Open-access Experiência do casal em caso de ostomia por cancro colorretal de um dos membros: scoping review

RESUMO

Objetivo:  Mapear a evidência científica sobre a experiência conjunta do casal que enfrenta uma ostomia de eliminação intestinal por cancro colorretal.

Método:  Realizou-se uma scoping review, conduzida de acordo com as diretrizes do JBI. A pesquisa foi efetuada em 13 bases de dados e repositórios, com critérios de inclusão definidos pela abordagem PCC (Participantes, Conceito e Contexto).

Resultados:  Foram incluídos nove estudos, que permitiram mapear a experiência do casal e resumir as suas características segundo a natureza, os fatores influenciadores e os resultados decorrentes dessa experiência; na nomeação desta, predominaram os conceitos de adaptação e/ou de ajustamento.

Conclusão:  A experiência do casal com ostomia por cancro colorretal é vivida de forma divergente entre os casais, envolvendo desafios físicos, emocionais e relacionais. Identificam-se lacunas na evidência científica, constatando-se a necessidade de investigação primária que possibilite a compreensão sobre esta experiência, nomeadamente a dinâmica ou o processo experienciado por esses casais.

DESCRITORES
Adaptação Psicológica; Ajustamento Social; Neoplasias Colorretais; Características da Família; Estomia

ABSTRACT

Objective:  To map scientific evidence on the shared experience of couples undergoing intestinal ostomy for colorectal cancer.

Method:  A scoping review was conducted in accordance with JBI guidelines. The search was performed in 13 databases and repositories, with inclusion criteria defined by the PCC (Participants, Concept, and Context) approach.

Results:  Nine studies were included, which allowed mapping couples’ experiences and summarizing its characteristics according to the nature, influencing factors, and results arising from this experience; in naming this experience, the concepts of adaptation and/or adjustment predominated.

Conclusion:  The experience of couples with ostomies due to colorectal cancer varies among them, involving physical, emotional, and relational challenges. Gaps in scientific evidence have been identified, highlighting the need for primary research to better understand this experience, particularly the dynamics or processes experienced by these couples.

DESCRIPTORS
Adaptation; Psychological; Social Adjustment; Colorectal Neoplasms; Family Characteristics; Ostomy

RESUMEN

Objetivo:  Mapear la evidencia científica sobre la experiencia compartida de parejas sometidas a ostomía intestinal por cáncer colorrectal.

Método:  Se realizó una revisión del alcance siguiendo las directrices de la JBI. La búsqueda se llevó a cabo en 13 bases de datos y repositorios, con criterios de inclusión definidos por el enfoque PCC (Participantes, Concepto y Contexto).

Resultados:  Se incluyeron nueve estudios, lo que nos permitió mapear la experiencia de la pareja y resumir sus características según la naturaleza, los factores influyentes y los resultados de esta experiencia; al nombrar esta experiencia, predominaron los conceptos de adaptación y/o ajuste.

Conclusión:  La experiencia de las parejas con ostomía por cáncer colorrectal varía entre ellas e implica desafíos físicos, emocionales y relacionales. Se identifican lagunas en la evidencia científica, lo que subraya la necesidad de investigación primaria que permita comprender mejor esta experiencia, en particular la dinámica o el proceso que viven estas parejas.

DESCRIPTORES
Adaptación Psicológica; Ajuste Social; Neoplasias Colorrectales; Composición Familiar; Estomía

INTRODUÇÃO

A nível mundial, o cancro colorretal (CCR) foi o terceiro tipo de cancro mais diagnosticado em 2020, ocupando o terceiro lugar em termos de incidência e o segundo em termos de mortalidade(1). Apesar da gravidade, verificou-se, nos últimos anos, uma redução na taxa de mortalidade por CCR atribuída aos avanços no diagnóstico precoce e no tratamento(2). A cirurgia constitui o tratamento de eleição(3,4,5), frequentemente resultando na construção de uma ostomia de eliminação intestinal (OEI) provisória ou definitiva(6). Embora não existam dados globais precisos, estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas nos Estados Unidos(7,8), 1 milhão na China e 700 mil na Europa vivam atualmente com pelo menos uma ostomia(7), sendo expectável que este número continue a aumentar em consequência do crescimento da incidência do CCR(9).

O diagnóstico e tratamento do CCR representam uma experiência profundamente desafiante, marcada por sofrimento físico e emocional, tristeza, ansiedade, medo, e insegurança(10). A presença de uma OEI agrava as alterações vivenciadas pela pessoa, gerando desafios adicionais relacionados à imagem corporal, autoestima, sexualidade, e participação em atividades sociais, físicas e de lazer(11,12). Essas mudanças afetam diretamente a vida quotidiana e perceção da qualidade de vida(11,12,13).

