RESUMO
Introdução: A atividade física realizada no contexto ocupacional está relacionada tanto à saúde física quanto ao bem-estar dos trabalhadores. Compreender como fatores sociodemográficos influenciam esse tipo de atividade pode auxiliar na formulação de estratégias de promoção da saúde no ambiente de trabalho.
Objetivos: Analisar a relação entre aspectos sociodemográficos e a prática de atividade física no contexto ocupacional entre servidores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Métodos: Trata-se de um estudo observacional, de caráter transversal, realizado com servidores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Foram coletadas informações sobre idade, sexo, estado civil, cor de pele, escolaridade e renda, bem como dados sobre frequência, intensidade e duração da atividade física ocupacional. As análises incluíram testes de qui-quadrado, análise de variância e teste post hoc de Tukey para a comparação entre grupos.
Resultados: Observou-se maior participação masculina em atividades físicas ocupacionais, além de maior média de tempo dedicado a essas tarefas entre trabalhadores com menor escolaridade e renda. Servidores mais velhos apresentaram maior tempo de exposição a atividades físicas ocupacionais. Também foram identificadas diferenças associadas à cor de pele, indicando potenciais desigualdades estruturais no ambiente de trabalho.
Conclusões: Os resultados demonstram que fatores sociodemográficos influenciam de forma significativa a participação e a intensidade da atividade física ocupacional. A identificação de grupos mais expostos a elevadas cargas físicas pode orientar políticas institucionais voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças ocupacionais e melhoria das condições de trabalho, com enfoque na equidade e inclusão.
Palavras-chaves
promoção da saúde; fatores sociodemográficos; saúde ocupacional; exercício físico.
ABSTRACT
Introduction: Physical activity performed in the occupational context is related to both physical health and workers’ well-being. Understanding how sociodemographic factors influence this type of activity can support the development of strategies to promote health in the workplace.
Objectives: To analyze the relationship between sociodemographic aspects and the practice of occupational physical activity among employees of the Federal Rural University of Rio de Janeiro.
Methods: This is an observational, cross-sectional study conducted with employees of the Federal Rural University of Rio de Janeiro. Data were collected on age, sex, marital status, skin color, education level, and income, as well as on the frequency, intensity, and duration of occupational physical activity. Analyses included chi-square tests, analysis of variance, and Tukey’s post hoc test to compare groups.
Results: Higher participation in occupational physical activities was observed among men, as well as a higher average time spent on such tasks among workers with lower education and income levels. Older employees showed longer exposure to occupational physical activities. Differences related to skin color were also identified, indicating potential structural inequalities in the workplace.
Conclusions: The results show that sociodemographic factors significantly influence participation in and intensity of occupational physical activity. Identifying groups more exposed to high physical demands can guide institutional policies aimed at promoting health, preventing occupational diseases, and improving working conditions, with a focus on equity and inclusion.
Keywords
health promotion; sociodemographic factors; occupational health; exercise.
INTRODUÇÃO
A atividade física (AF) corresponde a qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulte no gasto energético acima do repouso, como caminhada, dança e subida de escadas [1]. Divide-se a AF em domínios como atividade física de lazer (AFL) e atividade física ocupacional (AFO) [2], esta última realizada no trabalho, como permanecer em pé ou deslocar-se entre setores. A compreensão da AFO exige análise histórica.
Na Primeira Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, a introdução de máquinas reduziu a mão de obra artesanal, impondo ritmo intenso e fisicamente exigente, alterando o mundo do trabalho e o nível de AFO [3,4]. Já a Revolução Tecnológica, a partir do final do século XX, substituiu tarefas físicas por processos automatizados, embora setores como construção civil e logística ainda demandem esforço físico elevado, com maior produtividade, mas com riscos à saúde [5,6].
A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta a realização de 150-300 minutos semanais de AF moderada ou 75-150 minutos de AF vigorosa [7,8], sem diferenciar domínios. A AFO moderada inclui caminhar rapidamente e carregar objetos leves; já a vigorosa inclui levantar cargas pesadas e manusear estoques [2]. Embora possa melhorar a saúde cardiovascular e reduzir doenças crônicas [9], a AFO também pode gerar efeitos negativos. Demandas físicas elevadas podem causar fadiga e prejudicar a produtividade [10]. Estudos indicam haver relação entre alta AFO e pior autoavaliação de saúde, em contraste com os benefícios da AFL [10,11].
