RESUMO
Objetivo: Analisar os determinantes sociocognitivos na adesão às precauções-padrão pela equipe de enfermagem em hospital regional brasileiro.
Método: Estudo de método misto, design sequencial explanatório, realizado entre janeiro de 2023 e março de 2024, com 230 profissionais. Utilizaram-se da versão brasileira do Standard Precautions Questionnaire e das entrevistas semiestruturadas. A análise quantitativa empregou o teste de Mann-Whitney e a qualitativa, análise de conteúdo.
Resultados: A média geral de adesão sociocognitiva foi de 3,90 (DP = 0,48), com maior escore no fator “Atitude” (4,60; DP = 0,48) e menor em “Restrições organizacionais” (2,95; DP = 1,17). Identificaram-se diferenças significativas entre categorias profissionais em “Influência Social” (enfermeiros: 4,72; técnicos: 4,79; p = 0,001) e “Organização” (enfermeiros: 4,60; técnicos: 4,49; p = 0,033). A integração dos achados demonstrou convergência entre dados quantitativos e qualitativos, evidenciando que a adesão, embora satisfatória, é influenciada por fatores laborais.
Conclusões: Técnicos demonstraram maior influência social, enquanto enfermeiros identificaram mais barreiras organizacionais. O exemplo entre pares favorece a adesão, apesar do persistente receio de advertências, diante do não cumprimento das práticas.
DESCRITORES
Saúde do trabalhador; Precauções Universais; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: To analyze the sociocognitive determinants of adherence to standard precautions by the nursing staff in a Brazilian regional hospital.
Method: Mixed methodology study, explanatory sequential design, conducted between January 2023 and March 2024, with 230 professionals. The Brazilian version of Standard Precautions Questionnaire and semi-structured interviews were used. The quantitative analysis employed the Mann-Whitney test, and the qualitative analysis, content analysis.
Results: The overall mean sociocognitive adherence score was 3.90 (SD = 0.48), with the highest score in the “Attitude” factor (4.60; SD = 0.48) and the lowest in “Organizational Constraints” (2.95; SD = 1.17). Significant differences were identified between professional categories in “Social Influence” (nurses: 4.72; technicians: 4.79; p = 0.001) and “Organization” (nurses: 4.60; technicians: 4.49; p = 0.033). The integration of the findings demonstrated convergence between quantitative and qualitative data, showing that adherence, although satisfactory, is influenced by work-related factors.
Conclusions: Technicians demonstrated greater social influence, while nurses identified more organizational barriers. Peer example encourages adherence, despite the persistent fear of reprimands for non-compliance with best practices.
DESCRIPTORS
Occupational Health; Universal Precautions; Nursing
RESUMEN
Objetivo: Analizar los determinantes sociocognitivos de la adhesión a las precauciones estándar por parte del personal de enfermería de un hospital regional brasileño.
Método: Estudio de método mixto, diseño secuencial explicativo, realizado entre enero de 2023 y marzo de 2024, con 230 profesionales. Utilizaron la versión brasileña del Standard Precautions Questionnaire y de las entrevistas semiestructuradas. El análisis cuantitativo empleó la prueba de Mann-Whitney y el análisis cualitativo, el análisis de contenido.
Resultados: La puntuación media general de adherencia sociocognitiva fue de 3,90 (DE = 0,48), siendo la puntuación más alta en el factor “Actitud” (4,60; DE = 0,48) y la más baja en “Restricciones organizativas” (2,95; DE = 1,17). Se identificaron diferencias significativas entre las categorías profesionales en “Influencia Social” (enfermeras: 4,72; técnicos: 4,79; p = 0,001) y “Organización” (enfermeras: 4,60; técnicos: 4,49; p = 0,033). La integración de los hallazgos demostró convergencia entre los datos cuantitativos y cualitativos, mostrando que la adherencia, aunque satisfactoria, está influenciada por factores relacionados con el trabajo.
Conclusiones: Los técnicos demostraron una mayor influencia social, mientras que los enfermeros identificaron más barreras organizacionales. El ejemplo de los pares fomenta la adherencia, a pesar del temor persistente a ser reprendidos por el incumplimiento de las mejores prácticas.
