Open-access Ambiente de trabalho de enfermeiros na atenção primária à saúde de Manaus: estudo transversal analítico*

RESUMO

Objetivo:  Analisar as dimensões do ambiente de trabalho dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde e sua relação com características sociodemográficas dos profissionais.

Método:  Estudo transversal, analítico, realizado entre abril/outubro de 2024, com 243 enfermeiros da APS de Manaus. Utilizou-se questionário e a Escala de Avaliação do Ambiente de Trabalho. Foi realizada análise descritiva e inferencial.

Resultados:  A avaliação global do ambiente de trabalho foi regular com média 98,1. A média da dimensão Motivação para o trabalho foi 47,2. A dimensão Segurança no Ambiente de Trabalho apresentou média mais baixa (14,6), classificada como “atenção”, e Gestão Estratégica para o Trabalho Saudável, com média 36,3, foi classificada com pontos de alerta. Evidenciou-se correlação negativa entre renda e motivação, tempo de atuação na APS com gestão, idade/tempo de atuação e segurança. Enfermeiros temporários avaliaram mais positivamente a gestão estratégica.

Conclusão:  Identificaram-se fragilidades na segurança e gestão estratégica, com necessidade de melhorias na infraestrutura, gestão participativa e proteção à saúde dos profissionais para promover um ambiente de trabalho mais seguro e saudável.

DESCRITORES
Atenção Primária à Saúde; Trabalho; Ambiente de Instituições de Saúde; Enfermeiras e Enfermeiros

ABSTRACT

Objective:  To analyze the dimensions of the work environment of primary health care nurses (PHC) and its relationship with these professionals’ sociodemographic characteristics.

Method:  This was a cross-sectional, analytical study conducted between April and October 2024 with 243 PHC nurses in Manaus. A questionnaire and the Workplace Environment Assessment Scale were used. Descriptive and inferential analysis was performed.

Results:  The overall assessment of the work environment was average, with a score of 98.1. The average score for the Motivation for Work dimension was 47.2. The Workplace Safety dimension had the lowest average (14.6), classified as “attention”, and Strategic Management for Healthy Work, with an average of 36.3, was classified as having warning points. A negative correlation was found between income and motivation, length of time working in PHC and management, age/length of work and job security. Temporary nurses evaluated strategic management more positively.

Conclusion:  Weaknesses were identified in security and strategic management, highlighting the need for improvements in infrastructure, participatory management, and protection of professionals’ health to promote a safer and healthier work environment.

DESCRIPTORS
Primary Health Care; Work; Health Facility Environment; Nurses

RESUMEN

Objetivo:  Analizar las dimensiones del ambiente laboral de enfermeros de atención primaria de salud y su relación con las características sociodemográficas de estos profesionales.

Método:  Se trata de un estudio transversal, analítico, realizado entre abril y octubre de 2024 con 243 enfermeros de atención primaria de salud en Manaus. Se utilizó un cuestionario y la Escala de Evaluación del Clima Laboral. Se realizó análisis descriptivo e inferencial.

Resultados:  La valoración global del ambiente laboral fue media, con una puntuación de 98,1. La puntuación media de la dimensión Motivación para el Trabajo fue de 47,2. La dimensión Seguridad en el Trabajo presentó el promedio más bajo (14,6), clasificada como de “atención”, y la Gestión Estratégica para el Trabajo Saludable, con un promedio de 36,3, fue clasificada como con puntos de alerta. Se encontró una correlación negativa entre los ingresos y la motivación, el tiempo de trabajo en atención primaria de salud con la gerencia, la edad/tiempo de trabajo y la seguridad laboral. Los enfermeros temporales dieron una valoración más positiva de la gestión estratégica.

Conclusión:  Se identificaron debilidades en la seguridad y la gestión estratégica, destacando la necesidad de mejoras en la infraestructura, la gestión participativa y la protección de la salud de los profesionales para promover un ambiente de trabajo más seguro y saludable.

DESCRIPTORES
Atención Primaria de Salud; Trabajo; Ambiente de Instituciones de Salud; Enfermeras y Enfermeros

INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS), também reconhecida como Atenção Básica no Brasil, é considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e desempenha papel central na promoção da saúde, na prevenção de doenças e nos cuidados contínuos da população. Este nível assistencial tem se consolidado como eixo central nas políticas de saúde, o que torna fundamental analisar os atores, cenários e o modo como a complexidade das demandas do ambiente de trabalho pode afetar a saúde e o bem-estar dos profissionais, entre os quais os de enfermagem(1,2).

