Open-access Percepções de mulheres recicladoras sobre o cuidado de enfermagem e práticas ecologicamente sustentáveis: pesquisa-ação

RESUMO

Objetivo:  Compreender as percepções de mulheres recicladoras sobre o cuidado de Enfermagem na promoção de práticas ecologicamente sustentáveis, na perspectiva do empreendedorismo social.

Método:  Pesquisa-ação desenvolvida, entre agosto/2024 e março/2025, com 26 mulheres de uma Associação de recicladores localizada no sul do Brasil, a partir da promoção de práticas ecologicamente sustentáveis. Considerou-se, neste estudo, apenas a fase investigativa, cujos dados foram coletados por meio de entrevistas individuais e examinados à luz da análise temática do tipo Reflexive.

Resultados:  As mulheres identificaram o cuidado de Enfermagem como suporte essencial à organização e segurança do ambiente de trabalho. As percepções indicam que a presença do enfermeiro no cotidiano da associação promoveu o reconhecimento do valor social de seu trabalho e o fortalecimento da autoestima. Tais achados consolidam o cuidado como prática de empreendedorismo social, intrinsecamente associada à saúde ambiental.

Conclusão:  As percepções de mulheres recicladoras revelam que conceber o cuidado de Enfermagem como promotor de sustentabilidade requer a ruptura com o modelo convencional. Sob o prisma do empreendedorismo social, o cuidar consolida-se como um fenômeno sistêmico e relacional, no qual o enfermeiro é o elo essencial entre a saúde humana e a integridade planetária.

DESCRITORES
Cuidado de Enfermagem; Enfermagem em Saúde Comunitária; Desenvolvimento Sustentável; Meio Ambiente e Saúde Pública.

ABSTRACT

Objective:  To understand the perceptions of women waste pickers regarding nursing care in the promotion of environmentally sustainable practices, from the perspective of social entrepreneurship.

Method:  An action research study conducted between August 2024 and March 2025 with 26 women from a waste pickers’ association located in southern Brazil, focusing on the promotion of environmentally sustainable practices. This study focused solely on the investigative phase, during which data were collected through individual interviews and examined using reflexive thematic analysis.

Results:  The women identified nursing care as essential to the organization and safety of the workplace. Their perceptions suggest that the presence of a nurse in the association’s daily activities fostered recognition of the social value of their work and boosted their self-esteem. These findings reinforce the role of nursing care as a form of social entrepreneurship, intrinsically linked to environmental health.

Conclusion:  The perspectives of women waste pickers reveal that conceiving of nursing care as a driver of sustainability requires a break from the conventional model. From the perspective of social entrepreneurship, care emerges as a systemic and relational phenomenon, in which the nurse serves as the essential link between human health and planetary integrity.

DESCRIPTORS
Nursing Care; Community Health Nursing; Sustainable Development; Environmental Health.

RESUMEN

Objetivo:  Vislumbrar las percepciones de mujeres recicladoras sobre la atención de enfermería en la promoción de prácticas ecológicamente sostenibles, desde la perspectiva del emprendimiento social.

Método:  Se trata de una investigación-acción llevada a cabo entre agosto de 2024 y marzo de 2025 con 26 mujeres de una asociación de recicladores del sur de Brasil, centrada en la promoción de prácticas ecológicamente sostenibles. Se ponderó, en este estudio, la fase investigativa solamente, cuyos datos se recopilaron mediante entrevistas individuales y se examinaron a la luz del análisis temático reflexivo.

Resultados:  Las mujeres identificaron la atención de Enfermería como un apoyo esencial para la organización y la seguridad del entorno laboral. Las percepciones indican que la presencia del personal de enfermería en el día a día de la asociación favoreció el reconocimiento del valor social de su trabajo y el fortalecimiento de la autoestima. Estos hallazgos consolidan la atención de enfermería como una práctica de emprendimiento social, intrínsecamente ligada a la salud ambiental.

Conclusión:  Las mujeres recicladoras conciben la atención de Enfermería como promotor de sostenibilidad, rompiendo así con el modelo convencional. Desde la perspectiva del emprendimiento social, la atención se consolida como un fenómeno sistémico y relacional, en el que el personal de enfermería es el eslabón esencial entre la salud humana y la integridad del planeta.

DESCRIPTORES
Atención de Enfermería; Enfermería en Salud Comunitaria; Desarrollo Sostenible; Medio Ambiente y Salud Pública.