DESCRIPTORES
Salud Laboral; Precauciones Universales; Enfermería
INTRODUÇÃO
Os profissionais de enfermagem representam parcela significativa da força de trabalho em ambientes hospitalares(1), sendo expostos a diferentes riscos ocupacionais de natureza biológica, química, física e ergonômica(2). Nesse contexto, os riscos biológicos representam uma das ameaças mais comumente enfrentadas(3), envolvendo contato com sangue, tecidos ou outros fluidos corporais potencialmente infecciosos(2).
Para mitigá-los e prevenir a ocorrência de lesões, é imprescindível o acesso e a adesão às medidas de biossegurança, especialmente às Precauções-Padrão (PP), que visam limitar a transmissão de agentes infecciosos nos ambientes de assistência à saúde(4), como a higienização das mãos, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) – como luvas, aventais, óculos e máscaras – e o manuseio seguro de materiais perfurocortantes e contaminados(5).
Embora os profissionais de enfermagem apresentem maior adesão às PP, em comparação com outros profissionais da saúde(6), os índices permanecem aquém do ideal(7). Observa-se que até 68,3% dos enfermeiros possuem conhecimento insatisfatório sobre as PP e 73,3% não as adotam sistematicamente(8). As razões frequentemente associadas a essa não adesão incluem desorganização laboral, sobrecarga de trabalho, jornadas duplas, situações de urgência, escassez de materiais e fatores individuais, como esquecimento e baixa qualificação profissional(9).
Esse contexto tem contribuído para o aumento da incidência de lesões ocupacionais entre profissionais de enfermagem(10), cuja prevalência, ao longo da carreira, tem atingido mais da metade dos enfermeiros(11). Desta forma, torna-se indispensável identificar os motivos subjacentes à não adesão às PP(4), visando suprir lacunas identificadas em estudos anteriores(12,13) e aprofundar a compreensão dos determinantes que influenciam essa prática.
Entre os fatores que influenciam o comportamento humano e a tomada de decisão dos profissionais de enfermagem, destacam-se os determinantes sociocognitivos, como o conhecimento, a motivação, a intenção, as expectativas e as percepções(13). Esses elementos desempenham papel fundamental na forma como esses profissionais aderem às práticas de PP, especialmente em contexto caracterizado por alta complexidade, dinamismo e situações frequentemente urgentes(14).
No entanto, observa-se lacuna na literatura científica no que se refere a estudos que abordem especificamente os determinantes sociocognitivos e a relação com o comportamento dos profissionais de enfermagem nesse cenário. Essa constatação reforça a necessidade de maior compreensão, reconhecimento e avaliação crítica desses fatores(13). A incorporação de dados mistos na análise contribui para interpretação mais aprofundada, permitindo analisar com mais abrangência esse fenômeno(15). Diante do exposto, objetivou-se analisar os determinantes sociocognitivos que influenciam a adesão às precauções-padrão por parte da equipe de enfermagem em hospital regional brasileiro.
MÉTODO
Tipo de Estudo
O estudo utilizou método misto, com desenho sequencial explanatório (QUAN→qual), no qual a fase quantitativa antecedeu e orientou a análise qualitativa. Os achados qualitativos foram empregados para aprofundar a interpretação dos resultados quantitativos(16). A etapa quantitativa foi transversal e a qualitativa apresentou caráter analítico. Para garantir rigor metodológico, aplicou-se o Mixed Methods Appraisal Tool (MMAT). A investigação buscou responder à questão: quais determinantes sociocognitivos influenciam a adesão às Precauções-Padrão pela equipe de enfermagem em hospital regional brasileiro?
Local
A pesquisa foi realizada em hospital regional, localizado no interior do estado do Piauí, Brasil. Trata-se de hospital geral, com serviços cirúrgicos, clínicos, obstétricos, pediátricos, entre outros, cuja principal função é a assistência à saúde. Além disso, a instituição desenvolve atividades secundárias, como apoio diagnóstico, atendimento a emergências, dispensação de medicamentos, imunização, promoção da saúde, prevenção de doenças e prestação de cuidados de complexidade média e alta. Em 2023, a instituição contava com 745 leitos, divididos nos seguintes setores: Centro Cirúrgico, Centro de Material e Esterilização, Clínica Cirúrgica, Clínica Médica, Obstetrícia, Pediatria, Pronto Socorro e Unidade de Terapia Intensiva.
