Open-access Prevalência e fatores associados à Covid longa em pessoas idosas no Estado do Paraná*

RESUMO

Objetivo:  Analisar os fatores associados à Covid longa em pessoas idosas após 18 meses da fase aguda da doença.

Método:  Estudo transversal e analítico realizado com idosos que tiveram Covid-19 no ano de 2020 e sobreviveram à doença no estado do Paraná, Brasil. Informações sociodemográficas, de hábitos de vida, de saúde e de tratamento, bem como sobre sinais, sintomas e sequelas da doença foram coletados por meio de entrevistas telefônicas realizadas 18 meses após a notificação ou a alta hospitalar. Para as análises, foram utilizadas medidas descritivas, testes de associação e modelos de regressão de Poisson com variância robusta.

Resultados:  Das 345 pessoas idosas que participaram do estudo, 224 (65%) ainda apresentavam algum sintoma ou sequela da Covid-19 após 18 meses da doença. Foram associados à Covid longa ser tabagista ou ex-tabagista (RP = 2,21; IC 95% = 1,06;3,36), a qualidade do sono autorreferida (RP = 0,32; IC 95% = 0,16–0,47) e o uso de medicação contínua (RP = 5,24; IC 95%: 2,64–7,85; p < 0,0001).

Conclusão:  As taxas de morbidade e polifarmácia nessa população são altas, contribuindo para a permanência de sintomas. Neste contexto, torna-se fundamental o alinhamento dos serviços de saúde, em conjunto com os profissionais, a fim de suprir as necessidades provenientes das sequelas nas pessoas idosas.

DESCRITORES
Síndrome de Pós-COVID-19 Aguda; Idoso; Qualidade do Sono; Medicamentos de Uso Contínuo; COVID-19

ABSTRACT

Objective:  To analyze the factors associated with long Covid in older people 18 months after the acute phase of the disease.

Method:  This cross-sectional and analytical study was conducted with older individuals who had Covid-19 in 2020 and survived the disease in the state of Paraná, Brazil. Sociodemographic, lifestyle habits, health and treatment information, as well as information on signs, symptoms and sequelae of the disease were collected through telephone interviews conducted 18 months after notification or hospital discharge. For the analyses, descriptive measures, association tests, and Poisson regression models with robust variance were used.

Results:  Of the 345 older people who participated in the study, 224 (65%) still had some symptom or sequelae of Covid-19 18 months after the illness. Being a smoker or former smoker (PR = 2.21; 95% CI = 1.06;3.36), self-reported sleep quality (PR = 0.32; 95% CI = 0.16–0.47), and the use of continuous medication (RP = 5.24; 95% CI = 2.64–7.85; p < 0.0001) were associated with long-term Covid.

Conclusion:  Morbidity and polypharmacy rates are high in this population, contributing to the persistence of symptoms. In this context, it becomes essential to align health services, together with professionals, to meet the needs arising from the sequelae in older people.

DESCRIPTORS
Post-Acute COVID-19 Syndrome; Aged; Sleep Quality; Drugs of Continuous Use; COVID-19

RESUMEN

Objetivo:  Analizar los factores asociados al Covid prolongado en ancianos 18 meses después de la fase aguda de la enfermedad.

Método:  Este estudio transversal y analítico se realizó con ancianos que tuvieron Covid-19 en 2020 y sobrevivieron a la enfermedad en el estado de Paraná, Brasil. Se recogió información sociodemográfica, hábitos de vida, información de salud y tratamiento, así como información sobre signos, síntomas y secuelas de la enfermedad mediante entrevistas telefónicas realizadas 18 meses después de la notificación o el alta hospitalaria. Para los análisis se utilizaron medidas descriptivas, pruebas de asociación y modelos de regresión de Poisson con varianza robusta.

Resultados:  De los 345 ancianos que participaron en el estudio, 224 (65%) aún presentaban algún síntoma o secuela de Covid-19 18 meses después de la enfermedad. Ser fumador o exfumador (PR = 2,21; IC 95% = 1,06;3,36), calidad del sueño autoinformada (PR = 0,32; IC 95% = 0,16–0,47) y el uso de medicación continua (PR = 5,24; IC 95%: 2,64–7,85; p < 0,0001) se asociarón con Covid prolongado.