Partindo do princípio de que os eventos vivenciados por um membro da família afetam os restantes(14), é plausível afirmar que, no contexto de uma relação conjugal, essas mudanças são experienciadas pelo casal como unidade. Considera-se casal a união de duas pessoas adultas que mantêm uma relação significativa, íntima e duradoura(15), partilhando um projeto de vida comum(16). Neste contexto, o cônjuge assume frequentemente o papel de cuidador principal, enfrentando também mudanças substanciais no seu quotidiano, com repercussões emocionais, sociais e relacionais(17,18). Assim, entende-se que a experiência vivenciada pelo casal em resposta ao CCR e à OEI reflete-se em reajustes conjuntos, com impacto significativo na relação conjugal, bem como na saúde mental e física de ambos os cônjuges(18,19,20).

A experiência do casal que enfrenta um desafio dessa natureza é reconhecida como um processo dinâmico e evolutivo, caracterizado por transições contínuas(20), adaptações mútuas(20,21,22) e ajustamentos conjugais(20,23). Essa perspetiva sublinha que a experiência do casal está em constante transformação, refletindo-se na forma como os cônjuges se adaptam e reorganizam diante das mudanças impostas pela condição de saúde.

Nesse contexto, as mudanças provocadas pelo CCR e pela OEI desencadeiam um processo que pode ser conceptualizado como transição, entendido como a passagem de uma condição ou estado para outro(24,25). A transição, enquanto experiência humana e dinâmica, exige que a pessoa ou, no caso presente, o casal se envolva em processos de adaptação e ajustamento(24,25,26). Esse processo é complexo e ocorre ao longo do ciclo vital, sendo desencadeado por eventos críticos – designadamente os relacionados à saúde e ao desempenho de papéis -, e resultando em mudanças de papéis, aquisição de novos conhecimentos, mudanças naqueles papéis e adaptação de comportamentos(25,27).

Assim, a adaptação e o ajustamento emergem como elementos centrais àquele processo, influenciando a capacidade do casal para reorganizar a sua vida diante da nova condição(27,28). A adaptação se refere à capacidade de reorganizar a sua vida e identidade, integrando as novas exigências impostas pela condição de saúde, e promovendo o bem-estar, a continuidade da relação conjugal e a relação com o mundo exterior(29). O ajustamento, por sua vez, diz respeito ao envolvimento ativo do casal, sendo condicionado pelo conhecimento que ambos possuem sobre a sua própria situação e pela capacidade de gerir as mudanças e integrar a nova condição de vida(27,30). Desse modo, a adaptação é traduzida na integração das mudanças na vida quotidiana, enquanto o ajustamento reflete o processo contínuo de gerir e lidar com essas mudanças.

O casal que enfrenta uma OEI por CCR constitui um grupo particular no que diz respeito às necessidades de cuidados de saúde(17). No entanto, a evidência científica tem se centrado predominantemente na experiência individual da pessoa com OEI, do cônjuge enquanto cuidador ou da família em geral, negligenciando a compreensão da experiência partilhada do casal como unidade. Essa lacuna é particularmente relevante, uma vez que a vivência da OEI por CCR não se limita ao indivíduo afetado, mas abrange o casal, influenciando a sua relação, comunicação, papéis e bem-estar emocional. A enfermagem, enquanto disciplina que privilegia o cuidado centrado na pessoa, tem a responsabilidade de compreender esta experiência partilhada, promovendo intervenções que respondam às necessidades do casal como uma unidade(27,31,32). Uma pesquisa preliminar nas bases de dados JBI Evidence Synthesis, Cochrane, CINAHL, MEDLINE, PROSPERO, Open Science Framework e Figshare, utilizando os termos de pesquisa “transition”, “adaptation”, “adjustment”, “colorectal neoplasms”, “ostomy” e “couple”, nos idiomas português, inglês, francês e espanhol, não identificou qualquer revisão da literatura, publicada ou em curso, que tenha como foco de análise o casal enquanto unidade participante no processo de vivência de uma OEI por CCR.

