RESUMO
Objetivo: Avaliar o efeito da Terapia Floral de Bach na esperança e qualidade de vida de pessoas com câncer avançado.
Método: Ensaio clínico randomizado, triplo cego (1:1), em hospital público de alta complexidade, região Sul do Brasil. Noventa e nove participantes foram alocados no grupo intervenção (solução com nove essências florais) ou grupo placebo (solução Hydro-brandy). Ambos utilizaram quatro gotas, via oral, quatro vezes ao dia, durante 120 dias, com seguimento mensal. Esperança mensurada pelo Herth Hope Index, qualidade de vida pelo Functional Assessment of Chronic Illness Therapy – Palliative Care.
Resultados: No grupo floral (n = 50), a esperança variou de 43,44/48 para 44,53/48 e 41,67/48 para 44,29/48 (placebo /n = 49), aumento significativo no tempo (p = 0,024), sem diferença entre grupos (p = 0,977). A qualidade de vida variou de 141,39/184 para 150,60/184 (grupo floral), e 133,76/184 para 148,96/184 (placebo), sem significância para grupos (p = 0,230) ou tempo (p = 0,240).
Conclusão: Embora sem significância estatística, houve discreto aumento em esperança e qualidade de vida, ressaltando a importância das terapias não farmacológicas na prática baseada em evidências em cuidados paliativos.
Registo Brasileiro de Ensaio Clínico: RBR-8q6z6kq.
DESCRITORES
Essências Florais; Esperança; Qualidade de Vida; Oncologia Integrativa; Cuidados Paliativos
ABSTRACT
Objective: To evaluate the effect of Bach Flower Remedies Therapy on the hope and quality of life of people with advanced cancer.
Method: Randomized, triple-blind (1:1) clinical trial in a high-complexity public hospital in the Southern region of Brazil. Ninety-nine participants were allocated to either the intervention group (solution with nine flower essences) or the placebo group (Hydro-brandy solution). Both groups used four drops orally, four times a day, for 120 days, with monthly follow-up. Hope measured by the Herth Hope Index, quality of life through Functional Assessment of Chronic Illness Therapy – Palliative Care.
Results: In the flower remedies group (n = 50), hope varied from 43.44/48 to 44.53/48 and in the placebo group (n = 49) from 41.67/48 to 44.29/48, a significant increase over time (p = 0.024), with no difference between groups (p = 0.977). Quality of life ranged from 141.39/184 to 150.60/184 in the flower remedies group, and from 133.76/184 to 148.96/184 in the placebo group, with no significant difference between groups (p = 0.230) or time (p = 0.240).
Conclusion: Although not statistically significant, there was a slight increase in life expectancy and quality of life, highlighting the importance of non-pharmacological therapies in evidence-based palliative care practice.
Brazilian Registry of Clinical Trials: RBR-8q6z6kq.
DESCRIPTORS
Flower Essences; Hope; Quality of Life; Integrative Oncology; Palliative Care
RESUMEN
Objetivo: Evaluar el efecto de las Flores de Bach en la esperanza y la calidad de vida de las personas con cáncer avanzado.
Método: Ensayo clínico aleatorizado, triple ciego (1:1) en un hospital público de alta complejidad en la región sur de Brasil. Noventa y nueve participantes fueron asignados al grupo de intervención (solución con nueve esencias florales) o al grupo placebo (solución de hidrobrandy). Ambos participantes utilizaron cuatro gotas por vía oral, cuatro veces al día, durante 120 días, con un seguimiento mensual. La esperanza medida por el Herth Hope Index, calidad de vida a través de Functional Assessment of Chronic Illness Therapy – Palliative Care.
Resultados: En el grupo floral (n = 50), la esperanza varió de 43,44/48 a 44,53/48 y del grupo placebo (n+49) de 41,67/48 a 44,29/48, un aumento significativo con el tiempo (p = 0,024), sin diferencia entre los grupos (p = 0,977). La calidad de vida varió de 141,39/184 a 150,60/184 (grupo de terapia floral) y de 133,76/184 a 148,96/184 (grupo placebo), sin diferencias significativas entre los grupos (p = 0,230) ni a lo largo del tiempo (p = 0,240).
