Open-access Letramento em saúde e seus determinantes sociodemográficos e de saúde

RESUMO

Objetivo:  Avaliar o letramento em saúde e suas associações sociodemográficas e clínicas entre usuários de unidade de pronto atendimento.

Método:  Estudo transversal realizado em unidade de pronto atendimento 24h no sul do Brasil, com amostra de 550 usuários (≥18 anos). Aplicaram-se questionário sociodemográfico e clínico e as escalas 1 a 5 do Health Literacy Questionnaire. Realizaram-se análises descritivas e inferenciais (teste t de Student e ANOVA; p ≤ 0,05).

Resultados:  As maiores médias ocorreram em “suporte social” (2,95 ± 0,60) e “avaliação das informações” (2,71 ± 0,44), e as menores em “informações suficientes” (2,64 ± 0,49) e “compreensão profissional” (2,69 ± 0,58). Escores mais elevados associaram-se ao sexo feminino (p = 0,021), idade >40 anos (p ≤ 0,044), viver em união (p = 0,045; p = 0,010), coabitação (p = 0,008), maior renda (p = 0,006; p = 0,007) e maior escolaridade própria e parental (p ≤ 0,038). Hábito de leitura associou-se a todas as dimensões (p ≤ 0,005). Problema de saúde (p ≤ 0,023), adesão ao tratamento (p < 0,05), procura recente de serviço (p ≤ 0,037) e busca de informações com profissionais (p = 0,001) também influenciaram os escores.

Conclusão:  O letramento em saúde variou significativamente segundo características sociodemográficas e clínicas entre usuários.

DESCRITORES
Serviços Médicos de Emergência; Literacia para a Saúde; Comportamentos Relacionados com a Saúde; Características da População.

ABSTRACT

Objective:  To assess health literacy and its sociodemographic and clinical associations among users of an emergency care unit.

Method:  A cross-sectional study was conducted in a 24-hour emergency care unit in southern Brazil, with a sample of 550 users (≥18 years). A sociodemographic and clinical questionnaire was applied, along with scales 1 to 5 of the Health Literacy Questionnaire. Descriptive and inferential analyses were performed (Student’s t-test and ANOVA; p ≤ 0.05).

Results:  The highest averages were found in “social support” (2.95 ± 0.60) and “information assessment” (2.71 ± 0.44), and the lowest in “sufficient information” (2.64 ± 0.49) and “professional understanding” (2.69 ± 0.58). Higher scores were associated with female sex (p = 0.021), age >40 years old (p ≤ 0.044), living together (p = 0.045; p = 0.010), cohabitation (p = 0.008), higher income (p = 0.006; p = 0.007), and higher own or parents’ education level (p ≤ 0.038). Reading habits were associated with all dimensions (p ≤ 0.005). Health problem (p ≤ 0.023), adherence to treatment (p < 0.05), recent service search (p ≤ 0.037), and seek for information from professionals (p = 0.001) also influenced the scores.

Conclusion:  Health literacy varied significantly according to sociodemographic and clinical characteristics among users.

DESCRIPTORS
Emergency Medical Services; Health Literacy; Health Behavior; Population Characteristics.

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar la alfabetización en salud y sus asociaciones sociodemográficas y clínicas entre los usuarios de un servicio de urgencias.

Método:  Estudio transversal realizado en un servicio de urgencias de 24 horas en el sur de Brasil, con una muestra de 550 usuarios (≥18 años). Se aplicó un cuestionario sociodemográfico y clínico, así como las escalas del 1 al 5 del Health Literacy Questionnaire. Se realizaron análisis descriptivos e inferenciales (prueba t de Student y ANOVA; p ≤ 0,05).

