RESUMO
Introdução: No Brasil, os acidentes envolvendo animais peçonhentos constituem um agravo de grande impacto para a saúde pública, afetando principalmente populações em situação de vulnerabilidade.
Objetivos: Analisar os fatores associados aos acidentes de trabalho com animais peçonhentos no Brasil no período de 2019 a 2023.
Métodos: Estudo transversal com dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, incluindo variáveis sociodemográficas, características do acidente e manifestações clínicas. Foram realizadas análises descritivas com frequências absolutas e relativas, estimativas de razão de prevalência (RP) com intervalos de confiança de 95% e regressão de Poisson com variância robusta para o modelo multivariado. A multicolinearidade foi avaliada por meio do fator de inflação da variância (FIV), e a capacidade discriminatória do modelo foi verificada pela análise da área sob a curva (AUC).
Resultados: Entre 1.442.464 casos notificados de acidentes com animais peçonhentos, 1.280.223 apresentavam informações válidas quanto à relação com o trabalho, dos quais 122.608 (9,58%) foram classificados como relacionados ao trabalho. A média de idade das vítimas foi de 36,5 anos (desvio padrão = 21,0). Permaneceram estatisticamente associados ao desfecho: sexo masculino (RP = 2,66), raça preta/parda (RP = 1,08), raça amarela/indígena (RP = 1,24), escolaridade analfabeta (RP = 1,11), acidentes com serpentes (RP = 2,27), aranhas (RP = 1,19) e outros animais (RP = 1,18), além de acometimento em membros superiores (RP = 1,23) e cabeça (RP = 1,12). O modelo apresentou AUC de 72,56% e FIV médio de 2,15, indicando adequada capacidade discriminatória e ausência de multicolinearidade relevante.
Conclusões: Os acidentes de trabalho com animais peçonhentos concentram-se em grupos socialmente vulneráveis, evidenciando desigualdades sociais e fragilidades nas ações de proteção à saúde do trabalhador. Destaca-se a necessidade de fortalecer estratégias preventivas, ampliar o acesso aos serviços de saúde e intensificar a vigilância ativa nos territórios, especialmente em áreas rurais.
Palavras-chaves
acidentes de trabalho; animais peçonhentos; saúde ocupacional; desigualdades de saúde; fatores socioeconômicos.
ABSTRACT
Introduction: In Brazil, accidents involving venomous animals represent a significant health problem, affecting particularly vulnerable populations.
Objectives: To analyze the factors associated with work-related accidents involving venomous animals in Brazil between 2019 and 2023.
Methods: A cross-sectional study using secondary data from the Notifiable Diseases Information System, including sociodemographic variables, accident characteristics, and clinical manifestations. The analysis comprised absolute and relative frequencies, prevalence ratios (PR) with 95% confidence intervals, and robust Poisson regression for the multivariate model. Multicollinearity was assessed using the Variance Inflation Factor, and discriminatory ability was evaluated with the ROC curve.
Results: Of the 1,442,464 reported cases of accidents involving venomous animals, 1,280,223 had valid data regarding work-relatedness; among these, 122,608 (9.58%) were classified as work-related. The mean age of victims was 36.5 years (SD = 21.0). Factors statistically associated with the outcome included: male sex (PR=2.66), black/brown race (PR=1.08), yellow/indigenous race (PR=1.24), illiteracy (PR=1.11), accidents involving snakes (PR=2.27), spiders (PR=1.19), and other animals (PR=1.18), as well as injuries to upper limbs (PR=1.23) and head (PR=1.12). The model showed an area under the ROC curve of 72.56% and a variance inflation factors average of 2.15, indicating good discriminatory capacity and absence of multicollinearity.
Conclusions: Work-related accidents involving venomous animals predominantly affect vulnerable populations, reflecting social inequalities and gaps in worker health protection. The importance of preventive strategies expanded access to healthcare, and active surveillance in the territories-especially rural areas-is emphasized.
Keywords
occupational accidents registry; animals; poisonous; occupational health; healthcare disparities; socioeconomic factors.
INTRODUÇÃO
Os acidentes de trabalho configuram-se como um importante problema de saúde pública no Brasil, afetando milhares de trabalhadores anualmente e gerando impactos diretos sobre a saúde física, mental e econômica da população ativa. Em 2022, foram registrados mais de 612 mil acidentes de trabalho no país, com maior concentração nos setores da construção civil, agricultura, pecuária e serviços urbanos, frequentemente marcados por informalidade e maior vulnerabilidade social [1].
