Open-access Cuidado interprofissional de mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal à luz da Teoria da Complexidade

RESUMO

Objetivo:  Refletir, à luz da teoria da complexidade, as dinâmicas do cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal.

Método:  Estudo teórico-reflexivo, empregando o referencial da complexidade de Edgar Morin, por meio do tetragrama para desvelar os encontros, tensões e possibilidades presentes no cuidado interprofissional em contextos interculturais.

Resultados:  O cuidado interprofissional emerge como estratégia crucial para superar a fragmentação do modelo biomédico hegemônico. A aplicação do tetragrama demonstrou que: a ordem reside nas práticas tradicionais e protocolos biomédicos; a desordem manifesta-se nas rupturas e conflitos culturais; a interação ocorre nas experiências de articulação entre saberes; e a organização indica a construção de arranjos de cuidado mais inclusivos e adaptativos.

Conclusão:  A teoria da complexidade oferece uma lente fecunda para repensar e (re)orientar a atenção à saúde das mulheres indígenas, destacando a imperatividade da escuta ativa, valorização dos saberes tradicionais e construção de práticas interprofissionais culturalmente seguras, contextualizadas e transformadoras.

DESCRITORES
Saúde de Populações Indígenas; Assistência Perinatal; Saúde Materno-Infantil; Relações Interprofissionais; Filosofia

ABSTRACT

Objective:  To reflect, in light of complexity theory, on the dynamics of interprofessional healthcare for indigenous women during pregnancy and the postpartum period.

Method:  A theoretical-reflective study, using Edgar Morin’s complexity framework, through the tetragram to reveal the encounters, tensions, and possibilities present in interprofessional care in intercultural contexts.

Results:  Interprofessional care emerges as a crucial strategy for overcoming the fragmentation of the hegemonic biomedical model. The application of the tetragram has demonstrated that: order resides in traditional practices and biomedical protocols; disorder manifests itself in cultural ruptures and conflicts; interaction occurs in experiences of articulation between different types of knowledge; and organization indicates the construction of more inclusive and adaptive care arrangements.

Conclusion:  Complexity theory offers a fruitful lens for rethinking and (re)orienting attention to indigenous women’s health, highlighting the imperative of active listening, valuing traditional knowledge, and building culturally safe, contextualized, and transformative interprofessional practices.

DESCRIPTORS
Health of Indigenous Peoples; Perinatal Care; Maternal and Child Health; Interprofessional Relations; Philosophy

RESUMEN

Objetivo:  Reflexionar sobre las dinámicas del cuidado interprofesional de la salud de mujeres indígenas durante el ciclo grávido-puerperal, a la luz de la teoría de la complejidad.

Método:  Es un estudio teórico-reflexivo llevado a cabo mediante tetragrama con el referencial de la complejidad de Edgar Morin, para revelar encuentros, tensiones y posibilidades de la atención interprofesional en contextos interculturales.

Resultados:  La atención interprofesional surge como una estrategia crucial para superar la fragmentación del modelo biomédico hegemónico. La aplicación del tetragrama demostró que: el orden reside en las prácticas tradicionales y protocolos biomédicos; el desorden asoma en las rupturas y conflictos culturales; la interacción se produce en las experiencias de articulación entre saberes; y la organización señala la construcción de una atención más inclusiva y adaptativa.

Conclusión:  La teoría de la complejidad ofrece una perspectiva fructífera para repensar y (re)orientar la atención a la salud de mujeres indígenas, destacando la importancia de la escucha activa, la valorización de los conocimientos tradicionales y la construcción de prácticas interprofesionales culturalmente seguras, contextualizadas y transformadoras.

DESCRIPTORES
Salud de Poblaciones Indígenas; Atención Perinatal; Salud Materno-Infantil; Relaciones Interprofesionales; Filosofía.

