Open-access Efeitos da irradiação intravascular com laser na carga viral e linfócitos T em pessoas vivendo com HIV/aids

RESUMO

Objetivo:  Avaliar a eficácia da irradiação intravascular de sangue com laser na redução da carga viral e aumento de LT-CD4+ e LT-CD8+ em pessoas vivendo com HIV/aids.

Método:  Ensaio clínico randomizado, controlado, paralelo e uni-cego. Vinte e oito participantes foram alocados nos grupos intervenção (ILIB n= 15) e controle (CTRL n= 13). O grupo ILIB recebeu irradiação com laser vermelho (660nm), aplicado sobre a artéria radial (30 minutos/dia por 20 dias), com energia total de 180 J. O grupo CTRL recebeu intervenção simulada (sem emissão de luz). Carga viral e contagens de LT-CD4+ e LT-CD8+ foram avaliadas ao final.

Resultados:  Ambos os grupos apresentaram redução da carga viral (ILIB: −1,7 log; CTRL: −2,3 log). No grupo ILIB, 61,5% dos participantes atingiram carga viral indetectável (p = 0,449). Não houve aumento na contagem de LT CD4+ (p = 0,287), mas uma redução não significativa na contagem de LT CD8+ foi observada no grupo ILIB (p = 0,173). Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos para nenhum desfecho (p > 0,17). O estudo foi interrompido prematuramente durante a análise interina.

Conclusão:  A ILIB, como terapia adjuvante à TARV, não apresentou superioridade clínica ou estatística nos parâmetros imunológicos e virológicos avaliados.

Registro de Ensaio (ReBEC):  RBR-7j9rv5d (https://ensaiosclinicos.gov.br/trial/10848)

DESCRITORES:
Terapia com Luz de Baixa Intensidade; HIV; Síndrome de Imunodeficiência Adquirida; Contagem de Linfócitos; Carga Viral

ABSTRACT

Objective:  To evaluate the effectiveness of intravenous laser irradiation of blood in reducing viral load and increasing LT-CD4+ and LT-CD8+ in people living with HIV/AIDS.

Method:  Randomized, controlled, parallel, single-blind clinical trial. Twenty-eight participants were allocated to the intervention (ILIB n = 15) and control (CTRL n = 13) groups. The ILIB group received irradiation with red laser (660 nm), applied to the radial artery (30 minutes/day for 20 days), with a total energy of 180 J. The CTRL group received a sham intervention (without light emission). Viral load and LT-CD4+ and LT-CD8+ counts were assessed at the end.

Results:  Both groups showed a reduction in viral load (ILIB: −1.7 log; CTRL: −2.3 log). In the ILIB group, 61.5% of participants achieved an undetectable viral load (p = 0.449). There was no increase in CD4+ LT count (p = 0.287), but a non-significant reduction in CD8+ LT count was observed in the ILIB group (p = 0.173). There were no statistically significant differences between groups for any outcome (p > 0.17). The study was stopped prematurely during the interim analysis.

Conclusion:  ILIB, as an adjuvant therapy to ART, did not show clinical or statistical superiority in the immunological and virological parameters evaluated.

Brazilian Registry of Clinical Trials (ReBEC):  RBR-7j9rv5d (https://ensaiosclinicos.gov.br/trial/10848)

DESCRIPTORS:
Low-Level Light Therapy; HIV; Acquired Immunodeficiency Syndrome; Lymphocyte Count; Viral Load

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar la eficacia de la irradiación intravascular de sangre con láser en la reducción de la carga viral y el aumento de LT-CD4+ y LT-CD8+ en personas viviendo con VIH/sida.

Método:  Ensayo clínico aleatorizado, controlado, paralelo y simple ciego. Se asignaron veintiocho participantes a los grupos de intervención (ILIB n = 15) y control (CTRL n = 13). El grupo ILIB recibió irradiación con láser rojo (660 nm), aplicado sobre la arteria radial (30 minutos/día durante 20 días), con una energía total de 180 J. El grupo CTRL recibió una intervención simulada (sin emisión de luz). Al final se evaluaron la carga viral y los recuentos de LT-CD4+ y LT-CD8+.

