Open-access Modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal*

RESUMO

Objetivo:  Construir um modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal.

Método:  Pesquisa qualitativa, com abordagem participatória, em que foram desenvolvidos todos os componentes de um modelo de cuidado, a partir dos dados produzidos nos grupos de discussão remotos com integrantes de um grupo de pesquisa da área da saúde da criança, do referencial teórico de cuidado centrado na família e da experiência prática das pesquisadoras do estudo.

Resultados:  Desenvolveu-se um modelo de cuidado constituído por seis conceitos – recém-nascido, família, unidade de terapia intensiva neonatal, saúde-doença, Enfermagem e cuidado centrado na família –, seis pressupostos e seis fases – ambientando-se, conhecendo-nos, conectando-nos, reconhecendo as necessidades e pontos fortes da família, desenvolvendo o cuidado em parceria com a família e repensando o processo.

Conclusão:  O modelo poderá guiar a prática de enfermeiros no cuidado de famílias em unidades neonatais e orientar a formação de futuros profissionais.

DESCRITORES
Enfermagem; Família; Terapia Intensiva Neonatal; Modelos de Enfermagem; Pesquisa Qualitativa

ABSTRACT

Objective:  To build a family-centered nursing care model for neonatal intensive care.

Method:  This qualitative research, with a participatory approach, developed all the components of a care model based on data produced in remote discussion groups with members of a research group in the field of child health, the theoretical framework of family-centered care, and the practical experience of the study's researchers.

Results:  A care model was developed consisting of six concepts – newborn, family, neonatal intensive care unit, health-illness, Nursing and family-centered care –, six assumptions and six phases – getting acquainted, getting to know each other, connecting, recognizing the family's needs and strengths, developing care in partnership with the family, and rethinking the process.

Conclusion:  This model could guide the practice of nurses in caring for families in neonatal units and guide the training of future professionals.

DESCRIPTORS
Nursing; Family; Intensive Care, Neonatal; Models, Nursing; Qualitative Research

RESUMEN

Objetivo:  Construir un modelo de atención de enfermería centrado en la familia para cuidados intensivos neonatales.

Método:  Esta investigación cualitativa, con enfoque participativo, desarrolló todos los componentes de un modelo de atención basado en datos producidos en grupos de discusión a distancia con miembros de un grupo de investigación en el campo de la salud infantil, el marco teórico de la atención centrada en la familia y la experiencia práctica de los investigadores del estudio.

Resultados:  Se desarrolló un modelo de atención compuesto por seis conceptos – recién nacido, familia, unidad de cuidados intensivos neonatales, salud-enfermedad, Enfermería y atención centrada en la familia –, seis presupuestos y seis fases – ambientarse, conocerse, conectarse, reconocer las necesidades y fortalezas de la familia, desarrollar el cuidado en conjunto con la familia y repensar el proceso.

Conclusión:  Este modelo podría orientar la práctica de los enfermeros en el cuidado de las familias en unidades neonatales y orientar la formación de futuros profesionales.

DESCRIPTORES
Enfermería; Familia; Cuidado Intensivo Neonatal; Modelos de Enfermería; Investigación Cualitativa

INTRODUÇÃO

O Cuidado Centrado na Família (CCF) refere-se a uma abordagem para o planejamento, prestação e avaliação dos cuidados de saúde, que se baseia em parcerias mutuamente benéficas entre pacientes, famílias e profissionais(1), Em pediatria, isso implica que a responsabilidade do cuidado seja compartilhada pelos profissionais de saúde e família(2).

Esse cuidado apresenta quatro pilares centrais que devem ser aplicados em qualquer nível de assistência e nos contextos neonatal, pediátrico e adulto: a dignidade e o respeito, o compartilhamento de informações, a participação e a colaboração. Para isso, os profissionais devem ouvir e respeitar as escolhas e perspectivas dos pacientes e de suas famílias (dignidade e respeito); fornecer informações úteis, completas e imparciais (compartilhamento de informações), apoiar e estimular os familiares a participarem dos cuidados e das tomadas de decisões no nível de sua escolha (participação); e contribuir com os pacientes e familiares no desenvolvimento, implantação e avaliação de políticas e programas (colaboração) (1).

