RESUMO
Objetivo: Refletir sobre os cuidados de Enfermagem Afirmativa como apoio à expressão da orientação sexual de homens idosos gays.
Método: Estudo teórico, desenvolvido entre 2023/2025, incluindo artigos, materiais governamentais, observatórios, manual, livro/capítulo de livro e resolução. A análise foi realizada por meio da leitura interpretativa, baseada no referencial da Ação Afirmativa, guiada por checklist.
Desenvolvimento: A heteronormatividade reflete um cenário problemático que tais homens vivenciam mundialmente, circundado de homofobia, violência simbólica, marginalização pelos serviços de saúde devido a experiências constrangedoras, autossegregação, dupla estigmatização, exclusão social e invisibilidade, contribuintes para um Coming Out prejudicado. A Enfermagem Afirmativa fundamenta-se em princípios de cuidado afetivo, inclusivo e culturalmente sensível. Juntamente da gerontologia social e de políticas públicas, propõem práticas que reconhecem identidades, promovem ambientes seguros e fortalecem vínculos terapêuticos.
Considerações finais: Criar uma tendência cuidativa integrada à política de ação afirmativa é uma forma de reduzir o preconceito e aumentar a adesão aos serviços de saúde, prática que precisa ser configurada para zelar a dignidade do homem idoso gay, preservando-o de qualquer tratamento desumano e/ou constrangedor.
DESCRITORES
Saúde do Homem; Saúde do Idoso; Enfermagem; Minorias Sexuais e de Gênero; Política Pública
ABSTRACT
Objective: To reflect on Affirmative Nursing care as support for the expression of sexual orientation in older gay men.
Method: A theoretical study, developed between 2023 and 2025, including articles, government materials, observatories, a manual, a book/book chapter, and a resolution. The analysis was conducted through interpretive reading, based on the framework of Affirmative Action, guided by a checklist. Development: Heteronormativity reflects a problematic scenario that such men experience worldwide, surrounded by homophobia, symbolic violence, marginalization by health services due to embarrassing experiences, self-segregation, double stigmatization, social exclusion, and invisibility, contributing to an impaired Coming Out. Affirmative Nursing is based on principles of affective, inclusive, and culturally sensitive care. Together with social gerontology and public policies, they propose practices that recognize identities, promote safe environments, and strengthen therapeutic bonds.
Conclusion: Creating a caregiving trend integrated into affirmative action policies is a way to reduce prejudice and increase adherence to health services, a practice that needs to be configured to safeguard the dignity of older gay men, protecting them from any inhumane and/or embarrassing treatment.
DESCRIPTORS
Men’s Health; Health of the Elderly; Nursing; Sexual and Gender Minorities; Public Policy
RESUMEN
Objetivo: Reflexionar sobre la atención de Enfermería Afirmativa como apoyo a la expresión de la orientación sexual en hombres mayores homosexuales.
Método: Un estudio teórico, desarrollado entre 2023 y 2025, que incluye artículos, materiales gubernamentales, observatorios, un manual, un libro/capítulo de libro y una resolución. El análisis se realizó a través de la lectura interpretativa, basada en el marco de la Acción Afirmativa, guiada por lista de verificación.
Desarrollo: La heteronormatividad refleja un escenario problemático que estos hombres experimentan en todo el mundo, rodeados de homofobia, violencia simbólica, marginación de los servicios de salud debido a experiencias vergonzosas, autosegregación, doble estigmatización, exclusión social e invisibilidad, lo que contribuye a un Coming Out dañado. La Enfermería Afirmativa se basa en principios de atención afectiva, inclusiva y culturalmente sensible. Junto con la gerontología social y de las políticas públicas, proponen prácticas que reconocen identidades, promueven entornos seguros y fortalecen vínculos terapéuticos.
Consideraciones finales: Crear una tendencia de cuidados integrada a las políticas de acción afirmativa es una forma de reducir los prejuicios y aumentar la adherencia a los servicios de salud, una práctica que debe configurarse para salvaguardar la dignidad de los hombres mayores homosexuales, protegiéndolo de cualquier trato inhumano y/o vergonzoso.
