RESUMO
Objetivo: Analisar os fatores associados à osteoporose em mulheres idosas assistidas em um centro de atenção à saúde do idoso, no norte de Minas Gerais.
Método: Trata-se de um estudo transversal e analítico que envolveu 647 mulheres com 60 anos ou mais, submetidas à densitometria óssea entre os anos de 2015 e 2024. Os dados foram coletados a partir de prontuários médicos, incluindo informações sociodemográficas, clínicas e de hábitos de vida. A osteoporose foi diagnosticada por meio de T-score ≤ −2,5. Foram realizadas análises bivariadas e regressão logística binária.
Resultados: Os resultados indicaram uma prevalência de osteoporose de 46,4% entre as participantes. A análise multivariada revelou que idade igual ou superior a 80 anos (OR = 1,60; IC 95%:1,14–2,24) e índice de massa corporal (IMC) inferior a 27 kg/m2 (OR = 1,97; IC 95%:1,42–2,74) são fatores associados à osteoporose.
Conclusão: Esses achados demonstram a elevada prevalência de osteoporose na população estudada, bem como a necessidade de implementação de estratégias e intervenções preventivas, especialmente em idosas com baixo peso corporal.
DESCRITORES
Osteoporose; Idoso; Fatores de risco.
ABSTRACT
Objective: To analyze factors associated with osteoporosis in older adult women treated at a health care center for the older adult in northern Minas Gerais.
Method: This is a cross-sectional and analytical study involving 647 women aged 60 years or older who underwent bone densitometry between 2015 and 2024. Data were collected from medical records, including sociodemographic, clinical, and lifestyle information. Osteoporosis was diagnosed using a T-score ≤ −2.5. Bivariate analyses and binary logistic regression were performed.
Results: The results indicated a prevalence of osteoporosis of 46.4% among the participants. Multivariate analysis revealed that age equal to or greater than 80 years (OR = 1.60; 95% CI: 1.14–2.24) and body mass index (BMI) less than 27 kg/m2 (OR = 1.97; 95% CI: 1.42–2.74) are factors associated with osteoporosis.
Conclusion: These findings demonstrate the high prevalence of osteoporosis in the study population, as well as the need to implement preventive strategies and interventions, especially in older adult women with low body weight.
DESCRIPTORS
Osteoporosis; Aged; Risk Factors.
RESUMEN
Objetivo: Analizar los factores asociados a la osteoporosis en mujeres mayores atendidas en un centro de atención especializado, en el norte de Minas Gerais.
Método: Se trata de un estudio transversal y analítico en el que participaron 647 mujeres a partir de 60 años, sometidas a densitometría ósea, entre los años 2015 y 2024. Los datos se recopilaron de sus historias clínicas, información sociodemográfica, clínica y hábitos de vida. La osteoporosis se diagnosticó mediante un T-score ≤ −2,5. Se realizaron análisis bivariados y regresión logística binaria.
Resultados: Los resultados indicaron una prevalencia de osteoporosis del 46,4 % entre las participantes. El análisis multivariado reveló que la edad igual o superior a 80 años (OR = 1,60; IC del 95 %: 1,14–2,24) y el índice de masa corporal (IMC) inferior a 27 kg/m2 (OR = 1,97; IC del 95 %: 1,42–2,74) son factores que están asociados a la osteoporosis.
Conclusión: Estos descubrimientos señalan la elevada prevalencia de la osteoporosis en la población estudiada, así como la necesidad de implementar estrategias e intervenciones preventivas, especialmente en mujeres mayores con bajo peso corporal.
DESCRIPTORES
Osteoporosis; Anciano; Factores de Riesgo.
INTRODUÇÃO
A osteoporose é a principal doença osteometabólica em pessoa idosa. É caracterizada pela redução da densidade mineral óssea, com importante comprometimento da microarquitetura dos ossos, o que leva a um aumento do risco de quedas e fraturas(1,2). Trata-se de uma condição de alta prevalência mundial, especialmente em países europeus e africanos. Nesse sentido, estudo de metanálise evidencia que a prevalência global de osteoporose é de 18,3% (IC 95% 16,2–20,7), sendo mais elevada entre mulheres, alcançando taxas de 23,1% (IC 95% 19,8–26,9)(3).
