RESUMO
Introdução: Caracterizar o perfil de afastamentos por doença constitui uma estratégia importante para compreender o processo de adoecimento no serviço público.
Objetivos: Analisar o perfil de afastamento do trabalho por motivo de doença na Universidade Federal do Amapá durante os anos da pandemia do coronavírus.
Métodos: Trata-se de um estudo longitudinal e descritivo, com base nos afastamentos por doenças registrados no Subsistema Integrado de Saúde do Servidor Público e na Universidade Federal do Amapá, ocorridos entre 2019 e 2022. Foram analisados os afastamentos por sexo, faixa etária, categoria profissional e código motivador do afastamento, conforme a Classificação Internacional de Doenças.
Resultados: Ocorreram 675 afastamentos, totalizando 12.553 dias perdidos de trabalho e, desses, 444 afastamentos contam com registro da Classificação Internacional de Doenças. As doenças mais frequentes foram as infecciosas e parasitárias (15,09%), os transtornos mentais e comportamentais (12,39%) e as doenças do aparelho digestivo (11,49%). Os afastamentos foram mais presentes entre as mulheres (68,15%) e entre servidores na faixa etária entre 30 e 39 anos (36,59%). A categoria dos técnicos administrativos apresenta a maior ocorrência de afastamentos (59,09%).
Conclusões: O perfil de afastamento apresentou distinção em relação a outros órgãos, e os dados evidenciaram preocupação quanto às subnotificações, às melhorias na comunicação institucional e à necessidade de desenvolver estratégias voltadas para a promoção da saúde mental e bucal dos servidores.
Palavras-chave
pandemia; covid-19; licença médica; servidor público.
ABSTRACT
Introduction: Characterizing sickness absenteeism is essential for understanding the health-disease process within the public sector.
Objectives: To characterize the profile of sickness absence among civil servants during the COVID-19 pandemic period.
Methods: This longitudinal, descriptive study used secondary data from sickness absence records obtained from both the Integrated Civil Servant Health Care Subsystem and the Federal University of Amapá, covering the period from 2019 to 2022. Absences were analyzed according to sex, age group, occupational category, and International Classification of Diseases group.
Results: A total of 675 sickness absences were recorded, corresponding to 12,553 lost workdays, of which 444 were associated with an International Classification of Diseases code. The most frequent diagnostic groups were infectious and parasitic diseases (15.09%), mental and behavioral disorders (12.39%), and diseases of the digestive system (11.49%). Absences were more prevalent among women (68.15%) and among employees aged 30-39 years (36.59%). Administrative staff accounted for the highest proportion of absences (59.09%).
Conclusions: The profile of sickness absenteeism differed from that observed in other public institutions. The findings underscore concerns regarding underreporting and highlight the need to improve institutional communication and to implement targeted strategies aimed at promoting workers’ mental and oral health.
Keywords
pandemic; COVID-19; sickness absence; public sector workers.
INTRODUÇÃO
A caracterização do perfil de afastamentos do trabalho por doença constitui uma importante estratégia para analisar as condições de saúde dos trabalhadores, pois permite identificar as doenças e os agravos mais frequentes, suas causas e os fatores associados. Esse tipo de abordagem possibilita compreender de que maneira o ambiente de trabalho, as condições estruturais e os hábitos de vida influenciam o processo saúde-doença, além de subsidiar políticas públicas voltadas à promoção da saúde e prevenção de agravos no trabalho.
No setor público federal, uma das principais fontes para a caracterização desse perfil é o registro de Licenças para Tratamento de Saúde no Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS), no qual cada afastamento é acompanhado de um diagnóstico médico codificado pela Classificação Internacional de Doenças (CID). Esses registros permitem investigar a complexidade da causalidade das ausências ao trabalho, que podem estar associadas a fatores demográficos, ocupacionais, organizacionais e sociais.