Conclusión:  Las tasas de morbilidad y polifarmacia son elevadas en esta población, lo que contribuye a la persistencia de los síntomas. En este contexto, se hace imprescindible alinear los servicios de salud, junto con los profesionales, para atender las necesidades derivadas de las secuelas en las personas mayores.

DESCRIPTORES
Síndrome Post Agudo de COVID-19; Anciano; Calidad del Sueño; Medicamentos de Uso Contínuo; COVID-19

INTRODUÇÃO

A pandemia da Covid-19 é responsável por milhares de infecções e mortes ocasionadas pelo agravamento da doença. E dentro desse contexto, a idade avançada e a presença de comorbidades foram consideradas os principais fatores de risco para complicações e mortes(1).

Dados epidemiológicos de fevereiro de 2025 apontam 777 milhões de casos da doença com uma estimativa de 7,1 milhões de óbitos em todo o mundo(2). No Brasil, no mesmo período foram registrados 39 milhões de infectados, com aproximadamente 715 mil mortes. O Estado do Paraná, até o dia 20 de fevereiro de 2025 apresentava pouco mais de 3 milhões de casos e 47 mil óbitos, dentre estes, 30.287 são de pessoas com 60 anos ou mais(3,4).

É consenso na literatura que pessoas idosas são mais suscetíveis a desenvolver as formas mais graves da Covid-19. Um dos fatores que contribui para essa susceptibilidade é a imunossenescência, processo que consiste no declínio das funções do sistema imune, somado à alta carga de doenças pré-existentes nesse estrato populacional, e pode contribuir para a permanência dos sintomas após a fase aguda, uma condição conhecida por Covid longa(5).

A Covid longa é caracterizada pela permanência de sinais e sintomas por mais de três meses após a fase aguda da doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 10 a 20% dos pacientes que contraíram a Covid-19 irão apresentar sequelas em médio e longo prazo. No entanto, ainda não há uma base de dados com informações sobre os indivíduos que estão acometidos pela síndrome pós-Covid-19. Tal condição tem alertado as autoridades em saúde e aumentado a demanda por serviços especializados(6). Além disso, a Covid longa pode impactar negativamente as Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD) dos indivíduos acometidos(7,8).

Frente à complexidade da Covid longa e o impacto que ela traz à saúde física e emocional, especialmente na população idosa, ainda são necessários estudos que abordem a prevalência e os fatores associados a essa condição(7), visto que essa nova demanda de cuidados e busca por atendimento nos serviços de saúde configura a necessidade de um novo formato de assistência, com serviços especializados voltados à recuperação e à redução das sequelas pós Covid-19, assim como novas competências por parte da equipe multiprofissional para manejar essa condição, já que ainda não existem diretrizes claras quanto ao tratamento da Covid longa(9).

Dessa forma, considerando a vulnerabilidade das pessoas idosas frente à Covid longa, e a falta de evidências sobre a síndrome pós-Covid-19, esse estudo propôs analisar os fatores associados a essa condição após 18 meses da infecção primária pelo SARS-CoV-2.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de um inquérito observacional transversal, individuado e analítico aninhado a uma coorte intitulada “Acompanhamento longitudinal de adultos e idosos que receberam alta da internação hospitalar por Covid-19” (Coorte Covid-19 Paraná/UEM)(10).

Local

O local de estudo foi o Estado do Paraná, localizado na Região Sul do Brasil. Em 2021, a população estimada no Estado era de aproximadamente 11,6 milhões de habitantes, com 1,9 milhões de idosos(11) e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,769(12).

População

A população do estudo foi composta por idosos (60 anos ou mais) que tiveram Covid-19 no ano de 2020 e sobreviveram à doença 18 meses após a notificação ou alta hospitalar.