O acelerado processo de envelhecimento da população brasileira(4) aponta para um crescente número de mulheres idosas com demanda por serviços de saúde, o que demonstra a relevância da osteoporose enquanto um iminente problema de saúde pública. Destaca-se que a osteoporose não possui manifestações clínicas evidentes até que a pessoa apresente uma fratura. Para as pessoas idosas, as fraturas estão associadas ao aumento da morbimortalidade e levam a um importante comprometimento da qualidade de vida, tanto para os próprios pacientes, como para suas famílias, que passam a lidar com maiores limitações(2). Esse fato ressalta a importância do diagnóstico precoce da doença, a partir de avaliação oportuna da densidade mineral óssea, além do tratamento precoce, antes que as fraturas ocorram(5). Estudos nacionais, embora pouco frequentes, destacam a relevância do tema(6,7).
Um aspecto limitante para a pesquisa sobre a osteoporose diz respeito à alocação de pacientes. Tendo em vista que estudos de base populacional são difíceis de serem conduzidos e implicam maiores custos. Nesse sentido, alguns estudos abordam a prevalência e os fatores associados a partir da população submetida ao exame de densitometria óssea (DO), considerado o padrão-ouro para o diagnóstico da doença(8,9). Nesse contexto, os centros de atenção à saúde do idoso desempenham um papel importante na identificação oportuna e na gestão da osteoporose. Em toda a região norte do estado de Minas Gerais, um único centro de atenção à saúde do idoso é responsável pela realização de exames de DO, via Sistema Único de Saúde (SUS). Esse centro atende a macrorregião do norte de Minas, que abrange 86 municípios e população que ultrapassa 255.000 pessoas idosas(10,11).
Considerando que, nos últimos anos, esforços têm sido feitos para ampliar o conhecimento sobre a epidemiologia da osteoporose no Brasil, de maneira a melhorar a eficácia da prevenção da doença, e que ainda existem poucas pesquisas sobre o tema na macrorregião de Montes Claros, Minas Gerais(12), este estudo objetivou analisar os fatores associados à osteoporose em mulheres idosas assistidas em um centro de atenção à saúde do idoso no norte de Minas Gerais.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Trata-se de um estudo transversal e analítico.
Local, População e Critérios de Seleção
Foi avaliada a população de mulheres idosas encaminhadas pelas equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF) ao Centro de Referência em Assistência à Saúde dos Idosos (CRASI) para a realização de exames de DO. Este centro está vinculado ao Hospital Universitário Clemente de Faria e realiza atendimentos em saúde exclusivamente pelo SUS. O serviço é constituído por uma equipe de profissionais de diferentes áreas e formações, prestando assistência em saúde de caráter interprofissional. O CRASI atende aproximadamente 1.000 pessoas por mês e realiza cerca de 400 exames de DO, abrangendo pacientes referenciados pelas equipes de Atenção Primária dos municípios do norte de Minas Gerais, o que demonstra sua relevância para a comunidade.
Logo, a população-alvo deste estudo consistiu em mulheres com idade igual ou superior a 60 anos, referenciadas para atendimento no CRASI pelas equipes de ESF dos municípios do norte de Minas Gerais e submetidas ao exame de DO. A proposta inicial do estudo seria restrita aos últimos seis anos. Todavia, considerando que, durante a pandemia de Covid-19, o serviço permaneceu fechado por longo tempo e teve suas atividades reduzidas por alguns meses subsequentes, o período de coleta de dados foi ampliado para 10 anos.