Resultados:  Ambos grupos presentaron una reducción de la carga viral (ILIB: −1,7 log; CTRL: −2,3 log). En el grupo ILIB, el 61,5% de los participantes alcanzaron una carga viral indetectable (p = 0,449). No hubo aumento en el recuento de LT CD4+ (p = 0,287), pero se observó una reducción no significativa en el recuento de LT CD8+ en el grupo ILIB (p = 0,173). No hubo diferencias estadísticamente significativas entre los grupos para ningún resultado (p > 0,17). El estudio se interrumpió prematuramente durante el análisis provisional.

Conclusión:  La ILIB, como terapia adyuvante al TARV, no mostró superioridad clínica ni estadística en los parámetros inmunológicos y virológicos evaluados.

Registro del ensayo (ReBEC):  RBR-7j9rv5d (https://ensaiosclinicos.gov.br/trial/10848)

DESCRIPTORES:
Terapia por Luz de Baja Intensidad; VIH; Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida; Recuento de Linfocitos; Carga Viral

INTRODUÇÃO

Embora existam terapias promissoras associadas à cura do HIV, não há evidências suficientes para afirmar isso. Ainda não existe cura para a infecção pelo HIV, mas a atual terapia antirretroviral (TARV) é eficaz. O objetivo do tratamento é inibir a replicação do vírus no organismo; preservar/restaurar o sistema imunológico; reduzir a probabilidade de surgimento de cepas virais mais resistentes; diminuir as taxas de morbidade, mortalidade e hospitalização; diminuir o risco de desenvolver doenças oportunistas e aumentar a duração e a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) (PVHA)(1). Este tratamento tem um grande impacto na sobrevida das PVHA, alterando assim a caracterização epidemiológica do HIV/aids(1).

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para o Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos do Ministério da Saúde afirma que o objetivo do acompanhamento e tratamento é atingir uma carga viral (CV) indetectável(2). Porém, mesmo com a TARV e o acompanhamento, algumas PVHA não atingem esse nível, o que pode ocorrer devido à má adesão ao tratamento e à resistência viral(3).

Uma estratégia sugerida para alcançar uma CV indetectável em PVHA é a utilização da irradiação intravascular de sangue com laser, do inglês intravenous laser irradiation of blood (ILIB), como alternativa terapêutica adjuvante.

Os lasers, desde sua criação, passaram por grande evolução tecnológica nas áreas da física e da medicina, sendo aplicados no tratamento de diversas patologias. Eles consistem em um meio ativo—sólido, líquido ou gasoso—que emite luz ao ser excitado por uma fonte de energia(4). A introdução da terapia a laser de baixa potência, em 1966, consolidou-se como a modalidade terapêutica mais investigada no campo das aplicações clínicas do laser(4).

Originalmente, a ILIB era realizada por meio de punção venosa na qual o dispositivo era acoplado. Atualmente, com o avanço tecnológico, pode ser feita de forma transcutânea, próxima aos vasos sanguíneos, ou seja, em contato com a pele, sem necessidade de punção(5). A partir disso, em 2021 foi sugerido que o termo utilizado para descrever este procedimento não invasivo fosse “fotobiomodulação vascular”(6). No entanto, ainda há divergência na literatura quanto à terminologia utilizada, com estudos referenciando como “ILIB transcutâneo”(7), “ILIB modificado”(8), “fotobiomodulação sistêmica vascular”(9), entre outros. Assim, no presente estudo, considerando-se que o termo ILIB continua a ser utilizado de maneira frequente, optamos por denominar a técnica como ILIB, de maneira mais generalizada.

A ação do ILIB atua ao modular a resposta imune, estimulando diretamente enzimas antioxidantes, como a superóxido dismutase (SOD), catalase e glutationa peroxidase(10). Essas enzimas têm a função de neutralizar os radicais livres presentes no organismo, reduzindo o estresse oxidativo, que é um fator comum em diversas condições inflamatórias e infecciosas(10).