Conclusión: Aunque no fue estadísticamente significativo, se observó un ligero aumento en la esperanza de vida y la calidad de vida, lo que subraya la importancia de las terapias no farmacológicas en la práctica de cuidados paliativos basados en la evidencia.
Registro Brasileño de Ensayos Clínicos: RBR-8q6z6kq.
DESCRIPTORES
Esencias Florales; Esperanza; Calidad de Vida; Oncología Integrativa; Cuidados Paliativos
INTRODUÇÃO
Entre a restrita visão dicotômica do curável e incurável, a doença avançada está intrinsecamente associada ao sofrimento e enfrentamento. Nos estágios avançados do câncer, o Tratamento Paliativo (TP), Cuidados Paliativos (CP) e de Suporte buscam melhorar a Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (QVRS) e prolongar a sobrevida(1,2).
Independente do estágio da doença ou objetivos terapêuticos, o CP precoce é indicado por ter abordagem centrada na pessoa e seus familiares, uma visão disruptiva do modelo limitada a doença e por cuidar das dimensões biopsicosocioespirituais para manter a sobrevida com qualidade(1,2,3). Muitas pessoas estão em TP sem a integração precoce com abordagens de CP, por mais que compartilhem objetivos para beneficiar pacientes em condições clínicas elegíveis.
No câncer avançado ou incurável, diferentes modalidades de TP estão indicadas, sejam elas sistêmicas (quimioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e terapia direcionada) ou localizadas (radioterapia e cirurgia), direcionadas ao controle da progressão das metástases. São terapêuticas complexas, manejadas em unidades ambulatoriais ou internações por equipes transdisciplinares, que devem ser ofertadas de maneira oportuna e concomitante com abordagem de CP(2).
No contexto paliativo, a produção cientifica é amplamente direcionada a investigar e otimizar a QVRS, compreendida como a percepção da pessoa sobre o impacto da doença e tratamento na multidimensionalidade física, funcional, social, psicoemocional, existencial e de finitude(1,3,4). No entanto, nas pessoas com câncer avançado, a esperança permanece subinvestigada, sendo destacada em apenas 4% das publicações(3). A esperança coexiste com a saúde-doença-cuidado crônico, é um mecanismo de enfrentamento que precisa ser avaliado e promovido(5).
A esperança é a força motriz para sobrevivência, não limitada por traços, conceitos lineares ou determinada externamente, entendida como “uma força vital e dinâmica […] caracterizada por uma expectativa confiante…”(6), ela é “um atributo motivacional e cognitivo […] para iniciar e manter a ação em direção ao alcance da meta”(7). A esperança está relacionada com fatores sociodemográficos, clínicos, terapêuticos, QVRS, questões existenciais, apoio social, psicologia positiva, resiliência, coping, entre outros(5,8,9).
A Psycho-Oncology e Oncologia Integrativa continuamente dedicam-se à busca por intervenções não invasivas e não farmacológicas para a saúde humana com embasamento científico, segurança e eficácia, aqui denominados de Terapias não Farmacológicas (TNF), para oferecer o cuidado holístico(4). Dentre as 604 diferentes TNF classificadas, as Essências ou Terapia Floral de Bach (TFB) foi desenvolvida na Inglaterra entre os anos de 1928 e 1935, pelo médico homeopata Edward Bach(10). São soluções altamente diluídas em água, extraídas de plantas e flores silvestres, que se destinam ao equilíbrio psicoemocional, por atuarem em níveis sutis de harmonização interna da pessoa e ambiente(11,12).
Por não estar claro se existem resquícios farmacológicos, não existe um consenso sobre o mecanismo de ação da TFB. Uma das hipóteses é que a solução ultra diluída contenha nanopartículas com informações/energia sutil das flores e tenha uma ação psicomoduladora no consciente e inconsciente, para reequilibrar estados emocionais(11,13,14,15).