O processo de adoecimento, entretanto, não pode ser dissociado do modelo produtivo que, ao privilegiar resultados, frequentemente impõe condições precárias e desgastantes de trabalho. No serviço público e, em especial, na área da educação, a intensificação das jornadas, a desvalorização profissional e a ausência de políticas efetivas de proteção à saúde configuram determinantes centrais para o adoecimento físico e mental. Esse quadro foi ainda mais agravado pela pandemia da covid-19, que ampliou a precarização, introduziu desafios adicionais do trabalho remoto e intensificou o número de afastamentos, sobretudo por transtornos mentais e doenças infecciosas.
Apesar da relevância do tema, as pesquisas sobre adoecimento de servidores públicos permanecem limitadas e concentradas em categorias específicas, como a enfermagem e a medicina, deixando lacunas em outros segmentos.
Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo caracterizar o perfil de afastamento dos servidores da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) durante o período da pandemia. Inserida em um dos territórios mais isolados do país, a realidade amapaense revela indicadores sociais sistematicamente inferiores à média nacional, principalmente nas áreas de saneamento, segurança e educação. Essas condições repercutem diretamente no funcionamento das instituições públicas, entre elas, a UNIFAP, que convive com limitações estruturais persistentes, escassez de recursos, dificuldade de atrair e manter profissionais qualificados e reduzida capacidade de investimento.
Somam-se a esse cenário as desigualdades regionais e a complexidade sociocultural da Amazônia, que demandam respostas institucionais mais abrangentes, mas, muitas vezes, esbarram na fragilidade da gestão pública. Esse contexto repercute diretamente nas condições de trabalho, favorecendo o desgaste físico e emocional e ampliando o risco de adoecimento e de afastamentos. Assim, compreender o absenteísmo-doença na UNIFAP implica reconhecer sua inserção em um território marcado por vulnerabilidades estruturais, no qual as especificidades regionais influenciam tanto a dinâmica organizacional quanto a saúde dos servidores.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo longitudinal baseado nos registros de afastamentos por motivo de saúde dos servidores da UNIFAP, entre 2019 e 2022. O ano de 2019 foi incluído como referência para comparar o cenário pré-e pós-pandemia. Foram analisados apenas os afastamentos concedidos para tratamento da própria saúde.
Os dados foram coletados de duas bases: do SIASS/ Fundação Nacional de Saúde, ao qual a UNIFAP está vinculada; e dos registros institucionais da UNIFAP. Os dados do SIASS foram disponibilizados de forma agregada, contendo quantidade de afastamentos por CID, total de dias afastados, sexo e ano. Na UNIFAP, os registros vieram de forma individual e anonimizada, incluindo episódios de afastamento, dias de licença, sexo, idade, categoria profissional e população ativa por ano.
A integração das bases evidenciou limitações estruturais que influenciaram diretamente a escolha das técnicas estatísticas. A UNIFAP não registra a CID associada aos afastamentos, o que restringe a caracterização diagnóstica no nível institucional. Já o SIASS não gera relatórios sobre afastamentos por dados sociodemográficos além do sexo, contabilizando apenas a quantidade de afastamentos por sexo, ano e CID, sem distinguir, por exemplo, quantos servidores distintos geraram esses registros e a qual categoria profissional pertence esse afastamento. Esses desencontros, somados a falhas de registro relacionadas ao processo de homologação dos afastamentos, limitaram análises mais complexas e tornaram a abordagem descritiva a opção metodologicamente mais adequada.
Os dados individuais da UNIFAP foram organizados em dois arquivos: um com os episódios de afastamento e outro com a população de servidores. O cruzamento por identificação permitiu acompanhar, ao longo dos anos, a frequência e a reincidência dos servidores afastados.
As análises foram realizadas no Stata®. Foram usadas frequências simples, proporções e medidas de tendência central e dispersão. A evolução temporal foi examinada ano a ano. Para estimar a prevalência anual, calculou-se o número de servidores que apresentaram pelo menos um afastamento, dividido pelo total de ativos em cada ano, multiplicado por 100, com estratificação por sexo e categoria profissional.