INTRODUÇÃO

A Enfermagem desempenha papel protagonista na promoção de ações eco-orientadas para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável(1,2). Estudos enfatizam a interconexão entre saúde humana e integridade ecossistêmica, visando transcender abordagens assistencialistas para consolidar condutas sustentáveis(3,4,5). Nesse cenário, o Enfermeiro assume função estratégica na educação ambiental e na mitigação de riscos ocupacionais(6,7).

Sob a ótica do empreendedorismo social, esse cuidado converge para o protagonismo colaborativo junto a comunidades vulneráveis. Ao atuar na confluência entre a vida e o meio ambiente, o Enfermeiro potencializa o saber de grupos marginalizados, convertendo desafios sociais em oportunidades de desenvolvimento coletivo(8,9). Assim, o cuidado afirma-se como fenômeno sistêmico e empreendedor, essencial à dignidade humana e à sustentabilidade da vida em sua dimensão individual e coletiva(10,11).

Contudo, persiste uma lacuna científica sobre a articulação do cuidado à práxis de comunidades periféricas em contextos de vulnerabilidade socioambiental, mais especificamente no context laboral de mulheres recicladoras. Estudos previamente realizados ratificam a urgência de transpor abstrações teóricas para investigar o potencial do cuidado na promoção da autonomia, dignidade e visibilidade a esses grupos tradicionalmente marginalizados(6,12). Nessa perspectiva, o Enfermeiro emerge como agente estratégico, capaz de integrar a preservação da vida ao desenvolvimento sustentável local(13).

Tem-se, com base no exposto, a seguinte questão pesquisa: quais as percepções de mulheres recicladoras sobre o cuidado de Enfermagem na promoção de práticas ecologicamente sustentáveis? Objetiva-se, para tanto, compreender as percepções de mulheres recicladoras sobre o cuidado de Enfermagem na promoção de práticas ecologicamente sustentáveis, na perspectiva do empreendedorismo social.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de uma pesquisa-ação(14) realizada em uma associação de reciclagem no Sul do Brasil, vinculada ao projeto “Empreendedorismo Social da Enfermagem”. A estrutura do relato seguiu os critérios do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)(15).

Cenário de Estudo

A população foi composta por 32 trabalhadores, dos quais 26 mulheres compuseram a amostra final (sem recusas). Os critérios de inclusão foram: ser mulher e ter participado das intervenções prévias sobre práticas sustentáveis (uso de EPIs, gestão de resíduos e autocuidado). Excluíram-se aquelas em afastamento laboral durante a coleta. As intervenções ocorreram semanalmente, a partir de um cronograma previamente acordado com os participantes, fundamentadas em metodologias ativas sustentadas no empreendedorismo social.

Coleta e Organização dos Dados

Os dados foram coletados, entre agosto/2024 e março/2025, por meio de entrevistas individuais, com duração média de 20 minutos, em dias, horários e local (espaço privado) previamente acordados com cada uma das participantes. As entrevistas foram conduzidas por uma pesquisadora doutora com expertise qualitativa e que, previamente, havia participado das intervenções sistemáticas. As questões que nortearam as entrevistas foram: Fale-me sobre o seu trabalho aqui na Associação de Reciclagem. O que você entende por cuidado ecologicamente sustentável? Qual a relação entre o cuidado ecológico e o seu bem-estar? Quais atividades você considera importantes e que podem promover o bem-estar e práticas ecologicamente sustentáveis? O encerramento da coleta foi determinado pela saturação teórica, verificada quando os relatos deixaram de fornecer novos elementos para a densidade dos códigos e o aprofundamento dos temas emergentes(16).

A reflexividade da pesquisadora foi exercida de modo contínuo, a partir de inserção prévia no campo, a qual possibilitou o vínculo de confiança e a participação na coleta de dados. Utilizou-se o diário de campo para separar as impressões da pesquisadora dos fatos narrados, de modo a garantir o rigor metodológico e a autocrítica. As interpretações foram apresentadas às participantes em encontro específico para validação e acréscimo de elementos, momento também audiogravado.

Análise dos Dados

Utilizou-se a Análise Temática Reflexive(17), a partir das seis fases: familiarização, geração de códigos, busca por temas, revisão, definição e produção do relatório. O software ATLAS.ti (v.8.0) auxiliou na organização dos dados. Duas pesquisadoras realizaram a codificação independente (39 códigos iniciais), refinados em consenso com um terceiro pesquisador, resultando em 37 códigos finais organizados em três temas e nove subtemas. A codificação independente por duas pesquisadoras e o refinamento por consenso visaram mitigar interpretações puramente subjetivas, assegurando que os núcleos de sentido estivessem ancorados na realidade empírica. O conjunto de dados de pesquisa ficará disponível com o autor correspondente e acessáveis mediante solicitação razoável.

