Open-access Prevalência e fatores associados à automedicação entre escolares na Região Metropolitana de Vitória, Brasil

RESUMO

Objetivo:  Analisar a prevalência e os fatores associados à automedicação alguma vez na vida e seu uso atual entre escolares do ensino médio da Região Metropolitana da Grande Vitória, Espírito Santo.

Método:  Estudo transversal, de base escolar, realizado entre março e dezembro de 2023, com 4.416 escolares. A experimentação e o uso atual de medicamentos sem prescrição médica foram o desfecho. As variáveis independentes categóricas foram sexo, faixa etária, identidade de gênero, raça/cor da pele, classificação socioeconômica, tipo de escola, possuir algum trabalho, emprego ou negócio atualmente, religião e situação conjugal dos pais. Os dados foram avaliados por teste qui-quadrado de Pearson e Regressão de Poisson.

Resultados:  A prevalência da automedicação alguma vez na vida entre os escolares foi de 22,7% (IC95%: 21,5–23,9), sendo mais prevalente no sexo feminino (28,5%; IC95%: 26,8–30,3). Há maior prevalência da automedicação alguma vez na vida e automedicação atual entre estudantes do sexo feminino, LGBT+, de classe socioeconômica elevada e com vínculo de trabalho.

Conclusão:  Os achados reforçam a complexibilidade da automedicação entre os adolescentes, que envolve não apenas questões de acesso e disponibilidade de medicamentos, mas também aspectos psicossociais e culturais.

DESCRITORES
Adolescentes; Saúde do Adolescente; Automedicação; Medicamentos sem Prescrição

ABSTRACT

Objective:  To analyze the prevalence and factors associated with self-medication at some point in life and its current use among high school students in the Greater Vitória Metropolitan Region, Espírito Santo.

Method:  This cross-sectional, school-based study was conducted between March and December 2023 with 4,416 students. The outcome was experimentation with and current use of nonprescribed medication. The categorical independent variables were sex, age group, gender identity, race/skin color, socioeconomic status, type of school, current employment or business, religion, and parental marital status. Data were analyzed using Pearson’s chi-square test and Poisson regression.

Results:  The prevalence of lifetime self-medication among schoolchildren was 22.7% (95%CI: 21.5–23.9), being more prevalent among females (28.5%; 95%CI: 26.8–30.3). There was a higher prevalence of lifetime self-medication and current self-medication among female students, LGBT+ individuals, those from higher socioeconomic classes, and those with employment.

Conclusion:  The findings reinforce the complexity of self-medication among adolescents, which involves not only issues of access to and availability of medications, but also psychosocial and cultural aspects.

DESCRIPTORS
Adolescent; Adolescent Health; Self Medication; Nonprescription Drugs

RESUMEN

Objetivo:  Analizar la prevalencia y los factores asociados con la automedicación en algún momento de la vida y su uso actual en estudiantes de secundaria de la Región Metropolitana de Gran Vitória, Espírito Santo.

Método:  Estudio transversal, realizado en escuelas entre marzo y diciembre de 2023 con 4416 estudiantes. Los resultados fueron la experimentación y el uso actual de medicamentos sin receta. Las variables categóricas independientes fueron sexo, grupo de edad, identidad de género, raza/color de piel, clasificación socioeconómica, tipo de escuela, si actualmente tienen trabajo, empleo o negocio, religión y estado civil de los padres. Los datos se analizaron mediante la prueba de chi-cuadrado de Pearson y la regresión de Poisson.

Resultados:  La prevalencia de automedicación a lo largo de la vida entre los escolares fue del 22,7% (IC del 95%: 21,5–23,9), con mayor prevalencia entre las mujeres (28,5%; IC del 95%: 26,8–30,3). Existe una mayor prevalencia de automedicación a lo largo de la vida y de automedicación actual entre las mujeres, el alumnado LGBT+, las personas de clase socioeconómica alta y las personas con empleo.

