RESUMO
Objetivo: Analisar as representações sociais de estudantes de graduação em Enfermagem sobre o idadismo.
Método: Estudo exploratório e descritivo, com abordagem quantitativa e qualitativa. Os dados foram coletados via Google Forms, investigando o perfil sociodemográfico dos graduandos de Enfermagem do estado de São Paulo e suas percepções sobre o idadismo. Dados quantitativos foram submetidos à análise estatística, enquanto as evocações foram processadas no software openEvoc, com base na Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 2003) e analisados segundo Bardin (2015).
Resultados: Participaram 242 estudantes, média de idade de 23,8 anos; 78,9% (n = 191) do sexo feminino, 74,0% (n = 179) de universidades públicas e 40,1% (n = 97) do 3º ano da graduação. Foram elencadas 1200 evocações, organizadas em quatro categorias: “Vivência”, “Longevidade como processo”, “Estereótipos” e “Políticas públicas”.
Conclusão: Predominaram percepções positivas sobre o idadismo, embora termos negativos e estereotipados ainda tenham sido recorrentes. Tais achados reforçam a necessidade de estratégias pedagógicas que abordem o idadismo na formação em Enfermagem, de modo a promover atitudes mais críticas e positivas em relação às pessoas idosas.
DESCRITORES
Etarismo; Percepção; Enfermagem; Estudantes de Enfermagem
ABSTRACT
Objective: To analyze the social representations of ageism among undergraduate nursing students.
Method: Exploratory and descriptive study, with a quantitative and qualitative approach. Data was collected via Google Forms, investigating the sociodemographic profile of nursing undergraduates in the state of São Paulo and their perceptions of ageism. Quantitative data were subjected to statistical analysis, while the evocations were processed using the software openEvoc, based on the Theory of Social Representations (Moscovici, 2003) and analyzed according to Bardin (2015).
Results: A total of 242 students participated, with an average age of 23.8 years; 78.9% (n = 191) were female, 74.0% (n = 179) attended public universities, and 40.1% (n = 97) were in their 3rd year of undergraduate studies. On the whole, 1200 evocations were listed, organized into four categories: “Experience,” “Longevity as a Process,” “Stereotypes,” and “Public Policies.”
Conclusion: Positive perceptions of ageism prevailed, although negative and stereotypical terms were still recurrent. These findings reinforce the need for pedagogical strategies addressing ageism in nursing education, to promote more critical and positive attitudes towards older people.
DESCRIPTORS
Ageism; Perception; Nursing; Students, Nursing
RESUMEN
Objetivo: Analizar las representaciones sociales del edadismo entre estudiantes de enfermería de pregrado.
Método: Estudio exploratorio y descriptivo, con enfoque cuantitativo y cualitativo. Los datos se recopilaron a través de Google Forms, investigando el perfil sociodemográfico de los estudiantes de enfermería del estado de São Paulo y sus percepciones sobre el edadismo. Los datos cuantitativos se sometieron a análisis estadístico, mientras que las evocaciones se procesaron mediante software openEvoca, basado en la Teoría de las Representaciones Sociales (Moscovici, 2003), y analizado según Bardin (2015).
Resultados: Participaron 242 estudiantes, con una edad promedio de 23,8 años; el 78,9% (n = 191) eran mujeres, el 74,0% (n = 179) asistían a universidades públicas y el 40,1% (n = 97) estaban en su tercer año de estudios de pregrado. Se enumeraron 1200 evocaciones, organizadas en cuatro categorías: “Experiencia”, “La longevidad como proceso”, “Estereotipos” y “Políticas públicas”.
Conclusión: Predominaron las percepciones positivas sobre el edadismo, aunque seguían siendo recurrentes los términos negativos y estereotipados. Estos hallazgos refuerzan la necesidad de estrategias pedagógicas que aborden el edadismo en la formación en enfermería, con el fin de promover actitudes más críticas y positivas hacia las personas mayores.
