Open-access Sobras de antibióticos na atenção primária à saúde: abordagem sobre impacto econômico e o cuidado farmacêutico*

RESUMO

Objetivo:  Avaliar os resultados da dispensação de antibióticos em uma Unidade Básica de Saúde do município de São Paulo e explorar o conhecimento de usuários a respeito do uso e descarte de antibióticos por meio da consulta farmacêutica.

Método:  Estudo prospectivo, quantitativo, realizado entre janeiro e abril de 2024, por meio da análise de prescrições de antibióticos orais e consultas farmacêuticas em questionário semiestruturado.

Resultados:  Identificou-se que 81,9% (n = 1.225) de 1.495 prescrições resultaram em sobras, gerando desperdício de 8.061 unidades farmacêuticas e perda financeira estimada em R$2.349,54. Entre os 17 usuários entrevistados, verificou-se baixo conhecimento sobre resistência microbiana, uso e descarte de medicamentos. Apenas 29,4% (n = 5) devolveram as sobras após intervenção farmacêutica.

Conclusão:  A dispensação com sobras favorece o uso e descarte inadequados dos antibióticos, contribuindo para a resistência antimicrobiana. O cuidado farmacêutico, dentro de uma abordagem na equipe multiprofissional, tem potencial para reduzir desperdícios e promover o uso racional. Propõe-se a implantação de protocolos de unitarização e ações educativas para profissionais e usuários.

DESCRITORES
Uso de Medicamentos; Resistência Microbiana a Medicamentos; Atenção Primária à Saúde

ABSTRACT

Objective:  To evaluate the results of antibiotic dispensing in a Primary Health Care Unit in the municipality of São Paulo and to explore users’ knowledge regarding the use and disposal of antibiotics through pharmaceutical consultation.

Method:  A prospective, quantitative study was conducted between January and April 2024, through the analysis of oral antibiotic prescriptions and pharmaceutical consultations using a semi-structured questionnaire.

Results:  It was identified that 81.9% (n = 1,225) of 1,495 prescriptions resulted in leftover medication, generating a waste of 8,061 pharmaceutical units and an estimated financial loss of R$2,349.54. Among the 17 users interviewed, there was low knowledge about antimicrobial resistance, medication use and disposal. Only 29.4% (n = 5) returned the leftover medication after pharmaceutical intervention.

Conclusion:  Dispensing medication with leftovers encourages the improper use and disposal of antibiotics, contributing to antimicrobial resistance. Pharmaceutical care, within a multidisciplinary team approach, has the potential to reduce waste and promote rational use. We propose the implementation of unit-dose packaging protocols and educational initiatives for professionals and users.

DESCRIPTORS
Drug Utilization; Drug Resistance; Microbial; Primary Health Care

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar los resultados de la dispensación de antibióticos en una Unidad de Atención Primaria de Salud en el municipio de São Paulo y explorar el conocimiento de los usuarios sobre el uso y el desecho de antibióticos a través de la consulta farmacéutica.

Método:  Entre enero y abril de 2024 se realizó un estudio prospectivo y cuantitativo mediante el análisis de las prescripciones de antibióticos orales y las consultas farmacéuticas, utilizando un cuestionario semiestructurado.

Resultados:  Se identificó que el 81,9% (n = 1.225) de 1.495 recetas dieron como resultado medicamentos sobrantes, generando un desperdicio de 8.061 unidades farmacéuticas y una pérdida financiera estimada de R$2.349,54. Entre los 17 usuarios entrevistados, se observó un bajo nivel de conocimiento sobre la resistencia a los antimicrobianos, el uso de medicamentos y su correcto desecho. Solo el 29,4% (n = 5) devolvió la medicación sobrante tras la intervención farmacéutica.

Conclusión:  La dispensación de medicamentos con sobrantes fomenta el uso y el desecho inadecuados de antibióticos, lo que contribuye a la resistencia a los antimicrobianos. La atención farmacéutica, en el marco de un enfoque de equipo multidisciplinario, tiene el potencial de reducir el desperdicio y promover un uso racional. La propuesta incluye la implementación de protocolos de envasado en dosis unitarias e iniciativas educativas para profesionales y usuarios.