População e Critérios de Seleção
A população do estudo foi composta por 377 profissionais de enfermagem atuantes no hospital, sendo 112 enfermeiros e 265 técnicos de enfermagem, conforme dados fornecidos pela instituição. Estabeleceu-se como critérios de inclusão: ser profissional da equipe de enfermagem atuante no hospital regional há, no mínimo, um ano, e ter contato direto com o paciente. Excluíram-se aqueles afastados por férias ou licença médica.
Definição da Amostra
A amostra foi selecionada por conveniência, e os participantes foram recrutados presencialmente e de forma individual, nos diferentes setores da instituição. Para a coleta quantitativa, realizou-se cálculo amostral, com objetivo de assegurar número significativo de participantes, adotando nível de confiança de 95% e margem de erro de 5%, o que resultou em amostra mínima estimada de 191 profissionais de enfermagem. Contudo, a amostra final foi ampliada, totalizando 230 participantes na fase quantitativa.
Para coleta qualitativa, a seleção dos participantes ocorreu por amostragem intencional (purposeful sampling), considerando critérios de relevância para compreensão aprofundada do fenômeno investigado. Buscou-se diversidade de experiências profissionais, cargos e setores de atuação, de modo a garantir proporcionalidade entre enfermeiros e técnicos de enfermagem e contemplar diferentes perspectivas sobre as PP. O encerramento amostral aconteceu por saturação teórica, alcançada quando novas entrevistas deixaram de acrescentar informações substancialmente novas às categorias analíticas, resultando no total de 15 participantes nessa fase.
Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada entre janeiro de 2023 e março de 2024. Na fase quantitativa, foram coletados dados de caracterização sociodemográfica (sexo; idade; etnia; renda) e formação profissional (categoria de formação; tempo de formação; setor de atuação; turno de trabalho; quantidade de empregos; satisfação com o emprego; tempo de trabalho na profissão; tempo de trabalho na instituição; e doença relacionada ao trabalho).
Em seguida, utilizou-se da versão brasileira do Standard Precautions Questionnaire (SPQ), originalmente desenvolvido e validado na França, com objetivo de avaliar os determinantes sociocognitivos na adesão às PP, como atitudes, comportamentos, limitações pessoais e organizacionais(17). O SPQ passou por adaptação cultural e validação semântica para o português brasileiro, apresentando propriedades psicométricas satisfatórias, incluindo validade de construto e confiabilidade(18). O instrumento é composto por 24 itens distribuídos em sete fatores: 1 – Comportamento interpessoal (2 itens), 2 – Restrições organizacionais (4 itens), 3 – Intenção de seguir as PP (4 itens), 4 – Influência social (4 itens), 5 – Atitudes em relação às PP (3 itens), 6 – Organização (3 itens), e 7 – Restrições individuais (4 itens)(18,19).
A fase qualitativa foi conduzida com base em roteiro semiestruturado, elaborado para explorar a percepção dos profissionais de enfermagem sobre a aplicação das PP. As entrevistas, com duração média de 10 minutos, foram realizadas individualmente, em sala reservada, gravadas em áudio e transcritas integralmente. Antes do início dessa etapa, o roteiro foi validado com enfermeiros de outro serviço, que não foram incluídos na amostra final, o que permitiu ajustes no instrumento e aperfeiçoamento da técnica de entrevista. Enfatiza-se, ainda, que os três pesquisadores assistentes, responsáveis pela coleta de dados, realizaram treinamento prévio, orientado pela pesquisadora principal.
Análise e Tratamento dos Dados
Os dados quantitativos foram organizados no Microsoft Excel® 2016, por meio de dupla digitação e, posteriormente, analisados no software SPSS®, versão 20.0. Utilizou-se da estatística descritiva, incluindo medidas de tendência central e dispersão, bem como o teste de Shapiro-Wilk para verificação da aderência das variáveis à distribuição normal. Ao considerar a ausência de normalidade para parte dos dados, aplicou-se o teste não paramétrico de Mann-Whitney para comparar os escores do instrumento entre as categorias profissionais(20). Adotaram-se nível de significância de p ≤ 0,05 e intervalo de confiança de 95%.