Critérios de Seleção

Foram utilizadas duas bases de dados para a seleção dos participantes: o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), onde se registram os casos que necessitam de internamento em enfermarias e Unidades de Terapia Intensiva (UTI), e os óbitos, independentemente de internação, e o Sistema Estadual Notifica Covid-19 (Notifica Covid-19), uma base de dados elaborada e implementada pelo governo do Estado do Paraná, com o intuito de registrar os casos, internamentos e óbitos do próprio estado.

A partir de uma análise prévia de completude dos bancos de dados contendo as informações sensíveis dos participantes, quatro variáveis foram utilizadas para o processo de seleção: nome, data de nascimento, sexo e nome da mãe. Após o tratamento dos dados, o SIVEP-Gripe foi utilizado exclusivamente para os casos que necessitaram de internação, enquanto o Notifica Covid-19 foi empregado para os casos leves, ou seja, aqueles com resultado positivo para a doença que não precisaram de internação.

Como critérios de seleção foram considerados indivíduos com 60 anos ou mais, residentes e notificados no Paraná, com diagnóstico confirmado de Covid-19 por meio do teste RT-PCR, egressos de tratamento em enfermaria ou UTI e de atendimentos ambulatoriais (não hospitalizados) no período de março a dezembro de 2020, com número de telefone fixo ou celular preenchido corretamente. Foram excluídos do estudo os pacientes que evoluíram para óbito.

Amostra

Inicialmente, foram selecionados 1500 participantes a partir de bases de dados utilizando amostragem aleatória probabilística estratificada proporcional segundo o mês de notificação ou alta hospitalar (de março a dezembro de 2020) e a macrorregional de saúde de residência (Oeste, Leste, Norte e Noroeste), conforme o protocolo descrito por Salci et al.(10).

No primeiro contato telefônico, realizado 12 meses após a notificação ou alta, 900 pessoas idosas concordaram em participar da pesquisa. Em um segundo contato, 18 meses após a notificação ou alta hospitalar, 345 idosos efetivamente responderam à pesquisa (Figura 1).

Figura 1
Processo de seleção da amostra a partir das bases de dados.

Coleta de Dados

Os dados foram coletados por meio de entrevistas telefônicas realizadas 18 meses após a notificação (para os casos leves) ou a alta hospitalar (para casos moderados e graves), período entre novembro de 2021 e setembro de 2022. Os indivíduos foram convidados a participar do estudo por telefone por uma equipe de enfermeiros(as), estudantes de graduação e pósgraduação da área da saúde, que foi treinada e capacitada previamente durante dois meses. Foram esclarecidos os objetivos da pesquisa e a anuência verbal era realizada após a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Em casos de incapacidade de comunicação do participante no momento do contato, foi permitido que o cuidador ou o familiar responsável respondesse às questões do formulário. As entrevistas tiveram duração média de 30 minutos.

Como instrumento de coleta dos dados, foi utilizado um formulário estruturado de pesquisa que compreendia questões sociodemográficas, de hábitos de vida, de saúde e de tratamento da Covid-19, e abordava sinais e sintomas da doença. O formulário foi elaborado e validado pelos pesquisadores da coorte(10).

Variáveis do Estudo

Definiu-se como variável dependente a Covid longa (sim e não), caracterizada neste estudo pela presença de pelo menos um dos sinais ou sintomas autorreferidos (listados a seguir), persistentes após 18 meses da notificação ou da alta hospitalar.

Os sinais e sintomas avaliados foram agrupados de acordo com os seguintes sistemas do corpo humano: neurológico (cefaleia, dor nos olhos, alteração na visão, alteração no olfato, alteração no paladar, alteração na fala, alteração na audição, zumbido no ouvido, tontura, perda de coordenação motora, perda/diminuição da memória, formigamento/dormência, desmaio, febre, ansiedade e depressão); respiratório (coriza, dor na garganta, voz rouca, tosse, produção de catarro, dor torácica e dispneia); digestório (alteração nas fezes, alteração do apetite, náusea, cólica/dor abdominal e vômito); endócrino (queda de cabelo e transpiração); cutâneo (manchas pelo corpo e prurido no corpo); musculoesquelético (problemas nos músculos/articulações, cansaço/fadiga); e cardiovascular (edema).

