Open-access Gestão hospitalar e riscos psicossociais: desafios e oportunidades frente à transição normativa

Resumo

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, do Ministério do Trabalho e Emprego, representa um avanço ao reconhecer formalmente os riscos psicossociais como parte integrante dos riscos ocupacionais. Essa mudança exige que as organizações adotem novas práticas voltadas à prevenção do adoecimento, por meio de avaliações mais abrangentes dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho. Este estudo realizou uma revisão integrativa com o objetivo de analisar como os riscos psicossociais têm sido abordados na produção científica relacionada ao gerenciamento de riscos hospitalares. Foram incluídos nove artigos publicados entre 2019 e 2025. Desses, cinco abordaram diretamente os riscos psicossociais, embora o ambiente hospitalar seja reconhecido como um contexto crítico em relação ao sofrimento mental dos trabalhadores. Observou-se limitação no uso de instrumentos validados para a avaliação desses riscos. A nova redação da norma pode atuar como catalisadora de mudanças estruturais nas práticas de gestão de riscos, promovendo estratégias mais integradas que considerem aspectos técnicos, subjetivos e relacionais do ambiente de trabalho. Conclui-se que, embora os riscos psicossociais sejam reconhecidos no campo teórico, sua incorporação prática nas instituições hospitalares ainda ocorre de forma incipiente. Recomenda-se o fortalecimento de políticas institucionais e a realização de estudos futuros que avaliem os impactos das mudanças normativas na realidade hospitalar brasileira.

Palavras-chave
saúde mental; legislação trabalhista; gestão de riscos; hospitais; saúde ocupacional.

Abstract

The update of Regulatory Standard No. 1 issued by the Brazilian Ministry of Labor and Employment represents progress by formally recognizing psychosocial risks as an integral part of occupational risks. This change requires organizations to adopt new practices aimed at preventing illness through more comprehensive assessments of psychosocial risks present in the workplace. This study conducted an integrative review with the objective of analyzing how psychosocial risks have been addressed in the scientific literature related to hospital risk management. Nine articles published between 2019 and 2025 were included. Of these, five directly addressed psychosocial risks, although the hospital environment is recognized as a critical context regarding workers’ mental suffering. Limitations were observed in the use of validated instruments for assessing these risks. The new wording of the standard may act as a catalyst for structural changes in risk management practices, promoting more integrated strategies that consider technical, subjective, and relational aspects of the work environment. It is concluded that, although psychosocial risks are recognized in the theoretical field, their practical incorporation into hospital institutions still occurs incipiently. Strengthening institutional policies and conducting future studies to evaluate the impacts of regulatory changes on the Brazilian hospital reality are recommended.

Keywords
mental health; legislation; labor; risk management; hospitals; occupational health.

INTRODUÇÃO

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), estabelece os requisitos para o gerenciamento de riscos ocupacionais e orienta medidas de prevenção em Segurança e Saúde no Trabalho (SST), constituindo referência normativa para os diferentes contextos laborais no Brasil. Recentemente, a NR-1 passou por uma atualização significativa, resultante de discussões conduzidas no Grupo de Estudos Tripartite, alinhadas às diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde [1-3]. Entre as principais alterações, destaca-se o reconhecimento formal dos riscos psicossociais como parte integrante dos riscos ocupacionais. Isso é evidenciado no seguinte excerto da norma [2:5]: “o gerenciamento de riscos ocupacionais deve abranger os riscos que decorrem dos agentes físicos, químicos, biológicos, riscos de acidentes e riscos relacionados aos fatores ergonômicos, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho”.

Essa mudança normativa representa uma transição significativa na forma como a sociedade brasileira compreende e enfrenta os riscos psicossociais no ambiente laboral. Até então, esses riscos eram frequentemente tratados como invisíveis ou secundários em comparação a outros agravos ocupacionais que, por sua tangibilidade, eram mais facilmente observados e mensurados. A formalização de sua inclusão na NR-1 amplia o debate sobre os modelos tradicionais de gestão de riscos e desafia gestores e equipes de saúde ocupacional a adotarem abordagens mais complexas, nas quais as relações interpessoais, a organização do trabalho e a saúde mental assumem papel central [4].