Aspectos Éticos

Observou-se, ao longo do processo de pesquisa, as recomendações da Resolução n°. 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto de pesquisa foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética e Pesquisa, sob o parecer 5.615.579/2022. A participação foi voluntária, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e garantia de desistência a qualquer momento. Para manter o anonimato, as falas das participantes foram identificadas, ao longo do texto, com a letra ‘M’, de Mulher, seguida por um algarismo correspondente à ordem das falas: M1...M26. Os dados serão mantidos sob guarda da pesquisadora principal por cinco anos.

RESULTADOS

As 26 mulheres possuíam idade entre 19 e 64 anos, com média de quatro a oito filhos. A rotina laboral é de oito horas diárias, com rendimento mensal entre 600,00 e 1.100,00 reais.

A análise dos dados resultou em três temáticas centrais, quais sejam: Cuidado de Enfermagem versus Cuidado Ecológico; Ambiência agregadora e promotora de bem-estar; Estratégias potencializadoras de bem-estar e de cuidado ecológico. A estrutura detalhada de temas, subtemas e exemplos de unidades de registro está sintetizada na Tabela 1, seguida pela descrição analítica de cada eixo temático.

Tabela 1
Temas, subtemas e unidades de registro.

Cuidado De Enfermagem versus Cuidado Ecológico

As participantes identificam uma interconexão direta entre suas atividades de reciclagem e a preservação da saúde pública. Ao atribuírem a si o título de ‘Enfermeiras do Meio Ambiente’, as mulheres ressignificam o trabalho manual como uma ação estratégica de cuidado com a vida e com a sustentabilidade. Os relatos demonstram que essa percepção eleva a importância do trabalho de triagem de resíduos, transformando-o em uma prática de proteção ambiental que beneficia a coletividade.

O nosso cuidado aqui é muito importante. Cuidamos do meio ambiente, ajudamos para manter a cidade limpa e bem cuidada. Nós somos Enfermeiras do Meio Ambiente. (M1)

Nós cuidamos da vida do Planeta, de tudo, tudo o que existe. Todas as coisas fazem parte do Planeta e precisam ser cuidadas. E, quem precisa cuidar? Todos nós. Aqui nós sempre lembramos e falamos que somos Enfermeiras do Meio Ambiente. (M5)

A análise das falas revela a indissociabilidade entre as dimensões assistencial e ecológica do cuidado. Para as participantes, o exercício da Enfermagem e o trabalho de reciclagem convergem no objetivo comum de garantir condições ambientais favoráveis à vida. Essa integração valida a compreensão de que a saúde humana depende da integridade dos ecossistemas, o que motiva as trabalhadoras a reconhecerem seu papel na manutenção do equilíbrio planetário e na prevenção de agravos à saúde.

Não dá para separar uma coisa da outra. Tudo é cuidado ou não cuidamos. Um Enfermeiro cuida do paciente, mas o paciente depende do ar que respira, ele depende do clima, da água, da limpeza, do meio ambiente. (M10)

Nós precisamos do cuidado e assim todas as coisas precisam de cuidado. E, se nós não cuidamos, o que acontece? Mais doenças! O que nós fazemos aqui é cuidar da saúde do meio ambiente. (M14)

As narrativas reiteram que o processo saúde-doença é influenciado pelas condições climáticas, sanitárias e pela preservação dos recursos naturais. Ao pontuarem que a assistência à saúde depende da qualidade do ar e da água, as mulheres demonstram consciência sobre os determinantes socioambientais. Essa percepção indica que o cuidado deve abranger o ambiente como elemento central para a manutenção da vida, ampliando a visão sobre as práticas terapêuticas tradicionais.

A saúde está relacionada com o ar que respiramos, a água que tomamos. Não dá para separar o nosso trabalho com o cuidado da saúde. (M19)

Os dados revelam que as recicladoras percebem o cuidado de Enfermagem como prática social empreendedora. A identificação das trabalhadoras com a figura da ‘Enfermeira do Meio Ambiente’ explicita que a promoção de práticas sustentáveis é compreendida como uma extensão do cuidado à saúde, onde a triagem de resíduos se torna a ferramenta operacional para garantir a dignidade humana e a vitalidade do ecossistema.