Na análise por Grupos CID, as medidas de tendência central (média, mediana e desvio padrão) foram aplicadas apenas para a variável “total de dias de afastamento”. Essa decisão metodológica decorre das características do banco de dados, estruturado por combinações de ano, sexo e capítulo da CID, o que inviabiliza estimar medidas de tendência central para a variável “quantidade de afastamentos” sem incorrer em interpretações equivocadas. Assim, as análises foram conduzidas de modo a preservar a consistência estatística e a robustez epidemiológica dos resultados.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amapá, de acordo com os princípios nº 510/16 e nº 580/18 do Conselho Nacional de Saúde sobre a Ética na Pesquisa na área de Ciências Humanas e Sociais, sob CAAE 81540124.4.0000.000, parecer nº 7.105.243.
RESULTADOS
Entre 2019 e 2022, a UNIFAP contabilizou 675 afastamentos por motivo de saúde, conforme apresentado na Tabela 1, que somaram 12.553 dias de trabalho perdidos. Nesse período, o volume de afastamentos não seguiu uma trajetória linear. Em 2019, foram registrados 279 casos, o maior quantitativo do período. Nos 2 anos seguintes, já sob impacto direto da pandemia, houve uma redução acentuada: 101 afastamentos em 2020 e 94 em 2021. Em 2022, o número voltou a crescer, alcançando 201 afastamentos, mais do que o dobro registrado no ano anterior, sugerindo uma recomposição da demanda por licenças médicas após o período de maior restrição.
Descrição dos afastamentos do trabalho de acordo com sexo, faixa etária e categoria profissional, na Universidade Federal do Amapá (2019-2022)
As mulheres concentraram a maior parte dos casos (68,15%). Em relação aos homens (31,85%), o destaque foi no ano de 2022, quando representaram mais de três quartos dos afastamentos. Quanto à categoria profissional, os técnicos administrativos responderam por 65,33% dos registros, enquanto os docentes representaram 34,67%. Apenas em 2021 ocorreu maior participação dos docentes (62,77%). Na distribuição etária, prevaleceram os afastamentos entre servidores de 30 a 39 anos (36,59%) e 40 a 49 anos (32%), seguidos pelas faixas de 50 a 59 anos (15,11%), 20 a 29 anos (8,30%) e 60 anos ou mais (8%), revelando concentração do adoecimento principalmente em trabalhadores de meia-idade.
A prevalência de afastamentos foi maior entre mulheres em todos os anos, com destaque para 2019 (13,7% vs. 6,7%) e 2022 (12,6% vs. 4%). Os técnicos administrativos apresentaram taxas sistematicamente superiores às dos docentes (2019: 17,6% vs. 3,7%; 2022: 13,3% vs. 4,1%). A tendência da prevalência dos afastamentos segundo sexo e categoria funcional está ilustrada na Figura 1. Na análise etária, observou-se queda geral em 2020, seguida de recuperação a partir de 2021, sobretudo nas faixas de 40 a 49 e 50 a 59 anos. Ao final da série, os afastamentos diminuíram nas faixas de 20 a 29 (-75,5%), 30 a 39 (-24,3%) e 40 a 49 (-28,7%) anos, enquanto cresceram entre 50 a 59 (+17,0%) e, de forma expressiva, entre 60 a 75 anos (+193,5%), conforme apresentado na Tabela 1.
Prevalência de afastamentos segundo sexo e categoria profissional na Universidade Federal do Amapá (2019-2022).
As mulheres apresentaram maior média de episódios de afastamento (3,92) em comparação aos homens (3,17), além de maior carga média de dias perdidos (65,36 vs. 56,40 dias), embora a mediana de dias por servidor tenha sido semelhante entre os sexos (30 dias). Observou-se também maior variabilidade no tempo de afastamento entre mulheres, refletida pelo desvio padrão mais elevado. Quanto à categoria profissional, os técnicos administrativos concentraram a maior média de afastamentos por servidor (3,77), enquanto os docentes acumularam maior tempo médio afastado (83,79 dias), com mediana de 43 dias, superior à observada entre os técnicos (26 dias). Esses resultados indicam que, embora os técnicos se afastem com maior frequência, os docentes tendem a apresentar episódios mais longos, compondo padrões distintos de afastamentos.