DESCRIPTORES
Uso de Medicamentos; Resistência Microbiana a Medicamentos; Atenção Primária à Saúde

INTRODUÇÃO

A Resistência Antimicrobiana (RAM) representa uma ameaça crescente à saúde pública global. Embora o impacto da RAM seja amplamente estudado em ambientes hospitalares, na atenção primária à saúde (APS) esse impacto é ainda insuficientemente explorado. Como primeiro nível de atenção em saúde, a APS enfrenta desafios significativos relacionados ao uso inadequado de antibióticos. Este uso não racional e excessivo contribui para a RAM, aumento dos gastos e desperdício de recursos(1,2,3,4).

Na APS, a dispensação de antibióticos pode conter sobras, que são as quantidades excedentes dispensadas ao usuário e que não são necessárias para o tratamento prescrito. Estas sobras ocorrem devido à não aquisição de embalagens fracionáveis e à dificuldade técnica de fracionamento da forma adequada na APS. A dispensação com sobras favorece diretamente usos inadequados dos medicamentos, como a automedicação ou compartilhamento com pessoas com sintomas semelhantes e aumentam a possibilidade de contaminação do meio ambiente por meio do descarte impróprio, contribuindo para a disseminação da RAM na comunidade. Além disso, concorre para significativo desperdício de recursos financeiros do sistema de saúde(5).

O Uso Racional de Medicamentos (URM) de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) é quando o usuário recebe o medicamento apropriado para sua condição, nas doses certas e ajustadas às suas necessidades individuais, garantindo a duração adequada do tratamento a um custo razoável tanto para o usuário quanto para a comunidade. A aplicação efetiva do URM representa um desafio significativo no combate à RAM(6).

A adoção de estratégias, no contexto da equipe multiprofisisonal, que apoiem o URM é fundamental. Na APS, o farmacêutico atua de forma integrada à equipe multiprofissional, fortalecendo o vínculo com a comunidade e exercendo um papel importante no combate à RAM. Dentre suas atribuições estão a consulta farmacêutica, participação em grupos educativos, visitas domiciliares, consultas compartilhadas e em Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), especialmente para os casos complexos. Desta forma, o farmacêutico pode contribuir significativamente para minimizar os fatores que corroboram a RAM promovendo orientações e ações educativas que potencializam o URM e o descarte correto(7). Essas ações integram-se de maneira multidisciplinar no esforço coletivo para o enfrentamento da RAM.

Por fim, este estudo tem como objetivo avaliar os resultados da dispensação de antibióticos em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do município de São Paulo, bem como explorar o conhecimento de usuários a respeito do uso e descarte de antibióticos por meio da consulta farmacêutica.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de um estudo longitudinal prospectivo de abordagem quantitativa sobre a intervenção do cuidado farmacêutico no uso racional de antibióticos.

Local e Período do Estudo

Realizado na UBS Parque Araribá, vinculada à Supervisão Técnica de Saúde do Campo Limpo, no município de São Paulo – a maior cidade do país, com população estimada em 11.895.578 habitantes. A UBS possui 36.363 usuários cadastrados (dados de agosto/2024) e dispõe de dez equipes da Estratégia Saúde da Família. A coleta de dados ocorreu no período entre 1º de janeiro e 30 de abril de 2024.

População e Critérios de Seleção

A população do estudo foi composta por usuários adultos da APS que receberam prescrições de antibióticos provenientes das consultas dos profissionais de saúde (médicos, dentistas ou enfermeiros) da unidade. Foram incluídos na pesquisa os indivíduos com prescrição de antibióticos para uso oral sólido (comprimidos, cápsulas e drágeas) disponíveis no serviço, considerando a Relação Municipal de Medicamentos (REMUME), cujas apresentações farmacêuticas não permitiam a dispensação exata para o tratamento prescrito, levando a dispensação com sobras(8). Dentro deste critério, identificaram-se dez medicamentos: amoxicilina 500mg, cefalexina 500 mg, ciprofloxacino 500mg, claritromicina 500mg, clindamicina 300mg, doxiciclina 100mg, metronidazol 250mg, nitrofurantoína 10 mg, norfloxacino 400 mg e sulfametoxazol 400mg + trimemiddlerima 80mg.