Conclusión:  Los hallazgos refuerzan la complejidad de la automedicación en adolescentes, que involucra no sólo cuestiones de acceso y disponibilidad de medicamentos, sino también aspectos psicosociales y culturales.

DESCRIPTORES
Adolescente; Salud del Adolescente; Automedicación; Medicamentos sin Prescripción

INTRODUÇÃO

O acesso aos medicamentos proporcionou à sociedade benefícios que envolvem a prevenção, manutenção e recuperação da saúde, contribuindo, de forma geral, para prolongar a vitalidade humana(1). No entanto, apesar desses avanços inegáveis, o uso irracional de medicamentos se configura como um problema de saúde pública, uma vez que sua utilização inadequada resulta em riscos para a saúde(2).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais da metade de todos os medicamentos são dispensados, vendidos e prescritos incorretamente. Além disso, acima de 50% de todos os países não realizam políticas básicas para promover o uso racional deles(3). No Brasil, no entanto, a utilização incorreta de medicamentos está relacionada à prescrição não orientada por diretrizes técnicas e clínicas estabelecidas por órgãos reguladores e sociedades científicas, à automedicação inapropriada e à ampla disponibilidade de medicamentos para compra no mercado(4).

Segundo levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácia, no ano de 2019, 77% dos brasileiros consumiram medicamentos por conta própria entre julho e dezembro. Esse fenômeno também ocorre entre os jovens com idade de 16 a 24 anos, pois cerca de 69% deles alteram a posologia do medicamento. Além disso, a facilidade de acesso ao remédio foi um fator determinante para a automedicação entre esse grupo(5).

Nessa perspectiva, a crescente busca pelo corpo perfeito na sociedade contemporânea, associada à pressão estética e à internalização de padrões irreais, potencializada pelo acesso às mídias digitais, cria um ambiente propício à insatisfação corporal entre os jovens. Assim, a busca por resultados rápidos contribui significantemente para tomada de decisões lesivas à saúde, como o uso de medicamentos emagrecedores e anabolizantes entre adolescentes(6).

Outra problemática é o uso de medicamentos entorpecentes e psicoativos entre os adolescentes. A primeira experiência com drogas e substâncias psicoativas ocorre frequentemente nessa faixa etária. Isso evidencia a importância de estudar esse fenômeno entre os jovens, visto que, movidos pela curiosidade e influência, essas substâncias são consumidas de forma experimental(7).

O Comitê Nacional para a Promoção do Uso Racional de Medicamentos reforça a importância e a necessidade de ações para conter os abusos relacionados ao uso de medicamentos. Entre as recomendações estratégicas para chegar ao objetivo proposto, estão o incentivo à discussão sobre a problemática, a soma dos esforços com outros trabalhos já desenvolvidos e o estímulo à produção científica nas áreas relacionadas(8). Com esse intuito, o presente estudo tem como objetivo analisar a prevalência e os fatores associados à automedicação alguma vez na vida e seu uso atual entre escolares do ensino médio da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), Espírito Santo.

MÉTODO

Delineamento do Estudo

Este estudo possui delineamento transversal, realizado com dados de estudo de base escolar intitulado “Pesquisa estadual de saúde do escolar capixaba – PESC: uma análise dos escolares do ensino médio”, conduzido de março a dezembro de 2023, sendo o estudo piloto realizado em fevereiro do mesmo ano.

Contexto

A realização do estudo se deu na RMGV, composta por sete municípios do estado do Espírito Santo, Brasil, sendo eles Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana, Guarapari e Fundão(9). A população estimada na RMGV para o ano de 2022 era de 1.880.828 pessoas, e isso representa cerca de 49% da população capixaba(10). Não há dados específicos sobre a população de adolescentes na RMGV, mas estima-se que 63.255 alunos estão matriculados no ensino médio. Essa região possui 171 escolas de ensino médio, entre públicas e privadas(11).