Os enfermeiros nos serviços da APS assumem responsabilidades distintas, incluindo a coordenação de cuidados, gestão de doenças crônicas, educação em saúde, atividades clínicas e administrativas, além de realizarem visitas domiciliares como parte integral de suas funções no atendimento oferecido nas unidades de saúde(3). Apesar das extensas responsabilidades e da importância da atuação dos enfermeiros na APS, a realidade do trabalho desses profissionais é marcada por desafios que podem comprometer a qualidade do cuidado, como sobrecarga, falta de recursos e infraestrutura inadequada, violência no trabalho, o que desencadeia efeitos na saúde física, mental, gerando, inclusive, sofrimento moral(4,5).

Em determinadas regiões, esses desafios podem ser ainda mais acentuados devido às especificidades do contexto local, como a grande extensão territorial, a diversidade cultural e as desigualdades sociais(6,7). No cenário amazônico brasileiro, embora se registrem avanços no planejamento e expansão da APS, os profissionais de saúde atuantes, especialmente enfermeiros, ainda sofrem com a sobrecarga de trabalho. O apoio para superar as condições de trabalho é um obstáculo significativo, bem como a adaptação do ambiente de trabalho dos profissionais de saúde para que compreendam as particularidades do território(8).

Diante desse contexto desafiador, a construção de um ambiente de trabalho saudável (ATS) emerge como uma necessidade fundamental para bem-estar físico e emocional dos enfermeiros. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um ATS é aquele em que trabalhadores e gestores colaboram para promover e proteger a saúde, segurança e bem-estar de todos, além de garantir a sustentabilidade do ambiente de trabalho(9).

Pesquisadores neste campo de ATS enfatizam a importância de considerar tanto as dimensões objetivas, como o ambiente físico e as condições laborais, quanto as dimensões subjetivas, que incluem fatores simbólicos e éticos(10). Ou seja, ao proporcionar condições físicas adequadas, reconhecimento profissional, apoio institucional, oportunidades de desenvolvimento e um clima organizacional positivo, é possível promover a saúde física, mental e social dos enfermeiros. Essa medida contribui para a melhoria da qualidade de vida desses profissionais e impacta positivamente a qualidade da assistência prestada à população(11).

A partir dos estudos realizados sobre a avaliação dos ambientes de trabalho na APS, a utilização da Escala de Avaliação de Ambiente de Trabalho (EAAT-APS) apresenta eixos importantes para o entendimento do impacto do ambiente de trabalho na saúde e no bem-estar dos trabalhadores. A utilização desse instrumento auxilia na identificação de áreas críticas e na tomada de decisões informadas sobre mudanças no ambiente de trabalho, visando a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e o aumento da produtividade e eficiência das organizações(10,12).

Embora a literatura aponte para os desafios enfrentados por enfermeiros na APS, a grande maioria desses estudos está limitada às regiões Sul e Sudeste do Brasil e ao setor hospitalar(13,14). Esse panorama cria um viés de compreensão, ampliando a lacuna em relação a regiões com contextos singulares, como a Norte. Nesta região, os fatores locais, sejam logísticos, culturais ou de recursos, podem repercutir no ambiente de trabalho. Dessa forma, percebe-se que são escassas as pesquisas que, partindo das particularidades da Amazônia, buscam compreender as percepções dos enfermeiros e identificar os elementos contextuais que moldam seu cotidiano profissional(15).

Diante da complexidade apresentada e da necessidade de aprofundamento do conhecimento, o objetivo do estudo é analisar as dimensões do ambiente de trabalho dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde e sua relação com as características sociodemográficas dos profissionais.

MÉTODO

Tipo ou Desenho do Estudo

Trata-se de um estudo transversal analítico, realizado no período de abril a outubro de 2024, relatado conforme as recomendações do guia Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).