Em pessoas vivendo com HIV, o estresse oxidativo está intensificado pela presença contínua do vírus, podendo contribuir para a progressão da doença e para o surgimento de comorbidades(11). Com isso, o ILIB pode atuar como terapia adjuvante ao modular o sistema imune e reduzir o estresse oxidativo. Esse efeito sistêmico pode favorecer a preservação das células T CD4+ e melhorar a resposta imune, contribuindo para a redução da progressão viral e de comorbidades associadas.

Estudos clínicos mostram efeitos positivos da ILIB na regulação da pressão arterial, glicose, triglicerídeos e colesterol(12), melhora da trombocitopenia, neutropenia e distúrbios de hemoglobina em pacientes quimioterápicos(13), proteção contra o envelhecimento ovariano, melhora da independência de pacientes pós-AVC(14), melhora de sintomas em pessoas com COVID-19 prolongada(15), dor e distúrbios do sono(16), entre outros.

Contudo, somente um estudo foi encontrado com o uso da ILIB em PVHA. Nesse estudo, a ILIB foi utilizada nas regiões dos vasos cubitais, fígado e timo, apresentando redução nos sinais e sintomas de PVHA e hepatite, aumento nas contagens de linfócitos T-CD4+ (LT-CD4+), linfócitos T-CD8+ (LT-CD8+) e linfócitos totais e diminuição da CV em participantes com infecção pelo HIV(17). Esse estudo foi realizado a partir de 1995 em pessoas que ainda não usavam TARV. E, após 1998, a ILIB foi introduzida como tratamento para algumas complicações da TARV, como náuseas, intoxicação e comprometimento do estado geral, apresentando efeitos positivos e aumento da contagem de leucócitos(17).

Os autores do estudo acreditaram que a irradiação do laser poderia interferir no ciclo celular alterado pela infecção, levando ao aumento da microcirculação sanguínea e à regeneração das células danificadas. Observou-se também que a carga viral plasmática permaneceu baixa por muito tempo após o término do tratamento com o ILIB(17).

Diante da escassez de estudos sobre ILIB em PVHA, o presente estudo teve como objetivo avaliar a eficácia da ILIB na redução da CV e no aumento da contagem de LT-CD4+ e LT-CD8+ em PVHA. A hipótese do estudo foi que PVHA submetidas a ILIB apresentariam redução da CV e aumento da contagem de LT-CD4+ e LT-CD8+.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Análise interina dos dados de um ensaio clínico randomizado, paralelo, controlado e uni-cego conduzido para verificar a eficácia da ILIB na redução da CV e no aumento da contagem de LT-CD4+ e LT-CD8+ em PVHA. A análise interina consiste em comparações entre grupos de intervenção realizadas antes da conclusão formal do estudo, geralmente antes do término do recrutamento. É frequentemente utilizada em conjunto com regras de interrupção; assim, um estudo pode ser interrompido se participantes forem expostos a risco desnecessário(18). Este estudo foi registrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC: RBR-7j9rv5d – U1111-1262-3868) em 27 de janeiro de 2021. A coleta de dados aconteceu de fevereiro de 2021 a dezembro de 2022.

Local do Estudo

O estudo foi realizado em um Serviço de Ambulatórios Especializados (SAE) de Infectologia no interior do Estado de São Paulo. O SAE de Infectologia é um serviço público integrante do Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece assistência multidisciplinar às PVHA, hepatites crônicas por vírus B e C, indivíduos com infecção pelo HTLV – I/II, indivíduos vítimas de acidentes (ocupacionais ou sexuais) com risco biológico de contrair infecções pelos agentes etiológicos citados. No período do estudo, o serviço acompanhava cerca de 1.000 PVHA.

População

Foram convidadas a participar da pesquisa todas as PVHA que faziam acompanhamento ambulatorial e que estavam com CV detectável e em mesmo esquema terapêutico da TARV.