Participantes

O público da pesquisa incluiu estudantes do ensino médio da RMGV. O processo de amostragem foi baseado nos dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira de 2020 para a seleção das escolas, que foram separadas de acordo com a proporção de estudantes em cada estrato: rede pública e rede privada. Para cada estrato, foram calculados um “N” usando amostragem aleatória simples, corrigidas para amostras complexas em um segundo momento usando o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences, 26.0, garantindo 95% de confiança e erro máximo de 5%. Para os estratos de município, foram garantidos como paramentos da amostra 95% de confiança e erro máximo de 10%, sendo a amostra mínima de 4.416.

Coleta de Dados

O questionário foi respondido diretamente pelo aluno por meio do Dispositivo Móvel de Coleta (tablet), no qual estava inserido o questionário estruturado. A escolha desse instrumento teve o objetivo de agilizar o processo de execução da pesquisa, visto que, por ser uma tecnologia conhecida, desperte maior interesse dos adolescentes em participar da coleta de dados, além de menor dificuldade no manuseio. Vale destacar que somente participaram da pesquisa os estudantes com o consentimento formal dos responsáveis, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e o assentimento dos próprios adolescentes, por meio do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido. Todos os participantes foram previamente informados sobre os objetivos da pesquisa, bem como seus possíveis riscos e benefícios.

Desfecho

Os desfechos em estudo foram a automedicação alguma vez na vida (sim/não) e automedicação atual (sim/não). Os desfechos foram construídos a partir do uso de remédios para emagrecer (Ritalina, Anfepramona, Femproporex, Mazindol, Hipofagin, Inibex, Desobesi, Moderine, Absten, Fagolipo e Dualid), anabolizantes (Anabolex, Androlone, Androviron, Decadurabolin, Durabolin, Durateston, Equipoise e Parabolan), tranquilizantes (Diazepam, Dienpax, Valium, Lorax, Rohypnol, Psicosedin, Somalium, Apraz, Rivotril, Dormonid, Bromazepam, Frontal, Olcadil e Zolpidem), ou entorpecentes (Morfina, Cetamina, Tylex, Setux, Sylador, Tramal, Dolantina, Fentanil e Belacodid).

Independentes

As variáveis independentes são compostas por sexo (feminino/masculino), faixa etária (14 a 15, 16 a 17 ou 18 a 19 anos), identidade de gênero (cisgênero: sim ou não), orientação sexual (heterossexual ou LGBT+), raça/cor da pele (branca, preta ou parda), estado civil (com ou sem companheiro), classificação socioeconômica (A, B1, B2, C1, C2 ou C3, D ou E), tipo de escola (pública ou privada), se atualmente possui algum trabalho, emprego ou negócio (não ou sim), religião (nenhuma, católica, evangélica ou outras) e situação conjugal dos pais (vivem juntos: sim ou não).

Análise de Dados

Os dados foram primeiramente apresentados mediante frequência absoluta, frequência relativa e Intervalo de Confiança de 95% (IC95%). Posteriormente, os dados foram avaliados através de análise bivariada, com uso do teste qui-quadrado de Pearson para estabelecer possíveis relações, e de análise multivariada bruta e ajustada, através da Razão de Prevalência (RP), com variância robusta por Regressão de Poisson, sendo consideradas para entrada no ajuste as variáveis com significância estatística em 0,20 e mantidas aquelas com valor de p < 0,05. As análises de dados foram conduzidas no programa estatístico Stata 17.0.

Esta pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, e recebeu aprovação por meio do Parecer n° 5.900.370, garantindo o cumprimento de todas as exigências éticas necessárias.

RESULTADOS

Observa-se que a prevalência da automedicação alguma vez na vida foi de 22,7% (IC95%: 21,5–23,9) na amostra geral. As estudantes do sexo feminino (28,5%; IC95%: 26,8–30,3) apresentaram maiores frequências em comparação aos do sexo masculino (15,7%; IC95%: 14,2–17,3). Além disso, 7,7% (IC95%: 6,9–8,5) dos participantes referiram a automedicação atual, sendo também mais prevalente entre as meninas (10,3%; IC95%: 9,2–11,6) em relação aos meninos (4,5%; IC95%: 3,7–5,4) (Tabela 1).

