Open-access Entre o risco percebido e a ação preventiva: análise do comportamento de adolescentes diante da Covid-19*

RESUMO

Objetivo:  Compreender as respostas de adolescentes à pandemia de Covid-19, considerando suas crenças e atitudes diante da ameaça de contágio e transmissibilidade.

Método:  Estudo qualitativo, fundamentado no referencial teórico do Modelo de Crenças em Saúde, realizado em município do Nordeste brasileiro. Foram realizados seis grupos focais, com a participação de 45 adolescentes. As falas foram transcritas, organizadas em corpus textual e submetidas à análise de conteúdo no software IRAMUTEQ.

Resultados:  Emergiram três categorias temáticas: 1. Percepção de risco e suscetibilidade à Covid-19 – ameaça, morte; 2. Gravidade e severidade da Covid-19 – isolamento, medo; 3. Prevenção e medidas protetoras à contaminação pelo coronavírus – distanciamento social, higiene.

Conclusão:  O estudo demonstrou que a percepção de risco e gravidade da crise sanitária contribuiu para que os adolescentes adotassem comportamentos de autoproteção para si e sua família. De maneira que a saúde mental destes foi afetada pelos sentimentos de medo, ansiedade, refletidos nas interações sociais no período de isolamento e pós-pandêmico. Sugere-se que haja maior direcionamento de ações em saúde para este público, bem como estudos que identifiquem outros desfechos do período experienciado.

DESCRITORES
COVID-19; Coronavirus; Comportamento do Adolescente; Modelo de Crenças de Saúde; Isolamento Social.

ABSTRACT

Objective:  To understand adolescents' responses to the Covid-19 pandemic, considering their beliefs and attitudes towards the threat of contagion and transmissibility.

Method:  Qualitative study, based on the theoretical framework of the Health Belief Model, conducted in a municipality in northeastern Brazil. Six focus groups were held, with the participation of 45 adolescents. The statements were transcribed, organized into a textual corpus, and submitted to content analysis using IRAMUTEQ software.

Results:  Three thematic categories emerged: 1. Perception of risk and susceptibility to Covid-19 – threat, death; 2. Severity and gravity of COVID-19 – isolation, fear; 3. Prevention and protective measures against coronavirus contamination – social distancing, hygiene.

Conclusion:  The study showed that the perception of risk and severity of the health crisis contributed to adolescents adopting self-protective behaviors for themselves and their families. Their mental health was affected by feelings of fear and anxiety, reflected in their social interactions during the isolation and post-pandemic periods. It is suggested that there be a greater focus on health actions for this population, as well as studies that identify other outcomes of the period experienced.

DESCRIPTORS
COVID-19; Coronavirus; Adolescent Behavior; Health Belief Model; Social Isolation.

RESUMEN

Objetivo:  Comprender las respuestas de los adolescentes a la pandemia de COVID-19, teniendo en cuenta sus creencias y actitudes ante la amenaza de contagio y transmisibilidad.

Método:  Estudio cualitativo, basado en el marco teórico del Modelo de Creencias en Salud, realizado en un municipio del noreste de Brasil. Se llevaron a cabo seis grupos focales, con la participación de 45 adolescentes. Las declaraciones fueron transcritas, organizadas en un corpus textual y sometidas a análisis de contenido en el software IRAMUTEQ.

Resultados:  Surgieron tres categorías temáticas: 1. Percepción del riesgo y la susceptibilidad a Covid-19: amenaza, muerte; 2. Gravedad y severidad la COVID-19: aislamiento, miedo; 3. Prevención y medidas de protección contra la contaminación por coronavirus: distanciamiento social, higiene.

Conclusión:  El estudio demostró que la percepción del riesgo y la gravedad de la crisis sanitaria contribuyó a que los adolescentes adoptaran comportamientos de autoprotección para ellos y sus familias. De manera que su salud mental se vio afectada por sentimientos de miedo y ansiedad, reflejados en las interacciones sociales durante el periodo de aislamiento y pospandémico. Se sugiere que se orienten más las acciones en salud hacia este público, así como estudios que identifiquen otros resultados del período experimentado.

DESCRIPTORES
COVID-19; Coronavirus; Conducta del Adolescente; Modelo de Creencias sobre la Salud; Aislamiento Social.