As variáveis independentes foram definidas em quatro domínios: (1) sociodemográficas; (2) hábitos de vida; (3) condições de saúde; e (4) tratamento da Covid-19.

  1. Sociodemográficas: sexo (masculino e feminino), idade (60 a 74 anos e 75 anos ou mais), raça/cor (branca/amarela e negra/indígena), anos de estudo (até 8 e 8 ou mais), se possui companheiro(a) (não e sim), se reside sozinho(a) (não e sim) e renda familiar (até dois e mais de dois salários mínimos);

  2. Hábitos de vida: uso de bebida alcoólica (não e sim), tabagista ou ex-tabagista (não e sim), prática de atividade física (não e sim) e qualidade do sono autorreferida (péssimo/ruim/regular e bom/excelente);

  3. Condições de saúde: possui morbidade (não e sim), medicamentos de uso contínuo (não e sim), busca por atendimento de saúde nos últimos 18 meses (não e sim), necessidade de ajuda/cuidador (a) (não e sim) e presença de sintomas na fase aguda da Covid-19 (não e sim);

  4. Tratamento da Covid-19 na fase aguda: local (ambulatório, enfermaria e unidade de terapia intensiva), uso de suporte ventilatório (não e sim) e se utilizou o Sistema Único de Saúde (SUS) em alguma fase do tratamento (não e sim).

Questões que os participantes optaram por não responder foram classificadas como “não informado”.

Análise e Tratamento dos Dados

Foram realizadas análises descritivas dos resultados, bem como associações das variáveis independentes (sociode-mográficas, hábitos de vida, condições de saúde e tratamento da Covid-19) com o desfecho (presença de Covid longa após 18 meses) por meio do teste qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher, conforme necessário para cada tipo de variável, ao nível de significância de 5%.

Para identificar os fatores associados aos sinais e sintomas persistentes, aplicaram-se modelos de regressão de Poisson com variância robusta. As associações foram estimadas por meio da razão de prevalências (RP), adotando um intervalo de confiança de 95% como medida de precisão.

O modelo final foi ajustado considerando p < 0,20 na análise bivariada e utilizando o método stepwise both para a seleção das variáveis. O teste de hipóteses aplicado para verificar a significância dos coeficientes estimados foi o teste de Wald e a adequação do modelo foi avaliada por meio da análise dos resíduos deviance e quantílicos aleatorizados, e do fator de inflação da variância (VIF) das variáveis independentes. Além disso, foi calculado o pseudo coeficiente de determinação R2 de Nagelkerke para verificar a qualidade dos ajustes.

Os dados coletados nas entrevistas foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por meio do software R versão 4.5.0.

Aspectos Éticos

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, da Universidade Estadual de Maringá/PR, sob o parecer n. 4.165.272/2020 e CAAE: 34787020.0.0000.0104 em 21 de julho de 2020. Recebeu, ainda, para os dados obtidos do Notifica Covid, a aprovação da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, por meio do Hospital do Trabalhador, obtendo o parecer n. 4.214.589/2020 e CAAE: 34787020.0.3001.5225, em 15 de agosto de 2020.

RESULTADOS

Participaram do estudo 345 pessoas idosas, com média de idade de 68 anos, mediana de 66 anos e desvio padrão de 6,6 anos.

A Tabela 1 contém as características da amostra segundo as variáveis sociodemográficas, hábitos de vida, de saúde e tratamento da Covid-19.

Tabela 1
Características sociodemográficas, de hábitos de vida, de saúde e de tratamento da Covid-19 de idosos 18 meses após a fase aguda da doença no Estado do Paraná, Brasil, 2021-2022 (n= 345) – Maringá, PR, Brasil, 2025.

Para as informações sociodemográficas, a maior parte dos idosos tinha idade entre 60 a 74 anos, era do sexo feminino, a raça/cor autorreferida era branca/amarela, tinha até oito anos de estudo, vivia com companheiro (a), não residia sozinho (a) e apresentava renda familiar maior que dois salários mínimos (Tabela 1).