Animais peçonhentos são aqueles que possuem glândulas produtoras de veneno eestruturas especializadas, como dentes, ferrões ou aguilhões, que permitem a inoculação da toxina. Entre os principais representantes desse grupo destacam-se serpentes, aranhas, abelhas, escorpiões e lagartas, entre outros [2].
O Brasil, por suas dimensões continentais, pela presença de zonas tropicais e subtropicais e pela elevada biodiversidade associada ao clima predominantemente tropical, apresenta condições favoráveis à ampla distribuição de espécies peçonhentas, como serpentes, aranhas e escorpiões. Picadas e mordeduras podem resultar em manifestações clínicas relevantes e potencialmente graves, tornando fundamental a adoção de medidas de prevenção e o acesso oportuno ao cuidado em saúde para evitar complicações e reduzir riscos à população [3].
Nesse contexto, os acidentes com animais peçonhentos representam um agravo de grande impacto na saúde pública, afetando sobretudo populações em situação de vulnerabilidade. Evidências indicam que as principais vítimas são adultos jovens do sexo masculino, com destaque para trabalhadores rurais expostos diariamente a ambientes de risco. A ocorrência desses acidentes tende a ser mais elevada em áreas rurais e periurbanas, onde a presença desses animais é mais frequente e o acesso aos serviços de saúde pode ser limitado [4].
Entre os agravos relacionados ao ambiente ocupacional, os acidentes envolvendo animais peçonhentos destacam-se pela elevada frequência, potencial de gravidade clínica e ampla distribuição territorial. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) indicam que, somente em 2023, foram registrados mais de 300 mil casos no Brasil, posicionando esse tipo de ocorrência entre as principais causas de morbidade associadas a fatores ambientais [5]. Apesar de sua relevância, ainda são escassos os estudos que investigam de forma específica a relação direta entre acidentes com animais peçonhentos e o contexto ocupacional.
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar os fatores associados aos acidentes de trabalho com animais peçonhentos no Brasil no período de 2019 a 2023.
MÉTODOS
TIPO DE ESTUDO E FONTE DE DADOS
Trata-se de um estudo epidemiológico transversal, de caráter exploratório, baseado na análise de dados provenientes das fichas de notificação de acidentes com animais peçonhentos. As informações foram obtidas eletronicamente por meio da plataforma de Informações em Saúde do SINAN, Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (SUS), considerando o período de 2019 a 2023.
Foram incluídas as seguintes variáveis: i) dados sociodemográficos: idade (menores de 18 anos; 18-30 anos; 31-59 anos; 60 anos ou mais), sexo (masculino, feminino), raça/cor (branca, preta/parda, amarela/ indígena) e escolaridade (analfabeto, ensino fundamental, ensino médio, ensino superior); ii) características do acidente: tipo de animal peçonhento (escorpião, serpente, aranha, outros), parte do corpo atingida (tronco, membros superiores, cabeça, membros inferiores), realização de atendimento médico (sim, não), evolução do caso (cura, óbito) e tempo transcorrido entre o acidente e o atendimento médico, em horas (até 1 h; 1-3 h; 3-6 h; mais de 6 h); iii) características clínicas do acidente: manifestações locais (sim, não), manifestações sistêmicas (sim, não), tempo de coagulação (normal, alterado), classificação do caso (leve, moderado, grave), complicações locais (sim, não) e complicações sistêmicas (sim, não).
O desfecho principal do estudo foi a relação do acidente com o trabalho, categorizada como “sim” ou “não”.
ANÁLISE ESTATÍSTICA
Inicialmente, realizou-se a caracterização descritiva dos indivíduos envolvidos em acidentes com animais peçonhentos. As variáveis categóricas foram apresentadas por meio de frequências absolutas e relativas, enquanto a idade foi descrita por média e desvio padrão (DP).
Posteriormente, foi conduzida análise bivariada para investigar a associação entre as variáveis sociodemográficas, características do acidente e variáveis clínicas com o desfecho. A medida de ocorrência utilizada foi a prevalência (P%), calculada pela razão entre o número de acidentes relacionados ao trabalho e o total de acidentes com animais peçonhentos, conforme cada variável analisada. A medida de associação adotada foi a razão de prevalência (RP), com respectivos intervalos de confiança (ICs) de 95%.