Resultados:  Las medias más altas se registraron en “apoyo social” (2,95 ± 0,60) y “evaluación de la información” (2,71 ± 0,44), y las más bajas en “información suficiente” (2,64 ± 0,49) y “comprensión profesional” (2,69 ± 0,58). Las puntuaciones más altas se asociaron con el sexo femenino (p = 0,021), edad >40 años (p ≤ 0,044), vivir en unión libre (p = 0,045; p = 0,010), convivencia (p = 0,008), mayor ingreso (p = 0,006; p = 0,007) y mayor nivel educativo propio y de los padres (p ≤ 0,038). El hábito de lectura se asoció con todas las dimensiones (p ≤ 0,005). Los problemas de salud (p ≤ 0,023), la adherencia al tratamiento (p < 0,05), la búsqueda reciente de servicios (p ≤ 0,037) y la búsqueda de información con profesionales (p = 0,001) también influyeron en las puntuaciones.

Conclusión:  La alfabetización en salud varió significativamente según las características sociodemográficas y clínicas entre los usuarios.

DESCRIPTORES
Servicios Médicos de Urgencia; Alfabetización en Salud; Conductas Relacionadas con la Salud; Características de la Población.

INTRODUÇÃO

O Sistema Único de Saúde (SUS) estrutura-se em três bases hierárquicas, considerando os níveis de atenção à saúde: Atenção Básica, média complexidade e alta complexidade. A articulação desses níveis é essencial para um atendimento adequado e eficiente, visando o cuidado integral do paciente(1). Como integrante dos serviços de saúde do SUS, a Unidade de Pronto Atendimento 24h (UPA 24h) é um serviço com complexidade intermediária entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e a Rede Hospitalar. O serviço visa garantir atendimento resolutivo aos usuários acometidos por quadros agudos de natureza clínica e em situações cirúrgicas e trauma(2).

Neste contexto, o Letramento em Saúde (LS) é essencial para que a população possa cuidar de sua saúde, fazer o acompanhamento, aderir ao tratamento e tomar decisões em prol de sua saúde, o que pode impactar diretamente na qualidade de saúde dos indivíduos e da comunidade(3). Em 2020, o U.S. Department of Health and Human Services (Departamento de Saúde e Serviços Humanos do Estados Unidos, em português) definiu LS – Health Literacy como “o grau de habilidade que cada indivíduo tem para encontrar, compreender e utilizar informações e serviços para tomar decisões e ações para a própria saúde e de outros”(4).

De forma convergente, a Organização Mundial de Saúde ampliou a definição ao afirmar que o LS não é apenas um atributo individual, mas também um produto das condições sociais, econômicas e institucionais. Assim, cabe aos serviços de saúde criar ambientes, materiais e práticas comunicacionais que apoiem a compreensão, a tomada de decisão e o exercício da autonomia, destacando o papel das organizações de saúde no desenvolvimento das habilidades de LS da população(5).

O LS tem múltiplos conceitos e está relacionado e interposto entre os campos da saúde e da educação, visando melhoria da qualidade de vida e autonomia do indivíduo. Para avaliar as potencialidades e fragilidades do LS dos indivíduos(6), uma das ferramentas utilizadas é o Health Literacy questionnaire (HLQ)(7). Trata-se de um instrumento multidimensional, aplicável em diferentes culturas e países com intuito de avaliar o LS, para além das habilidades cognitivas de leitura e numeramento(78).

Estudos sobre LS têm sido conduzidos em diferentes contextos assistenciais e populacionais, incluindo usuários da APS com condições crônicas, como hipertensão arterial e diabetes mellitus tipo II(9), bem como indivíduos submetidos à terapia dialítica(10), pessoas na emergência(11), com doença arterial coronariana(12), pacientes com câncer hematológico(13), profissionais de saúde(14), cuidadores domiciliares(15) e pessoas que vivem com transtornos mentais graves e persistentes(16). De modo geral, essas investigações evidenciam associações consistentes entre o LS, fatores sociodemográficos, adesão terapêutica e capacidade de autogestão do cuidado. Entretanto, tais estudos concentram-se predominantemente em cenários eletivos ou de acompanhamento longitudinal, permanecendo limitada a produção científica voltada aos serviços de urgência e emergência.

