Open-access Capacitação de profissionais de enfermagem para administração de imunobiológicos na região ventroglútea: relato de experiência

RESUMO

Objetivo:  Relatar a experiência de planejamento e desenvolvimento de capacitação para administração de imunobiológico na região ventroglútea.

Método:  Relato de experiência, referente à capacitação dirigida a profissionais de enfermagem, realizada em setembro de 2024, com integração de projetos de extensão e parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Divinópolis, Minas Gerais.

Resultados:  Realizaram-se 23 capacitações, com a participação de 278 profissionais. Cada encontro, com duração de três horas, foi estruturado em três momentos: abordagem teórica sobre anatomia; teórica sobre administração de imunobiológicos; e prática da técnica de localização da região ventroglútea. As atividades foram conduzidas por um professor, com apoio de um mediador e ao menos dois monitores. As turmas, compostas em média por 14 profissionais, permitiram acompanhamento individualizado e maior interação nas discussões e práticas.

Conclusão:  Este relato contribui ao demonstrar a viabilidade da implementação de uma capacitação teórico-prática voltada à administração de imunobiológicos na região ventroglútea no contexto da Atenção Primária à Saúde, evidenciando potencial para qualificar a prática profissional e ampliar a segurança no processo de vacinação.

DESCRITORES
Atenção Primária à Saúde; Capacitação Profissional; Equipe de Enfermagem; Vacinação; Imunização

ABSTRACT

Objective:  To report the experience of planning and developing a training program for immunobiological administration in the ventrogluteal region.

Method:  An experience report regarding a training program directed at nursing professionals, conducted in September 2024 through the integration of extension projects and in partnership with the Municipal Health Department of Divinópolis, Minas Gerais, Brazil.

Results:  Twenty-three training sessions were conducted, involving 278 professionals. Each session, lasting three hours, was structured into three stages: a theoretical approach to anatomy; a theoretical approach to immunobiological administration; and practical training in the technique for locating the ventrogluteal region. Activities were conducted by a faculty member, supported by a facilitator and at least two student monitors. The groups, composed of an average of 14 professionals, allowed individualized follow-up and greater interaction during discussions and practical activities.

Conclusion:  This report contributes by demonstrating the feasibility of implementing a theoretical-practical training program focused on immunobiological administration in the ventrogluteal region within the context of Primary Health Care, highlighting its potential to improve professional practice and increase safety in the vaccination process.

DESCRIPTORS
Primary Health Care; Professional Training; Nursing, Team; Vaccination; Immunization

RESUMEN

Objetivo:  Relatar la experiencia de planificación y desarrollo de una capacitación para la administración de inmunobiológicos en la región ventroglútea.

Método:  Relato de experiencia, referente a la capacitación dirigida a profesionales de enfermería, realizada en septiembre de 2024, con integración de proyectos de extensión y en colaboración con la Secretaría Municipal de Salud de Divinópolis, Minas Gerais.

Resultados:  Se llevaron a cabo 23 sesiones de capacitación, con la participación de 278 profesionales. Cada sesión, de tres horas de duración, se estructuró en tres partes: enfoque teórico sobre anatomía; teórico sobre la administración de inmunobiológicos; y práctica de la técnica de localización de la región ventroglútea. Las actividades fueron dirigidas por un profesor, con el apoyo de un mediador y al menos dos monitores. Las clases, compuestas en promedio por 14 profesionales, permitieron un seguimiento individualizado y una mayor interacción en los debates y las prácticas.

Conclusión:  Este informe contribuye a demostrar la viabilidad de la implementación de una capacitación teórico-práctica orientada a la administración de inmunobiológicos en la región ventroglútea en el contexto de la Atención Primaria en Salud, evidenciando el potencial para mejorar la práctica profesional y aumentar la seguridad en el proceso de vacunación.

DESCRIPTORES
Atención Primaria de Salud; Capacitación Profesional; Grupo de Enfermería; Vacunación; Inmunización

INTRODUÇÃO

A vacinação constitui um campo complexo e em constante evolução, cabendo à equipe de enfermagem a responsabilidade por todas as etapas do processo(1). Essa complexidade decorre das frequentes atualizações nos calendários vacinais, da incorporação de novos imunobiológicos e da ampliação das faixas etárias contempladas, o que exige capacitação contínua e supervisão sistemática dos profissionais que atuam nas salas de vacinação(1,2,3).