INTRODUÇÃO

A saúde indígena no ciclo gravídico-puerperal constitui um campo que exige compreensão sistêmica, sensível e integrada das dimensões culturais, espirituais, sociais e biológicas(1,2). Nesse contexto, faz-se necessário o fomento de práticas interprofissionais que superem a fragmentação e o isolamento entre as categorias profissionais. Tais abordagens exigem o desenvolvimento de uma liderança compartilhada e evolutiva, capaz de articular e promover a cooperação necessária para responder de forma eficaz à complexidade dos cuidados de saúde(3,4).

O cuidado interprofissional na saúde e na educação configura-se como um eixo estratégico para a construção de arranjos formativos e práticos que articulam saberes distintos em processos de experimentação, cooperação e produção coletiva. Equipes interprofissionais são fundamentais na melhoria da capacidade dos sistemas de saúde no atendimento às necessidades de saúde da população(5,6).

Estudos denotam que mulheres indígenas no Brasil apresentam maiores taxas de morbimortalidade materna e infantil quando comparadas à população geral, influenciadas por determinantes sociais como pobreza, exclusão social, disparidades educacionais e raciais, barreiras geográficas e discriminação institucional(7,8,9). Diante da natureza multifacetada dessas desigualdades, faz-se necessário um referencial teórico capaz de integrar múltiplas dimensões.

Considerando a interrelação entre fatores culturais, sociais, institucionais e espirituais, torna-se evidente que abordagens lineares não dão conta da complexidade envolvida no cuidado à saúde das mulheres indígenas. Ademais, apesar dos avanços nas políticas públicas, há escassez de estudos que abordem o cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas a partir da perspectiva da complexidade.

A teoria da complexidade, proposta por Edgar Morin, oferece uma abordagem robusta para refletir criticamente sobre o cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas, superando visões fragmentadas e lineares que predominam nos modelos biomédicos tradicionais. A complexidade é um tecido de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados, o que desafia a dicotomia entre o uno e o múltiplo e propõe uma visão que integra diversidade e interconexão(10). O cuidado à saúde indígena exige o reconhecimento de diferentes concepções de vida, saúde e doença. Isso demanda uma postura ética que supere os limites do modelo biomédico universalista, frequentemente excludente dos saberes ancestrais(11,12,13).

Argumenta-se que o referencial da complexidade pode sustentar uma análise sensível, crítica e integradora do cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas no contexto intercultural. Assim, questiona-se: como a teoria da complexidade pode contribuir para a reflexão e para a prática do cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal?”

Desse modo, este estudo teórico-reflexivo, ao dialogar com Edgar Morin, busca refletir, à luz da teoria da complexidade, as dinâmicas do cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal.

MÉTODO

Trata-se de um estudo teórico-reflexivo, de abordagem qualitativa, construído a partir do referencial do Pensamento Complexo de Edgar Morin, especialmente por meio do tetragrama Morin (ordem, desordem, interação e organização) como referencial analítico para desvelar os encontros, tensões e possibilidades presentes no cuidado interprofissional em contextos interculturais, no contexto da disciplina “Construção do Pensamento Sistêmico”, cursada no âmbito da formação doutoral. Concebido inicialmente como capítulo de livro, o texto foi reelaborado e adaptado ao formato de artigo científico-reflexivo.

O percurso fundamentou-se na articulação entre o referencial teórico central e um corpus de produções científicas nacionais e internacionais relacionadas ao cuidado interprofissional e à saúde indígena. A seleção dessas obras ocorreu de forma intencional e analítica, considerando sua preocupação temática, relevância conceitual e potencial de diálogo com os pressupostos do/a pensamento/teoria da complexidade/complexo.

As buscas bibliográficas foram realizadas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), contemplando artigos, documentos técnicos e produções teóricas pertinentes ao campo da saúde coletiva, enfermagem e saúde indígena. Não se tratou de uma revisão sistemática, mas de um levantamento teórico orientado pela problematização reflexiva, buscando subsidiar a construção argumentativa e a análise crítica proposta.