Ambiência Agregadora e Promotora de Bem-Estar

Para as participantes, o bem-estar configura-se como um fenômeno vinculado à qualidade da ambiência e ao estabelecimento de interações interpessoais de apoio mútuo. Sob essa ótica, o cenário laboral na associação transcende a função produtiva para tornar-se um espaço de suporte emocional e segurança, atuando como um fator de proteção que auxilia no enfrentamento de desafios cotidianos. A despeito das dificuldades estruturais, as trabalhadoras valorizam a convivência entre as colegas como um elemento central para a manutenção da saúde mental e da satisfação no trabalho.

Eu me sinto bem trabalhando aqui na Associação. Claro é um serviço cansativo e pouco valorizado. Mas, eu me sinto muito bem aqui, porque em casa não tenho espaço e ambiente. Quando a gente vem para o trabalho, a gente tem as colegas para conversar, como eu vou dizer. (M3)

Os dados revelam que o cenário laboral se caracteriza como um território de trocas subjetivas, onde o diálogo e o acolhimento entre as mulheres minimizam o desgaste da rotina exaustiva. Essa percepção amplia o conceito de saúde para além da ausência de doenças, integrando-o à qualidade das relações e à organização do entorno. As participantes associam a limpeza do local de trabalho e a harmonia do grupo como componentes vitais que impactam diretamente no ânimo e na capacidade produtiva.

No trabalho a gente se sente sempre bem e apoiada. A gente tá sempre conversando e dando risada. Então, este é o sentido do cuidado, não tem palavras. (M5)

A saúde está relacionada à limpeza, ao entorno e às relações interpessoais. Trabalhar em um lugar limpo e com as colegas unidas faz toda a diferença para a gente aguentar o dia. (M12)

As narrativas indicam que a preservação do ambiente de trabalho não é vista apenas como uma norma técnica, mas como uma condição para a dignidade das trabalhadoras. Ao tratarem o meio ambiente como um elemento que influencia o estado emocional e físico, as mulheres reforçam que a manutenção de um espaço organizado e acolhedor é uma estratégia de cuidado coletivo. Esse zelo com a ambiência reflete-se na cooperação diária, onde o cuidado com o outro e com o espaço se fundem para garantir a continuidade das atividades.

Não podemos tratar o ambiente como objeto... A gente cuida do galpão porque o galpão cuida da gente. Se está tudo sujo e bagunçado, a gente adoece junto. (M18)

As falas demonstram que práticas de cuidado, como o descanso e a escuta ativa, são fundamentais para sustentar a resiliência no ambiente da reciclagem. Para as participantes, o bem-estar coletivo é fruto de uma cultura de cuidado que harmoniza as necessidades individuais com a organização do espaço compartilhado. Ao reconhecerem a associação como um espaço de refúgio e suporte, as mulheres validam a premissa do empreendedorismo social de que a transformação da realidade ambiental depende de uma base relacional sólida. Assim, a promoção de práticas sustentáveis é potencializada quando o Enfermeiro atua como facilitador de uma ambiência que integra saúde física, emocional e social.

Estratégias Potencializadoras de Bem-Estar e de Cuidado Ecológico

As participantes identificam a saúde mental, especialmente o descanso, como estratégias fundamentais para a manutenção da produtividade e da qualidade de vida. Os relatos demonstram que, diante de uma rotina física exaustiva, a capacidade de relaxar a mente e o corpo é percebida como uma condição para o bom desempenho das atividades laborais. Para as mulheres, o cuidado de Enfermagem manifesta-se no estímulo a pausas restauradoras e em orientações que auxiliam no equilíbrio entre as demandas do trabalho e as necessidades pessoais, conforme segue:

O principal é a saúde mental e emocional, não tanto o físico, que a gente vai levando. Cansar todo mundo cansa, mas eu acho que o principal é a cabeça, a mente. Eu me sentir bem comigo mesma e com os outros. Isso tem relação com o ambiente, com o clima, com o ar que eu respiro. (M13)

Eu acho que teria que ter atividades voltadas para a mente, alguma coisa que ajudasse a relaxar a mente e o corpo. Às vezes é muita coisa na cabeça, né. O ambiente fica pesado, cansativo, acontecem erros. (M16)

Os dados revelam que a cooperação e o trabalho em equipe atuam como mecanismos de sustentabilidade nas relações de trabalho. A união entre as recicladoras é apontada como uma estratégia que facilita o fluxo das atividades e reduz o impacto da sobrecarga física. Essa percepção evidencia que o cuidado ecológico, para ser efetivo, depende de uma estrutura de suporte coletivo onde a ajuda mútua entre as colegas otimiza a triagem dos materiais e promove um ambiente mais harmonioso, conforme expresso, a seguir:

O trabalho em equipe melhora muito o nosso trabalho. Quando uma ajuda a outra, o fardo fica mais leve e a gente consegue separar tudo direitinho. (M20)

A gente se ajuda muito aqui. Se uma está cansada, a outra dá uma força. Isso faz o dia passar melhor e a gente cuida melhor das coisas. (M24)

As falas indicam que a adoção de práticas ecologicamente sustentáveis, como o uso correto de equipamentos e a separação rigorosa dos resíduos, está condicionada ao bem-estar emocional das trabalhadoras. Ao associarem o estado de espírito à qualidade da execução das tarefas, as mulheres reforçam que a eficiência na reciclagem não é apenas técnica, mas depende de condições motivacionais e relacionais. Esse entendimento sugere que o Enfermeiro, ao promover a saúde mental, fortalece indiretamente a preservação ambiente.

Para cuidar do meio ambiente, a gente tem que estar bem com a gente mesma. Se eu estou feliz e descansada, eu cuido muito melhor de cada material que passa por mim. (M21)

Os resultados demonstram, em suma, que a promoção de práticas ecologicamente sustentáveis ocorre por meio de estratégias de cuidado que valorizam a dimensão humana e coletiva do trabalho. Sob a ótica do empreendedorismo social, os resultados evidenciam que o Enfermeiro potencializa a sustentabilidade planetária ao intervir na saúde mental e na organização do trabalho das recicladoras. Assim, o fortalecimento da autonomia e do bem-estar emocional dessas mulheres consolida-se como a base operacional para a manutenção da vida e do equilíbrio ambiental.

DISCUSSÃO

Os resultados revelam que, na percepção das participantes, o cuidado de Enfermagem e o cuidado ecológico são indissociáveis, compondo uma rede de interdependência vital. Ao utilizarem a metáfora simbólica de ‘Enfermeiras do Meio Ambiente’, as recicladoras validam a potência do cuidado para além do fenômeno doença e correlacionam a triagem de resíduos à promoção da saúde coletiva. Esse achado converge com a literatura contemporânea que posiciona a Enfermagem como categoria central na defesa da saúde planetária, resgatando o legado histórico da profissão sobre a salubridade ambiental como princípio da cura(18,20).

A ambiência da associação de reciclagem foi identificada como um determinante crítico de saúde, ao figurar como um território de suporte emocional que transcende a função produtiva. O bem-estar, nesse contexto, é relatado pelas mulheres como um fenômeno relacional, onde a limpeza do entorno e a harmonia dos vínculos interpessoais atuam como fatores de proteção contra o desgaste da rotina exaustiva. Estudos em saúde ocupacional reforçam que o equilíbrio em ambientes laborais é um sistema dinâmico, ao enfatizarem que a qualidade das relações e a organização do espaço são fundamentais para a dignidade e a saúde mental do trabalhador(21,22).

A articulação entre a prática das recicladoras e o cuidado de Enfermagem demonstra que o impacto da gestão de resíduos na mitigação de danos ambientais é um compromisso ético compartilhado. A percepção das mulheres de que “o paciente depende do ar e do meio ambiente” ratifica a urgência de superar o modelo biomédico tradicional, integrando os determinantes socioambientais ao cotidiano assistencial. Investigações reforçam esse pensar ao demonstrarem que essa expansão do escopo profissional institucionaliza a sustentabilidade como eixo estruturante da promoção da saúde global(21,24).

Sob a perspectiva do empreendedorismo social, o protagonismo das recicladoras revela que o cuidado pode ser uma força transformadora e geradora de autonomia em comunidades vulneráveis. Ao converterem desafios sociais em oportunidades de desenvolvimento coletivo, as participantes demonstram que o cuidado empreendedor de Enfermagem não é apenas uma ferramenta acessória, mas uma dimensão que confere significado tangível ao trabalho comunitário. Essa lógica permite gerar soluções criativas que harmonizam a eficácia do cuidado com a responsabilidade ambiental, elevando a visibilidade de grupos tradicionalmente marginalizados(25,29).