Definição da Amostra

Definiu-se uma amostra por conveniência e sequencial, na ordem de atendimento na UBS. A pesquisadora dedicou um dia da semana no período de 15 semanas para consultas e dispensações em consultório reservado para este fim. Esta demanda resultou em 17 atendimentos com 18 dispensações, o que representou 1,2% (n = 1.495) das dispensações do período do estudo.

Procedimento de Coleta de Dados

Na primeira etapa da pesquisa foram analisadas 1.495 prescrições (segundas vias) dos antibióticos de uso oral e sólidos, disponíveis no serviço e dispensados com sobras, com o objetivo de investigar o perfil de dispensação dos antibióticos. Nessa etapa, o volume de Unidades Farmacêuticas (UF) provenientes das sobras foi calculado mediante a diferença entre a quantidade dispensada e a quantidade prescrita para o tratamento. O valor das perdas financeiras foi calculado com base no preço unitário presente em nota fiscal multiplicado pela quantidade de sobra de cada medicamento, sendo possível uma estimativa das perdas com projeção para os quadrimestres subsequentes. O potencial de desperdício foi calculado utilizando os valores totais de UFs dispensadas em comparação às UFs totais desperdiçadas (sobras) de cada uma das apresentações dos antibióticos.

A segunda etapa foi a consulta farmacêutica aos usuários do serviço com prescrição de antibióticos, que aconteceu simultaneamente à primeira, com o objetivo de testar a viabilidade da intervenção do cuidado farmacêutico nesse formato. Nesta etapa, foram atendidos 17 usuários, os quais foram questionados sobre o conhecimento prévio de antibióticos e orientados conforme suas respostas e dúvidas. Foram dispensados os medicamentos de acordo com a prescrição, orientando especificamente o usuário sobre a devolução das sobras dos antibióticos. Ainda neste momento, foi agendada data de retorno para segunda consulta onde foram avaliadas as quantidades de sobras devolvidas e realizado o desfecho da intervenção.

Análise e Tratamento dos Dados

Os dados foram coletados utilizando-se como instrumento para apoio o formulário farmacoterapêutico e, posteriormente, inseridos em planilha utilizando como ferramenta o software Microsoft Excel. O formulário foi desenvolvido especificamente para essa pesquisa de modo a nortear as perguntas direcionadas ao usuário. Nele havia perguntas sobre o conhecimento prévio sobre antibióticos, resistência antimicrobiana e descartes de medicamentos; informações sobre o medicamento dispensado e sobras; e perguntas relacionadas à consulta após intervenção, momento do retorno do usuário com as sobras dos medicamentos. As alternativas de respostas eram sim, não, não sei. Ao final, havia um campo aberto para anotação de falas importantes relacionadas às questões. O questionário está disponível no arquivo suplementar. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, distribuição absoluta e relativa das variáveis estudadas.

Aspectos Éticos

O estudo foi submetido ao comitê de ética da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP), parecer nº 6.544.357, via Plataforma Brasil, atentando às legislações vigentes, com a autorização para a realização da pesquisa CAAE nº 74545323.4.0000.5392.

RESULTADOS

Os resultados obtidos são apresentados segundo as etapas citadas na seção de métodos.

1ª Etapa – Perfil de Dispensação dos Antibióticos

O resultado demonstrou que das 1.495 prescrições analisadas, 1.225 (81,9%) foram dispensadas com UFs em quantidades que excedem às necessárias para o tratamento. Entre estas prescrições dispensadas com sobras, 51,4% (n = 630) foram provenientes da própria UBS, seguidas de 28,1% (n = 344) de serviços particulares e 20,5% (n = 251) de outros serviços públicos de saúde.