No âmbito dos serviços de emergência, a literatura contempla investigações realizadas com cuidadores em pronto-socorro pediátrico(17), análises comparativas com a população geral(18) e estudos que abordam fatores relacionados à autogestão em contextos hospitalares de emergência(19). Entretanto, observa- se escassez de evidências direcionadas aos serviços de urgência intermediários, como as UPA 24h, que ocupam posição estratégica na Rede de Atenção às Urgências e caracterizam-se por elevada demanda assistencial, vulnerabilidade comunicacional e necessidade de decisões rápidas. Nesse cenário, limitações no LS podem comprometer a compreensão das orientações em saúde, a adesão ao tratamento e o uso adequado dos diferentes pontos da rede assistencial. Assim, analisar o LS de usuários da UPA 24h e sua relação com características sociodemográficas e clínicas contribui para reduzir a lacuna do conhecimento e qualificar a prática assistencial. Parte-se, neste estudo, da hipótese de que usuários da UPA 24h apresentam níveis de LS associados a características sociodemográficas, educacionais, comportamentais e clínicas, os quais se associam à compreensão das orientações, a adesão ao tratamento e o padrão de utilização dos serviços de saúde.

Nesse contexto, este estudo visa avaliar o letramento em saúde e suas associações sociodemográficas e clínicas entre usuários de unidade de pronto atendimento.

MÉTODO

Tipo e Local do Estudo

Estudo transversal, conforme guidelines STROBE, realizado em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24h de porte I no Rio Grande do Sul, Brasil, que realiza em média 5.651 atendimentos mensais. A UPA dispõe de estrutura para atendimento adulto e pediátrico, funcionando 24 horas, sete dias por semana, com equipe mínima composta por médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, além de suporte laboratorial e radiológico.

Definição da Amostra

A amostra incluiu usuários ≥18 anos atendidos entre janeiro e fevereiro de 2024. Foram excluídos indivíduos com déficit cognitivo identificado por desorientação, incoerência ou incapacidade de compreender informações, bem como aqueles impossibilitados de se comunicar verbalmente ou responder ao instrumento. O déficit cognitivo foi avaliado por um enfermeiro treinado, previamente à coleta de dados. Foram excluídos os pacientes classificados como risco vermelho, por se tratarem de casos que exigem atendimento imediato, caracterizados por instabilidade clínica grave, risco iminente de morte e necessidade de intervenção rápida.

O cálculo amostral considerou população de 5.651 usuários, erro de 4% e confiança de 95%, resultando em 543 participantes. A amostragem foi probabilística, selecionando-se 1 a cada 10 usuários elegíveis, após sorteio do ponto inicial. Utilizou-se a fórmula:

n = [N · Z 2 · p (1-p)]/[Z 2 · p (1-p) + e 2 (N-1)]

Coleta de Dados

Os participantes foram convidados a participar do estudo a partir do seu ingresso na UPA. O questionário sociodemográfico incluiu idade, sexo, estado civil, coabitação, renda familiar, escolaridade do participante e escolaridade dos pais (nenhuma instrução/não sabe, ensino fundamental, ensino médio ou ensino superior/pós-graduação). Também foram coletadas variáveis comportamentais e de condições de saúde: hábito de leitura, avaliado por pergunta dicotômica (“Você possui hábito de leitura?”), sendo sim quando havia leitura rotineira de materiais impressos ou digitais; e adesão ao tratamento, investigada por autorrelato (“Você segue regularmente as orientações e tratamentos prescritos?”), considerando-se sim quando o indivíduo cumpria a maior parte das recomendações. Registraram-se ainda presença e tipo de problema de saúde, procura de serviços nos últimos 30 dias e fonte de busca de informações. A coleta ocorreu presencialmente via Google Forms. O HLQ, validado no Brasil (78), avaliou o LS pelas escalas 1 a 5, conforme recomendações originais(8). Seu uso foi definido por realização de uma avaliação multidimensional. Embora o HLQ contemple nove escalas que abrangem dimensões individuais, interpessoais e organizacionais do LS, este estudo priorizou as escalas 1 a 5 por representarem competências diretamente mobilizadas no momento do atendimento na UPA, como a compreensão das orientações profissionais, a avaliação das informações recebidas e o engajamento no cuidado.