Os riscos psicossociais foram definidos pela OIT, em 1986, como o resultado da interação entre aspectos do trabalho, incluindo ambiente, conteúdo, condições e relações interpessoais, e características individuais dos trabalhadores, como capacidades, necessidades e contexto sociocultural. Essa interação, mediada pelas percepções e experiências dos indivíduos, pode representar risco à medida que afeta a saúde, o desempenho e a satisfação no trabalho [5]. O Psychosocial Risk Management Excellence Framework descreve exemplos desses fatores, como exposição contínua a pessoas em razão do trabalho, elevada pressão temporal, trabalho noturno, falta de controle sobre a carga de trabalho, comunicação deficiente, estagnação profissional e ausência de apoio familiar [6]. Nesse contexto, a incorporação dos riscos psicossociais à NR-1 representa não apenas uma adaptação técnica, mas também uma mudança de paradigma na gestão ocupacional.

Outra alteração relevante foi a integração entre a NR-1 e a NR-17 (Ergonomia), reforçando os fatores psicossociais como componentes da organização do trabalho. Essa integração evidencia que a identificação e a avaliação dos riscos psicossociais devem considerar a atividade real desempenhada pelos trabalhadores, e não apenas as tarefas formalmente prescritas. A avaliação pode ocorrer de forma qualitativa, fundamentada na observação técnica e na experiência dos profissionais de SST, com apoio de instrumentos validados, desde que aplicados adequadamente. Esse processo não deve ser confundido com avaliações clínicas individuais, pois seu foco recai sobre as condições de trabalho e não sobre o estado de saúde dos trabalhadores [1].

O ambiente hospitalar, especialmente no contexto da enfermagem, destaca-se como um dos mais críticos em relação ao adoecimento e ao sofrimento mental relacionados ao trabalho [7]. A literatura científica aponta de forma recorrente a presença de riscos psicossociais nesse setor [8,9], realidade intensificada após a pandemia de covid-19. Embora diversas estratégias de promoção da saúde mental tenham sido implementadas, observa-se predominância de abordagens centradas no indivíduo, com limitada ênfase nos aspectos coletivos e organizacionais do trabalho, além de reduzida participação dos empregadores nas intervenções propostas [10].

Nesse cenário, a atualização da NR-1 representa um avanço relevante ao incorporar explicitamente os riscos psicossociais como objeto do gerenciamento institucional. Essa mudança está em consonância com diretrizes internacionais voltadas à formulação de estratégias organizacionais para promoção da saúde mental no trabalho [11] e propõe uma nova perspectiva de enfrentamento institucional e preventivo. Cabe destacar que versões anteriores da norma já apontavam avanços importantes, como a incorporação de medidas de prevenção e combate ao assédio sexual e a outras formas de violência laboral, conforme estabelecido pela Portaria nº 4.219 do Ministério do Trabalho e Previdência [12]. Entretanto, a nova redação amplia a compreensão sobre a corresponsabilização organizacional no adoecimento mental dos trabalhadores.

Diante da recente atualização da NR-1, torna-se relevante refletir sobre os possíveis impactos de sua implementação no contexto hospitalar, no qual os riscos psicossociais se manifestam de forma complexa e ainda pouco sistematizada no campo da gestão de riscos. Este estudo apresenta relevância social e acadêmica ao analisar como esses riscos vêm sendo abordados na produção científica anterior à mudança normativa, buscando oferecer subsídios para futuras adequações institucionais e para o fortalecimento do arcabouço teórico relacionado à gestão de riscos ocupacionais em hospitais. Assim, este estudo tem como objetivo analisar como os riscos psicossociais têm sido incorporados à produção científica sobre o gerenciamento de riscos hospitalares.

MÉTODOS

Foi adotado o delineamento metodológico de revisão integrativa, contemplando as etapas de identificação do problema, pesquisa e triagem bibliográfica, avaliação e análise dos dados, e apresentação da revisão [13]. Os resultados foram descritos conforme as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), com o objetivo de garantir maior qualidade e transparência ao processo de revisão [14]. Os itens da lista de verificação considerados não aplicáveis ao delineamento de revisão integrativa foram desconsiderados, uma vez que o PRISMA foi originalmente desenvolvido para revisões sistemáticas voltadas a intervenções em saúde.

O protocolo da revisão integrativa foi registrado no Center for Open Science por meio do OSF Registries, em setembro de 2024, e atualizado em janeiro de 2026 para ampliação e atualização da estratégia de busca. O protocolo pode ser consultado integralmente por meio do DOI 10.17605/OSF.IO/MJPV4.