Cálculo do Tamanho da Amostra
Para o cálculo do tamanho da amostra, considerou-se a proporção de exames de DO realizados no referido serviço pelo tempo de dois anos que precederam a coleta de dados. Assumiu-se uma prevalência estimada de 50% para o evento estudado (por ser um valor que fornece o maior número amostral), um nível de confiança de 95% e um erro amostral de 5%(12).
Coleta de Dados
A coleta de dados foi feita em prontuários médicos, selecionados aleatoriamente e respeitando os critérios de inclusão previamente definidos (idosas, que realizaram o exame na unidade, que foram referenciadas pelas equipes de ESF, independente do motivo de encaminhamento). O formulário, elaborado pelos pesquisadores, incluiu questões sobre aspectos sociodemográficos, Índice de Massa Corporal (IMC), hábitos de vida, cuidados de saúde, além de morbidades referidas e registradas nos prontuários. Os pesquisadores categorizaram a idade em duas faixas: 60 a 79 anos e 80 anos ou mais; já a escolaridade: até quatro anos e mais de quatro anos de estudos completos. O IMC foi avaliado também em duas categorias: inferior a 27,0 (baixo peso e peso normal) e ≥ 27,0 (excesso de peso)(13). O tabagismo, etilismo e consumo regular/habitual de café foram definidos pelo autorrelato (registrados em prontuários) e dicotomizados em duas categorias (sim/não). Além do mais, considerou-se sedentária a idosa que relatou não praticar atividade física de forma regular, conforme os dados dos prontuários. Tal qual, ainda foi considerado o histórico das morbidades: hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM), depressão, demência, fratura prévia, artrose/artrite e doenças da tireoide. Por fim, o registro de polifarmácia foi feito para pacientes em uso regular de cinco ou mais medicações por dia(14).
A osteoporose, variável dependente, foi diagnosticada na presença de um T-score ≤ -2,5 desvios-padrão(15). Utilizando-se um densitômetro de dupla energia Discovery, foi realizada a medição da densidade mineral óssea, verificando os valores da coluna lombar e do colo femoral (triângulo de Ward). Os exames, cujos resultados foram analisados automaticamente e expressos em g/cm2, seguiram o mesmo padrão técnico, tendo sido conduzidos por um mesmo profissional e com o sistema controlado por computador.
Análise e Tratamento dos Dados
Após a análise descritiva, foram verificadas associações a partir de análises bivariadas e por intermédio do teste qui-quadrado de Pearson. Nessa etapa, as variáveis que se mostraram associadas à osteoporose até o nível de 20% (p ≤ 0,20) foram selecionadas para análise de regressão logística binária, sendo obtidas as Odds Ratios e seus respectivos Intervalos de Confiança de 95% (IC 95%). Para o modelo final, foram mantidas apenas as variáveis com nível de significância de até 5% (p ≤ 0,05).
Aspectos Éticos
Todos os aspectos éticos foram respeitados e a pesquisa foi conduzida de acordo com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. A utilização dos prontuários foi autorizada pela instituição a partir do Termo de Compromisso de Utilização de Dados (TCUD). O projeto de pesquisa, registrado sob o CAAE 45544521.6.0000.5109, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros, sob o parecer nº 4.679.222 do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e a sua emenda foi aprovada pelo parecer n.º 5.839.913.
RESULTADOS
Foram identificadas 647 mulheres com o perfil adequado ao objetivo do estudo, além de terem realizado o exame de DO entre os anos de 2015 e 2024. A idade do grupo variou de 63 a 101 anos, portanto a faixa etária predominante foi de 70 a 79 anos (44,7%). Quase um quarto das mulheres participantes se referiu como analfabeta e um pouco mais de 50% tinham escolaridade que variou de um a quatro anos de estudo. Em relação ao IMC, mais de 40% do grupo foi classificado como sobrepeso ou obesidade e o sedentarismo foi identificado em mais de 70% das participantes da pesquisa (Tabela 1).
Características sociodemográficas e de hábitos de vida de idosas assistidas em um Centro de Referência em Assistência à Saúde dos Idosos – Montes Claros, MG, Brasil, 2015–2024.