INTRODUÇÃO

O período pandêmico da Covid-19 consistiu em um momento crucial para compreender como as pessoas respondem às situações de crise sanitária e conhecer os fatores que desencadeiam a prontidão para agir individualmente e coletivamente no controle e prevenção de agravos.

A população adolescente, mesmo não sendo o grupo mais vulnerável durante a pandemia, sofreu perdas familiares e foi submetida ao isolamento social que a impediu de conviver com seus pares nesse estágio de transição para a vida adulta. Estudos têm demonstrado os efeitos psicossociais que afetaram o crescimento e o desenvolvimento de adolescentes, os quais ainda permanecem no período pós-pandêmico(1,2).

Paralelamente, ocorreram uma série de transformações nos recursos tecnológicos para aprendizagem que impactaram significativamente a vida cotidiana dos adolescentes, especialmente na manutenção das atividades escolares e na comunicação durante o período de isolamento social. Embora essas mudanças tenham possibilitado a continuidade do ensino por meio de plataformas digitais, a suspensão das aulas presenciais e a transição para o ensino remoto foram associadas a um aumento expressivo dos sintomas de depressão e ansiedade nesta população(3,4).

Além das dificuldades do seguimento curricular de ensino, a ausência da rotina escolar presencial e a limitação das interações sociais amplificaram os sentimentos de solidão e isolamento, impactando negativamente na saúde mental dos adolescentes(5). A restrição de atividades extracurriculares e a falta de espaços de convivência agravaram a vulnerabilidade emocional dos jovens, refletindo-se em uma redução da qualidade no processo da aprendizagem, produtividade e no aumento da prevalência de transtornos mentais(6).

Apesar desses desafios, adolescentes demonstraram resiliência ao buscar formas alternativas para manter a socialização e o aprendizado por meio de ferramentas digitais, conectando- se com amigos e familiares e acessando informações confiáveis sobre a pandemia(7,8).

Estudos sobre o comportamento de saúde dos adolescentes, de uma maneira geral, têm abordado distintas situações de riscos como gravidez não planejada, infecções sexualmente transmissíveis e uso abusivo de álcool e drogas. As evidências demonstraram que as relações interpessoais exerceram influências nas respostas dos adolescentes quanto a adoção de medidas preventivas, incluindo a relação com seus pares(9,10,11).

Ainda sobre esse aspecto, a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar tem reiterado as disparidades regionais diante dos agravos que atingem os adolescentes, o que enseja o fortalecimento de programas educativos mais acessíveis a esse público. A região Nordeste concentrou o menor percentual de mães que possuíam ensino superior, menores proporções de adolescentes fisicamente ativos, maior percentual de gravidez na adolescência, elevada proporção de padrão de alimentação menos saudável, quando comparada as demais regiões do país(11).

Um dos aspectos importantes destacados neste estudo foi o fato de que a crise sanitária advinda da pandemia da Covid-19 atingiu todo o ciclo vital familiar e, ao mesmo tempo, suas condições de existência, expondo situações de enfrentamento, como perdas, lutos, restrições de ordem econômica e social. Os efeitos desta fase puderam trazer à luz elementos que conversam com outros segmentos do desenvolvimento dos adolescentes, como a convivência (ou ausência) no âmbito escolar e as interações com seus pares que conformam a sua personalidade e identidade na realidade social. Reforçando a ideia de que o processo educativo para o adolescente deve dialogar com fatores do seu entorno, vínculos afetivos, inovando soluções para o bem-estar coletivo.

Diante disso, o enfermeiro, inserido nos serviços e sistemas de saúde, em especial na Atenção Primária à Saúde (APS), atua como elo importante na cadeia de promoção e proteção à saúde dos adolescentes, em especial na articulação de ações envolvendo outros sistemas, como escolas, desempenhando ações que visem desde a assistência direta até a produção de conhecimentos que baseiem a prática clínica.

Este estudo, portanto, teve como objetivo compreender as respostas dos adolescentes à pandemia de Covid-19, considerando suas crenças e atitudes diante da ameaça de contágio e transmissibilidade. A pesquisa pode contribuir para identificar os fatores que influenciam os comportamentos de saúde dos adolescentes diante de crises emergenciais, fundamentando- se no modelo de crenças em saúde como referencial teórico.

