vem sendo estudado ao longo dos últimos anos por diversas áreas, tais como Ciências Humanas e Ciências da Saúde e conceituado por diversos autores(27,28). A resiliência pode ser definida como processo de enfrentamento a desafios ou adversidades e como a capacidade de elaborar respostas adaptativas para obter resultados esperados. É um processo desenvolvido ao longo da vida que envolve recursos de enfrentamento pessoais, interpessoais e sociais(29). O sentido de resiliência, pré-construído anteriormente e em outro lugar, é retomado pelos sujeitos e materializado em seus discursos, quando estes descrevem sua experiência de esperança durante a pandemia da COVID-19.

No recorte 15 o sentido desvelado é o de valorizar a superação das adversidades, durante a resposta à pergunta: “O que significa esperança pra você?” O sentido evidenciado é o de resiliência e superação, pois o sujeito mobiliza recursos internos (força pessoal/resiliência) e recursos externos (um pouquinho de fé) para empoderar-se perante as adversidades. O sd11- “tem que ter problema na vida pra crescer” - apresenta a pista linguística de paráfrase, compreendida enquanto retorno da memória no dizer(13). Essa sequência discursiva retoma sentidos pré-construídos em outro lugar de que - “o sofrimento faz as pessoas crescerem” e de que as dificuldades possibilitam aprendizados e mudanças positivas.

Para a AD, ao analisar a constituição de um discurso, analisam-se os discursos que nele se inserem, ou seja, o Interdiscurso(30). A sd11 retoma o discurso socialmente disseminado, portanto, de formações ideológicas de valorizar as adversidades. Para o sujeito, a esperança adquire o sentido de atravessar as dificuldades da vida e a sd13 -”precisei ter mais força pra eu poder lutar” - reforça a valorização do esforço individual, da habilidade e competência para enfrentar as adversidades.

Para a AD, as condições de produção referem-se a uma soma de variáveis que compõe a situação em que o discurso está sendo emitido, considerando o contexto sócio-histórico, contexto pessoal e o lugar de onde o sujeito fala(30). Neste recorte percebe-se que diante de um contexto macro (pandemia) e contexto micro (história de vida pessoal), o sujeito vivenciou situações de vida difíceis - “minha vida foi meio complicada desde criança” - impulsionando-o a “lutar” contra as adversidades.

Interpreta-se que a capacidade de aprendizado diante do enfrentamento do problema no passado ou no presente subsidia um futuro de resolução do problema, mas não a exclusão deste no passado, presente e futuro. Portanto, o objetivo consiste em esperançar competência e habilidade para resolver problemas futuros. Assim, tal contexto envolve a dimensão temporal da esperança, em que a vivência do passado e presente subsidia o futuro, para possibilitar a competência e habilidade(9).

No referente às limitações deste estudo, podem estar relacionadas ao período da coleta de dados concernente ao momento da onda pandêmica da COVID-19, considerando-se as condições de produção estrita em que a vacinação foi iniciada e o término desta doença, enquanto emergência de saúde pública. Outra limitação corresponde ao predomínio do gênero feminino dos participantes do estudo em relação à percepção do sentido de esperança, requerendo ampliação do estudo com a população de gênero masculino.

Os resultados deste estudo contribuem para uma escuta mais empática e sensível à experiência da esperança advinda dos discursos de usuários de serviços especializados em saúde mental durante o período pandêmico da COVID-19, o que pode favorecer tanto ao profissional de saúde, principalmente o(a) enfermeiro(a), como aos usuários do serviço de saúde mental, a (re)conhecer a esperança de si e do outro como fontes promotoras de saúde mental.

CONCLUSÃO

Os discursos produzidos sobre a esperança evocam memórias discursivas construídas anterior e exteriormente ao sujeito. Os sentidos da esperança foram perpassados pelos discursos: religioso/de espiritualidade, de solidariedade, do modelo de doença e de resiliência. Acredita-se ser importante capacitar os profissionais de saúde, principalmente enfermeiros(as), que atuam nos CAPS e CAPS AD, a apreenderem os sentidos construídos da esperança e a reconhecerem-nos enquanto recurso terapêutico constituinte do cuidado. Destaca-se a importância em reconhecer a promoção de esperança enquanto intervenção na prática clínica e de cuidado.

  • Apoio financeiro O presente trabalho foi realizado em parte com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil (CNPQ) processo: 401923/2024-0 (versão em língua espanhola)

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Editado por

  • EDITOR ASSOCIADO
    Thiago da Silva Domingos

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Jun 2024
  • Aceito
    09 Jan 2025
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