Essa constante transformação nem sempre permite que os profissionais estejam preparados para compreendê-las e compartilhá-las adequadamente, o que reforça a importância de capacitações bem estruturadas, que aliem a teoria à aplicação prática da vacinação(4). Evidências indicam que treinamentos estruturados podem melhorar significativamente as práticas de administração de imunobiológicos, padronizar procedimentos e aumentar a segurança durante o procedimento de vacinação(5,6,7).

Embora uma assistência de qualidade deva estar fundamentada em conhecimentos atualizados, observa-se, muitas vezes, a ausência de processos de qualificação contínua, o que resulta em dúvidas e dificuldades no cotidiano de trabalho, despertando sentimentos como medo, insegurança e receio(2). Evidências apontam que as capacitações têm ocorrido de forma pontual e predominantemente direcionadas à operacionalização de demandas emergentes, reforçando a necessidade de investimentos em educação continuada(8). Reforça-se, portanto, a necessidade de capacitação da equipe de enfermagem para atuação em todas as fases do processo de vacinação.

O calendário vacinal do Programa Nacional de Imunizações brasileiro disponibiliza 51 imunobiológicos, como vacinas, soros e imunoglobulinas, garantindo proteção aos usuários da rede pública de saúde ao longo da vida(9). A maioria desses imunobiológicos é administrada por via intramuscular, o que reforça a importância de adotar técnicas seguras de administração. A utilização inadequada dessa via pode acarretar agravos ao paciente, como abscessos, irritações teciduais, neuropatias e algias, tornando imprescindível o rigor técnico na definição da região de aplicação e na execução do procedimento(10,11).

Os músculos deltoide, vasto lateral da coxa, bem como as regiões dorso e ventroglútea, são recomendados para a administração intramuscular. A região dorsoglútea é indicada para a administração de determinadas imunoglobulinas, mas é considerada a última opção para imunobiológicos, devido ao maior risco de lesão do nervo ciático e às variações anatômicas que podem comprometer a correta aplicação do imunobiológico(11,12,13). Já a região ventroglútea é indicada como primeira opção na administração em adolescentes e adultos, por apresentar facilidade de acesso e delimitação anatômica, além de não estar próxima a nervos e vasos importantes, reduzindo o risco de lesões e garantindo maior segurança, sendo também vantajosa na redução da dor durante a administração(11,14,15,16). Embora anatomicamente vantajosa e amplamente recomendada, estudos apontam sua subutilização associada ao desconhecimento da técnica, à insegurança profissional e à persistência no uso de métodos tradicionais(11,14,17).

Portanto, evidencia-se a necessidade de capacitar e atualizar os profissionais de enfermagem quanto à administração dos imunobiológicos na região ventroglútea, de modo a incorporá-la de forma segura e eficaz na rotina das salas de vacinação.

Nesse sentido, o objetivo do estudo é relatar a experiência de planejamento e desenvolvimento de capacitação para administração de imunobiológico na região ventroglútea.

MÉTODO

Tipo e Local do Estudo

Trata-se de relato de experiência, que possibilita a sistematização, a análise e a reflexão crítica sobre práticas desenvolvidas no contexto profissional. Esse tipo de estudo permite a produção de conhecimento a partir da vivência dos autores, contribuindo para a qualificação das práticas em saúde e enfermagem(18). Para a análise do rigor metodológico do relato, foram utilizadas as recomendações do Standards for QUality Improvement Reporting Excellence (SQUIRE 2.0)(19).

A capacitação foi realizada em setembro de 2024, por meio da integração dos projetos de extensão “Educar para Vacinar” e “Conhecendo o Corpo Humano”, da Universidade Federal de São João del-Rei, e do projeto “Vacinação em Foco”, da Universidade do Estado de Minas Gerais, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Divinópolis, município do estado de Minas Gerais, na região Sudeste do Brasil.

Objetivo da Experiência

Aperfeiçoar o conhecimento teórico e prático sobre a técnica de administração de imunobiológico na região ventroglútea, promovendo a segurança, a qualificação do cuidado e a ampliação do uso de um sítio de aplicação reconhecido como seguro e eficaz, mas ainda subutilizado na prática cotidiana das salas de vacinação do respectivo município.