MÉTODO

Tipo ou Desenho do Estudo

Estudo qualitativo, desenvolvido com base nos critérios do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)(12), fundamentado no referencial teórico do Modelo de Crenças em Saúde (MCS), que permite compreender como a percepção do risco de uma doença e a crença na eficácia das medidas preventivas influenciam diretamente os comportamentos individuais(13).

O MCS foi utilizado para entender os motivos pelos quais adolescentes aderiram a medidas preventivas durante a pandemia, como o uso de máscaras e o distanciamento social, enquanto outros não. Ademais, fatores como autoeficácia e motivação interna são relevantes para a adoção de práticas de prevenção e enfrentamento do estresse associado ao isolamento social imposto pela crise sanitária, os quais podem ser mais bem compreendidos a partir do referencial.

Local

O estudo foi realizado em um município situado no interior de um estado do Nordeste brasileiro, em região de semiárido, com população estimada de 78.002 habitantes, índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,698, e com severas desigualdades sociais(14), no período de novembro de 2021 a novembro de 2023.

População e Critérios de Seleção

A população do estudo foi composta por adolescentes de ambos os sexos, matriculados nas turmas de 8º e 9º do ensino fundamental e ensino médio de escolas da rede pública de ensino, localizadas na zona urbana, na faixa etária entre 13 e 18 anos.

Para seleção dos participantes foram considerados os seguintes critérios de inclusão: estar matriculado e comparecer à escola nos dias da realização da coleta de dados; e, exclusão: apresentar limitação cognitiva que impeça a participação do estudo, deficiência visual e/ou auditiva que exigiam a necessidade de apoio pedagógico especial para realização das tarefas escolares.

Definição da Amostra

Os adolescentes foram selecionados por meio de amostragem intencional e o quantitativo de participantes foi definido quando alcançada a redundância informacional, ou seja, por saturação teórica(15,16).

Coleta de Dados

Para a coleta de dados, adotou-se a técnica de Grupo Focal (GF)(17). Os GFs foram mediados a partir de um roteiro de perguntas abertas que suscitaram a discussão, com foco para as estratégias de enfrentamento diante as adversidades ocasionadas pela pandemia da Covid-19, organizado em quatro momentos: (a) apresentação dos participantes; (b) dinâmica quebra-gelo; (c) perguntas disparadoras com foco na compreensão das percepções e experiências dos adolescentes na pandemia do Covid-19 (d) finalização.

As perguntas disparadoras foram as seguintes: A Covid-19 é uma ameaça ao adolescente? Por que o Covid-19 é uma ameaça para a saúde dos adolescentes? Na opinião de vocês em que locais a Covid-19 é maior ameaça e por quê? Pensando em todo o período da pandemia, quais os principais medos que vocês tiveram em relação a doença da Covid-19? Por que acreditavam que poderiam ter sintomas graves? Quais estratégias vocês adotaram para se prevenir do coronavírus? E, na opinião de vocês, como o adolescente pode auxiliar no combate ao coronavírus? Qual ou quais eram as principais dificuldades no enfrentamento do coronavírus? Por quê? Como foi para vocês a época da Covid-19 com relação a escola, amigos, lazer etc.? Como se sentiram? Quais as consequências desse período para vocês? O que o que te motiva a tomar medidas preventivas contra o coronavírus? Quando precisaram, tiveram acesso à atendimento em saúde e/ou medicamentos, como foi essa experiência?

Os GFs foram compostos por grupos pequenos/homogêneos, entre 6 e 10 participantes, com duração aproximada de uma hora, gravados com equipamento específico.

Análise e Tratamento dos Dados

Os dados gerados foram organizados trilhando as seguintes etapas: transcrição na íntegra, elaboração do inventário, que consiste em isolar os elementos presentes nas falas e expressões dos adolescentes, e geração do corpus textual.