No tocante aos hábitos de vida, a maioria dos participantes faz uso de bebidas alcoólicas, não é tabagistas, pratica atividade física e considera a qualidade do sono como boa/excelente (Tabela 1).

No que se refere às condições de saúde, grande parte possui uma ou mais morbidades, faz uso de medicação contínua, buscou atendimento de saúde e necessitou de ajuda ou até mesmo de cuidador devido às complicações causadas pela Covid-19.

Em relação ao tratamento da doença na fase aguda, a amostra foi composta majoritariamente por pessoas atendidas em ambulatório, que não necessitaram de suporte ventilatório e que utilizaram os serviços do SUS em alguma fase do tratamento.

Entre os mais prevalentes, destacam-se a perda/diminuição da memória, ansiedade, depressão, dispneia, queda de cabelo, problemas nos músculos/articulações e sensação de cansaço/fadiga (Tabela 2).

Tabela 2
Sinais e sintomas segundo os sistemas do corpo humano de idosos 18 meses após a fase aguda da Covid-19 no Estado do Paraná, Brasil, 2021-2022 (n = 224) – Maringá, PR, Brasil, 2025.

No modelo bruto, as variáveis que se associaram à Covid longa (p < 0,05) foram anos de estudo, qualidade do sono autorreferida, morbidade, medicação de uso contínuo, busca por atendimento de saúde, número de sintomas na fase aguda da doença e internação em UTI (Tabela 3).

Tabela 3
Modelo bruto para associações das características sociodemográficas, hábitos de vida, de saúde, tratamento e Covid longa em idosos 18 meses após a fase aguda da doença no Estado do Paraná, Brasil, 2021-2022 (n = 345) – Maringá, PR, Brasil, 2025.

A Tabela 4 apresenta o modelo final ajustado para a prevalência da Covid longa em pessoas idosas segundo as covariáveis do estudo. Observou-se que pessoas idosas tabagistas ou ex-tabagistas apresentaram prevalência de Covid longa 2,21 vezes maior quando comparadas às não tabagistas. A qualidade do sono autorreferida como boa ou excelente apresentou prevalência de 0,32 quando comparada àqueles que a referiram como péssima, ruim ou regular. Pessoas idosas que fazem uso de medicação contínua apresentaram prevalência de Covid longa 5,24 vezes maior quando comparadas às que não utilizam. As variáveis busca por atendimento de saúde nos últimos 18 meses e presença de sintomas na fase aguda da doença não foram significativas, mas permaneceram no modelo devido aos pressupostos e testes de adequações do ajuste.

Tabela 4
Modelo final ajustado para associações das variáveis de hábitos de vida, de saúde e de tratamento da Covid-19 em idosos 18 meses após a fase aguda no Estado do Paraná, Brasil, 2021-2022 (n = 345) – Maringá, PR, Brasil, 2025.

As informações das variáveis tratamento no SUS não foram imputadas no modelo final por não conterem amostras suficientes para os ajustes. O uso de suporte ventilatório apresentou colinearidade com o local de tratamento e a morbidade colinearidade com o uso de medicação contínua. Os resultados dos testes dos resíduos deviance apresentaram p = 0,4780 e dos quantílicos aleatorizados p = 0,5477, e o resultado do pseudo R2 ajustado foi de 92,2%, o melhor entre os modelos avaliados.

DISCUSSÃO

Os resultados desta análise demonstraram que pessoas idosas, por serem mais vulneráveis a Covid-19, tornaram-semais suscetíveis a Covid longa. Além disso, evidenciaram que aqueles que referem a qualidade do sono como boa e excelente têm menos chance de desenvolver os sintomas persistentes. Já os que buscaram atendimento de saúde e fazem uso de medicação contínua apresentam mais chances de sofrer com a Covid longa após 18 meses da infecção primária pelo SARS-CoV-2. Corroborando esses achados, a literatura também aponta que indivíduos com idade superior a 60 anos têm mais chances de desenvolver complicações da Covid-19 a longo prazo(5).