A elaboração do estudo ocorreu no período de agosto a outubro de 2025, considerando publicações disponíveis até esse intervalo temporal, o que contribui para a contextualização e atualidade da reflexão desenvolvida. O processo analítico consistiu na leitura aprofundada, interpretação crítica e articulação conceitual das obras selecionadas, em diálogo contínuo com o referencial de Morin, buscando compreender a complexidade do cuidado em saúde em contextos marcados por interprofissionalidade e diversidade sociocultural.

Assim, o presente estudo delineia-se com base no arcabouço teórico-reflexivo da teoria da complexidade de Edgar Morin, a fim de fundamentar o cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal.

O Pensamento Complexo de Edgar Morin

Como já apresentado, o referencial adotado fundamenta-se na teoria da complexidade proposta por Edgar Morin, filósofo, sociólogo e epistemólogo francês, nascido em 1921. Sua biografia, marcada por perdas precoces, como a morte da mãe, aos nove anos, contribuiu para uma sensibilidade particular diante da condição humana e suas múltiplas dimensões. Ao longo de sua trajetória intelectual, Morin demonstrou interesse pela literatura, música e cinema, transitando por diferentes campos do conhecimento e consolidando uma visão integradora, sobretudo nas ciências humanas(14).

A complexidade é um conjunto de elementos inseparavelmente associados, que se expressa como um tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações e acasos que constituem a realidade(15). Nesse entrelaçamento, estão presentes incertezas, indeterminações e aleatoriedades que desafiam visões reducionistas ou lineares(16).

A teoria da complexidade busca integrar aspectos frequentemente vistos como contraditórios, unidade e diversidade, continuidade e ruptura, construção e desconstrução, reconhecendo que não é possível analisar as partes sem o todo, nem o todo sem as partes. Nesse sentido, a complexidade deve ser entendida como uma palavra-problema, e não como uma palavra-solução: não fornece respostas prontas, mas convida à reflexão permanente, à análise crítica e à abertura ao inesperado(15).

À luz da teoria da complexidade, reflete-se a coexistência entre ordem e desordem, ilustrando sua ideia com a observação do céu estrelado. O que inicialmente parece um agrupamento aleatório de astros revela, com olhar atento, uma ordem cósmica; ao mesmo tempo, ao se considerar o universo em expansão, percebe-se a desordem criativa de estrelas que nascem, explodem e morrem. Assim, ordem e desordem constituem dimensões inseparáveis do real(15).

Essa concepção é fundamental para pensar os desafios da atenção à saúde indígena no ciclo gravídico-puerperal, marcado por uma complexa tessitura de elementos culturais, espirituais, sociais e biológicos. O cuidado às mulheres indígenas não pode ser reduzido à lógica biomédica linear, baseada em protocolos técnicos, é preciso reconhecer a coexistência de múltiplas ordens e desordens, saberes tradicionais e científicos, rotinas institucionais e práticas ancestrais, direitos conquistados e violências históricas ainda presentes(1,17).

A teoria da complexidade se sustenta em princípios que se articulam no circuito tetralógico ou tetragrama – ordem, desordem, interação e organização, orientando a reflexão para a religação dos saberes(15). Os princípios da teoria da complexidade, propostos por Morin, oferecem bases essenciais para compreender fenômenos em sua totalidade. O princípio sistêmico mostra que partes e todo são indissociáveis, o hologramático revela que cada parte contém o todo e vice-versa, superando reducionismos e holismos. O circuito retroativo e o recursivo destacam a autorregulação e a circularidade entre causas e efeitos. A autonomia está sempre em relação de dependência com o meio, enquanto o princípio dialógico integra noções opostas que coexistem na realidade. Por fim, a reintrodução do conhecimento propõe uma reforma do pensamento, reconhecendo limites, incertezas e a necessidade de constante contextualização.