Mesmo diante das incertezas relacionadas ao mecanismo de ação da TFB, ela é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (1976), autorizada pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (2018), com respaldo do Conselho Federal de Enfermagem. É utilizada na sociedade com expectativa de algum resultado; consequentemente, alguns estudos destacam seus efeitos no transtorno do déficit de atenção e hiperatividade(13); para condições que interferem no corpo e mente(12); na redução do estresse, ansiedade, compulsão alimentar, frequência cardíaca(16); e na saúde mental, insônia e gestão das emoções(15).
Apesar do crescente interesse pela Oncologia integrativa, são escassos os ensaios clínicos randomizados que avaliam o efeito da Terapia Floral de Bach em câncer avançado, com foco em esperança e qualidade de vida. Neste contexto, este estudo teve como objetivo avaliar o efeito da Terapia Floral de Bach na esperança e qualidade de vida de pessoas com câncer avançado.
MÉTODO
Desenho do Estudo
Ensaio clinico randomizado, triplo cego, controlado por placebo, conduzido no ambulatório de Oncologia-Hematologia de um hospital público na região Sul do Brasil. Duas diretrizes foram seguidas ao reportar este ensaio: Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT) e sua extensão para Nonpharmacologic Treatments (NPT)(17).
Participantes e Amostra
Dos participantes voluntários, foram incluídos: adultos (≥ 18 anos) com câncer avançado (estágio IV), classificados na escala performance status da Eastern Cooperative Oncology Group (PS-ECOG) de 0-3. Excluíram-se os casos de doenças linfoproliferativas, pacientes exclusivamente em Cuidados Paliativos e aqueles sem condições de comunicação verbal e/ou escrita.
O tamanho da amostra foi calculado no software GPower (v 3.1.9.7) para modelo longitudinal (2 grupos e 5 medidas), assumindo f = 0,25, α = 5% e poder de 95%. Considerando perdas previstas, planejou-se recrutar 125 pacientes. O recrutamento foi realizado de outubro de 2022 a fevereiro de 2024 e avaliação de seguimento até junho de 2024.
Aspectos Éticos
O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa institucional com parecer n° 5.204.355 e homologado no Registros Brasileiros de Ensaios Clínicos Randomizados (ReBEC) sob parecer n° RBR-8q6z6kq. Todos os participantes receberam esclarecimento verbal, escrito e assinaram o consentimento informado antes da inclusão na pesquisa.
Intervenção
Todos os frascos eram idênticos, de vidro âmbar estéreis, capacidade para 30 mL, com tampa furada, lacre de segurança, conta-gotas com bulbo branco e cânula de vidro de 75 mm. As soluções preparadas poderiam conter a fórmula floral (GF) ou a solução placebo (GP). Todos eram rotulados de forma semelhante “Pesquisa Floral” e instruções de uso, com diferença apenas na etiqueta numérica e sequencial.
As soluções foram preparadas em farmácia especializada, em frascos idênticos de 30ml. Cada frasco continha um volume para 30 dias de uso, com margem adicional de 30%. O Grupo floral recebeu hidro-brandy acrescido de nove essências de florais de Bach, e o placebo apenas o hidro-brandy. Ambos os grupos ingeriram quatro gotas, quatro vezes ao dia, por 120 dias. Mensagens via WhatsApp® foram enviadas nas primeiras oito semanas para estimular a adesão.
A solução hidro-brandy era composta de 21 mL de água mineral (marca Crystal®, densidade 1,0 e pH a 25ºC = 8,71) + 9 mL de conservante brandy (marca Osborne®, 100% destilado de vinho e 36% vol. alc.). A solução floral era composta por 2 gotas da essência-mãe floral (com 400 partes de conhaque orgânico em uma parte de essência mãe da Healing Herbs® proveniente da Inglaterra). A fórmula (e as principais indicações) era composta por Cherry Plum (Prunus cerasifera, autocontrole emocional), Crab Apple (Malus pumila, aceitação e autoestima), Gorse (Ulex europaeus, fé e esperança), Mimulus (Mimulus guttatus, aceitação), Mustard (Sinapis arvensis, melancolia), Olive (Olea europaea, exaustão fisica), Sweet Chestnut (Castanea sativa, enfrentamento de adversidades), White Chestnut (Aesculus hippocastanum, discernimento) e Wild Oat (Bromus ramosus, propósito e sentido)(11).