Local, População e Critérios de Seleção

A pesquisa foi realizada com enfermeiros da APS do município de Manaus, capital do Estado do Amazonas, que é administrativamente organizado em cinco Distritos de Saúde (DISA): Norte, Leste, Oeste, Sul e Rural, com um total de 288 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 500 profissionais enfermeiros, conforme dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (Consultado no dia 05/02/2024). Foi considerada população elegível a de todos os trabalhadores enfermeiros que estavam em atividades laborais nas UBS no período da coleta de dados, há no mínimo três meses. Foram excluídos enfermeiros que ocupavam exclusivamente cargos administrativos ou de gestão fora das UBS e os afastados por qualquer motivo no período da coleta de dados.

Definição da Amostra

Foi empregada a amostragem estratificada proporcional, assegurando que o número de enfermeiros participantes representasse adequadamente cada distrito de saúde (Norte, Leste, Oeste, Sul e Rural). A população-alvo foi composta pelos 500 enfermeiros da APS, distribuídos da seguinte forma: Distrito Norte com 140 enfermeiros (28%), Distrito Leste com 121 (24,2%), Distrito Oeste com 106 (21,2%), Distrito Sul com 108 (21,6%) e Distrito Rural com 25 (5%).

O cálculo amostral foi realizado por meio do sistema SestatNet®, utilizando os seguintes parâmetros: erro amostral de 5%, nível de confiança de 95% e margem de perda de 10%. Com base nesses critérios, o tamanho da amostra foi definido em 239 enfermeiros, distribuídos proporcionalmente entre os distritos, sendo: 67 enfermeiros do Distrito Norte, 58 do Distrito Leste, 51 do Distrito Oeste, 52 do Distrito Sul e 11 do Distrito Rural. Esse processo de estratificação garantiu que a amostra refletisse fielmente as proporções da população original.

Coleta de Dados

A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação de um questionário elaborado pelos autores composto por questões socioprofissionais, com as seguintes variáveis: idade, sexo (atribuído no nascimento), estado civil, instituição em que trabalha, carga horária semanal, vínculo empregatício, tempo de conclusão da graduação, tempo de experiência na APS, outros vínculos de trabalho, atuação na gestão e formação profissional. Além disso, foi utilizada a Escala de Avaliação do Ambiente de Trabalho na Atenção Primária à Saúde (EAAT-APS) criada e validada no Brasil, que adotou as melhores práticas definidas pela American Educational Research Association (AERA) e obteve validade de estrutura interna e confiabilidade(10,12). A escala é composta por 36 itens, distribuídos em três dimensões, as quais refletem as percepções ou sentimentos dos profissionais em seu ambiente de trabalho: dimensão Motivação para o trabalho (15 questões); dimensão Segurança no ambiente de trabalho (6 questões); e dimensão Gestão estratégica para o trabalho saudável (15 questões). Para cada item, o participante assinala a frequência em que a situação/percepção/sentimento ocorre numa progressão de 0 a 4, no qual 0 significa nunca e 4 significa sempre.

Para avaliação do ambiente de trabalhos dos enfermeiros por meio da EAAT-APS, consideraram-se os valores das médias dos resultados na pontuação geral e nas três dimensões: motivação para o trabalho, segurança no ambiente de trabalho e gestão estratégica para o trabalho saudável. Cada dimensão apresenta quatro faixas de classificação: crítica (condição preocupante, com pontuação próxima de zero), ameaça (risco moderado, exigindo melhorias), atenção (pontos de alerta, mas não críticos) e saudável (ambiente adequado e positivo). Na dimensão motivação para o trabalho e na gestão estratégica, os escores variam de 0 a 60, sendo considerados saudáveis quando iguais ou superiores a 45, atenção de 30 a 44, ameaça de 15 a 29 e crítico abaixo de 15. Na dimensão segurança no ambiente de trabalho, os escores vão de 0 a 24, sendo saudável a partir de 18, atenção entre 12 e 17, ameaça de 6 a 11 e crítico abaixo de 6. A pontuação geral varia de 0 a 144, classificada como saudável a partir de 108, atenção entre 72 e 107, ameaça de 36 a 71 e crítico abaixo de 36(10,12).

Os participantes foram inicialmente contatados pelo aplicativo WhatsApp®, com os números disponibilizados pelos supervisores ou diretores dos distritos. Por meio desse contato, receberam um link para leitura e aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e o questionário disponibilizado via Google Forms. Em alguns casos, foi necessário realizar a coleta presencialmente com os participantes, agendando um encontro na UBS em um horário conveniente para o profissional, de forma a não interferir em suas atividades.