Tabela 1
Automedicação alguma vez na vida e automedicação atual entre os escolares do ensino médio da Região Metropolitana da Grande Vitória – Espírito Santo, Brasil, março a dezembro, 2023 (N = 4.613).

Nota-se, na Tabela 2, que a automedicação alguma vez na vida e a automedicação atual estiveram relacionadas às variáveis sexo, identidade de gênero, orientação sexual, estado civil, classe econômica e religião. A variável situação conjugal dos pais somente apresentou relação com a automedicação alguma vez na vida, enquanto trabalhar e possuir algum trabalho, emprego ou negócio estiveram relacionados à automedicação atual (p < 0,05).

Tabela 2
Distribuição da automedicação alguma vez na vida e automedicação atual entre os escolares do ensino médio da Região Metropolitana da Grande Vitória – Espírito Santo, Brasil, março a dezembro, 2023 (N = 4.613).

Após os ajustes para os fatores de confusão, verifica-se que estudantes do sexo feminino apresentaram uma prevalência 67% maior de automedicação alguma vez na vida em comparação aos do sexo masculino (RPa = 1,67; IC95%: 1,48–1,89; p < 0,001). Além disso, foi observada maior frequência na faixa etária de 18 a 19 anos (RPa = 1,24; IC95%: 1,04–1,48; p = 0,044) quando comparada ao grupo de 14 e 15 anos. De igual modo, participantes LGBTQIA+ (RPa: 1,55), de classificação socioeconômica mais elevada (RPa: 1,36), que declararam seguir outras religiões que não evangélicas e católicas (RPa: 1,50), e aqueles que possuíam trabalho, emprego ou negócio (RPa: 1,15) apresentaram maiores prevalências de automedicação alguma vez na vida (Tabela 3).

Tabela 3
Razão de prevalência bruta e ajustada da automedicação alguma vez na vida entre os escolares do ensino médio da Região Metropolitana da Grande Vitória – Espírito Santo, Brasil, março a dezembro, 2023.

Na análise ajustada, a prevalência automedicação atual no sexo feminino foi cerca de duas vezes maior (RPa = 2,12; IC95%: 1,65–2,72; p < 0,001) em relação ao masculino. Estudantes LGBTQIA + também apresentaram maiores frequências (RPa = 2,04; IC95%: 1,64–2,54; p < 0,001) em comparação aos heterossexuais. Em relação à raça/cor da pele, adolescentes autodeclarados pretos apresentaram maiores prevalências de automedicação atual (RPa: 1,49), assim como essa prática foi duas vezes maior entre os estudantes de classe econômica “A” (RPa = 2,27; IC95%: 1,73–2,97; p < 0,001) e mais frequentemente observada entre os que possuíam trabalho (RPa = 1,39; IC95%: 1,12–1,74; p = 0,003) (Tabela 4).

Tabela 4
Razão de prevalência bruta e ajustada da automedicação atual entre os escolares do ensino médio da Região Metropolitana da Grande Vitória – Espírito Santo, Brasil, março a dezembro, 2023.

DISCUSSÃO

O presente estudo mostra uma quantidade relevante de adolescentes que relataram a automedicação alguma vez na vida e a automedicação atual. Esse resultado corrobora os achados nacionais que reforçam a alta prevalência de consumo de remédios entre os jovens. Pesquisa transversal, realizada em Porto Alegre, apontou que aproximadamente metade dos estudantes relatou ter utilizado medicamentos nos sete dias anteriores à coleta de dados. Parte desse consumo pode ser associado à prática da automedicação, que é facilitada pelo fácil acesso a medicamentos sem prescrição médica, adquiridos diretamente em farmácias ou encontrados estocados em casa. Soma-se a essa problemática a exposição a campanhas que se tornam prejudiciais, pois promovem e estimulam o consumo mesmo na ausência de orientação profissional a indivíduos que podem não ter uma postura crítica a ponto de reconhecerem o limite do uso(12).