Nesse sentido, caracteriza-se o paradoxo da AF, com o domínio ocupacional podendo ser prejudicial [12,13], pois posturas estáticas e movimentos repetitivos aumentam o risco de lesões, contrariando os ganhos cardiovasculares da AFL [14]. A AFO intensa é mais comum entre pessoas de baixa renda e escolaridade e em ambientes insalubres [15]. Variáveis sociodemográficas como gênero, idade, estado civil e cor da pele podem influenciar a AFO [16,17].
No que concerne o gênero, tradicionalmente, a AFO de alta intensidade é realizada por homens [18,19]. Um estudo apontou que homens que realizam AFOs intensas apresentaram um aumento de 18% no risco de mortalidade em comparação àqueles envolvidos em AFOs de baixa intensidade [20].
Um estudo de coorte prospectivo desenvolvido na Noruega, com aproximadamente 46.000 participantes de 18 a 65 anos, observou que trabalhadores mais jovens tendem a estar mais envolvidos em AFO de nível vigoroso, enquanto os trabalhadores que se encontram na faixa etária de idosos estão mais propensos a realizarem tarefas de intensidade leve [21]. Em relação ao estado civil, um estudo transversal realizado em Salvador, na Bahia [19], com uma população de 2.305 de adultos, apontou que a proporção de AFO é maior entre as pessoas casadas, seguida pelo grupo que se autodeclarara solteiro.
Quanto à cor de pele/raça, trabalhadores não brancos costumam ocupar posições que demandam maior esforço físico [16]. No que concerne à renda e à escolaridade, níveis mais baixos geralmente estão associados a atividades ocupacionais precárias e socialmente desvalorizadas, as quais costumam ter longas jornadas de trabalho de intensidade ao menos moderada. Isso pode reduzir o tempo disponível para outras atividades e impactar negativamente a qualidade de vida [16,22].
A relação entre a AFO e as variáveis sociodemográficas supracitadas é um assunto de suma relevância para a saúde pública e a qualidade de vida dos trabalhadores. Compreender essas interações permite aprofundar o conhecimento sobre as desigualdades no ambiente de trabalho, considerando que certos grupos populacionais podem estar mais expostos a AFs intensas no trabalho, o que pode impactar sua saúde de forma diferenciada.
Para tanto, considerando os potenciais malefícios da AFO para a saúde e o bem-estar dos trabalhadores, esta pesquisa tem como objetivo analisar como aspectos sociodemográficos, como idade, sexo, estado civil, cor de pele, escolaridade e renda, estão relacionados à frequência semanal, intensidade e duração da AFO entre os servidores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
MÉTODOS
Trata-se da linha de base do estudo da coorte Estudo Longitudinal dos Determinantes da Atividade Física (ELDAF). As informações foram coletadas após a aprovação do comitê de ética em pesquisa, através de um questionário autopreenchível, totalizando uma população de 1.160 servidores de uma universidade pública, de ambos os gêneros e com a idade variando de 23 a 75 anos. Para a presente abordagem, foram excluídas 11 pessoas que não preencheram alguma relação à AFO, totalizando o público em 1.149 servidores.
Para avaliar a AF, foi utilizado o Questionário internacional de atividade física (IPAQ), tendo sido utilizado apenas o domínio de AFO para o atual estudo. Para realizar as análises, foram utilizadas as seguintes informações: frequência semanal, intensidade (moderada e/ou vigorosa) e o tempo de AFO dos servidores.
O desenvolvimento da variável sociodemográfica “faixa etária” se deu através de classificações de acordo com as seguintes informações: “Jovem”, participantes com 23 a 38 anos; “Adulto”, pessoas entre 39 a 55 anos; e “Idoso”, aqueles que se enquadram como ≥ 56 anos. Para a criação da variável contínua relacionada ao tempo de AFO, foi necessário converter as horas informadas em minutos, multiplicar os minutos de intensidade vigorosa e realizar a soma das intensidades de AFO.