Observando-se todas as prescrições dos dez antibióticos elencados para o estudo e relacionando a quantidade desperdiçada (sobra) com a quantidade dispensada, traçou-se o potencial de desperdício de cada medicamento (Tabela 1). Exemplificando, pode-se notar que o medicamento norfloxacino 400 mg teve o maior potencial de desperdício quando se estimou que 28,8% de todo medicamento dispensado no período (n = 204) foi desperdiçado.

Tabela 1
Unidades farmacêuticas (UFs) totais dispensadas e desperdiçadas, segundo o tipo de antibiótico e potencial de desperdício conforme prescrições atendidas entre janeiro e abril de 2024 na UBS Parque Araribá, N = 43.556 UFs dispensadas – São Paulo, SP, Brasil, 2024.

Com um volume de sobras em 4.460 UFs no período, a amoxicilina 500 mg foi o medicamento que mais colaborou com a perda de recursos financeiros, chegando a R$ 936,60, estimados para os quatro meses do estudo. A nitrofurantoína 100 mg, que teve dispensação com sobra em todas as prescrições, contribuiu para o desperdício de 80 UFs das 372 UFs totais dispensadas deste medicamento, gerando uma perda financeira estimada de R$ 25,60. A doxiciclina 100 mg foi o medicamento que obteve menor perda financeira, calculada em R$ 22,62. Somadas todas as perdas, obteve-se o total de R$ 2.349,54 para o período (Tabela 2).

Tabela 2
Estimativa de recurso financeiro desperdiçado (em R$) por meio das sobras dos medicamentos entre janeiro e abril de 2024 na UBS Parque Araribá – São Paulo, SP, Brasil, 2024.

2ª Etapa – Perfil de Dispensação dos Antibióticos

Foram atendidos 17 usuários, com dispensação de 18 antibióticos com sobras. Os resultados obtidos demonstraram que apenas um usuário não sabia o motivo da prescrição (Figura 1). Entre os usuários atendidos na consulta farmacêutica, cinco já tiveram alguma dúvida com prescrição em algum momento, cinco souberam dizer de maneira resumida o que é RAM e seis informaram conhecimento sobre antibiótico. Três utilizaram antibióticos sem receita no último ano, 14 relataram não ter antibióticos em casa e 13 pessoas disseram não saber onde descartar medicamentos que sobram de tratamentos ou vencidos.

Figura 1
Distribuição percentual de respostas dos usuários, referentes ao conhecimento sobre antibióticos, coletadas em consulta farmacêutica no período de janeiro a abril de 2024 na UBS Parque Araribá, São Paulo/SP. N = 17.

O formulário farmacoterapêutico usado para as consultas era composto de eixos 1 e 2, correlacionados aos momentos das consultas.

Eixo 1: Conhecimento Sobre Antibióticos

Momento da primeira consulta, onde é avaliado o conhecimento prévio do usuário com perguntas relacionadas aos antibióticos, RAM e descarte (Figura 1).

Eixo 2: Perfil das Sobras e Devolução

São os dados relacionados à segunda consulta (retorno). Dentre os usuários que foram atendidos na primeira consulta farmacêutica, apenas cinco usuários (29,4%) retornaram para a devolução das sobras, resultando em conformidade após a intervenção farmacêutica referente à devolução correta das sobras. Dentre estes cinco, apenas um indivíduo reportou não concluir o tratamento de acordo com a prescrição e orientação, ainda que a quantidade devolvida estivesse em acordo com a pactuada no primeiro momento.

DISCUSSÃO

Este estudo mostra que houve sobra em mais de 80% das prescrições de antibióticos na UBS Parque Araribá devido a sua apresentação (embalagem) no período estudado. Estas sobras são relativamente grandes, e podem contribuir para disseminação da RAM na comunidade. Contudo, não há no Brasil políticas que regulamentem de maneira efetiva esta dispensação com base no URM, onde, segundo a OMS, o usuário deve receber o medicamento apropriado em dose correta, ajustado às suas necessidades, garantindo o tratamento completo a um custo razoável.