Para a construção do modelo final, utilizou-se regressão de Poisson com variância robusta, adequada para estudos transversais com desfecho binário, a fim de estimar as RP ajustadas. Foram inicialmente incluídas no modelo multivariado as variáveis que apresentaram valor de p < 0,20 na análise bivariada. A seleção final seguiu a estratégia backward, considerando como critérios de permanência o valor do teste de Wald ≤ 0,05 e o menor valor do critério de informação de Akaike.
A qualidade do ajuste do modelo foi avaliada por meio da análise da área sob a curva (AUC) característica de operação do receptor (ROC). A presença de multicolinearidade entre as variáveis independentes foi verificada por meio da análise do fator de inflação da variância (FIV). Todas as análises foram realizadas no software estatístico Stata, versão 12.
ASPECTOS ÉTICOS
Por se tratar de um estudo baseado em dados secundários de acesso público, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Foram respeitados os princípios estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Os dados utilizados são anonimizados, não contêm identificadores pessoais e estão disponíveis publicamente, podendo ser acessados sem necessidade de solicitação formal.
RESULTADOS
Dos 1.442.464 casos notificados de acidentes com animais peçonhentos, 1.280.223 apresentavam informações válidas quanto à relação com o trabalho. Desses, 122.608 (9,58%) foram classificados como relacionados ao ambiente ocupacional. A média de idade das vítimas foi de 36,5 anos (DP = 21,0).
A análise da Tabela 1 evidencia associações estatisticamente significativas entre características sociodemográficas e a ocorrência de acidentes com animais peçonhentos no ambiente de trabalho. Em relação ao sexo, trabalhadores do sexo masculino apresentaram P% consideravelmente maior (14,18%) quando comparados às trabalhadoras do sexo feminino (3,95%), com RP de 3,59 (IC 95%, 3,54-3,65), indicando que os homens apresentam cerca de 3,6 vezes mais ocorrência desse tipo de acidente.
Prevalência de acidentes por animais peçonhentos relacionados ao trabalho segundo características sociodemográficas. Jequié, Bahia, 2026
Quanto à faixa etária, indivíduos entre 31 e 59 anos apresentaram a maior proporção de acidentes relacionados ao trabalho (RP, 1,82; IC 95%, 1,79-1,85), em comparação ao grupo com 60 anos ou mais. Trabalhadores entre 18 e 30 anos também apresentaram maior ocorrência (RP, 1,65), enquanto menores de 18 anos mostraram proporção significativamente menor (RP, 0,60; IC 95%, 0,58-0,62).
No que se refere à raça/cor, indivíduos autodeclarados amarelos/indígenas apresentaram a maior RP (1,72; IC 95%, 1,67-1,77), seguidos por pretos/pardos (RP, 1,06; IC 95%, 1,05-1,07), quando comparados ao grupo de referência composto por trabalhadores brancos.
Em relação à escolaridade, observou-se maior ocorrência entre trabalhadores analfabetos, com P% de 13,01% e RP de 1,35 (IC 95%, 1,32-1,39) em comparação àqueles com ensino superior. Trabalhadores com ensino fundamental também apresentaram maior proporção de acidentes (RP, 1,21; IC 95%, 1,18-1,25), enquanto aqueles com ensino médio não demonstraram diferença estatisticamente significativa em relação ao grupo de referência.
Conforme a Tabela 2, em relação ao tipo de animal causador, os acidentes envolvendo serpentes apresentaram maior probabilidade de associação com o trabalho (RP, 3,49; IC 95%, 3,45-3,54), quando comparados aos acidentes causados por escorpiões. Acidentes provocados por aranhas e por outros animais peçonhentos também apresentaram maior associação em relação ao grupo de referência, com RP de 1,47 (IC 95%, 1,44-1,49).
Prevalência de acidentes por animais peçonhentos relacionados ao trabalho segundo características do acidente. Jequié, Bahia, 2026
Quanto à parte do corpo atingida, acidentes que acometeram membros superiores apresentaram RP de 1,47 (IC 95%, 1,44-1,49), enquanto aqueles que atingiram a cabeça apresentaram RP de 1,50 (IC 95%, 1,45-1,55). Os acidentes envolvendo membros inferiores também demonstraram maior associação (RP, 1,03; IC 95%, 1,00-1,06). Todos esses resultados indicam maior ocorrência de acidentes ocupacionais em comparação com aqueles que atingiram o tronco.
Em relação ao atendimento médico, os casos que não receberam assistência apresentaram RP de 0,53 (IC 95%, 0,51-0,55), indicando menor associação com acidentes relacionados ao trabalho.