Inicialmente, foi realizada uma análise descritiva das variáveis, incluindo médias, desvios padrão (DP) e valores mínimos e máximos. Além disso, o teste qui-quadrado foi utilizado para avaliar a associação entre duas variáveis categóricas. Para todas as análises, foi adotado esse parâmetro. Para avaliar as diferenças nas médias do tempo de AFO de acordo com o gênero, foi utilizado o teste t de Student. Já a análise de variância (ANOVA) foi usada para comparar as médias das seguintes variáveis: renda, profissão, escolaridade, estado civil, faixa etária, cor de pele/raça. Para determinar se pelo menos uma dessas médias difere significativamente das outras, para esta análise, foram desconsiderados os grupos que preferiram não informar sobre as variáveis no estudo. Quando necessário, o teste post hoc de Tukey foi utilizado para identificar quais grupos específicos diferem entre si, com o valor obtido de p ≤ 0,05, sinalizando, assim, que houve significância. As análises estatísticas dos dados foram realizadas por meio do software R, versão 4.3.3.
RESULTADOS
A população investigada possui as seguintes características sociodemográficas: em sua maioria, é do gênero masculino, casado(a) ou em união estável e possui alta escolaridade. Mais detalhes podem ser observados na Tabela 1.
Os resultados indicaram que, na AFO moderada, os homens relataram maior frequência semanal que as mulheres, embora a diferença não tenha sido estatisticamente significativa (p > 0,05). O mesmo padrão foi observado para outras variáveis sociodemográficas. Detalhes estão apresentados na Tabela 2.
Na AFO vigorosa, o gênero apresentou associação estatisticamente significativa (p ≤ 0,05), assim como a escolaridade, sugerindo relação entre o nível educacional e a frequência dessa prática. As demais variáveis sociodemográficas não mostraram influência significativa. Detalhes estão na Tabela 3.
Os dados de tempo de AFO mostraram diferenças significativas (p ≤ 0,05) entre variáveis sociodemográficas. Mulheres registraram média de 32±111,6 minutos, enquanto homens apresentaram 57,3±165,8 minutos (p = 0,002). Quanto à renda, indivíduos com menor nível obtiveram 63,80±178,3 minutos, frente a 34,57±115,54 minutos no nível intermediário (p = 0,02).
O estado civil não apresentou significância (p ≥ 0,05), embora casados/em união estável tenham média maior (50,6±156,8 minutos). Também sem significância, docentes tiveram média de 38±115,8 minutos, e técnicos administrativos de 52,7±164,6 minutos.
Na escolaridade, houve significância (p = 0,0001), destacando diferença entre ensino fundamental e ensino superior (p = 0,002) e pós-graduação (p = 0,006). Médias: ensino fundamental de 146,19±270, médio de 92,84±238,5, superior de 25,59±78,68 e pós-graduação de 42,52±133,31 minutos. A idade também foi significativa (p = 0,001), com idosos apresentando maior média de 68,27±175,113 minutos em comparação aos adultos (p = 0,006).
Quanto à cor de pele, não houve significância (p ≥ 0,05). As maiores médias foram registradas entre pessoas negras (57,712±174,103 minutos), seguidas por amarelas (54±150,864) e pardas (53,87±161,14 minutos). Mais detalhes estão presentes na Tabela 4.
DISCUSSÃO
Este estudo analisou aspectos sociodemográficos e a frequência, intensidade e duração da AFO entre servidores da UFRRJ, evidenciando que variáveis como gênero, renda, idade, escolaridade e profissão influenciam sua exposição.
Homens realizaram mais AFO, independentemente da intensidade e duração, achado compatível com outro estudo [19]. Questões culturais e de gênero, associando o trabalho braçal ao masculino, explicam parte dessa diferença. Setores como construção civil e indústria pesada, historicamente dominados por homens, reforçam esse padrão. A predisposição dos homens a realizarem mais AF no ambiente ocupacional também pode ser influenciada por questões culturais e construções de gênero. Historicamente, homens são socializados para desempenhar papéis que envolvem maior esforço físico, enquanto as mulheres frequentemente ocupam funções relacionadas ao cuidado e tarefas domésticas, mesmo que estas também envolvam AF intensas.
Servidores de menor renda apresentaram maiores médias e frequências de AFO, resultado semelhante ao descrito em outros trabalhos [15,23]. Idosos tiveram maior tempo médio e frequência semanal, diferindo do estudo de Dalene et al. [21], que apontou jovens mais ativos ocupacionalmente. Intervenções de AFL nesse grupo podem trazer benefícios à saúde e à produtividade [12]. A baixa escolaridade também se associou a mais AFOs, como em Oliveira et al. [15]. Quanto à profissão, os técnicos administrativos apresentaram maiores médias e frequências do que docentes, com esses três estando possivelmente conectados devido a salários menores e tarefas mais físicas, assim como a exigência de ensino fundamental ou médio para o ingresso pode concentrar características sociodemográficas específicas nesse grupo.