Neste sentido, justifica-se a realização desta scoping review, que tem como objetivo mapear(33,34,35) a evidência científica sobre a experiência conjunta do casal que enfrenta uma OEI por CCR, identificando a evidência científica disponível e as lacunas nesse conhecimento, tendo como finalidade fundamentar futura investigação que contribua para o desenvolvimento do conhecimento em enfermagem relativamente a este fenómeno nesta população.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Trata-se de uma scoping review realizada segundo a metodologia proposta pelo JBI(33,34) e as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) checklist(34,36). O protocolo foi previamente registado na plataforma Open Science Framework, com o DOI: 10.17605/OSF.IO/E8WJD. Durante o desenvolvimento da revisão, constatou-se ser necessário introduzir alterações ao protocolo: foi reformulada a terminologia usada no título, objetivo e questões de revisão, devido à constatação de que os artigos selecionados não utilizavam o conceito de transição para nomear a experiência dos casais.

Foi definida como questão de revisão “Qual é a evidência científica disponível sobre a experiência conjunta do casal que enfrenta uma OEI por CCR?”, bem como as subquestões “Quais são os estudos existentes sobre a experiência do casal perante uma OEI por CCR?”, “Quais são as características da população na evidência disponível sobre esta experiência?”, “Que conceitos são utilizados para descrever a experiência do casal?” e “Como se caracteriza, na evidência disponível, a experiência do casal?”.

Critérios de Seleção

Os critérios de elegibilidade foram definidos com base na mnemónica PCC (Participantes, Conceito e Contexto), conforme descrito por Peters et al.(33,34). No que concerne aos participantes, a revisão considerou estudos que incluíssem adultos (idade ≥ 19 anos) em uma relação conjugal, em que um dos elementos fosse ser portador de OEI devido ao CCR, em que os dados tenham sido colhidos junto ao casal, à pessoa com ostomia ou ao cônjuge. Para efeitos de elegibilidade, considerou-se como “casal” qualquer referência explícita nos estudos a termos como “casal”, “companheiro(a)”, “cônjuge”, “parceiro(a)” ou “esposo(a)”, independentemente do género ou estado civil. Excluíram-se estudos em que a OEI não tivesse sido construída na sequência de CCR.

Relativamente ao conceito, foram incluídos estudos que abordassem a experiência do casal diante da OEI resultante de CCR, bem como estudos que investigassem a transição, a adaptação ou o ajustamento do casal perante essa condição. Foram excluídos os estudos que não enfocassem a experiência, a transição, o ajustamento ou a adaptação do casal, bem como aqueles que exploravam esses conceitos apenas a nível individual, centrando-se exclusivamente na pessoa com ostomia ou no cônjuge. Quanto ao contexto, não foram impostas restrições relacionadas a fatores culturais, étnicos, de género ou de localização geográfica.

A revisão incluiu estudos primários, secundários e uma tese. Nos estudos selecionados, foi identificada revisão da literatura. Contudo, não se verificou qualquer duplicação de dados decorrente da inclusão de estudos primários nesta revisão, não havendo, assim, necessidade de excluir os referidos estudos primários(34). Devido à finalidade da revisão, excluíram-se livros, capítulos de livros e artigos de opinião. Foram considerados estudos publicados em inglês, português, francês e espanhol, não tendo sido aplicada qualquer restrição temporal.

Colheita de Dados

A pesquisa inicial foi realizada entre maio e junho de 2024, e atualizada em julho de 2025, seguindo uma abordagem multifásica, com o objetivo de identificar o maior número possível de estudos e publicações relevantes. Na primeira fase, realizou-se pesquisa nas bases de dados eletrónicas MEDLINE (via EBSCO), CINAHL (via EBSCO), SciELO, Cochrane Database of Systematic Reviews (via EBSCO), JBI Evidence Synthesis, Psychology and Behavioral Sciences Collection (via EBSCO), PsycINFO (via EBSCO), Web of Science e Scopus. Na segunda fase, com o objetivo de integrar literatura cinzenta, efetuaram-se pesquisas no Open Access Theses and Dissertations, ProQuest Dissertation and Theses Database, Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP) e Google Scholar. Não foi possível incluir dados provenientes do OpenGrey e do DART-Europe, uma vez que se encontravam inativos à data da recolha de informação. Por fim, na terceira fase, procedeu-se à análise das referências bibliográficas dos estudos incluídos, visando identificar artigos adicionais potencialmente relevantes para o estudo.

Os termos do Medical Subject Headings identificados previamente foram incluídos e adaptados para cada fonte de informação utilizada, desenvolvendo-se uma estratégia de pesquisa completa com operadores de truncagem e booleanos apropriados (Quadro 1).

Quadro 1
Estratégia de pesquisa – Lisboa, Portugal, 2025.

