Open-access Atividade física e sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de hospital universitário brasileiro: um estudo transversal

RESUMO

Introdução:  A prática de atividade física pode influenciar os sintomas de depressão e ansiedade, especialmente em profissionais de saúde expostos a elevados níveis de estresse ocupacional.

Objetivos:  Investigar a associação entre o nível de atividade física e os sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de um hospital universitário brasileiro, utilizando análises baseadas em escores contínuos.

Métodos:  Estudo observacional transversal, conduzido com 199 profissionais das áreas médica, assistencial e administrativa. A atividade física habitual, bem como os sintomas de depressão e ansiedade, foram avaliados por meio de questionários padronizados. A associação entre atividade física e sintomas foi analisada por modelos lineares generalizados, ajustados por sexo, idade e índice de massa corporal, considerando análises globais e estratificadas por área de atuação.

Resultados:  Houve predominância do sexo feminino, de profissionais da área assistencial e de indivíduos sedentários. Em termos de prevalência categórica, 44,2% dos participantes apresentaram sintomas de depressão e 54,2% sintomas de ansiedade. Na análise baseada em escores contínuos, indivíduos classificados como ativos e muito ativos apresentaram menores escores de depressão e ansiedade em comparação aos sedentários. As análises estratificadas por área de atuação confirmaram essa associação inversa, especialmente entre profissionais das áreas médica e assistencial.

Conclusões:  Níveis mais elevados de atividade física estiveram significativamente associados a menores sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de um hospital universitário brasileiro.

Palavras-chave
inatividade física; saúde mental; saúde do trabalhador.

ABSTRACT

Introduction:  Physical activity may influence symptoms of depression and anxiety, especially among healthcare professionals exposed to high levels of occupational stress.

Objectives:  To investigate the association between physical activity levels and symptoms of depression and anxiety in professionals at a Brazilian university hospital, using analyses based on continuous scores.

Methods:  This was a cross-sectional observational study conducted with 199 professionals from medical, healthcare, and administrative areas. Habitual physical activity, depression symptoms, and anxiety symptoms were assessed using standardized questionnaires. The association between physical activity and symptoms was analyzed using generalized linear models, adjusted for sex, age, and body mass index, considering both overall and area-specific analyses.

Results:  The sample was predominantly female, from the healthcare area, and sedentary. Regarding categorical prevalence, 44.2% of professionals presented symptoms of depression and 54.2% symptoms of anxiety. In analyses based on continuous scores, individuals classified as active and very active had lower depression and anxiety scores compared to sedentary individuals. Stratification by area of work confirmed the inverse association, especially among medical and healthcare professionals.

Conclusions:  Higher levels of physical activity were significantly associated with lower symptoms of depression and anxiety among professionals at a Brazilian university hospital.

Keywords
physical inactivity; mental health; occupational health.

INTRODUÇÃO

O Brasil possui o maior sistema público de saúde do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS), que garante acesso universal e gratuito à população. Atualmente, o SUS atende mais de 190 milhões de pessoas, oferecendo serviços que abrangem desde a atenção básica até procedimentos de alta complexidade, com destaque para os hospitais universitários públicos. Além da assistência, essas instituições desempenham papel essencial na formação de profissionais de saúde [1]. Com a Lei nº 12.550, de 15 de dezembro de 2011, foi criada a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, atualmente denominada HU Brasil, responsável pela gestão dos hospitais universitários [2].

De acordo com a HU Brasil, os profissionais que atuam nesses hospitais são categorizados em três áreas: área médica (e.g., cardiologista, psiquiatra, pediatra), área assistencial (e.g., enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos) e área administrativa (e.g., assistente administrativo, advogado, administrador). Esses profissionais são fundamentais para o funcionamento dos hospitais, contribuindo para o cuidado à saúde e o bem-estar da população brasileira.