No campo da saúde indígena, os princípios da teoria da complexidade de Morin ajudam a compreender o cuidado de forma ampliada. O princípio dialógico evidencia a necessidade de integrar saberes técnicos e saberes tradicionais, permitindo que ciência e ancestralidade coexistam em diálogo. O princípio recursivo mostra que as práticas de cuidado não se esgotam em si mesmas, mas retroalimentam a cultura, a saúde e o território, fortalecendo continuamente a vida comunitária. Já o princípio hologramático revela que cada parte, seja o profissional, a comunidade, a mulher ou a família, contém e reflete o todo, mostrando que o cuidado é simultaneamente individual e coletivo, singular e comunitário(16,18).

O Tetragrama de Morin e o Ciclo Gravídico-Puerperal Indígena

À luz da teoria da complexidade, os processos dinâmicos da realidade podem ser compreendidos através do tetragrama, uma proposição que considera que qualquer sistema vivo ou social é resultante da intersecção entre ordem, desordem, interação e organização (Figura 1)(15). Esses elementos não atuam isoladamente, mas em constante movimento de transformação. Relacionar o tetragrama ao ciclo gravídico-puerperal das mulheres indígenas permite reconhecer a complexidade desse processo em contextos interculturais e a necessidade de práticas de saúde ampliadas e inclusivas.

Figura 1
Tetragrama de Morin.

Propõe-se, a seguir, uma aproximação entre os elementos do tetragrama da complexidade e o cuidado interprofissional no ciclo gravídico-puerperal de mulheres indígenas, reconhecendo os limites dessa análise e sua natureza parcial, aberta e em construção, como exige o próprio pensamento complexo.

Ordem

A ordem refere-se a padrões estabelecidos, normas culturais e rituais que orientam o comportamento social. Entre povos indígenas, a gestação, o parto e o puerpério são conduzidos a partir de saberes tradicionais, costumes ancestrais, funções coletivas bem definidas e rituais estruturados de acordo com cada etnia. Essa ordem promove coesão comunitária, pertencimento e segurança simbólica para a gestante, que se reconhece como parte de um ciclo maior(19,20).

Já no modelo biomédico, a ordem é representada por protocolos padronizados, fluxos assistenciais e normativas técnicas, muitas vezes desconectadas das subjetividades e realidades socioculturais das mulheres indígenas. Enquanto a lógica biomédica valoriza a regularidade e a previsibilidade, os saberes indígenas concebem a saúde e a doença como experiências relacionais, que envolvem o corpo, o território, a coletividade, os ancestrais e as forças espirituais(21).

No contexto do elemento “ordem” do Tetragrama, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) reconhece, ainda que de forma limitada, a necessidade de articular práticas tradicionais e conhecimentos biomédicos, propondo um modelo de atenção diferenciada e intercultural. No entanto, sua implementação enfrenta inúmeros desafios, como a persistência do etnocentrismo institucional e a fragmentação das práticas de cuidado(22). Executada pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), essa política estabelece um modelo de atenção diferenciada, com o objetivo de promover, proteger e recuperar a saúde, garantindo o acesso ao SUS e a articulação de serviços próximos às comunidades(23,24).

A efetividade da PNASPI exige a consideração das especificidades culturais, geográficas e políticas de cada povo, bem como a incorporação de tecnologias apropriadas. Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), atualmente em 34 unidades, são o eixo estruturante dessa atenção, integrando-se ao SUS por meio de equipes multiprofissionais que envolvem profissionais de saúde, educadores e antropólogos. Destacam-se, nesse arranjo, os agentes indígenas de saúde e enfermeiros, que atuam diretamente nas aldeias, articulando o cuidado com equipes itinerantes(22,23).

A rede de atenção inclui polos-base, serviços do SUS e Casas de Saúde Indígena (CASAI), organizando-se para garantir cuidado integral em todos os níveis de complexidade. Esse modelo valoriza práticas culturais, a presença de familiares, intérpretes e terapeutas indígenas, como as parteiras, consolidando-se como espaço de cuidado intercultural e interprofissional(22,23). Estudos recentes demonstram que apesar da existência de políticas abrangentes e construtivas, as ações concretas se tornam limitadas por diversos tipos de barreiras, estruturais, logísticas, de comunicação, entre outras(11).