Quanto à evolução dos casos, os eventos que resultaram em óbito apresentaram maior associação com o contexto ocupacional (RP, 2,17; IC 95%, 1,97-2,38), em comparação aos casos que evoluíram para cura.
Por fim, no que se refere ao tempo entre o acidente e o atendimento, observou-se associação positiva com o desfecho para atendimentos realizados entre 1 e 3 horas (RP, 1,41; IC 95%, 1,40-1,43), entre 3 e 6 horas (RP, 1,71; IC 95%, 1,68-1,74) e após 6 horas (RP, 1,12; IC 95%, 1,10-1,14), quando comparados aos casos atendidos em até 1 hora após o acidente.
Observa-sena Tabela 3 que, emrelaçãoàsmanifestações sistêmicas, trabalhadores que as apresentaram tiveram maior associação com acidentes relacionados ao trabalho (RP, 1,72; IC 95%, 1,69-1,75), quando comparados àqueles sem esse tipo de manifestação.
Prevalência de acidentes por animais peçonhentos relacionados ao trabalho segundo características clínicas. Jequié, Bahia, 2026
No que se refere ao tempo de coagulação, indivíduos com resultados alterados apresentaram maior associação (RP, 1,27; IC 95%, 1,24-1,30) em comparação aos que apresentaram tempo de coagulação dentro da normalidade.
A classificação dos casos evidenciou aumento progressivo da associação conforme a gravidade do acidente no ambiente laboral. Casos moderados apresentaram RP de 1,95 (IC 95%, 1,93-1,98) e casos graves RP de 2,22 (IC 95%, 2,16-2,29), ambos em comparação aos casos classificados como leves.
Quanto à presença de complicações locais, os casos que apresentaram esse tipo de complicação mostraram maior associação com acidentes relacionados ao trabalho (RP, 2,16; IC 95%, 2,09-2,24), em comparação aos que não apresentaram complicações.
Por fim, indivíduos com complicações sistêmicas apresentaram associação ainda mais elevada (RP, 2,40; IC 95%, 2,27-2,53), quando comparados aos casos sem esse tipo de complicação (P% = 9,32%).
No modelo final de regressão de Poisson multivariada apresentado na Tabela 4, permaneceram estatisticamente associadas aos acidentes de trabalho por animais peçonhentos as seguintes variáveis: sexo masculino (RP, 2,66; IC 95%, 2,56-2,76), raça preta/parda (RP, 1,08; IC 95%, 1,05-1,11) e amarela/indígena (RP, 1,24; IC 95%, 1,16-1,32), além de escolaridade analfabeta (RP, 1,11; IC 95%, 1,06-1,17).
Modelo final de regressão multivariável para acidentes por animais peçonhentos relacionados ao trabalho. Jequié, Bahia, 2026
Em relação ao tipo de animal, os acidentes envolvendo serpentes apresentaram RP 2,27 vezes maior (IC 95%, 2,18-2,35), seguidos por aranhas (RP, 1,19; IC 95%, 1,13-1,26) e outros animais (RP, 1,18; IC 95%, 1,11-1,24), quando comparados aos acidentes causados por escorpiões.
Quanto à parte do corpo atingida, acidentes envolvendo membros superiores (RP, 1,23; IC 95%, 1,14-1,33) e cabeça (RP, 1,12; IC 95%, 1,02-1,23) apresentaram associação positiva com acidentes de trabalho, enquanto lesões em membros inferiores mostraram associação negativa (RP, 0,82; IC 95%, 0,75-0,88), em comparação ao tronco.
O tempo entre o acidente e o atendimento também se mostrou relevante: intervalos de 1-3 horas (RP, 1,10; IC 95%, 1,06-1,13) e de 3-6 horas (RP, 1,13; IC 95%, 1,09-1,18) apresentaram maior associação com acidentes relacionados ao trabalho.
Além disso, a presença de manifestações sistêmicas esteve associada ao desfecho (RP, 1,17; IC 95%, 1,13-1,21), assim como a classificação moderada (RP, 1,19; IC 95%, 1,15-1,23) e grave (RP, 1,13; IC 95%, 1,07-1,20) dos casos. A ocorrência de complicações locais também aumentou a RP (1,24; IC 95%, 1,18-1,31), indicando maior gravidade nos casos relacionados ao trabalho.