Os benefícios do CCF, tanto para os Recém-Nascidos (RN) como para os seus pais, estão bem documentados na literatura. Para os bebês, esses benefícios são: melhores resultados na alimentação e nos escores de neurodesenvolvimento, maior ganho de peso, diminuição do risco de retinopatia da prematuridade, menor tempo de internação e menores taxas de readmissão hospitalar; e para os pais: maior participação, menos ansiedade, depressão e estresse, maior satisfação e melhor qualidade de vida(3,4). Apesar disso, o CCF ainda é pouco compreendido e implementado nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTIN) do nosso país(5,6,7). Por isso, decidiu-se pelo desenvolvimento de um modelo de cuidado que pudesse direcionar e fundamentar teoricamente a prática de enfermeiros no cuidado das famílias em UTIN.

Um modelo de cuidado de enfermagem é um conjunto teórico, representado em um diagrama, composto pelos quatro conceitos básicos da Enfermagem (meio ambiente/sociedade, Enfermagem, ser humano e saúde/doença) e outros que se fizerem necessários para o seu entendimento; por pressupostos que têm por base um referencial teórico-filosófico; e por uma metodologia do cuidado, cuja função é nortear o cuidado de enfermagem por meio da sistematização das ações(8).

Os modelos de cuidado são ferramentas que podem ser utilizadas para guiar a prática de enfermeiros e, por conseguinte, desmitificam a ideia de que teoria e prática não se articulam(8). Além de contribuírem para o desenvolvimento de um cuidado diferenciado e específico, impulsionam também o próprio conhecimento e desenvolvimento da disciplina de Enfermagem(9).

Dessa forma, considerando-se as lacunas na formação profissional, ao abordarem o CCF de forma superficial nas disciplinas da graduação em enfermagem, fato constatado na minha vivência acadêmica e profissional, a educação permanente insuficiente, as dificuldades dos profissionais de enfermagem em desenvolver o cuidado da família em unidades neonatais(5,6,7) e a importância do CCF para a família e o RN, justifica-se a construção de um modelo de cuidado que possa não só guiar a prática de enfermeiros no que se refere ao cuidado da família em UTIN, mas também orientar a formação de futuros profissionais. Além disso, os conceitos básicos para a aplicação do CCF na prática são gerais, ou seja, não abarcam todas as especificidades de uma unidade neonatal e, ainda, foram desenvolvidos a partir da experiência de pesquisadores norte-americanos, o que pode dificultar a sua aplicação no cenário brasileiro, considerando a diversidade cultural e econômica do país.

Outra justificativa é a inexistência de um modelo desta natureza no contexto brasileiro, confirmada a partir de um estudo de revisão integrativa realizado nas bases de dados LILACS, MEDLINE, PubMed e WoS, em novembro de 2022, com o intuito de identificar o que foi produzido sobre o CCF em unidades neonatais(10). Nesse sentido, este estudo teve como objetivo construir um modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal.

Referencial Teórico

A publicação intitulada “Family-centered care for children with special health care needs”(11) e os conceitos do Institute for Patient-and Family-centered Care(1) embasam o referencial teórico deste estudo. Na publicação “Family-centered care for children with special health care needs”, as autoras apresentam oito elementos considerados chave para a implementação do CCF para famílias de crianças com algum tipo de necessidade especial, quais sejam: Reconhecer que a família é a constante na vida da criança, enquanto os serviços e profissionais de saúde são transitórios; Facilitar a colaboração entre pais e profissionais em todos os níveis de atenção à saúde; Compartilhar continuamente informações imparciais e completas com os pais sobre o cuidado de seus filhos de maneira adequada e de apoio; Implementar políticas e programas apropriados que sejam abrangentes e forneçam apoio emocional e financeiro para atendimento das necessidades das famílias; Reconhecer os pontos fortes e individualidade da família e respeitar os diferentes métodos de enfrentamento; Compreender e incorporar as necessidades de desenvolvimento de bebês, crianças e adolescentes e suas famílias nos sistemas de saúde; Incentivar e facilitar o apoio pais-para-pais; e Garantir que o design dos serviços de saúde seja flexível, acessível e responsivo às necessidades da família(11).