As referências identificadas foram compiladas e carregadas na plataforma Rayyan®, tendo os registos duplicados sido removidos, o que resultou em um total de 733 documentos. A análise dos títulos e resumos dos documentos foi realizada por dois revisores independentes utilizando o método blind-one. As divergências foram resolvidas por um terceiro revisor(33,36).

Os documentos que cumpriram os critérios de inclusão pela análise de título e resumo foram recuperados na íntegra para análise detalhada, tendo o texto completo sido lido de forma independente pelos revisores. O processo de seleção dos documentos está representado no diagrama de fluxo PRISMA-ScR (Figura 1), que ilustra, de forma sistemática, as etapas do processo(37), culminando na seleção de nove documentos.

Figura 1
Diagrama de fluxo do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews(37).

Análise e Tratamento de Dados

A extração e apresentação dos dados extraídos dos estudos incluídos seguiram uma estrutura especificamente delineada para esta scoping review, em função do objetivo e questões de revisão(33,34). A extração dos dados foi realizada por dois revisores independentes, e as divergências foram resolvidas com recurso a um terceiro revisor. Foram extraídos os dados que se relacionavam ao objetivo e às questões de revisão da revisão (Quadro 2), como título, autor(es), ano, país, objetivo, metodologia e métodos do estudo, população-alvo, e principais resultados. Os dados recolhidos foram analisados através de contagem de frequência, para caracterização dos documentos incluídos e de análise de conteúdo qualitativa descritiva, para resumir as características da experiência do casal. Os resultados são apresentados em quadro e por meio de descrição narrativa.

Quadro 2
Apresentação dos dados extraídos – Lisboa, Portugal, 2025.

RESULTADOS

Foram identificadas, através de pesquisa eletrónica em bases de dados e repositórios, 733 referências. Dessas, 105 foram encontradas na base de dados MEDLINE, 73, na CINAHL, quatro, na SciELO, nove, na JBI Evidence Synthesis, duas, na Psychology and Behavioral Sciences Collection, 19, na PsycINFO, 105, na Web of Science, 356, na Scopus, 37, na Cochrane, oito, na Open Access Theses and Dissertations, 13, na ProQuest Dissertation and Theses Database, e duas, no RCAAP. A pesquisa realizada no Google Scholar não devolveu resultados relevantes.

Dos 733 registos identificados, 710 foram provenientes das bases de dados, e 23 resultaram de outros métodos de pesquisa. Relativamente aos registos identificados nas bases de dados, 212 foram excluídos por estarem duplicados. Dos 498 registos restantes, 463 foram eliminados após leitura do título e do resumo, tendo sido selecionados 35 para recuperação em texto integral. Desses, um registo foi excluído devido à impossibilidade de acesso ao texto completo, apesar dos esforços desenvolvidos nesse sentido. A leitura integral dos 34 registos restantes resultou na exclusão de 26, por não cumprirem os critérios de inclusão, nomeadamente por a ostomia não decorrer de cirurgia por CCR, por a população incluir simultaneamente pessoas com e sem ostomia, por a população não corresponder ao casal, ou por abordarem um conceito distinto. No que diz respeito aos registos identificados por outros métodos, após a leitura do título e do resumo, três foram avaliados segundo os critérios de inclusão, tendo dois sido excluídos pela ostomia não decorrer de cirurgia por CCR e pela população incluir pessoas com e sem ostomia. Assim, um estudo proveniente de outros métodos foi incluído na revisão. No total, foram incluídos nesta revisão nove estudos (Figura 1).

Os estudos incluídos foram publicados entre 2004 e 2024, com pelo menos uma publicação por ano entre 2019 e 2024(38–42), à exceção de 2022, em que não se registaram publicações. Verificaram-se ainda duas publicações em 2018(43,44) e uma publicação nos anos de 2016(45) e 2004(46). Relativamente à origem geográfica dos estudos, verificou-se a existência de três estudos realizados na Indonésia(39,43,44), dois, no Canadá(41,45), dois, na China(38,40), um, na Irlanda(42), e um, na Suécia(46). Relativamente ao tipo de estudos incluídos, sete se enquadram no paradigma qualitativo, com quatro deles recorrendo à abordagem fenomenológica(38,39,43,44), e um deles, à Grounded Theory(41), sendo que um utiliza a análise temática de orientação teórica(45) e o outro utiliza a análise de conteúdo(46). Um dos estudos se insere no paradigma quantitativo, de natureza correlacional(40), e um corresponde a um estudo secundário, sob a forma de revisão da literatura(42). No que diz respeito à população, cinco estudos integraram exclusivamente pessoas com ostomia(38,39,40,43,44), e dois incluíram casais(41,45), nos quais um dos elementos era portador de ostomia e um incluiu cônjuges de pessoas com ostomia(46). Embora os critérios de elegibilidade definidos tenham considerado como adultos as pessoas com idade igual ou superior a 19 anos, alguns estudos consideram como adultos pessoas com 18 ou mais anos. Assim, a idade dos participantes envolvidos variou entre 18 e 80 anos.