Nessa fase de geração do corpus textual, utilizou-se análise de Conteúdo Reflexiva, um método trans teórico e flexível orientado para a descrição e redução de dados qualitativos manifestos. Trata-se de uma técnica usada para identificar padrões nos significados superficiais explícitos dos dados qualitativos por meio da aplicação de uma estrutura hierárquica de estratos analíticos quantificáveis chamados códigos, subcategorias e categorias. Cada estrato existe em um continuum de abstração, com os códigos sendo os mais próximos dos dados originais e as categorias sendo as mais abstratas. Durante cada etapa do processo, a reflexividade é considerada um recurso analítico valioso que é crucial para garantir uma descrição adequada dos dados. A técnica destina-se a ser usada como um método de análise de dados, e não uma metodologia; portanto, pode ser integrada com várias abordagens metodológicas e epistemológicas(18).

Após essa organização, o corpus textual foi submetido à análise no software IRAMUTEQ (Interface de R pour lês Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires). Para a análise do corpus textual, foi escolhida a classificação hierárquica descendente (CHD).

Aspectos Éticos

Este estudo respeitou as diretrizes éticas estabelecidas pela Resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde(19), e foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Universidade Federal do Piauí (CEP/UFPI), com o parecer nº. 5.218.237.

O anonimato dos participantes foi preservado, e os trechos das falas foram identificados pelo código A. (de adolescente) seguido de uma numeração identitária do grupo (Ex.: A1, A2, A3, e assim por diante).

RESULTADOS

Foram realizados seis GFs (um GF/escola), com duração média de 51 minutos, com a participação de 45 adoles­centes, com idade média de 15,88 (±1,43) anos, a maioria do sexo feminino (51,2%), cor autodeclarada parda (48%), religião católica (57,1%), solteira, sem parceiro fixo (53,7%), morando com os pais (58,6%).

A análise do corpus textual gerou 47 unidades de texto, 87 segmentos de texto, 556 formas distintas e 2.655 ocorrências de palavras. De acordo com a análise hierárquica descendente, o material foi organizado em seis classes semânticas, como observado na Figura 1.

Figura 1
Dendograma das classes obtidas a partir do corpus textual.

As classes foram, então, divididas em três ramificações (1, 2, 3) do corpus textual, e identificadas as proximidades semânticas entre si (Figura 1). Estas foram reagrupadas, gerando três categorias: percepção de risco e susceptibilidade (classes 1 e 3); gravidade e severidade da Covid-19 (classes 2 e 4), percepção de prevenção e uso de medidas preventivas à infecção pelo coronavírus (classes 5 e 6) (Quadro 1).

Quadro 1
Demonstrativo das classes e categorias – Picos, PI Brasil, 2023.

Categoria 1 – Percepção de Risco e Susceptibilidade à Covid-19

As classes 01 e 03 compreenderam 38,2% dos segmentos, o que representa mais de um terço das falas dos adolescentes, que manifestaram ansiedade, medos e ideia de percepção de risco, vulnerabilidade e susceptibilidade à Covid-19, expressas por meio de palavras como ameaça, causa, morte, adoecer, transmitir.

No caso [a covid-19] não [é só um risco] para o adolescente, é para todos, porque causa mortes. É tipo uma ameaça, de visitar idoso, não apertar as mãos [...] (A1).

O adolescente tem [medo] de morrer, medo de pegar a doença [...] se prevenindo [é uma forma de] não passar para as outras pessoas (A4).

[...] [existe risco da Covid-19] transmitir para outras pessoas como crianças e idosos (A28).

[...] no início eu achei que não iria ser uma ameaça pra mim, e as pessoas falavam que quem pegava mais eram os idosos, quem era doente, mas aí depois começou a surgir muitos casos de jovens e aí fiquei preocupada (A18).

[...] eu fiz distanciamento, usei máscara, porque lá em casa tem idosos. Se eu pegasse, ia ser mais arriscado para eles (A2).

A gente ficava fazendo chamada de vídeo com os amigos (A7).

Categoria 2 – Gravidade e Severidade da Covid-19

As classes 02 e 04 reuniram 33,8% dos segmentos textuais com similaridade semântica quanto ao reconhecimento da morbimortalidade e gravidade relacionado à infecção pelo novo coronavírus. As falas demonstraram que o momento vivenciado por eles foi difícil, pela necessidade de ficar em casa e intensificação da adoção de medidas de higiene. Desse modo, as palavras mais frequentes nas classes foram: casa, álcool, usar máscara, isolamento e medo.