As experiências das mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal apresentam singularidades enraizadas em valores culturais, ambientais e espirituais, que por sua profundidade transcendem o conhecimento científico e questionam a linearidade das práticas convencionais(1). À luz da complexidade, tais vivências evidenciam a necessidade de reconhecer a interdependência entre saberes distintos, integrando dimensões biológicas, sociais, culturais e espirituais em uma perspectiva plural(25).

A ideia de ordem demanda o diálogo com a ideia de desordem, a ideia enriquecida de ordem recorre às ideias de interação e de organização, sem excluir a desordem(15).

Desordem

A desordem representa tensões, conflitos e rupturas. O encontro entre a medicina ocidental e os saberes indígenas frequentemente gera choques de referência, provocando desconfortos e tensões interculturais. A transferência compulsória de gestantes para centros urbanos distantes ilustra essa desordem, pois rompe vínculos com rituais de cuidado e gera sofrimento emocional. Entretanto, segundo a teoria da complexidade, a desordem também é potência criativa, abrindo possibilidades de reorganização mais inclusivas e equânimes(15,25).

No contexto do cuidado às mulheres indígenas, a desordem também se manifesta na incompreensão dos saberes tradicionais pelos profissionais, na violação de direitos reprodutivos e na submissão a rotinas hospitalares padronizadas que ignoram os desejos e práticas culturais das gestantes. Essas situações geram insegurança, sofrimento, desconexão simbólica e, muitas vezes, desassistência(11).

Faz-se necessário aprender a pensar ordem e desordem conjuntamente, entendendo que a ordem é relativa e relacional, enquanto a desordem é marcada pela incerteza(15). As políticas públicas de saúde voltadas às populações indígenas podem estar relacionadas a uma necessidade em que a desordem despertou, sendo necessário pensar em ambientes mais acolhedores e menos ruptivos para essas comunidades quando necessitam de atendimento fora das aldeias. Portanto, a desordem, à luz da complexidade, não é sinônimo de caos destrutivo, mas representa o rompimento de padrões, o surgimento do novo e o imprevisível que desestabiliza estruturas consolidadas. A desordem, ao perturbar a ordem existente, cria oportunidades para a emergência de outras configurações mais complexas(15).

Portanto, a desordem também pode ser produtiva. Quando os profissionais de saúde se deparam com situações imprevistas, por exemplo, rituais desconhecidos, práticas comunitárias não previstas nos protocolos ou decisões familiares que escapam às lógicas institucionais, há a possibilidade de escuta e aprendizado. Essa abertura ao inesperado pode tensionar práticas fragmentadas e gerar espaços de cuidado mais respeitosos e responsivos(15).

No campo interprofissional, a desordem se expressa nas tensões entre saberes disciplinares, nos conflitos entre modelos de atenção e nos limites comunicacionais das equipes. Essas instabilidades, quando não negadas, podem fomentar diálogos transformadores, impulsionando a co-construção de estratégias mais plurais e contextualmente enraizadas.

Interação

A interação constitui o núcleo do tetragrama, articulando elementos distintos, neste caso, práticas tradicionais e biomédicas. Essa articulação pode assumir formas conflituosas ou cooperativas, dependendo da disposição para o diálogo, da escuta ativa e do reconhecimento de saberes plurais. No ciclo gravídico-puerperal, experiências de partos humanizados em aldeias, envolvendo parteiras, agentes indígenas de saúde e equipes multiprofissionais demonstram que a interação pode transformar a desordem em oportunidade, reorganizando o cuidado interprofissional de forma culturalmente respeitosa(26,27).

A interação também se observa no encontro entre as gestantes indígenas e as instituições de saúde. Quando esse encontro é marcado pela rigidez institucional e pela negação das especificidades culturais, as interações tornam-se fonte de conflito e exclusão. Porém, quando há mediação cultural, articulação com lideranças indígenas e flexibilidade institucional, abrem-se possibilidades para um cuidado mais humano, negociado e compartilhado. Assim, políticas públicas culturalmente sensíveis tornam-se imprescindíveis, garantindo interculturalidade e participação ativa dos povos indígenas em todas as etapas de planejamento e execução, trabalhando juntamente com as diferenças(13,18).