O modelo apresentou AUC de 72,56%, evidenciando boa capacidade discriminatória. A análise dos FIV resultou em valor médio de 2,15, com todas as variáveis abaixo do ponto de corte de 10, indicando ausência de multicolinearidade significativa.
DISCUSSÃO
O presente estudo, de caráter epidemiológico e descritivo-analítico, investigou fatores associados a acidentes com animais peçonhentos relacionados ao trabalho no Brasil, com ênfase em aspectos sociodemográficos, características do acidente e manifestações clínicas. Os resultados evidenciam importantes desigualdades sociais relacionadas ao perfil dos trabalhadores afetados, à gravidade dos eventos e à resposta dos serviços de saúde. Os achados são discutidos por categorias temáticas, à luz da literatura científica e dos princípios da saúde coletiva.
Os homens apresentaram risco aproximadamente 3,6 vezes maior de sofrer acidentes ocupacionais com animais peçonhentos em comparação às mulheres. Esse resultado reflete a divisão sexual do trabalho, na qual os homens predominam em atividades com maior exposição a riscos, como agricultura, construção civil e manejo de resíduos, corroborando achados de estudos prévios sobre acidentes laborais, especialmente no meio rural [2,6].
Em relação à faixa etária, adultos entre 31 e 59 anos foram os mais afetados, grupo que corresponde à população economicamente mais ativa. A sobreposição entre idade produtiva e maior ocorrência de acidentes ocupacionais tem sido apontada como fator de risco em outras investigações epidemiológicas, reforçando o impacto desses eventos sobre a força de trabalho e a produtividade [4,7].
Os dados também demonstraram maior prevalência entre trabalhadores autodeclarados amarelos/indígenas e pretos/pardos. Essa desigualdade deve ser analisada à luz dos determinantes sociais da saúde. Populações racializadas frequentemente enfrentam maior vulnerabilidade socioeconômica, estão mais inseridas em ocupações informais e expostas a riscos e vivenciam os efeitos do racismo estrutural, que limita o acesso a direitos trabalhistas e à proteção à saúde [8,9].
Trabalhadores analfabetos ou com ensino fundamental também apresentaram maior prevalência de acidentes. A baixa escolaridade está associada à inserção em ocupações informais e de maior risco, geralmente com menor oferta de equipamento de proteção individual (EPI) e menor acesso a capacitações. Esse cenário potencializa a ocorrência de acidentes e dificulta a adoção de práticas preventivas. Além disso, a limitação no acesso à informação sobre medidas de proteção pode contribuir para a maior exposição a situações de risco [10,11].
Os resultados indicaram que acidentes envolvendo serpentes apresentaram risco cerca de 3,5 vezes maior de estarem relacionados ao trabalho, quando comparados aos acidentes com escorpiões. Esse achado pode ser explicado pela maior presença de serpentes em áreas rurais, onde são frequentes atividades laborais ao ar livre, como agricultura, limpeza de terrenos e manejo da vegetação. Esse contexto favorece o contato direto com esses animais e aumenta a probabilidade de acidentes durante a jornada de trabalho [12,13].
Já os escorpiões, embora representem a maioria dos acidentes com animais peçonhentos no Brasil e apresentem ampla distribuição em ambientes urbanos, foram os que mostraram menor associação com o trabalho neste estudo. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de esses acidentes ocorrerem com maior frequência no ambiente domiciliar, e não necessariamente em contextos ocupacionais [5,14].
Em relação à parte do corpo atingida, observou-se que membros superiores e cabeça foram as regiões mais acometidas nos acidentes de trabalho com animais peçonhentos, com RPs de 1,47 e 1,50, respectivamente, em comparação ao tronco. Esse padrão pode ser explicado pelo uso frequente das mãos e pela exposição da cabeça durante atividades laborais, especialmente em ocupações que envolvem contato direto com o solo, entulhos ou vegetação, como na agricultura, construção civil e coleta de resíduos. A exposição direta e a ausência ou uso inadequado de EPIs, como luvas e capacetes, contribuem para o aumento desse risco. Esse achado é consistente com estudo realizado no Distrito Federal, que também identificou os membros superiores como as áreas mais acometidas em acidentes ocupacionais com animais peçonhentos, apontando falhas na adoção de medidas preventivas e na cultura de segurança entre trabalhadores expostos [15,16].