DESCRIPTORES
Salud del Hombre; Salud del Anciano; Enfermería; Minorías Sexuales y de Género; Política Pública
INTRODUÇÃO
Homens gays idosos foram pressionados socialmente a pensar a sexualidade como doença mental, desvio de saúde ou imoralidade, o que tem levado a maioria deles a viver a sua homossexualidade acreditando que a heterossexualidade seria algo superior e a única forma de expressar a orientação sexual(1). Somam-se a isso as experiências de discriminação contínua, crise do HIV/aids e desafios para lidar com as complexidades do envelhecimento(2), o que contribui para a necessidade de fortalecer o cuidado em saúde, na perspectiva da Enfermagem Afirmativa, baseada em iniciativas de suspensão de métodos de exclusão social que validem a diversidade e celebrem as identidades ao reconhecê-las como pontos fortes(3,4).
A abordagem da “Enfermagem Afirmativa” argumenta por meio de um diálogo próximo aos construtos do cuidado afirmativo(4), da política afirmativa(5) e da ação afirmativa(3), devido a configurações voltadas a estratégias de combate à desigualdade por orientação sexual, utilizando na prática clínica instrumentos de reparação histórica, antidiscriminatórios e/ou de compensação de desvantagens decorrentes das estruturas, comportamentos e atitudes(3,4). Enquanto prática, demanda o desenvolvimento sistemático e científico sob perspectiva política e ética, pois desafia normas cisheteronormativas prevalentes nos serviços de saúde de modo geral. Destarte, ocupa-se com a superação da falta de direcionamento teórico do fazer, da escassez e do esvaziamento de sentido e propósito profissional no atendimento a demandas e necessidades singulares dos sujeitos.
A dupla discriminação por idade e orientação sexual pode exemplificar um cenário no qual a interseccionalidade ocorre e em que múltiplas identidades marginalizadas se cruzam, o que substancia agravos e vulnerabilidades sociais, na medida em que desigualdades e opressões se amplificam(6). Fatores adicionais como cor de pele e condição socioeconômica tendem a potencializar essas desigualdades, com capacidade para talvez, revelar que pessoas idosas gays negras apresentam indicadores críticos de acesso à saúde dentro desse coletivo, o que contribui para o sentimento de culpa, tristeza, humilhação e fardo social(7,8,9).
Aliado a isso, observa-se que a sociedade fomenta o medo da velhice ao associá-la à doença, exalta a juventude e marginaliza a pessoa idosa, além de negar-lhe o direito de exercer sua sexualidade, tendenciando que classes interseccionais estão presentes no cotidiano destas pessoas. Quando se trata de homens idosos gays que procuram os serviços de saúde, esses ocultam a orientação sexual, o que se caracteriza como um Coming Out Prejudicado(10), ou seja, permanecer “dentro do armário” como estratégia para o enfrentamento do preconceito, na perspectiva da proteção da identidade – preservação do eu, mas que consequentemente contribui para baixa autoestima, despertencimento social, repressão e isolamento. Tal insegurança pode implicar em transições insalubres durante os ciclos vitais e n o envelhecimento.
Estudos acerca dos cuidados voltados a homens idosos têm explorado pouco a saúde dos homens gays, tanto no campo específico da Enfermagem quanto no interdisciplinar da geriatria e gerontologia, demonstrando unidirecionalidade e reducionismo de apenas algumas das representações LGBTQIAPN+(11). Essa lacuna implica na vivência saudável da sexualidade e na expressão com segurança da homossexualidade, que também é percebida nas diretrizes da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa(12) e no Guia de Cuidados para a Pessoa Idosa(13), ambos publicados no Brasil, pois estes abordam resumidamente a questão do envelhecimento homoafetivo, sem apontar caminhos para um planejamento/manejo sistematizado das demandas de cuidados.
Essa invisibilidade é refletida nos estudos sobre violência. Embora os Estados Unidos (EUA) tenham registrado que 17,2% de 14.243 vítimas de crimes de ódio foram motivados por orientação sexual, dentre os quais homicídios, agressões e outros tipos de violência, não há dados específicos de homens idosos gays(14). No Brasil, ocorreram 165 homicídios de homens gays em 2024, sem especificidade de faixa-etária. Em 2019, 3,9% das mortes LGBT+ foram de homens idosos gays, entre 68–70 anos de idade, nas regiões brasileiras norte-nordeste. Ceará, São Paulo e Pernambuco são os estados com o maior número de vítimas(15).