Esses elementos constituíram a base para a construção dos conceitos do Cuidado Centrado no Paciente e Família (CCPF) – dignidade e respeito, compartilhamento de informações, participação, colaboração – apresentados pelo Institute for Patient- and Family-centered Care. A seguir, encontram-se descritos esses quatro conceitos:

  • Dignidade e respeito: Os profissionais de saúde escutam e honram as perspectivas e escolhas da família e paciente. O conhecimento, valores, crenças e origens culturais da família e paciente são incorporadas no planejamento e prestação de cuidados(1);

  • Compartilhamento de informações: Os profissionais de saúde comunicam e dividem informações completas e imparciais com pacientes e famílias de maneira afirmativa e útil. Pacientes e famílias recebem informações completas, atualizadas e corretas para participar efetivamente do cuidado e da tomada de decisão(1);

  • Participação: Pacientes e famílias são encorajadas e apoiadas a participar do cuidado e da tomada de decisão no nível que escolhem(1);

  • Colaboração: Pacientes, famílias, profissionais de saúde e líderes colaboram no desenvolvimento de políticas e programas, implementação e avaliação; em pesquisa; no design do serviço de saúde; e na educação profissional, bem como na promoção do cuidado em si(1).

Outras duas definições importantes são a de família e do próprio CCPF. Na definição apresentada pelo Institute for Patient-and Family-centered Care (2024)(1), os próprios pacientes e familiares definem a sua família. E o CCPF é entendido como uma abordagem para o planejamento, prestação e avaliação dos cuidados de saúde, baseada em parcerias mutuamente benéficas entre pacientes, famílias e profissionais(1).

MÉTODO

Tipo ou Desenho do Estudo

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com abordagem participatória, em que foram elaborados todos os componentes de um modelo de cuidado, a saber: os conceitos, os pressupostos, a metodologia do cuidado e um diagrama.

População e Critérios de Seleção

Para a seleção dos participantes, elegeu-se como critérios de inclusão: ser enfermeiro ou graduando em Enfermagem e possuir no mínimo dois anos de participação no grupo de pesquisa Saúde do Neonato, Criança, Adolescente e Família (CRIANDO). Foram excluídos os graduandos que não tivessem concluído o sexto semestre do curso de Enfermagem. Esse critério foi adotado considerando que os estudantes cursam as disciplinas relacionadas ao cuidado da criança e da família nesse semestre.

A fim de identificar aqueles que atendiam aos critérios de inclusão foi elaborado um quadro com os nomes de todos os integrantes do grupo de pesquisa. Em seguida, entrou-se em contato com estes, via aplicativo de mensagens (WhatsApp), questionando cada um deles sobre o tempo de participação no grupo e, quando graduando, o semestre que estava cursando no momento. Posteriormente, todos os integrantes que atendiam aos critérios de inclusão foram convidados por e-mail.

Coleta de Dados

Os dados foram coletados a partir de grupos de discussão remotos realizados com integrantes do grupo de pesquisa CRIANDO. O grupo de discussão é uma técnica de coleta de dados, por meio da qual o pesquisador busca a construção coletiva de ideias(12).

Mediante o aceite, encaminhou-se um e-mail três dias antes do dia agendado para realização do grupo de discussão, contendo informações como finalidade do grupo, dia, horário e link de acesso, o termo de consentimento livre e esclarecido bem como a atividade que deveria ser realizada previamente – cada participante deveria escolher três palavras-chaves para cada conceito (família, RN, enfermagem, UTIN, saúde-doença e CCF), que na sua opinião o representasse. As palavras-chaves escolhidas foram apresentadas por cada participante no dia agendado para cada grupo.

Foram organizados dois grupos distintos, ambos com sete integrantes, que se reuniram no mês de dezembro de 2020, no turno da noite, utilizando o aplicativo Google Meet. A discussão do grupo I teve uma duração de uma hora e oito minutos e a do grupo II, uma hora e quarenta e três minutos. Em ambos os grupos participaram todos os níveis acadêmicos – doutorado, mestrado e graduação.