Ambos os grupos continuaram recebendo o tratamento oncológico com intenção paliativa, seja ele sistêmico ou localizado conforme a condição clínica de cada indivíduo.
Desfechos
O desfecho primário foi avaliado pelo Índice de Esperança de Herth (HHI), instrumento mais sumarizado em revisões sistemáticas sobre o constructo em oncologia(8,9). Trata-se de uma avaliação breve do autorrelato de esperança composto por 12 itens em uma escala Likert. O escore total varia de 12 à 48, é a somatória do intervalo possível, quanto mais elevado denota maior esperança(7). Pode ser classificado em três níveis de esperança com base em suas pontuações: baixo (12–23), médio (24–35) ou alto (36–48). A consistência interna do instrumento estimada pelo α de Cronbach na versão original foi de 0,97 (excelente)(7), 0,834 (boa) em sua validação e adaptação cultural no Brasil(18).
O desfecho secundário avaliou a QVRS, com o instrumento de autorrelato Functional Assessment of Chronic Illness Therapy - Palliative Care (FACIT-Pal, versão 4). A FACIT-Pal é composta pelas quatro dimensões de bem-estar da Functional Assessment of Cancer Therapy (FACT-G): físico (PWB: 7 itens, 0-28 pontos); social/familiar (SWB: 7 itens, 0-28 pontos), emocional (EWB: 6 itens, 0-24 pontos), funcional (FWB 7 itens, 0-28 pontos) e uma subescala de domínio paliativo (PalS 19 itens, 0-76 pontos)(19). Os itens são pontuados no formato likert de 0 (nem um pouco) a 4 (muito) pontos; maiores pontuações refletem melhor QVRS. As subescalas resultam no Índice de Resultado do Teste (Trial Outcome Index – TOI: PWB + FWB + PalS = 0 a 132 pontos) e no escore total (0-184pontos)(19). A confiabilidade da consistência interna do α de Cronbach varia de boa a excelente na versão original das subescalas (FACT-G: 0,89; TOI: 0,91e FACIT-Pal: 0, 93)(19) e na sua tradução para português (FACT-G: 0,91)(20).
Eventos adversos foram monitorados em todas as visitas, classificados por gravidade e relação causal. Eventos graves implicaram em descontinuação da intervenção, mantendo análise de intenção de tratar.
Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada no REDCap®. Na inclusão dos participantes, foram aplicados os instrumentos, de forma presencial, para obtenção de: dados sociodemográficos e clínicos; esperança e QVRS (baseline, T0). Nas avaliações de seguimento, a cada ± 30 dias, foram aplicados os instrumentos de esperança e QVRS (T1 a T4 – 120 dias), seja de forma presencial, por telefone ou envio de link para o participante.
Foram descontinuados os participantes ausentes ± 30 dias após o T0 ou as últimas avaliações de seguimento (T1 a T4), que não fizeram adesão superior a 70% do conteúdo do frasco conforme relato verbal, ou na vigência de qualquer evento adverso relacionado.
Randomização e Alocação
Uma sequência de alocação aleatória com 150 números (1 para intervenção e 2 para placebo) foi gerada no site (https://ctrandomization.cancer.gov/tool/), preservado o equilíbrio de alocação 1:1 entre os grupos, procedimento realizado por uma pesquisadora não cega (sem contato com os participantes ou pesquisador de campo). A randomização foi entregue para a farmacêutica (sem contato com os participantes ou pesquisador de campo) responsável pela manipulação, esses códigos numéricos foram utilizados para identificar os frascos, determinar o conteúdo (TFB ou placebo) e assegurar o mascaramento de alocação (participantes e pesquisador de campo).