Os dados qualitativos foram organizados em três etapas: pré-análise, em que o material foi organizado para torná-lo funcional e sistematizar as ideias iniciais; levantamento/categorização do material, na qual o material foi examinado, foram definidas as categorias e unidades de registro e contexto. Por último, na interpretação dos resultados, procedeu-se à descrição analítica, em que o material foi submetido a estudo aprofundado, guiado por hipóteses e referenciais teóricos(21). A integração dos dados foi realizada mediante a conexão entre os resultados quantitativos e qualitativos, buscando convergências e divergências e aprofundamento da análise do objeto de estudo.
Aspectos Éticos
Este estudo respeitou as diretrizes do Conselho Nacional de Saúde para pesquisas com seres humanos, conforme as Resoluções nº 466/2012, 510/2016 e 580/2018, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, sob pareceres nº 5.834.174 e nº 6.086.132. A identidade dos participantes foi preservada por meio da atribuição de códigos alfanuméricos (P1, P2, P3…), e todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Participaram da pesquisa 230 profissionais de enfermagem do hospital regional, com idades entre 19 e 70 anos. A maioria era do sexo feminino (81,7%), com predominância de jovens entre 19 e 40 anos (80,0%). Em relação à etnia, 54,4% autodeclararam-se negros. Predominaram técnicos de enfermagem (66,1%), com tempo de formação entre seis e dez anos (30,4%) e atuação nos três turnos (56,1%). A maioria possuía apenas um vínculo empregatício (68,7%) e salário entre R$ 1.000,00 e R$ 3.000,00 (76,5%), além de elevada satisfação profissional (86,5%). Quanto ao tempo de trabalho, prevaleceu o intervalo de um a cinco anos tanto na profissão (43,5%) quanto na instituição (47,0%). Por fim, 75,3% relataram não apresentar doenças ocupacionais. Os dados descritos estão detalhados na Tabela 1.
Caracterização socioeconômica e profissional dos profissionais de enfermagem atuantes em hospital regional – PI, Brasil, 2023–2024.
Na Tabela 2, apresentam-se os resultados obtidos com a aplicação do questionário Standard Precautions Questionnaire (SPQ). No fator “Atitude” (parte 1), majoritariamente, os participantes concordaram totalmente que as PP constituem forma eficaz para prevenir as infecções hospitalares (68,3%), bem como para proteger os pacientes (67,4%) e profissionais (67,4%). No fator “Influência Social”, 36,1% acreditaram parcialmente que colegas valorizavam as PP. Contudo, 48,7% referiram risco de advertência por superiores quando não as seguem, sendo o percentual mais prevalente neste domínio. Quanto ao fator “Organização”, destacaram-se três itens com prevalência acima de 60%: 65,7% relataram total eficácia da disponibilidade de material; 60,4% indicaram que estar capacitado favorece a adesão; e 61,3% reforçaram a importância de capacitações frequentes.
Distribuição, percentual, média e desvio padrão, segundo itens da versão brasileira do Standard Precautions Questionnaire, respondidos pelos profissionais de enfermagem – PI, Brasil, 2023–2024.
No “Comportamento Interpessoal”, 50,4% apontaram que o comportamento exemplar de médicos facilita a adesão e 47,0% reforçaram a influência positiva dos colegas. Sobre “Restrições Organizacionais”, o principal obstáculo foi “situações inesperadas” (24,3%), ao passo que “falta de tempo” não foi considerada obstáculo por 38,7%. Em “Restrições Individuais”, o maior obstáculo foi material inadequado (42,2%), enquanto crenças pessoais foram minimizadas (38,3% declararam não serem obstáculos). Por fim, em “Intenção”, a maioria sempre seguia as PP, especialmente em situações difíceis (72,6%).
A Escala SPQ apresentou média geral de 3,90 (DP= 0,48). O fator “Atitude” obteve maior pontuação (4,60; DP: 0,48), enquanto o fator “Restrições organizacionais” registrou a menor média (2,95; DP: 1,17). Na comparação por categoria profissional (Tabela 3), os técnicos de enfermagem apresentaram escore significativamente maior em “Influência social” (4,09) em relação aos enfermeiros (3,72; p = 0,001), enquanto os enfermeiros pontuaram mais alto no fator “Organização” (4,60), comparados aos técnicos (4,49; p = 0,033). Para os fatores “Atitude”, “Comportamento interpessoal”, “Restrições organizacionais”, “Restrições individuais” e “Intenção de seguir as precauções padrão”, não foram observadas diferenças estatísticas relevantes entre os grupos.