Nos grupos, após obtido o consentimento, foi realizada a apresentação dos participantes e explicado o objetivo do grupo e como ele seria organizado. Posteriormente, cada participante apresentou as três palavras que escolheu para cada conceito, explicando a sua escolha. Ao final da discussão de cada conceito, foi feita uma súmula das palavras-chaves dos participantes pela pesquisadora, que foram reunidas em um arquivo PowerPoint pela auxiliar de pesquisa. Para manter uma organização, foi realizada a apresentação, discussão e síntese por conceito, seguindo a ordem, RN, UTIN, e assim sucessivamente. Os grupos foram coordenados pela pesquisadora, autora do projeto da tese, e contaram com a participação de uma auxiliar de pesquisa, previamente capacitada, que era graduanda em Enfermagem e também bolsista do projeto.

Análise e Tratamento dos Dados

Os áudios oriundos dos grupos de discussão foram transcritos em documento Word e analisados, tendo por referência a análise temática indutiva(13), seguindo os passos:

  • Familiarização com os dados: foram realizadas leituras e releituras exaustivas do material transcrito e destacadas as palavras-chaves de cada conceito no texto. Para isso, foram utilizadas seis cores diferentes;

  • Geração de códigos iniciais: todas as palavras-chaves destacadas no texto foram agrupadas em um quadro, lidas exaustivamente e categorizadas por cores de acordo com a afinidade temática;

  • Geração dos temas: as palavras-chaves destacadas com a mesma cor foram agrupadas em temas;

  • Revisando os temas: os temas foram revisados, a fim de confirmar se aquelas palavras-chaves que estavam agrupadas em cada tema representavam-no adequadamente;

  • Geração dos conceitos: os temas de cada conceito foram agrupados e, com auxílio dos conectivos da língua portuguesa, bem como tendo por base o referencial teórico da tese, construíram-se os conceitos. O processo de análise que subsidiou a elaboração de cada um dos conceitos está detalhado em artigo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem(14).

Em um segundo momento, foram realizados mais dois grupos de discussão, para a validação dos conceitos construídos e/ou sugeridas alterações. Os grupos foram realizados em junho de 2021, por meio do Google Meet, em que participaram 11 do total de 14 integrantes dos grupos anteriores. Neste momento, 3 deles não puderam participar por motivos pessoais. O grupo I (cinco integrantes) teve uma duração de uma hora e quinze minutos e o grupo II (seis integrantes), de uma hora e onze minutos. Nesses grupos, os participantes apresentaram suas sugestões aos demais e analisaram quais aspectos dos conceitos necessitavam de adequações. Destaca-se que os conceitos foram enviados previamente por e-mail para análise. Em todos, foram sugeridas modificações, que foram analisadas e discutidas pela equipe de pesquisa, constituída pela pesquisadora doutoranda, orientadora e coorientadora, que novamente reformularam os conceitos.

Os pressupostos e a metodologia do cuidado foram elaborados, tendo por base o referencial teórico da tese(1,11) e a experiência prática das pesquisadoras. Ao longo dos encontros da equipe de pesquisa, os componentes do modelo de cuidado foram sendo reformulados, a fim de que refletissem o referencial teórico e estivessem claros, coerentes entre si e com a prática.

Após a sua elaboração, os conceitos, pressupostos e a metodologia do cuidado foram enviados para revisão gramatical, para que fosse analisada a coesão e a coerência textual. Em seguida, estes foram reestruturados pela equipe de pesquisa a partir das sugestões da revisora.

Um diagrama, como elemento de um modelo de cuidado de enfermagem, também foi elaborado. Desta forma, durante o processo de elaboração dos conceitos, a pesquisadora havia desenhado em uma folha A4 um diagrama preliminar dos primeiros insights de como os conceitos deveriam estar relacionados. Posteriormente, no dia dos grupos de discussão, em que houve a validação dos conceitos, os participantes também apresentaram e explicaram o diagrama que desenharam para representar os conceitos. Destaca-se que no mesmo e-mail em que foi enviado o arquivo Word com os conceitos, foi solicitado, como tarefa a ser desenvolvida previamente ao dia do grupo, que os participantes desenhassem em uma folha A4 como representariam os conceitos em um diagrama, enviando-o pelo aplicativo de mensagens (WhatsApp). Estes diagramas serviram de inspiração, juntamente com as ideias discutidas pela equipe de pesquisa para a criação da ilustração (Figura 1), representando o modelo de cuidado, feita por profissional de designer gráfico, contratado pela pesquisadora doutoranda.