Apesar de constituir uma proporção significativa dos eventos violentos, não há um número agregado mundial confiável disponível que inclua orientação sexual nos sistemas de dados de óbito em muitos países, nem coleta oficial de dados devido a criminalização de relações homoafetivas como, por exemplo, nos continentes asiático e africano, o que contribui para a fragmentação das notificações e para o não fortalecimento de estratégias de conscientização em longo prazo(16), uma vez que o próprio sistema político é discriminatório nessas regiões e faz despertar atenção direcionada ao cuidado em saúde produzido na Atenção Primária, hospitais, ambulatórios, Atenção Domiciliar, centros especializados, espaços de reabilitação, entre outros.
São dados subnotificados que levam a uma reflexão de que a persistência da violência contra esse grupo reforça a urgência de políticas públicas efetivas, protetivas e afetivas para combater crimes de ódio relacionados à homofobia. Como pode ser observado, o homicídio ocupa o primeiro lugar da causa de morte e o suicídio o segundo, o que traduz a visão deturpada e preconceituosa sobre velhice e homossexualidade, contribuindo para o desencadeamento de sofrimento psíquico(9,17), o que exige um reposicionamento dos profissionais de saúde, na perspectiva da afirmação da identidade sexualmente diversa.
Em 2022, no Brasil, 13% da população mundial eram pessoas idosas, equivalente a 1,1 bilhão de indivíduos(18), sendo 14 milhões de homens idosos com expectativa de vida de 73 anos, sete anos a menos do que as mulheres(5,19), um dado comprobante que o cuidado é dessemelhante e o fragmento da equidade de gênero precisa ser superado. Mundialmente, essa diferença atenua um pouco, mas ainda homens vivem cerca de 4,8 anos a menos. A Pesquisa Nacional de Saúde(20), em 2019, contabilizou 159,2 milhões de habitantes acima de 18 anos de idade; desses, 46,8% são homens e 1,9% autodeclaram-se gays. Observa-se que quanto maior a idade, menor é a taxa de autodeclaração da orientação sexual, sugerindo que o público prefere ocultar o dado por questões de insegurança em assumir a homossexualidade.
A ocultação de informações sobre a orientação sexual pode estar relacionada a uma estratégia de autopreservação diante do estigma percebido, que antecipa a discriminação a qual estão sujeitos nos espaços de interação com os profissionais de saúde. No entanto, ao mesmo tempo que protege a identidade deteriorada, a ocultação impede o avanço de ações coletivas do grupo porque o invisibiliza.
Hipóteses apontam para a vertente de que a saúde do homem idoso gay não é prioridade em ações coletivas e individuais(21,22,23) devido a falha sociopolítica e disparidades no cumprimento dos princípios da igualdade em relação ao público heterossexual(23).
A pretensão em tela volta-se a uma reflexão direcionada do cenário social, político e de saúde que oferece uma gama de informações sobre o público masculino gay, frente aos desafios e obstáculos existentes no envelhecimento e no acesso aos serviços de saúde que muitas vezes os forçam a ocultar sua identidade(24) e, principalmente, disponibiliza um material teórico e norteador para pensar em práticas afirmativas durante atendimentos na saúde interdisciplinar, com o intuito de avançar no cumprimento de políticas que visam acolhimento humanizado das velhices e suas especificidades. Diante da problemática, objetivou-se refletir sobre os cuidados de Enfermagem Afirmativa como apoio à expressão da orientação sexual de homens idosos gays.
MÉTODO
Ensaio teórico-reflexivo com foco no contexto de proteção social e bem-estar do público-alvo, desenvolvido de 2023 a 2025, produto da tese de doutorado do primeiro autor intitulada “Homens mais velhos e idosos cisgêneros e a homoafetividade: da prospecção tecnológica à proposição para a prática de enfermagem e saúde afirmativa”, guiado pela seguinte pergunta: quais são as reflexões teóricas que levam à compreensão dos cuidados de Enfermagem Afirmativa como apoio à expressão da orientação sexual de homens idosos gays, com vistas à transição para um envelhecimento saudável?
Tal questão possibilitou o direcionamento do aprofundamento narrativo e do encontro dos atributos do objeto de investigação, por meio da seleção de 47 materiais publicados, sendo: 17 artigos científicos nacionais e 13 internacionais, via Scielo e PubMed/MedLine, sete materiais governamentais nacionais, uma resolução do Conselho Federal de Enfermagem, dados estatísticos de um observatório, três materiais de dados estatísticos nacionais e dois internacionais, um manual internacional, um livro e um capítulo de livro nacionais encontrados no Google Acadêmico e em sites oficiais. Empregaram-se os descritores Saúde do Homem, Saúde do Idoso, Enfermagem, Minorias Sexuais e de Gênero e Política Pública. A equipe de pesquisa tem formação na área de Enfermagem, Saúde Coletiva e Gerontologia, além de experiência em pesquisas sobre homossexualidade masculina.