Os relatos dos adolescentes destacam a compreensão da gravidade e severidade da Covid-19, exemplificados pelo medo de morrer, a preocupação com a saúde dos familiares, especialmente de pessoas mais vulneráveis, e a necessidade de adotar medidas de proteção como o uso de máscaras e a melhoria dos hábitos de higiene.

[...] foi um tempo que a gente perdeu e, nessa época, não podia sair, ter contato com outras pessoas, [pois] a doença é uma ameaça ao adolescente. [Estar] com os amigos deixou de ser uma realidade frequente, e com as aulas [online] a gente parou de conviver, de ir a lugares que tinha aglomerações por conta do medo (A13).

Quem sobrevive fica com sequelas, a ameaça está relacionada a doença e morte [...] eu às vezes usei máscara, [com] medo de morrer (A3).

[referindo-se Covid-19]. Porque causou muitas mortes, eu tinha medo de perder o paladar e o cheiro, [....] medo pela irmã que estava grávida e teve a minha sobrinha na pandemia, ela era muito pequena (A12).

Porque ficavam sofrendo até morrer [referindo-se as pessoas com Covid-19], usei máscara, melhorei os aspectos de higiene e fiquei em casa, tomei vacina. Em questão de se sentir sozinho acho que tanto faz [...] (A19).

Quando eu peguei covid eu chorava quase o tempo todo com medo de acontecer o pior (A22).

Porque hoje em dia tem a vacina e praticamente não tem mais o vírus grave, (medo) de transmitir para meus pais, usei máscara e álcool em gel [...](A 24).

Eu não tive medo, nem peguei, mas usei máscara e uso até hoje álcool em gel, mantive distanciamento as vezes, eu evitei aglomeração e evitei lugares fechados (A. 46).

A percepção da gravidade e severidade do momento vivido provocaram nos adolescentes a assimilação de uma nova realidade, na forma de viver e se relacionar, como também de adaptação ao contexto de crise.

[referindo-se Covid-19]. Eu não achava que iria atingir o jovem, porque tem a imunidade alta, até o ponto de atingir a minha casa e acabou levando a minha avó, era uma época que não tinha vacina, nada (A14).

Porque estava todo mundo se socializando era época do carnaval e aí teve que parar tudo (A11).

[...] de fazer amizades, depois a maioria ficou tímido porque a gente ficou muito acostumado a estar em casa (A13).

A Covid-19 afetou toda a nossa geração e mudou totalmente o jeito da gente se cuidar, no início pegou todo mundo de surpresa, ninguém estava esperando e de repente muita gente começou a morrer e os sintomas se agravarem (A. 17).

Categoria 3 – Prevenção e Medidas Protetoras à Contaminação pelo Coronavírus

Esta categoria de análise contempla as classes 05 e 06, e representa 27,9% do corpus textual. Dentre as palavras mais frequentes das classes estão: máscara, álcool, gel, evitar, saúde, imunidade, mão, higiene, aglomeração, distanciamento, isolamento social.

As falas dos participantes ilustram as estratégias de prevenção da infecção pelo coronavírus que foram adotadas pelos adolescentes durante a pandemia para quebrar a cadeia de transmissão, em especial o distanciamento social.

Higiene, principalmente, quando vier da rua, a vitamina c ajuda na imunidade, usar máscara e levar as mãos (A. 36).

[...] usar máscara, lavar as mãos porque a nossa mão está tocando em vários lugares [...] (A. 37).

Tem os meios de se prevenir, como ficar em casa, porque é uma doença que mata. Nas escolas, [referindo-se a eventos sociais] festas, usei máscara e uso até hoje álcool em gel, mantive distanciamento às vezes; eu evitei aglomeração e evitei lugares fechados (A.43, A.47).

Evitar sair de casa porque o adolescente tem uma maior imunidade, então se ele se prevenir não vai passar para outras pessoas, evitar ter contato com os idosos (A. 36).

Foi difícil ficar longe das pessoas que a gente gosta, dos amigos (A. 34).

Os adolescentes indicaram a imunidade e o acesso aos serviços de saúde como medidas preventivas relacionadas ao controle, prevenção e redução da transmissão do coronavírus. A maioria afirmou não ter precisado de atendimento em saúde durante o período, porém, quando houve necessidade, conseguiram atendimento.