No que diz respeito ao estado civil, os servidores casados ou em união estável apresentaram a maior média de tempo de AFO. No entanto, quando analisada a frequência semanal, as pessoas viúvas demonstraram maior envolvimento, tanto em atividades de intensidade moderada quanto vigorosa. Um estudo [19] corroborou essa observação, revelando que o grupo com a maior participação quanto à prática de AFO era composto por indivíduos casados ou que mantinham união estável.
As médias podem sugerir que o estado civil pode influenciar a quantidade de tempo dedicado à AF.
Quanto à cor de pele, não brancos registraram maiores médias, possivelmente por ocuparem cargos que demandam esforço físico e exigem menor escolaridade. Considerando que o ingresso na universidade por parte dos servidores acontece através de concurso público, a seleção acaba privilegiando as pessoas com melhor formação educacional. Uma das formas de minimizar esse problema foi a inserção da lei de cotas, que reserva um percentual das vagas dos concursos públicos para pessoas pretas, pardas e indígenas. Entretanto, é possível que muitos dos servidores não brancos não tenham ingressado através dessa lei. Sendo assim, é plausível ponderar que os cargos que exigem menor escolaridade fossem preenchidos por pessoas não brancas. Por esse motivo, o tempo dedicado na AFO a tarefas que excedem os níveis basais pode ser mais provável entre as pessoas não brancas.
A diversidade dentro de cada grupo e a influência do racismo estrutural no ambiente de trabalho, incluindo microagressões e desvalorização ocupacional [24], reforçam a importância de considerar fatores socioeconômicos e culturais na análise da AFO. Essas disparidades evidenciam a necessidade de políticas que promovam equidade e saúde no trabalho.
CONCLUSÕES
O presente estudo revelou nuances importantes sobre a AFO dos servidores da UFRRJ, evidenciando que aspectos sociodemográficos influenciam diretamente a sua participação e intensidade. Os resultados apontam que homens tendem a se engajar mais em AFOs do que mulheres, indicando a necessidade de refletir sobre estereótipos de gênero que ainda atravessam o ambiente de trabalho. Da mesma forma, trabalhadores com menor renda e escolaridade apresentaram maiores médias de AFO, o que reafirma as desigualdades socioeconômicas associadas ao tipo de ocupação e às demandas físicas laborais.
A relação com a faixa etária mostrou que trabalhadores mais velhos realizam tarefas fisicamente exigentes por um tempo maior, o que desafia percepções comuns sobre envelhecimento laboral e reforça a importância de políticas voltadas ao bem-estar dessa população. A variável cor de pele, por sua vez, traz à tona reflexões sobre racismo estrutural e discriminações sutis que podem influenciar a distribuição das tarefas e as vivências no ambiente de trabalho, indicando a necessidade de aprofundamento em futuras pesquisas.
Este estudo contribui para ampliar o debate sobre como estruturas sociais moldam a experiência da AFO e reforça que intervenções em saúde ocupacional devem considerar as particularidades de cada grupo. Ademais, compreender como as demandas físicas recaem de forma desigual sobre trabalhadores pode ajudar a identificar situações em que uma variável sociodemográfica se sobrepõe à outra, como a sobrecarga de tarefas dirigida a determinados grupos. Tais condições podem afetar o desempenho e o bem-estar no trabalho.
Também se destaca a relevância de ações preventivas, como atividades físicas breves e alongamentos guiados, que podem reduzir dor, fadiga e impactos decorrentes da AFO. Essas estratégias, aliadas à otimização das tarefas ocupacionais, contribuem para o bem-estar físico e mental dos trabalhadores.
Por fim, os achados deste estudo são relevantes para a formulação ou adaptação de políticas de saúde ocupacional. Ao identificar grupos mais expostos a cargas físicas elevadas ou inadequadas, é possível propor intervenções mais eficazes na prevenção de doenças ocupacionais e na promoção de um ambiente de trabalho mais saudável para os servidores da UFRRJ.
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Fonte de financiamento:
Nenhuma
Declaração de Dados:
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Sergio Roberto de Lucca