Foram incluídos materiais que abordassem elementos do objeto de interesse como o fenômeno do envelhecimento masculino gay e nuances relacionadas a aspectos sociais, políticas públicas, formas de cuidados, relações entre homossexualidade e repercussões em saúde biopsicossocial, materiais sem limite temporal, em português do Brasil, espanhol e inglês (idiomas dos autores). Arquivos corrompidos foram excluídos.
A análise foi realizada por meio da leitura interpretativa baseada no referencial político da Ação Afirmativa(3), guiada por um checklist de criação própria contendo itens-chaves como: o texto descreve microfenômenos sociais e políticos relacionados a homens idosos gays, mesmo incluindo outros públicos de minorias sexuais? O conteúdo descreve políticas públicas voltadas à saúde masculina gay no contexto gerontológico? O material aborda dificuldades de acesso, agravos em saúde e cuidados na perspectiva da ação afirmativa? Os aspectos éticos foram respeitados na perspectiva da garantia da fidedignidade, veracidade e qualidade dos dados produzidos/analisados.
DESENVOLVIMENTO
Saúde e Adoecimento na Velhice de Homens Gays e Enfermagem Afirmativa Como um Campo Para Garantia de Direitos ao Cuidado
A Enfermagem Afirmativa, fundamentada em princípios do cuidado culturalmente sensível, junto da gerontologia social, propõem práticas que promovem ambientes seguros e fortalecem vínculos terapêuticos, alinhando-se às políticas públicas da saúde do homem gay, visando maior adesão assistencial(7,13,25,26,27). Salienta-se que abordagens afirmativas e de suporte social podem ser determinantes para o bem-estar subjetivo e a integração social ao oferecer mecanismos de apoio que mitigam os efeitos deletérios da discriminação de longa duração pela redução do sofrimento psicossocial(2).
Ao longo do século XXI, a ampliação dos espaços institucionais e simbólicos para o debate sobre a população gay no campo da saúde tem favorecido maior visibilidade social. Esse movimento, impulsionado por políticas intersetoriais nas áreas da cultura, educação, trabalho, saúde, previdência e justiça, fortaleceu a agenda de enfrentamento à homofobia e consolidou a atenção integral à saúde como eixo estruturante das ações afirmativas(7). Logo, acredita-se na tendência da Enfermagem Afirmativa como propulsora da facilitação da garantia dos direitos e justiça social, mediante reconhecimento e valorização da pessoa socialmente referenciada, tal como da advocacia. Entretanto, mesmo com avanços normativos, a efetivação do cuidado permanece desigual e demanda instrumentalização das práticas profissionais para responder demandas emergentes(10).
No contexto brasileiro, marcos institucionais como o programa Brasil sem Homofobia (2004), a 1ª Conferência Nacional LGBT+ (2008) e a incorporação da política LGBT+ pelo Conselho Nacional de Saúde (2011) constituíram avanços importantes na articulação entre direitos sexuais e políticas públicas de saúde, inclusive em diálogo com as políticas de saúde do homem, da pessoa idosa e de saúde mental(7,13). Contudo, a existência desses dispositivos não garante, por si só, a transformação das práticas cotidianas de cuidado, reforçando a necessidade de modelos assistenciais que incorporem a ação afirmativa como eixo estruturante da clínica ampliada.
As experiências discriminatórias, tanto recentes quanto ao longo da vida, preveem maior adoecimento psicológico e pior autopercepção de saúde entre homens idosos gays(17,28,29), o que corrobora a ideia de que políticas inclusivas, quando não acompanhadas de mudanças nas práticas assistenciais, produzem impactos limitados na redução das iniquidades em saúde. Neste âmbito, reflete-se: a conduta, posição e atendimento profissional de enfermagem encontra-se culturalmente competente e congruente para a diversidade sexual e de gênero das pessoas?