DESCRIPTORES
Ageísmo; Percepción; Enfermería; Estudiantes de Enfermería
INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional, fenômeno decorrente da transição demográfica caracterizada pela redução das taxas de mortalidade e natalidade, tem sido impulsionado pelo aumento da expectativa de vida associado a avanços nos setores de saúde e economia(1). Esse processo resultou em um envelhecimento acelerado no Brasil, cuja proporção de indivíduos com 65 anos ou mais passou de 9,84% em 2020 para uma projeção de 31,0% em 2070, triplicando em 5 décadas(2). Tal cenário representa uma conquista social, porém impõe desafios significativos, sobretudo aos sistemas de saúde, demandando a formulação de políticas públicas integradas que promovam o envelhecimento saudável. Além disso, faz-se necessária a construção de ambientes sociais e culturais favoráveis, capazes de combater estereótipos que associam o envelhecimento à doença, dependência e inutilidade(3,4).
Esse preconceito relacionado à idade é denominado idadismo, ageísmo ou etarismo e nesta pesquisa, iremos adotar idadismo, cuja definição:
“… se refere a estereótipos (a maneira como pensamos), preconceitos (como sentimos) e a discriminação (como agimos), com base na idade, dirigidos a outros ou contra si mesmo. O idadismo pode se manifestar no nível institucional ou interpessoal e pode ser autodirigido (contra si próprio). O idadismo pode ser implícito ou explícito, dependendo do nível de conscientização sobre nosso próprio viés”(4).
Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o idadismo contra pessoas idosas é mundial, manifestando-se em todas as instituições das sociedades como saúde, assistência social, trabalho e meios de comunicação, nos quais, muitas vezes, há sub-representação. Essa prática compromete o bem-estar, dificulta a implementação de políticas e ações eficazes voltadas à promoção da saúde da população idosa e representa um desafio para o cuidado, que deve priorizar a qualidade de vida, mesmo diante de limitações decorrentes da idade. Tal objetivo torna-se viável à medida que a sociedade reconhece o valor e o potencial das pessoas idosas, superando barreiras resultantes da desvalorização social(3,4).
Em resposta, a OPAS publicou o Relatório Mundial sobre o Idadismo, descrevendo estratégias baseadas em evidências para reduzir o fenômeno e seus impactos(4). Entretanto, estereótipos e preconceitos direcionados às pessoas idosas, frequentemente reproduzidos no cotidiano de profissionais de saúde, influenciam negativamente o cuidado e a resolução de problemas, aumentando a vulnerabilidade dessa população(5).
O idadismo na saúde manifesta-se, entre outros aspectos, na negligência quanto à sexualidade da pessoa idosa, tema para o qual muitos profissionais não se sentem preparados para atuar(5,6). Também se observa o racionamento de cuidados conforme a idade, evidenciado por revisão sistemática que identificou, em 85% de 149 estudos, a idade como determinante para o acesso a procedimentos ou tratamentos médicos específicos(7). Soma-se a isso a escassez de estudos em saúde que incluam a população idosa, apesar da alta prevalência das condições estudadas nesses indivíduos(4). Os impactos do idadismo associam-se à redução da expectativa de vida, piora da saúde física e mental, recuperação lenta de incapacidades, declínio cognitivo e redução da qualidade de vida, com aumento do isolamento e da solidão.
Estudos sobre ensino-aprendizagem evidenciam lacunas na formação em Enfermagem quanto à saúde da pessoa idosa, incluindo déficits na falta de uniformidade em pesquisas sobre idadismo ao longo da graduação: uma revisão sistemática de 2023 identificou resultados inconsistentes sobre o idadismo durante a graduação, em que nove estudos apontaram maior positividade ao longo do curso e sete estudos não apresentaram diferenças significativas, indicando falhas na progressão positiva de percepções ao decorrer dos anos dos graduandos na instituição de ensino(8).
Apesar do reconhecimento da relevância do tema, a produção científica é majoritariamente quantitativa, como mostra revisão de escopo com 46 estudos, dos quais 73,9% eram quantitativos, 10,8% qualitativos e 6,6% mistos(9). Nesse sentido, a análise qualitativa na área da saúde do idoso é de grande valia, especialmente na compreensão dos significados, experiências e comportamentos, aspectos pouco acessíveis pela análise apenas quantitativa(10). Além disso, estudos nacionais indicam que a inclusão da saúde da pessoa idosa na formação em Enfermagem permanece incipiente, restrita a iniciativas pontuais e estratégias pouco consolidadas(11). Evidencia-se, assim, a necessidade de ampliar o debate científico e pedagógico sobre o idadismo na graduação, subsidiando análises mistas e aprofundando discussões sobre a temática.