Figura 1
Representação gráfica do modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal (AMCORE).

Após elaborado o modelo de cuidado, foram realizadas algumas reformulações para que ele fosse de fácil entendimento, simples e atrativo para os enfermeiros. Para isso, foram utilizadas cores e ilustrações para representar as fases da metodologia, criadas também pelo profissional de designer gráfico, bem como feitas algumas supressões e acrescentadas as definições dos componentes de um modelo de cuidado. O objetivo era criar um material de interesse para os enfermeiros.

Aspectos Éticos

O estudo foi desenvolvido seguindo a Resolução nº 466/2012 e aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa, sob número de parecer: 3.485.858.

RESULTADOS

Na Figura 1 encontra-se a representação gráfica do modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal. O modelo é formado por seis conceitos – RN, família, UTIN, saúde-doença, Enfermagem e CCF –, seis pressupostos – 1) A enfermagem deve possibilitar que a UTIN seja acessível, flexível e responsiva às necessidades da família; 2) A enfermagem deve promover o papel central da família no cuidado ao RN, respeitando as opiniões, escolhas e singularidade dos familiares; 3) A construção do vínculo entre enfermeiro e família é essencial para o desenvolvimento do CCF; 4) O enfermeiro precisa conhecer a família para que possa identificar suas necessidades de cuidado, estratégias de enfrentamento e pontos fortes; 5) Para que ocorra comunicação efetiva entre enfermeiro e família, o profissional deve estar aberto, disponível e sem pré-julgamentos durante o diálogo com esta; 6) Deve ser incentivada a parceria entre família e profissionais de saúde para o desenvolvimento do cuidado de forma participativa – e seis fases – ambientando-se, conhecendo-nos, conectando-nos, reconhecendo as necessidades e pontos fortes da família, desenvolvendo o cuidado em parceria com a família e repensando o processo.

No sentido de simplificar o nome do modelo, optou-se por utilizar a sigla AMCORE para representá-lo. Destaca-se que essa sigla foi criada a partir das primeiras sílabas dos nomes das fases da metodologia do cuidado, AM de ambientando-se, CO de conhecendo-nos e conectando-nos e RE de reconhecendo as necessidades e pontos fortes da família. Além de que a sigla AMCORE remete ao que se espera desse modelo: “ancorar”, isto é, estabelecer vínculo e apoiar a família na UTIN.

O diagrama foi inspirado em uma rosa dos ventos, por considerar que o modelo é um guia, uma direção para o cuidado da família em UTIN. O RN e a família estão no centro, pois eles são os receptores do cuidado sustentado pelo modelo, e os demais conceitos, ao seu redor. As fases da metodologia estão nas pontas da rosa, em razão de serem as direções a serem seguidas para o cuidado da família. No Quadro 1 estão apresentadas as definições de cada um dos conceitos que estão representados no diagrama.

Quadro 1
Definições dos conceitos que integram o modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal (AMCORE) – Santa Maria, RS, Brasil, 2026.

Nos pressupostos, as pesquisadoras preocuparam-se em salientar a importância que o enfermeiro tem na implementação de cada um deles. Destaca-se que estes foram construídos dedutivamente, tendo por base os oito elementos discutidos na publicação “Family-centered care for children with special health care needs”(11) bem como na vivência da pesquisadora como enfermeira de uma unidade de terapia intensiva pediátrica.