Uma dessas alterações refere-se à qualidade do sono,sendo que diversos estudos afirmam que após a infecção pelo coronavírus os indivíduos passam a apresentar mudanças no padrão do sono. Um estudo realizado em 56 países, onde 3.726 participantes foram acompanhados por sete meses, identificou distúrbios do sono em 78,6% da amostra, 60% referiram insônia, 41% sudorese noturna, 36% despertar durante o sono e 10% apneia(13).

Pessoas idosas que apresentam distúrbios do sono possuem maior predisposição a desenvolver alterações neuropsiquiátricas,como ansiedade, depressão, fadiga, diminuição da concentração, disfunção cognitiva e quadros de parestesia. Logo, ter boa qualidade do sono diminui a ocorrência desses eventos que estão presentes na maioria dos indivíduos com a Covid longa(14).

Em Hubei, província da China, epicentro da pandemia,evidenciou-se que após a fase aguda da doença, 17,7% das pessoas idosas apresentaram alterações no padrão do sono(15). Resultados semelhantes de uma coorte prospectiva conduzida em Hong Kong com essa mesma população encontraram 14,0% com alterações do sono; a insônia e a má qualidade do sono foram os sintomas mais prevalentes(16). Neste estudo, a maior parte dos participantes referiu ter a qualidade do sono como boa e excelente, o que se configurou como um fator protetor para a Covid longa.

Cabe salientar que as pessoas idosas evoluem de forma negativa ao coronavírus, apresentando sequelas e complicações que atingem a sua motricidade e funções cognitivas após a fase aguda da doença, sendo em longo prazo intitulada Covid longa(17).

Outro achado do estudo que vem sendo descrito em outros trabalhos é o uso de medicação contínua como preditor para a Covid longa. Uma pesquisa conduzida em quatro cidades chinesas, com 2.712 indivíduos com sintomas persistentes, identificou que 7,3% da amostra referiram uso de medicação contínua antes de contrair a Covid-19, o que os torna suscetíveis(18). Já outros estudos apontam que, de acordo com a necessidade individual, as alterações da Covid longa são tratadas com uso de medicação diária entre eles: ansiolíticos, medicamentos para depressão, antialérgicos, assim visando minimizar os efeitos pós Covid(19).

Segundo dados de um estudo de coorte, realizado nos Estados Unidos, após um ano da Covid-19 houve um aumento em prescrições medicamentosas, após a fase aguda da doença, entre eles: vitamínicos e medicamentos anticoagulantes(20). Corroborando esses achados, outro estudo mostrou que a utilização de medicamentos para tratar as comorbidades apresentadas em sua maioria por pessoas idosas está associada à Covid longa(21).

Um estudo de coorte conduzido no Irã acompanhou os indivíduos por três meses após o diagnóstico de Covid-19, a fim de identificar os fatores associados à Covid longa. Foram realizadas avaliações clínicas e coleta de exames, os pesquisadores observaram alterações psicológicas e a persistência de sinais e sintomas nos participantes. A amostra do estudo foi composta por 900 pacientes, hospitalizados no início de 2020 e que tiveram alta; destes, 350 realizaram o acompanhamento de saúde após a fase aguda da doença. Pode-se presumir o quão necessária é a busca pelos serviços de saúde para tratar as sequelas após a doença(22).

O cuidado em longo prazo posterior a Covid-19 é essencial para recuperação. Faz-se necessária a comunicação efetiva entre as equipes intra-hospitalar e a assistência de cuidados primários, dispondo-se de informações sobre as condições de saúde dos usuários e a oferta de serviços especializados para essa demanda(23). Sabe-se que os indivíduos que contraíram o coronavírus foram classificados em forma leve, moderada, e a maior parte das pessoas com idade avançada apresentou casos graves; assim, essas requerem acompanhamentos com maior periodicidade(24).