Durante a pandemia de covid-19, os desafios enfrentados por profissionais de saúde em escala global resultaram no aumento da prevalência de sintomas de depressão (29,4%) e ansiedade (31,8%) [3]. Esse cenário esteve associado à maior exposição a riscos psicossociais no trabalho, como sobrecarga laboral, ambientes insalubres e risco de contágio [4-6]. Além disso, observou-se aumento de comportamentos prejudiciais à saúde, como o consumo excessivo de álcool e a inatividade física, os quais contribuem para o agravamento desses sintomas [7-9].

Os sintomas de depressão incluem humor deprimido ou irritável, redução do interesse ou prazer, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, fadiga ou perda de energia, dificuldade de concentração, pensamentos recorrentes de morte e ideação suicida, com ou sem planos específicos ou tentativa de suicídio. Por sua vez, os sintomas de ansiedade englobam preocupação excessiva, medo intenso, inquietação, irritabilidade, tensão muscular, dificuldade de concentração, fadiga e comportamentos de evitação [10].

No tratamento dos sintomas de depressão e ansiedade, a farmacoterapia e a psicoterapia são consideradas intervenções padrão-ouro. Adicionalmente, evidências indicam que a modulação de componentes da medicina do estilo de vida, como a redução de hábitos nocivos e a prática de atividade física, é relevante no contexto da saúde mental e contribui para a redução desses sintomas [11-13].

Estudos demonstram que a atividade física é eficaz na redução dos sintomas de depressão e ansiedade, por meio de adaptações fisiológicas associadas ao aumento da síntese e liberação de neurotransmissores e fatores neurotróficos, favorecendo processos como neurogênese, sinaptogênese, angiogênese e neuroplasticidade [13].

No contexto da saúde ocupacional, a prática regular de atividade física, tanto no ambiente de trabalho quanto de forma estruturada fora dele, pode prevenir e reduzir sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de saúde, sendo reconhecida como uma estratégia relevante de promoção da saúde e prevenção de doenças físicas e mentais [14,15]. Além disso, a literatura destaca a importância da avaliação da saúde mental e dos fatores de risco associados, a fim de subsidiar a elaboração de estratégias para mitigar e monitorar os impactos de longo prazo desses sintomas nos âmbitos individual, familiar, institucional e previdenciário [16-20].

Contudo, há escassez de evidências sobre o nível de atividade física, a presença de sintomas de depressão e ansiedade e suas associações em profissionais que atuam em hospitais universitários brasileiros, especialmente após o encerramento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) relacionada à covid-19 [21]. Nesse contexto, identifica-se uma lacuna no conhecimento científico disponível, o que reforça a necessidade de investigações adicionais.

Dessa forma, o objetivo deste estudo é investigar a associação entre o nível de atividade física e os sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de um hospital universitário brasileiro, após o encerramento da ESPII relacionada à covid-19. A hipótese do estudo é que níveis mais elevados de atividade física estão associados a menores sintomas de depressão e ansiedade em profissionais hospitalares.

MÉTODOS

DESENHO DO ESTUDO

Trata-se de um estudo observacional, transversal, de abordagem quantitativa, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes sob CAAE: 74351123.1.0000.5071. O estudo seguiu as diretrizes da diretriz STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology [22], na versão para estudos transversais, e foi conduzido de acordo com os princípios éticos da World Medical Association [23].

O recrutamento foi realizado por amostragem não probabilística por conveniência. A coleta de dados ocorreu entre dezembro de 2023 e maio de 2024, por meio de formulário eletrônico disponibilizado na plataforma Google Forms. O link de acesso foi encaminhado aos participantes via e-mail institucional. Antes de responder ao questionário, os participantes leram e concordaram com o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) disponibilizado em seção específica da plataforma. Foram excluídos formulários com respostas duplicadas, identificadas por meio do endereço de e-mail dos participantes.

O formulário apresentou estrutura sequencial, com progressão linear e obrigatória entre as páginas. Não foi permitida a omissão de respostas, garantindo o preenchimento de todos os itens na ordem predefinida. A plataforma de coleta de dados permitia a interrupção e a retomada do preenchimento em momento posterior, com registro parcial das respostas. Após a finalização, não havia etapa de revisão pré-submissão, tampouco envio de cópia das respostas aos participantes.