No campo da formação profissional, a interação entre diferentes áreas do saber pode contribuir para o fortalecimento das práticas de cuidado, desde que se reconheçam as assimetrias de poder, os preconceitos institucionais e a necessidade de construir uma linguagem comum, sem desconsiderar as singularidades. O cuidado interprofissional vai além de uma técnica de organização do trabalho, trata-se de uma forma integral e ecológica de pensar e agir, capaz de integrar dimensões do conhecimento e da prática em um movimento de prática transformadora, com implicações conceituais, metodológicas e políticas diretamente relacionadas ao desenvolvimento do campo da saúde e da educação(5).

A interprofissionalidade, caracterizada pela aprendizagem mútua e trabalho em equipe integrado, é crucial para superar a fragmentação do cuidado e promover uma atenção à saúde mais abrangente e eficaz, alinhada aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS)(4). Estudos no Brasil e na Região apontam que adaptações culturais do pré-natal estão associadas a melhor processo de cuidado, reforçam estratégias para acelerar a redução da mortalidade materna baseadas na atenção primária de saúde e no respeito cultural(28).

No campo da saúde, o trabalho interprofissional revela-se como uma via para superar a fragmentação típica do modelo biomédico hegemônico, favorecendo práticas colaborativas, seguras e integradas. Essa perspectiva fortalece vínculos entre equipes e comunidades, amplia a reciprocidade entre profissionais e possibilita ações coletivamente planejadas, contextualizadas e avaliadas, orientadas para o cuidado integral. Contudo, persiste o desafio de enfrentar desigualdades e hierarquias históricas que ainda estruturam os campos da saúde e da educação sob lógicas colonizadas(4,5).

Nesse cenário, a interprofissionalidade e a formação interdisciplinar podem assumir um caráter intercultural e emancipatório, sobretudo quando aplicadas à saúde indígena no ciclo gravídicopuerperal. Inspirada na teoria da complexidade, essa abordagem reconhece a inseparabilidade entre ordem e desordem, técnica e tradição, ciência e ancestralidade, abrindo espaço para práticas de cuidado mais sensíveis, dialógicas e transformadoras(5,10).

Organização

Da dinâmica entre ordem, desordem e interação emerge a organização, que traduz a construção de novos arranjos de cuidado, mais inclusivos e adaptados à realidade das comunidades. Essa reorganização não é linear, mas fruto de negociações constantes, incorporando elementos da interculturalidade e da interprofissionalidade como estratégias de fortalecimento do cuidado integral(13,16). No ciclo gravídico-puerperal, essa organização se expressa em modelos de atenção que reconhecem a mulher indígena como protagonista, articulando saberes técnicos e tradicionais para assegurar práticas culturalmente seguras e socialmente justas.

A (re)organização, como quarto elemento do tetragrama, é o resultado provisório das interações entre ordem, desordem e interação. Em vez de representar estabilidade absoluta, a organização na teoria da complexidade é transitória, adaptativa e em constante reconstrução(16). No cuidado à saúde das mulheres indígenas, as formas de organização do trabalho em saúde devem refletir essa dinâmica. Equipes interprofissionais precisam atuar de maneira flexível, colaborativa e sensível às singularidades locais, superando modelos hierárquicos e tecnocráticos que ainda predominam em muitos serviços, bem como a necessidade de práticas comprometidas com o uso sustentável dos recursos naturais e com a compreensão das inter-relações entre fatores sociais, ambientais e de saúde(13,29).