Relativamente aos conceitos que são utilizados na evidência acedida, para descrever a experiência do casal perante uma OEI por CCR, foram identificados os conceitos de adaptação e ajustamento.

Foi realizada análise de conteúdo qualitativa de natureza descritiva dos resultados dos estudos incluídos. Procedeu-se a uma leitura minuciosa e iterativa dos dados, a partir da qual foram identificados, de forma indutiva, temas que caracterizassem a experiência do casal. Esses temas foram posteriormente agrupados, por similitude, em categorias e subcategorias. O processo de análise foi conduzido manualmente, sem recurso a software específico de apoio à análise qualitativa, tendo sido discutido entre os investigadores até se alcançar consenso quanto à definição e organização final das categorias.

A análise dos dados extraídos permitiu caracterizar a experiência do casal que enfrenta uma OEI por CCR em três categorias: natureza da experiência; fatores influenciadores; e resultados decorrentes dessa experiência (Quadro 3).

Quadro 3
Caraterização da experiência do casal – Lisboa, Portugal, 2025.

No que diz respeito à natureza da experiência, os estudos analisados descrevem um conjunto de desafios e transformações vividos pelos casais. Foi reportado que esta experiência se configura um desafio constante, marcado pela convivência simultânea com preocupações físicas e psicossociais tanto recentes quanto anteriores(41,46). Foram identificados sentimentos de desconexão entre os cônjuges, expressos pela perceção de “estar no mesmo espaço, mas não conectado”(45), bem como uma flutuação entre a individualidade (“eu”) e a identidade relacional (“nós”)(45). Relatam-se, ainda, processos de diferenciação e afirmação do “nós” conjugal(45), bem como a ocorrência inevitável de períodos de isolamento entre os membros do casal(45).

Entre os fatores facilitadores do processo de adaptação, destacaram-se o apoio interdisciplinar(38,39,40,42) e o aconselhamento pré e pós-cirúrgico(39,40,42). A prestação de cuidados colaborativos(38,39,45,46) e a redistribuição de responsabilidades no seio do casal(45,46) foram igualmente relevantes. O suporte do cônjuge(39,41,42,46) e os cuidados de suporte prestados pelos profissionais de saúde(41) surgiram como determinantes, a partir da capacidade de autocuidado(40,42), da comunicação conjugal(39,41) e da interação em comunidade(41). Outros elementos considerados facilitadores incluíram o pensamento em termos globais(41), a definição de objetivos conjuntos e o encorajamento mútuo(38,46), a disponibilidade informativa e o acolhimento por parte dos profissionais de saúde(44), bem como uma atitude positiva perante a vida(40,46), a esperança de retomar uma vida normal após a ostomia(43,46), a confiança mútua(38), a empatia e compreensão interpessoal(45), o recurso ao senso de “nós” para ultrapassar a adversidade(45), o toque não sexual(38), o contacto com a natureza(38), a condição socioeconómica estável(41), e a fé(38).

Por outro lado, como fatores inibidores, foram salientados sentimentos negativos associados à ostomia, tais como medo(39,43,44,46), insegurança(43,44,46), ansiedade(38,43,46), depressão(38), vergonha(38,43), preocupação(38,40,41,42,43,44) e estresse psicológico(38,42). A falta de informação e de educação para a saúde(38,40,41,42,46), a diminuição da líbido(38,39,42,43,46), a perceção de diminuição da atratividade(38,42,44,46), a ausência de comunicação e apoio por parte dos profissionais de saúde(39,42), a falta de demonstração de interesse pelo cônjuge(38), e as dificuldades financeiras(43,44) foram também identificadas como barreiras relevantes ao processo de adaptação.