Análise e Tratamento dos Dados

O software Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 23, foi utilizado para a realização das análises. Inicialmente, as variáveis categóricas foram apresentadas em frequências absolutas (n) e relativas (%). As variáveis contínuas foram descritas por meio de médias, desvio padrão (DP), medianas e intervalos interquartis (P25–P75), de acordo com a distribuição dos dados.

A normalidade dos dados em cada variável foi avaliada por meio do teste de Shapiro-Wilk. Para análise da qualidade do ambiente de trabalho segundo as três dimensões da EAATAPS (Motivação para o Trabalho, Segurança no Ambiente de Trabalho e Gestão Estratégica para o Trabalho Saudável) foram calculados média e desvio padrão. Utilizou-se o teste qui-quadrado de Pearson para analisar associações entre variáveis categóricas (características sociodemográficas e percepções relacionadas ao ambiente de trabalho) e a análise de correlação de Spearman para identificar possíveis correlações entre variáveis contínuas (idade, tempo de formação, tempo de atuação) e as dimensões da EAAT-APS. Ainda se utilizou a Análise de Variância (ANOVA) para comparar médias entre três ou mais grupos, como estado civil, formação, distrito de saúde e outros. Os resultados foram organizados em tabelas, destacando-se as associações significativas considerando p < 0,05.

Aspectos Éticos

A pesquisa foi conduzida em conformidade com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos, conforme a Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, no ano de 2024, sob o parecer nº 6.735.782. Todos os participantes consentiram formalmente, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de sua participação no estudo.

RESULTADOS

A amostra do estudo foi composta por 243 enfermeiros da APS, com idade média de 43,8 anos, que possuem, predominantemente, formação no nível de especialização (83,5%). Prevaleceram enfermeiros do sexo feminino (87,2%), casadas ou em união estável (55,1%), com mediana de tempo de formação de 16 anos, que possuem um vínculo empregatício (86%), e prevaleceram os vínculos temporário (47,3%) e estatutário (46,9%). Predominantemente, os enfermeiros possuíam carga horária semanal de 40 horas (70,8%), e a mediana de tempo de atuação na instituição atual foi de quatro anos. Em relação à renda, o maior percentual de participantes (49%) recebia entre cinco e seis salários-mínimos, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1
Caracterização sociodemográfica e profissional dos enfermeiros da atenção primária à saúde – Manaus, AM, Brasil, 2024.

Os resultados evidenciaram que a dimensão Motivação para o Trabalho apresentou os melhores indicadores, com escore total de 47,2 (±8,86) e média de 3,14 por item, o que reflete uma percepção geral positiva entre os enfermeiros, quanto à motivação. Em contraste, a Segurança no Ambiente de Trabalho foi classificado como “atenção”, com escore total de 14,6 (±5,66) e média de 2,43 por item, o que mostra que há fragilidades na estrutura física e proteção laboral. A Gestão Estratégica para Trabalho Saudável também mostrou resultados com pontos de alerta, mas não críticos, com 36,3 (±12,0) de escore total e média de 2,42 por item, o que indica deficiências nas políticas de proteção à saúde do trabalhador.

O escore geral combinado das três dimensões foi de 98,1 (±22,6), com média de 2,72 por item, posicionando-se na faixa “que demanda atenção” (73–108) conforme os parâmetros da EAAT-APS. No geral, o ambiente avaliado está próximo do satisfatório, mas expressa ameaças e elementos que requerem atenção e intervenção em duas dimensões. Cada dimensão acompanha tal resultado (atenção) apesar das diferenças identificadas. A Tabela 2 apresenta os resultados das três dimensões fornecidas pela EAAP-APS, com os escores totais de cada dimensão e a percepção geral dos enfermeiros sobre seu ambiente de trabalho.

Tabela 2
Resultado da avaliação do ambiente de trabalho na atenção primária à saúde por itens e construto – Manaus, AM, Brasil, 2024.