Quanto às análises por Grupo CID, os dados apontam que os Grupos S (1.654 dias; mediana = 55), F (1.279 dias; mediana = 22) e C (1.050 dias; mediana = 52,5) concentraram os maiores totais de dias perdidos, indicando afastamentos mais prolongados, dados sintetizados na Tabela 2. Em termos de frequência, os grupos com maior número de registros foram A-U (67), F (54) e K (51). Entretanto, apresentam medianas reduzidas de dias os Grupos A-U (9,5) e o K (7), indicando afastamentos predominantemente breves, já o Grupo F se destaca por figurar simultaneamente entre os grupos com maior número de episódios e entre aqueles com maior volume total de dias afastados (Tabela 2).
Medidas de tendência central da duração dos afastamentos por Grupo CID-10 na Universidade Federal do Amapá (2019-2022)
As medidas de tendência central por grupo diagnóstico não foram aplicadas à variável “quantidade de afastamentos”, pois essa informação está agregada por combinação de ano, sexo e capítulo CID e não representa unidades individuais de análise. Assim, o uso de médias ou desvios padrão produziria estimativas metodologicamente inadequadas.
DISCUSSÃO
Na UNIFAP, as mulheres concentraram a maior parte dos afastamentos (68,15%), conforme descrito na Tabela 1, resultado que pode ser explicado por uma combinação de fatores biológicos, sociais e culturais. A socialização de gênero influencia diretamente nos processos de adoecimentos. O acúmulo de tarefas diárias tende a sobrecarregar as mulheres física e mentalmente, aumentando a vulnerabilidade ao adoecimento. Ademais, elas costumam buscar assistência em saúde com maior frequência do que os homens, o que reduz o presenteísmo e, consequentemente, aumenta a formalização dos afastamentos. A divisão desigual do trabalho doméstico e do cuidado com filhos também exerce influência significativa [1].
Esse quadro se reflete nos dados nacionais: em 2019, as mulheres dedicaram, em média, 10,4 horas semanais a mais que os homens às tarefas domésticas e de cuidado, diferença que permaneceu significativa em 2022, alcançando 9,6 horas [2]. Embora a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) não tenha sido realizada em 2020 e 2021, é razoável considerar que, nesse período, o isolamento social intensificou essas demandas, contribuindo para o agravamento do esgotamento físico, mental e emocional [3].
Essa interpretação é reforçada nos estudos que apontam que a pandemia aprofundou desigualdades sociais, econômicas e de gênero, afetando de maneira significativa a rotina de mulheres, especialmente aquelas que acumulam papéis de mães, professoras e pesquisadoras, as quais relataram enfrentar maior cansaço, sobrecarga e dificuldades para conciliar maternidade e trabalho acadêmico [4].
Os padrões de adoecimento também são influenciados pela posição ocupacional. Embora os docentes representem a maioria do corpo de servidores da UNIFAP, foram os técnicos administrativos que apresentaram maior número de afastamentos no período analisado. Essa diferença pode ser explicada pelas distintas estruturas de trabalho: enquanto os docentes, em razão da flexibilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão, frequentemente seguem desempenhando parte de suas funções mesmo durante o adoecimento, os técnicos estão submetidos a rotinas mais rígidas de controle e registro, o que favorece a formalização dos afastamentos [1,5,6]. Além disso, o afastamento docente implica repercussões complexas, como reposição de aulas e acúmulo de tarefas acadêmicas, o que, muitas vezes, desestimula a notificação de doenças não incapacitantes [7,8].
Essa diferenciação tornou-se ainda mais evidente no ano de 2020, quando a pandemia levou à suspensão das atividades presenciais [9-11]. Enquanto os técnicos administrativos rapidamente migraram para o regime remoto, com a implementação de planos e relatórios de trabalho supervisionados pelas chefias, os docentes permaneceram em discussão sobre a reorganização pedagógica, e o retorno às aulas somente ocorreu em novembro, com a implantação do ensino remoto [12-14]. Contudo, mesmo nesse período, o trabalho docente não foi totalmente interrompido, sendo mantidas atividades de pesquisa, extensão, orientação acadêmica e produção científica.