Em relação às morbidades registradas em prontuários, a mais comum foi a HAS (78,8%), seguida pela depressão (51,6%). Mais de 40% das mulheres avaliadas faziam uso de cinco ou mais medicamentos de forma regular por dia (Tabela 2).
Comorbidades de idosas assistidas em um Centro de Referência em Assistência à Saúde dos Idosos – Montes Claros, MG, Brasil, 2015–2024.
Os resultados dos exames de DO revelaram valores compatíveis com osteoporose para 300 mulheres (46,4%). Já a osteopenia foi identificada em 239 idosas (36,9%) e o resultado normal foi observado em apenas 108 (16,7%) das mulheres avaliadas.
A Tabela 3 apresenta os resultados das análises bivariadas. Alguns dados referentes às variáveis escolaridade e IMC não estavam disponíveis no momento da coleta e foram considerados como omissos para não interferirem na análise. Foi avaliada a presença de multicolinearidade, entre as variáveis contínuas, por meio da matriz de correlação, não sendo observados coeficientes superiores a 0,7. Para o modelo final, foram mantidas apenas as variáveis com p < 0,05.
Análise bivariada dos fatores associados à osteoporose de idosas assistidas em um Centro de Referência em Assistência à Saúde dos Idosos – Montes Claros, MG, Brasil, 2015–2024.
A partir dessas análises, as variáveis: escolaridade, idade, IMC, consumo de café, sedentarismo, diabetes mellitus, depressão e registro de fratura prévia foram avaliadas conjuntamente por meio de regressão logística binária. Após análise múltipla, as variáveis que permaneceram associadas à osteoporose foram: idade igual ou superior a 80 anos (p = 0,006; OR = 1,60; IC 95%: 1,14–2,24) e IMC < 27 (p < 0,001; OR = 1,97; IC 95%: 1,42–2,74). O teste de Hosmer-Lemeshow indicou um bom ajuste do modelo em todas as etapas (p > 0,05), sugerindo que as previsões não diferem significativamente dos valores observados.
DISCUSSÃO
A osteopenia e a osteoporose representaram condições clínicas com elevada prevalência na população estudada. Esses dados são compatíveis com outros estudos que demonstraram elevada prevalência de osteoporose na população feminina. Além do mais, a literatura registra um progressivo aumento de perda óssea em mulheres acima de 50 anos, chegando a atingir dois terços da população feminina aos 90 anos(16). Embora este não seja um estudo de base populacional, os resultados similares destacam a magnitude do problema. A osteoporose, uma doença silenciosa e que afeta especialmente mulheres após a menopausa, é a principal responsável por fraturas em pessoas com mais de 50 anos. Além disso, está associada a um aumento significativo de morbimortalidade entre os pacientes com tal condição clínica(17).
Em um estudo realizado em uma clínica especializada no sul do Brasil, os pesquisadores descobriram que 49,8% das participantes apresentavam osteopenia e 13,7% tinham osteoporose. Logo, os resultados são semelhantes aos encontrados no presente estudo e as diferenças observadas podem ser reflexo da população mais jovem avaliada(9).
Ademais, uma pesquisa realizada na Índia, com mulheres de 50 a 80 anos que foram submetidas ao exame de densitometria, registrou que 37,5% apresentavam osteoporose e 44,7% apresentavam osteopenia, indicando um elevado percentual de mulheres com comprometimento da calcificação óssea(15).
É preciso destacar que os estudos citados foram realizados a partir de mulheres avaliadas em clínicas de densitometria. Considerando a população em geral, um estudo americano registrou que, em 2017–2018, a prevalência ajustada por idade de osteoporose entre mulheres com 50 anos ou mais foi de 19,6%, enquanto a prevalência de osteopenia na mesma faixa etária foi de 51,5%. Comparativamente aos anos anteriores, os autores observaram o aumento da prevalência da condição para a população em geral(18). No contexto da América Latina, a literatura aponta que a osteoporose é uma condição de saúde global que impacta entre 30% e 50% das pessoas com mais de 50 anos(19).