Portanto, uma (re)organização do cuidado baseada na complexidade implica reconhecer a mulher indígena como sujeito ativo do processo, integrando suas escolhas, saberes e experiências no ciclo gravídico-puerperal. Envolve, ainda, o fortalecimento de redes de apoio comunitário, o diálogo com parteiras e lideranças tradicionais, e a valorização do território como espaço produtor de saúde. A construção de uma organização relacional do cuidado demanda, ainda, a articulação entre políticas públicas, estratégias interprofissionais e dispositivos culturais específicos de cada contexto(30). Trata-se de um processo inacabado, que requer disposição para lidar com incertezas, aprender com os erros e reorganizar continuamente as práticas, conforme demonstrado na Figura 2.

Figura 2
Representação do Tetragrama de Morin integrado ao ciclo gravídico-puerperal de mulheres indígenas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

À luz da teoria da complexidade, este estudo permitiu compreender que as dinâmicas do cuidado interprofissional à saúde das mulheres indígenas no ciclo gravídico-puerperal se configuram como processos relacionais, situados e não lineares, marcados por dimensões culturais, espirituais, sociais e biológicas. A reflexão evidenciou que esse cuidado se constrói na interação entre diferentes saberes, práticas profissionais e arranjos comunitários, exigindo abordagens que superem modelos fragmentados e prescritivos. Integrar a teoria da complexidade à saúde indígena no ciclo gravídico-puerperal oferece uma lente crítica e integradora para compreender as múltiplas dimensões que atravessam a saúde materno-infantil. Reconhecer a interconexão entre fatores culturais, espirituais, sociais e biológicos permite construir práticas de saúde que respeitem e integrem saberes tradicionais, promovendo atenção mais equitativa e eficaz. A articulação entre ordem, desordem, interação e organização permite compreender esse cuidado como um fenômeno dinâmico, situado e profundamente relacional, que exige abertura à pluralidade, sensibilidade ética e disposição para reinventar práticas diante da complexidade cotidiana.

Do ponto de vista da prática profissional, sugere-se a importância de fortalecer estratégias de cuidado interprofissional com base na escuta de habilidades, no reconhecimento das autoridades comunitárias e na articulação entre diferentes sistemas de conhecimento. Para a formação em saúde, destaca-se a necessidade de investimentos em processos formativos interculturais e interprofissionais, que incorporam o pensamento complexo como ferramenta pedagógica, favorecendo a formação de profissionais sensíveis às dimensões éticas, políticas e culturais do cuidado em contextos indígenas. No âmbito das políticas públicas, o estudo reforça a urgência de planejar e implementar ações que ultrapassem modelos biomédicos centrados exclusivamente em protocolos e indicadores, avançando na construção de políticas culturalmente seguras, territorializadas e pactuadas com as comunidades. A superação dos desafios requer não apenas políticas públicas adequadas, mas também formação intercultural para profissionais de saúde, de modo a assegurar que as mulheres indígenas tenham acesso a cuidados que respeitem sua identidade, promovam bem-estar e fortaleçam os vínculos comunitários.

Reconhece-se, contudo, as limitações epistemológicas inerentes ao método teórico-reflexivo adotado. A ausência de uma busca sistemática na literatura e a inexistência de diálogo empírico direto com experiências concretas de cuidado podem restringir o alcance das reflexões, que se sustentam predominantemente no plano conceitual e interpretativo. A imensa diversidade cultural e social dos povos indígenas no Brasil constitui-se em limitação para as reflexões apresentadas neste estudo. As tensões e possibilidades do cuidado interprofissional variam amplamente entre diferentes etnias e regiões, e esta reflexão não pode ser generalizada para a totalidade dos contextos interculturais. As contribuições deste estudo para o avanço da ciência de enfermagem estão relacionadas à proposição de um pensamento complexo que possibilita desvelar os encontros, tensões e possibilidades presentes no cuidado interprofissional de mulheres indígenas.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

  • Apoio financeiro
    Programa Abdias Nascimento - Ações Afirmativas/CAPES - Edital nº 16/2023.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Marcia Regina Martins Alvarenga

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Nov 2025
  • Aceito
    28 Fev 2026
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