Análise e Tratamento dos Dados

A análise estatística foi realizada no IBM SPSS 25.0, adotando significância de 5%. Realizaram-se análises descritivas, teste de normalidade de Kolmogorov–Smirnov e comparações entre grupos por t de Student ou ANOVA One-Way com post-hoc Bonferroni. Além disso, compararam-se as escalas do HLQ segundo escolaridade, escolaridade dos pais, hábito de leitura, presença e tipo de problema de saúde, procura de serviços de saúde nos últimos 30 dias, fonte de busca de informações e adesão ao tratamento, empregando os mesmos testes conforme aplicável. Na análise comparativa, a renda familiar foi categorizada em três faixas: até R$ 2.900,00; acima de R$ 2.900,00 até R$ 4.900,00; e acima de R$ 4.900,00.

Aspectos Éticos

O uso do HLQ foi autorizado pelos detentores dos direitos autorais (Swinburne University) (hlinfo@swin.edu.au) e projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE nº 75589123800005350, Parecer nº 6570946, 11 de dezembro de 2023). A coleta dos dados ocorreu mediante anuência no Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE), pela(o)s participante(s).

RESULTADOS

Participaram 550 usuários da UPA 24h, majoritariamente mulheres (54,5%) e adultos entre 18 e 40 anos (54,5%). Predominaram indivíduos brancos (71,6%), com ensino médio (52,3%) e coabitando com outras pessoas (86,9%). A distribuição segundo estado civil mostrou-se equilibrada, enquanto a renda mensal apresentou distribuição relativamente homogênea entre as três faixas de renda analisadas (Tabela 1).

Tabela 1
Caracterização sociodemográfica e de condições de saúde dos usuários que acessam a UPA 24h- Ijuí, RS, Brasil, 2024.

A análise das condições de saúde dos pacientes indicou que metade dos usuários não relatou nenhuma doença crônica (303; 55,1%) e os demais (247; 44,9%) informaram que eram acometidos por diversas patologias, como diabetes mellitus (9; 1,6%), hipertensão arterial sistêmica – HAS (81; 14,7%), diabetes mellitus e HAS concomitantes (24; 4,3%), transtorno mental (56; 10,1%), entre outras condições de saúde. A avaliação do LS identificou como pontos fortes o “suporte social para a saúde” e a “avaliação das informações em saúde” e como fragilidades as demais escalas (Tabela 2), considerando as maiores médias observadas, ainda que com diferenças discretas entre as escalas.

Tabela 2
Médias de letramento em saúde dos usuários que acessam a UPA 24h referente às escalas 01 a 05 do Health Literacy Questionnaire- Ijuí, RS, Brasil, 2024.

O LS variou de acordo com as características sociodemográficas. Observou-se variação significativa no LS segundo sexo, idade, estado civil, coabitação e renda. Mulheres apresentaram maiores médias no domínio de avaliação da informação (p = 0,021). Usuários acima de 40 anos exibiram níveis superiores em compreensão, cuidado ativo e suporte social (p < 0,05). Viver em união associou-se a maiores escores em informações e avaliação das informações. A coabitação influenciou o suporte social (p = 0,008). Renda mais alta mostrou melhor desempenho em suporte social e avaliação das informações (p < 0,01), indicando influência socioeconômica no letramento. (Tabela 3).

Tabela 3
Médias de letramento em saúde dos usuários que acessam a UPA 24h, segundo as características sociodemográficas – Ijuí, RS, Brasil, 2024.

A Tabela 4 mostra que os níveis de LS foram significativamente maiores em usuários com ensino superior ou pós-graduação, especialmente na compreensão e apoio dos profissionais, acesso a informações suficientes, cuidado ativo e avaliação das informações (p < 0,05). A escolaridade da mãe e do pai também se relacionou positivamente com o LS, destacando-se a influência dos pais na compreensão e avaliação das informações de saúde. Não foram observadas diferenças significativas no apoio social de acordo com a escolaridade.

Tabela 4
Médias de letramento em saúde dos usuários que acessam a UPA 24h, segundo o seu nível de instrução e o de seus pais – Ijuí, RS, Brasil, 2024.