No presente estudo, após análise múltipla, foram identificadas apenas duas variáveis associadas de maneira independente com o desenvolvimento da desmineralização óssea, sendo elas a idade avançada, especialmente quando se trata de idosas longevas (com 80 anos ou mais), e o índice de massa corporal (IMC) inferior a 27 kg/m2. As demais variáveis avaliadas não se mantiveram no modelo final.
De modo análogo, em relação à idade, a literatura existente aponta que o envelhecimento é um fator de risco para o desenvolvimento de osteoporose. O resultado obtido na amostra estudada é consistente com pesquisas que evidenciaram uma perda progressiva de massa óssea, principalmente entre idosas com 80 anos ou mais. Outros estudos epidemiológicos também demonstraram que a prevalência de complicações relacionadas à osteoporose aumenta significativamente com o avanço da idade, especialmente no que diz respeito à ocorrência de fraturas por fragilidade(20,21).
O IMC inferior a 27 kg/m2 tem sido associado à osteoporose, sendo que indivíduos com IMC abaixo deste limiar têm maior probabilidade de apresentar a doença em comparação com aqueles com IMC igual ou superior. Em um estudo conduzido por Martini et al, que considerou o índice de massa corporal (IMC) como variável isolada, foi observado que indivíduos com IMC abaixo de 25 kg/m2 tiveram uma chance quase três vezes maior de sofrer fratura por fragilidade(20). Por conseguinte, é importante notar que este ponto de corte difere ligeiramente dos valores tradicionalmente utilizados para definir sobrepeso em pacientes adultos. No entanto, ele é compatível com os limites de normalidade esperados para a população idosa, conforme diretrizes aceitas pelo Ministério da Saúde(22,23).
Ressalta-se que o IMC excessivo é classicamente associado a diversos riscos à saúde, incluindo o desenvolvimento de diabetes tipo 2, doença hepática gordurosa não alcoólica, doenças cardíacas e apneia obstrutiva do sono(22,23). Além disso, a obesidade pode desencadear uma resposta inflamatória crônica, o que pode também aumentar a possibilidade de osteoporose e fraturas por fragilidade. Dessa forma, um IMC apropriado, mas não excessivo, pode permitir que os idosos tenham uma melhor densidade mineral óssea, equilibrando os benefícios para a saúde óssea com a prevenção de outros problemas de saúde associados à obesidade(22,24).
Além dos fatores mencionados como associados à presença de osteoporose, é relevante destacar que algumas variáveis apontadas em outros estudos não se mostraram associadas à diminuição da densidade mineral óssea das idosas avaliadas. Não houve resultados que sustentassem, por exemplo, a associação entre alguns hábitos de vida como sedentarismo, tabagismo e etilismo com a ocorrência de osteoporose. Entretanto, vale ressaltar que é possível que essa falta de associação seja decorrente do registro inadequado em prontuários em relação a tais variáveis.
Um estudo realizado em Picos (Piauí, Brasil), apesar de não ter apresentado associação direta entre etilismo e osteoporose, mostrou que a ingestão de bebidas alcoólicas foi associada a um maior risco de fraturas na população estudada. Os pesquisadores do estudo sugerem que o consumo excessivo de álcool pode estar ligado à redução da densidade mineral óssea e da qualidade do osso, como resultado do estresse oxidativo causado pela substância. Além disso, a intoxicação aguda pelo álcool tem o potencial de aumentar o risco de quedas nesta população(25). Há de se ressaltar que as amostras avaliadas, tanto neste estudo como o realizado em Picos (PI), são formadas exclusivamente ou predominantemente por mulheres, dentre as quais há baixo relato de consumo de álcool, o que pode ter contribuído para os resultados encontrados.
Ainda, uma pesquisa italiana revelou associação positiva e equivalente entre fumo ativo e passivo na suscetibilidade à ocorrência de osteoporose(26). No atual estudo, essa relação não foi identificada. Porém, salienta-se que da mesma maneira que o etilismo, a proporção de mulheres que relataram consumo de tabaco é consideravelmente pequena.