A conjuntura local agravou-se com o apagão energético ocorrido em novembro de 2020, que afetou 90% da população amapaense e paralisou novamente o calendário acadêmico suplementar. A combinação entre a suspensão das aulas, a adoção do trabalho remoto e a crise energética contribuiu para uma subnotificação dos afastamentos, sobretudo entre os docentes. Assim, a redução dos registros pode não necessariamente refletir menor incidência de adoecimento, mas, antes, a dificuldade de reconhecimento e registro das condições de saúde, reforçando achados anteriores sobre os limites das estatísticas em períodos de crise [15-17].
Embora a UNIFAP apresente 675 afastamentos por motivo de saúde no período, os registros do SIASS apontaram 444 afastamentos com CID, revelando uma divergência significativa entre as bases de dados. Na análise por Grupo CID, os mais frequentes foram: A-U (15,09%), influenciados pela covid-19; F (12,39%), transtornos mentais e comportamentais; K (11,49%), doenças do aparelho digestivo; J (9,68%), respiratórias; e S (9,23%), lesões e traumatismos. Os demais capítulos corresponderam a 42,12%. A evolução temporal dos cinco grupos CID-10 mais frequentes é apresentada na Figura 2. A literatura nacional sobre absenteísmo-doença em instituições federais de ensino evidencia padrões epidemiológicos que, embora apresentem convergências temáticas, também se distanciam de forma significativa do perfil observado na UNIFAP, sobretudo em razão dos diferentes recortes temporais analisados. A maior parte dos estudos revisados - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) (2014-2018), Universidade Federal do Maranhão (UFMA) (2011-2013), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) (2016), Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) (2010-2015), Universidade Federal de Pelotas/Universidade Federal do Rio Grande (UFPel/ FURG) (2015-2019) e Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) (2015-2019) - abrange períodos anteriores à pandemia de covid-19, período em que os capítulos A-U e J possuem menor participação diante da menor circulação de agravos infecciosos e respiratórios [18].
Evolução temporal dos cinco grupos CID-10 mais frequentes em afastamentos por motivo de saúde na Universidade Federal do Amapá (2019-2022).
Em contraste, apenas alguns trabalhos incluíram anos pandêmicos, como o Instituto Federal de Roraima (IFRR) (2018-2022), Universidade Federal do ABC (UFABC) (2020-2021) e Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) (2012-2022). Essas instituições apresentaram mudanças expressivas no padrão de adoecimento, incluindo aumento de diagnósticos do Grupo A-U. Outro aspecto importante observado nessas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) e na UNIFAP foi a redução no número de casos nos primeiros anos da pandemia, seguida de aumento posterior, associado às mudanças na organização do trabalho, na exposição ao vírus e na demanda por serviços de saúde [18]. Na UNIFAP, essa oscilação ficou evidente na queda entre 2019 e 2021 (279; 101; 94) e no aumento em 2022 (201). O IFRR e a UFES apresentaram movimento semelhante, ainda que em magnitudes distintas [18].
Ademais, o perfil da UNIFAP, quanto aos motivos ensejadores dos afastamentos, também diferiu das demais instituições analisadas, tanto no tipo de agravos predominantes quanto na distribuição entre os grupos CID. Enquanto a maior parte das IFES descreve predomínio de transtornos mentais (CID F) e doenças musculoesqueléticas (CID M) como principais causas de afastamento [18], a UNIFAP apresentou um padrão singular, no qual agravos por CID F e CID K (doenças do aparelho digestivos) figuraram entre os mais incidentes, fenômeno não observado nas outras instituição revisadas.
Reconhece-se, contudo, que nos anos afetados pela pandemia, os agravos do Grupo A-U (infecções por coronavírus e outras infecções virais) assumiram posição predominante tanto na UNIFAP quanto nas demais IFES, refletindo o impacto sanitário do período.