Critérios de Seleção

Foram incluídas PVHA de ambos os sexos, com idade ≥ 18 anos, em tratamento ambulatorial, com CV detectável e tratadas com tenofovir + lamivudina + dolutegravir (independentemente do tempo de tratamento). Foram excluídas gestantes, pessoas com glaucoma, pessoas institucionalizadas e aqueles que não conseguiram preencher o formulário por comprometimento cognitivo.

Definição da Amostra e Análise Interina

Considerando a hipótese clínica de que haja melhora superior a 0,5 log da carga viral no grupo tratado, dado até 5% de dropout, alfa de 5% (unicaudal) e poder de 80%, a amostra foi estimada em 86 participantes (43 participantes em cada grupo de tratamento).

Devido à ausência de outros estudos sobre ILIB que apresentassem referências para redução da carga viral e aumento de LT-CD4+ e LT-CD8+ em PVHA, optou-se por realizar uma análise interina que foi realizada após 28 tratamentos. Nesse momento, o estudo foi interrompido (por futilidade), pois não foi identificada média de 0,5 log da carga viral superior no grupo de intervenção.

Coleta de Dados

O presente estudo incluiu 28 participantes, sendo que 24 compareceram ao ambulatório e quatro receberam visitas domiciliares de acordo com os critérios de inclusão e exclusão.

Os pesquisadores envolvidos possuem cursos de formação em laserterapia e passaram por treinamento para a padronização da aplicação do laser no estudo. A pesquisadora principal (enfermeira) realizou consulta de enfermagem para ambos os grupos que participaram da pesquisa. No primeiro dia foi aplicado um questionário sociodemográfico e foram questionados sobre o tempo de diagnóstico, doença oportunista presente ou passada, outros medicamentos utilizados e o número de vezes que se esqueceram de tomar a TARV em um mês. Também foi aplicado questionário no primeiro e no último dia de sessões para avaliar a incidência de náuseas, vômitos, fraqueza, sudorese, insônia, falta de apetite, diarreia ou outros sintomas.

Todos os participantes coletaram os exames (carga viral, LT-CD4+ e LT-CD8+) 10 dias antes do início do tratamento, pois é o tempo para que o resultado esteja disponível no Sistema de Controle de Exames Laboratoriais (Siscel) da Rede Nacional.

Todas as amostras foram coletadas por punção venosa dos membros superiores dos participantes e armazenadas em tubos com ácido etilenodiamino tetraacético (EDTA). As amostras foram processadas no equipamento Abbott M2000SP/M2000RT com extração, amplificação e detecção do material no laboratório do hospital referenciado da instituição de ensino.

Os participantes selecionados foram randomizados em dois grupos: grupo ILIB e grupo controle (CTRL). A randomização dos blocos foi realizada por pessoa externa e a sequência de randomização foi realizada por meio de software computacional.

Como se tratava de um estudo uni-cego, os participantes não foram informados sobre o tratamento que receberam. A análise dos dados foi realizada por uma terceira pessoa que desconhecia as alocações dos grupos.

Em ambiente confortável, os participantes foram convidados a sentar-se em cadeira ou se deitarem em maca, conforme sua preferência. A pressão arterial, frequência cardíaca e oximetria foram aferidas antes e ao final de todas as sessões, como parâmetro de segurança para os efeitos sistêmicos da luz. Não foram observadas alterações significativas.

Tanto os participantes quanto os pesquisadores usaram óculos de proteção. Os pesquisadores apalparam o pulso radial e uma pulseira com um dispositivo acoplado foi colocada no pulso.

O aparelho foi calibrado e configurado pela empresa apoiadora para apenas duas funções: controle e intervenção. Para a função de intervenção foi acionada a luz vermelha, com emissão de som e cronômetro de 30 minutos apresentado no display do aparelho. Para a função de controle, a luz não foi acionada, sendo exibidos no displaydo aparelho apenas a emissão sonora e o cronômetro.