Vale ressaltar que se utilizou como referencial teórico a teoria das representações sociais de Serge Moscovici, onde é essencial discutir os conceitos: ancoragem e objetivação, processos geradores das representações sociais. Moscovici propõe que a ancoragem consiste em transformar o não-familiar em algo familiar, por meio da classificação e categorização do desconhecido com base no que já é conhecido. Já a objetivação seria transformar o abstrato em algo quase concreto(12).
Para compreender como se entende a sociedade, Moscovici divide o universo em consensual e reificado. O consensual é onde se formam as representações sociais, englobando o senso comum. Já o reificado corresponde ao campo do saber científico(12). A partir disso, a percepção inclina-se para um desses universos, variando conforme o grupo social ao qual se pertence ou no qual está inserido.
A teoria das representações sociais aparece no campo da saúde de forma intensa. Aquele que presta o cuidado é o portador do conhecimento científico, incluindo os enfermeiros, contudo, deve-se considerar que esses portadores do conhecimento científico pertencem a um grupo social e estão sujeitos diariamente a influências vindas dos diferentes meios da sociedade a que pertencem.
Desse modo, o presente estudo visa aportar evidências que contribuam para reduzir a lacuna identificada e teve como objetivo conhecer e analisar as representações sociais de estudantes de graduação em Enfermagem acerca do idadismo e caracterizar o perfil dos estudantes da amostra, visto que eles, futuros enfermeiros, irão atuar na assistência de pessoas idosas e deverão entender e desmistificar o idadismo, tendo a graduação papel vital nesse contexto.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Para melhor responder aos objetivos, visando compreender as percepções dos estudantes de Enfermagem sobre o idadismo, o presente estudo teve caráter exploratório, descritivo, com metodologia quantitativa e qualitativa dos dados. Foi utilizada a técnica de Análise de Conteúdo fundamentada na Teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici como referencial teórico-metodológico(13).
Local
A pesquisa foi realizada em ambiente virtual, via formulário on-line do Google Forms.
População e Critérios de Seleção
Participaram alunos de graduação em Enfermagem, ingressantes a partir de 2021, autodeclarados de ambos os sexos, maiores de 18 anos, matriculados em instituições de graduação, públicas e privadas, do estado de São Paulo. Foram excluídos ex-alunos e graduandos menores de idade.
Instrumento de Coleta de Dados
Foi elaborado um formulário pelo Google Forms com questões sobre o perfil do estudante e questões abertas sobre as percepções frente ao idadismo.
Procedimento de Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada de Março a Junho de 2024, por meio da técnica de amostragem em cadeia “Bola de Neve”, na qual os participantes foram recrutados a partir dos contatos dos pesquisadores e, posteriormente, solicitados a indicarem novos contatos com as características desejadas. O formulário foi encaminhado via e-mail e/ou Whatsapp, respondido de forma anônima após aceite virtual do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), indexado ao início do formulário. O tempo médio de preenchimento do instrumento foi de 7 minutos e o questionário foi respondido em uma única rodada, sem posterior retorno para validação ou complementação dos dados qualitativos.
Análise e Tratamento dos Dados
Os dados quantitativos foram registrados em planilhas de Excel® e apresentados em tabelas de frequência. As evocações foram processadas no software OpenEvoc para análise qualitativa e, em seguida, examinadas pela análise de conteúdo de Bardin para interpretar os significados atribuídos pelos participantes tendo como base a Teoria das Representações Sociais(14).
Aspectos Éticos
Atendendo ao Conselho Nacional de Saúde na Resolução n° 466/2012, este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da USP, Parecer nº 6.691.256 e, atendendo a mesma Resolução, todos os participantes leram e assinaram o TCLE(15). Para garantir a privacidade, todos os participantes foram identificados com a letra G seguida de números sequenciais (G1, G2, G3…).
RESULTADOS
Perfil Sociodemográfico dos Estudantes de Enfermagem
O estudo contou com 308 graduandos de Enfermagem, dos quais 242 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final. Os graduandos tinham entre 18 e 51 anos de idade (média de 23,8 e mediana de 21,5), predominando os declarados do sexo feminino (78,9%; n = 191), de universidade pública (74,0%; n = 179) e do 3° ano de graduação (40,1%; n = 97). Neste grupo, 5,4% (n = 13) dos participantes fizeram outra graduação antes da de enfermagem e 24,4% (n = 59) trabalhavam concomitantemente à graduação. Vale destacar que destes, 65,1% (n = 41) são de universidades privadas. A maioria, 80,6% (n = 195), convivia com pessoas idosas no dia-a-dia e 80,2% (n = 194) conheciam o conceito de idadismo (Tabela 1).