Quanto ao atendimento médico, verificou-se que os casos em que a vítima não recebeu assistência apresentaram menor prevalência de associação com o trabalho, o que pode indicar acidentes de menor gravidade ou subnotificação, especialmente quando o evento não é formalmente reconhecido como ocupacional. Por outro lado, os casos com tempo de atendimento superior a três horas apresentaram maior prevalência de associação com o trabalho, sugerindo que trabalhadores, sobretudo em áreas rurais, enfrentam maiores dificuldades de acesso aos serviços de saúde. A maior distância geográfica e as limitações de infraestrutura podem comprometer a rapidez no atendimento, o que é particularmente preocupante, considerando que o tempo até a assistência é fator determinante para o prognóstico e a evolução clínica. Estudos apontam que o acesso tardio aos serviços de saúde está associado a piores desfechos e maior gravidade dos acidentes de trabalho [17,18].
A análise dos dados também indica que os acidentes ocupacionais envolvendo animais peçonhentos tendem a apresentar maior gravidade e impacto, especialmente quando resultam em fatalidade. Casos que evoluíram para óbito mostraram associação 2,17 vezes maior com o ambiente de trabalho, ressaltando a gravidade dos eventos ocupacionais, sobretudo aqueles envolvendo serpentes. O veneno desses animais pode provocar complicações graves em curto intervalo de tempo, e o atraso no atendimento de emergência constitui importante fator agravante [19]. Segundo Alvarenga et al. [2], é fundamental aprimorar as estratégias de prevenção, melhorar as condições de trabalho e assegurar atendimento médico rápido e eficiente aos trabalhadores do meio rural, com o objetivo de reduzir a ocorrência de agravos e óbitos relacionados a esses eventos.
Em relação às manifestações clínicas, indivíduos que apresentaram manifestações sistêmicas, tempo de coagulação alterado, complicações e maior gravidade do caso demonstraram maior associação com acidentes de trabalho envolvendo animais peçonhentos, em comparação aos acidentes não ocupacionais. Esses achados indicam que os eventos de origem laboral tendem, em média, a apresentar maior gravidade [13]. Esses dados reforçam a importância da prevenção primária no ambiente de trabalho, com uso adequado de EPIs, capacitação contínua dos trabalhadores e fortalecimento das ações de vigilância ativa, conforme preconizado pela vigilância em saúde do trabalhador no SUS [20].
É importante destacar algumas limitações deste estudo. A análise baseou-se em dados secundários do SINAN, que podem estar sujeitos a problemas de preenchimento inadequado, inconsistências e subnotificação, especialmente em áreas de difícil acesso e em acidentes considerados de menor gravidade. Estudos anteriores, como o de Fiszon & Bochner [21], já demonstraram que, embora essencial para a vigilância epidemiológica, o sistema ainda apresenta limitações na captação integral dos casos de acidentes por animais peçonhentos, o que pode comprometer a real dimensão do problema e influenciar a elaboração de estratégias de prevenção e resposta. Apesar dessas limitações, os achados contribuem para ampliar o conhecimento sobre os acidentes de trabalho envolvendo animais peçonhentos e reforçam a necessidade de melhorias na qualidade dos registros e no acesso oportuno aos serviços de saúde.
Os acidentes ocupacionais envolvendo animais peçonhentos acarretam consequências clínicas e sociais relevantes. Nessesentido, reforça-se a importância das ações de vigilância em saúde do trabalhador, em conformidade com as diretrizes do SUS e com os princípios da saúde coletiva. A implementação de estratégias de promoção da saúde nos ambientes laborais, o incentivo ao uso adequado de EPIs, a articulação intersetorial e a integração entre os diferentes níveis de atenção, incluindo os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador, são fundamentais para a detecção precoce dos agravos e o aprimoramento da assistência [8].
CONCLUSÕES
O estudo evidenciou que fatores como sexo, raça/ cor, escolaridade e acesso aos serviços de saúde influenciam de forma significativa o risco de acidentes de trabalho envolvendo animais peçonhentos. Homens apresentaram maior probabilidade de sofrer esse tipo de acidente, possivelmente em razão da maior inserção em atividades laborais com elevada exposição ao risco. Populações racializadas, como trabalhadores pretos, pardos, indígenas e amarelos, também demonstraram maior vulnerabilidade, refletindo desigualdades sociais, maior presença em ocupações informais e os efeitos do racismo estrutural.
Além disso, a baixa escolaridade e as dificuldades de acesso ao atendimento médico, especialmente em áreas rurais, agravam os desfechos, dificultando tanto a prevenção quanto o tratamento oportuno e adequado dos casos.