O foco prevalente nas abordagens neoliberais de saúde pública que priorizam a responsabilidade pessoal e determinam as práticas sexuais de homens gays como risco, aliado ao pouco conhecimento sobre como essas promovem e protegem a saúde de maneira mais abrangente, reflete na pouca atenção dada aos contextos sociais, econômicos e pessoais da vida e às interseções entre contexto e comportamento, uma vez que a homofobia é um fator comprovadamente contribuinte para as desigualdades em saúde e reflete em uma gestão ineficaz da saúde(30), pois se o sistema fomenta preconceito de forma velada, o avanço das atitudes afirmativas fica estacionado, uma vez que o sistema são pessoas.
A Enfermagem Afirmativa, consequentemente, visa respeitar a expressão das pessoas/pacientes, quer seja no âmbito da orientação sexual como na identidade de gênero, recorrendo a recursos que utilizem da linguagem inclusiva, adequação vocal, compreensão de terminologias, do cuidado respeitoso, da criação de ambientes seguros, criativos, da comunicação centrada na pessoa e na sua subjetividade, na evitação de suposições e normatizações compulsórias. Outrossim, na aproximação com a cultura desses homens, das mudanças sistêmicas e dos processos de transições existentes.
Compreender esses processos continuamente e em constante evolução é o primeiro passo para o desenvolvimento de recursos personalizados, que respeitem os contextos sócio-históricos e, ao mesmo tempo, busquem superar as adversidades atuais. Em essência, os efeitos deletérios dos enjeitamentos necessitam ser reconhecidos e abordados simultaneamente para um melhor atendimento em saúde(31), orientado para a construção de relações de confiança e redução das disparidades em saúde.
A vulnerabilidade vivenciada por essa comunidade caracteriza-se pelos estressores minoritários únicos atribuídos a interseccionalidades como idade, capacitismo, etnia, situação profissional(32) e a principal classe de interesse, a homossexualidade, pois apesar de esta última constituir uma dimensão estruturante da sexualidade humana relacionada à forma como os sujeitos vivenciam vínculos afetivo-amorosos e sexuais com pessoas do mesmo gênero(4,7), ainda está longe de se integrar respeitosamente aos direitos humanos fundamentais e à liberdade de expressão igualitária e com segurança perante a lei e a proteção contra práticas opressoras(1,7,33). Isso vai ao encontro de quadros de homofobia internalizada, ao começarem de fato a internalizar a repulsa atrelada à homossexualidade e a construir um autoconceito negativo da própria orientação sexual, necessitando de estratégias de coping e autoaceitação.
Vale ressaltar que a sociedade enxerga pessoas idosas desvinculando questões sobre sexualidade a elas e, quando o assunto entra em pauta, surge outro fator excludente que é a crítica destrutiva e perversa sobre comportamento inapropriado na lógica social de que a velhice deve ser isenta de usufruir dos prazeres da vida e de satisfações íntimas. Na sociedade, veiculam-se representações assexuadas na velhice, que se intercruzam a comportamentos sexuais exacerbados e desviantes. Essas ideias fomentam expectativas de que pessoas idosas em geral devam abdicar do desejo, dos prazeres e da intimidade entre os pares. Um cuidado afirmativo considera a necessidade de investir na circulação de ideias e imagens que confrontem esse cenário que nega a sexualidade e impõe controle sobre corpos que envelhecem.
Torna-se central, então, articular o envelhecimento à interseccionalidade entre idade, gênero e orientação sexual, pois estes estão inseridos em processos discriminatórios, reconhecendo as vivências das trajetórias de saúde marcadas por desigualdades cumulativas, tornando a ação afirmativa em saúde em estratégia para a criação de intervenções personalizadas e sensíveis a traumas vivenciados(2).
Com a existência de fragmentos no cumprimento da equidade que levam esse público a enfrentar dessemelhanças estruturais no acesso aos serviços de saúde e em suporte social, condicionadas por estressores acumulados ao longo da vida como, por exemplo, a menor probabilidade de serem casados e terem família constituída(27), amplia-se a disparidade entre a existência formal de direitos e a vivência efetiva de um cuidado acolhedor(13).
Nesse ínterim, há um risco aumentado para o estabelecimento de diagnósticos como depressão e ansiedade em comparação a homens heterossexuais e também transtornos psicológicos graves como consequências do apoio emocional inadequado e do tratamento desigual comunitário, agravados pela discriminação interpessoal(2). Isso delineia oportunidades para fortalecer fatores de proteção como segurança econômica e apoio social, atenuando o risco de adoecimento(27), uma vez que abordagens afirmativas reduzem sintomas psicoemocionais ao promoverem reconhecimento e segurança relacional(3).