Mascaramento
Foi mantido o mascaramento triplo (participantes, pesquisador de campo e estatístico) até o término do estudo. Uma pesquisadora não cega realizou a randomização e a farmacêutica fez a manipulação, ambas não mantinham contato com os participantes, o pesquisador de campo e o estatístico. A farmácia de manipulação era distante do ambulatório de coleta de dados. O pesquisador de campo mantinha contato com a equipe de dispensação e foi responsável pela coleta de dados. Após o término da coleta, o pesquisador de campo encaminhou os dados para a pesquisadora que fez a randomização, a qual, de posse da randomização, organizou os dados em grupos A e B e enviou-os ao estatístico. Após as análises, a pesquisadora não cega esclareceu qual dos grupos era o floral ou placebo.
Análise dos Dados
Os dados capturados foram exportados do REDCap® e analisados com o uso do software SPSS® 20. Na verificação da homogeneidade dos grupos, foram utilizados os testes Qui-quadrado ou Exato de Fisher para as variáveis qualitativas e o teste t de Student para variáveis quantitativas.
As análises seguiram o princípio da intenção de tratar, para minimizar o viés de seleção após a randomização, associado ao Modelo Linear Misto Generalizado (GLMM), devido à necessidade de incorporar todas as avaliações disponíveis de cada participante ao longo do tempo até o momento da descontinuação, pelo princípio da máxima verossimilhança(21). Foram adotados uma matriz de covariância não estruturada e o Critério de Informação de Akaike (AIC) para seleção de modelo. O nível de significância foi fixado em 5%, com correção de Bonferroni para comparações múltiplas.
As correlações entre os escores de esperança e FACIT-Pal foram verificadas pelo do coeficiente Spearman. O nível de significância foi estabelecido em 5%.
RESULTADO
Dos 125 pacientes elegíveis, 99 foram randomizados (GF = 50, GP = 49). As perdas foram maiores nas fases iniciais, sobretudo por não adesão ou óbito. Ao final do segmento, foram analisados 15 participantes no GF e 17 no GP (Figura 1). Os óbitos foram decorrentes da evolução da doença ou complicações relacionadas ao tratamento, sem relação com a intervenção.
Características dos Participantes
Os grupos foram homogêneos quanto às variáveis sociodemográficas, clínicas e terapêuticas (p > 0,05) (Tabela 1).
Características dos participantes do Grupo Floral (GF) e Grupo Placebo (GP) – Curitiba, PR, Brasil, 2025.
Desfechos
A esperança apresentou escores elevados desde o baseline, com discreta variação ao longo do segmento em ambos os grupos. Com base no modelo estatístico GLMM após a correção do teste de Bonferroni para comparações múltiplas, houve efeito do tempo (p = 0,024), porém não entre os grupos (p = 0,97) (Figura 2).
Na QVRS, houve melhora discreta em todos os domínios no GF, mas apenas o bem-estar social (p = 0,022) e preocupações adicionais (p = 0,049) mostraram significância ao longo do tempo, sem diferença entre os grupos (Tabela 2).
Análise do desfecho na Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (FACIT-Pal) – Curitiba, PR, Brasil, 2025.
O escore de esperança e a QVRS correlacionaram-se positivamente (p < 0,05) com todos os domínios, subescalas e escore total em ambos os grupos. Esses construtos estão fortemente relacionados, com níveis elevados de esperança associados aos diferentes domínios da QVRS (Tabela 3).
Correlação entre o escore de esperança (HHI) e QRVS (FACIT-Pal) – Curitiba, PR, Brasil, 2025.
DISCUSSÃO
Neste ensaio clínico randomizado, triplo-cego e controlado por placebo, a TFB não apresentou efeito superior ao placebo sobre a esperança e QVRS em pessoas com câncer avançado em TP.
A ausência de diferença significativa entre os grupos pode ser explicada por múltiplos fatores. No contexto da pesquisa em cuidados paliativos, é reconhecido que o acompanhamento sistemático, as avaliações periódicas e o suporte oferecido pela equipe de pesquisa funcionam como intervenções em si, produzindo efeito placebo, que reforçam sentimentos de esperança e melhoram a percepção de qualidade de vida(3,14).