O instrumento foi estruturado em cinco partes: Parte I - Informações pessoais (idade, sexo, peso, estatura, índice de massa corporal [IMC] e área de atuação/ cargo-especialidade, categorizada em i) área médica: cargos de nível superior/especialista, como angiologia, anestesiologia e nefrologia; ii) área assistencial: cargos de nível médio/técnico e superior/especialista, como técnico em enfermagem, enfermeiro, profissional de educação física e psicólogo; e iii) área administrativa: cargos de nível médio/técnico e superior/especialista, como assistente administrativo, técnico em contabilidade e analista administrativo); Parte II - Fatores de saúde autorreferidos (presença de doenças crônicas, uso de medicamentos contínuos, consumo de álcool e tabagismo); Parte III - Sintomas de depressão; Parte IV - Sintomas de ansiedade; e Parte V - Nível de atividade física habitual. O tempo estimado para preenchimento do questionário foi de 15 a 20 minutos.

PARTICIPANTES

O estudo incluiu profissionais atuantes em um hospital universitário no estado do Espírito Santo, pertencentes às três áreas de atuação (médica, assistencial e administrativa). Foram considerados critérios de inclusão: atuar como profissional do hospital e concordar voluntariamente em participar da pesquisa, mediante assinatura do TCLE. Foram excluídos os profissionais que não aceitaram participar do estudo ou que não responderam ao formulário.

VARIÁVEIS

Parte I - Informações pessoais

A primeira parte do formulário foi composta por seis itens: idade, sexo, peso, estatura, IMC e área de atuação/ cargo-especialidade.

Parte II - Fatores relacionados a saúde

Nesta seção, os participantes responderam sobre fatores de saúde autorreferidos, incluindo presença de doenças crônicas, uso de medicamentos contínuos, consumo de álcool e tabagismo.

Parte III - Sintomas de depressão

Os sintomas depressivos e a gravidade da depressão foram avaliados por meio do Inventário de Depressão de Beck [24], composto por 21 itens, com pontuação total variando de 0 a 63. O instrumento avalia sintomas cognitivos, emocionais, motivacionais e somáticos da depressão. A classificação dos escores foi realizada da seguinte forma: i) mínimo ou ausência de depressão (0-9), ii) depressão leve a moderada (10-18), iii) depressão moderada a grave (19-29) e iv) depressão grave (30-63).

Parte IV - Sintomas de ansiedade

Os sintomas de ansiedade (ansiedade-traço) foram avaliados por meio do Inventário de Ansiedade TraçoEstado, traduzido e adaptado para o português [25]. Foi utilizada a Escala de Ansiedade-Traço, composta por 20 afirmações relacionadas a características individuais do traço de personalidade. A pontuação total varia de 20 a 80, sendo classificada da seguinte forma: i) baixo nível de ansiedade (20-40), ii) nível moderado de ansiedade (41-60) e iii) alto nível de ansiedade (61-80).

Parte V - Nível de atividade física habitual

O nível de atividade física habitual foi avaliado por meio do questionário de Baecke, versão modificada [26]. O instrumento contempla três domínios: i) atividades de vida diária, ii) atividades esportivas e iii) atividades de lazer. O domínio de atividades de vida diária é composto por 10 questões fechadas. Os domínios de atividades esportivas e de lazer foram avaliados por meio de questões abertas, incluindo tipo de atividade, intensidade, frequência semanal e duração anual. A classificação dos participantes foi realizada com base no escore total: i) sedentários (< 9), ii) ativos (9-16) e iii) muito ativos (> 16).