Escore de determinantes sociocognitivos referente aos fatores da versão brasileira do Standard Precautions Questionnaire por categoria profissional dos profissionais de enfermagem – PI, Brasil, 2023–2024.
No tocante à análise qualitativa do estudo, o conteúdo das entrevistas possibilitou a constituição de três categorias analíticas: Compreensão dos profissionais de enfermagem sobre as precauções-padrão, Utilização das precauções-padrão pela equipe de enfermagem e Fatores que dificultam o uso das precauções-padrão pela equipe de enfermagem. Essas categorias foram incorporadas aos resultados quantitativos, com a extração de declarações significativas para melhor representá-los, conforme descrito no Joint display, exibido no Quadro 1.
Joint display com integração dos resultados quantitativos e declarações dos participantes – PI, Brasil, 2023–2024.
A integração dos resultados evidencia forte convergência entre as dimensões avaliadas, sobretudo no reconhecimento da importância das PP e na percepção da eficácia para prevenir infecções, aspecto corroborado tanto pelos elevados escores de “Atitude”, no componente quantitativo, quanto pelos relatos que destacaram o caráter preventivo e a proteção mútua proporcionada pelas medidas. Também, observou-se convergência na identificação de barreiras organizacionais, especialmente no que se refere à disponibilidade e adequação de materiais, apontada quantitativamente como principal obstáculo e reiterada qualitativamente pela menção à falta de EPI e necessidade de improvisação. A influência coletiva igualmente se mostrou consistente entre métodos: embora a análise quantitativa tenha indicado moderada influência social, os discursos reforçaram que o comportamento exemplar de colegas e médicos favorece a adesão.
Por outro lado, emergiram divergências sutis quanto à utilização efetiva das PP: enquanto os dados quantitativos sugeriram elevada intenção de adesão, mesmo em situações adversas, os depoimentos qualitativos revelaram situações de negligência, esquecimento e improviso, indicando descompasso entre intenção declarada e prática cotidiana. De modo geral, a convergência dos achados sustenta que o conhecimento, a disponibilidade de recursos e o ambiente coletivo constituíram determinantes centrais da adesão, enquanto as divergências destacaram a necessidade de estratégias institucionais voltadas à redução de barreiras práticas e comportamentais.
DISCUSSÃO
A análise dos determinantes sociocognitivos da equipe de enfermagem de um hospital regional brasileiro evidenciou avanços importantes no conhecimento e na intenção declarada de enfermeiros e técnicos de enfermagem quanto à adesão às PP, especialmente quanto ao reconhecimento da eficácia na prevenção de infecções hospitalares. Entretanto, essa percepção positiva contrasta com as barreiras práticas identificadas, particularmente no que diz respeito às restrições organizacionais e à disponibilidade de materiais, indicando a persistência do conhecido descompasso entre o saber e o fazer na prática clínica.
Estudos anteriores demonstraram que o nível de conhecimento dos profissionais de enfermagem sobre as PP era satisfatório(22,23). Contudo, essa prática ainda é pouco incorporada pela maioria(22), especialmente diante da baixa qualidade, disponibilidade e acessibilidade de materiais, o que configura importante obstáculo à adesão(24). A tradução dos conceitos de PP em prática é, portanto, desafiadora, sendo necessário o apoio da instituição de saúde para promover a adesão aos padrões por toda a equipe(25).
Os determinantes sociocognitivos relativos à “Restrição organizacional” apresentaram a menor pontuação média na escala global, indicando que os profissionais de enfermagem não consideraram que situações inesperadas (p.ex., urgências), pouca disponibilidade de tempo, carga de trabalho mais elevada e complexidade das medidas de PP constituem obstáculos para a adesão. Esse resultado é preocupante, visto que essas limitações institucionais continuam configurando entre os maiores entraves práticos para o uso consistente das PP, sobrepondo-se, muitas vezes, a fatores individuais, como desconhecimento ou crenças pessoais.