Os dados sociodemográficos dos participantes foram apresentados em tabelas de frequência com uma comparação analítica entre unidades públicas e privadas, ao serem avaliados dados significativos na comparação do perfil sociodemográfico entre as instituições.
Ademais, a maioria, 61,2% (n = 148), dos estudantes de Enfermagem considera-se “realista com alguns preconceitos”; em seguida, 25,2% (n = 61) “otimistas e livres de preconceitos”; 8,7% (n = 21) “sem preconceitos”; e, ainda, 2,9% (n = 7) “pessimistas e preconceituosos”. Destaca-se que, entre os graduandos de universidades públicas, a maioria posicionou-se como “Realistas, com alguns preconceitos” (69,3%; n = 124). Já os graduandos das universidades privadas dividiram-se em sua maioria entre “Otimistas e livres de preconceitos”, com 39,7% (n = 25), e “Realistas, com alguns preconceitos”, com 38,1% (n = 24) (Tabela 2).
Expressões Sobre o Idadismo Entre Estudantes de Enfermagem
Em busca de identificar a representação social acerca do idadismo, foram solicitadas aos graduandos cinco palavras/expressões que associavam às pessoas idosas. Houve participantes que enviaram mais, outros menos de cinco palavras, sendo obtidas 1.200 citações, que foram inseridas no software openEvoc 1.0.
Apesar de no perfil sociodemográfico e na autodeclaração de percepção dos graduandos haver significativa divergência entre instituições privadas e públicas, nas evocações não havia diferenças relevantes. Nas evocações, 58,7% (n = 37) dos graduandos de instituições privadas apresentaram percepções consideradas positivas acerca da pessoa idosa e do processo de envelhecimento, enquanto que nas instituições públicas foram 63,6% (n = 114). Pela aplicação do teste do qui-quadrado, com p-valor igual a 0,53 > 0,05, não houve diferença estatisticamente significativa entre os tipos de instituições quanto à conotação das respostas.
Do total das representações, as palavras e suas derivações com maior destaque foram: experiência (112), sabedoria (66), cuidado (41), aposentadoria (32), conhecimento (31), fragilidade (29), vivência (24), respeito (22), solidão (22) e família (20). Ao serem indagados sobre quais seriam as palavras mais representativas entre as 5 citadas, as que se destacaram foram: experiência, sabedoria, cuidado, fragilidade e carência.
A partir da leitura e frequência das palavras e expressões descritas pelos entrevistados, foi possível a classificação em 4 categorias: Vivência, Longevidade como processo, Estereótipos e Políticas Públicas, cujas subcategorias e unidades de registro estão apresentadas no Quadro 1.
Expressões dos graduandos de enfermagem sobre as pessoas idosas – São Paulo, SP, Brasil, 2024.
1. Vivência: Reuniu as evocações relacionadas a sabedoria e conhecimento adquirido pelas pessoas idosas por meio de suas “Experiências de Vida” e a forma como fazem o “Compartilhamento de Experiências” por meio de histórias e conversas, propagando seu legado e suas tradições, com um total de 25,1% (n = 301) de evocações. Depreende-se que esse tópico apresenta relevância por incluir as duas palavras mais recorrentes entre as evocações: “experiência” (112) e “sabedoria” (66). Ao serem indagados sobre o motivo da escolha das palavras evocadas como mais representativas, as percepções foram trazidas conforme os relatos:
(Experiência) é uma palavra especialmente representativa quando se trata da pessoa idosa porque reflete o acúmulo de vivências, aprendizados e conhecimentos ao longo de uma vida. A experiência de vida de uma pessoa idosa é única e pode oferecer perspectivas valiosas sobre diversos aspectos, como família, trabalho, sociedade e superação de desafios. Além disso, a experiência pode ser compartilhada para beneficiar as gerações mais jovens, contribuindo para a preservação de tradições, valores e conhecimentos. – (G103)
(História) Pois compreende a carga de vida, a forma de se comunicar, a experiência acumulada, a passagem de tradições, a convivência e suas marcas tudo em uma única palavra. Mesmo sendo curta, compreende a beleza e dor que a velhice representa ao meu ver. – (G162)
2. Longevidade como processo: Essa categoria apresenta as repercussões relacionadas ao período de vida em que a pessoa idosa viveu e vive, com a maior porcentagem, de 30,7% (n = 368) de evocações. A categoria foi subdividida em 3 subcategorias: “Vulnerabilidade”, “Características físicas” e “Estabilidade”.