ASPECTOS ÉTICOS

O TCLE foi obtido de forma digital, por meio de seção específica no formulário, assegurando a autonomia dos participantes quanto à adesão à pesquisa. Dados de identificação pessoal, como nomes, não foram coletados nem divulgados em nenhuma etapa do estudo. Todas as informações foram tratadas com estrito sigilo, em conformidade com as diretrizes éticas para pesquisas envolvendo seres humanos.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

Os dados foram coletados por meio da plataforma Google Forms e exportados para o software Microsoft Excel para tratamento preliminar. As análises estatísticas foram conduzidas nos softwares Jamovi (versão 2.5.7) e IBM SPSS Statistics for Windows, versão 26 (IBM Corp., Armonk, NY, EUA).

Os dados foram apresentados por meio de estatística descritiva, incluindo medida de tendência central (mediana), medidas de dispersão (intervalo interquartil) e frequências absolutas e relativas. A normalidade dos dados foi avaliada pelo teste de Shapiro-Wilk.

Para comparação entre as áreas de atuação, foram utilizados o teste exato de Fisher e a correção de continuidade de Yates para variáveis qualitativas, e o teste de Kruskal-Wallis para variáveis quantitativas. Para o teste de Kruskal-Wallis, foi aplicado o pós-teste de Bonferroni, e o tamanho de efeito foi estimado pelo epsilon quadrado (ɛ2).

Para avaliar a associação entre as variáveis independentes (atividade física, consumo de álcool e presença de doenças crônicas) e os desfechos psiquiátricos (sintomas de depressão e ansiedade), foram utilizados modelos lineares generalizados com distribuição normal, selecionados com base no menor Critério de Informação de Akaike. Foram testados modelos não ajustados (análise univariada) e modelos ajustados (análise multivariada) por sexo, idade e índice de massa corporal.

Os efeitos foram expressos por meio dos coeficientes beta (β) e respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Adotou-se nível de significância de p < 0,05.

RESULTADOS

Foram incluídos no estudo 199 profissionais do hospital (13,8% do total), distribuídos em três áreas de atuação: médica (n = 19; 9,5%), assistencial (n = 137; 68,8%) e administrativa (n = 43; 21,6%).

A Tabela 1 apresenta a caracterização dos participantes quanto às informações pessoais, fatores relacionados à saúde, nível de atividade física e escores de sintomas de depressão e ansiedade. Observou-se predomínio do sexo feminino (n = 155; 77,9%), de profissionais da área assistencial (n = 137; 68,8%), de indivíduos com IMC acima do peso (n = 130; 65,3%), de presença de doenças crônicas autorreferidas (n = 119; 59,8%), de uso de medicamentos contínuos (n = 116; 58,6%) e de sedentarismo (n = 138; 69,3%).

Tabela 1
Frequência absoluta e relativa das características sociodemográficas, fatores de saúde, sintomas de depressão e ansiedade e nível de atividade física em profissionais de um hospital universitário

Para fins descritivos, 44,2% dos participantes apresentaram sintomas de depressão e 54,2% sintomas de ansiedade.

Na análise descritiva, os profissionais do hospital foram classificados de acordo com a gravidade dos sintomas de depressão e ansiedade. Em relação à depressão, 27,1% apresentaram sintomas leves a moderados, 12,1% moderados a graves e 5,0% graves. Quanto à ansiedade, 48,2% dos profissionais apresentaram níveis moderados e 6,0% níveis elevados.

A Tabela 2 apresenta as medidas de tendência central e dispersão da idade, massa corporal, estatura, IMC e escores de depressão, ansiedade e atividade física, de acordo com a área de atuação. Foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre as áreas apenas para idade (p = 0,020) e massa corporal (p = 0,023).

Tabela 2
Medidas de tendência central e dispersão das variáveis segundo área de atuação profissional

A Tabela 3 apresenta os resultados da regressão linear simples. A presença de doença crônica esteve positivamente associada aos escores de depressão (β = 0,39; p = 0,013; IC95%: 0,08-0,71) e ansiedade (β = 0,12; p = 0,030; IC95%: 0,04-0,21). O consumo de álcool apresentou associação positiva com os sintomas de ansiedade (β = 0,09; p = 0,006; IC95%: 0,02-0,15).