A análise dos estudos permite, ainda, identificar um conjunto de resultados tanto positivos quanto negativos. Relativamente aos resultados positivos, foram reportados a aceitação da nova condição de vida(38,40,41,42,45,46), a melhoria da comunicação entre os elementos do casal(38,39,41,42,43) e com a comunidade(41), o reforço do apoio conjugal e social(38,41,42,45,46), e a implementação de cuidados colaborativos no seio da relação(38,39,45,46). Verificaram-se também a capacidade de resistência às alterações na vida sexual(41), o desenvolvimento enquanto casal(39,41,45), o fortalecimento do sentimento de união(41,46) e a perceção de maior proximidade entre os parceiros(39,45). Foram igualmente identificados processos de enfrentamento e reparação da autoimagem(38,41,46), de superação dos impactos da ostomia e do tratamento oncológico na sexualidade(45), de reformulação da identidade após a ostomia(41), e de preservação da identidade do “eu” pelo outro(41). Adicionalmente, foram referidas experiências de celebração e expansão do reportório sexual(41), reforço das ligações emocionais e espirituais em detrimento da intimidade sexual(38), cura espiritual(38), e redescoberta do valor pessoal e do significado da vida(38).

Por fim, quanto aos resultados negativos, foram referidas limitações nas atividades da vida diária, nas relações conjugais(38,41,43,44) e na vida sexual(38,39,42,42,44), alterações nas necessidades físicas e de repouso(42,43,44), bem como modificações no estilo e padrão sexual(39,42,44,46). Foram ainda identificados indícios de desgaste relacional(38,42,46), isolamento social(38,43,44,46), baixa satisfação conjugal(38,39,44), baixa autoestima(42,44,46), alterações da identidade(38) e sofrimento emocional significativo(41).

Para além disso, as lacunas identificadas na evidência se referem à escassez de estudos primários que: i) se dediquem à experiência do casal perante uma OEI por CCR; ii) incluam como participantes a díade conjugal; iii) descrevam a dinâmica da experiência destes casais, nomeadamente os processos de mudança vivenciados; e iv) abordem a experiência do casal como um processo de transição múltipla — de saúde/doença e situacional — vivido pelo casal.

DISCUSSÃO

Os resultados traduzem a existência de um reduzido número de estudos sobre a experiência do casal que enfrenta uma OEI por CCR, com destaque para estudos que se focam na sexualidade do casal (cinco dos nove estudos)(38,42,42), privilegiando, na maioria dos casos, a perspectiva individual. Essa escassez de estudos denota que esse fenómeno ainda está pouco estudado, apontando para necessidade de serem desenvolvidos estudos primários. Na evidência acedida, apenas dois estudos tiveram como participantes diretos o casal(41,45), sendo que os restantes acederam aos dados sobre a experiência do casal através da pessoa ostomizada(38,39,40,43,44) ou do cônjuge(46). Esta opção metodológica pode comprometer a compreensão da vivência conjugal da OEI por CCR, uma vez que fenómenos relacionais são, por natureza, interdependentes. Como referem Revenson et al.(47), fenómenos com elevado impacto funcional e simbólico, como uma ostomia decorrente de CCR, devem ser compreendidos enquanto experiências partilhadas, o que exige abordagens metodológicas capazes de captar a reciprocidade dos significados, das emoções e das estratégias de enfrentamento no seio da díade conjugal. Nesse sentido, diversos autores(48,50,50) sublinham que o recurso a dados diádicos permite aceder de forma mais fidedigna à complexidade da relação conjugal. Quando apenas um dos elementos do casal é incluído no estudo, os dados obtidos podem refletir percepções parciais, enviesadas por fatores emocionais, limitações narrativas ou dificuldades em expressar vivências relacionais de forma abrangente.

A análise dos objetivos dos estudos incluídos nesta scoping review permitiu verificar que, de forma geral, estes se centram na exploração da experiência do casal perante o impacto da ostomia associada ao CCR, com particular ênfase na sexualidade do casal, na qualidade de vida e nos desafios relacionados à adaptação e ao ajustamento à nova condição. Os estudos incluídos reconhecem diversas mudanças experienciadas pelos casais que vivem com uma OEI decorrente de CCR, designadamente nas dimensões física, emocional, relacional, social e espiritual.

Os estudos que integraram esta scoping review utilizam os conceitos de adaptação e de ajustamento quando se referem à experiência. Ainda que utilizados com frequência, esses conceitos raramente são acompanhados de definições, o que dificulta a sua compreensão, distinção analítica e comparação entre estudos. Não obstante, com base na análise realizada, depreende-se que a adaptação é multidimensional(38,41,42,45), envolvendo a resposta e a integração às novas circunstâncias. É indispensável para a manutenção do bem-estar emocional, físico e psicológico do casal, e da qualidade da relação conjugal(38,41,42,45). Já ajustamento corresponde a uma trajetória contínua de resposta prática às mudanças físicas, psicológicas e sociais impostas pela condição(39,43,45). De forma geral, o ajustamento é descrito como as estratégias adotadas para lidar com as disrupções sexuais após a cirurgia(39), as modificações realizadas nas rotinas diárias, nos cuidados pessoais e nas interações sociais(43), e em uma perspectiva relacional, implica equilíbrio delicado entre a preservação da identidade individual de cada elemento e a manutenção da ligação afetiva e funcional da díade(45). A evidência acedida permite perceber que esses conceitos estão interligados. No estudo de Tripaldi(42), os conceitos de adaptação e ajustamento estão presentes de forma implícita, mas não são apresentados de forma independente nem diferenciados conceptualmente, surgindo integrados na discussão de estratégias de coping, alterações na identidade e dinâmicas relacionais. Contudo, uma análise mais detalhada revela que a adaptação é concebida como uma resposta — englobando integração e aceitação(40,43) —, enquanto o ajustamento reflete um processo ativo e dinâmico de mudança e negociação(45).