A convergência entre o saber das recicladoras e o cuidado de enfermagem demonstra que o ato de cuidar está diretamente ligado à preservação do ambiente e à saúde humana. Os achados indicam que o cuidado, quando aplicado ao contexto da reciclagem, promove a proteção da saúde e a melhoria das condições de vida. Estudo corrobora com esse pensar ao reforçar o papel do Enfermeiro na gestão de riscos e na valorização do trabalho sustentável, de modo a salvaguardar a perenidade da vida em sua multidimensionalidade(30).

Sob a perspectiva do empreendedorismo social, o protagonismo das recicladoras revela que o cuidado de Enfermagem atua como ferramenta propulsora de autonomia ao integrar orientações de saúde à rotina produtiva(11,12). A conversão de desafios sociais em oportunidades de desenvolvimento é evidenciada pela capacidade das participantes em autogerir riscos e valorizar o trabalho coletivo, conferindo um sentido prático e tangível à atuação da Enfermagem na comunidade.

As limitações deste estudo relacionam-se à especificidade do recorte amostral, composto por mulheres pertencentes a uma única associação de recicladores, o que circunscreve os achados a esse contexto socio-laboral particular. Devido à natureza qualitativa, os resultados não buscam a generalização, mas a profundidade analítica de experiências e motivações que são influenciadas por dinâmicas de gênero e condições de trabalho singulares.

As contribuições deste estudo para o avanço da ciência de Enfermagem estão associadas à premência de integrar a dimensão ecológica como princípio basilar da saúde pública. Os resultados oferecem subsídios para a indução e o fortalecimento de políticas públicas que estimulam a corresponsabilidade no manejo ético dos resíduos sólidos e na valorização do Enfermeiro como agente estratégico na intersecção entre vida humana e equilíbrio planetário.

CONCLUSÃO

As percepções das recicladoras revelam que o cuidado de Enfermagem, ao fortalecer a autonomia das mulheres recicladoras, promove a segurança ocupacional, a organização do ambiente de trabalho e o suporte emocional. A presença do Enfermeiro no cotidiano da associação atua como uma intervenção de vigilância em saúde, convertendo a triagem de materiais em uma prática consciente de preservação ambiental. O estudo evidencia que a integração do saber das mulheres às orientações técnicas de saúde potencializa a adoção de práticas sustentáveis e a valorização de sua identidade profissional.

Conclui-se que o cuidado de Enfermagem, sob a ótica do empreendedorismo social, transcende o modelo clínico ao intervir diretamente nos determinantes socioambientais e na dignidade laboral. Sugere-se, enfim, que pesquisas futuras sobre recicladores contemplem outras associações e, também, trabalhadores do sexo masculino, a fim de assegurar maior representatividade e diversidade, a partir das particularidades de cada grupo, como organização, condições de trabalho, dinâmicas internas e outros.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

  • Apoio financeiro
    Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Chamada Nº 4/2021 – Bolsas de Produtividade em Pesquisa – PQ. Processo: 308760/2021-2.