As sobras analisadas do ponto de vista econômico indicaram uma perda financeira de R$ 2.349,54 no período, com projeção de mais de R$ 7.000,00 em 2024 somente na UBS Parque Araribá. Estes valores não se destacam por ser um montante vultoso, mas quando aplicados em escala podem-se estimar perdas significativas. Um estudo similar no município de Guarulhos, em 2020, obteve estimativa de perda de aproximadamente R$ 2.530,26 em uma UBS naquele ano, o que projetou para este município um desperdício com as sobras estimado de R$ 888.272,04 para o ano(2). O município de São Paulo é composto por cerca de 500 serviços de saúde que realizam dispensação com possibilidade de sobras (UBSs e AMAs). Comparando com o estudo de Guarulhos, podemos supor que São Paulo pode chegar a um valor de perda financeira ainda mais relevante, sendo que estes recursos poderiam ser destinados à compra de mais medicamentos ou a outros investimentos.

Diante de um cenário de escassez é cada vez menos aceitável que recursos essenciais, tais como os antibióticos, sejam desperdiçados de maneira irrefletida por inação das autoridades sanitárias. Sobretudo, o controle do consumo de antibióticos é um imperativo para o combate a RAM.

Contudo, o prejuízo consequente às sobras de antibióticos ultrapassa o aspecto meramente financeiro, quando se entende que estas estão em poder de uma população relativamente desinformada. Os nossos achados demonstraram que uma parcela importante dos entrevistados não soube responder o que era antibiótico ou RAM e também não sabiam onde descartar medicamentos provenientes de sobras de tratamentos ou vencidos. Mesmo tendo sido orientados a retornarem para devolução das sobras, essa atividade foi executada apenas por uma fração pequena dos indivíduos que receberam a orientação. Como consequência das sobras em posse da população, pode-se antecipar o potencial uso indevido destas sobras pelo próprio usuário ou terceiro (vizinho, parente, crianças), considerando que não há um amplo conhecimento dos riscos associados e há baixa conscientização sobre o uso adequado de antibióticos(5). Nesse sentido, destaca-se a necessidade de um esforço multidisciplinar para abordagem dos pacientes na atenção primária, reconhecendo o papel de outros profissionais além do prescritor tradicional, que é o profissional médico. Para tal, as equipes precisam ser preparadas para exercer essas ações educativas, considerando o perfil e necessidades dos pacientes atendidos(9).

Outro fator importante que merece destaque é o descarte inadequado de antibióticos. Este representa grande risco à saúde pública, contribui para a RAM por meio da contaminação do meio ambiente (solo, água, e animais) e pode estender-se a toda uma comunidade. Condições precárias de saneamento básico e vulnerabilidade social, aliadas à desinformação, colaboram para a contaminação ambiental por antibióticos(5). Um estudo em Minas Gerais detectou a presença desses fármacos em todas as amostras de água, inclusive em áreas com pouca interferência humana, indicando que sua disseminação vai além dos centros urbanos(10). Destaca-se, desta forma, a importância da educação da população não somente quanto ao uso, mas também quanto ao descarte adequado(11). Outros autores também afirmam que a não conformidade das embalagens de antibióticos gera grande quantidade de resíduos na comunidade, contribuindo para a RAM como problema de saúde, social e econômico(12,13).

Em reflexo a essa situação das sobras, a unitarização e dispensação exata parece ser a solução mais apropriada, destacando-se como uma ferramenta significativa. A dispensação individualizada possibilita que o usuário receba apenas a quantidade exata necessária para o tratamento. Um experimento em farmácias comunitárias da França (2014-2015) substituiu a dispensação de 14 antibióticos em embalagens originais pela unitarização, reduzindo a quantidade dispensada, minimizando desperdícios e favorecendo a adesão ao tratamento(13,14). Contudo, a unitarização de medicamentos no Brasil só pode ser feita no local da dispensação, em condições controladas, de acordo com a RDC Nº 80, de 11 de maio de 2006, o que exige investimentos e relevante adaptação dos serviços(15). Outra maneira de favorecer a dispensação unitarizada de antibióticos seria a apresentação destes medicamentos em cartelas fracionáveis, porém no país existem poucas marcas e tipos de antibióticos no mercado.