Diante desse cenário, destaca-se a importância da implementação de medidas preventivas, como o uso adequado de EPIs, a realização de treinamentos e o desenvolvimento de campanhas educativas voltadas à redução da exposição ocupacional. Torna-se essencial o fortalecimento de políticas públicas direcionadas aos grupos mais vulneráveis, com foco na inclusão social, na ampliação do acesso aos serviços de saúde e no enfrentamento das desigualdades raciais. Estudos como este são fundamentais para subsidiar a formulação de estratégias mais eficazes, contribuindo para a promoção de ambientes de trabalho mais seguros, equitativos e inclusivos.
-
Fonte de financiamento:
Este estudo foi financiado pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da UNEX
Declaração de Dados:
Após a publicação, os dados estarão disponíveis sob demanda aos autores.
Referências bibliográficas
-
1 Farias FA, Lucena SCB, Lima Neto IA. Acidentes na construção civil do estado da Paraíba (2017 - 2022). Braz J Prod Eng. 2025;11(1):299-306. https://doi.org/10.1590/S0370-44672005000100007
» https://doi.org/10.1590/S0370-44672005000100007 -
2 Alvarenga GACQ, Resende TRO, Sousa EM, Ruela RCADB, Sene RT. Saúde do trabalhador: estudo de acidentes de trabalho com animais peçonhentos em atividades rurais no estado de Minas Gerais e suas medidas preventivas. Em: Segurança do Trabalho: experiências exitosas - Volume 2 [Internet]. 1o ed Editora Científica Digital; 2022 [acesso 7 Mai 2025]. p. 105-15. Disponível: http://www.editoracientifica.com.br/articles/code/220207915 https://doi.org/10.37885/220207915
» http://www.editoracientifica.com.br/articles/code/220207915» https://doi.org/10.37885/220207915 -
3 Souza TC, Farias BES, Bernarde PS, Chiaravalotti Neto F, Frade DDR, Brilhante AF, et al. Tendência temporal e perfil epidemiológico dos acidentes por animais peçonhentos no Brasil, 2007-2019. Epidemiol Serv Saude. 2022;31(3):e2022025. https://doi.org/10.1590/S2237-96222022000300009
» https://doi.org/10.1590/S2237-96222022000300009 -
4 Nunes MLC, Farias JACR, Anselmo DA, Anselmo MA, Andrade RFV. Acidentes com animais peçonhentos no Brasil: uma revisão integrativa. Arq Cienc Saude Unipar. 2022;26(2). https://doi.org/10.25110/arqsaude.v26i2.2022.8262
» https://doi.org/10.25110/arqsaude.v26i2.2022.8262 -
5 Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico - Volume 55 - nº 15 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [acesso em 26 Mai 2025]. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-15.pdf/view
» https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-15.pdf/view -
6 Mendonça MC, Cordeiro Júnior CWL, Kondo AM, Leite EFS, Castro JBR. Perfil epidemiológico dos acidentes por animais peçonhentos no Brasil no período de 2018 a 2022. Rev Pat Tocantins. 2025;25(2). https://doi.org/10.34119/bjhrv8n3-233
» https://doi.org/10.34119/bjhrv8n3-233 -
7 Matos VD, Rocha GS, Faria TAV. Acidentes com animais peçonhentos: um estudo epidemiológico comparativo entre as grandes regiões brasileiras nos anos de 2020-2022. Braz J Infect Dis. 2024;28(S1):103771. https://doi.org/10.1016/j.bjid.2024.103771
» https://doi.org/10.1016/j.bjid.2024.103771 -
8 Brasil, Ministério da Saúde. A epidemiologia da saúde do trabalhador no Brasil [Internet]. Ministério da Saúde, Universidade Federal da Bahia. Brasília: Ministério da Saúde; 2020 [acesso 29 Jan 2026]. Disponível: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/epidemiologia_saude_trabalhador_brasil.pdf
» https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/epidemiologia_saude_trabalhador_brasil.pdf -
9 Polidoro M, Mendonça FA, Oliveira DC, Baniwa A, Franco CT, Monteiro SG. Perfil geoepidemiológico dos acidentes por animais peçonhentos em populações indígenas e não-indígenas no Brasil. Soc Nat. 2024;37(1). https://doi.org/10.14393/SN-v37-2025-73312
» https://doi.org/10.14393/SN-v37-2025-73312 -
10 Medeiros AMB, Sousa Neta AF, Farias YC, Mamédio RHN, Andrade Filho JD, Nogueira NS, et al. Perfil epidemiológico de acidentes por animais peçonhentos em Minas Gerais. Res Soc Dev. 2022;11(1):e23411124612. https://doi.org/10.12957/sustinere.2017.29816
» https://doi.org/10.12957/sustinere.2017.29816 -
11 Silva ABB, Nogueira O dos S, Viana LM, Rios MA, Junior DFC. Acidentes laborais com animais peçonhentos em trabalhadores da agricultura no nordeste brasileiro. Anais de Eventos do DEDC XII - UNEB [Internet]. 2024 [acesso 7 Jul 2025]. Disponível: https://www.revistas.uneb.br/index.php/andedcxii/article/view/21294
» https://www.revistas.uneb.br/index.php/andedcxii/article/view/21294 - 12 Campos CLM, Nery WS, Nascimento NGS, Freires LC, Sousa LVM, Barros RML, et al. Análise epidemiológica dos acidentes provocados por animais peçonhentos no nordeste do Brasil entre 2019 e 2023. Rev Bras Med Excelencia. 2024;2(3):299-309.