A Tabela 5 mostra que usuários com hábito de leitura apresentaram melhores escores em todas as dimensões do HLQ (p < 0,005), indicando maior LS. Problemas de saúde associaram-se a maiores escores em E1 e E2 (p < 0,05), e aqueles com múltiplas condições mostraram maior suporte social (E4) (p < 0,001). A adesão ao tratamento esteve ligada a melhores resultados em quase todas as dimensões (p < 0,05). Usuários que buscaram atendimento nos últimos 30 dias tiveram escores mais altos em E1 e E2 (p < 0,05), com destaque para o grupo “outros” em E1 e E3. A busca de informações com profissionais elevou os escores em E1 (p = 0,001). Esses achados reforçam a importância do hábito de leitura e da adesão ao tratamento para o LS na UPA 24h.

Tabela 5
Médias de letramento em saúde dos usuários que acessam a UPA 24h, segundo seus hábitos e a suas condições de saúde- Ijuí, RS, Brasil, 2024.

DISCUSSÃO

Este estudo pioneiro no Brasil avaliou o LS de usuários de uma UPA 24h e identificou um perfil marcado por desigualdades sociodemográficas e clínicas, com implicações diretas para a comunicação, a tomada de decisão e a continuidade do cuidado em contextos de urgência. As maiores fortalezas situaram-se no suporte social para a saúde e na avaliação das informações, enquanto as principais fragilidades foram observadas na compreensão e apoio dos profissionais, no acesso a informações suficientes e no cuidado ativo da saúde. Esse padrão é concordante com achados internacionais que indicam menor LS em serviços de emergência em comparação a populações gerais, como observado na França e na Alemanha(17,19).

A dimensão de suporte social apresentou as maiores médias, alinhando-se a evidências de que redes de apoio influenciam positivamente o bem-estar, a adesão terapêutica e a capacidade de lidar com situações agudas(20). Da mesma forma, a boa avaliação das informações sugere que os usuários conseguem discriminar conteúdos confiáveis, achado também relatado entre adultos japoneses, que demonstraram habilidade de julgamento informacional relevante para o autocuidado(21).

O LS variou significativamente conforme características sociodemográficas, reforçando sua associação com determinantes sociais da saúde. Mulheres apresentaram melhor desempenho na avaliação das informações, resultado apoiado por outro estudo realizado, que também sugere maior iniciativa feminina na busca e interpretação de dados de saúde(22). No entanto, a literatura ressalta a necessidade de fortalecer o LS das mulheres, dada sua função central na gestão do cuidado familiar(23).

Pessoas acima de 40 anos apresentaram escores mais altos em compreensão, apoio profissional, cuidado ativo e suporte social. Estudos internacionais apontam que essa vantagem pode decorrer da maior familiaridade acumulada com serviços de saúde e da experiência prévia na gestão de condições crônicas(24).

A coabitação mostrou associação positiva com suporte social e habilidades de obtenção e avaliação de informações, reforçando a contribuição de redes afetivas e sociais, conforme apontado em estudos que destacam o papel do suporte emocional e instrumental no LS(18,25). A renda familiar influenciou principalmente o suporte social e a avaliação da informação, achado consistente com pesquisas que identificam menor LS entre indivíduos com baixa renda, devido a desigualdades no acesso a recursos educativos, tecnologias e serviços(26-27).

A escolaridade própria e a dos pais emergiram como determinantes centrais do LS, influenciando domínios relacionados à compreensão, informação suficiente e avaliação das informações. Evidências demonstram que a baixa escolaridade limita a compreensão de orientações e formulários, dificultando a tomada de decisões e a navegação no sistema de saúde(28). A forte relação entre escolaridade parental e LS reforça a transmissão intergeracional de capital educacional e habilidades cognitivas relevantes para o cuidado.

O hábito de leitura foi um dos fatores comportamentais mais fortemente associados ao LS, corroborando estudos que mostram que a leitura regular favorece o desenvolvimento de habilidades cognitivas e interpretativas usadas na compreensão de orientações e na gestão da saúde(29). Esse achado destaca oportunidades para intervenções educativas voltadas à promoção de práticas de leitura como estratégia de fortalecimento do LS.