Referências bibliográficas

  • 1. Sorooshian S. The sustainable development goals of the United Nations: a comparative midterm research review. J Clean Prod. 2024;453:142272. doi: https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2024.142272.
    » https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2024.142272
  • 2. Moghbeli G, Soheili A, Ghafourifard M, Shahbazi S, Karkan HA. Ecological care in nursing practice: a Walker and Avant concept analysis. BMC Nurs. 2024;23(1):614. doi: https://doi.org/10.1186/s12912-024-02279-z. PubMed PMID: 39218885.
    » https://doi.org/10.1186/s12912-024-02279-z
  • 3. Shaban MM, Alanazi MA, Mohammed HH, Mohamed Amer FG, Elsayed HH, Zaky ME, et al. Advancing sustainable healthcare: a concept analysis of eco-conscious nursing practices. BMC Nurs. 2024;23(1):775. doi: https://doi.org/10.1186/s12912-024-02433-7. PubMed PMID: 39434136.
    » https://doi.org/10.1186/s12912-024-02433-7
  • 4. West S, Haider LJ, Hertz T, Garcia MM, Moore ML. Relational approaches to sustainability transformations: walking together in a world of many worlds. Ecosyst People. 2024;20(1):2370539. doi: https://doi.org/10.1080/26395916.2024.2370539.
    » https://doi.org/10.1080/26395916.2024.2370539
  • 5. Silva JFS. Planetary health: challenges and critical nursing action. Rev Bras Enferm. 2025;78(2):e780202. doi: https://doi.org/10.1590/0034-7167.2025780202. PubMed PMID: 40608654.
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167.2025780202
  • 6. Meherali S, Nisa S, Aynalem YA, Lassi ZS. Nursing and planetary health: a discussion article. Womens Health. 2025;21:17455057241311955. doi: https://doi.org/10.1177/17455057241311955. PubMed PMID: 40072007.
    » https://doi.org/10.1177/17455057241311955
  • 7. Hart J, Lignou S, Sheehan M. Environmental sustainability and the limits of healthcare resource allocation. Bioethics. 2025;39(6):538–45. doi: https://doi.org/10.1111/bioe.13395. PubMed PMID: 39866060.
    » https://doi.org/10.1111/bioe.13395
  • 8. Backes DS, Lomba ML, Leão SD, Sartori ARS, Rocha LDM, Büscher A. Nursing care strategies such as well-being, from the social entrepreneurship perspective. Rev Gaúcha Enferm. 2025;46:e20240356. doi: https://doi.org/10.1590/1983-1447.2025.20240356.en. PubMed PMID: 40561268.
    » https://doi.org/10.1590/1983-1447.2025.20240356.en
  • 9. Badanta B, Porcar Sierra A, Fernández ST, Rodríguez Muñoz FJ, Pérez-Jiménez JM, Gonzalez-Cano-Caballero M, et al. Advancing Environmental Sustainability in Healthcare: Review on Perspectives from Health Institutions. Environments (Basel). 2025;12(1):9. doi: https://doi.org/10.3390/environments12010009.
    » https://doi.org/10.3390/environments12010009
  • 10. Meintjies CS, Maritz JE. Nurse-led social entrepreneurship as a career. Health SA. 2025;30(0):2700. doi: https://doi.org/10.4102/hsag.v30i0.2700. PubMed PMID: 40357244.
    » https://doi.org/10.4102/hsag.v30i0.2700
  • 11. Backes DS, Zinhani MC, Erdmann AL, Backes MTS, Büscher A, Marchiori MRTC. Nursing care as a systemic and entrepreneurial phenomenon. Rev Esc Enferm USP. 2022;56:e20220249. doi: https://doi.org/10.1590/1980-220x-reeusp-2022-0249en. PubMed PMID: 36150028.
    » https://doi.org/10.1590/1980-220x-reeusp-2022-0249en
  • 12. Backes DS, Adames NH, Weissheimer AS, Büscher A, Backes MTS, Erdmann AL. O cuidado empreendedor de enfermagem induzindo práticas saudáveis em comunidades vulneráveis. Rev Gaúcha Enferm. 2021;42(esp):e20200010. doi: https://doi.org/10.1590/1983-1447.2021.20200010. PubMed PMID: 33566892.
    » https://doi.org/10.1590/1983-1447.2021.20200010
  • 13. Maciel EL, Almeida EC. The strategic role of Nursing in the Healthy Brazil Program to address socially determined diseases. Rev Lat Am Enfermagem. 2025;33:e4692. doi: https://doi.org/10.1590/1518-8345.0000.4692. PubMed PMID: 40736108.
    » https://doi.org/10.1590/1518-8345.0000.4692
  • 14. Erro-Garcés A, Alfaro-Tanco JÁ. Action research as a meta-methodology in the management field. Int J Qual Methods. 2020;19(8):1–9. doi: https://doi.org/10.1177/1609406920917489.
    » https://doi.org/10.1177/1609406920917489
  • 15. Souza VR, Marziale MH, Silva GT, Nascimento PL. Translation and validation into Brazilian Portuguese and assessment of the COREQ checklist. Acta Paul Enferm. 2021;34:eAPE02631. doi: https://doi.org/10.37689/acta-ape/2021AO02631.
    » https://doi.org/10.37689/acta-ape/2021AO02631
  • 16. Saunders B, Sim J, Kingstone T, Baker S, Waterfield J, Bartlam B, et al. Saturation in qualitative research: exploring its conceptualization and operationalization. Qual Quant. 2018;52(4):1893–907. doi: https://doi.org/10.1007/s11135-017-0574-8. PubMed PMID: 29937585.