A síntese de uma metanálise com múltiplos tipos e estágios de câncer durante a terapia sistêmica identificou que 35,6 é a média do escore de esperança(8). Nossos achados apontam uma superioridade de aproximadamente 9 pontos em pessoas com câncer avançado em TP. Trata-se de uma condição desafiadora em que essas pessoas desenvolvem estratégias de enfrentamento, visualização, planejamento e execução de ações para alcançarem resultados mais favoráveis, que são essenciais na luta contra a desesperança e promoção de pensamentos positivos, mesmo em face da progressão da doença avançada e limitações clínicas(22).
O ponto de corte estabelece que >40 é considerado escore elevado de esperança em pessoas com câncer e a relevância clínica de uma intervenção teria uma diferença superior a cinco pontos(5). Convém destacar que, em nossos achados, os participantes já aparentavam escores elevados no baseline, o que limita a possibilidade de ganhos adicionais e caracteriza um possível efeito teto no escore de esperança(5). A esperança é um constructo complexo, influenciado por dimensões sociodemográficas, clínicas, existenciais e relacionais, o que dificulta a detecção de mudanças significativas a partir de uma única intervenção; a maioria dos estudos com efeitos moderados a pequenos foram baseados na teoria da esperança ou no planejamento antecipado de cuidados(5,23).
A escassez de estudos em pacientes com câncer conduzidos com a TFB limita as comparações. Um único estudo experimental disponível utilizou uma fórmula (Gorse, Star of Bethlehem, Gentian, Mimulus, Wild Oat, Honeysuckle e Heather) e foi conduzido em pacientes cubanos; a significância estatística no GF em comparação ao tratamento convencional com antidepressivos é questionada devido ao alto risco de viés(24).
Além do elevado escore de esperança, a presente pesquisa identificou percepções imprecisas sobre o diagnóstico e os objetivos do tratamento. Pessoas com câncer avançado sucumbem a diversos vieses cognitivos e estão mais propensas a acreditar que a doença é curável e que terão maior sobrevida(23). Assim, é possível questionar se a imprecisão do conhecimento diagnóstico e terapêutico pode ter impactado a supervalorização da esperança e da QVRS.
Manter ou melhorar a QVRS e sobrevivência são os objetivos das diferentes modalidades de TP. As pessoas com câncer avançado estão em constante adequação à cronicidade da doença, vivenciam particularidades distintas da fase inicial ou da terminalidade, perpassam por uma transformação comportamental, psicológica e existencial(2,25). Trata-se de uma fase permeada por processos internos que resultam em sofrimento físico e psicoemocional(9). Frequentemente, antes do TP esses pacientes já apresentavam declínio em diferentes domínios da QVRS, principalmente no físico, emocional e social, os quais nem sempre serão otimizados após o tratamento(26).
O resultado deste estudo clínico diverge da literatura internacional, ao encontrar escores superiores em diferentes domínios, subescalas e total do FACIT-Pal(27). A presença de escores elevados de QVRS no baseline pode refletir o efeito teto, no qual os participantes com melhores pontuações no domínio funcional reduzem a sensibilidade para detecção de pequenas variações no seguimento e estas não são captadas como significância estatística. Embora as estimativas limiares de mudança clinicamente significativas sejam desconhecidas para o FACIT-Pal, foi sugerida uma diferença média inferior a 5 pontos, dada a complexidade em detectar diferenças robustas nesta população(28).
Mesmo com a limitação de estudos em pessoas com câncer, a intervenção apresenta resultados positivos na QVRS em outras populações, a exemplo do estudo quase-experimental, que verificou o efeito da TFB (Rescue Remedy® e Walnut) em profissionais de enfermagem no Brasil, com resultados significativos na subescala de estresse traumático após três semanas(29). Outra fórmula (Rescue Remedy®, Red Chestnut, Aspen, Crab Apple, Oak e Olive), utilizada no estudo de métodos mistos em profissionais de saúde espanhóis, aponta resultados significativos nas dimensões de saúde mental, insônia e controle emocional(15).