O estudo foi conduzido a partir da seguinte questão norteadora: “Como os riscos psicossociais têm sido incluídos na produção científica sobre o gerenciamento de riscos ocupacionais para trabalhadores da saúde no contexto hospitalar?”. A elaboração da questão baseou-se no mnemônico PCC, em que: população (P) correspondeu aos trabalhadores da saúde; conceito (C), aos riscos psicossociais; e contexto (C), ao gerenciamento de riscos hospitalares.

As fontes de informação incluídas foram BDENF e LILACS, via Biblioteca Virtual em Saúde; MEDLINE, via PubMed; Web of Science; Embase; CINAHL; e SciELO.

A estratégia de busca foi elaborada com base nos descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde e do Medical Subject Headings: “Gestão de Riscos”, “Saúde Ocupacional” e “Hospitais”, bem como seus respectivos sinônimos, combinados por meio de operadores booleanos (Quadro 1).

Quadro 1
Estratégias de busca por base de dados

Os critérios de inclusão compreenderam artigos brasileiros publicados em português, inglês ou espanhol, no período de 2019 a 2025. O recorte geográfico foi definido em razão da aplicabilidade nacional da NR-1. Já o recorte temporal foi estabelecido com o objetivo de identificar abordagens mais recentes sobre gerenciamento de riscos, considerando as atualizações promovidas pelas Portarias nº 915 da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho [15] e nº 1.419 do MTE [2,3].

Foram excluídas dissertações, teses, revisões de literatura e estudos que, embora mencionassem o gerenciamento de riscos, não abordassem aspectos relacionados ao seu planejamento, execução, avaliação ou reflexão.

A seleção dos artigos foi realizada com o auxílio do aplicativo Rayyan [16], em duas etapas: inicialmente, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos das publicações identificadas na busca; posteriormente, os estudos pré-selecionados foram avaliados por meio de leitura na íntegra, com aplicação dos critérios de inclusão e exclusão.

A triagem foi conduzida por um único pesquisador. Embora essa estratégia represente uma limitação metodológica, sua adoção foi justificada pela viabilidade prática da pesquisa e pela impossibilidade de realização do processo em duplo-cego, considerando que o estudo teve origem em uma monografia individual desenvolvida no contexto de um curso de especialização lato sensu.

As buscas foram realizadas em 17 de setembro de 2024 e atualizadas em 15 de janeiro de 2025, resultando inicialmente em 422 publicações. Após as etapas de triagem e análise, obteve-se uma amostra final composta por nove artigos (Figura 1).

Figura 1
Etapas de seleção dos artigos.

Para a avaliação dos dados, os artigos incluídos na amostra foram classificados quanto ao nível de evidência (NE) e submetidos à avaliação crítica (AC) por meio da Johns Hopkins Nursing Evidence-Based Practice Research Evidence Appraisal Tool [17], instrumento adequado para estudos com delineamentos quantitativos, qualitativos e mistos.

O NE foi categorizado em: nível I, correspondente a estudos clínicos randomizados; nível II, a estudos quase experimentais; e nível III, a estudos não experimentais. A AC foi classificada em três categorias: alta qualidade (A), boa qualidade (B) e baixa qualidade (C).

A análise dos artigos incluídos foi realizada de forma descritiva, com auxílio de uma matriz elaborada no Excel. Foram extraídos dados referentes à caracterização dos estudos, incluindo ano de publicação, autoria, objetivo, tipo de estudo, público-alvo e limitações metodológicas, bem como os fatores psicossociais identificados e as respectivas estratégias de gerenciamento de riscos descritas.

Os dados foram organizados com base no referencial teórico-conceitual dos riscos psicossociais [5] e nas diretrizes normativas da NR-1 atualizada [1-3].

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Todos os estudos incluídos na amostra foram classificados como não experimentais (NE III) e avaliados como de boa qualidade metodológica (classificação B), segundo a ferramenta de avaliação de NE e AC utilizada [17]. Esse padrão homogêneo evidencia a predominância de estudos observacionais bem conduzidos na produção científica sobre riscos psicossociais no contexto hospitalar.

Para facilitar a apresentação dos achados, os estudos foram organizados em dois quadros. O Quadro 2 reúne os estudos com abordagem quantitativa, mista ou metodológica, enquanto o Quadro 3 contempla os estudos de abordagem qualitativa. Essa organização busca evidenciar a diversidade metodológica e os diferentes enfoques adotados pelas pesquisas na identificação, caracterização e análise dos riscos ocupacionais.