As fases da metodologia do modelo de cuidado foram elaboradas pensando em sistematizar como deveria ser o cuidado da família em UTIN. Como embasamento teórico para esta etapa, utilizaram-se outros modelos de cuidado(8,9,15,16), que lançaram luz sobre quais aspectos seriam importantes de serem abordados em cada fase e, sobretudo, o referencial teórico do estudo(1,11), acrescido da experiência prática da pesquisadora. Em todas as fases, aponta-se o momento em que podem ser executadas e quais ações podem ser desenvolvidas para atendê-las. O objetivo não é que sejam estanques, mas sim flexíveis à UTIN em que estão sendo desenvolvidas. Dessa forma, a metodologia apresentada procura oferecer caminhos para o cuidado da família em UTIN. Além disso, na elaboração das fases, as autoras do estudo preocuparam-se em reforçar a importância de a família estar inserida no ambiente da UTIN e nos cuidados com o RN, em razão de que ela ainda precisa construir com este o vínculo, o qual ocorre após o nascimento, e assim desenvolver o seu papel parental, necessário para o cuidado do RN. Na Figura 2, a metodologia do cuidado do modelo é apresentada.

Figura 2
Metodologia do cuidado do modelo de cuidado de enfermagem centrado na família para terapia intensiva neonatal (AMCORE).

A ambientando-se foi elencada como primeira fase, por acreditar que a família precisa desse primeiro momento para habituar-se ao ambiente da UTIN e ao RN, além da ambientação necessária por parte do enfermeiro, uma vez que se entende que cada família é única e deve ser cuidada de maneira singular.

Partindo dessa fase, temos a conhecendo-nos, em que o enfermeiro busca conhecer a família e fazer-se conhecer, a fim de iniciar a construção de uma confiança, necessária para o cuidado da família. Na sequência, na fase conectando-nos, são realizadas pelo enfermeiro ações que fomentam a construção do vínculo entre ele e família e entre esta e o RN. A partir das informações obtidas nas fases ambientando-se e conhecendo- nos, o enfermeiro compartilha com a família, por meio de um diálogo aberto, as necessidades identificadas por ele, sendo essa a fase reconhecendo as necessidades e pontos fortes da família.

Na fase seguinte, desenvolve-se o cuidado em parceria com a família, definindo, juntamente com ela, estratégias que podem ser desenvolvidas para atender às suas necessidades de cuidado e fortalecer seus pontos fortes. Na fase repensando o processo, o enfermeiro avalia se as estratégias implementadas atenderam às necessidades de cuidado da família, se são necessárias mudanças e/ou adequações e se novas demandas podem ter surgido ao longo deste processo.

Destaca-se que, apesar de as fases estarem descritas em uma ordem, elas não são lineares pois, por vezes, o enfermeiro precisará retornar para uma fase anterior para depois avançar para a seguinte ou, ainda, poderá estar na quinta fase e precisar retornar para a terceira. Entretanto, para que ocorra um CCF, é fundamental que todas as fases sejam observadas, implementadas, repensadas e refletidas.

DISCUSSÃO

Um modelo de cuidado deve ser constituído pelos conceitos do metaparadigma da Enfermagem e por outros que se fizerem necessários. O metaparadigma é o componente mais abstrato da estrutura do conhecimento de enfermagem. É definido como os conceitos globais que identificam o fenômeno central de interesse da disciplina, as proposições que descrevem os conceitos e as que estabelecem as relações entre eles. Os conceitos que integram o metaparadigma da Enfermagem são ser humano, ambiente, saúde e Enfermagem(17).

Desta forma, foram elaborados os conceitos do metaparadigma, em que o conceito de UTIN refere-se ao ambiente, e os conceitos de RN e família referem-se ao ser humano. Além disso, foi desenvolvido o conceito de CCF considerando a sua relevância para o modelo construído.

Os pressupostos do modelo estão em consonância com os atributos identificados em estudo, que realizou uma análise do conceito de CCF em UTIN. Os atributos são características que tornam os conceitos únicos em relação a outros. Os atributos do conceito de CCF em UTIN identificados são: o cuidado da família – envolve identificar e atender às necessidades de cuidado da família; a participação igualitária da família – a família participa do planejamento e prestação dos cuidados e das tomadas de decisão; a colaboração – os profissionais cooperam com as famílias para a elaboração e implementação dos planos de cuidado; a manutenção do respeito e da dignidade da família – os profissionais reconhecem as diferenças das famílias, incluindo-as na elaboração dos planos de cuidados; e a informação – os profissionais compartilham informações completas às famílias de acordo com as suas especificidades(18).