Os atravessamentos sociais e institucionais destacam experiências de solidão e invisibilidade social prejudiciais ao processo de envelhecimento(2,8), o que ocasiona a vivência de experiências constrangedoras durante atendimentos em saúde em contextos globais. Essa situação requer dos profissionais de saúde o reconhecimento da realidade com foco na mitigação de atendimentos desproporcionais, ao adotar estratégias que promovam a afirmação da orientação sexual, bem como abordagem psicossocial, cultural e espiritual para um cuidado holístico e compassivo(32), com a possibilidade de suprir engajamentos fragmentados em cuidados preventivos e de longo prazo.
A violência, incluindo suas formas simbólicas tidas como “brincadeiras”, configura-se como um marcador social relevante neste contexto, sustentada por estruturas heteronormativas que valorizam determinados arranjos e desvalorizam orientações sexuais dissidentes ao considerar a heterossexualidade superior, a única normal, natural, correta e válida por seguir um modelo hegemônico dominante(22,34). Os homossexuais são tratados com termos pejorativos como “tias que fazem [relação sexual] o adolescente”, “viados-Susana-Vieira”, “bichas velhas” e “mariconas caquéticas”, levando a uma reflexão de que não são seres abjetos nem imorais e sim, cidadãos éticos e morais que precisam, a cada dia, reinventar seu próprio ente, uma vez que a velhice gay é tida como rejeitada pela cultura heterossexista(35). Com isso, a Enfermagem Afirmativa volta-se à correção das diferenças estruturais e reconhecimento social(3).
Precisa-se considerar a existência do uso de linguagem rotuladora, atitudes/práticas excruciantes, descorteses, violentas e negligentes (da sociedade e dos cuidadores), e a partir disso assumir uma postura vigilante diante do público a ser assistido. Propomos que um primeiro passo seja a abertura ao diálogo, com escuta sensível daquilo que o grupo espera do cuidado, suas queixas, críticas, sugestões, formação orientada por teorizações sobre gênero, sexualidade e direitos humanos, menor aderência aos modelos focados em queixas clínicas e apoio em modelos holísticos de cuidado que coloquem a pessoa e sua história como eixo/foco do encontro. Face a isso, no contexto brasileiro, a ação afirmativa consolidou-se como instrumento de justiça social ao longo do processo de redemocratização, orientando políticas públicas voltadas à inclusão e à equidade(3,4).
A combinação de cuidados afirmativos estruturais e em saúde mental pode reconhecer a experiência negativa cumulativa e levar ao alcance de melhoria em saúde, na lógica do seu conceito ampliado, buscando sempre uma reflexão por parte dos profissionais em reorganizar seus atendimentos, na atenção básica ou em qualquer outro setor, sempre relembrando de que a população tem o direito de ser atendida livre de qualquer tipo de preconceito e que é proibida qualquer exclusão baseada em idade, orientação sexual e outras classes que se interseccionam(7,36).
Essa ideia de reorientar práticas assistenciais deve-se à frequente redução da população gay a marcadores orgânicos específicos que mascaram outras demandas relacionadas ao envelhecimento, subjetividades e relações sociais e que, em algumas realidades, pressupõe-se que a estrutura familiar é apenas no modelo heterossexual e cisgênera, engessando a assistência que não considera, a princípio, a diversidade dos núcleos familiares(7,21,22,33,37).
A falta de articulação entre a dimensão sociocultural do demérito e o cuidado ofertado nos estabelecimentos de saúde compromete a confiança e intensifica o não saber o que fazer e aonde ir quando precisa de ajuda/suporte, refletindo um padrão que ecoa em diferentes contextos internacionais e necessita ser superado(10,24). Soma-se a isso a associação entre envelhecimento, aumento de possíveis problemas de saúde biopsicológica e o levar uma vida de forma precária com incapacidades, fatores esses críticos para manter uma qualidade de vida.