Quadro 2
Caracterização dos estudos quantitativos e mistos (n = 6)
Quadro 3
Caracterização dos estudos qualitativos (n = 3)

Embora a população investigada nos estudos analisados tenha sido composta por trabalhadores da saúde [20-26], a maioria das pesquisas concentrou-se exclusivamente nos riscos enfrentados pela equipe de enfermagem, sendo os trabalhadores da limpeza hospitalar [18] o único outro grupo profissional analisado de forma específica. Os estudos foram conduzidos tanto em contextos hospitalares gerais [19,24] quanto em cenários especializados, como psiquiatria [26], pronto atendimento [22], centro cirúrgico [25] e centro de material e esterilização [20,21,23]. Apesar de o ambiente hospitalar ser amplamente reconhecido como um contexto de elevado risco para agravos à saúde mental, apenas cinco artigos (55,6%) abordaram explicitamente os riscos psicossociais.

Cabe destacar que o recorte temporal adotado (2019-2025) antecede a vigência da nova redação da NR-1, prevista para 2026. Assim, os resultados refletem como os riscos psicossociais já vinham sendo considerados na produção científica, mesmo sem previsão normativa explícita. A recente atualização da NR-1 institucionaliza esse reconhecimento, oferecendo respaldo regulatório para uma abordagem mais sistemática e integrada desses riscos. Embora a redação anterior da norma já possibilitasse enquadrar situações de violência no trabalho como perigos relacionados à organização e às condições laborais, não havia reconhecimento explícito, diretrizes específicas ou exigência de avaliação sistemática desses eventos, o que pode ter contribuído para a abordagem ainda incipiente identificada nos estudos analisados. Espera-se que a atualização normativa favoreça o fortalecimento tanto da produção científica quanto das práticas institucionais voltadas à gestão dos riscos psicossociais.

Os fatores identificados nos estudos incluídos alinham-se às definições propostas pela OIT [5]. Entre os principais riscos psicossociais descritos, destacaram-se: sobrecarga psíquica decorrente do excesso de trabalho e da acumulação de funções [24]; exigências laborais, cognitivas e emocionais [20,26]; relações sociais e liderança, incluindo apoio insuficiente de colegas e chefias, além de conflitos interpessoais [20,26]; organização do trabalho e conteúdo das atividades [20,21]; interface trabalho-indivíduo, com repercussões na saúde física e mental [24,26]; e aspectos relacionados à justiça e ao respeito nas relações interpessoais [20].

Outros elementos associados ao estresse ocupacional incluíram a complexidade, invisibilidade e elevada responsabilidade das atividades desenvolvidas, uso de equipamentos inadequados, falhas na comunicação e sobrecarga administrativa [21,25,26]. Por outro lado, o envolvimento emocional e a identificação com o cuidado prestado aos pacientes foram reconhecidos como fatores positivos para o engajamento e a motivação profissional [21,25].

Considerando a natureza interacional dos riscos psicossociais, que envolve simultaneamente características do ambiente laboral e aspectos individuais dos trabalhadores, torna-se imprescindível que a gestão desses riscos contemple tanto as dimensões individuais quanto coletivas do trabalho [10]. Dessa forma, o gerenciamento eficaz dos riscos psicossociais deve fundamentar-se em estratégias que considerem não apenas as condições objetivas do trabalho, mas também a subjetividade dos trabalhadores, incluindo relações interpessoais, expectativas e experiências de vida [4].

Nesse contexto, a ergonomia configura-se como uma das abordagens relevantes para a avaliação dos riscos psicossociais, especialmente diante da integração entre a NR-1 e a NR-17, que reconhece esses riscos como componentes da organização do trabalho. Por meio da análise da atividade real e da escuta qualificada dos trabalhadores, a ergonomia possibilita captar aspectos subjetivos e contextuais frequentemente não contemplados em avaliações exclusivamente quantitativas. Essa abordagem favorece a identificação de fatores psicossociais específicos e dinâmicos, orientando intervenções mais adequadas às realidades concretas dos trabalhadores e contribuindo para a promoção da saúde mental e para a melhoria estruturada e preventiva das condições de trabalho [27].