No entanto, no Brasil não há medidas para regulamentar a produção de apresentações medicamentosas em embalagens que sejam compatíveis com os interesses da saúde coletiva, bem como políticas que regulamentem a adequação do mercado farmacêutico e estimulem os serviços de saúde à aquisição de antibióticos unitarizados ou em embalagens fracionáveis, o que garantiria a dispensação individualizada. Esse seria o modelo ideal de aquisição de antibióticos no sistema de saúde brasileiro, assegurando a dispensação exata para o tratamento indicado pelo prescritor.

Enquanto essa solução mais ampla e sensata não acontece, uma alternativa possível seria estabelecer condições sanitárias para unitarização in loco em cada farmácia de UBS (ou em um pólo central ou regionalizado), ainda que gerando custos operacionais e processos de trabalho adicionais. Entretanto, tais investimentos poderiam se diluir pela sustentabilidade da dispensação mais acurada.

O farmacêutico tem importante papel como profissional clínico intervindo na melhoria da adesão e gerenciamento destes medicamentos(12). As intervenções farmacêuticas visam garantir a assistência terapêutica integral ao usuário. Porém, deparam-se com obstáculos culturais desafiadores, como a falta de reconhecimento da importância do uso correto dos medicamentos e do atendimento farmacêutico, parte importante para o seu cuidado e tratamento(16). Ainda, é fundamental que os profissionais sejam qualificados e tenham plena consciência da importância estratégica de suas funções. Em conformidade, um autor do Reino Unido aponta a necessidade de se prepararem profissionais farmacêuticos para lidar com a RAM por meio da administração consciente dos antimicrobianos, incluindo programas de graduação profissional que contenham na grade curricular disciplinas voltadas a administração de antimicrobianos como uma competência obrigatória em farmácias-escola daquele país, alinhando a educação com a prática, o que poderia ser perfeitamente aplicável ao contexto brasileiro(17). Invariavelmente, destacamos que a consulta farmacêutica pode somar esforços à consulta do enfermeiro, e demais profissionais da saúde, no

quesito de orientação aos usuários e familiares, potencializando o trabalho de equipe.

Assim, fazem-se necessárias medidas de conscientização, educação e incentivo às políticas públicas para que seja preservada a eficácia dos antibióticos para gerações(18).

Enquanto a dispensação com sobras continuar nos serviços de saúde, o desperdício financeiro e o potencial aumento da RAM persistirão. É evidente que o cuidado farmacêutico, integrado a equipe multidisciplinar, pode reduzir desperdícios e promover o URM. Diante desse cenário, sem a possibilidade de dispensação individualizada, outras medidas devem ser tomadas na tentativa de minimizar o uso irracional e descarte indevido dos antibióticos. Desta forma, propõe-se desenvolver intervenções eficazes para sensibilizar os profissionais da saúde e a população sobre a RAM e mitigar seus fatores de risco.

Considerando os achados deste estudo, propôs-se o desenvolvimento de material técnico de apoio voltado à padronização do procedimento de unitarização e à implantação de protocolo para a dispensação individualizada de antibióticos no âmbito da APS. Tal iniciativa objetiva qualificar ainda mais o papel do farmacêutico no cuidado, promovendo maior adesão ao tratamento,

minimizando riscos de descarte ambientalmente inadequado e reduzindo a possibilidade de uso indevido e desperdícios de recursos financeiros, por meio da dispensação dos antibióticos em conformidade estrita com a posologia prescrita. E, consequentemente, contribuir para a mitigação dos impactos das sobras de antibióticos sobre a RAM na comunidade. Este material está disponível em página eletrônica(19).

CONCLUSÃO

Este estudo demonstrou a ocorrência de sobras nas dispensações de antibióticos das unidades de saúde. Os resultados da consulta farmacêutica demonstraram que há conhecimento insuficiente sobre uso e descarte de antibióticos. A unitarização de medicamentos na APS, associada com ações educativas, pode ser de grande potencial para reduzir o desperdício e contribuir para a mitigação da RAM.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Thereza Maria Magalhães Moreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Maio 2026
  • Aceito
    10 Jun 2026
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