O grupo ILIB recebeu tratamento com laser por 30 minutos diários durante 10 dias, exceto sábados, domingos e feriados. Após o primeiro ciclo, os participantes descansaram por 20 dias; então, o tratamento foi continuado por mais 10 dias. O grupo CTRL foi submetido ao mesmo regime, mas utilizando a técnica de radiação sem laser. O protocolo utilizado foi adaptado do protocolo ILIB tradicional para tratamentos sistêmicos, disponível no aplicativo da empresa fornecedora do dispositivo (DMC Protocolos). No protocolo original, recomenda-se uma nova pausa de 20 dias, seguida por mais 10 dias de sessões. No entanto, optamos por seguir um estudo anterior que aplicou um protocolo adaptado e obteve resultados positivos(13). Todos os participantes utilizaram o mesmo protocolo para o estudo. As sessões foram padronizadas para o período da manhã, com agendamento prévio, sendo realizadas entre 8h e 10h para todos os participantes.

Ao final dos últimos 10 dias da ILIB, foram coletadas amostras de ambos os grupos para testes de CV, LT-CD4+ e LT-CD8+; o questionário utilizado para avaliar as queixas e diferenças de perspectiva dos participantes desde o início até o final do período de tratamento foi reaplicado. Este questionário foi autoaplicado ou administrado por uma terceira pessoa que não fez parte do estudo para evitar viés de resposta.

Todos os participantes completaram 20 sessões de ILIB. Os parâmetros de irradiação utilizados neste estudo foram: Equipamento: Therapy Ilib, DMC Equipamentos®; Fonte de luz: laser (diodo); Comprimento de onda: 660nm; Potência: 100 mW; Modo de operação: contínuo; Área do “spot”: 0,0984 cm2; Tempo de irradiação: 30 minutos; Energia total: 180 J; Densidade energética: 1.830 J/cm2 ou 1,83 KJ cm2; Local de irradiação: pulso; Vaso sanguíneo: artéria radial; Acoplamento: contato com a pele; Frequência da sessão: 10 dias contínuos, intervalo de 20 dias e depois mais 10 dias.

Todos os materiais utilizados (equipamento, pulseira, óculos de proteção e almofada) foram higienizados no final de cada sessão e entre cada participante, utilizando algodão e álcool 70%, conforme recomendado pelo fabricante do equipamento.

Análise de Dados

As variáveis foram armazenadas em planilha Excel e analisadas descritivamente por meio do software da International Business Machines Corporation (IBM) – Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 25.0.

Foram utilizados testes de tendência qui-quadrado para categorização das variáveis, cujas ocorrências foram avaliadas em cada grupo e em cada momento.

O teste U de Mann-Whitney foi utilizado para comparar os dados iniciais entre os dois grupos, e um modelo linear generalizado de efeitos mistos com regressão gama foi utilizado para comparação longitudinal entre os dois grupos e para estimar os tamanhos dos efeitos.

Aspectos Éticos

O presente estudo foi aprovado (Parecer: 4.419.222) pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Medicina de Botucatu e os procedimentos foram realizados seguindo todas as normas éticas conforme Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012(19). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes do início da participação na pesquisa.

O dispositivo utilizado durante o estudo foi doado e a empresa apoiadora não interferiu em nenhum momento nos resultados desta pesquisa.

RESULTADOS

Um total de 28 participantes foi recrutado (grupo ILIB: 13 e grupo CTRL: 15). O fluxograma de acordo com Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT)(20) é mostrado na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma CONSORT dos procedimentos de inclusão, alocação, seguimento e análise da amostra da pesquisa.

Os atendimentos foram realizados em um SAE de Infectologia vinculado ao SUS. A totalidade dos participantes era usuária exclusiva do sistema público de saúde, o que pode ser atribuído ao fato de que PVHA com acesso a planos de saúde tendem a buscar atendimento em serviços privados. Esse aspecto ajuda a explicar o perfil sociodemográfico observado na amostra, caracterizado por baixa escolaridade e baixa renda. Os dados demográficos são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1
Distribuição dos pacientes segundo características sociodemográficas – Botucatu, SP, Brasil, 2021–2022.