Já a associação entre a prática de atividade física, avaliada pelo registro de caminhadas com tempo superior a uma hora, e a ocorrência de osteoporose foi apontada em recente estudo chinês(27). Essa associação foi reiterada em outro estudo que avaliou a relação entre osteoporose e estilos de vida saudáveis em idosos. Houve destaque positivo para a atividade física, enquanto abuso o de álcool e o tabagismo mostraram impactos negativos sobre a qualidade do osso(28).
Os resultados não estabeleceram associação entre o consumo de café e a redução da densidade mineral óssea na população avaliada. Embora seja uma variável registrada em alguns estudos, existe uma indefinição na literatura sobre a relação entre a osteoporose e o consumo de café e chá(27). Sobre essa questão, um estudo de revisão sistemática concluiu que pode existir uma relação dose-dependente entre o consumo de café, a osteoporose e a incidência de fratura de quadril. Os autores destacam que a definição de alto ou baixo consumo de café é variável entre os estudos e registram que novas pesquisas com desenhos dedicados são necessárias para confirmar os efeitos independentes do consumo de café na saúde óssea(29).
A associação entre osteoporose e polifarmácia, registrada em pesquisa realizada no Norte do país(30), não foi observada neste estudo. Tal situação retrata, provavelmente, alguma particularidade regional, mas é possível que a forma de alocação dos pacientes para a pesquisa também justifique a divergência observada. Há possibilidade de que a polifarmácia seja um indicador de outras condições inerentes ao processo de envelhecimento, com aumento de comorbidades, incluindo a osteoporose.
Embora a condução do estudo em um centro de referência em saúde do idoso possa representar uma limitação quanto à generalização dos resultados, há que se ressaltar que a escolha do local ofereceu a oportunidade de acesso aos dados de prontuários e aos resultados de exames coletados e executados por profissionais qualificados, o que permitiu maior precisão e qualidade dos achados. Além disso, a amostra estudada é representativa, tendo em vista que se trata de pacientes referenciadas pelos serviços de Atenção Primária, o que foi um critério definido previamente para a inclusão das pacientes no estudo. Por se tratar de uma pesquisa transversal, não é possível estabelecer relações de causalidade entre as variáveis analisadas. Além disso, a dependência das informações registradas em prontuários ocasionou a perda de alguns dados, o que pode representar um viés de informação, minimizado por meio da análise estatística.
Embora a análise dos prontuários tenha mostrado que a maioria das pacientes fazia uso irregular de bifosfonatos, especialmente alendronato, esse achado não foi objeto de investigação no presente estudo. Aspectos do tratamento da osteoporose não foram avaliados, como: adesão terapêutica, compreensão dos pacientes sobre a doença e fatores associados ao uso inadequado da medicação, o que representa uma limitação deste estudo e evidencia uma lacuna de conhecimento a ser explorada em pesquisas futuras.
CONCLUSÃO
Por fim, a pesquisa mostrou elevada prevalência de osteopenia e osteoporose na população avaliada. Observou-se, ainda, que a idade avançada e o baixo índice de massa corporal (IMC) representam fatores de risco significativos para o desenvolvimento de osteoporose em mulheres. Esses achados sugerem a necessidade de vigilância mais rigorosa e intervenções preventivas direcionadas a idosas, em especial àquelas com baixo peso corporal. Assim, as políticas públicas relacionadas ao cuidado da pessoa idosa, bem como os profissionais de saúde devem atuar prioritariamente na implementação de ações de promoção e prevenção em saúde, incluindo a prática regular de atividade física e a adoção de dieta balanceada para alcançar IMC adequado e, por conseguinte, contribuir para a redução da incidência de osteoporose e suas complicações. Além disso, são necessários mais estudos longitudinais para compreender de maneira mais profunda os mecanismos relacionados a essas associações.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
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