Importa ainda destacar que nenhum dos estudos recorreu explicitamente ao conceito de transição para designar a experiência vivida pelo casal que enfrenta uma OEI no contexto do CCR. Sendo a transição definida como um processo e resultado da passagem de uma condição ou estado para outro, designadamente os relacionados à saúde e ao desempenho de papéis(24,25), seria expectável que tal conceito fosse utilizado na investigação da experiência desses casais. Essa ausência evidencia uma fragilidade relevante na abordagem teórica da problemática em estudo, e sugere a pertinência de aprofundar a compreensão dessa vivência à luz da perspectiva da Teoria das Transições, contribuindo, assim, para uma análise mais abrangente e sensível às dinâmicas processuais envolvidas.

Em relação à natureza da experiência, os estudos salientam os desafios e as mudanças experienciados pelos casais. Vários autores(41,46) referem que essa vivência constitui um desafio constante, uma vez que os casais lidam simultaneamente com preocupações emergentes relacionadas à doença e à ostomia, e com questões psicossociais previamente existentes, que podem ser reativadas ou aumentadas no contexto da adversidade. Contudo, revelam que a experiência é vivida de forma divergente entre os casais estudados, oscilando entre sentimentos de desconexão conjugal(45) e reforço do vínculo(39,45) entre o “eu” e o “nós”, revelando a complexidade da adaptação a uma nova identidade, condicionada pela ostomia e pelas repercussões da doença.

A evidência científica demonstra que essa alternância entre desconexão e fortalecimento conjugal(21), no contexto de uma ostomia, não ocorre de forma aleatória, mas resulta da interação complexa entre múltiplos fatores relacionais. Nesse sentido, a comunicação eficaz assume um papel decisivo: os casais que conseguem partilhar emoções, negociar papéis e trocar informações com abertura tendem a reforçar o sentimento de pertença e de unidade (“nós”)(51). Esses autores identificam que a eficácia diádica, ou seja, a confiança conjunta na capacidade de enfrentar o cancro, é facilitada por uma comunicação fluida, interesse mútuo na informação e estratégias de coping comuns, enquanto as barreiras nessa comunicação resultam em menor coesão e maior sofrimento emocional.

O alinhamento de expectativas e perceções entre os cônjuges também se mostra fundamental. Qin et al.(52) salientam que abordagens congruentes na perceção do estresse e nas respostas adaptativas, nomeadamente entre medo da recidiva e abordagem conjunta, contribuem para níveis superiores de resiliência e ajustamento conjugal.Quando as perceções divergem, por exemplo, quando a pessoa ostomizada minimiza o impacto enquanto o cônjuge se sente sobrecarregado, tende a surgir uma crescente sensação de desconexão e desajuste na díade.

Adicionalmente, o apoio social e o acesso a recursos profissionais, como programas de coping para casais com CCR, demonstram impactar positivamente a experiência partilhada. Intervenções estruturadas que promovem a comunicação de estresse e o coping comunitário, bem como estratégias educativas destinadas a envolver ambos os parceiros, têm sido associadas a melhorias na satisfação relacional e na saúde mental individual(51,53,54). Nesta linha, e de acordo com os dados obtidos nesta revisão, depreende-se que fatores como boa comunicação, partilha de responsabilidades, alinhamento emocional e suporte profissional adequado favorecem a emergência de um renovado sentido de “nós”. Esse sentido partilhado permite aos casais enfrentar a ostomia e as repercussões do CCR com maior coesão e ajustamento mútuo. Por oposição, os fatores inibidores apontam para barreiras à adaptação, nomeadamente sentimentos de vergonha, medo, ansiedade e depressão, falta de informação, apoio profissional, e dificuldades económicas.