Esse achado incomum sugere a necessidade de investigações mais aprofundadas para compreender potenciais determinantes desse padrão, incluindo possíveis relações com o contexto de vulnerabilidade estrutural, sanitária e socioeconômica do estado do Amapá. Tal especificidade pode refletir diferenças no acesso aos serviços de saúde, desigualdades regionais, limitações no cuidado odontológico ou a combinação de múltiplos fatores que merecem exploração em estudos futuros.
Verificou-se subnotificação expressiva dos casos de covid-19 ao comparar os registros do SIASS (47 casos) com os dados da Divisão de Qualidade de Vida da UNIFAP, que identificaram 75 servidores acompanhados (entre ativos e aposentados) nos anos de 2020 e 2021. Entre os ativos, quatro evoluíram a óbito por covid-19, sendo três docentes e um técnico administrativo; entre os docentes, duas eram também profissionais da saúde [19]. Esses registros, por não resultarem em afastamentos formalizados, não aparecem na base do SIASS, evidenciando que uma parcela dos servidores adoece, e até mesmo evolui a óbito, sem que o evento seja registrado nos sistemas institucionais responsáveis pela vigilância em saúde.
Essa discrepância revela limitações estruturais importantes no processo de registro e vigilância em saúde do servidor, produzindo lacunas que comprometem a completude, a sensibilidade e a capacidade analítica das bases oficiais. A utilização de uma única fonte de dados, neste caso, o SIASS, pode subestimar e distorcer a magnitude real do adoecimento nas instituições. Tais fragilidades tornam-se ainda mais críticas em tempos de pandemia, período em que a rapidez na identificação de casos, a consistência dos registros e a integração entre setores eram fundamentais para orientar ações de proteção e suporte aos trabalhadores.
Em 2021, com a implementação do aplicativo SouGov, passou-se a permitir o envio, via aplicativo, de atestados para registro de licenças e agendamento de perícias, o que representou um avanço nesse processo.
Contudo, os dados aqui evidenciados demonstram que persistem fragilidades sistêmicas e organizacionais que precisam ser enfrentadas para aprimorar a vigilância institucional.
Antes do SouGov, o processo de registro era inteiramente presencial: os servidores precisavam ir ao SIASS para agendar a perícia e, posteriormente, comparecer para serem periciados, condição que frequentemente inviabilizava o registro formal dos afastamentos entre servidores de campi distantes, como o Campus Oiapoque, reforçando o caráter estrutural da subnotificação identificada [18].
Ademais, a aprovação da modalidade de perícia oficial por análise documental, licença concedida sem necessidade avaliação médica presencial, também contribuiu para ampliar a formalização dos afastamentos, sobretudo ao reduzir barreiras logísticas [18]. Entretanto, embora o avanço tecnológico represente um passo importante na qualificação do registro e na simplificação dos fluxos administrativos, os achados deste estudo evidenciam que ainda são necessárias maior integração entre as bases de dados, melhorias na comunicação institucional e mecanismos que garantam a captura completa, tempestiva e uniforme dos eventos de saúde, de modo a fortalecer a vigilância em saúde do trabalhador e aprimorar a fidedignidade dos dados utilizados para análises epidemiológicas.
A análise de dias perdidos por adoecimento revela que as lesões e traumatismos (CID S), neoplasias (CID C) e os transtornos mentais (CID F) concentram os maiores períodos de afastamento, o que é compatível com a complexidade clínica desses agravos, que frequentemente demandam tratamentos longos, acompanhamento intensivo e contínuo e processos mais longos de recuperação [1]. No caso específico do CID F, além da duração mais elevada, observa-se também grande número de registros, um achado que dialoga com a literatura nacional e com o aumento expressivo de agravos em saúde mental no período analisado [1,15-18]. Acredita-se que a extensão dos afastamentos por transtornos mentais pode estar associada à natureza multifatorial, ao risco de recorrência e à necessidade de monitoramento contínuo, elementos que não puderam ser explorados em profundidade devido às limitações do banco SIASS, que não permite identificar reincidências individuais.