As pessoas idosas possuem uma carga global maior de doenças crônicas, o que a literatura destaca como fator que contribui para a permanência de sintomas e complicações após a fase aguda da doença. Sendo assim, há a necessidade de serviços especializados e profissionais capacitados para realizar os cuidados e atendimentos de saúde de acordo com a especificidade de cada indivíduo. Nesse sentido, é imprescindível a atenção às pessoas idosas a fim de reduzir os danos e melhorar a qualidade de vida(25).

Notoriamente, mesmo com o fim da fase emergencial da pandemia da Covid-19, advêm consigo novos desafios e demandas de cuidado, emergindo as necessidades de modelos de assistência voltados para a pessoa idosa(13,26).

Nesse cenário, as demandas relacionadas à Covid longa estão sendo na maior parte das vezes direcionadas à Atenção Primária à Saúde (APS), a qual realiza tratamentos de baixa complexidade. Em contrapartida, encontram-se diversas adversidades, entre elas, a falta de informações de saúde após a alta,a morosidade em conseguir atendimento pela APS e a ausência de conhecimento acerca dessa condição, o que exige capacitações voltadas à temática da Covid longa e suas implicações na saúde da população(27).

Como limitações do estudo, destaca-se o número de perdas na coleta de dados. Não houve anuência para entrevistas em inúmeros contatos realizados devido ao receio dos participantes em relação a ligações telefônicas mal-intencionadas. Outra limitação refere-se ao viés de recordação, como pode acontecer em entrevistas retrospectivas. No entanto, outro motivo pode ser a falta de compreensão da pessoa idosa sobre a temática, especialmente por se tratar de um formato remoto, além da complexidade do instrumento padronizado, que pode dificultar seu entendimento pelos entrevistados.

Considerando as dificuldades dos participantes idosos em responder ao instrumento de coleta, os autores sugerem, para estudos futuros, investigações que adotem abordagens mais acessíveis e adaptadas a esse público. Isso pode incluir a simplificação da linguagem, o uso de entrevistas presenciais ou assistidas e estratégias que facilitem a compreensão e a expressão das experiências dos idosos. Além disso, recomendam a utilização de recursos apropriados para essa faixa etária, garantindo uma análise direcionada às características da Covid-19 longa neste grupo.

Desta forma, é importante salientar a necessidade de novos estudos relacionados à Covid longa, especialmente com períodos mais longos após o diagnóstico, para que os fatores associados e a persistência dos sinais e sintomas nesse estrato etário sejam embasados com evidências mais consistentes na literatura.

Ao que concerne este aspecto, os achados desta pesquisa contribuem para que os respectivos gestores de saúde possam elaborar e implementar futuras políticas públicas, embasadas na literatura. Assim, podendo realizar ações assertivas voltadas para o atendimento de pessoas idosas diagnosticadas com Covid longa, com norte na recuperação da saúde e prevenção de agravos.

CONCLUSÃO

Neste estudo, ser tabagista ou ex-tabagista e fazer uso continuamente de medicamentos foram associados a Covid longa. A qualidade do sono autorreferida como boa ou excelente associou-se a Covid longa como fator de proteção.

Considerando a alta carga de comorbidades, o uso frequente de múltiplos medicamentos e a vulnerabilidade dos idosos a doenças infecciosas, é fundamental que os serviços e profissionais de saúde estejam preparados para atender às demandas daqueles que convivem com as sequelas do SARS-CoV-2.

Os achados deste estudo fomentam contribuições para compreensão da Covid longa em pessoas idosas, ampliando o conhecimento científico e ressaltando a necessidade de aprimorar as estratégias voltadas para essa condição.

Espera-se que esses dados impulsionem o progresso no estudo da Covid longa em idosos, oferecendo informações essenciais para a criação de práticas e políticas de saúde que favoreçam a recuperação e melhorem a qualidade de vida dessa população.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

  • Apoio financeiro
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio do Ofício Circular no 14/2020-GAB/PR/CAPES de 30 de março de 2020; Edital N. 07/2020 – Chamada Universal do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq).Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Ministério da Saúde (MS)/Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde (SCTIE)/Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit). Processo: 402882/2020-2.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Thereza Maria Magalhães Moreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Dez 2024
  • Aceito
    08 Dez 2025
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