Descrição da Experiência

A capacitação foi desenvolvida presencialmente com enfoque teórico-prático. Foi conduzida com base em uma abordagem problematizadora, dialógica e contextualizada, respeitando os contextos sociais, culturais e históricos dos participantes(20). Assim, promoveu-se a construção coletiva do conhecimento, fortalecendo o compromisso com a melhoria dos serviços de saúde e a valorização das vivências dos profissionais de enfermagem atuantes das salas de vacinação das unidades de Atenção Primária à Saúde.

O processo de capacitação foi cuidadosamente planejado para garantir a eficácia do conteúdo e a qualificação dos participantes. No primeiro encontro, elaborou-se o plano de ação, com a organização das atividades, a distribuição de horários e a definição das funções de cada membro da equipe. Estabeleceu-se que cada sessão de capacitação teria duração de três horas, contemplando dois eixos principais: (1) o estudo da anatomia dos sistemas muscular e esquelético; e (2) conteúdos teórico-práticos sobre a administração de imunobiológicos.

Como parte da etapa de preparação e aprimoramento pedagógico, a equipe responsável por ministrar a capacitação participou de um treinamento com uma docente do projeto “Conhecendo o Corpo Humano”, cuja temática abordou a anatomia do sistema muscular e esquelético. O foco esteve nos pontos de referência anatômicos, que auxiliam na identificação dos locais de aplicação dos imunobiológicos, incluindo os músculos deltoide, vasto lateral da coxa e região dorso e ventroglútea (Figura 1A). O aprofundamento sobre o conhecimento anatômico foi fundamental para ampliar a integração entre teoria e prática, formando profissionais mais conscientes de suas responsabilidades e comprometidos com a melhoria da qualidade da assistência(21).

Figura 1
Etapa de preparação e aprimoramento pedagógico da equipe – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Além disso, visando assegurar a uniformidade e a consistência do conteúdo a ser ministrado, os responsáveis pela capacitação reuniram-se previamente para analisar divergências encontradas na literatura científica sobre administração de imunobiológicos e para colaborar na construção dos materiais didáticos. Esse momento de alinhamento permitiu a padronização das informações e a adequação dos conteúdos às práticas mais atualizadas e seguras (Figura 1B).

Destaca-se que a equipe adotou a técnica de localização da região ventroglútea baseada em referências geométricas, descrita na literatura como método confiável para identificar o sítio de administração intramuscular(16). Para tal, utilizam-se pontos anatômicos palpáveis, como o trocânter maior do fêmur e a espinha ilíaca ântero-superior, formando um triângulo imaginário ao longo da crista ilíaca. Essa técnica visa reduzir a proximidade de estruturas nervosas e vasculares críticas, o que pode favorecer maior segurança na administração de imunobiológicos em comparação com outros sítios de aplicação(12,16).

Este relato de experiência reflete as percepções das autoras acerca da vivência apresentada e discutida ao longo do artigo. Por não envolver qualquer forma de coleta de dados, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Ademais, os participantes autorizaram o uso dos registros fotográficos para fins científicos, mediante consentimento, sendo assegurada a não identificação dos envolvidos.

RESULTADOS

Inicialmente, todos os profissionais da rede que atuavam nas salas de vacinação do município foram convidados a participar, incluindo aqueles vinculados às unidades com horário estendido, que desempenham suas atividades no período das 16h às 22h e, em geral, não participam das capacitações convencionais, por ocorrerem predominantemente no período diurno. Para tanto, foi encaminhada carta-convite aos responsáveis técnicos de cada unidade de Atenção Primária à Saúde contendo as opções de datas e horários disponíveis. Esses profissionais ficaram responsáveis pelo alinhamento com os supervisores e pela organização da participação dos trabalhadores atuantes nas salas de vacinação.

Em conformidade com o cronograma previamente pactuado com a Secretaria Municipal de Saúde de Divinópolis, foram realizadas 23 capacitações ao longo de duas semanas do mês de setembro de 2024 (02/09/2024 a 13/09/2024). As atividades ocorreram nos turnos matutino (n = 10), vespertino (n = 10) e noturno (n = 3), de modo a possibilitar a participação do maior número possível de profissionais do município e instituições parceiras.