Outro fator que justifica essa conduta entre escolares é a limitação do conhecimento sobre o uso racional da medicação. A baixa compreensão sobre indicações, dosagens e aplicação do fármaco tem sido apontada como um dos determinantes para comportamentos de riscos, como praticar polifarmácia, tomar medicamentos com dosagens excessivas e não ler a bula. Estudo internacional reforçou essa compreensão ao demonstrar que adolescentes com baixo nível de conhecimento sobre medicamentos apresentaram maior prevalência de automedicação(13). Além disso, a forma como os adolescentes percebem sua própria saúde influencia diretamente suas práticas de cuidado. Adolescentes que apresentam uma visão ruim da sua saúde tendem a utilizar mais medicamentos de diferentes classes terapêuticas, o que reforça a associação entre percepção negativa da saúde e o maior consumo de medicamentos(14).

O ciclo de amizade configurou-se como um dos principais meios de acesso a medicamentos tranquilizantes e sedativos não prescritos entre adolescentes(15). A busca por sensações e efeitos recreativos esteve associada à aquisição desses medicamentos através de amigos, sendo essa prática de compartilhamento entre pares comum, especialmente entre jovens que já tiveram prescrições legítimas. Desse modo, a vulnerabilidade evidenciada pela ausência de conhecimento sobre os riscos do uso descontrolado desses fármacos evidencia a gravidade do uso de substâncias de alto risco entre escolares(16).

As maiores prevalências de automedicação, sejam alguma vez na vida ou atualmente, foram observadas em adolescentes do sexo feminino. Estudo de coorte realizado em Pelotas constatou que as mulheres usam mais medicamentos do que os homens significantemente, mesmo quando os anticoncepcionais são excluídos das análises(17). De forma semelhante, padrões internacionais reafirmam essa diferença entre os gêneros. Análise internacional do tipo transversal, conduzida na Espanha com estudantes, entre 2016 e 2021, observou que o uso não prescrito de tranquilizantes, como benzodiazepínicos e hipnóticos, entre meninas era cerca de duas vezes maior quando comparado aos meninos. Além disso, as variáveis associadas de forma independente e significativa a essa maior probabilidade foram o uso de álcool e cannabis nos últimos 30 dias(18).

Nesse sentido, a incorporação de uma nova perspectiva de gênero no uso de substâncias psicoativas permite ampliar a compreensão dos diferentes padrões de consumo entre homens e mulheres. Entre as causas, estão a maior incidência de quadros depressivos e ansiosos entre as mulheres, mesmo na adolescência, e sua posição desigual em relação aos homens. Considera-se também que essa população tende a perceber e relatar seus sintomas com maior frequência, o que a leva a procurar mais os serviços de saúde e a contribuir para um processo de medicalização de suas experiências emocionais. Posteriormente, elas utilizam esses medicamentos com alteração na posologia(18).

Outro achado na presente pesquisa são as maiores prevalências da automedicação alguma vez na vida e atualmente entre os adolescentes de classe econômica A. Esses resultados corroboram pesquisa nacional do tipo transversal, realizada nas 27 capitais brasileiras com escolares do ensino médio de escolas públicas e privadas, evidenciando o uso não prescrito de tranquilizantes/sedativos e sendo mais comum entre aqueles com classes sociais mais altas(15). Uma possível hipótese para explicar esse achado é que indivíduos em situações econômicas mais favoráveis têm mais acesso aos serviços de saúde e, consequentemente, maior acesso a esses fármacos, que, muitas vezes, são obtidos em suas próprias casas, ampliando o uso indevido entre os membros da família(19).

O uso de substâncias entre adolescentes LGBT+ ainda é pouco explorado na literatura, embora represente um importante achado para entender as questões de saúde pública que envolvam essa população, como a vulnerabilidade social e os desafios psicossociais enfrentados. O atual estudo apontou que a prevalência da automedicação na vida foi quase duas vezes maior entre escolares LBGT+ em comparação aos heterossexuais. Essa relação se manteve para a automedicação atual, passando a ser 2,5 vezes mais prevalente entre eles. Tais resultados estão em consonância com uma análise de dados dos Estados Unidos que demonstrou que adolescentes de minorias sexuais, independentemente do sexo, apresentaram maior probabilidade de relatar uso indevido de esteroides anabolizantes androgênicos (EAAs) em níveis moderados ou graves quando comparados com seus pares heterossexuais(20).