Na Tabela 3, na análise de correlação, observou-se que idade (r = –0,203; p = 0,001), tempo de atuação na instituição (rs = –0,248; p < 0,001) e tempo na APS (rs = –0,177; p = 0,006) apresentaram correlações negativas e estatisticamente significativas com segurança no trabalho. Além disso, o tempo na instituição correlacionou-se negativamente com gestão estratégica (rs = –0,161; p = 0,012), e o tempo na APS mostrou correlação similar (rs = –0,195; p = 0,002). A renda apresentou correlação fraca negativa, estatisticamente significativa, com motivação para o trabalho (rs = –0,142; p = 0,027), indicando que os salários não necessariamente se traduzem em maior motivação. Na comparação de médias, o tipo de vínculo empregatício temporário destacou-se como a única variável categórica com diferença significativa, especificamente na dimensão gestão estratégica para trabalho saudável (p = 0,047), o que mostra que enfermeiros com vínculo de trabalho temporário avaliaram mais positivamente a percepção da gestão estratégica para o trabalho saudável.

Tabela 3
Análise de correlações e associações entre as variáveis sociodemográficas e as dimensões da escalas de avaliação no ambiente de trabalho de enfermeiros na APS – Manaus, AM, Brasil, 2024.

DISCUSSÃO

O predomínio de mulheres como participantes (87,2%) é um achado amplamente reconhecido na literatura sobre o perfil da Enfermagem no Brasil e no mundo. A especialização reflete um nível elevado de qualificação entre os enfermeiros da APS, o que está alinhado com as exigências crescentes no contexto da atenção à saúde na APS. No entanto, a baixa proporção de profissionais com mestrado e doutorado (6,2% cada) pode indicar lacunas na busca e no acesso à formação stricto sensu, que ainda deve ser incentivada em políticas de desenvolvimento profissional, enfrentando o desequilíbrio regional da oferta no Brasil. Além disso, o predomínio de vínculos temporários indica o aumento desse tipo de contratação em diversos níveis e setores da saúde(16,17).

Os resultados revelaram que, apesar de um bom nível de Motivação para o trabalho, os enfermeiros da APS de Manaus percebem um ambiente de trabalho com fragilidades, especialmente no que se refere à Segurança no Ambiente de Trabalho e a Gestão Estratégica para o Trabalho Saudável, corroborando estudos internacionais(18,19).

Na dimensão Motivação para o Trabalho, o estudo identificou uma pontuação relativamente positiva, porém há aspectos que sugerem fragilidades, com a menor média no item “integração, participação e harmonia no ambiente de trabalho”, que sugere dificuldades na integração entre colegas ou com a gestão. Isso pode estar relacionado à sobrecarga de trabalho ou à falta de ações institucionais para fortalecer a união das equipes(20).

A motivação dos enfermeiros, especialmente na APS, é um fator que impacta na produtividade e na qualidade do cuidado. Quando estão motivados, esses profissionais tendem a ser mais engajados em suas atividades, o que se traduz em um melhor desempenho e em resultados mais positivos para os usuários. Uma descoberta no Japão também em pesquisa realizada com enfermeiros destacou que esse fator atua como um catalisador para o engajamento no trabalho, visto que profissionais motivados compreendem a importância de seu papel, sentem-se valorizados e trabalham em um ambiente colaborativo, bem como tendem a não abandonar a profissão(20,21).

Quanto à análise da dimensão Motivação para o trabalho, nesta amostra de enfermeiros que recebem uma média salarial acima da média nacional brasileira, que é em torno de 3 saláriosmínimos e meio(22), a Motivação apresentou correlação negativa com a renda, o que mostra que a motivação não aumenta, necessariamente, com o aumento do salário. É importante considerar que muitos enfermeiros sentem que seus salários não refletem adequadamente a carga de trabalho e a responsabilidade que o perfil do cargo exige(23).

A desvalorização salarial resulta na percepção de desvalorização da profissão e pode levar à desmotivação, diminuindo o engajamento no trabalho. Um estudo qualitativo realizado em 23 municípios localizados no estado de Minas Gerais também apresentou a disparidade entre as expectativas salariais e a realidade enfrentada pelos profissionais, os quais indicaram que é um fator chave para o descontentamento e o declínio na motivação(24). A relação renda-motivação sinaliza que, embora a remuneração seja um direito, políticas de valorização devem ir além do salário, investindo em reconhecimento, autonomia e condições de trabalho(6).