As limitações desta pesquisa concentram-se em três aspectos principais: (i) a restrição de variáveis e a fragilidade dos sistemas de registros, uma vez que o SIASS dispõe de infraestrutura obsoleta e relatórios limitados; (ii) a alteração do modelo de trabalho, especialmente entre docentes, que adotaram maior autonomia e formatos híbridos, dificultando a identificação de ausências de curta duração; e (iii) a gravidade da pandemia, que, em razão da prioridade dada à covid-19 e das políticas de isolamento, pode ter levado servidores a evitar a procura por atendimento e a notificação de outras causas de adoecimento. Tais fatores indicam que a redução dos afastamentos no período deve ser interpretada com cautela, pois pode decorrer de limitações metodológicas e contextuais, e não necessariamente de uma real diminuição dos agravos à saúde.
CONCLUSÕES
Este estudo examinou os afastamentos por motivo de saúde na UNIFAP entre 2019 e 2022 e mostrou que o adoecimento no serviço público é um fenômeno multifatorial, que envolve desde desigualdades de gênero até aspectos da organização do trabalho e posição geográfica. As fragilidades encontradas, como ausência de variáveis importantes no SIASS, restrições para extração dos dados e subnotificações ocorridas sobretudo durante o trabalho remoto, evidenciam os desafios de trabalhar com bases secundárias e chamam atenção para suas implicações éticas, técnicas e políticas no campo da Saúde Coletiva e do Trabalhador.
Os achados indicam caminhos práticos que podem fortalecer a política de saúde do servidor na instituição. Entre eles, destacam-se a necessidade de melhorar os fluxos de comunicação, o registro e a integração entre os diferentes sistemas; investir em iniciativas permanentes de cuidado à saúde mental, com ações preventivas e suporte psicossocial; ampliar a atenção à saúde digestiva, em especial a bucal, considerando a frequência de agravos do CID K; e revisar práticas de gestão que tendem a naturalizar o presenteísmo e a permanência em atividade mesmo diante de sinais de adoecimento. A criação de instrumentos de vigilância contínua, como boletins epidemiológicos, observatórios e relatórios técnicos também se revela essencial para apoiar decisões e orientar intervenções mais oportunas.
Ao trazer dados inéditos da região amazônica e discutir como desigualdades territoriais, fragilidades dos sistemas de informação e efeitos da pandemia interferem no perfil de adoecimento, o estudo dialoga com debates mais amplos sobre a saúde do trabalhador no serviço público federal. Também contribui para o avanço metodológico, ao explicitar limites e potencialidades do uso de bases secundárias, tema ainda pouco explorado de forma crítica na literatura da área.
Em síntese, os resultados reforçam a importância de políticas de saúde que combinem ações de cuidado, qualificação das informações e revisão dos modelos de gestão do trabalho. Ao reunir evidências, análise institucional e recomendações aplicáveis, este estudo busca não apenas subsidiar melhorias na UNIFAP, mas também ampliar o diálogo sobre práticas mais justas e efetivas de promoção da saúde no serviço público.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 pelo apoio a pesquisa.
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Uso de inteligência artificial generativa: Foi utilizada inteligência artificial para melhorar a clareza do texto e organização e padronização das referências deste estudo. Todas as referências citadas foram verificadas em texto completo, e cada citação foi conferida individualmente para assegurar a confiabilidade e originalidade das afirmações construídas com auxílio de inteligência artificial generativa.
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Fonte de financiamento:
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
Declaração de Dados:
Após a publicação, os dados estarão disponíveis sob demanda aos autores.
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Editora associada:
Paula Moreira Silva




CID A-U: grupo das infecciosas e parasitárias (A) e códigos para propósitos especiais (U); CID F: transtornos mentais e comportamentais; CID K: doenças do aparelho digestivo; CID J: doenças respiratórias; CID S: grupo das lesões e traumatismos; Outros: CID C, E, G, H, I, L, M, N.