Em relação à avaliação dos riscos psicossociais, um dos estudos incluídos [20] utilizou a versão brasileira do Copenhagen Psychosocial Questionnaire [28], enquanto outro [21] empregou a Escala de Organização Prescrita do Trabalho. O uso de questionários para avaliação dos riscos psicossociais mostra-se promissor, pois permite a utilização de construtos bem definidos, abrangentes e sistematizados, favorecendo compreensão mais precisa do contexto laboral. Entretanto, os achados evidenciam uma lacuna substancial entre o reconhecimento teórico dos riscos psicossociais e sua incorporação prática nos processos de avaliação e gestão ocupacional. Apesar da relevância desses riscos ser amplamente reconhecida nos estudos, a adoção de abordagens sistemáticas associadas a técnicas qualitativas ainda é limitada, e o uso de instrumentos validados permanece pouco frequente. Essa limitação metodológica reforça a necessidade de capacitação contínua dos profissionais de saúde ocupacional e de ampliação do uso de ferramentas específicas para avaliação dos riscos psicossociais [1].

A lógica predominante na avaliação psicossocial tende, por sua vez, a fragmentar os riscos em categorias quantificáveis, frequentemente desconsiderando determinantes históricos, sociais e organizacionais mais amplos que influenciam as condições de trabalho. Esse modelo pode favorecer a individualização do adoecimento mental, responsabilizando os trabalhadores por sua adaptação ao ambiente laboral, em vez de promover mudanças estruturais nas condições de trabalho [29]. A natureza qualitativa e subjetiva dos fatores psicossociais exige, portanto, abordagens mais abrangentes, capazes de integrar dimensões quantitativas e qualitativas do trabalho, incluindo as experiências individuais e coletivas dos trabalhadores [4].

Além disso, a recente atualização da NR-1 estimula revisões em outras normativas e favorece uma abordagem mais integrada e multidimensional dos riscos ocupacionais, particularmente no setor hospitalar. A NR-9, por exemplo, foi utilizada para categorização dos riscos ocupacionais em um dos estudos analisados. Nesse contexto, observa-se uma dicotomia entre o reconhecimento teórico dos riscos psicossociais, expresso no excerto introdutório do estudo [22], e sua ausência na análise efetiva dos riscos ocupacionais, considerando a fundamentação adotada pelos autores com base na NR-9: “...riscos químicos, físicos, biológicos, psicológicos, ergonômicos e organizacionais, sobretudo quando atuam em ambiente sem as condições adequadas de trabalho, bastante insalubres e sem a disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atualização da NR-1, ao incorporar explicitamente os riscos psicossociais, representa um avanço significativo no reconhecimento institucional dos impactos do trabalho sobre a saúde mental dos trabalhadores. Por meio deste estudo, foi possível constatar que os riscos psicossociais ainda têm sido incluídos de forma incipiente na produção científica relacionada ao gerenciamento de riscos hospitalares, embora todos os estudos não experimentais analisados tenham apresentado boa qualidade metodológica.

O atual contexto histórico, entretanto, exige uma reflexão mais aprofundada sobre as práticas de gestão de riscos adotadas nas instituições de saúde. A mudança normativa representa uma oportunidade para repensar os modelos de gestão vigentes, incentivando abordagens mais complexas e integradas, capazes de contemplar não apenas os aspectos técnicos do trabalho, mas também as relações interpessoais, a cultura organizacional e as dinâmicas sociais que permeiam o ambiente laboral.

No contexto hospitalar, essa transição normativa pode atuar como catalisadora de mudanças transformadoras, tanto na gestão dos riscos ocupacionais quanto na promoção da saúde mental e do bem-estar dos trabalhadores da saúde. Recomenda-se que estudos futuros realizem análises comparativas entre diferentes cenários institucionais ao longo do tempo, utilizando os achados desta revisão como referência. Dessa forma, será possível contribuir para o aprimoramento de normas e políticas públicas voltadas à saúde ocupacional, além de registrar na literatura científica os possíveis impactos da transição normativa sobre a gestão de riscos hospitalares.

  • Este artigo é baseado na monografia do curso de especialização lato sensu em Enfermagem do Trabalho, intitulada ‘Riscos psicossociais no gerenciamento de riscos hospitalares: revisão integrativa’, defendida na Universidade Pitágoras Unopar Anhanguera por Fernanda Maria de Miranda.
  • Fonte de financiamento:
    Nenhuma

Declaração de Dados:

Após a publicação, os dados estarão disponíveis sob demanda aos autores

Referências bibliográficas

Editado por

  • Editor associado:
    Sergio Roberto de Lucca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Jun 2025
  • Aceito
    23 Abr 2026
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