A “Vulnerabilidade” foi a subcategoria mais citada, 61,7% (n = 227), associando o idoso a palavras negativas, referindo-se às incapacidades e limitações, que podem tornar a pessoa idosa dependente e diminuir a qualidade de vida. A subcategoria foi marcada por doenças, dores, limitações físicas, mas também, por fatores psicológicos como a solidão, relacionada a depressão e ansiedade, como nas colocações:
(Fragilidade) Pois na minha opinião os idosos tem maior fragilidade na sua vida, tanto na saúde física, tanto na psicológica, e nas demais necessidades do cotidiano. – (G42)
(Solidão) Acredito que a maior parte das pessoas de idade avançada, muitas vezes, sentem que suas famílias os colocam como segundo plano e isso os leva a viver em um mundo onde a única companhia possível são a si mesmo. – (G57)
A subcategoria “Características físicas” esteve relacionada a aparência e condições das pessoas idosas como o cabelo grisalho e o aparecimento de rugas. Além disso, também as nomenclaturas que se relacionam às pessoas idosas em decorrência de suas características, como chamamentos de velho (a) e senhor (a), como segue:
(Envelhecimento) Escolhi essa palavra, pois nos idosos é mais aparente os resultados do processo de envelhecer, como os cabelos grisalhos e a pele mais sensível, ou seja, neles é possível observar as marcas do passar do tempo, o que é bem interessante, pois mostra como de certo modo as mudanças são parte da vida. – (G56)
Já, a subcategoria “Estabilidade” representa uma visão idealizada do envelhecimento, associando a fase idosa à tranquilidade, descanso e liberdade após longos anos de trabalho. Ademais, a visão de que a quebra desse contexto de calmaria pode gerar descontentamento das pessoas idosas, como é possível observar em:
(Rotina) Geralmente pessoas idosas não gostam de compromissos que atrapalham sua rotina. – (G166)
(Tranquilidade) A idade traz tranquilidade pela diminuição das responsabilidades e obrigações diárias. – (G151)
3. Estereótipos: Essa categoria apresentou 27,6% (n = 332) de palavras/expressões e uniu as evocações que representavam diferentes estereótipos das pessoas idosas: “Personalidade”, “Olhar infantilizado”, “Evocação ao passado” e “Laços familiares”. As características de personalidade apareceram de forma positiva como paciência e gentileza, mas também negativas como teimosia e carência.
(Gentileza) Porque idosos, mesmo desconhecidos, costumam ser gentis e acolhedores. – (G218)
(Teimosos) Geralmente idosos não aceitam que estão envelhecendo, logo eles não aceitam ajuda, e não conseguem perceber suas novas limitações tão facilmente. – (G126)
(Infantilização) As pessoas infantilizam os idosos. – (G186)
O “olhar infantilizado” dos graduandos em relação às pessoas idosas, reforçado por termos diminutivos para a infantilização da pessoa idosa, como “velhinho” e “vôzinho”. Já a “Evocação ao passado”, com palavras que remetem à velhice - bingo, igreja, almoços na casa dos avós e até mesmo hábitos como evocar o passado para comparar a atualidade - que pode ser observado nas citações:
(Igreja) A população de idosos no Brasil é formada majoritariamente por pessoas com a ideologia cristã. Essa ideologia é muito expressiva no jeito que eles encaram a nova geração e toda a sociedade no geral. – (G218)
(Na minha época…) Pois denota o nascimento em outra época, os conhecimentos, formas de viver e lidar com o mundo diferentes, denota a passagem do tempo. – (G158)
E ainda “Laços familiares” descreve a relação dos graduandos com pessoas idosas de sua família, como avós e etc., como pode ser observado na colocação de um graduando:
(Afeto) A palavra afeto representa o carinho que tenho pelos idosos da minha vida e de uma forma geral. Se formos pensar, graças a eles estamos aqui hoje, toda a cultura de uma sociedade, a formação e união das famílias se resultaram das escolhas dos nossos avós e antes deles nossos bisavós e assim sucessivamente. Por isso acredito que a palavra afeto pode representá-los. - (G55)