[...] tive atendimento de saúde. Eu precisei fazer exames e consegui, mas a prioridade era o Covid (A. 38.)

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo evidenciam que os adolescentes desenvolveram uma percepção ampliada acerca da pandemia da covid-19, organizada em três eixos analíticos centrais: percepção de risco e suscetibilidade, gravidade e severidade da doença, e percepção da prevenção com adoção de medidas preventivas. Esses resultados reforçam evidências da literatura as quais apontam que, embora adolescentes sejam frequentemente descritos como um grupo com menor percepção de risco individual, em contextos de crise sanitária essa população demonstra capacidade de compreender ameaças à saúde e de ajustar comportamentos frente a riscos coletivos(20,21).

A percepção de risco e suscetibilidade, identificada nas classes 1 e 3, revela que os adolescentes reconheceram a possibilidade de infecção tanto para si quanto para pessoas próximas, especialmente familiares. Tal reconhecimento é um componente central do Modelo de Crenças em Saúde, segundo o qual a percepção de suscetibilidade influencia diretamente a adoção de comportamentos protetivos(13). Estudos realizados durante a pandemia indicam que adolescentes que percebem maior risco pessoal e social tendem a aderir mais consistentemente às recomendações sanitárias, como o distanciamento social e o uso de máscaras, corroborando os achados deste estudo(22,23).

O modelo de crenças em saúde mostrou-se importante para entender como os adolescentes percebem e respondem a uma crise emergente, como a pandemia da Covid-19, sugerindo que a percepção de vulnerabilidade e gravidade da doença, aliada à crença na eficácia das medidas preventivas, influenciam no comportamento de saúde dos indivíduos. No caso dos adolescentes, a percepção da gravidade da Covid-19 e a crença na eficácia das práticas recomendadas para conter a pandemia foram determinantes para a adoção de comportamentos preventivos durante este período(24,25).

Nesse sentido, se deve reforçar o cuidado da saúde entre os adolescentes, dando-lhes oportunidade de compreensão da percepção de risco, susceptibilidade, gravidade e severidade de comportamento e/ou exposição de agravo à saúde para tomada de decisão de medidas preventivas.

No tocante à gravidade e severidade da Covid-19, representadas pelas classes 2 e 4, as falas demonstram que os adolescentes compreenderam a pandemia como um evento de grande impacto, capaz de modificar rotinas, relações sociais e projetos de vida. Essa percepção está alinhada ao constructo de severidade percebida do modelo de crenças em saúde, que se refere à avaliação das consequências físicas, sociais e emocionais de uma doença(13). Ainda que a Covid-19 apresente menor letalidade entre adolescentes, estudos indicam que a percepção da gravidade esteve fortemente associada ao medo de transmitir o vírus a familiares, especialmente as pessoas idosas, e às repercussões psicossociais do isolamento social(6,26).

A categoria relacionada à percepção de prevenção e uso de medidas preventivas (classes 5 e 6) evidencia que os adolescentes assimilaram informações sobre estratégias de controle da transmissão do coronavírus, sendo o distanciamento social, a higiene das mãos e o uso de máscaras as práticas mais mencionadas. Esses achados sugerem a efetividade das ações de comunicação em saúde desenvolvidas no país durante a pandemia, em consonância com diretrizes do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde(27,28). Ademais, a menção à imunidade e ao acesso aos serviços de saúde como medidas preventivas demonstra uma compreensão ampliada do cuidado em saúde, que envolve tanto comportamentos individuais quanto a organização dos sistemas de saúde.

No contexto brasileiro, tais resultados dialogam diretamente com as políticas públicas de saúde e educação, especialmente com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), como a universalidade, integralidade e equidade, e com as diretrizes da Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS), que enfatiza o protagonismo dos sujeitos e o fortalecimento da autonomia para o cuidado(29). Além disso, a articulação entre saúde e educação(30), prevista no Programa Saúde na Escola (PSE), mostra-se fundamental para o desenvolvimento de ações educativas voltadas aos adolescentes, sobretudo em situações de emergência sanitária, nas quais a escola e os ambientes digitais tornam-se espaços estratégicos para a disseminação de informações confiáveis.