Nesse contexto, um fator a ser considerado é a teoria do estresse de minoria, que explica esse tipo de comportamento como uma resposta aos impactos do estigma social, da rejeição e da discriminação. Nesse contexto, o uso de substâncias pode ser um mecanismo de enfrentamento dos conflitos vividos por esses adolescentes(21). Outro estudo internacional reforça esses achados, ao apontar que adolescentes do sexo masculino pertencentes a minorias sexuais apresentaram uma prevalência significantemente maior de uso indevido de EAAs ao longo da vida, atribuindo esse comportamento aos efeitos do estresse minoritário e à maior insatisfação corporal, fatores que podem atuar como motivadores e como forma de enfrentamento e busca por adequação a padrões estéticos ou de identidade de gênero(22).

Ao analisar o atual estudo, verificou-se, na presente pesquisa, que adolescentes que possuíam algum vínculo de trabalho apresentavam maior prevalência de automedicação. Estudo realizado nos Estados Unidos com dados dos Inquéritos Nacionais de Saúde e Desenvolvimento Humano encontrou uma associação entre estar empregado e taxas aumentadas de uso recente e uso excessivo de substância entre adolescentes. Esse fenômeno pode ser explicado por vários fatores, como a inserção dos estudantes no mercado de trabalho, que os expõe a outros ciclos sociais com pessoas de diferentes idades, favorecendo o uso de substâncias ilícitas. O acesso a essas substâncias é facilitado pelo aumento da renda decorrente do trabalho. Outro fator apontado é o estresse e a sobrecarga de conciliar os estudos com o trabalho, o que pode levar o adolescente a buscar a automedicação como forma inadequada de enfrentar sintomas como fadiga, dificuldade para dormir e ansiedade(23).

Este estudo apresenta algumas limitações. A primeira referese à natureza transversal do estudo, o que dificulta estabelecer relações de causalidade, uma vez que não é possível a determinação da sequência entre exposição e desfecho. Outra limitação é a possibilidade de viés de memória na obtenção dos dados. A coleta de informações se baseou em autorrelato, o que pode ter feito com que os participantes não se lembrassem do nome ou da classe dos medicamentos. Além disso, considerase o viés de informação, que pode ter levado à omissão de dados, seja pelo esquecimento ou pela relutância em declarar práticas socialmente não aceitas. Apesar disso, o questionário autopreenchido minimiza a relutância em declarar práticas não aceitas socialmente.

CONCLUSÃO

Os dados apresentados no estudo evidenciaram uma prevalência importante de automedicação alguma vez na vida e automedicação atual entre adolescentes do ensino médio da RMGV. Maiores frequências foram observadas nas variáveis sexo feminino, escolares não cisgênero, LGBTQIA+, classificação socioeconômica mais elevada, aqueles que possuíam algum vínculo de trabalho e que referiram outras religiões além das católicas e evangélica. Desse modo, os achados reforçam a complexibilidade da automedicação entre os adolescentes, que envolve não apenas questões de acesso e disponibilidade de medicamentos, mas também aspectos psicossociais e culturais. Além disso, destacam o quanto o ambiente doméstico e social são fatores determinantes nesse processo de experimentação e uso inadequado de substâncias entre os escolares. Assim, os resultados desta pesquisa mostram a necessidade de estratégias intersetoriais que realizem ações de educação em saúde e promovam políticas públicas voltadas à promoção do uso racional de medicamentos entre os estudantes.

  • Apoio financeiro
    Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES). DI 016/2022.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Ivone Evangelista Cabral

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Set 2025
  • Aceito
    12 Jan 2026
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