Os resultados da revisão, ao identificarem como fator facilitador da experiência o apoio por parte dos profissionais de saúde, e, como fatores inibidores, a escassez de informação e de educação para a saúde, bem como a ausência de uma comunicação profissional de apoio, parecem evidenciar a necessidade dos profissionais — nomeadamente os enfermeiros — aprofundarem o seu conhecimento sobre esse fenómeno, de modo a fundamentar intervenções que apoiem efetivamente os casais perante essa experiência.

A leitura crítica dos resultados permite constatar que a vivência do casal perante uma OEI por CCR é simultaneamente transformadora e vulnerável, integrando dimensões positivas, como aceitação, apoio mútuo, colaboração nos cuidados e reforço da identidade conjugal, e dimensões negativas, como alterações na intimidade sexual, isolamento emocional, e impacto na autoestima e na identidade individual. Essa coexistência de polaridades sugere que a experiência da ostomia por CCR, quando vivida no contexto conjugal, não é linear e nem unívoca, e confirma que enfrentar uma OEI por CCR ultrapassa os limites da adaptação individual, constituindo uma experiência relacional que envolve a renegociação de papéis e de significados no seio da díade conjugal. Essa perspectiva encontra suporte na literatura recente. Lin et al.(55), por exemplo, sublinham que as alterações funcionais e as perturbações psicológicas interferem significativamente na intimidade conjugal e na percepção do valor pessoal, reforçando a importância de intervenções orientadas para a relação diádica. Nesse sentido, os dados desta revisão evidenciam que os resultados positivos e negativos da experiência conjugal coexistem e interagem, sustentando a necessidade de estratégias de intervenção específicas centradas no casal, como aconselhamento sexual e conjugal, programas educativos para casais e apoio emocional continuado, que favoreçam os processos de ajustamento mútuo(53,54).

Limitações

Identificam-se como limitações desta scoping review ter integrado um número reduzido de estudos que abordam a experiência do casal que enfrenta uma OEI por CCR como unidade. Embora a evidência privilegie a experiência do casal, o facto de a maioria dos estudos selecionados ter como participantes apenas um membro ostomizado daquele, poderá ter gerado algum viés de perceção nos resultados daqueles estudos e, por tal, também nos desta revisão. Acresce uma limitação de ordem metodológica, relacionada à impossibilidade de aceder ao texto completo de um dos artigos identificados durante o processo de seleção. Apesar dos esforços, nomeadamente a consulta a repositórios institucionais, bibliotecas académicas e o contacto direto com os autores, não foi possível garantir o seu acesso, o que restringiu o corpo de evidência disponível para análise.

Contribuições para a Área da Enfermagem

Apesar de a natureza desta revisão não permitir retirar implicações para a prática, os resultados apontam para elementos importantes que podem orientar os profissionais de saúde, concretamente os enfermeiros. Os resultados desta scoping review alertam para exigências e transformações que os casais podem enfrentar nesta condição, evidenciando a importância de assegurar suporte contínuo e educação para a saúde, mediante intervenções que facilitem os processos de mudança enfrentados pelo casal, promovendo, entre outros resultados, a resiliência e o bem-estar conjugal.

CONCLUSÃO

A presente revisão, sem limite temporal, permite concluir a escassez de evidência científica sobre o fenómeno. A evidência disponível teve origem em seis países. Embora reportando à experiência do casal perante uma EOI por CCR, os participantes foram maioritariamente a pessoa com ostomia. Na nomeação daquela experiência, destacou-se o recurso aos conceitos de adaptação e de ajustamento. A experiência desses casais foi marcada pela necessidade de ajustes contínuos e mútuos perante as mudanças impostas pela ostomia e por uma dualidade entre desafios e oportunidades de crescimento. Tal experiência foi caracterizada em três categorias: i) a natureza da experiência; ii) fatores facilitadores e inibidores; e iii) resultados positivos e negativos.

Centrando a atenção na construção de conhecimento relevante para a enfermagem, considera-se importante o desenvolvimento de investigação primária que possibilite melhorar a compreensão da experiência dos casais que enfrentam OEI por CCR. Nesse âmbito, destaca-se a relevância do estudo da dinâmica subjacente à sua adaptação, ajustamento ou transição diante de tais condições, ou seja, o estudo do(s) processo(s) de mudança enfrentado(s) pela díade. Os achados destes estudos poderão constituir uma base de conhecimento para o desenvolvimento posterior de intervenções que facilitem tais processos e a obtenção de resultados em saúde para esses casais.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Cristina Lavareda Baixinho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Jun 2025
  • Aceito
    03 Nov 2025
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