A Tabela 2 mostra as queixas que os participantes apresentaram no primeiro e no último dia de tratamento. Houve uma melhora em todas as queixas relatadas, mas não estatisticamente significativa.

Tabela 2
Questionário inicial e final referente às queixas (n = 28) – Botucatu, SP, Brasil, 2021–2022.

Não houve diferenças nas características basais dos participantes. A Tabela 3 apresenta as 20 sessões anteriores e posteriores das intervenções. Não houve diferenças entre os grupos em relação a LT-CD4+, LT-CD8+ e CV após as intervenções (p > 0,17). Observou-se redução não significativa nos valores de LT-CD8+ no grupo ILIB ao final do tratamento. Ambos os grupos reduziram a CV, sendo que 40% dos participantes do grupo CTRL e 61,5% do grupo ILIB atingiram CV indetectável ao final do tratamento (p = 0,449).

Tabela 3
Valores de LT-CD4+, LT-CD8+ e CV antes e depois do tratamento (n = 28) – Botucatu, SP, Brasil, 2021–2022.

A Tabela 4 mostra a avaliação individual relacionada ao aumento ou diminuição dos valores de LT-CD8+ e com carga viral indetectável ao final do protocolo. Observou-se que dos sete pacientes que apresentaram queda de LT-CD8+ no grupo ILIB, cinco estavam com carga viral indetectável e, desses cinco, três estavam com doença oportunista durante o tratamento.

Tabela 4
Distribuição dos participantes do estudo em relação à LT+CD8+, carga viral indetectável e doença oportunista (n = 28) – Botucatu, SP, Brasil, 2021–2022.

Diante dos resultados encontrados, e a inviabilidade de continuar com o protocolo de tratamento, o estudo foi interrompido prematuramente durante a análise interina.

DISCUSSÃO

Até o momento, este foi o primeiro ensaio clínico randomizado, paralelo, controlado e uni-cego que verificou a eficácia da ILIB, usada junto com a TARV, na redução da CV e no aumento da contagem de LT-CD4+ e LT-CD8+ em PVHA. Após 20 sessões, não houve diferenças significativas nas alterações de LT-CD4+, LT-CD8+ e CV entre os grupos ILIB e CTRL.

Em nosso estudo, observou-se que os participantes do grupo ILIB que apresentaram redução na contagem de LT-CD8+, em sua maioria, possuíam carga viral (CV) indetectável. No entanto, também desenvolveram doenças oportunistas durante o tratamento, o que pode justificar a diminuição dos LT-CD8+. Estudos anteriores sugerem que fatores como idade avançada, baixas contagens de LT-CD4+ no início da terapia antirretroviral ou o uso de drogas injetáveis podem estar associados à não resposta imunológica adequada(21,22,23). Além disso, vacinas podem interferir temporariamente nos níveis de LT-CD4+, que tendem a se normalizar entre duas e seis semanas após a administração(24).

Espera-se que a CV seja indetectável dentro de seis meses após o início da TARV(25). No presente estudo, a maioria dos participantes de ambos os grupos apresentou CV indetectável ao final do tratamento.

Algumas pessoas não atingem uma CV indetectável, o que pode ser devido à falta de adesão ao tratamento ou à falha virológica(3). Um dos motivos da falta de adesão ao tratamento é a ocorrência de reações adversas relacionadas à TARV, como náuseas, vômitos, cefaleia, insônia, entre outras(26). No presente estudo, as PVHA relataram melhora das queixas gerais após a terapia com ILIB.

Também evidenciou-se no grupo CTRL, melhora da fraqueza e do sono. Esses resultados observados no grupo não tratado podem ser atribuídos à expectativa do participante, à experiência do tratamento e ao fato de terem recebido cuidados(27). Muitos fatores podem afetar os resultados do tratamento, a qualidade do atendimento, a memória, o local onde o tratamento foi realizado e a interação paciente-profissional(28,29,30).