Tabela 3
Análise de regressão linear simples dos fatores associados aos sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de um hospital universitário

A atividade física apresentou associação inversa significativa com os escores de depressão e ansiedade. Em relação à depressão, observaram-se associações negativas para indivíduos ativos (β = -0,41; p = 0,001; IC95%: -0,64 a -0,18) e muito ativos (β = -0,43; p = 0,001; IC95%: -0,91 a -0,05), quando comparados aos sedentários. Para ansiedade, também foram observadas associações inversas para indivíduos ativos (β = -0,09; p = 0,017; IC95%: -0,16 a -0,02) e muito ativos (β = -0,07; p = 0,017; IC95%: -0,17 a -0,02).

A Tabela 4 apresenta os resultados da regressão linear multivariada, ajustada e estratificada por área de atuação. Entre os profissionais da área médica, a idade esteve inversamente associada aos escores de depressão (β = -0,41; p < 0,001; IC95%: -0,61 a -0,21) e ansiedade (β = -0,39; p = 0,040; IC95%: -0,77 a -0,01).

Tabela 4
Análise de regressão linear multivariada ajustada, estratificada por função (médica, assistencial e administrativa), dos fatores associados aos sintomas de depressão e ansiedade entre profissionais de um hospital universitário

A presença de doença crônica esteve associada a menores escores de depressão (β = -5,01; p = 0,007; IC95%: -8,64 a -1,38) e ansiedade (β = -10,18; p < 0,001; IC95%: -15,66 a -4,69).

O nível de atividade física apresentou associação inversa com os escores de depressão e ansiedade. Em relação à depressão, indivíduos ativos (β = -8,22; p < 0,001; IC95%: -12,84 a -3,60) e muito ativos (β = -12,17; p < 0,001; IC95%: -16,58 a -7,76) apresentaram menores escores em comparação aos sedentários. Para ansiedade, observou-se associação inversa significativa para indivíduos ativos e/ou muito ativos (β = -20,05; p < 0,001; IC95%: -27,12 a -12,97), em comparação ao grupo sedentário.

Entre os profissionais da área assistencial, a presença de doença crônica esteve associada a maiores escores de depressão (β = 4,41; p = 0,006; IC95%: 1,27-7,56) e ansiedade (β = 7,14; p < 0,001; IC95%: 3,30-10,98). A atividade física manteve associação inversa com os escores. Foram observadas reduções significativas nos escores de depressão entre indivíduos ativos (β = -4,30; p = 0,001; IC95%: -6,88 a -1,71) e muito ativos (β = -3,95; p = 0,002; IC95%: -6,41 a -1,49), em comparação aos sedentários. Para ansiedade, a prática de atividade física esteve associada à redução dos escores apenas entre indivíduos ativos (β = -5,55; p = 0,001; IC95%: -8,69 a -2,41).

No grupo administrativo, não foram observadas associações estatisticamente significativas entre as variáveis independentes avaliadas e os escores de depressão ou ansiedade após os ajustes.

DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi investigar a associação entre o nível de atividade física e os sintomas de depressão e ansiedade em profissionais de um hospital universitário brasileiro, após o encerramento da ESPII relacionada à covid-19. Os resultados confirmam a hipótese proposta, evidenciando associação inversa significativa entre o nível de atividade física e os escores de depressão e ansiedade avaliados por instrumentos padronizados.

Corroborando esses achados, Bernhard et al. [16], em estudo conduzido durante a pandemia de covid-19 com profissionais de saúde, relataram que indivíduos classificados como ativos ou irregularmente ativos apresentaram menor gravidade de sintomas de depressão e ansiedade em comparação aos sedentários, o que sugere associação consistente entre a prática de atividade física e melhores indicadores de saúde mental. De forma semelhante, Martín Del Campo et al. [28] observaram que níveis mais elevados de atividade física moderada, avaliados antes da pandemia, estiveram significativamente associados a menor gravidade de sintomas de depressão, ansiedade e estresse no pico da covid-19 entre profissionais de um hospital terciário, reforçando essa relação no contexto ocupacional.