Foram capacitados 278 participantes, distribuídos da seguinte forma: profissionais de enfermagem das salas de vacinação do município (n = 249); profissionais do Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais do município (n = 5); representantes de instituições de ensino superior parceiras (n = 13); e profissionais vinculados à Secretaria Municipal de Saúde de um município vizinho, também parceiro da iniciativa (n = 11).

Cada capacitação, que teve duração de três horas, foi organizada em três momentos: abordagem teórica sobre anatomia, abordagem teórica sobre processo de administração de imunobiológicos e abordagem prática, que contemplaram a execução da técnica de localização do local de administração de imunobiológicos na região ventroglútea. As atividades foram conduzidas por um professor responsável, com o apoio de um professor mediador e, no mínimo, dois estudantes monitores, todos previamente preparados para desempenhar essas funções. Em cada sessão de capacitação, participaram, em média, 14 participantes, o que possibilitou um acompanhamento individualizado e favoreceu a interação durante as discussões e as atividades práticas.

Primeiro Momento: Abordagem Teórica Sobre Anatomia

Esse momento possibilitou o aprimoramento dos conhecimentos e o esclarecimento de dúvidas acerca da anatomia dos músculos mais utilizados na prática vacinal, além de aprofundar o estudo da região ventroglútea, foco central da capacitação. Para tanto, foram utilizadas peças anatômicas que favoreceram a visualização e a delimitação das estruturas. No membro superior, explorou-se a localização do músculo deltoide; no membro inferior, explorou-se a identificação do vasto lateral da coxa; e na pelve, explorou-se a observação das referências ósseas em conjunto com o fêmur, estruturas importantes para a localização da região ventroglútea. Ademais, recorreu-se a uma peça anatômica do corpo humano com estruturas removíveis dos músculos glúteos (máximo, médio e mínimo), o que possibilitou a visualização precisa da região ventroglútea (Figura 2).

Figura 2
Abordagem teórica sobre anatomia – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Segundo Momento: Abordagem Teórica Sobre Processo de Administração de Imunobiológicos

Esse momento foi mediado por uma aula apoiada por recursos digitais, com apresentação em formato de slides. Com metodologia participativa, a aula abordou tópicos essenciais, como: conceito de vacinação; materiais necessários; cuidados na vacinação; triagem e orientação ao usuário; avaliação da musculatura e definição do local de aplicação; vias de administração (oral, subcutânea e intramuscular); e cuidados com o descarte de resíduos e a higienização das mãos (Figura 3).

Figura 3
Abordagem teórica sobre processo de administração de imunobiológicos – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Os participantes foram incentivados a participar dos debates coletivos, que possibilitaram o esclarecimento de dúvidas, o compartilhamento de experiências e a reflexão crítica acerca do cotidiano nas salas de vacinação. As discussões contemplaram percepções sobre as condições estruturais, os desafios enfrentados na rotina de trabalho e a relevância da capacitação para a qualificação da prática do cuidado.

Verificou-se que um dos principais desafios para a implementação da técnica de administração de imunobiológicos na região ventroglútea está relacionado à comunicação entre a equipe de saúde e os usuários do serviço. Surgiram dúvidas quanto às abordagens mais adequadas para orientar os usuários e esclarecer os benefícios do uso desse local de administração. Por tratar-se de uma região corporal ainda pouco explorada na prática cotidiana dos vacinadores do município e, para muitos, considerada “nova”, manifestou-se a preocupação quanto à possibilidade de causar estranhamento ou rejeição por parte da população.

Ademais, identificou-se certa insegurança entre os profissionais de saúde na realização da técnica, achado corroborado pela literatura(11,14,17). Entre os mais jovens, a principal dificuldade referida foi a falta de experiência prática com a técnica. Já entre os mais experientes, destacou-se a resistência à mudança, frequentemente associada à consolidação de práticas previamente estabelecidas e à familiaridade com métodos tradicionalmente utilizados. Tal resistência à mudança é corroborada com estudos internacional(17,22). Além disso, estudo evidenciou a baixa escolha da região ventroglútea como primeira opção para administração intramuscular, mesmo entre profissionais com conhecimento prévio sobre a técnica(23).