A Sociedade para Estudos Interdisciplinares de Placebo (Society for Interdisciplinary Placebo Studies) definiu os “efeitos” do placebo como alterações específicas decorrentes do regime placebo, tais como mecanismos de expectativa neurobiológicos e psicológicos; entretanto, a “resposta” ao placebo foi definida como alterações na saúde do paciente como resultado do uso de placebo, com regressão do curso natural da doença(31).

Este estudo apresenta algumas limitações. Primeiramente, enfrentaram-se dificuldades no recrutamento de participantes elegíveis devido ao protocolo adotado, que consistia em 10 sessões realizadas em dias consecutivos, seguidas por uma pausa de 20 dias, e posteriormente mais 10 sessões consecutivas, inviabilizando a participação de muitas PVHA. Vale lembrar que a renda per capita dos participantes foi de 1.122,85 reais, que evidencia a vulnerabilidade social do grupo.

Embora esse protocolo seja recomendado pela empresa fornecedora do dispositivo para atuação no sistema imunológico, mostrou-se inviável para a realidade do presente estudo. Por outro lado, pesquisas que empregaram a ILIB com frequência de duas sessões semanais relataram efeitos positivos(1232), o que pode representar uma alternativa viável para melhorar a adesão e aumentar o número de participantes num futuro estudo. Ressalta-se que não foi adotado um protocolo padronizado com base no biotipo corporal dos participantes. Além disso, a literatura ainda carece de recomendações específicas que relacionem biotipo corporal à definição do tempo de aplicação e da dosimetria, sendo os estudos existentes inconclusivos(33,34,35).

Em segundo lugar, o número de indivíduos com CV detectável na amostra foi relativamente pequeno, visto que a maioria das pessoas inicia a TARV logo após o diagnóstico e apresenta CV indetectável. Além disso, os participantes com CV detectável frequentemente já apresentavam baixa adesão à TARV, fator que também impactou negativamente na adesão ao protocolo do estudo.

Por fim, outra limitação foi que os participantes não foram questionados, em todas as sessões, sobre a presença de sintomas indicativos de infecção ou histórico recente de vacinação. Esses fatores podem ter contribuído para a redução nas contagens de LT-CD4+ e LT-CD8+ observada em alguns casos, sendo uma possível variável de confusão nos resultados. Contudo, também não foi avaliado se as participantes do sexo biológico feminino estavam em diferentes fases do ciclo menstrual durante o tratamento. Estudo indica que as flutuações hormonais ao longo do ciclo podem modular a imunidade, com evidências de redução transitória na contagem de linfócitos T durante a menstruação, especialmente em mulheres HIV-positivas, o que pode influenciar a resposta imunológica e a interpretação de parâmetros laboratoriais(36).

Por outro lado, como contribuições do presente estudo, sugerem-se protocolos aplicáveis em contextos clínicos, com a adoção de abordagens com menor número de sessões e avaliações clínicas mais detalhadas dos participantes quanto a quaisquer sintomas de infecções, estado vacinal ou falta de resposta imunológica para justificar o melhor controle das contagens de LT-CD4+ e LT-CD8+.

CONCLUSÃO

Não houve diferenças nos valores de LT-CD4+, LT-CD8+ e carga viral em PVHA que receberam ILIB como tratamento adjuvante à TARV.

Entretanto, os participantes tratados que apresentaram redução na contagem de CD8+ apresentaram CV indetectável.

Considerando a escassez de estudos clínicos que avaliaram PVHA submetidas à ILIB, entende-se que a realização de outros estudos com protocolos aplicáveis em contextos clínicos com menor número de sessões, avaliações clínicas mais detalhadas dos participantes e maior amostra pode trazer resultados significativos.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente (Fabiana Tomé Ramos). O conjunto de dados não está publicamente disponível por conter informação que compromete a privacidade dos participantes da pesquisa.

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Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Márcia Regina Cubas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Jan 2025
  • Aceito
    18 Jun 2025
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