Destaca-se que a maioria dos adolescentes relatou não ter necessitado de atendimento em saúde durante o período pandêmico, mas aqueles que buscaram assistência conseguiram acesso aos serviços. Esse dado reflete a resolutividade do SUS, apesar das dificuldades impostas pela pandemia, e atuar como fator de proteção ao reforçar a confiança no sistema de saúde.

De modo geral, os resultados indicam que a pandemia da Covid-19 funcionou como um evento catalisador para o desenvolvimento da consciência em saúde entre adolescentes, ao colocá-los em estado de alerta e favorecer a compreensão do risco individual e coletivo(24,25). Esses achados reforçam a necessidade de reconhecer os adolescentes como sujeitos ativos nas políticas públicas de saúde, capazes de compreender informações complexas e de participar de forma responsável nas estratégias de prevenção. Assim, investir em ações educativas baseadas em modelos teóricos, como o modelo de crenças em saúde, integradas às políticas do SUS e do setor educacional, pode fortalecer a promoção da saúde e a preparação dessa população para o enfrentamento de futuras crises sanitárias.

Convém pontuar que os dados apresentados neste estudo foram baseados exclusivamente em respostas autorrelatadas de adolescentes que podem estar sujeitas a viés de desejabilidade social, limitados a um contexto geográfico e cultural específico. No entanto, os achados podem auxiliar no entendimento de como os adolescentes enfrentaram esse período, bem como quais os possíveis impactos para a saúde e desenvolvimento deste público, embasando ações em saúde direcionadas para mitigação destes impactos.

CONCLUSÃO

O estudo demonstrou como a pandemia da Covid-19 afetou a vida dos adolescentes, que foi acompanhada de percepções de risco, susceptibilidade e gravidade distintas e complexas. Em especial, a percepção de risco e gravidade da crise sanitária contribuiu para que os adolescentes adotassem comportamentos de autoproteção tanto para si, quanto para sua família. Ressaltando-se as manifestações de sentimentos de medo, ansiedade, isolamento e dificuldades que podem ter repercussões na saúde mental e nas interações sociais dos adolescentes no período pós-pandemia.

Os achados reforçam o papel estratégico da enfermagem na mediação entre informação, percepção de risco e adoção de comportamentos preventivos entre adolescentes. Na prática assistencial, enfermeiros da APS e do PSE podem desenvolver ações educativas baseadas no modelo de crenças em saúde, como: rodas de conversa que explorem a percepção de susceptibilidade e severidade de doenças transmissíveis; estratégias de aconselhamento breve para adolescentes, incorporando exemplos do cotidiano escolar e familiar; uso de linguagem acessível e recursos digitais para reforçar benefícios percebidos das medidas preventivas.

O estudo recomenda que o modelo de crenças em saúde auxilia na prontidão dos adolescentes para adotar comportamentos de prevenção, por estar ancorado em uma compreensão do risco pessoal e do seu entorno, da susceptibilidade e gravidade da doença e/ou exposição do agravo a saúde quer seja no nível individual ou coletivo.

No contexto escolar, sugere-se a inclusão transversal de temas como prevenção de agravos transmissíveis e pensamento crítico sobre informações em saúde, fortalecendo o letramento em saúde dos adolescentes. A articulação entre saúde e educação pode contribuir para respostas mais consistentes a futuras emergências sanitárias.

Quanto às políticas públicas, os achados indicam que devem ser considerados os determinantes psicossociais que influenciam o comportamento dos adolescentes, como crenças, valores, normas sociais e acesso aos serviços de saúde.

Para investigações futuras recomenda-se o desenvolvimento de estudos longitudinais que acompanhem a manutenção de comportamentos preventivos ao longo do tempo, análises comparativas entre diferentes regiões e realidades socioeconômicas, pesquisas de intervenção conduzidas pela enfermagem, avaliando estratégias educativas baseadas no modelo de crenças em saúde e estudos que integrem métodos qualitativos e quantitativos para aprofundar a compreensão das crenças e atitudes dos adolescentes frente a crises sanitárias.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Thereza Maria Magalhães Moreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Set 2025
  • Aceito
    28 Jan 2026
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