Estudo realizado na Arábia Saudita, com objetivo de investigar a conformidade com as PP entre enfermeiros e médicos, identificou que o principal desafio relatado que afetou a adesão dos enfermeiros às PP foi excesso de carga de trabalho (82,1%)(26). Revisão de escopo realizada com objetivo de identificar os fatores compartilhados relacionados a não adesão dos enfermeiros às práticas de prevenção e ao controle de infecções estabeleceu o tempo como recurso de particular importância em relação à adesão às PP, relacionado principalmente ao tempo gasto para vestir o EPI. Ademais, destacou que, em situações de urgência, enfermeiros relataram que frequentemente priorizam o atendimento de emergência acima das precauções de prevenção e controle de infecções(24).
Essa divergência foi identificada nos dados da etapa quantitativa e a literatura também foi verificada na análise qualitativa, com os participantes indicando exceções para não usar a PP, como pouca disponibilidade tempo e situações de urgência. Essa incongruência pode ser parcialmente explicada pelo viés de desejabilidade social, comum em estudos de autorrelato, em que os participantes tendem a responder conforme o comportamento socialmente esperado(27,28). Além disso, é possível que a intenção declarada, mesmo em condições adversas, não se concretize na prática cotidiana, sobretudo, diante dos fatores contextuais citados, como sobrecarga de trabalho, escassez de recursos, entre outros. Deste modo, é possível afirmar que, embora haja baixa identificação das restrições das organizações como possíveis obstáculos para adesão às PP, a prática real, mais bem observada nos relatos, é influenciada por fatores organizacionais e circunstanciais, o que evidencia a necessidade de estratégias institucionais que aliem intenção, capacitação e condições estruturais favoráveis.
A análise por categorias profissionais indicou que, enquanto os técnicos de enfermagem perceberam maior “Influência social” sobre a adesão às PP, os enfermeiros sentiam maior impacto do fator “Organização”. Esse achado sugere diferentes percepções entre níveis hierárquicos. Para os técnicos, o comportamento dos pares e superiores poderia ser fator motivador ou desestimulante, evidenciando a importância das relações interpessoais para promover ambientes de adesão positiva. Para os enfermeiros, por outro lado, a estrutura institucional, que envolve ter material em todos os locais de trabalho, estar capacitado e ter acesso a formações frequentes quanto às PP, pareceu ser o principal determinante da prática, o que se coaduna com o papel gerencial que, muitas vezes, exercem.
Possível explicação para técnicos de enfermagem serem mais influenciados pelo ambiente de trabalho a aderirem às PP, em especial frente à possibilidade de advertências pelo descumprimento, reside no fato de que as atividades desses profissionais, por exigência da lei do exercício profissional de enfermagem, somente podem ser desempenhadas sob orientação e supervisão do enfermeiro(29), o que pode fortalecer o papel das figuras de autoridade no reforço da adesão(22).
Por outro lado, é preciso refletir que o desequilíbrio na percepção da eventualidade de advertências entre os membros da equipe de enfermagem também pode indicar cultura de vigilância punitiva, denotando ambiente organizacional mais orientado pela sanção do erro, o qual é capaz de comprometer o engajamento genuíno dos profissionais na adoção das práticas de precaução. Essa descoberta é preocupante, pois pode indicar que a cultura organizacional atual no cenário do estudo pode não estar promovendo ativamente a adesão às melhores práticas das PP(25).
É importante reconhecer que adesão é uma decisão pessoal, enquanto conformidade ocorre, predominantemente, pela obediência a normas, muitas vezes, desconsiderando convicções pessoais. Desta forma, a conformidade com as PP pode ser potencializada, se forem considerados os fatores que influenciam a adesão, sobretudo aqueles relacionados ao comportamento e às atitudes da equipe de enfermagem(27). Quesito que precisa ser considerado nesse âmbito é o fator “crenças pessoais”, que, neste estudo, não foi percebido pela maioria dos participantes como obstáculo à conformidade com as PP, embora a literatura demonstre que crenças individuais podem impactar diretamente a percepção pessoal do risco e, consequentemente, a extensão da proteção adotada e o comportamento de risco assumido(13,19).
Nesse contexto, deve-se estimular, mais que a possibilidade de ocorrência de advertências e punições, o papel do exemplo comportamental, em que práticas positivas de adesão exercem influência direta sobre outros membros da equipe multiprofissional. Esse resultado reforça a importância da liderança pelo exemplo, com potencial para consolidar ambientes mais seguros e culturalmente positivos(14,30).