-
13 Saboia CO, Bernarde PS. Snakebites in the Municipality of Tarauacá, Acre, Western Brazilian Amazon. J Human Growth Dev. 2019;29(1):117-24. http://dx.doi.org/10.7322/jhgd.157760
» http://dx.doi.org/10.7322/jhgd.157760 -
14 Takehara CA, Lamas JLT, Gasparino RC, Fusco SDFB. Acidente escorpiônico moderado ou grave: identificação de fatores de risco. Rev Esc Enferm USP. 2023;57:e20230022. https://doi.org/10.1590/1980-220X-REEUSP-2023-0022pt
» https://doi.org/10.1590/1980-220X-REEUSP-2023-0022pt -
15 Tibério CT, Magalhães AFA. Perfil dos acidentes de trabalho por animais peçonhentos no Distrito Federal no período de 2009 a 2019. Rev Bras Med Trab. 2022;20(2):317-27. http://dx.doi.org/10.47626/1679-4435-2022-942
» http://dx.doi.org/10.47626/1679-4435-2022-942 -
16 Tomaz VR, Soares M, Bonfada D. Epidemiologia das complicações clínicas de acidentes provocados por animais peçonhentos no Brasil. Rev Epidemiol Control Infect. 2023;13(1). https://doi.org/10.17058/reci.v13i1.17696
» https://doi.org/10.17058/reci.v13i1.17696 -
17 Guttierres BD, Schuwarte DLC, Barreto LF, Azevedo MHBD. Análise epidemiológica dos acidentes por animais peçonhentos no estado do Rio de Janeiro entre 2019 e 2023. Rev Med (São Paulo). 2025;104(2). https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v104i2e-232889
» https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v104i2e-232889 -
18 Nascimento ABD, Lima BDA, Silva Júnior ABD, Lemos ALC, Santos RVDS, Nascimento LCGBD. Incidência de acidentes ofídicos no estado de Sergipe: uma revisão de literatura associada a estudo ecológico. Rev Soc Dev. 2023;12(4):e30012441364. http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i4.41364
» http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i4.41364 -
19 Figueiredo RG, Guerreiro MLDS, Azevedo E, De Moura MS, Trindade SC, De Bessa J, et al. Pathophysiological and clinical significance of crotalus durissus cascavella venom-induced pulmonary impairment in a murine model. Toxins. 2023;15(4):282. https://doi.org/10.3390/toxins15040282
» https://doi.org/10.3390/toxins15040282 -
20 Ames A, Rossato BDC, Schabarum EM, Franceschi A, Monteiro M, Busato MA, et al. Perfil epidemiológico dos acidentes por animais peçonhentos no Sul do Brasil. Braz J Heath Rev. 2025;8(3):e80353. https://doi.org/10.34119/bjhrv8n3-233
» https://doi.org/10.34119/bjhrv8n3-233 -
21 Fiszon JT, Bochner R. Subnotificação de acidentes por animais peçonhentos registrados pelo SINAN no Estado do Rio de Janeiro no período de 2001 a 2005. Rev Bras Epidemiol. 2008;11(1)114-27. https://doi.org/10.1590/S1415-790X2008000100011
» https://doi.org/10.1590/S1415-790X2008000100011
Editado por
-
Editor associado:
Sergio Roberto de Lucca