No que se refere à caracterização descritiva da amostra, 44,2% e 54,2% dos participantes apresentaram sintomas de depressão e ansiedade, respectivamente, segundo os pontos de corte das escalas utilizadas. Esses valores são superiores aos relatados na literatura durante a pandemia. Al Maqbali et al. [3], em revisão envolvendo 72 metanálises e 2.308 estudos primários, identificaram prevalências agrupadas de 29,4% para sintomas de depressão e 31,8% para ansiedade entre profissionais de saúde no período pandêmico.

Assim, os achados indicam que a frequência de sintomas de depressão e ansiedade entre profissionais de um hospital universitário brasileiro no período póspandêmico permaneceu elevada quando analisada de forma categórica. Contudo, as análises inferenciais deste estudo foram conduzidas com base em escores contínuos, o que permite avaliar com maior sensibilidade a magnitude da associação entre atividade física e níveis de sintomas.

Em relação ao nível de atividade física, observouse que 69,3% dos profissionais foram classificados como sedentários, percentual superior ao descrito em investigações anteriores. Por exemplo, Fond et al. [29], ao analisarem 10.325 profissionais de saúde, verificaram que 38,1% apresentavam níveis insuficientes de atividade física.

Adicionalmente, a presença de doença crônica esteve associada a maiores escores de depressão, o que pode ser explicado pelo impacto funcional da condição, pela carga sintomática persistente e pelo estresse relacionado ao manejo contínuo da doença, fatores reconhecidamente implicados em maior vulnerabilidade a sintomas depressivos. O consumo de álcool também esteve associado a maiores escores de ansiedade, achado consistente com evidências que apontam uma relação bidirecional, na qual o uso de álcool pode atuar como estratégia disfuncional de enfrentamento e, simultaneamente, contribuir para a manutenção ou o agravamento dos sintomas ansiosos [30].

Este estudo apresenta limitações relevantes. Por se tratar de delineamento transversal, não é possível estabelecer a temporalidade entre a prática de atividade física e os desfechos em saúde mental, o que limita inferências causais. Além disso, a amostra não probabilística, composta por profissionais de um único hospital, pode ter introduzido viés de seleção e restringe a generalização dos achados.

A análise estratificada por área de atuação deve ser interpretada com cautela, especialmente no estrato médico (n = 19), cujo tamanho reduzido pode comprometer a estabilidade das estimativas e o poder estatístico. As associações inversas observadas entre idade, IMC, doença crônica e sintomas nesse grupo, embora contraintuitivas, provavelmente refletem imprecisão decorrente do pequeno número de participantes, o que reforça a necessidade de interpretação cautelosa.

Por fim, a utilização de questionário digital com medidas autorreferidas pode ter introduzido viés de informação, especialmente relacionado à interpretação dos itens e à precisão das respostas. Apesar dessas limitações, os achados fornecem evidências relevantes sobre a relação entre atividade física e saúde mental em profissionais de saúde, podendo subsidiar estratégias de promoção da saúde e orientar investigações futuras com delineamentos longitudinais e amostras mais robustas.

CONCLUSÕES

Observou-se associação inversa entre o nível de atividade física e os sintomas de depressão e ansiedade entre profissionais de um hospital universitário brasileiro, de modo que níveis mais elevados de atividade física estiveram significativamente associados a menores escores desses sintomas. Considerando esses achados e as limitações inerentes ao delineamento e ao escopo da amostra, recomenda-se a realização de estudos em outros hospitais universitários, com amostras mais amplas, a fim de aprofundar a compreensão dessas associações e de suas implicações para o desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde ocupacional.

Declaração de uso de modelos de linguagem

Os autores declaram ter usado o modelo de linguagem ChatGPT para auxiliar na redação, tradução, revisão e síntese do manuscrito, garantindo ter verificado todo o conteúdo do material após as revisões.

  • Fonte de financiamento:
    Nenhuma

Declaração de Dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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  • Editor associado:
    Sergio Roberto de Lucca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Set 2025
  • Aceito
    02 Abr 2026
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