No que se refere ao fator “Organização”, a capacitação quanto às PP foi destacada como facilitadora da adesão, semelhante ao encontrado em estudo realizado no Brasil, com objetivo de avaliar os fatores sociocognitivos determinantes na adesão às PP pelos profissionais de enfermagem na prática assistencial na pandemia da Covid-19(13). Identifica-se que profissionais de enfermagem se beneficiam de sessões regulares de treinamento para melhorar a percepção geral sobre as medidas de PP e o controle de infecções e os riscos envolvidos na não adesão(30).
Outro estudo de métodos mistos, realizado na Etiópia, com propósito de avaliar a adesão às PP para práticas de prevenção de infecções e os fatores associados entre profissionais de saúde, evidenciou que aqueles que tiveram treinamento em PP apresentaram quase quatro vezes mais probabilidade de cumpri-las, em comparação com aqueles que não fizeram treinamento(28). No entanto, enfatiza-se que ações isoladas de capacitação e sensibilização não são suficientes para garantir a adesão plena às PP. É vital que as organizações de saúde ofereçam treinamento regular e as medidas necessárias para todos os enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros profissionais de saúde para aprimorar a competência e capacidade(26).
Apesar da intenção declarada de adesão ser elevada, dados qualitativos evidenciaram contradições, especialmente em contextos de urgência ou sobrecarga. Ainda assim, a intenção constitui indicador importante de potencial adesão, ao estabelecer consciência e predisposição para práticas seguras, que podem ser otimizadas, por meio de intervenções institucionais bem estruturadas, exercendo efeito mediador no desempenho relacionado ao controle de infecções, sendo determinante para práticas seguras(13).
As descobertas deste estudo têm relevância significativa para atuação do profissional de enfermagem. Ao evidenciar que as restrições organizacionais, incluindo sobrecarga de trabalho, escassez de recursos e ambiente punitivo sobrepõem-se a fatores individuais, o estudo desloca o foco da responsabilização individual para necessidade de intervenções institucionais estruturais, reforçando o papel da gestão organizacional, liderança positiva e cultura de segurança. A valorização do exemplo comportamental e da liderança pelo exemplo aponta para estratégias inovadoras, baseadas em modelagem social e liderança transformacional. Desta forma, a gestão pode influenciar drasticamente os comportamentos aderentes da equipe de enfermagem, ao envolver os líderes como modelos de segurança, incentivar a comunicação aberta, reconhecer as questões relacionadas à adesão às PP e apoiar os mecanismos de segurança do paciente no local de trabalho(27).
Este estudo apresenta limitações inerentes ao método adotado, que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Primeiramente, a natureza transversal impede a avaliação de relações causais entre as variáveis. Estudos longitudinais seriam necessários para analisar a persistência dessas intenções e a concretização ao longo do tempo. Outra limitação importante refere-se à autodeclaração dos participantes no instrumento quantitativo (SPQ) que, conforme indicado anteriormente, pode estar relacionada ao viés de desejabilidade social.
O estudo também apresenta possível limitação relacionada ao perfil da amostra, composta exclusivamente por profissionais de uma única instituição. Essa particularidade restringe a generalização dos resultados para outras realidades, uma vez que condições organizacionais, acesso a materiais, cultura de segurança e estilo de liderança podem variar consideravelmente entre diferentes instituições e regiões.
CONCLUSÃO
O estudo mostrou que a equipe de enfermagem pesquisada possuía conhecimento satisfatório e forte intenção de aderir às precauções padrão, reconhecendo a eficácia para prevenir infecções. No entanto, persistiram desafios significativos relacionados às restrições organizacionais e à influência de fatores interpessoais.
Outrossim, destaca-se a necessidade urgente de ambientes mais colaborativos, em que a liderança positiva substitua a lógica punitiva e o exemplo de boas práticas seja valorizado. Embora a capacitação regular se mostre essencial, ela não é suficiente sem suporte estrutural adequado. Portanto, intervenções institucionais contínuas, integrando liderança positiva e melhorias organizacionais, são fundamentais para fortalecer a adesão efetiva às PP e consolidar cultura de segurança mais sólida e sustentável na prática assistencial.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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