    » https://doi.org/10.1007/s11135-017-0574-8
  • 17. Souza LK. Research with qualitative data analysis: getting to know Thematic Analysis. Arq Bras Psicol. 2019;71(2):51–67.
  • 18. Luque-Alcaraz OM, Aparicio-Martínez P, Gomera A, Vaquero-Abellán M. The environmental awareness of nurses as environmentally sustainable health care leaders: a mixed method analysis. BMC Nurs. 2024;23(1):229. doi: https://doi.org/10.1186/s12912-024-01895-z. PubMed PMID: 38570845.
    » https://doi.org/10.1186/s12912-024-01895-z
  • 19. Karimi H, Masoudi Alavi N. Florence Nightingale: the mother of nursing. Nurs Midwifery Stud. 2015;4(2):e29475. doi: https://doi.org/10.17795/nmsjournal29475. PubMed PMID: 26339672.
    » https://doi.org/10.17795/nmsjournal29475
  • 20. Martínez-Peláez R, Ochoa-Brust A, Rivera S, Félix VG, Ostos R, Brito H. Role of digital transformation for achieving sustainability: mediated role of stakeholders, key capabilities, and technology. Sustainability. 2023;15(14):11221. doi: https://doi.org/10.3390/su151411221.
    » https://doi.org/10.3390/su151411221
  • 21. Yang T, Deng W, Liu R, Deng J. Presenteeism and sustainable occupational health in the workplace. Sustainability. 2025;17(4):1645. doi: https://doi.org/10.3390/su17041645.
    » https://doi.org/10.3390/su17041645
  • 22. Dumitriu S, Bocean CG, Vărzaru AA, Al-Floarei AT, Sperdea NM, Popescu FL, et al. The role of the workplace environment in shaping employees’ well-being. Sustainability. 2025;17(6):2613. doi: https://doi.org/10.3390/su17062613.
    » https://doi.org/10.3390/su17062613
  • 23. Fawcett J. More thoughts about the evolution of the metaparadigm of nursing: addition of culture as another Metaparadigm Concept and definitions of all the concepts. Nurs Sci Q. 2024;37(2):183–4. doi: https://doi.org/10.1177/08943184231224409. PubMed PMID: 38491881.
    » https://doi.org/10.1177/08943184231224409
  • 24. Alruwaili RF, Alsadaan N, Alruwaili AN, Alrumayh AG. Unveiling the symbiosis of Environmental Sustainability and Infection Control in Health Care settings: a systematic review. Sustainability. 2023;15(22):15728. doi: https://doi.org/10.3390/su152215728.
    » https://doi.org/10.3390/su152215728
  • 25. Badawy W, Shaban M, Elsayed HH, Hashim A. Eco-conscious nursing: qualitative analysis of nurses’ engagement with environmental sustainability in healthcare. Teach Learn Nurs. 2025;20(2):137–47. doi: https://doi.org/10.1016/j.teln.2024.11.019.
    » https://doi.org/10.1016/j.teln.2024.11.019
  • 26. Backes DS, Halmenschlager RR, Cassola TP, Erdmann AL, Hämel K, Costenaro RGS. Inseparability between public health, planetary health and the nursing process: premise for sustainable development. Rev Esc Enferm USP. 2024;58:e20240026. doi: https://doi.org/10.1590/1980-220x-reeusp-2024-0026pt. PubMed PMID: 38949513.
    » https://doi.org/10.1590/1980-220x-reeusp-2024-0026pt
  • 27. Daskalopoulou I, Karakitsiou A, Thomakis Z. Social entrepreneurship and social capital: a review of impact research. Sustainability. 2023;15(6):4787. doi: https://doi.org/10.3390/su15064787.
    » https://doi.org/10.3390/su15064787
  • 28. Dopelt K, Mordehay N, Goren S, Cohen A, Barach P. I believe more in the ability of the small person to make big changes: innovation and social entrepreneurship to promote public health in israel. Eur J Investig Health Psychol Educ. 2023;13(9):1787–800. doi: https://doi.org/10.3390/ejihpe13090130. PubMed PMID: 37754469.
    » https://doi.org/10.3390/ejihpe13090130
  • 29. Backes DS, Colomé JS, Mello GB, Gomes RCC, Lomba MLLF, Ferreira CLL. Social entrepreneurship in the professional training in Nursing. Rev Bras Enferm. 2022;75(3):e20220391. doi: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0391. PubMed PMID: 36169505.
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0391
  • 30. Ambushe SA, Awoke N, Demissie BW, Tekalign T. Holistic nursing care practice and associated factors among nurses in public hospitals of Wolaita zone, South Ethiopia. BMC Nurs. 2023;22(1):390. doi: https://doi.org/10.1186/s12912-023-01517-0. PubMed PMID: 37853394.
    » https://doi.org/10.1186/s12912-023-01517-0

Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Thereza Maria Magalhães Moreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Jun 2025
  • Aceito
    14 Mar 2026
location_on
Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 , 05403-000 São Paulo - SP/ Brasil, Tel./Fax: (55 11) 3061-7553, - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: reeusp@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro