Open-access Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho na indústria automotiva: revisão da literatura do tipo estado da arte

RESUMO

Os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho configuram agravos ocupacionais decorrentes do uso excessivo do sistema musculoesquelético, associado à ausência de tempo adequado para recuperação fisiológica. Esses agravos permanecem frequentes na indústria automotiva, especialmente nas linhas de montagem, com impactos diretos sobre a saúde dos trabalhadores e a produtividade do setor. Este estudo teve como objetivo analisar a produção científica recente acerca dos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho na indústria automotiva, com ênfase nas abordagens adotadas, nas práticas preventivas, nos desafios identificados e nas direções futuras, no período de 2020 a 2025, por meio de uma revisão da literatura do tipo estado da arte. A literatura foi considerada como campo interpretativo e contextual. A busca foi realizada nas bases SciELO, LILACS, PubMed e BVS utilizando termos livres e controlados, combinados por operadores booleanos e adaptados às especificidades de cada base. Incluiu-se literatura cinzenta por meio do Google Scholar. A seleção dos estudos seguiu critérios de elegibilidade e ocorreu em etapas sucessivas: triagem, leitura na íntegra e análise crítica orientada por questões de pesquisa. Dos 297 registros inicialmente identificados, seis estudos atenderam aos critérios estabelecidos. Movimentos repetitivos, posturas estáticas e o ritmo produtivo mantêm-se como determinantes centrais da incidência e prevalência dos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. Evidencia-se a necessidade de pesquisas que integrem o desenvolvimento e a inovação tecnológica à participação ativa dos trabalhadores, como estratégia para a construção de ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e sustentáveis. A promoção de pesquisas em rede, com protagonismo dos trabalhadores, mostra-se estratégica para o avanço de soluções alinhadas às diretrizes em vigilância em saúde do trabalhador e aos desafios contemporâneos do mundo do trabalho.

Palavras-chave
distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho; indústria; automóveis; saúde do trabalhador; vigilância em saúde do trabalhador.

ABSTRACT

Work-related musculoskeletal disorders are occupational conditions that result from the excessive use of the musculoskeletal system, combined with insufficient time for physiological recovery. These disorders remain prevalent in the automotive industry, particularly on assembly lines, and directly impact workers’ health and sector productivity. This study aimed to analyze recent scientific literature on work-related musculoskeletal disorders in the automotive industry. The analysis focused on research approaches, preventive practices, identified challenges, and future directions. The study covered the period from 2020 to 2025 and used a state-of-the-art literature review method. The literature was considered an interpretive and contextual field. Searches were conducted in the SciELO, LILACS, PubMed, and BVS databases using free-text and controlled terms combined with Boolean operators and adapted to the specificities of each database. Grey literature was included through Google Scholar. Study selection was conducted in successive stages: screening, full-text reading, and critical analysis guided by research questions. These stages followed predefined eligibility criteria. Of the 297 initial records, six studies met the established criteria. Repetitive movements, static postures, and production pace remain central determinants of the incidence and prevalence of work-related musculoskeletal disorders. The findings underscore the importance of integrating technological development and innovation with the active involvement of workers to build safer, healthier, and more sustainable work environments. Promoting network-based research in which workers play a central role is key to advancing solutions that align with occupational health surveillance guidelines and contemporary workplace challenges.

Keywords
work-related musculoskeletal disorders; industry; automobiles; workers’; health; occupational health surveillance.

INTRODUÇÃO

As lesões por esforços repetitivos (LER) e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) constituem agravos ocupacionais decorrentes do uso excessivo do sistema musculoesquelético, associado à ausência de tempo adequado para recuperação fisiológica. Essas condições favorecem o surgimento de sintomas como dor, sensação de peso, fadiga, limitação funcional e parestesia, frequentemente acompanhados de sofrimento psíquico, dificuldades no desempenho das atividades da vida diária e incapacidade laboral [1]. De notificação compulsória no Brasil [1], as LER e os DORT configuram importantes problemas de saúde ocupacional, com registro de 6.582 trabalhadores acometidos no período de 2019 a 2024 [2]. Além dos impactos diretos sobre a população trabalhadora, esses agravos acarretam perdas de produtividade e relevantes implicações econômicas para empregadores, governos e a sociedade, o que evidencia a necessidade de estratégias preventivas e de assistência qualificada [3].

A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho [4] aponta que os DORT persistem como o principal problema de saúde relacionado ao trabalho e um dos maiores desafios ocupacionais enfrentados pelas empresas. O Sexto Inquérito Europeu sobre as Condições de Trabalho (2015), publicado em 2017 [5], demonstra que os riscos posturais, especialmente os movimentos repetitivos de mãos e braços, são os mais prevalentes, afetando aproximadamente 61% dos trabalhadores. Além disso, o relatório de 2020 indica que 43% dos trabalhadores relataram dores nas costas e 41% referiram dores musculares em ombros, pescoço e/ou membros superiores ou inferiores, com ampla variação entre os Estados-Membros da União Europeia, que oscila de 79% na Finlândia a 40% na Hungria para dor lombar autorreferida [4].

A ocorrência de DORT não se restringe ao contexto europeu. Na indústria automotiva, a própria organização do trabalho favorece sua incidência [5]. As atividades desenvolvidas nas linhas de produção envolvem, de forma recorrente, movimentos repetitivos, como apertar, pegar e manusear materiais, cuja execução contínua sobrecarregaa musculatura e aumenta o risco de adoecimento osteomuscular [6]. Em 2023, a indústria automotiva foi responsável por aproximadamente 20% do produto interno bruto nacional [7], evidenciando implicações expressivas não apenas para a economia, mas também para a saúde dos trabalhadores, o que demanda ações permanentes de Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat) e de prevenção.

A Saúde do Trabalhador constitui um campo da Saúde Coletiva que articula práticas e conhecimentos estratégicos de natureza interdisciplinar, sejam eles sociais, técnicos, políticos ou humanos, com atuação multiprofissional e interinstitucional [8], voltados à promoção, proteção e reabilitação da saúde de trabalhadores e trabalhadoras. Conforme estabelecido na Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) [9], as ações de Visat devem ser desenvolvidas de forma contínua e sistemática, com o objetivo de detectar, conhecer, investigar e analisar os fatores determinantes e condicionantes dos agravos à saúde relacionados aos processos e ambientes de trabalho. No setor automotivo, essas estratégias assumem papel central no enfrentamento dos DORT, considerando as especificidades da organização do trabalho e os riscos ergonômicos envolvidos.

Este estudo emergiu de reflexões desenvolvidas no âmbito da Atenção à Saúde na Prática Comunitária - Saúde do Trabalhador, vinculada ao curso de Medicina de uma universidade federal do Sudeste Goiano. A análise das condições laborais nas linhas de montagem da indústria automobilística da macrorregião Centro-Sudeste de Goiás evidenciou que os DORT permanecem como agravos recorrentes, com repercussões significativas tanto na saúde dos trabalhadores quanto na dinâmica econômica regional.

Diante da persistência dos DORT no setor automotivo e de seus impactos contínuos sobre a saúde dos trabalhadores, este estudo tem como objetivo analisar a produção científica dos últimos 5 anos sobre o tema, com ênfase na compreensão dos DORT em áreas críticas, como as linhas de montagem. Busca-se responder às seguintes questões: de que forma a produção científica recente tem abordado os desafios associados aos DORT na indústria automotiva? Quais práticas de prevenção e manejo têm se mostrado mais eficazes e quais direções futuras vêm sendo apontadas pelas pesquisas da área?

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de revisão da literatura do tipo estado da arte (do inglês state of the art, que constitui a sigla SotA), conforme delineado por Barry et al. [10]. Uma revisão do tipo SotA fundamenta-se na ideia de que não existe uma única síntese objetivamente verdadeira de um corpo de literatura e parte da premissa de que a produção científica é aberta à interpretação e de que o contexto no qual a revisão é conduzida influencia a construção da síntese. Dessa forma, a literatura é compreendida como um campo interpretativo e contextual, capaz de revelar os diferentes caminhos e tendências do campo investigado.

A metodologia adotada [11] compreendeu seis estágios interdependentes: i) definição do escopo e formulação das questões orientadoras da revisão; ii) busca e seleção criteriosa da literatura relevante, com ênfase na diversidade e profundidade dos estudos; iii) leitura dos textos e extração interpretativa dos dados; iv) análise crítica e construção de sentidos a partir das evidências identificadas; v) organização da síntese narrativa, destacando avanços, tensões e lacunas no campo; e vi) elaboração do manuscrito, com atenção à clareza, coerência interna e contribuição teórica. Esses estágios foram aplicados de forma iterativa e reflexiva, permitindo que a compreensão do campo se aprofundasse ao longo do processo de revisão.

No que se refere à sistematização da busca, esta foi orientada por duas questões de pesquisa e realizada nas seguintes bases e buscadores: SciELO, PubMed, LILACS e BVS, no período de janeiro de 2020 a janeiro de 2025. A literatura cinzenta foi investigada por meio do Google Scholar.

A seleção dos termos livres e controlados foi orientada pelas questões de revisão e precedida por uma exploração preliminar da literatura. Posteriormente, os termos foram combinados por meio de operadores booleanos (AND, OR e NOT), incluindo sinônimos e correspondentes em língua inglesa, com adaptações às especificidades de cada base ou buscador (Tabela 1), com o objetivo de ampliar a sensibilidade da busca. Foram excluídos estudos referentes a outros setores industriais, aqueles que não contribuíam para responder às questões de pesquisa ou que não apresentavam metodologia claramente descrita.

Tabela 1
Estratégias de busca e número de artigos recuperados por base de dados (2020-2025)

Os critérios de elegibilidade incluíram estudos publicados em qualquer idioma que abordassem os DORT em trabalhadores da indústria automotiva, considerando variáveis como prevalência, fatores de risco e impactos na saúde. Foram excluídos estudos referentes a outros setores industriais, bem como aqueles que não apresentavam aderência temática ao objeto de estudo, a exemplo de relatos de caso clínico individual e resumos de eventos científicos.

A seleção dos estudos ocorreu em etapas sequenciais, compreendendo a triagem por título e resumo, seguida da leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis e da aplicação dos critérios de elegibilidade. Os estudos recuperados durante a busca foram organizados e gerenciados por meio do software Zotero®, versão 5.0.

A extração e a análise dos dados foram realizadas por dois pesquisadores (IP e ECS), com resolução das discrepâncias por consenso, alcançando-se um grau de concordância interavaliadores superior a 90%. Após a validação das interpretações, a análise concentrou-se na identificação de elementos textuais que respondessem às questões de pesquisa, contemplando achados relacionados à incidência e prevalência, aos fatores associados aos DORT no setor automotivo, bem como às práticas adotadas, aos desafios identificados e às direções futuras apontadas pela literatura.

RESULTADOS

Dos 332 artigos inicialmente identificados (Tabela 1), 35 foram excluídos por duplicidade. Entre os 297 estudos remanescentes, 6 atenderam aos critérios de elegibilidade estabelecidos.

A Tabela 2 apresenta a síntese dos principais achados da literatura sobre os DORT na indústria automotiva nos últimos 5 anos.

Tabela 2
Síntese e principais achados de estudos sobre DORT na indústria automotiva nos últimos 5 anos (2020-2025)

DISCUSSÃO

A análise da produção científica dos últimos 5 anos revela um panorama consistente de preocupações relacionadas aos DORT no setor automotivo, especialmente nas atividades desenvolvidas nas linhas de montagem. Os estudos revisados convergem ao indicar que, apesar dos avanços normativos e da implementação de iniciativas ergonômicas, os DORT continuam a representar uma carga expressiva tanto para os trabalhadores quanto para o sistema produtivo e econômico.

He et al. [12] analisaram a prevalência de DORT na indústria automobilística chinesa por meio de uma revisão sistemática e metanálise, evidenciando a magnitude desses agravos no setor. Os autores destacam que, em 2016, os riscos ocupacionais foram responsáveis por 76,1 milhões de incapacidades em nível global, das quais 20,3% estiveram associadas a fatores ergonômicos ocupacionais. Ademais, em 2019, os DORT resultaram na perda de 5,5 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade, com impacto significativo sobre a população jovem mundial. O estudo ressalta, ainda, que trabalhadores da indústria automotiva estão particularmente expostos a fatores de risco como movimentos repetitivos, posturas inadequadas e sobrecarga física, condições que favorecem a ocorrência de DORT. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias contínuas de prevenção e de vigilância em saúde ocupacional direcionadas a esse setor, considerando a elevada carga de adoecimento relacionada às condições de trabalho.

No estudo de Marçal et al. [13], a distribuição dos sintomas musculoesqueléticos sugere um padrão de acometimento fortemente associado às exigências ergonômicas da indústria automotiva. A elevada frequência de dor em ombros, punhos e região lombar indica sobrecarga biomecânica, possivelmente relacionada à adoção de posturas inadequadas e à repetitividade dos movimentos. A persistência dos sintomas tanto no período de 7 dias quanto ao longo de 12 meses reforça a necessidade de implementação de estratégias preventivas e de adaptações no processo de trabalho, com o objetivo de reduzir a exposição aos fatores de risco e minimizar os impactos sobre a saúde dos trabalhadores.

De forma complementar, Soares et al. [3], ao analisarem os casos notificados de LER e de DORT no serviço público federal, também evidenciam a persistência desses agravos em diferentes contextos laborais no Brasil. Os autores destacam impactos funcionais e psicossociais relevantes, que reforçam a importância da adoção de ações integradas de vigilância e prevenção em saúde do trabalhador. A presença desses agravos em distintos cenários ocupacionais sugere um padrão de adoecimento fortemente associado à organização do trabalho e às exigências ergonômicas das atividades desempenhadas.

Luo et al. [14] reforçam essa tendência ao identificarem uma prevalência de 70,08% de DORT entre trabalhadores de fábricas de peças para veículos pesados em Pequim. O estudo aponta que as regiões mais acometidas foram a lombar, os ombros e a parte superior das costas, evidenciando a estreita relação entre a carga física do trabalho e os aspectos ergonômicos no desenvolvimento dos DORT. Ademais, os autores destacam que o tipo de atividade exercida, a postura adotada ao longo da jornada de trabalho e a duração das tarefas constituem fatores determinantes para a ocorrência desses agravos.

Com base nos achados de Luo et al. [14], observa-se que os DORT no setor automotivo não decorrem exclusivamente de condições físicas adversas, mas também refletem fragilidades estruturais nos processos organizacionais. O estudo evidencia que fatores psicossociais, como pressão por produtividade, ritmo acelerado de trabalho e ausência de pausas regulares, podem potencializar os efeitos das exigências biomecânicas, favorecendo o adoecimento. A combinação entre sobrecarga física e estressores organizacionais cria um contexto propício à cronicidade dos sintomas musculoesqueléticos, com repercussões que ultrapassam a dimensão física, alcançando o bem-estar mental e social dos trabalhadores.

A elevada prevalência desses agravos entre trabalhadores do setor automotivo aponta para a necessidade de estratégias voltadas à adaptação ergonômica e à reestruturação das condições laborais, com o objetivo de reduzir a sobrecarga física e minimizar os impactos sobre a saúde dos trabalhadores. Para tanto, torna-se recomendável que as intervenções adotem uma abordagem integrada, contemplando não apenas os aspectos físicos do trabalho, mas também os fatores psicossociais envolvidos nas atividades laborais.

O estudo de Chen et al. [15], que avaliou 7.065 trabalhadores de uma montadora de automóveis em Guangzhou, abrangendo diversas funções dentro da empresa, identificou uma prevalência de 43,9% de DORT, reforçando a relevância desses agravos na indústria automobilística. A distribuição das regiões acometidas sugere que as exigências físicas e posturais inerentes às atividades desempenhadas exercem papel central na ocorrência dos DORT. O estudo destaca que fatores como posturas inadequadas e movimentos repetitivos estão diretamente associados ao desenvolvimento dessas condições, evidenciando a importância da realização de análises ergonômicas e da implementação de intervenções no ambiente de trabalho. Além da elevada prevalência de DORT, o estudo demonstrou que a ocorrência dos agravos varia conforme a natureza das atividades desempenhadas, com maior concentração entre trabalhadores submetidos a tarefas de ciclos curtos e ritmo acelerado. Essa constatação indica que, para além da repetitividade e das posturas inadequadas, o ritmo produtivo imposto aos trabalhadores constitui um fator agravante para o desenvolvimento de DORT. Esses achados reforçam que as estratégias preventivas devem considerar a organização do trabalho e os tempos de execução das tarefas, de modo a favorecer a adoção de pausas adequadas e a redistribuição de esforços, contribuindo para a redução dos riscos ergonômicos e para a promoção da saúde no ambiente e no processo de trabalho industrial.

Outro estudo, conduzido por Chen et al. [16], investigou 1.442 trabalhadores de uma função específica, logística, em duas empresas de fabricação de automóveis localizadas na mesma cidade, evidenciando novamente uma prevalência expressiva de DORT (42,9%) entre os trabalhadores. Entre os principais fatores de risco associados, destacam-se as posturas inadequadas durante o desempenho das atividades e a repetitividade dos movimentos. Esses achados reforçam a complexidade envolvida na prevenção dos DORT no setor automotivo e apontam para a necessidade de implementação de intervenções ergonômicas mais eficazes e sustentáveis nos ambientes de trabalho. O estudo também chama atenção para a importância do mapeamento detalhado das funções desempenhadas nas operações logísticas, ao demonstrar que diferentes etapas do processo produtivo apresentam variações nos níveis de risco para os DORT. Essa diferenciação indica que as ações preventivas devem ser direcionadas de forma específica, considerando as particularidades de cada tarefa e suas demandas biomecânicas. A análise segmentada das condições de trabalho permite não apenas identificar pontos críticos de exposição, mas também subsidiar o desenvolvimento de programas de intervenção mais direcionados, capazes de contemplar desde ajustes organizacionais até adequações no desenho dos postos de trabalho, promovendo maior efetividade na redução dos riscos ergonômicos.

A influência de fatores ergonômicos na ocorrência dos DORT também é ressaltada no estudo de Li et al. [17], no qual a repetição de movimentos, a adoção de posturas desconfortáveis e a manutenção prolongada do pescoço em uma mesma posição foram identificadas como preditores de risco para o desenvolvimento de DORT. Esses achados subsidiaram a construção de um modelo preditivo de risco, que integra variáveis ergonômicas e fatores específicos do ambiente de trabalho para estimar a probabilidade de ocorrência de distúrbios cervicais entre trabalhadores da indústria automotiva. Essa abordagem oferece uma compreensão mais detalhada dos fatores individuais e contextuais associados aos DORT, permitindo uma avaliação mais precisa dos riscos ocupacionais. A aplicação de modelos preditivos desse tipo pode constituir uma ferramenta relevante para orientar intervenções ergonômicas de forma mais focalizada e eficaz, contribuindo para a redução da incidência de agravos ocupacionais com base nas características do trabalho e dos trabalhadores.

As evidências reunidas nesta revisão reforçam que fatores como posturas estáticas prolongadas, movimentos repetitivos e ritmo intenso de produção permanecem como elementos centrais no surgimento e na manutenção desses agravos ocupacionais, que são de notificação compulsória no Brasil. Diante desse cenário, destaca-se a importância da implementação de estratégias preventivas já reconhecidas, como pausas ativas, ginástica laboral, capacitação ergonômica e adequações nos postos de trabalho.

No entanto, torna-se evidente a necessidade de estudos intervencionistas que incorporem abordagens inovadoras e participativas, assegurando a inclusão efetiva dos trabalhadores em todas as etapas do processo. Tais investigações devem ultrapassar a análise dos DORT e de seus determinantes organizacionais, contemplando também o desenvolvimento, a avaliação e a implementação de tecnologias voltadas à redução do desgaste físico nos ambientes e processos de trabalho.

Reforça-se, nesse sentido, a importância do incentivo a pesquisas em rede, conduzidas por universidades e instituições públicas de ensino e pesquisa, com foco na produção de conhecimento aplicado e na construção de soluções integradas que dialoguem com as diretrizes da Visat e com as realidades concretas do mundo do trabalho. Ademais, o Capítulo III - Das Estratégias, inciso VII, da PNSTT [9] destaca a relevância do apoio, nas três esferas de gestão, ao desenvolvimento de estudos e pesquisas que subsidiem ações de promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde nos ambientes e processos laborais.

Ao integrar pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica com o protagonismo dos trabalhadores e os princípios da Visat, ampliam-se as possibilidades de intervenções mais efetivas, contribuindo para a consolidação de ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis. Tais ações podem, ainda, gerar impactos positivos sobre a produtividade e trazer benefícios econômicos ao setor automotivo, ao reduzir afastamentos e melhorar as condições de trabalho.

CONCLUSÕES

Conclui-se que a realização de estudos intervencionistas, que também avaliem estratégias inovadoras de prevenção e manejo, é fortemente recomendada. A adoção de intervenções fundamentadas em evidências apresenta potencial para avançar no enfrentamento e na redução do impacto dos DORT sobre a saúde dos trabalhadores, promover melhorias na organização do trabalho e aprimorar o controle dos riscos ocupacionais. Tais iniciativas contribuem para a construção de ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e sustentáveis no contexto da indústria automotiva.

  • Fonte de financiamento:
    Nenhuma

Declaração de Dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Referências bibliográficas

Editado por

  • Editora associada:
    Paula Moreira Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Abr 2025
  • Aceito
    21 Ago 2025
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