Na dimensão Segurança no Ambiente de Trabalho, a percepção de insegurança foi evidente, com uma pontuação média baixa, com pontos de atenção para os itens de estrutura física. Pesquisadores discutem que infraestruturas inadequadas não só aumentam o estresse dos profissionais de saúde, mas também dificultam a prática de um trabalho seguro e eficaz(4). Ambientes com instalações precárias e o déficit ou a falta de manutenção das UBS e de equipamentos impedem o desempenho satisfatório dos enfermeiros, fator necessário para um ambiente de trabalho saudável, o que eleva a incidência de erros e prejudica o cuidado aos pacientes(25).

De acordo com um estudo realizado em 2024, as melhorias na infraestrutura das UBS, associadas a outras intervenções, contribuem para o bem-estar e a qualidade de vida dos enfermeiros, com impacto positivo na saúde física e mental no ambiente de trabalho na APS(7). Vale ressaltar que a infraestrutura inadequada representa uma fragilidade na segurança do trabalhador, um risco operacional e custo para o sistema que deve ser uma prioridade da gestão com alocação orçamentária específica(26).

A correlação negativa fraca entre a idade e a percepção de Segurança no Ambiente de Trabalho sugere que profissionais com mais experiência podem ter um olhar mais crítico na percepção da exposição às condições de trabalho mais precárias, ambiente físico inadequado, as quais podem expor os profissionais a riscos de acidentes de trabalho, doenças ocupacionais e contaminações. Estudos(27,28) convergem nesse sentido e sinalizam que profissionais mais experientes percebem mais riscos e fragilidades no ambiente de trabalho, o que pode ser explicado pelo acúmulo de vivências e maior consciência dos desafios enfrentados no cotidiano da APS. Integrar a percepção de risco de enfermeiros experientes no planejamento estratégico é uma forma eficaz de antecipar problemas, melhorar os protocolos de segurança, aumentar a confiança de toda a equipe, tornando o ambiente de trabalho mais saudável e seguro para os enfermeiros(27).

Nesse estudo, a exposição à violência verbal e física configura-se como um resultado significativo na APS. Estudos indicam que a violência no ambiente de trabalho está frequentemente associada a conflitos com usuários, sobrecarga de trabalho e falta de medidas de proteção(5). A falta de treinamento adequado para lidar com situações de agressão e a ausência de suporte institucional agravam a sensação de insegurança entre os profissionais de saúde, prejudicam o bem-estar dos enfermeiros e também criam um ciclo de insatisfação(7,29).

Um estudo de abordagem mista, realizado com enfermeiros do contexto hospitalar e da APS, demonstra que a implementação de protocolos de comunicação colaborativa e a criação de redes de apoio entre pares podem ser estratégias eficazes para reduzir a violência contra enfermeiros na APS, indo além do treinamento individual e do suporte institucional tradicional. A pesquisa evidencia que o fortalecimento das relações interprofissionais e a construção de um ambiente de trabalho baseado na solidariedade e no apoio mútuo entre colegas contribuem significativamente para a redução da vulnerabilidade dos profissionais e para a saúde mental dos enfermeiros(5).

Os achados na dimensão Gestão Estratégica para o Trabalho Saudável evidenciam lacunas significativas em práticas institucionais de cuidado com o trabalhador. Um dos pontos críticos é a insuficiência de intervenções contra cargas psíquicas. Essa relação é encontrada no contexto de sobrecarga de trabalho e estresse, situações frequentes na APS, principalmente em enfermeiros, com impacto negativo na saúde mental e no desempenho. A falta de estratégias adequadas para lidar com essas questões cria um ciclo adverso e resulta em profissionais exaustos, com distúrbios do sono e disfunções sociais(30,31). Algumas medidas devem ser implementadas, como mudanças nas políticas de trabalho, redução da carga de trabalho e/ou horários flexíveis, melhorias na relação entre colegas e equipe de gestão e o estabelecimento de centros/pontos de consultoria mental intrainstitucionais. Essas são estratégias que visam criar um ambiente de trabalho mais saudável, fortalecendo a resiliência dos enfermeiros e atenuando efeitos negativos das cargas psíquicas(31).

A dimensão Gestão Estratégica para o Trabalho Saudável mostrou-se associada ao tipo de vínculo empregatício. Os trabalhadores com vínculos apresentam melhores percepções sobre Gestão Estratégica, com destaque para os trabalhadores temporários. Essa associação pode refletir diferenças nas expectativas entre profissionais temporários e estatutários e, também, possível receio de avaliar criticamente a gestão, apesar da garantia do anonimato nas respostas, por estarem em vínculos com prazo determinado; assim, suas avaliações podem ser influenciadas pela necessidade de preservar relacionamentos de longo prazo dentro da instituição(32).