As fases da metodologia do cuidado foram desenvolvidas para serem um guia para o cuidado da família em UTIN, compreendendo um conjunto de fases interligadas – complementares, simultâneas ou não – que buscam orientar a prática de enfermagem. Na fase ambientando-se, busca-se a ambientação da família à UTIN e ao RN. Quando os pais entram nessa unidade, eles se deparam com um ambiente desconhecido e assustador, rodeado de aparelhos e a imagem de um RN diferente daquele idealizado na gestação, com muitos equipamentos e dispositivos, o que dificulta o contato inicial com ele. Isso implica que os profissionais da equipe apoiem a família, para ajudá-la a superar as dificuldades na consolidação do vínculo(19). Nessa fase, o enfermeiro deve acolher a família, explicar de maneira compreensível sobre a unidade e o RN, esclarecer as suas dúvidas e mostrar-se disponível a ouvi-la.

Outro estudo confirma que, na admissão do RN na UTIN, inicia-se também o acolhimento da família, quando, então, são informados sobre o estado de saúde do RN, orienta-se sobre as rotinas da unidade e são respondidas as suas dúvidas(20). Os pais necessitam saber sobre as rotinas da UTIN, dispositivos médicos e a condição de saúde do filho, o que pode amenizar o medo do desconhecido, sua ansiedade sobre a incerteza da situação, seus sentimentos de exclusão e de impotência(21).

Ainda, o enfermeiro deve intermediar o primeiro contato da família com o RN, oportunizando que o familiar possa tocá-lo e, o mais breve possível, pegá-lo no colo. O contato inicial entre mãe e RN é importante para o desenvolvimento físico, psíquico e intelectual da criança. A internação do RN em UTIN pode comprometer o vínculo frágil criado entre eles. O contato físico, seja por meio do toque, colo ou método canguru, tem sido citado como necessário para os pais desenvolverem vínculo e o seu papel parental(22,23).

Condições para favorecer a presença da família na UTIN devem ser implementadas, tais como: livre acesso dos pais, horários flexíveis para os demais membros da família, acolhimento e comunicação efetiva. Estudo realizado em uma UTIN da Nova Zelândia apontou que não ter uma política de visitação irrestrita para os pais e não ter onde deixar os outros filhos dificulta a presença deles na unidade(24).

Para planejar um cuidado coerente é fundamental conhecer a família. Dessa forma, na fase conhecendo-nos, busca-se conhecer a família, suas expectativas e preocupações em relação à hospitalização do RN na UTIN, suas condições de vida e de saúde, seu apoio social. É preciso ouvi-la com sensibilidade, respeito e disponibilidade, pois essa fase envolve muito mais do que fazer um histórico familiar, trata-se de ouvir o que cada membro da família tem a compartilhar no momento. Outros modelos(15,25) apresentam, entre as suas fases, aquela em que o enfermeiro busca conhecer o ser cuidado, confirmando a importância dessa fase para um modelo.

Ademais, nessa fase, o enfermeiro faz-se conhecer, expondo qual o seu papel e as suas atribuições para a família, explicando como poderá auxiliá-la. Em estudo constatou-se que os pais não sabiam quem eram os enfermeiros e nem as atribuições destes(26). Assim, é preciso que os enfermeiros se apresentem à família, que esta saiba quais são as atribuições desses profissionais e o papel deles dentro da equipe multiprofissional, contribuindo, assim, para a visibilidade da Enfermagem dentro da unidade.

Na fase conectando-nos, busca-se estabelecer vínculo com a família, pois se sabe que isso é fundamental para o desenvolvimento do CCF(7). Esse vínculo pode ser construído por meio da disponibilidade do enfermeiro em ouvir a família, acolhendo suas expectativas e angústias, valorizando o seu conhecimento, valores, crenças e origens culturais, criando condições para que ela participe dos cuidados e do processo de tomada de decisão envolvendo o RN e/ou compartilhando abertamente as informações. Quando os pais se sentem apoiados e confiam nos profissionais de saúde, isso diminui o estresse gerado pela internação em UTIN e aumenta a sua confiança e capacidade em cuidar do seu filho(27).