4. Políticas Públicas: Apresentou um total de 16,6% (n = 199) das palavras/expressões, onde distinguiram-se duas subcategorias, a “Promoção” e a “Omissão”. Na subcategoria “Promoção”, 88,4% (n = 176) das palavras mencionaram políticas públicas voltadas à pessoa idosa, especialmente na saúde e em outras áreas sociais:
(Cuidado) Para mim, o cuidado engloba diversos aspectos, como a atenção especial para doenças crônicas não transmissíveis, que tornam-se mais corriqueiras na velhice, risco aumentados de quedas. A situação de solidão e abandono, que muitos idosos enfrentam, também requer uma maior atenção e mudanças da sociedade. – (G2)
(Respeito) Porque a pessoa tem mais coisas vividas para dividir, porque já passou por tantas coisas, porque às vezes não é ouvida ou é negligenciada. – (G119)
Já na subcategoria “Omissão” os participantes associaram a pessoa idosa à vulnerabilidade causada pela falta de políticas públicas, utilizando palavras negativas para denunciar situações adversas enfrentadas pelas pessoas idosas:
(Vulnerabilidade Social) Acredito que na sociedade em que vivemos a vulnerabilidade social é inerente ao idoso, uma vez que os seus direitos são diariamente violados, seja por uma aposentadoria insuficiente, pela falta de acessibilidade nos espaços públicos, entre outros. – (G65)
(Invisibilidade) Acredito que as pessoas idosas são muitas vezes ignoradas e invisibilizadas pela sociedade. Por exemplo, quando pensamos na infraestrutura urbana precária que dificulta ou até impossibilita a circulação de pessoas idosas. Além disso, existe uma falta de políticas públicas voltadas para esta faixa etária. – (G78)
DISCUSSÃO
O grupo dos graduandos que colaboraram com a pesquisa foi composto por maior número de pessoas autodenominadas do sexo feminino, tanto em pesquisas voltadas a estudantes de enfermagem dentro do âmbito do idadismo(9) ou fora dele. Isso demonstra uma feminização da enfermagem, decorrente do histórico da categoria, em que o cuidado assistencial era visto como uma habilidade unicamente feminina.
Foi verificado ainda que a maioria dos participantes de instituições privadas trabalhavam concomitantemente à graduação, enquanto que os de instituições públicas eram uma minoria, o que é compatível com os dados do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior - SEMESP acerca do perfil dos estudantes do ensino superior no Brasil(16). Esses dados elevados, voltados aos graduandos de instituições privadas, relacionam-se à necessidade de trabalhar para pagar a faculdade, ocasionalmente possibilitados pela menor carga horária da instituição de ensino, o que permite o ensino no período noturno, dando acesso ao trabalho ou, ainda, um estímulo do empregador para o aluno galgar melhores posições no plano de carreira.
Salienta-se que o sexo não apresentou influência significativa na prevalência das palavras evocadas, resultado semelhante ao encontrado em estudo transversal realizado com graduandos de enfermagem sobre idadismo na Jordânia(15). Em contrapartida, outras investigações identificaram diferenças relacionadas ao sexo, evidenciando maior predominância ora entre participantes do sexo feminino, ora entre os do masculino(8).
O tipo de instituição de ensino ou o ano que cursavam a graduação não interferiram na prevalência nas colocações das palavras. Da mesma forma, conviver com pessoas idosas e saber o significado de idadismo, também, não apresentaram diferenças nas citações, mostrando, de certa forma, senso-comum independente de sexo, tipo de instituição e ano de graduação, diferente dos resultados apresentados por Allué-Sierra et al.(8), onde o contato regular ou coabitar com um idoso foram três dos principais determinantes na expressão de atitudes positivas em relação aos idosos.
A experiência de vida das pessoas idosas foi identificada como um conceito relevante nas representações sociais manifestadas, desde a obtenção de sabedoria a partir das vivências, como também a transmissão de aprendizados e tradições advindas do tempo vivido. Essa evocação inicial da pessoa idosa como alguém experiente também foi identificada em outras pesquisas qualitativas acerca do idadismo e com estudantes de graduação de enfermagem, em estudos de âmbito nacional (Ceará) e internacional (Coreia)(17,18).