Usuários com algum problema de saúde apresentaram maiores níveis de LS em comparação aos sem doenças, contrastando com dados franceses que mostraram maior LS limitado entre pacientes com condições crônicas(19). Essa diferença pode ser explicada pelo maior contato desses usuários com o sistema de saúde, embora se reconheça que doenças como hipertensão e diabetes podem comprometer a cognição e influenciar negativamente o LS(30).

A adesão ao tratamento esteve associada a melhores escores em várias dimensões do LS, em consonância com evidências que relacionam o LS adequado à compreensão de prescrições, ao autocuidado eficaz e à tomada de decisões seguras(31). Usuários que procuraram serviços de saúde nos últimos 30 dias apresentaram melhor desempenho na obtenção de informações, sugerindo que o contato recente com profissionais pode reforçar orientações e promover maior clareza nas condutas(32).

A busca de informações com profissionais também se associou à maior compreensão e apoio percebido, evidenciando o papel fundamental da comunicação profissional-usuário. Estratégias como o Teach-back, amplamente recomendadas, auxiliam na verificação da compreensão e reduzem falhas comunicacionais(33). Considerando que o LS é concebido como tecnologia leve ancorada no vínculo, confiança e adaptação da linguagem ao contexto do usuário(3), o profissional de enfermagem tem papel estratégico na redução das desigualdades informacionais.

Por fim, observa-se que a utilização frequente da UPA 24h pode refletir limitações no LS, expressas por dificuldades na adesão ao tratamento, na navegação pelos diferentes pontos da rede de atenção e na adequada interpretação das orientações em saúde, o que repercute em sobrecarga dos serviços e elevação dos custos assistenciais(34). Nesse sentido, o fortalecimento do LS configura-se como estratégia fundamental para reduzir demandas desnecessárias, prevenir descompensações clínicas, subsidiar decisões informadas e promover maior equidade no acesso ao cuidado(19). Ademais, torna-se imprescindível que os profissionais de saúde reconheçam a singularidade de cada usuário e incorporem estratégias de LS em sua prática assistencial, favorecendo o empoderamento dos indivíduos e ampliando sua capacidade de participar ativamente das decisões relacionadas à própria saúde e ao bem-estar(35).

Esses achados reforçam o potencial do LS como ferramenta estratégica para qualificar a organização do cuidado na UPA, contribuindo para decisões mais seguras, comunicação efetiva e integração com a Rede de Atenção às Urgências.

Entre as limitações do estudo, destaca-se a exclusão de usuários classificados como risco vermelho e daqueles com déficit cognitivo, que, por razões éticas e clínicas, não puderam ser incluídos, o que pode restringir a compreensão do LS em grupos mais vulneráveis. Ademais, o delineamento transversal e a realização da pesquisa em uma única UPA de porte I limitam a generalização dos resultados. Recomenda-se que investigações futuras incorporem estratégias para a inclusão de perfis clínicos mais complexos, ampliem a representatividade dos participantes e considerem a realização de análises multivariadas, a fim de aprofundar a compreensão dos fatores associados ao LS nesse contexto.

CONCLUSÃO

Este estudo demonstrou que o LS dos usuários de uma UPA 24h varia significativamente segundo fatores sociodemográficos e clínicos, com destaque para sexo, idade, estado civil, renda, escolaridade, hábito de leitura e adesão ao tratamento. As maiores fortalezas identificadas foram o suporte social e a avaliação das informações, enquanto persistiram fragilidades relacionadas à comunicação com profissionais, ao acesso a informações suficientes e ao manejo ativo da saúde. Os achados evidenciam a utilidade do HLQ para identificar padrões de LS nesse contexto assistencial, contribuindo para a compreensão das vulnerabilidades informacionais presentes nos serviços de urgência.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

  • Apoyo financiero:
    Con el apoyo de la Beca de Productividad del Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), proceso 301694/2025-7, de la última autora, y de becarios de Iniciación Científica – Programa Institucional de Iniciación Científica (PIBIC) y de la Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) , Programa Investigador Gaúcho – PqG, proceso 24/2551-0001530-2.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Lilia de Souza Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Out 2025
  • Aceito
    09 Abr 2026
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