Evidenciou-se, também, entre os profissionais receio quanto à segurança da utilização dessa região para a aplicação da técnica. Nesse sentido, evidências atestam a segurança dessa região(11,14,15,16). Ensaio clínico randomizado duplo-cego evidenciou que a técnica de vacinação intramuscular sem aspiração, utilizada na administração da vacina contra hepatite A, mostrou-se segura em relação aos eventos adversos pós-vacinação quando comparada à técnica convencional com aspiração(24). Além disso, revisão sistemática demonstrou que a região apresenta menor risco de lesão nervosa iatrogênica, bem como menor ocorrência de efeitos colaterais locais e sistêmicos em diferentes faixas etárias(25).

Os relatos de insegurança do profissional e de desconhecimento por parte da população reforçam a necessidade de ações educativas contínuas e de incentivos periódicos voltados à utilização dessa região anatômica. Essas ações devem promover não apenas o domínio técnico, mas também o fortalecimento das competências comunicativas dos profissionais, de modo a favorecer a adesão da equipe e a aceitação da população em relação à técnica. Tal necessidade também é relatada em estudos que sugerem a realização de treinamentos fundamentados em evidências científicas(26,27).

Nesse contexto, visando complementar os materiais didáticos e disseminar informações sobre a administração de imunobiológicos na região ventroglútea, baseado em evidências científicas, foi elaborado um infográfico fundamentado em documentos oficiais do Ministério da Saúde e em literatura de anatomia (https://doi.org/10.17632/hfwkt3gznn.1)(28). O principal objetivo do recurso foi facilitar a compreensão sobre a administração de imunobiológicos e os locais anatômicos recomendados. Pela linguagem acessível e pela organização visual, o infográfico contribuiu para a assimilação do conteúdo, configurando-se como um recurso pedagógico relevante, posteriormente impresso em tamanho de banner e distribuído a todas as salas de vacinação das unidades de Atenção Primária à Saúde do município.

O uso de materiais educativos, como o infográfico desenvolvido, mostrou-se relevante para a fixação do conhecimento, pois estratégias visuais e recursos didáticos estruturados favorecem a consolidação do conteúdo e auxiliam na padronização das práticas assistenciais(29). Estudo quase-experimental, realizado em Istambul, Turquia, com estudantes de enfermagem, demonstrou que a instrução por meio de vídeo pode melhorar a competência na administração de injeções intramusculares na região ventroglútea, indicando impacto positivo de estratégias educacionais na qualificação da prática e na segurança da técnica(30).

A iniciativa ressalta, ainda, que o uso de materiais educativos de apoio e o acompanhamento institucional configuram elementos facilitadores para a adesão da equipe e maior aceitabilidade da técnica pela população.

Terceiro Momento: Abordagem Prática

Nesse momento, os participantes foram organizados em duplas para treinar a localização do local de administração de imunobiológicos na região ventroglútea, com base em referências geométricas(12,16). O treinamento contemplou os posicionamentos recomendados para crianças, adolescentes, adultos e idosos, utilizando-se peças anatômicas e canetas para a marcação da região adequada. Aos que manifestaram interesse, foi oportunizada a prática asséptica com seringas e agulhas sem, contudo, realizar a administração de líquidos. Para essa atividade, foram disponibilizadas seringas de 3 ml, agulhas de calibres 20 × 5,5 mm, 27 × 8 mm e 25 × 7 mm, além de álcool, algodão e caixa coletora para materiais perfurocortantes (Figura 4).

Figura 4
Abordagem teórica sobre o processo de administração de imunobiológicos – Divinópolis, MG, Brasil, 2024.

Durante uma única visita à sala de vacinação, o indivíduo pode receber múltiplas vacinas, o que exige, especialmente em casos de atraso vacinal, a aplicação em diferentes sítios anatômicos. Assim, a experiência reforça a importância da educação permanente estruturada como dispositivo estratégico para incorporação de práticas baseadas em evidências, especialmente quando envolvem mudanças em rotinas consolidadas.

Durante a prática, os participantes foram constantemente orientados pelo professor responsável e pelos monitores, recebendo feedback individual sobre a precisão da localização anatômica e a postura adequada para a administração. Além disso, foram discutidas estratégias para abordar diferentes perfis de usuários, promovendo o desenvolvimento de competências comunicativas e a segurança na execução da técnica. Essa etapa permitiu a consolidação dos conhecimentos teóricos, a familiarização com os materiais e instrumentos utilizados, bem como o fortalecimento da confiança dos participantes para a futura aplicação da técnica em situações reais.