No processo terapêutico com TFB, as pessoas possivelmente acessam padrões emocionais e mentais profundos da consciência, os quais podem causar desconforto ou negação, o que faz com que elas aceitem ou rejeitem as transformações emocionais(11,30). Em algumas situações, as pessoas podem apresentar piora de sinais e sintomas, fato possivelmente explicado pela catarse, em que ocorre inicialmente a liberação de emoções negativas (tristeza, raiva, medo ou frustração), para posterior melhora do bem-estar emocional(11). Este fato pode se ser percebido na oscilação das retas de regressão do escore de esperança, nos domínio bem-estar social e preocupações adicionais. É importante considerar que o efeito terapêutico não é uniforme ou automático, fato que pode resultar na ausência de significância devido a menor diferença entre os GF e GP(30).
Nesta pesquisa, foi identificado elevado número de perdas de seguimento de participantes (adesão insuficiente ou não percepção do efeito). Em outro estudo clínico pragmático, no Brasil, não foi identificada entre os participantes a expectativa de “nenhuma melhora” sobre a TFB. Este fato pode influenciar a percepção de resultados positivos em ambos os grupos e, associado a baixa adesão dos participantes durante o estudo, reflete a realidade dessa intervenção(14), embora uma revisão sistemática de métodos mistos identifique diferentes barreiras quanto ao uso das TNF, desde o desconhecimento pela população, ausência de financiamento, escassa evidência e baixa receptividade dos profissionais de saúde(10).
O uso da TFB em estudos clínicos(14,15,16,24,30), revisão sistemática(13) e escopo(12) difere do observado neste estudo quanto à ausência de eventos adversos. Destaca-se que na composição da fórmula foi utilizado um conservante com baixo teor alcoólico. Entretanto, existem limitações para estabelecer uma relação causal, uma vez que os efeitos podem estar relacionados às características clínicas desta população, múltiplas toxicidades prévias, uso de quimioterápicos, comorbidades e uso de polifarmácia.
Este estudo apresenta limitações, incluindo uma amostra predominantemente feminina com câncer de mama, o que restringe a generalização dos achados. Outros tipos de câncer e pacientes do sexo masculino podem experimentar esperança e QVRS de maneira diferente. Além disso, a inclusão de participantes com comorbidades psiquiátricas, sem análise por subgrupo, pode ter influenciado os resultados. Outro ponto relevante refere-se à fórmula floral. De acordo com as recomendações de Bach, as fórmulas devem ser personalizadas para atender às necessidades e especificidades de cada indivíduo. Bach acreditava que as flores promoviam estados emocionais positivos ao catalisar os recursos internos do paciente, contribuindo para a restauração do equilíbrio emocional(11).
Outro ponto limitante é que não foi possível garantir um controle rigoroso da adesão à dosagem recomendada. A utilização por 120 dias pode ter sido excessiva e, associada ao atraso na percepção sutil do efeito da TFB, pode ter contribuído para a baixa adesão. O uso de brandy (conservante alcoólico), mesmo em baixa concentração, pode ter sido responsável pelos eventos adversos leves relatados.
CONCLUSÃO
A Terapia Floral de Bach, na formulação testada (Cherry Plum, Crab Apple, Gorse, Mimulus, Mustard, Olive, Sweet Chestnut, White Chestnut e Wild Oat), não apresentou efeito superior ao placebo sobre a esperança ou a qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes com câncer avançado. Apesar de ambos os grupos terem mostrado discreto aumento nos escores avaliados, tal resultado pode refletir o efeito placebo e a atenção clínica recebida. Associados aos eventos adversos leves relatados, os achados também sugerem cautela no uso de conservantes alcoólicos nessa população.
Estes achados reforçam a necessidade de ensaios clínicos robustos, com intervenções personalizadas, melhor monitoramento da adesão e uso de medidas psicométricas sensíveis. Para a Enfermagem, o estudo contribui para fortalecer a prática baseada em evidências nos cuidados paliativos e ampliar a reflexão sobre o papel das terapias não farmacológicas.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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