Outra pesquisa analisou as representações de pessoas idosas acerca de suas vivências e concluiu que é importante que enfermeiros estimem a relevância das experiências de vida das pessoas idosas para o cuidado adequado e humanizado aos pacientes, não enfatizando um cuidado apenas procedimental(19).
Assim, considerar as experiências de pessoas idosas é importante, mas, infelizmente, há um mito de que pessoas longevas são sábias. Essa representação perpetua uma crença de que a experiência acumulada ao longo dos anos traz uma compreensão mais profunda da vida. Embora muitos idosos possuam vasto conhecimento, a sabedoria não é exclusiva da idade avançada, assim como não é obrigatória diante desse avanço(20). Na velhice, a sabedoria pode ser manifestada de diversas maneiras, como a capacidade de refletir sobre o passado com discernimento e a habilidade de lidar com desafios de forma mais ponderada. Ainda, é possível que os graduandos, ao buscarem evitar uma perspectiva idadista, tenham atribuído um valor excessivo à sabedoria em pessoas idosas, refletindo uma tentativa de distanciar-se dos estereótipos consensuais associados ao envelhecimento, caracterizando um possível viés.
Além disto, na sociedade há uma visão do processo de envelhecimento interligado a solidão e dependência; no entanto, também há, muitas vezes, uma veiculação desse pré-conceito pelos próprios serviços de saúde(21). Na pesquisa, houve a representação da longevidade como um processo e, dentro dele, destacou-se a visão da pessoa idosa interligada à vulnerabilidade e fragilidade. A visão de vulnerabilidade da pessoa idosa é senso-comum nessa e em outras pesquisas, como em estudo realizado com questionário autorreferido com graduandos em enfermagem(22); contudo, é importante trazer à memória que muitas pessoas chegam a idades longevas com boa qualidade de vida, independência e autonomia. Dessa forma, o conceito de envelhecimento saudável, em que a pessoa idosa é protagonista de suas ações e escolhas, ainda precisa ser ancorado nos alunos de graduação, bem como o papel do enfermeiro na prevenção e promoção de saúde ao invés de somente tratar as doenças, incapacidades e limitações.
Nesse sentido, percepções estereotipadas sobre as pessoas idosas estão em todos os lugares, seja na mídia, nos atendimentos preferenciais e no setor de saúde. Neste estudo, foram relacionados às pessoas idosas diversos estereótipos, como traços da personalidade positivos (paciência, alegria e gentileza) e negativos (teimosia, carência e conservadorismo). Também foi citado um olhar infantilizado da pessoa idosa e atividades relacionadas com a velhice como bingo, evocar o passado e laços familiares. Diante disso, vale ressaltar que, embora tenham sido identificados estereótipos negativos, os positivos foram os mais frequentes, conforme apontado em uma revisão de escopo. Entre os 46 artigos analisados, 23,5% apresentaram atitudes e percepções positivas, representando a maior proporção dos estudos, seguidos dos negativos (19,6%), mistos (19,6%), neutros (4,3%) e não conclusivos (6,5%)(9).
Estereótipos acerca da velhice ainda são prevalentes e acarretam consequências prejudiciais à sociedade, uma vez que comprometem a autoestima e, consequentemente, a saúde física e mental dos indivíduos. Além disso, resultam na exclusão das pessoas de espaços sociais e laborais, gerando impactos negativos em diversos setores da vida(23). Apesar de no estudo em questão e demais estudos as evocações apresentarem que os graduandos têm um maior contato com pessoas idosas da família(24,25), é preciso ampliar esse olhar para oferecer um cuidado adequado, livre de preconceitos e que promova o envelhecimento saudável.
Ademais, em relação às características físicas, rugas, cabelos brancos e flacidez marcam o fenótipo das pessoas idosas, o qual foi apresentado nas representações deste e demais estudos(22). No entanto, no Brasil, há um certo movimento para envelhecer sem parecer uma pessoa idosa, uma vez que, de acordo com Castro et al.(26), as rugas e cabelos brancos, características evocadas no estudos, são consideradas como um descuido em relação à própria aparência. Dessa forma, as características físicas comuns decorrentes do processo de envelhecimento apresentam-se de forma negativa ao interferir na autoestima da pessoa que está fazendo a transição da fase adulta para a idosa.