Recomenda-se reflexionar a assistência sustentada na falência do modelo biomédico, ao olhar para a população gay e visualizar apenas aspectos clínicos e patológicos relacionados ao aparato sexual de maneira equivocada e negligenciada, e que o entorno social e as interações humanas carecem de implicações nos resultados de saúde na velhice (comunidade, amigos, família, trabalho dentre outros), ao se focar na neutralidade aparente da visão biológica, que incorpore abordagens sensíveis e dialogadas(3,4), facilite o acesso(33) e reconheça que a universalidade formal não elimina barreiras institucionais, pois a mudança geralmente ocorre no processo de autoconscientização ancorado no princípio da igualdade material, da valorização das diferenças, da promoção da cidadania homoafetiva, do fortalecimento das redes de proteção social e do equilíbrio real(3,4,5,7,13,38), rompendo de certa forma, com a dicotomia privilégio-opressão.
As diretrizes nacionais que orientam o cuidado integral, como a obra “Homens Gays e Bissexuais: Direitos, Saúde e Participação Social”, os encaminhamentos da 2ª Conferência Nacional LGBT+(7) e as recomendações do “Guia de Cuidados para a Pessoa Idosa”(13), especialmente no que se refere à Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), são possíveis recursos de implementação. A AGA, em especial, por se tratar de uma abordagem para além do corpo físico, possibilita um diagnóstico de camadas mais existencialistas, inclusive para aqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Pessoas idosas com limitações geográficas também podem usufruir da Telessaúde(39), reduzindo barreiras relacionadas à desinformação e à oferta desigual de serviços(4,40) ao ampliar as possibilidades de acesso ao cuidado afirmativo.
Essas diretrizes, quando articuladas à consulta de enfermagem e ao planejamento terapêutico compartilhado, favorecem práticas de reabilitação funcional, com pactuação de compromissos efetivos entre profissionais, usuários e serviços(1,41,42), pois é um modelo que reconhece singularidades e promove autonomia e participação ativa no cuidado. No plano ético-legal, a Enfermagem Afirmativa encontra respaldo no Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem(43) e na Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde(44), que asseguram o respeito à dignidade, liberdade de expressão da orientação sexual, oferta de atendimento livre de discriminação e manutenção da esperança.
Dessa forma, o envolvimento da despatologização da homossexualidade nas atividades profissionais, a análise das corporalidades e da diversidade funcional no envelhecimento, bem como a criação de espaços coletivos – presenciais ou virtuais – para compartilhamento de experiências, são estratégias de enfrentamento para a promoção do bem-estar psicossocial(5,29). Tais elementos configuram um cuidado construído de forma coletiva e interdisciplinar alinhados às proposições contemporâneas da enfermagem gerontológica e que podem contribuir para o descongestionamento dos serviços tradicionais de saúde pública de maneira sustentável e inteligente.
Acerca dos pressupostos da saúde coletiva, a enfermagem, juntamente a outras disciplinas como a psicologia, serviço social e medicina, necessita focar em registrar e dar visibilidade às narrativas dos sujeitos, valorizando suas memórias e experiências, ao contrário de impor um único modo de ser ou se relacionar. Deveria inserir todos em debates mais amplos sobre a importância de se atualizar e respeitar o que é plural(45), ao explorar experiências e formas de ser homem sendo homem gay e repensar a postura de resistência e singularidade em um contexto social, que muitas vezes impõe padrões que são prejudiciais e excludentes(46), reconhecendo-se que a diversidade sexual extrapola classificações fixas e a sua manifestação volta-se a questões subjetivas individuais.
O estudo da diversidade da sexualidade precisa ser plenamente integrado à gerontologia, pois frisar os importantes papéis da afirmação e da autonomia contribui para o reconhecimento dos direitos humanos como essenciais na promoção da qualidade de vida sexual(29). Por isso, a ideia cuidativa abordada neste ensaio configura-se como um campo emergente e estratégico que articula a produção do cuidado com diferentes campos/disciplinas que se interligam na prática, pois ao reconhecer a singularidade das trajetórias de vida, das masculinidades e das experiências de envelhecimento, profissionais contribuirão para a redução de iniquidades, o fortalecimento da cidadania e a construção de itinerários terapêuticos sensíveis não somente às dimensões clínicas.
POTENCIALIDADES E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ENFERMAGEM
Esse é um fenômeno ainda pouco explorado pela enfermagem e uma produção de dados sobre um grupo historicamente excluído pode estimular a execução estratégica de modelos em espaços interculturais(3), capazes de fortalecer o reconhecimento da Enfermagem Afirmativa como um campo clínico-social e profissional equânime que implementa intervenções focadas na superação de traumas por meio da abordagem de questões subjacentes que ajudam a cultivar os relacionamentos de apoio, sociais, de resiliência e de identidade positiva, pois são preditores significativos do bem-estar e de um envelhecimento bem-sucedido(47).