Na fase reconhecendo as necessidades e pontos fortes da família, o enfermeiro estabelece quais são as prioridades de cuidado dos familiares, a partir das informações obtidas nas fases ambientando-se e conhecendo-nos. Por meio do diálogo, ele compartilha com a família as suas impressões sobre o que acredita ser uma prioridade para ela no momento, ouvindo-a com atenção e respeito, a fim de saber se ela concorda ou não com o que lhe foi exposto, ou ainda, se, na opinião dela existe algo mais importante. Quando se busca um CCF, é preciso ter em mente que as perspectivas e escolhas da família devem sempre ser ouvidas e respeitadas(1). É igualmente importante nessa fase reconhecer quais são as estratégias de enfrentamento e pontos fortes da família, que podem ser incentivados e fortalecidos, a fim de auxiliá-la a superar os desafios decorrentes da hospitalização do RN na UTIN.

Na fase desenvolvendo o cuidado em parceria com a família, busca-se definir com a família as estratégias que serão utilizadas para atender as suas necessidades de cuidado bem como fortalecer seus pontos fortes. A depender da necessidade de cuidado da família, as estratégias podem ser implementadas por ela mesma, pelo enfermeiro conjuntamente com a família, ou ainda, por outros integrantes da equipe multiprofissional.

Os estudos concentram-se na parceria que deve ser desenvolvida com os pais para que eles possam realizar os cuidados do RN, contribuindo, assim, para o desenvolvimento de suas competências, diminuindo o medo e a insegurança de cuidar do filho em casa(2,28,29). Entretanto, a parceria que se almeja na presente fase é aquela que vai além dos cuidados do RN, é a que busca atender às necessidades da família, considerando a sua individualidade e o contexto em que está inserida. Somente assim se atende ao que o CCF se propõe, que é cuidar da família, envolvendo os seus membros no planejamento e na execução dos cuidados(1).

A fase repensando o processo ocorre quando o enfermeiro avalia conjuntamente com a família se as estratégias implementadas na fase anterior atenderam às suas necessidades de cuidado, se são necessárias mudanças e/ou adequações, ou ainda, se novas demandas podem ter surgido. Sabe-se que a internação do RN na UTIN é marcada por incertezas e que a sua condição pode se alterar a qualquer momento, devendo o enfermeiro estar sensível a isso, a fim de auxiliar a família na s mudanças(19).

As limitações do estudo referem-se à coleta dos dados ter sido realizada de maneira remota e em um cenário de estudo no sul do Brasil. Como contribuições para o avanço do conhecimento científico para a área de saúde e enfermagem destaca-se que o modelo de cuidado construído no estudo é uma ferramenta inovadora para a difusão do CCF em UTIN, sendo que a sua metodologia do cuidado oferece elementos que podem guiar os profissionais de enfermagem no cuidado das famílias no ambiente do intensivismo neonatal, de uma maneira simples e adaptável à realidade de cada serviço de saúde. Além disso, o estudo possibilita a visibilidade necessária para o fato de que, para desenvolver um cuidado de qualidade, humanizado e participativo às famílias de RN hospitalizados em UTIN, é necessário que teoria e prática caminhem lado a lado.

CONCLUSÃO

O AMCORE é constituído pelos conceitos de família, RN, CCF, enfermagem, UTIN e saúde-doença, por pressupostos que têm por base um referencial teórico-prático e uma metodologia do cuidado composta por seis fases, que busca sistematizar o cuidado às famílias nas UTIN. É representado por um diagrama e tem por objetivo não só guiar a prática de enfermeiros de unidades neonatais no que se refere ao cuidado da família, mas também a formação de futuros profissionais, objetivando que os preceitos do CCF sejam cada vez mais difundidos e implementados na prática.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado em um Repositório de Dados: http://repositorio.ufsm.br/handle/1/29428.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Ivone Evangelista Cabral

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Set 2025
  • Aceito
    15 Dez 2025
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