As contratações temporárias, embora às vezes necessárias para cobrir lacunas em regiões carentes de enfermeiros, comprometem a estabilidade de longo prazo e a retenção de profissionais. Esse cenário exige políticas que priorizem vínculos estáveis, especialmente em áreas especificas do Brasil, para assegurar uma força de trabalho qualificada e motivada. A literatura sugere investir em concursos públicos e na fixação de profissionais, promovendo maior qualidade na continuidade do cuidado(16,17).

O escore geral da EAAT-APS mostrou uma avaliação global regular do ambiente de trabalho. Embora os enfermeiros demonstrem motivação com o trabalho, as dimensões relacionadas à segurança e à gestão estratégica indicam áreas que necessitam de atenção e melhorias para garantir um ambiente de trabalho mais saudável e seguro. Essas dimensões objetivas e subjetivas são fundamentais para garantir a qualidade das práticas profissionais dos enfermeiros na APS, com interfaces no clima de trabalho positivo capaz de promover a saúde dos enfermeiros e um clima institucional favorecedor da qualidade dos cuidados(10,11,12). Cabe ainda analisar que as práticas e condições de trabalho dos profissionais de enfermagem podem variar amplamente entre diferentes unidades de APS devido a variações nas políticas locais, infraestrutura e gestão(33).

Uma limitação a considerar é que, embora tenha sido realizada a estratificação por distritos, não foi aplicada aleatorização dentro de cada estrato. Esse aspecto pode ter influenciado os resultados, pois a escolha dos participantes pode não ter refletido de forma equilibrada a diversidade presente em cada distrito, o que pode afetar a generalização dos achados. Além disso, mais da metade dos profissionais participantes foi contratada em regime temporário, podendo influenciar os resultados em um dos domínios avaliados pelo instrumento (gestão estratégica para o trabalho saudável), considerando as especificidades e possíveis instabilidades associadas a esse tipo de vínculo empregatício.

CONCLUSÃO

Os achados desta pesquisa evidenciaram uma percepção geral regular/moderada do ambiente de trabalho de enfermeiros da APS de Manaus, Brasil. Ainda que apresentem um bom nível de motivação no trabalho, aspectos como a segurança no ambiente laboral e a gestão estratégica para um trabalho saudável foram avaliados negativamente. Além disso, as análises inferenciais demonstraram associações significativas entre características sociodemográficas e as dimensões da escala EAAT-APS, indicando que fatores individuais e organizacionais podem influenciar na percepção e nos significados atribuídos ao ambiente de trabalho. Os resultados destacam a necessidade de intervenções focadas em melhorar a segurança e a gestão estratégica, visando a promoção de um ambiente mais favorável à prática profissional na APS.

Evidenciam-se desafios, como a falta de integração entre colegas e a comunicação organizacional, percepção de insegurança no ambiente de trabalho, refletida na avaliação da estrutura física e da proteção contra violência, com necessidade urgente de melhorias nos ambientes laborais. Além disso, a gestão estratégica para um trabalho saudável ainda se mostra deficiente, com ausência de algumas iniciativas institucionais voltadas à melhoria do ambiente de trabalho na APS. Estratégias como investimentos em infraestrutura, fortalecimento da gestão participativa e ampliação das ações de proteção à saúde do trabalhador podem contribuir para minimizar os impactos negativos. Além disso, é fundamental promover a valorização profissional, com incentivos à qualificação, salários adequados e à estabilidade no emprego.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

  • Apoio financeiro
    Lucas Lorran Costa de Andrade – Bolsa de mestrado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-PROEX-CAPES (Processo n. 88887.965143/2024-00); e Bolsa de mestrado Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ. Flávia Regina Souza Ramos – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil (CNPq) – Bolsa de Produtividade PQ1A (Processo n. 308690/2023-0). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil CNPq/Universal: 408929/2023-5 Chamada CNPq/MCTI Nº 10/2023.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Cristiane Helena Gallasch

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Jul 2025
  • Aceito
    12 Jan 2026
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