Sabe-se que compreender a configuração de recursos e riscos por faixa etária e orientação sexual é importante para o desenvolvimento de iniciativas em saúde adaptadas ao reconhecimento do papel sistêmico da discriminação, ao mesmo tempo que apoia esforços individuais no gerenciamento ativo de saúde, levando em consideração a heterogeneidade na compreensão da sexualidade e suas dimensões na velhice.
Tais elementos podem ser desenvolvidos durante a oferta de atendimentos afirmativos, e o que se constrói ao longo das reflexões é a ideia de que o campo interdisciplinar que atua na área da saúde precisa ter um olhar prático e sensível para superar sistemas interligados de opressão por meio de conexões sociais significativas, tais como fomentar relacionamentos de autenticidade e profundidade com o propósito de cultivar um acompanhamento longitudinal e antiestigmatizante(2) focado na promoção do apoio à expressão da orientação sexual.
Para auxiliar estrategicamente a ideia de melhorias nos atendimentos, torna-se relevante realizar capacitações culturalmente dos profissionais de saúde por meio de treinamentos unificados quanto à duração, conteúdo e metodologia, principalmente quando termos/terminologias-chaves, sexualidade, anamnese sexual (disfunções), saúde específica de homens idosos gays e disparidades em saúde são abordados. Isso tem resultado em melhora do conhecimento em curto prazo de tal público frente às necessidades da homossexualidade de homens idosos, sempre os incluindo nos processos formativos de educação permanente.
O avanço do conhecimento da diversidade da orientação sexual e etária e a estruturação de um novo cuidar com perspectivas de abordagens ampliadas na contratação de enfermeiros homens gays, na intenção de compor equipes que poderão desenvolver a autonomia do sujeito e refletir em aproximação e troca de ideias mais efetiva, são pontos a se pensar dentro das instituições, como também o estímulo para ofertar disciplinas específicas na graduação e pós-graduação em uma perspectiva curricular mais diversa, fluida e próxima do contexto atual, uma vez que a formação é ainda focada na heterossexualidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em que pese o registro dos avanços nas políticas afirmativas e nos documentos orientadores existentes no contexto brasileiro, os obstáculos para a efetividade dos cuidados em Enfermagem Afirmativa como apoio à expressão da orientação sexual de homens idosos gays são derivados da conjunção de negligências, carências e ausências no campo prático do cuidado. A ausência de abordagens inclusivas nos currículos, o silêncio sobre a sexualidade e os tabus relacionados ao corpo de pessoas idosas justificam a ideia de criar uma tendência cuidativa integrada à política de ação afirmativa como forma de reduzir o preconceito social e institucional e aumentar a adesão desses homens aos serviços de saúde.
Práticas congruentes com as necessidades desses homens precisam ser configuradas para zelar por sua dignidade em todos os ciclos do desenvolvimento, preservando-os de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor na medida em que eles envelhecem.
Espera-se que, futuramente, seja possível uma sistematização técnica e científica mais estruturada e institucionalizada para que o julgamento clínico de problemas que afloram respostas humanas seja mais bem executado e possibilite transições saudáveis desses personagens sociais com maestria. Afinal, cuidar da saúde do homem idoso gay é possível com base no entendimento de suas demandas e não somente no cumprimento dos deveres e sim, da compreensão coletiva da importância na oferta de proteção.
Enfermeiros necessitam desenvolver estudos voltados à compreensão da saúde de homens idosos gays, pois este é um fato que limitou a discussão desta produção de maneira mais direcionada, já que a maioria dos estudos é generalizada e envolve toda a população de minorias sexuais, de gênero, de identidade e de expressão de gênero. Portanto, é necessário delimitar o público que deseja explorar, pois as particularidades tendem a ser diferentes, como também realizar investigações que mensurem variáveis de saúde mental e desafios sociais relacionados à homossexualidade masculina, especificamente, pois são temas que se associam.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Apoio financeiro
Este artigo recebeu apoio do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, com recursos do Programa Interno de Auxílio Financeiro aos Programas de pós-graduação stricto sensu (AUXPPG). Resolução n. 012/2019 UEFS. Plano de Aplicação de Recursos (PAR - 2025). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo 300840/2024-1. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), processo 88887.114431/2025-00.
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