A utilização de recursos didáticos diversificados mostrou-se fundamental para facilitar a compreensão dos locais anatômicos corretos e incentivar a assimilação do conteúdo, contribuindo para a qualificação do processo de vacinação. Ademais, a capacitação permitiu identificar desafios importantes, como a insegurança entre profissionais menos experientes, a resistência à mudança entre os mais experientes e a necessidade de estratégias de comunicação eficazes com os usuários, especialmente por se tratar de uma técnica ainda pouco conhecida na rotina das salas de vacinação. Entre as estratégias adotadas, destaca-se a disponibilização do infográfico construído em formato de banner, disponibilizado nas salas de vacinação do município, com o objetivo de apoiar a prática profissional e favorecer a comunicação clara e padronizada com a população.

Como limitações, ressalta-se que os momentos não incluíram a avaliação da percepção e da participação dos profissionais de saúde envolvidos na capacitação, nem investigaram os impactos da intervenção em sua prática cotidiana. Enfatiza-se que pesquisas futuras poderão avançar nesse aspecto, mediante utilização de instrumentos validados e estratégias sistemáticas de avaliação do impacto da capacitação na prática profissional. Embora não tenham sido aplicados instrumentos formais de acompanhamento ou avaliação da capacitação, foram posteriormente recebidos relatos verbais e registros fotográficos que evidenciaram a incorporação da técnica em algumas unidades, os quais, contudo, não foram objeto de análise estruturada no âmbito deste relato.

Destaca-se também que, apesar da relevância da temática, observa-se escassez de estudos recentes e de relatos de experiência que abordem a utilização da região ventroglútea para administração de imunobiológicos, especialmente no contexto nacional. A literatura disponível concentra-se, predominantemente, em aspectos técnicos da administração intramuscular, evidenciando lacunas quanto à implementação, à aceitação e à capacitação profissional voltadas ao uso da região ventroglútea na prática cotidiana das salas de vacinação.

A Secretaria Municipal de Saúde do município investe continuamente na atualização e na qualificação de seus profissionais para que estejam plenamente preparados para atuar no manejo seguro de todo o processo de vacinação, garantindo acolhimento, proteção e segurança à população. Em um município de médio porte, como o deste relato, que conta atualmente com 45 salas de vacinação na Atenção Primária à Saúde e um Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, a educação permanente sobre um tema de tamanha relevância, como o treinamento teórico-prático em administração de imunobiológicos, favoreceu a disseminação do conhecimento e o desenvolvimento de habilidades dos participantes. O treinamento também possibilitou a identificação e a correção imediata de falhas técnicas que podem surgir na rotina do trabalho e comprometer a qualidade da assistência aos usuários. Dessa forma, esse processo contribui para a padronização das condutas entre os vacinadores, com potencial para favorecer a segurança do paciente e a qualidade do serviço prestado.

Por fim, ressalta-se a importância de se consolidar a parceria das instituições de ensino com os serviços de saúde, estimulando o comprometimento dos vacinadores com a busca pelo conhecimento e, consequentemente, com a busca pela qualidade nas técnicas de vacinação, o que reflete em maior competência na execução das atividades e maior segurança no cotidiano das salas de vacinação no município.

CONCLUSÃO

Este relato contribui ao demonstrar a viabilidade de implementação de uma capacitação teórico-prática voltada à administração de imunobiológicos na região ventroglútea no contexto da Atenção Primária à Saúde, evidenciando potencial para qualificar a prática profissional e ampliar a segurança no processo de vacinação. Ao sistematizar estratégias educativas que integraram abordagem expositiva, discussão participativa e simulação prática, a intervenção favoreceu o desenvolvimento de competências técnicas e o fortalecimento da confiança dos profissionais para adoção da região ventroglútea, sítio anatômico ainda pouco explorado na rotina das salas de vacinação.

Ao ampliar o debate sobre a utilização da região ventroglútea na administração de imunobiológicos, o relato oferece subsídios para gestores e profissionais interessados na qualificação da segurança assistencial e na atualização das práticas de enfermagem no âmbito da vacinação.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

O material suplementar pode ser consultado em: https://doi.org/10.17632/hfwkt3gznn.1.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Thereza Maria Magalhães Moreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Mar 2026
  • Aceito
    27 Maio 2026
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