Destacou-se a evocação dos alunos sobre políticas públicas voltadas à saúde e à vida em sociedade, muitas vezes negligenciadas, mas fundamentais para o fortalecimento de um envelhecimento saudável. Em outro estudo de representações sociais, essa dimensão relacionada às políticas públicas emergiu após a aplicação de aulas sobre saúde do idoso, não sendo inicialmente identificada entre os participantes(17).
Foram relatados aspectos negativos como a omissão de direitos, que aumentam a vulnerabilidade da pessoa idosa. A OMS define envelhecimento saudável como o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional que permite o bem-estar na idade avançada, enfatizando a importância de políticas que promovam a inclusão social, a acessibilidade aos serviços de saúde e o suporte a estilos de vida que favoreçam a autonomia e a independência dos idosos(27).
Aspectos estes reforçados pelo Estatuto da Pessoa Idosa, em que, de acordo com o Art 1º, “É instituído o Estatuto da Pessoa Idosa, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos”, embasando as representações dos participantes acerca de políticas públicas destinadas às pessoas idosas(28).
Considera-se a importância dessas evocações, uma vez que, como futuros enfermeiros, deverão ser, também, um agente político na área da saúde, atuando na defesa da pessoa idosa e na capacitação de mudanças de seus pares, considerando o idoso com suas vulnerabilidades, potencialidades e necessidades, para a melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas, em todos os níveis da assistência no território em que praticará sua profissão.
O estudo apresenta como pontos fortes a originalidade e relevância do tema, ainda pouco explorado na formação em Enfermagem, aliado a uma metodologia consistente, combinando abordagens quantitativa e qualitativa fundamentadas na Teoria das Representações Sociais. Conta com uma amostra significativa, o que confere robustez aos achados, organizados em categorias abrangentes que revelam percepções tanto positivas quanto negativas sobre o idadismo. Além disso, destaca-se a inclusão da dimensão de políticas públicas, aspecto inovador na área e as contribuições práticas para estratégias pedagógicas, reforçando a importância da formação crítica e inclusiva dos futuros enfermeiros. Apesar das contribuições, este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas, como o uso de uma amostra de conveniência, restrita a estudantes de graduação em Enfermagem, o que limita a extrapolação dos resultados. Ademais, a coleta de dados on-line pode ter favorecido viés de desejabilidade social e, por se tratar de um delineamento transversal, não permite estabelecer causalidade, apenas associações entre as variáveis analisadas. Pesquisas futuras, com amostras maiores e em diversos contextos, poderão aprofundar e ampliar a compreensão sobre o idadismo no âmbito da formação em saúde.
CONCLUSÃO
De acordo com a análise, foi possível identificar que a maioria dos estudantes de enfermagem tem conhecimento em relação ao conceito de idadismo e aparentam estar abertos para conhecer mais sobre a temática, apresentando percepções otimistas ou realistas sobre o assunto. Embora a palavra “idadismo” não seja diretamente mencionada nas percepções, elas evocam questões atuais da sociedade que permeiam a pessoa idosa e o processo de envelhecimento em diversos âmbitos, como nas políticas públicas e na área da saúde. Além disso, essas percepções também associam a pessoa idosa a sentimentos considerados positivos, como os laços familiares e qualidades como sabedoria, experiência e paciência.
No entanto, diversas palavras negativas ainda se apresentam dentro do imaginário dos participantes acerca da pessoa idosa e diversos estereótipos são evocados como as características físicas e de personalidade negativas, além da correlação da pessoa idosa com o adoecimento, vulnerabilidade e visão infantilizada.
Dessa forma, é de extrema importância que os conhecimentos sobre o idadismo sejam abordados e reforçados aos estudantes de graduação, especialmente os de enfermagem, que poderão estar em contato direto e contínuo com as pessoas idosas, para manter o sentimento positivo em relação a elas, uma vez que é uma população em crescimento mundial e serão certamente alvos de cuidados, quer na área preventiva ou assistencial, em nível ambulatorial, institucional ou domiciliar. Além disso, que os estudantes e futuros enfermeiros possam ser representantes e multiplicadores no combate ao idadismo na sociedade e no futuro profissional.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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